poesia, tradução

Três mulheres, de Sylvia Plath, por Rafael Zacca

Louise Bourgeois, “The Feeding Frenzy”. 

SOBRE A TRADUÇÃO

Sylvia Plath (1932-1963) compôs Três mulheres como um livro-poema radiofônico. Nesse sentido, não foi escrito para ser lido individualmente, em silêncio, mas para ser falado. Inclui, em sua própria forma, um desejo comunitário.

Trata-se, de fato, de uma comunidade de incomuns. As três Vozes do poema são de mulheres que tomaram rumos distintos com relação a uma situação de possível maternidade.

(Sobre a questão da maternidade tanto em Três mulheres quanto em outros poemas de Plath, conferir o artigo de Marina Della Valle que acompanha a tradução da mesma autora em “‘Três mulheres’: Sylvia Plath e a maternidade”, nos Cadernos de Literatura em Tradução n. 8 da USP.)

O poema, encomendado pela BBC, é transmitido pela primeira vez em 1962, no mesmo ano em que nasce o segundo filho da poeta e de sua separação de Ted Hughes.

Muitos viram nos temas que surgem no poema para três Vozes questões centrais na obra posterior de Plath.

Outra chave de leitura possível seria considerar Três mulheres ao lado de outros poemas que tematizam o universo do hospital, como “Acordando no inverno”, “Tulipas” e “Febre 40 graus”, relativamente contemporâneos ao poema radiofônico.

Essa leitura permitiria, talvez, conjugar os pares solidão / comunidade e corpo / incomum com a lei das metáforas em Plath, em sua relação com os pares natureza / cultura. Mas, sobretudo, permitira ver na sua forma de metaforização um duelo entre um corpo que vai morrer e um corpo que insiste em viver.

Sobre a tradução de Três mulheres: o poema de Plath possui poucas versões em língua portuguesa. Em todas elas, um problema central se coloca: como traduzir o uso que Plath faz da palavra “flat” mantendo: a sua conotação simbólica de oposição entre vazio e cheio; a sua sonoridade gerativa (nas semelhanças sonoras produzidas pela palavra em versos como: “Blunt and flat enough to feel no lack. I feel a lack”); e a sua brevidade fonética.

Ana Gabriela Macedo, que traduziu o livro para o português de Portugal pela editora Relógio D’Água, opta pela variação do termo. Às vezes o traduz por “vazio”, às vezes por “raso”, por exemplo, para manter uma polissemia lida pela autora como contradição entre esterilidade e vazio masculino e fertilidade feminina. Já Marina Della Valle alerta que a escolha de um único vocábulo para substituir “flat” também não se apresenta como solução possível sem que algo de muito valioso se perca. Procurou, não obstante, manter suas escolhas vocabulares próximas ao termo “reto”, escolha fundamentada nas leituras que a autora fez dos estudos de Kroll e Folson.

Não consegui localizar uma tradução de Marcia Cavendish Wanderley, que aparentemente está concluída, mas uma versão preliminar pode ser lida no blog “Convite a palavra”, na publicação de 25 de dezembro de 2008, com o título de “TRÊS MULHERES de Sylvia Plath”. Também há variação do termo.

Optei aqui pela insistência no termo “raso” como tradução para “flat”. Isso fez com que eu tivesse de transformar também a tradução de vocábulos vizinhos, que produziam relações sonoras com “flat”, em outras palavras. Também transformei alguns vocábulos derivados de “flat” em outros semelhantes a raso, mas de significado completamente diferente. Em alguns casos, a operação beira a arbitrariedade.

No entanto, como contraprova, quero advertir que procurei no universo simbólico do poema (como no duelo entre natureza e cultura, bem como na ambivalência do caráter gentil e do violento alternado entre as Vozes) a resposta para o gesto transcriativo. Como no caso de “flat, flatness”, em que optei pelo par “raso, restinga”. Antes de receber as duras críticas de quem lê esta tradução, quero chamar a atenção para o contraste que a segunda Voz faz com a primeira, por exemplo, quando se refere a valores em jogo no mundo natural e no mundo social.

Não quero com isso propor que a dimensão sonora é a mais determinante na forma do poema – mas decidi privilegiá-la para fornecer uma tradução de caráter por assim dizer mais radiofônico.

Não ignorei, tampouco, a dimensão gráfica. Não me parece gratuito, por exemplo, que na descrição de uma cena de enfermaria, Plath faça um verso comparando aquelas mulheres a montanhas, de acordo com o seu desenho debaixo dos lençóis, fazendo uso de letras que escritas remetem ao desenho de subidas e descidas, “m” e w” (“I am a mountain now, among mountainy women” – para manter a isomorfia, optei pela tradução “Sou uma montanha neste momento, misturada a mulheres montanhosas”).

Seria bom poder ouvir o poema no rádio, de toda forma.

Também porque o que se anuncia nessa tradução é uma proposição: o som em Três mulheres (como nos poemas “hospitalares” de Plath) é uma máquina de produção de semelhanças, a partir de uma comunidade incomum não apenas entre personagens, mas entre as esferas da linguagem verbal e da produção de sentido do mundo por corpos que se confrontam muito diretamente com as questões fundamentais de vida e de morte.

Rafael Zacca

Aqui o link para o texto em inglês

* * *

Três Mulheres
Um Poema para Três Vozes
Cenário: Enfermaria da Maternidade e entorno

PRIMEIRA VOZ:
Sou lenta como o planeta. Sou muito paciente,
contornam meu tempo adentro sol e estrelas
observando com atenção.
A lua se interessa mais de perto:
vai e vem, luminosa como uma enfermeira.
Sente muito pelo que está prestes a acontecer? Acho que não.
Só está atônita com a fertilidade.

Quando saio pra caminhar, sou um grande evento.
Não preciso pensar, nem me preparar.
O que acontecer comigo acontecerá sem alarme.
O faisão espera na colina;
ele ajeita suas penas marrons.
Não posso evitar sorrir pelo que sei.
Folhas e pétalas cuidam de mim. Estou pronta.

SEGUNDA VOZ:
A primeira vez que a vi, a infiltração vermelha, não acreditei.
Vi os homens chegando perto de mim no escritório. Eram tão rasos!
Tinham qualquer coisa de cartolina, e aí eu pesquei,
tão rasos, tão rasos, restinga de onde ideias, destruições,
escavadeiras, guilhotinas, câmaras brancas de guinchos
[procedem
sem fim, procedem – e os anjos gelados, as abstrações.
Sentei na minha mesa com minha meia-calça, meu salto alto,

e o homem pra quem trabalho riu: “Viu algum fantasma?
Está tão branca assim de repente.” E eu não disse nada.
Eu vi a morte entre as árvores nuas, uma privação.
Não podia acreditar. Será tão difícil
para o espírito conceber um rosto, uma boca?
As letras procedem destas teclas pretas, e estas teclas pretas procedem
de meus dedos alfabéticos, ordenando as partes,

partes, pedaços, escarvas, as multiluminosas.
Estou morrendo enquanto estou sentada. Perco a dimensão.
Trens berram nas minhas orelhas, partidas, partidas!
Os trilhos de prata do tempo esvaziam-se na distância,
o céu branco esvazia-se de sua promessa, como uma taça.
Estes são meus pés, estes ecos mecânicos.
Péc, péc, péc, pinos de aço. Encontro-me depenada.

É uma doença o que carrego pra casa, uma morte.
De novo, isto é uma morte. Estão no ar,
as partículas de destruição que eu chupo? Serei um pulso
que diminui e diminui, encarando o anjo gelado?
É este o meu amante, então? Esta morte, esta morte?
Quando criança eu adorava um nome devorado pelo líquen.
É esse o meu pecado, então, esse velho amor morto de morte?

TERCEIRA VOZ:
Eu me lembro do minuto em que tive certeza.
Os salgueiros esfriavam,
O rosto na poça era bonito, mas não meu –
tinha um aspecto consequente, como tudo o mais,
E tudo o que eu podia ver eram perigos: pombas e palavras,
estrelas e chuvas de ouro – fecundações, fecundações!
Eu me lembro de uma asa gelada branca

e do grande cisne, com seu olhar terrível,
vindo a mim, como um castelo, do topo do rio.
Tem uma cobra nos cisnes.
Ele deslizou suspenso; seu olho tinha uma intenção sombria.
Nele vi o mundo – pequeno, mau e sombrio,
cada palavrinha enganchada em cada palavrinha, de ato em ato.
Um dia azul quente desabrochara em alguma coisa.

Eu não estava pronta. As nuvens brancas crescendo
em volta me arrastaram em quatro direções.
Eu não estava pronta.
Não fazia reverências.
Eu pensei que podia negar a consequência –
mas era tarde demais pra isso. Era tarde demais, e o rosto
começou a tomar forma com amor, como se eu estivesse pronta.

SEGUNDA VOZ:
É um mundo de neve agora. Não estou em casa.
Como são brancos estes lençóis. Os rostos não têm traços.
São lisos e impossíveis, como os rostos de minhas crianças,
Pequenos enfermos que se esquivam de meus braços.
Outras crianças não me tocam: são terríveis.
Elas têm muitas cores, muita vida. Não estão assim,
Quietas, como o vazio terrível que carrego.

