poesia, tradução

Prufrock, Sayão, Pedrosa, por André Capilé

“O verso mais interessante já escrito em nosso idioma se obtém ou tomando uma forma muito simples, como o pentâmetro jâmbico, e constantemente se afastando dela, ou partindo da ausência de forma e constantemente se aproximando de uma forma muito simples. É esse contraste entre fixidez e fluxo, essa discreta fuga da monotonia, que constitui a própria vida do verso. […] Podemos, pois, apresentar a seguinte formulação: o fantasma de algum metro simples deve sempre esconder-se atrás do cortinado, até mesmo no verso mais ‘livre’” [T. S. Eliot em tradução do Paulo Henriques Britto].

Sendo “A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock” um dos poemas mais traduzidos do modernismo anglófono, haveria, ainda, motivações razoáveis em repetir, mais uma vez, a empreitada?

Empreendendo uma pesquisa sobre verso livre no Brasil, acompanhando de perto as reflexões de Paulo Henriques Britto, encontrei-me instigado a mexer com esse poema. Ao ler alguns prosodistas estadunidenses sobre o tema, e suas obsessões contabilistas — já não me lembro se Fussel ou Beyers —, apontavam que no desenvolvimento formal da “love song” era possível encontrar um pouco mais de 50% dos versos marcados pelo regime do pentâmetro — a tal “forma muito simples” que ora se aproxima, ora se afasta, dita por Eliot.

Quando me dirigi às versões que encontrei, embora tenha lido algumas prodigiosamente realizadas no âmbito do ritmo, de modo geral esse regime de medida era sumariamente negligenciado. As respostas que comumente são dadas ao pentâmetro, em língua portuguesa, são endereçadas ao decassílabo ou ao dodecassílabo. Vide, por exemplo, essa inversão com a brilhante tradução de Bishop ao poema do Vinícius no âmbito da forma, em que ela converte em pentâmetros os dodecassílabos dele — Scandolara trata disso aqui: https://escamandro.wordpress.com/2012/07/11/elizabeth-bishop-tradutora/

Tentei, o melhor possível, responder a esses pentâmetros encontrados na “love song”. Mas ainda outro incômodo comparecia: a negligência dos esquemas de rimas que Eliot disseminava ao longo de todo o poema. A tradução a que a maioria das pessoas tem acesso é a de Ivan Junqueira, justamente ela é a que mais se afasta dessas proposições.

O pentâmetro, ali, é a enzima que mobiliza o que Eliot chama de “metro fantasma”, um elemento persecutório que martela o ouvido, habituado ou não, na insistência de uma familiaridade rítmico-sonora. Pensemos, por exemplo, no “poema sujo” do Gullar. Acredito ser incontornável a audição, aqui e ali, do fantasma de arte menor das redondilhas maiores jogando com o ritmo físico da mancha gráfica. Mas esse assunto é outro.

Ainda com as rimas o caso é o mesmo. Cada turno estrófico em que Eliot emprega um esquema de rimas, ainda que irregular, joga o tempo todo com o monumento da tradição como se o traísse pela brecha do ridículo. É o “admirabilíssimo ão”, é o “mundo mundo vasto mundo” da anglofonia. Elementos, no fim das contas, que são incontornáveis, a meu ver.

Traduzi esse poema para entrar numa coleção intitulada “Herbert Richers” da Edições Macondo. É uma versão brasileira. A melhor possível. Obviamente me vali das traduções realizadas, e postadas, aqui na escamandro. Muitas vezes uma ótima idéia, rimada com geléia, já havia sido realizada. E, naturalmente, impunha outra tomada de caminho.

As opções, de modo geral, ficam bem claras e não creio que careceriam de maiores apontamentos. Mas uma questão incomoda a muita gente boa: a tradução do nome do J. Alfred Prufrock por J. Pinto Sayão. Não vou me alongar, mas pensando um bocado na figura da personagem, fantasiando uma etimologia para Prufrock, chegou-se em “prurience” e “frock”, a justa “lascívia” da “batina”. Sayão garante um certo ar de aristocracia. E aí está. Mas devo, mesmo, esse nome ao Paulo Henriques Britto. O mérito não é nada meu.

O que me pertence, no fim, é a glosa roubada da canção. Em J. Geraldo Pedrosa, um nome mais comum, fora o início, que é tentativa de dar cabo a outras possibilidades de abertura, há toda um despojo pra jogar, mais uma vez, com a quase impossível tarefa de traduzir “as moças que vem, as moças que vão, falando sem parar pelo salão”.

 

André Capilé é um poeta brasileiro, nascido em Barra Mansa, Rio de Janeiro, em 1978. É graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Mestre em Letras pela PUC-Rio. Doutor em “Literatura, Cultura & Contemporaneidade”, também pela PUC. Publicou rapace [2012 – Editora TextoTerritório] e balaio [2014 – 7Letras]; traduziu, para a Edições Macondo, “The Love Song of J. Alfred Prufrock” na coleção Herbert Richers. Estão no prelo: chabu e troco da passagem — ambos saírão pela editora TextoTerritório. Publicará muimbu pela Edições Macondo agora em abril. Tem publicado textos esparsos em revistas e sites de literatura.