Tive minhas chances. Eu tentei e tentei.
Eu costurei a vida em mim como um órgão raro,
e andei com cuidado, precariamente, como alguma coisa rara.
Eu tentei não pensar tanto. Tentei ser natural.
Eu tentei ser cega no amor, como as outras mulheres,
cega na cama, com meu cego querido,
evitando procurar, pela densa treva, outro rosto.

Eu não olhei. Mesmo assim o rosto estava lá,
o rosto do abortado que amava suas perfeições,
o rosto do morto que só podia ser perfeito
em sua calma inata, só podia manter-se santo assim.
E tinham outros rostos também. Os rostos de nações,
governos, parlamentos, sociedades,
os rostos sem cara de homens importantes.

São esses homens que me perturbam:
Tão ciumentos de qualquer coisa que não seja rasa! Deuses
[ciumentos
que fariam do mundo todo tábula rasa, por também o serem.
Vejo o Pai conversando com o Filho.
O arrasado não pode ser sagrado.
“Vamos criar um paraíso”, eles dizem.
“Vamos arrasar e lavar o rústico das almas.”

PRIMEIRA VOZ:
Estou calma. Estou calma. A calmaria precede alguma coisa
[medonha:
o minuto amarelo antes do vento que passa, quando as folhas
exibem suas mãos, sua palidez. É tão quieto aqui.
Os lençóis, os rostos, são brancos e parados, como relógios.
Vozes se distanciam e se achatam. Seus hieróglifos visíveis
achatam-se em painéis de pergaminho que desviam o vento.
E pintam seus segredos em Árabe, em Chinês!

Sou muda e marrom. Sou uma semente que irá se arrebentar.
A marronidade é meu eu morto, e se cansa:
não quer ser mais, ou diferente.
O crepúsculo me cobre de azul agora, como Maria.
Ai, cor da distância e do esquecimento! –
quando será, aquele segundo em que o tempo arrebenta
e a eternidade o engole, me afogando totalmente?

Eu converso comigo, só comigo, me afasto –
higienizada e sinistra com desinfetantes, sacrificial.
A espera deita pesada em minhas pálpebras. Deita como o sono,
feito um grande mar. Longe, longe, logo a primeira onda acumula
sua carga de agonia sobre mim, inescapável, mareal.
E eu, uma concha, ecoando nessa praia branca
enfrento as vozes da opressão, esse terrível elemento.

TERCEIRA VOZ:
Sou uma montanha neste momento, misturada a mulheres
[montanhosas.
Os médicos se movem entre nós como se nossa grandeza
apavorasse suas ideias. E sorriem como imbecis.
São os culpados pelo que sou, e sabem disso.
Exibem o que neles é raso como uma espécie de saúde.
E se eles então se surpreendessem, como eu?
Ficariam loucos com isso.

E se duas vidas vazassem por entre minhas coxas?
Eu vi a câmara asséptica e branca com seus instrumentos.
É um lugar de guinchos. Não é feliz.
“É pra cá que você vai vir quando estiver pronta.”
As luzes noturnas são luas rasas vermelhas. Estão embotadas com
[sangue.
Eu não estou pronta para coisa alguma.
Eu devia ter matado isso que me mata.

PRIMEIRA VOZ:
Não há milagre mais cruel que este.
Sou arrastada por cavalos, cascos de ferro.
Resisto. Sobrevivo. Cumpro meu trabalho.
Túnel escuro, através do qual acontecem provações,
as provações, as manifestações, os rostos assustados.
Sou o centro de uma atrocidade.
Que sofrimentos, que tristezas terei de parir e cuidar?

Pode tal inocência matar e matar? Minha vida a amamenta.
As árvores embranquecem nas ruas. A chuva é corrosiva.
Provo um pouco, e os horrores praticáveis,
os horrores sedentários e ociosos, as parteiras diminuídas
com seus corações tique e taque, com suas bolsas e instrumentos.
Hei de ser parede e telhado, protegendo.
Hei de ser céu e colina de bondade: Ai, deixe-me estar!

Um poder cresce em mim, uma tenacidade antiga.
Estou arrebentando como o mundo. Há esta escuridão,
esta escuridão intensa. Cruzo as mãos sobre uma montanha.
O ar é denso. É denso com este trabalho.
Sou usada. Sou usada à força.
Meus olhos são comprimidos pela escuridão.
Não vejo nada.

SEGUNDA VOZ:
Acusam-me. Sonho com massacres.
Sou um jardim de agonias pretas e vermelhas, que bebo,
odiando-me, odiando e temendo. E agora o mundo concebe
seu fim e vai em sua direção, braços embalando o amor.
É um amor de morte que a tudo adoece.
Um sol morto mancha o jornal. É vermelho.
Perco vida atrás de vida. A terra sombria as engole.

Ela é o nosso vampiro. Ela nos mantém
e engorda, é gentil. Sua boca é vermelha.
Eu a conheço. Conheço intimamente –
velha cara-de-inverno, velha estéril, velha bomba relógio.
Homens a enganaram. Ela há de comê-los.
Comê-los, comê-los, comê-los a todos no final.
O sol se pôs. Morro. Simulo uma morte.

PRIMEIRA VOZ:
Quem é ele, esse garoto azul e furioso,
bizarro e brilhante, como se arremessado de uma estrela?
Parece tão zangado!
Voou para o quarto, um berro no tornozelo.
O azul empalidece. Ele é humano, enfim.
Um lótus vermelho se abre em vasilha de sangue;
costuram-me com seda, como se eu fosse um tecido.

O que meus dedos faziam antes de segurá-lo?
O que meu coração fazia, com seu amor?
Eu nunca vi uma coisa tão nítida.
Suas pálpebras feito flores fúcsias
e suave feito mariposa, seu fôlego.
Não o abandonarei.
Não há nele malícia ou urdidura. Que assim permaneça.

SEGUNDA VOZ:
Lá está a lua, na janela alta. Foi-se.
Como o inverno enche minha alma! E essa luz calcária
deitando escamas nas janelas, janelas de escritórios vazios,
salas de aula vazias, igrejas vazias. Ai, quanto vazio!
E essa interrupção. Essa terrível interrupção de tudo.
Esses corpos amontoados me rodeando agora, estes chinelos de neve–
que raio azul e lunar congela seus sonhos?

Sinto seu penetrar gelado, alienígena, como um instrumento.
E do outro lado essa face dura, louca, com sua boca em O
escancarada em seu luto perpétuo.
Ela arrasta o mar de sanguessombra ao redor
mês após mês, com suas vozes de fracasso.
Estou tão desamparada quanto o mar no final do cordão.
Estou insone. Insone e inútil. Também eu gero corpos.

Devo ir-me para o norte. Devo ir-me dentro da longa treva.
Vejo-me feito sombra, nem homem nem mulher,
nem uma mulher feliz por ser um homem, nem um homem
bruto e raso o suficiente para não sentir a falta. Sinto uma falta.
Sustenho meus dedos, dez piquetes brancos.
Vê, a escuridão se infiltra pelas rachaduras.
Não posso contê-la. Não posso conter minha vida.

Serei uma heroína do periférico.
Não serei acusada pelos botões caídos,
buracos na meia-calça, caras mudas e brancas
de cartas não respondidas, confinadas nas gavetas.
Eu não serei acusada. Eu não serei acusada.
O relógio não dará pela minha falta, nem essas estrelas
que rebitam um abismo depois do outro.

TERCEIRA VOZ:
Eu a vejo enquanto durmo, rubra, terrível garota.
Ela chora através do vidro que nos separa.
Ela chora, e ela é furiosa.
Seu choro é um gancho que agarra e arranha feito um gato.
É com esse gancho que ela escala até minha vista.
Ela chora no escuro, ou nas estrelas
que distantes de nós brilham e retorcem.

Acho que sua cabeça é esculpida em madeira,
em rubra e dura madeira, olhos fechados e boca escancarada.
A boca aberta emite gritos agudos
furando meu sono como flechas,
furando meu sono, perfurando até o meu lado.
Minha filha não tem dentes. Sua boca é larga.
E emite sons tão trevosos que não pode ser boa.

PRIMEIRA VOZ:
O que é que a nós nos arremessa essas almas inocentes?
Olha, estão tão exaustos, estão arrasados
em seus berços de lona, nomes amarrados a seus punhos,
os pequenos troféus de prata pelos quais vieram de tão longe.
Alguns têm os cabelos pretos e densos, outros são carecas.
Suas peles são rosas ou pálidas, pardas ou vermelhas;
e começam a lembrar de suas diferenças.

Acho que são feitos de água; não têm expressão.
Seu aspecto é de sono, como luz na água calma.
São verdadeiros monges e freiras com suas vestes idênticas.
Vejo-os chovendo como estrelas sobre a Terra –
na Índia, na África, na América, esses pequenos milagres,
essas miúdas e nítidas imagens. Cheiram a leite.
A sola de seus pés está intocada. São caminhantes do ar.

Pode o nada ser tão prodigioso?
Este é meu filho.
Seus olhos abertos são um azul raso e genérico.
Ele se vira para mim feito uma miúda, muda e mansa planta.
Um berro. Ele é o gancho ao qual me agarro.
E eu, um rio de leite.
Sou uma colina quente.

SEGUNDA VOZ:
Não sou feia. Sou até bonita.
O espelho devolve uma mulher sem deformidades.
As enfermeiras devolvem minhas roupas, e uma identidade.
É normal, elas dizem, que coisas assim aconteçam.
É normal na minha vida, e na vida de outras.
Eu sou uma em cinco, qualquer coisa do tipo. Não estou perdida.
Eu sou bonita como estatística. Aqui o meu batom.

Desenho na boca velha.
A boca vermelha que entreguei com minha identidade
um, dois, três dias atrás. Era uma sexta-feira.
E eu nem preciso de um feriado; posso ir ao trabalho hoje.
Posso amar meu marido, ele irá compreender.
E me amar através do borrão de minha deformidade
como eu tivesse perdido um olho, uma perna, uma língua.

Levanto-me, então, um pouco cega. E ando
com rodas, não com pernas; servem-me da mesma forma.
E aprendo a falar com os dedos, não com as línguas.
O corpo está cheio de recursos.
O corpo de uma estrela-do-mar pode regenerar os braços
e as salamandras são pródigas em pernas. Que eu também
Seja pródiga naquilo que me falta.

TERCEIRA VOZ:
Ela é uma pequena ilha, adormecida e pacífica,
E eu um navio branco apitando: Adeus, adeus.
O dia está fervendo. É triste demais.
As flores neste quarto são vermelhas e tropicais.
Elas viveram por trás de vidros toda a vida, cuidadas com ternura.
Agora enfrentam o inverno de lençóis brancos, rostos brancos.
Tenho pouquíssimas coisas na mala.

Tenho roupas de uma mulher gorda que eu não conheço.
Tenho pente e escova. Tenho um vazio.
Estou vulnerável de repente.
Sou uma ferida que foge do hospital.
Sou uma ferida que deixam partir.
Deixo minha saúde para trás. Deixo alguém
que iria aderir-se a mim: desfaço seus dedos como bandagens: vou.

SEGUNDA VOZ:
Eu sou eu mesma de novo. Não há caminhos sem saída.
Sangrei e estou branca como cera, não tenho compromissos.
Sou rasa e virginal, isto significa que nada aconteceu,
nada que não possa ser apagado, extirpado e descartado, um novo
[começo.
Estes pequenos ramos não pensam em florescer,
nem estas secas, secas calhas sonham com a chuva.
Esta mulher que me encontra na janela – é pura.
Tão pura que transparente, como um espírito.
Quão timidamente ela superpõe sua pureza
no inferno de laranjas africanas, e porcos presos pelo calcanhar.
Ela adia a realidade.
Sou eu mesma. Sou eu mesma –
provando a amargura entre os dentes.
A maldade diária incalculável.

PRIMEIRA VOZ:
Por quanto tempo posso ser uma parede, bloqueando o vento?
Por quanto tempo posso ser
abrandando o sol com a sombra de minha mão,
interceptando os dardos azuis de uma lua gelada?
As vozes da solidão, as vozes da tristeza
rondam-me inelutavelmente.
Como é que isso pode suavizá-las, essa cançãozinha de ninar?

Por quanto tempo posso ser um muro ao redor de minha verde
[propriedade?
Por quanto tempo podem minhas mãos
serem bandagem para suas feridas, e minhas palavras
pássaros pairando no céu, consolando, consolando?
É uma coisa terrível
esta desproteção: como se meu coração
pusesse uma cara e caminhasse pro mundo.

TERCEIRA VOZ:
Hoje as faculdades estão bêbadas com a primavera.
Minha beca preta é um pequeno funeral:
mostra que estou séria.
Os livros que trago se comprimem do meu lado.
Certa vez tive uma velha ferida, mas está curando.
Sonhei com uma ilha rubra de gritos.
Era um sonho, não significava nada.

PRIMEIRA VOZ:
A alvorada flore o grande ulmeiro fora de casa.
As andorinhas voltaram. Estão gritando como foguetes de papel.
Escuto o som das horas
dilatando e morrendo nas cercanias. Escuto o mugido das vacas.
As cores se recuperam, e o feno
úmido ferve ao sol.
Os narcisos abrem seus rostos brancos no pomar.

Estou tranquila. Estou tranquila.
Estas são as cores vívidas do berçário,
os patos falantes, os cordeiros alegres.
Sou simples de novo. Acredito em milagres.
Eu não acredito nessas crianças terríveis
que perturbam meu sono com olhos brancos e mãos sem dedos.
Não são minhas. Não me pertencem.

Devo meditar sobre a normalidade.
Devo meditar sobre meu filhinho.
Ele não caminha. Não fala uma palavra.
Ainda está enrolado em faixas brancas.
Mas é rosa e perfeito. Ele sorri com tanta frequência.
Enchi esse quarto com rosas no papel de parede,
e pintei corações em tudo.

Não quero que seja excepcional.
É a exceção que interessa o diabo.
É a exceção que escala a colina da tristeza
ou se senta no deserto e machuca o coração de sua mãe.
Eu o quero comum,
para amar-me e por mim ser amado,
para que se case com quem e onde queira.

TERCEIRA VOZ:
Meio-dia quente nos prados. Os botões-de-ouro
abafam e derretem, e os amantes
passam e passam.
São pretos e rasos como sombras.
É tão bonito não ter de apegar-se!
Sou solitária como a grama. O que é esta saudade?
Saberei algum dia, seja lá o que for?

Os cisnes se foram. Mesmo assim o rio
se lembra de como eram brancos.
Tenta encontrá-los nas luzes.
Observa suas formas nas nuvens.
O que é esse pássaro que grita
com tanta tristeza na voz?
Estou mais jovem do que nunca, ele diz. O que é esta saudade?

SEGUNDA VOZ:
Estou em casa sob a luz da lâmpada. As tardes se alongam.
Remendo a barra da seda: meu marido lê.
Como é bonita a luz incidindo sobre tudo.
Tem uma espécie de fumaça no ar primaveral,
uma fumaça que colore de rosa os parques,
as pequenas estátuas, como a ternura acordasse,
a ternura que não se cansa, que cura.

Aguardo e padeço. Creio que estou sendo curada.
Há mais o que fazer. Minhas mãos
podem coser com cuidado este material. Meu marido
pode virar e virar as páginas de um livro.
E assim estamos juntos em casa, por horas.
É só o tempo que pesa sobre nossas mãos.
É só o tempo, e isso não é material.

As ruas podem se tornar papel subitamente, mas eu me recupero
de minha longa queda, e me encontro na cama,
a salvo no colchão, mãos cruzadas, como pressentisse a queda.
Encontro-me novamente. Não sou uma sombra
ainda que haja uma sombra que saia de meus pés. Sou uma esposa.
A cidade aguarda e padece. As graminhas
crescem nas pedras, e estão verdes de vida.

Padrão
crítica, poesia

É ISTO UMA MULHER? #1, por Nina Rizzi

Ilustração de Xueh Magrini

Participei em junho deste ano da graça de doismilizezoito do Festival Vida & Arte, promovido pelo Jornal O Povo, no debate intitulado “E a mulher escreveu o mundo”, com Ana Paula Maia, Juliana Diniz e Marília Lovatel.  Em um dado momento comentei uma entrevista com Ana Paula Maia em que o entrevistador ressaltava o talento e êxito de suas narrativas por não se parecem em nada com “textos de mulher”. A plateia riu quando disse certamente por não serem açucarados, histéricos, biográficos e suicidas. Claro que, assim como todo mundo pode escrever sobre o que quiser – seja homem, mulher, pós-gênero ou que seja – tal assertiva é machista; afinal o que seria um modo feminino ou masculino de escrever? Quem diz algo assim sem juízo de valor? Ao tratar de gente esquecida, miserável e degradada, Ana Paula é menos mulher?

Tendo como tema “E a mulher escreveu o mundo”, pensei que tal referência podia trazer ao debate um descortinado de tais ideias ridículas, nada de novo no front, não fosse a resposta de Ana Paula Maia:

Sem ambientes domésticos ou personagens femininas e suas subjetividades, sua narrativa de fato afasta-se do universo feminino, afinal “eu já sou mulher todo dia, aguento coisas de mulher todos os dias, vou ao salão de beleza, fico me olhando no espelho, namoro, vou à festas”, e mais alguns exemplos desse senso comum da mulher, aparentemente, fútil, açucarada e sem graça. Juliana Diniz, que comentava seu livro Memória dos Ossos (Editora Dummar, 2018), onde todas as personagens são femininas e dentro de uma casa ressaltou que, o ambiente e as personagens não geram qualquer hierarquização de textos, ao que completei “nunca tomei chá numa xicarazinha; e há mulheres em todos os lugares que urgem escrever narrativas, sejam biográficas ou não, de outros tônus. Então a mediação levou a conversa para outro rumo, dado o tempo que se findava.