* * *

A CANÇÃO DE AMOR DE J. PINTO SAYÃO

S’io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse ai mondo,
Questa fiamma staria senza più scosse.
Ma per cio che giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s’i’ odo il vero,
Senza tema d’infamia ti rispondo.

Então vamos, você e eu,
Quando o fim da tarde é espalhado contra o céu
Como um paciente eterizado sobre a mesa;
Vamos, por certas ruas meio ermas,
Resmungando da noite o refúgio
no pernoite inquieto em hotéis vagabundos;
E as ostras com serragem nos botecos:
Ruas que seguem como uma discussão tediosa
Cuja intenção insidiosa
É conduzir você à questão crucial . . .

“Qual é?” Ah, não me inquira
Vamos logo fazer nossa visita.

As moças vêm, as moças vão
Falando sobre Michelangelo no salão.

A bruma ocre que esfrega o dorso em volta das vidraças,
O fumo ocre que esfrega o focinho nas vidraças
Lambeu os beiços nas esquinas do crepúsculo,
Pôs-se na poça a chafurdar o charco,
Deixou cair nas costas a fuligem que vem das chaminés,
Deslizou pela laje, deu um salto súbito,
E vendo que era uma branda noite de outubro,
Por inteiro enrolou-se em volta da casa, e dormiu.

E muito certamente haverá tempo
Pra que flua pela rua a parda fumaça
Esfregando o dorso pelas vidraças;
E sim, haverá tempo, haverá tempo
De preparar um rosto que outro rosto encare;
Haverá tempo para matar e criar,
Tempo de mãos, para os trabalhos e os dias,
Que erguem e lançam questões no seu prato;
Tempo para você, tempo pra mim,
E tempo ainda de mil e uma indecisões,
Também de inúmeras visões e revisões,
Antes da hora de torradas com chazinho.

As moças vêm, as moças vão
Falando sobre Michelangelo no salão.

E muito certamente haverá tempo
Para se perguntar: “Devo eu ousar?” e, “Eu devo ousar?”
Tempo de dar meia volta e descer as escadas,
Com o meu cocuruto calvo como um alvo —
(E dirão: “Como o cabelo dele está ficando ralo!”)
Meu paletó, colarinho engomado, o queixo firme,
Alfineto a gravata, mui discreta e chique,
(E dirão: “Como as pernas e braços dele estão magrinhos. ”)
E eu devo ousar
Perturbar o universo?
Em um minuto temos tempo
Pra decisões e revisões que num segundo verão seu reverso.

A todos conheci, já sei de tudo: —
Sei bem as noites, as manhãs, as tardes,
Tenho a vida medida em colheres de chá;
E sei, num fim de outono, as vozes moribundas
Que vem de um salão remoto, sob música.
Como então eu presumiria?

Conheci de todos, os olhares, os olhares todos —
Olhos te acertam numa frase lapidar,
E quando eu estiver formulado, estrebuchando em um alfinete
E eu estiver espetado e contorcido na parede,
Como então deveria eu começar
A escarrar o bagaço da vida diária?
E como eu presumiria?

E também sei de braços, todos eles —
Brancos e nus os braços portam braceletes
(Mas a lâmpada alumbra a penugem castanha!)
Vem do perfume das saias
O que me faz divagar?
Esses braços pousados numa mesa, ou envoltos em um xale.
E como eu presumiria?
E eu começaria como?

.      .      .      .      .      .      .      .      .

Diria: Caminhei no crepúsculo por vielas estreitas,
Vendo a fumaça subir dos cachimbos
De homens sós, em camisetas, nas janelas? . . .

Eu deveria ter sido um par de garras molambentas
Escrutando o fundo de mares silentes.

.      .      .      .      .      .      .      .      .

E a tarde dorme, anoitecendo, tão pacífica!
Apalpada por longos dedos,
Dormente . . . fatigada . . . ou achacadiça,
Estirada no chão, aqui, ao lado de mim e você.
Eu deveria, após o chá, sorvete e quiche,
Ousar levar esse momento a uma crise?
Apesar de choro e jejum, choro e oração,
E de ter visto minha cabeça (um pouco calva) ser carregada
[ sobre uma travessa,
Não sou profeta —, isso em nada interessa;
Vi meu momento de glória piscar,
Vi o eterno lacaio vestir-me o casaco, e assobiar;
Em resumo: eu tive medo.

Valeria a pena, depois de tudo?
Depois das xícaras, geléia e chá,
Em meio à porcelana, em meio às nossas falas,
Teria valido a pena,
Cortar, com um sorriso, o falatório;
Ter premido o universo numa bola
Que rola ao crucial questionamento;
Dizer: “Sou Lázaro, venho dos mortos,
Vos direi tudo, Eu tudo Vos direi na volta” —
Se alguém, pousando a testa na almofada,
Balbuciasse: “Não disse bem isso; contudo
Falei mas não assim, em absoluto”.