Saí da mesa com aquela sensação de guarda-chuva molhado e aberto dentro da boca. Eu sabia que devia ter dito algo ainda. Uma colega que estava na plateia comentou também seu enfado com a reprodução de ideias machistas. O fato é que ali, na hora certa, eu simplesmente fiquei absurdada, como acontecia quando era adolescente e ia fazer uma prova cujo conteúdo tinha total domínio e, no entanto, dava um branco. E mais: como dizer àquela mulher, àquela mulher escritora, àquela mulher com quem tenho afinidades, naquele espaço feminino e nosso, sem cair também nas malhas do embaraço machista, consciente ou não de opressões e lutas? Bem depois, pude dizer “o seu mundo literário de homens e abates e confinamentos é também um “mundo feminino”, afinal foi de você que saíram. Um sorriso, nenhum chá na xícara e apenas isto.

O acontecimento me relembra perguntas já muito antigas, tão anteriores a mim e que continuamos sempre a nos perguntar. Ainda não posso escrever este livro de perguntas sem antes caminhar por respostas que me dão mulheres escritoras. Assim, para pensar essas questões, alguns trechos desses “textos de mulher” que apresento em Laboratórios de Escrita Criativa para Mulheres que costumo promover; trechos que pretendo comentar numa segunda parte deste breve texto, mas que você também pode, é claro. Nosso diálogo e interminável.

nina rizzi

*

1. O ambiente doméstico é exatamente recoberto de chá onde as mulheres escovam o chão e se penteiam os cabelos?

Meu Deus: A mãe morreu. Morreu a gritar e a praguejar. Gritava comigo. Praguejava para mim. Estou prenha. Não posso mexer-me bem. Ainda não chego do paço e a água já está quente. Ainda não preparo a bandeja e a comida já ficou fria. Ainda não arranjo os miúdos para irem para a escola e já são horas de almoçar. Ele não dizia nada. Estava sentado à beira da cama. Pegava na mão dela e chorava e repetia: Não me deixes, não te vás embora. Quando foi do primeiro, ela perguntou: De quem é? Eu disse: De Deus. Não conheço mais nenhum homem e não sei que dizer. Quando comecei a ter dores de barriga e ela a mexer-se e saiu de lá aquele bebe que mordia a mão fiquei pasmada. Ninguém nos vinha ver. Ela estava pior e cada vez pior. Um dia perguntou-me: Onde está? Eu disse: Deus levou-o. Mas foi ele que o levou. Levou-o quando eu estava a dormir. E matou-o no bosque. E vai matar este agora se puder. Meu Deus: Diz que está farto. Já não pode comigo. Diz que sou má e só aborreço. Tirou-me o outro bebê. Era um menino. Mas parece-me a mim que não o matou. Acho que o vendeu a um casal de Monticello. Tenho o peito cheio de leite e sai sempre e estou encharcada. Ele pergunta: Porque não tens um ar mais decente? Veste qualquer coisa. Que quer ele que eu vista? Não tenho nada. Oxalá encontre alguém para se casar. Olha muito para a minha irmã mais nova e ela tem medo. Mas eu digo: Eu tomo conta de ti. Se Deus me ajudar. [A COR PÚRPURA, ALICE WALKER; TRADUÇÃO DE PAULA REIS]

2. Por que escrever uma narrativa autobiográfica? Um texto autobiográfico feminino terá sempre tom doce, com mulheres submissas que anseiam pelo príncipe encantado?

 “[…] Merciana era a verdadeira chefe da família, uma “civilizada”, como diziam na época. Não sei onde ela tinha ido à escola, mas ela sabia ler e escrever. Saber escrever era algo perigoso se você tinha um pai exilado no Burundi. Logo começam a suspeitar que você está se correspondendo com os tutsis que preparam seu retorno a Ruanda, que você é uma espiã dando informações aos que estão do desse lado da fronteira e poderia facilitar a volta dos tutsis. E talvez você esconda armas. Os capangas da prefeitura sempre iam interrogar Merciana, revistar a miserável choupana. Ouvíamos os irmãos e as irmãs de Merciana chorando, a mãe suplicando. Depois, um dia, eles chegaram com dois militares. Eles pegaram Merciana e a levaram até o meio do pátio, um lugar onde todo mundo podia ver. Tiraram a roupa dela, deixaram-na completamente nua. As mulheres esconderam os debaixo dos panos. Lentamente, os dois militares pegaram as espingardas. “Eles não miravam no coração, repetia minha mãe, e sim nos seios, somente nos seios. Eles queriam dizer a nós, mulheres tutsis: ‘Não deem vida a mais ninguém, pois, na verdade, se colocarem mais alguém no mundo, vocês vão acabar trazendo a morte. Vocês não são mais portadoras de vida, são portadores de morte.” [A MULHER DE PÉS DESCALÇOS, SCHOLASTIQUE MUKASONGA; TRADUÇÃO DE MARÍLIA GARCIA]

3. Uma mulher nunca irá escrever sobre um tema “masculino” como, por exemplo, fertilização de vacas?

um touro
quando cobre uma vaca
ele tem uma peça
700 gramas entre 500 quilos
ele tem uma peça
pra encaixar
que nem sempre encaixa bem
são 499,3 kg e uma vida
quadrúpede
tem vaca que não arria
é o cio
mas muitas muitas muitas
se descaderam
desencaixam o eixo das ancas
estragam a carcaça
não prestam pra mais nada
é o cio
dos machos
é mais forte 
[MUGIDO, MARÍLIA FLÔOR KOSBY]

4. Uma mulher sempre vai representar a maternidade como ideal de realização e felicidade?

gestação infinita
o filho podre a filha cerca viva
meu útero arregaçado expelindo medo em sangue
porque é meu horror que gero –
sei me ferir.
[NÃO, BRUNA MITRANO]

5. A mulher sempre terá um papel de submissão e resignação diante das opressões? Seus heróis serão sempre modelos masculinos?

A noite não adormecenos olhos das mulheres,
a lua fêmea, semelhante nossa,
em vigília atenta vigia
a nossa memória.
A noite não adormece
nos olhos das mulheres,
há mais olhos que sono
onde lágrimas suspensas
virgulam o lapso
de nossas molhadas lembranças.
A noite não adormece
nos olhos das mulheres,
vaginas abertas
retêm e expulsam a vida
donde Ainás, Nzingas, Ngambeles
e outras meninas luas
afastam delas e de nós
os nossos cálices de lágrimas.
A noite não adormecerá
Jamais nos olhos das fêmeas,
pois do nosso sangue-mulher
de nosso líquido lembradiço
em cada gota que jorra
um fio invisível e tônico
pacientemente cose a rede
de nossa milenar resistência.
[POEMAS DA RECORDAÇÃO E OUTROS MOVIMENTOS, CONCEIÇÃO EVARISTO]

6. O amor e o erótico, quando escritos por uma mulher, serão sempre com rimas fáceis, metáforas bobas, descrições melosas?

Após o terremoto, o rio será atravessado,
frações de veneno serão espalhadas
para afugentar as cobras,
raízes de gengibre serão colhidas
em profundo silêncio.
O amor se banhará em ervas
e retornará da infância
com o seu verdadeiro nome,
saberá a origem de toda planta,
o odor de todo gozo.
O amor pertence ao amor,
isso ninguém lhes rouba,
nem mesmo sentenças de morte
proferidas por bestas assassinas
em horrendos tribunais.
Sempre o amor olhará para o amor
e estilhaços de inútil beleza
se soltarão da intimidade do solo.
No ressoar de suas asas, a verdade surgirá:
não se separa o amor do amor.

[A MESMA FOME, MARIZE CASTRO]

7. Uma mulher é uma coisa pura? O que é uma mulher pura?

Pura? Que vem a ser isso? 
As línguas do inferno 
São baças, baças como as tríplices 

Línguas do apático, gordo Cérbero 
Que arqueja junto à entrada. Incapaz 
De lamber limpamente 

O febril tendão, o pecado, o pecado. 
Crepita a chama. 
O indelével aroma 

De espevitada vela! 
Amor, amor, escassa a fumaça 
Rola de mim como a echarpe de Isadora, e temo 

Que uma das bandas venha a prender-se na roda. 
A amarela e morosa fumaça 
Faz o seu próprio elemento. Não irá alto 

Mas rolará em redor do globo 
A asfixiar o idoso e o humilde, 
O frágil 

E delicado bebê no seu berço, 
A lívida orquídea 
Suspensa do seu jardim suspenso no ar, 

Diabólico leopardo! 
A radiação faz que ela embranqueça 
E a extingue em uma hora. 

Engordurar os corpos dos adúlteros 
Tal qual as cinzas de Hiroshima e corroê-los. 
O pecado. O pecado. 

Querido, a noite inteira 
Eu passei oscilando, morta, viva, morta, viva. 
Os lençóis opressivos como beijos de um devasso. 

Três dias. Três noites. 
água de limão, canja 
Aguada, enjoa-me. 

Sou por demais pura para ti ou para alguém. 
Teu corpo 
Magoa-me como o mundo magoa Deus. Sou uma lanterna – 

Minha cabeça uma lua 
De papel japonês, minha pele de ouro laminado 
Infinitamente delicada e infinitamente dispendiosa. 

Não te assombra meu coração. E minha luz. 
Eu sou, toda eu, uma enorme camélia 
Esbraseada e a ir e vir, em rubros jorros. 

Creio que vou subir, 
Creio que posso ir bem alto – 
As contas de metal ardente voam, e eu, amor, eu 

Sou uma virgem pura 
De acetileno 
Acompanhada de rosas, 

De beijos, de querubins, 
Do que venham a ser essas coisas rosadas. 
Não tu, nem ele 

Não ele, nem ele 
(Eu toda a dissolver-me, anágua de puta velha) – 
Ao Paraíso. 

[40 GRAUS DE FEBRE, SYLVIA PLATH; TRADUÇÃO DE AFONSO FÉLIX DE SOUZA]

8. Uma mulher só pode escrever sobre si?


os olhos falam o exato
olhos que se abrem
lançam o excesso
olhos
                não palavras
olhos
                não promessas
trabalho com meus olhos
em construir
em reparar
em reconstruir
algo parecido com um olhar humano
com um poema de homem
com um poema longe do bosque
[NÃO COLIGIDO, ALEJANDRA PIZARNIK; TRADUÇÃO DE NINA RIZZI]

Escreve poemas
porque precisa
de um lugar
onde seja o que não é
[APROXIMAÇÕES, ALEJANDRA PIZARNIK; TRADUÇÃO DE NINA RIZZI]

9. Por que se mete uma mulher a escrever? O que é um texto de mulher?

“Não deveriam ter primeiro boas razões para escrever? Aquelas que, misteriosas para mim, nos dão “direito” a escrever? E eu não as conhecia. Eu só tinha uma “má” razão, não era uma razão, era uma paixão, algo inconfessável, – e inquietante, um rasgo de violência que me afligia. […] Razão, nenhuma. Mas havia loucura. Escritura no ar ao meu redor. Sempre próxima, embriagadora, invisível, inacessível. Escrever me atravessa! […]

Escrever? Se escrevia “EU”, quem seria? Poderia passar sob “EU” na vida cotidiana sem saber mais a respeito, mas como faria para escrever sem saber quem-eu? Não tinha esse direito. Não é a escritura o lugar do Verdadeiro? Mas o Verdadeiro não é claro, distinto e único? E eu, imprecisa, várias, simultânea, impura. […]

[A CHEGADA À ESCRITURA, HÉLÈNE CIXOUS; TRADUÇÃO DE NINA RIZZI]

10. É isto uma mulher?

Era eu uma mulher? ao reviver esta pergunta interpelo toda a história das mulheres. uma história feita de milhões de histórias singulares, mas atravessada pelas mesmas perguntas, os mesmos terrores, as mesmas incertezas. As mesmas esperanças pelas que até pouco tempo só se abriam para consentir, se resignar ou com desesperança. Tomar-me por uma mulher? De que maneira? Que mulher? […]

Quantas mortes a atravessar, quantos desertos, quantas regiões em chamas e regiões geladas, para chegar um dia a dar um bom nascimento! E você, quantas vezes morreu antes de poder pensar, “Sou uma mulher”, sem que esta frase significasse: “Então sirvo”? […]

[A CHEGADA À ESCRITURA, HÉLÈNE CIXOUS; TRADUÇÃO DE NINA RIZZI]

Padrão
poesia, tradução

I am vertical, de Sylvia Plath, em multitradução de Rafael Zacca

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Apresentação de “9 traduções de I am vertical, de Sylvia Plath”

A tradução coloca, no limite que ela é, em questão a questão do outro. O autor do texto traduzido é também outro autor, o tradutor, mesmo que, antes de o texto ser traduzido, o autor dele já fosse outro de si mesmo, ao menos durante o texto. Se não há, para os textos, o que não seja tradução, o que Rafael Zacca realiza na série de traduções para um mesmo poema de Sylvia Plath, “I am vertical”, é escrever versos como quem desenha linhas de fronteira num território conflagrado, fazendo da tradução, enquanto ela houver, o luto do original, enquanto ele houver. Uma poética da tradução, como essa, risca o texto, o território de autoria, enquanto ele resistir, até o fim, é um fim para o poema.

Assim é que na tradução as autorias e as línguas distintas não são experimentadas e formalizadas nos poemas como diferenças uma em relação à outra (o inglês e o português, Sylvia Plath e Rafael Zacca), mas cada uma como diferenças em si. Por isso a tradução para o português se coloca ao lado da tradução para o português-inglês, ou seja, para uma língua menor, de vocabulário e estrutura em português que, no entanto, mimetizam irônica e ludicamente o inglês: “Then the sky and I are in open conversation” transforma-se, em português, em “Assim, o céu e eu conversamos sem segredos” que se transforma, em português-inglês, em “Então o céu e eu estamos em aberta conversação”. E por isso se traduz o poema de Plath para, entre outras línguas menores ou mínimas, línguas como: a lei antiterrorismo brasileira, a carta de suicídio de Torquato Neto, o português-vogais, ou mesmo novamente o inglês, devolvendo à língua de origem um poema retraduzido.

E não é à toa que o poema traduzido em série seja um para o qual estar na posição horizontal – a do verso ou a do morto – se torna um modo de conversar sem segredos ou de estar em aberta conversação com o céu. Para traduzir o céu, suas constelações e galáxias, seria preciso deitar-se, e se, ao se deitar, não se compreende mais a diferença, no poema de Sylvia Plath, entre a horizontalidade do verso ou a horizontalidade do corpo morto que cai, então traduzir (o céu ou o poema) são um modo de demorar na língua. O texto se torna a dúvida entre morrer em versos ou matar o poema. Para o tradutor, morrer nos versos traduzidos ou matar o poema original. Como demorar nessa dúvida?

Quem, entre outros, pensou a questão foi Haroldo de Campos. No ensaio que como que inaugura a sua teoria, “Da tradução como criação e como crítica” (1962), Haroldo propõe, à guisa de conclusão e utopia, e naqueles tempos brasileiros de mobilização social pela cultura, o projeto de um Laboratório de Textos no qual alunos e professores de línguas e literaturas se reunissem para, através da confrontação tradutória coletiva com os textos literários, assim realizassem um projeto de crítica literária e de ensino da literatura que fizesse justiça ao texto. A lida com a materialidade do texto, e com essa materialidade experimentada como diferença (de uma língua a outra) e não como um monumento autorreferente, sugere à proposta de Haroldo as suas dimensões ética (a do texto como “concreção”) e política (a dos materialismos do texto, do laboratório, do ensino). Nem preciso lembrar que Rafael Zacca promove, como poeta, oficinas de poesia, a partir do seu trabalho no coletivo Oficina Experimental de Poesia, e estuda a obra de Walter Benjamin, para quem “a tradução é uma forma”. Ou seja.

Para mim, há alguma implicação entre essas traduções que agora se publicam –  a poética da tradução desenhada nelas –, o jogo entre o verso e a morte no poema de Sylvia Plath, e a lida coletiva nas oficinas de poesia. Traduzir, morrer, reunir sejam, talvez, verbos para que o poema seja, hoje, conjugado sob a força da invenção de ritos sacrificiais da cultura, sob a força daquilo que, tamanha a urgência por convivermos, só podíamos ter feito até ontem, antes de morrer.

Luiz Guilherme Barbosa

* * *

9 TRADUÇÕES DE I AM VERTICAL, DE SYLVIA PLATH

por Rafael Zacca

Uma coisa que me pega de jeito no Hölderlin tradutor,
no Francis Bacon pintor, e, da mesma forma,
na Joana D’Arc soldada de Deus
é o alto nível de consciência-de-si
presente em suas respectivas manipulações
da catástrofe.
Anne Carson, Nay Rather

A tradução não se vê como a obra literária, mergulhada, por assim dizer, no interior da mata da linguagem, mas vê-se fora dela, diante dela e, sem penetrá-la, chama o original para que adentre aquele único lugar, no qual, a cada vez, o eco é capaz de reproduzir na própria língua a ressonância de uma obra da língua estrangeira. (…) Pois é o grande tema da integração das várias línguas.
Walter Benjamin, A tarefa do tradutor (trad. Susana Kampff Lages)

* * *

I am vertical traduzido para o inglês por Sylvia Plath

1.
I am vertical

But I would rather be horizontal.
I am not a tree with my root in the soil
Sucking up minerals and motherly love
So that each March I may gleam into leaf,
Nor am I the beauty of a garden bed
Attracting my share of Ahs and spectacularly painted,
Unknowing I must soon unpetal.
Compared with me, a tree is immortal
And a flower-head not tall, but more startling,
And I want the one’s longevity and the other’s daring.

Tonight, in the infinitesimal light of the stars,
The trees and the flowers have been strewing their cool odors.
I walk among them, but none of them are noticing.
Sometimes I think that when I am sleeping
I must most perfectly resemble them —
Thoughts gone dim.
It is more natural to me, lying down.
Then the sky and I are in open conversation,
And I shall be useful when I lie down finally:
Then the trees may touch me for once, and the flowers have time for me.

§

I am vertical traduzido para o português

2.
Eu estou de pé

Mas preferia estar deitada.
Não sou uma árvore de raízes fincadas
Sugando minerais e amor maternal
Para que a cada março eu resplandeça em folhas,
Nem sou a flor mais bela dos canteiros
Delicados, atraindo meu quinhão de “Ais”
Antes do iminente despetalar.
Comparadas a mim, uma árvore é imortal
E uma flor, conquanto pequena, é mais espantosa –
Invejo a longevidade de uma e a ousadia da outra.

Hoje, à luz infinitesimal das estrelas,
As árvores e as flores espalharam seus odores na noite fresca.
Caminho entre elas, mas não me notam.
Às vezes imagino que, dormindo,
Sou sua semelhante –
Penso obscura.
É mais natural se estou deitada;
Assim, o céu e eu conversamos sem segredos.
Serei útil quando estiver enfim deitada:
Aí as árvores serão mãos para mim, e, as flores, demora.

§

I am vertical traduzido para o português-inglês

3.
Eu estossou vertical

Mas eu preferia muito estassar horizontal.
Eu não sou uma árvore com minhas raízes em o solo
Chupando cima minerais e maternal amor
Então que cada Março eu talvez brilhe dentro folha,
Nem sou eu a belezura de um jardim cama
Atraindo minha divisa de “Ais” e espetacularmente pintado,
Dessabido eu devo logo despetalar.
Comparadas com mim, uma árvore é imortal
E a flor-cabeça não maior, mas mais surpreendente,
E eu quero o da uma longevidade e o da outra ousadia.

Nhoitje, em a infinitesimal luz de as estrelas,
As árvores e as flores tem estado espalhando seus frescos odores
Eu ando entre elas, mas nenhuma de elas estão notando.
Algezes eu penso que quando eu estou dormindo
Eu devo mais perfeitamente assemelhá-las
Pensamentos vão turvos.
Isso é mais natural pra mim, deitada baixo.
Então o céu e eu estamos em aberta conversação,
E eu devo ser útil quando eu fimenticar finalmente:
Então as árvores talvez toquem-me depra vez, e as flores terão tempo pra mim.

§

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§

Eu estou de pé traduzido para a
Lei Nº 13.620, de 16 de março de 2016, a lei antiterrorismo brasileira

5.
Eu é um ou mais prejuízo da tipificação penal

Consiste em hipótese em eu investigar ameaçar usar gases tóxicos.
Eu não é agente de reclusão cinco a oito anos
A receber ou fornecer treinamento contra a vida ou a integridade física de pessoa,
Para que cada eventual crime seja previsto fora ou dentro de instalações militares,
Não é também o mais único dos parágrafos
Com a finalidade de provocar terror social
Antes das instituições bancárias.
Distinto de eu, um agente de reclusão de cinco a oito anos é total
E o parágrafo, ainda que vetado, promove mais destruição em massa.
Hipótese de paz armada em um, de razões de discriminação no outro.

16 de março de 2016, contra qualquer constituição da liberdade
Os agentes de reclusão cinco a oito anos e os parágrafos são conceito de organização
[terrorista.
Eu ameaça municiar indivíduos, não investigam.
De modo temporário eu decreta explosivos nucleares
Eu é Estado.
Eu é Subchefia para Assuntos Jurídicos.
É mais natureza se eu ameaça usar gases tóxicos;
Regulamenta sem investigações
Será mecanismo quando ameaçar usar gases tóxicos.
Então os agentes de reclusão de cinco a oito anos serão levados ao conhecimento do
[Ministério Público, e os parágrafos, à Polícia Federal.

§

Eu estou de pé traduzido para a carta de suicídio de Torquato Neto

6.
De modo Q FICO

Ou não consigo acompanhar a marcha do progresso
Não sou uma múmia de saudades
Louca disparada com véu e grinalda
Para acordar e me contorcer em dores
Não peço amor de palhaços mesmo
Vivos, com o cacho de banana
Os cariocas do tempo de começar a ver
A múmia é SANTA
E os palhaços o favor de acordar
Chega de contorcer, chega de banana

FICO, ao sacudirem demais o Thiago,
As múmias e os palhaços feito a minha mulher
Guia de cegos
Vou ficando sossegado
O amor pode acordar
Pra mim chega!
De modo Q FICO
Não acredito em guia de palhaços
Empacotado enquanto dure
Ana e Thiago começaram a ver as dores do progresso.

§

Eu estou de pé traduzido para os itens “Cuidados gerais” e “Instruções de Uso”
do Guia do Usuário do fogão Esmaltec elétrico, 4 bocas, branco

7.
A criança dentro do fogão quebra por choque térmico

Mas deveria queimar a casa.
Não é metal pesado de cabos tensionados
Alimentando-se de mundo e solvente
Para a cada queimadura chamuscar a tampa de vidro
E também não é gás incolor
Fósforo branco, detalhando a espuma sobre a mangueira
A poucos passos da explosão.
Atrás da criança, o metal é todo acidente
E o gás, ainda que vazado, é mais manipulado –
A criança precisa ser uma mangueira metálica.

Cuidados gerais, instruções de uso,
O metal e o gás se instalaram à mesa.
A criança segue sem advertências.
Se a criança enfia a boca no alumínio, autorizada,
Encontrará a abertura –
A criança é um pano úmido.
É mais seguro se ela tem perigo
E os interruptores e os fósforos se comprometem.
A criança pressiona o botão do acendimento automático:
O metal prepara um choque, e o gás, a chama.

§

Eu estou de pé traduzido para verbete “Joanad’Arc”
de Homens e Mulheres da Idade Média
organizado por Jacques Le Goff, (trad. Nícia Adan Bonatti)

8.
Iletrada linguagem é tristeza

Mas ilumina estar sobressalto.
Não é um vilarejo inocente bom cristão
Mergulhado em Deus e armas sobrenaturais
Para que a cada guerra iletrada linguagem vença em Chinon
Não é o mais aflorado profeta
Desencorajado, aconselhado por maus espíritos
Antes da cura mitômana.
Contraste com iletrada linguagem, o vilarejo são vozes
E um profeta, mesmo desesperado, é mais cético,
Iletrada linguagem quer conselhos de um e desespero de outro.

1431, no cerco das nações,
Vilarejo e profetas espalharam seus arcanjos por todo o tribunal.
Não notam que julgam iletrada linguagem que fala.
Distúrbio papel mental natura a inação:
um naufrágio do desigual –
marionete do demônio.
É mais natural se iletrada linguagem está sobressalto;
Assim a iletrada e a miraculosa linguagem encontram mensageiro.
Iletrada linguagem será urgência se estiver sobressalto:
O vilarejo será arcanjo Miguel e o profeta catedral de Reims.

§

I am vertical traduzido para português-vogais

9.
Ae__eiau

â…aiuou…a.e…i…oiõau
ai.eóaee…ui.ai.uu.ieoiu
âiu…aieaue…óeiâ
oéiea.ai.eiiea…iuiea
pieai.eieâi.óaaeé
aáiaiée…óaeéauai.eie
ã…oui.ai.â.uãéau
oeeuií…aíiioau
ea.aueéa.oau.â.o…ai
eaiuaeuõ…oeií.â.e.óe.ai

uai.i.e.iiieiau.ai.o.e.a
eíieeaue.éeii.eui.ei.uuoo
aiuauaoe…âoeoéaôii
oeaie.aií.éueaié.íii
ai.â.ô.eéi.iéeé
óu.ôí
iió.auau.u.i.aiiau
éeaiêai.a.i.oe.oeaio
eaiauí.iueuuueai.ai.au.ai.aí
éeiieiou.i.ó.oe.éeaue.ée.aie.ó.i

Padrão
poesia, tradução

“Tulipas”, de Sylvia Plath, por Enrique Carretero.

Sylvia Plath on her first day at Mademoiselle.

Sylvia Plath nasceu em Boston em 1932 e morreu em Londres em 1963. Sua obra é classificada no gênero de poesia confessional. Publicou The Colossus and other poems na Inglaterra em 1960, mas seu grande sucesso veio com a publicação póstuma de Ariel, em 1965. Em 1981, o viúvo de Plath, Ted Hughes, edita e publica Collected Poems, livro com poemas escritos por ela desde 1956 até o ano da sua morte. Por este livro, em 1982, Sylvia Plath recebe postumamente o prêmio Pulitzer de poesia. Embora principalmente conhecida como poeta, ela também escreveu prosa, publicando The Bell Jar em 1963, pouco antes de cometer suicídio.

Enrique Carretero nasceu em Santiago do Chile, em 1971. Formou-se em administração de empresas em 95, mesmo ciente que o seu mundo era a literatura e as línguas. Assim, em 97 começa a trabalhar em escolas de idiomas para adultos, dando aulas de inglês, de espanhol, e trabalhando como coordenador de professores. A convite de uma dessas escolas chega a São Paulo em junho de 2001. Apaixonando-se pelo país e pela língua portuguesa, decide radicar-se no Brasil. Em 2008, inicia o curso de Letras na Universidade de São Paulo, concluindo o bacharelado em Português/Grego em 2012. Em 2014 publica seu primeiro livro de poemas, em português, Travessias, pela editora Patuá.

Alguns comentários ao poema podem ser lidos aqui.

guilherme gontijo flores

* * *

TULIPAS

As tulipas são muito vibrantes, aqui é inverno.
Olha, tudo está tão branco, tão quieto, tão nevado
Aprendo quietude, deitada sozinha e calada
Enquanto a luz cai sobre estas paredes, esta cama, estas mãos.
Não sou ninguém; nada tenho a ver com explosões.
Dei meu nome e minhas roupas de dia às enfermeiras
Minha história ao anestesista e meu corpo aos cirurgiões.

Seguraram minha cabeça no travesseiro entre as barras da fronha
Feita um olho entre duas pálpebras brancas que nunca se fecham.
Pupila estúpida, tem que engolir tudo.
As enfermeiras passam e passam, não são problema,
Elas passam como gaivotas voando pro interior com seus chapéus [brancos,
Fazendo coisas com suas mãos, uma igual à outra,
E assim é impossível saber quantas realmente são.

Meu corpo é para elas como uma pedra, elas o manuseiam como a [água
Manuseia as pedras sobre as que terá de bater, suavizando-as [delicadamente.
Elas me trazem o torpor com suas seringas brilhantes, me trazem o [sono.
Agora estou desorientada, farta de bagagens——
Minha necessaire de couro como um chapéu pillbox preto
Meu marido e meu filho sorrindo na foto familiar;
Seus sorrisos se prendem à minha pele, anzoizinhos sorridentes.

Deixei que as coisas escorregassem, que um navio cargueiro de [trinta anos
Pendurasse teimosamente no meu nome e endereço.
Despejaram-me dos meus pertences afetivos.
Assustada e despida na maca de travesseiro plástico verde
Vi meu conjunto de xícaras, minhas roupas de cama, meus livros
Que se afogam sem serem vistos, e a água que sobe até cobrir minha [cabeça.
Agora sou uma freira, nunca fui tão pura.

Eu não queria flores, só queria
Ficar deitada com as palmas das mãos para cima e estar [completamente vazia.
Quanta liberdade, vocês não fazem ideia quanta liberdade–
A paz é tão grande que enjoa,
E não pede nada, um adesivo, umas bugigangas.
É nela que os mortos finalmente se esvaem, imagino-os
Com ela na boca, como se fosse uma hóstia.

Pra começar, as tulipas são muito vermelhas, elas me ferem.
Mesmo através do papel de presente podia ouvi-las respirar
Suavemente, como um medonho bebê através das suas brancas [fraldas.
Sua vermelhidão fala com minha ferida, combina com ela.
Elas são sutis: parecem flutuar, embora me afundem
Perturbando-me com suas súbitas línguas e sua cor,
Uma dúzia de pesos de chumbo vermelhos ao redor do meu pescoço.

Ninguém me observou antes, agora sou observada.
As tulipas se voltam em minha direção e à janela atrás de mim
Onde uma vez por dia a luz se alarga e estreita lentamente,
E eu me vejo, rasa, ridícula, uma sombra de papel
Entre o centro do sol e o centro das tulipas,
Não tenho rosto, eu quis me apagar.
As vívidas tulipas devoram meu oxigênio.

Antes de elas chegarem o ar estava calmo,
Indo e vindo, respiração a respiração, sem nenhum alarde.
Então as tulipas o encheram feito um grande barulho.
Agora o ar gira ao seu redor da mesma forma que um rio
Gira ao redor de um motor naufragado e avermelhado pela [ferrugem.
Elas capturam meu pensamento, que era feliz
Brincando e descansando sem compromisso.

Estas paredes, também, parecem estar se aquecendo.
As tulipas deviam estar atrás das grades como animais perigosos;
Elas se abrem feito o focinho de um grande felino africano,
E eu sinto meu coração: que abre e fecha
Sua travessa de botões vermelhos só por amor a mim.
A água que saboreio é morna e salgada, como o mar,
E vem de um país tão longínquo quanto a saúde.

*

Tulips

The tulips are too excitable, it is winter here.
Look how white everything is, how quiet, how snowed-in.
I am learning peacefulness, lying by myself quietly
As the light lies on these white walls, this bed, these hands.
I am nobody; I have nothing to do with explosions.
I have given my name and my day-clothes up to the nurses
And my history to the anesthetist and my body to surgeons.

They have propped my head between the pillow and the sheet-cuff
Like an eye between two white lids that will not shut.
Stupid pupil, it has to take everything in.
The nurses pass and pass, they are no trouble,
They pass the way gulls pass inland in their white caps,
Doing things with their hands, one just the same as another,
So it is impossible to tell how many there are.

My body is a pebble to them, they tend it as water
Tends to the pebbles it must run over, smoothing them gently.
They bring me numbness in their bright needles, they bring me sleep.
Now I have lost myself I am sick of baggage—
My patent leather overnight case like a black pillbox,
My husband and child smiling out of the family photo;
Their smiles catch onto my skin, little smiling hooks.

I have let things slip, a thirty-year-old cargo boat
Stubbornly hanging on to my name and address.
They have swabbed me clear of my loving associations.
Scared and bare on the green plastic-pillowed trolley
I watched my teaset, my bureaus of linen, my books
Sink out of sight, and the water went over my head.
I am a nun now, I have never been so pure.

I didn’t want any flowers, I only wanted
To lie with my hands turned up and be utterly empty.
How free it is, you have no idea how free—
The peacefulness is so big it dazes you,
And it asks nothing, a name tag, a few trinkets.
It is what the dead close on, finally; I imagine them
Shutting their mouths on it, like a Communion tablet.

The tulips are too red in the first place, they hurt me.
Even through the gift paper I could hear them breathe
Lightly, through their white swaddlings, like an awful baby.
Their redness talks to my wound, it corresponds.
They are subtle: they seem to float, though they weigh me down,
Upsetting me with their sudden tongues and their color,
A dozen red lead sinkers round my neck.
Nobody watched me before, now I am watched.
The tulips turn to me, and the window behind me
Where once a day the light slowly widens and slowly thins,
And I see myself, flat, ridiculous, a cut-paper shadow
Between the eye of the sun and the eyes of the tulips,
And I have no face, I have wanted to efface myself.
The vivid tulips eat my oxygen.

Before they came the air was calm enough,
Coming and going, breath by breath, without any fuss.
Then the tulips filled it up like a loud noise.
Now the air snags and eddies round them the way a river
Snags and eddies round a sunken rust-red engine.
They concentrate my attention, that was happy
Playing and resting without committing itself.

The walls, also, seem to be warming themselves.
The tulips should be behind bars like dangerous animals;
They are opening like the mouth of some great African cat,
And I am aware of my heart: it opens and closes
Its bowl of red blooms out of sheer love of me.
The water I taste is warm and salt, like the sea,
And comes from a country far away as health.

(trad. Enrique Carretero)

Padrão
poesia, tradução

Um micro-panorama de poetas mulheres

Aproveitando a data do dia da mulher, nós do escamandro gostaríamos de compartilhar alguns poemas de nossas poetas mulheres favoritas. A ideia não é fazer um post para elaborar um comentário mais a fundo agora (o que seria, aliás, será feito melhor no futuro, com maior atenção… eu mesmo estava tentando uma tradução da Bishop, mas a tarefa acabou sendo mais difícil do que eu pensava), mas demonstrar nossa apreciação pela presença de mulheres na poesia. Apesar das raízes da lírica repousarem em Safo, o gênero acabou dominado por homens a ponto de chegar a se tornar algo separado, criando-se, assim, possivelmente como golpe de marketing, o gênero da “escrita feminina”. Pois não é assim que Bishop se via, e não é assim que nós vemos: as mulheres representadas aqui são, antes de tudo, autoras de excelente Poesia, assim, com P maiúsculo, e por isso são dignas de reconhecimento.

E vocês, nossos leitores e leitoras, se sentirem a falta de alguma autora (e com certeza falta gente aqui), sintam-se livres para contribuir nos comentários abaixo.

 

 

Emily Dickinson nasceu em 1830, morreu em 1886, e nesse tempo viveu uma vida absolutamente excêntrica e reclusa. Sua poesia foi escrita nessa reclusão e publicada muito tardiamente, chocando os editores pela versificação simples (predominância quase exclusiva do metro de balada inglês) e pela sintaxe estranha e cheia de travessões.

11

Não sou Ninguém! Quem é você?
Ninguém — Também?
Então somos um par?
Não conte! Podem espalhar!

Que triste — ser — Alguém!
Que pública — a Fama —
Dizer seu nome — como a Rã —
Para as palmas da Lama!

(tradução de Augusto de Campos, Não Sou Ninguém, )

 

Elizabeth Bishop (1911 – 1979) é algo famosa por sua relação com o nosso país, tendo vindo ao Brasil e tido contato com poesia nossa como a de Manuel Bandeira, que conheceu pessoalmente, Drummond e até mesmo de nossas canções populares, que ela traduziu. Também famoso foi seu caso homossexual com a brasileira Lota de Macedo Soares, que teve um desfecho trágico. Sua obra é distinta por ser concisa, cabendo inteira em um único volume.

A arte de perder

A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.

(tradução de Paulo Henriques Britto, O Iceberg Imaginário e Outros Poemas)

 

Sylvia Plath (1932 – 1963), a autora do famoso romance The Bell Jar é conhecida por ter sido casada com o também poeta Ted Hughes e por ter lutado com a depressão durante toda sua brevíssima vida. Sua poesia partilha da tendência confessional do período, e assim, não surpreende que predomine as temáticas de morte e do suicídio.

Palavras

Machados
Que batem e retinem na madeira.
E os ecos!
Ecos escapam
Do centro como cavalos.

A seiva
Mina em lágrimas, como a
Água tentando
Repor seu espelho
Sobre a rocha

Que cai e racha,
Crânio branco,
Comido por ervas daninhas.
Anos depois eu
As encontro no caminho —

Palavras secas, sem destino,
Incansável som de cascos.
Enquanto
Do fundo do poço, estrelas fixas
Governam uma vida.

(Tradução de Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça, Sylvia Plath: Poemas, Illuminuras)

 

A ganhadora do Nobel de 1996, Wislawa Szymborska (1923 – 2012) morreu este ano. A polonesa, que viu a Segunda Guerra, o Holocausto, a ocupação nazista e a tirania comunista, nas palavras de Nelson Ascher, “mostrou como a sanidade e a lucidez podem brotar da terra arrasada”.

Retrato de mulher

Deve ser para todos os gostos.
Mudar só para que nada mude.
É fácil, impossível, difícil, vale tentar.
Seus olhos são, se preciso, ora azuis, ora cinzentos,
negros, alegres, rasos d´água sem nenhuma razão.
Dorme com ele como a primeira que aparece, a única no mundo.
Dá-lhe quatro filhos, nenhum filho, um.
Ingênua, mas a que melhor aconselha.
Fraca, mas aguenta.
Não tem cabeça, pois vai tê-la.
Lê Jaspers e revistas de mulher.
Não entende de parafusos mas constrói uma ponte.
Jovem, como sempre jovem, ainda jovem.
Segura nas mãos um pardalzinho de asa partida
seu próprio dinheiro para uma viagem longa e longínqua
um cutelo para carne, uma compressa, um cálice de vodca.
Corre para onde, não está cansada.
Claro que não, só um pouco, muito, não importa.
Ou ela o ama ou é teimosa.
Para o bem, para o mal e para o que der e vier.

(tradução de Regina Przybycien, Poemas, Companhia das Letras)

 

Ingeborg Bachmann (1926-1973), poeta austríaca, doutora em filosofia, estudiosa de Heidegger e Wittgenstein. Teve um relacionamento com o poeta Paul Celan.

Uma espécie de perda

Usámos a dois: estações do ano, livros e uma música.
As chaves, as taças de chá, o cesto do pão, lençóis de linho e uma
cama.
Um enxoval de palavras, de gestos, trazidos, utilizados,
gastos.
Cumprimos o regulamento de um prédio. Dissemos. Fizemos.
E estendemos sempre a mão.

Apaixonei-me por Invernos, por um septeto vienense e por
Verões.
Por mapas, por um ninho de montanha, uma praia e uma
cama.
Ritualizei datas, declarei promessas irrevogáveis,
idolatrei o indefinido e senti devoção perante um nada,

(- o jornal dobrado, a cinza fria, o papel com um aponta-
mento)
sem temores religiosos, pois a igreja era esta cama.

De olhar o mar nasceu a minha pintura inesgotável.
Da varanda podia saudar os povos, meus vizinhos.
Ao fogo da lareira, em segurança, o meu cabelo tinha a sua cor
mais intensa.
A campainha da porta era o alarme da minha alegria.

Não te perdi a ti,
perdi o mundo.

(tradução de Judite Berkemeier e João Barrento, O tempo aprazado (Últimos poemas 1957-1967), Assírio & Alvim)

 

Hilda Hilst (1930 – 2004) tem uma obra extensa, entre diversos volumes de poesia, prosa e teatro, traduzida para diversas outras línguas e recentemente republicada pela editora Globo. O momento mais curioso de sua carreira foi o “adeus à literatura séria” dado nos anos 90, quando começa sua fase da “bandalheira”, marcada pela sua revolta com a falta de reconhecimento do público em geral. É nesta época em que publica Bufólicas, livro de poemas cômicos, e romances eróticos de diversas naturezas, como O Caderno Rosa de Lory Lamby e Cartas de um Sedutor.

Ária Amaríssima de um instante

SOBRE mim o sudário das coisas. Brandura extensa
Camada-transparência sobre as gentes. Vê só:
Eu não te olho com o teu olho que sabe
Que quase tudo em ti é transitório. Meu olho-liquidez
Descobre uma tarde esvaída, tarde-madrugada
Tempo alongado onde te fizeste em viuvez.
Não perdeste a mulher ou o homem que amavas. Amamos tanto
E a perda é cotidiana e infinita. Não é isso
AGORA
Quando te olho e sei de um Tempo-Tarde-Madrugada alongada.
Olhaste à tua frente, ou do lado ou acima de ti
Ou não olhaste, ou de repente alguém entrou na tua sala
E disse claramente: devo dizer que sim àqueles da Extens Union?
Que sim? A quem? E sou eu mesmo, este que está aqui?
Distância, sigilosa incongruência, eu mesmo?
A boca do outro continua: prazo perda dez por cento solução final…
Solução final final… Te dobras inteiro com muita sobriedade
O documento na última gaveta, bem à esquerda… Meu Pai,
Entre o papel e eu, entre esta mesa e eu
E essa boca inteira debulhada, entre eu mesmo e aquele
Que repete Union Union, que filamento? Âncora,
Tempo coagulado, um dia fui descanso e pastoreio. Um dia
Tudo era eu, bulbo que seduzia, goela clarividente
Uivo gordo viscoso, uivei entre as parreiras, uivei
Porque sabia deste AGORA,
Que a cadela do Tempo me roia, ia roer, rosnava me roendo
Cadela-tempo, tu e eu… que contorno de nada, que coisa ida
Nossa dúplice aventura, que… que sim, que sim… Olha:
Diga que sim a esses da Extens Union.

(do encarte à edição de “Cadernos da Literatura Brasileira”, editado pelo Instituto Moreira Salles – São Paulo, número 8 – Outubro de 1999)

 

Claudia Roquette-Pinto, carioca, nascida em 1963, é formada em tradução literária pela PUC-RJ e publicou os volumes de poesia Os Dias Gagos (1991), Saxífraga (1993); Zona de Sombra (1997); Corola (2001, ganhador do Jabuti de Poesia) e Margem de Manobra (2005).

NO ÉDEN

peça a ela que se desnude
começa pêlos cílios
segue-se ao arame dos
utensílios diários
(insônia alinhavando-se
de tiros,
a infância     seus disfarces)
é preciso
que se arranque toda a face
deixar que os olhos descansem
lado a lado com os sapatos
na camurça oscilante
de um quarto
isso, se quer (sequer desconfia)
tocar o que se fia (um par
de presas, topázios)
entre os vãos das costelas
abra o fecho ela desfecha
no escuro o quadrante onde vaza
a luz e suas arestas

(de Zona de Sombra)

 

Nascida em Curitiba em 1957, Josely Vianna Baptista é estudiosa e tradutora de literatura hispano-americana. Autora dos livros de poesia Ar (1991), Corpografia (1992), Outro (em co-autoria com Arnaldo Antunes, 2001) e Roça Barroca (2011), em que, de maneira notável, funde seu trabalho de poeta com o estudo e tradução do mito poético da criação do mundo dos índios Mbyá-guarani.

Moradas Nômades

carunchos e cupins roem,
vorazes, a choupana de ripas

pendem do esteio ramos de trigo,
feito amuleto para celeiros cheios;
tachos esfarelam crostas de grãos moídos
e redes balançam seus esgarços,
perto do chão onde uma nódoa preta
mostra o antigo fogo

tudo abandono, e, no entanto,
lá fora o pomar semeado
para os que agora cruzam
(trouxas vazias), um
por um, os onze mil
guapuruvus

(de Roça Barroca)

 

Angélica Freitas, nascida em abril de 1973 em Pelotas – RS, tem poemas publicados em diversas antologias e em 2007 publicou seu primeiro livro Rilke Shake (Cosac Naify/7Letras). Anda a caminho de publicar um livro novo.

às vezes nos reveses

penso em voltar para a england
dos deuses
mas até as inglesas sangram
todos os meses
e mandam her royal highness
à puta que a pariu.
digo: agüenta com altivez
segura o abacaxi com as duas mãos
doura tua tez
sob o sol dos trópicos e talvez
aprenderás a ser feliz
como as pombas da praça matriz
que voam alto
sagazes
e nos alvejam
com suas fezes
às vezes nos reveses

(de Rilke Shake)

 

P.S.: vale a pena conferir também os posts aqui no escamandro sobre Orides Fontela e os 3 poemas de Laura Antillano traduzidos pelo nosso Guilherme Gontijo Flores.

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