Valeria a pena, depois de tudo,
Teria valido a pena,
Depois do por do sol, os fundos de quintais e as ruas polvilhadas,
Depois do chá das cinco, da novela das seis, do giro no salão
[ com a saia rendada —
É isto, e então: mais nada? —
É impossível dizer justo o que quis dizer!
Como se houvesse projetado uma lanterna mágica, na tela,
[ uma sessão de nervos:
Teria valido a pena
Se alguém, ao ajeitar uma almofada ou retirar um xale,
E voltando-se em direção à janela, dissesse:
“Não é nada disso;
Não foi nada disso que eu quis dizer.”

.      .      .      .      .      .      .      .      .

Não! Não sou, nem quis ser, Príncipe Hamlet;
Sou um lorde cortesão, que servirá
De figurante com andar solene, iniciada uma ou outra cena,
Aconselhar o príncipe: uma ferramenta simples, sem dúvida;
Respeitoso, contente de ser útil,
E meticuloso, e cauto, e prudente;
Um fraseado pomposo, mas um pouco obtuso;
Às vezes parece um tanto ridículo —
Às vezes, de fato, o BUFO.

Envelheci . . . Ah, eu envelheci . . .
Dobrar as bainhas das calças eu consegui.

Partirei pelo meio o meu cabelo? Me atreverei comer um pêssego?
Vestirei calça branca de flanela, e vou andar sobre a areia.
De uma pra outra, ouvi cantar sereias.

Não devo crer que cantarão pra mim.

Nas ondas do mar, cavalgando, as vi
No recuo das vagas, penteando crinas claras
Que o vento rufla, em preto & branco, as águas.

Cingem-nos as Ondinas com grinaldas de algas pardas e rubras
Nas câmaras do oceano persistimos
Até que humanas vozes nos despertam, e sucumbimos.

§

A cantilena de J. Geraldo Pedrosa

Poderia começar tudo de novo —
como enxugar o gelo ou alisar um ovo —
dizendo simplesmente: “as moças vão e vem”.
Contudo, seguem os segundos sem demora.
E se pergunta: “o que é que vem agora?”
Agora já passou mais um segundo,
— talvez eu te visite em mais um turno,
ó mundo que me deu só um amor.
E o tempo é pra perder — não é terrível
poupar a vida temendo o ridículo?
Saber que o mel, dessa canção, é um horror?
Então, vou me montar, passar o rímel;
espera mais um pouco, e já saímos
— é hora de largarmos os relógios.
E aí? Vamos agora, só nós dois,
quando espalhado contra o céu o sol se pôs
como um paciente eterizado ali na maca;
certo, as ruas estão meio desertas,
mas não reclame muito, se o refúgio inquieta
a noite, se o pernoite é num motel barato,
ou se os botecos dão-nos ostras com borralho:
feito papo furado a via ruma
por intenções movidas com astúcia
conduzindo-o à questão excruciante. . .
“Qual é?” Ah, nem me venha com seus arremedos:
a vida é muito curta pra ter medo
e as moças vão e vêm, num toma lá dá cá
(feito uma aparição no meio do tumulto
— as pétalas no charco, e os galhos brunos).
e as falas principais são das atrizes —
quando começam, não há quem as pare:
garotas que azulejam Portinari,
não deixam por riscar mais uma prise.
a vida é pura, e as moças vêm e vão
falando sem parar pelo salão.
O drama inicial foi bem dinâmico —
quando começa a dança, ele vai ver:
garotas que se clicam por Monet,
deixam de ser motivo (e desce pano).
A vida é rara, e as moças vêm e vão
falando sem parar pelo salão.
Cansou de artista plástico um minuto —
o assunto é borrachudo, como um cheque:
talvez seja melhor samba de breque,
e o que sobra do tom é bem cascudo.
A vida é bamba, e as bossas vão durar
pelo salão… enquanto tocam sem parar.

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crítica

Marjorie Perloff e o Gênio Não Original

perloffTalvez eu pudesse comparar a atividade de ser tradutor – o símile vale para revisores também, mas na tradução a coisa é mais intensa – a um tipo de roleta russa. Muitas vezes você pode ser chamado para traduzir livros ruins, tediosos, ridículos, mal escritos, que te fazem desejar que eles nunca tivessem visto a luz do dia, que dirá sido traduzidos. Felizmente, porém, este ano não peguei nenhuma dessas bombas em mão, e, qualquer que seja o deus que rege as traduções, reconheço que ele tem sido muitíssimo benevolente comigo. Primeiro, porque no primeiro semestre tive a oportunidade de traduzir o romance pós-moderno Deuses Sem Homens, do britânico Hari Kunzru (editora Nossa Cultura, daqui de Curitiba), um livro excelente, sobre o qual não me estendo agora apenas pelo fato de que este aqui é um espaço para discussão de poesia mais do que prosa (de qualquer forma, porém, fica aqui a minha sugestão de leitura, sobretudo para quem gosta de autores como Kurt Vonnegut, Don DeLillo ou Thomas Pynchon). Na sequência, a editora da UFMG me contatou para a tradução de O Gênio Não Original, da professora e crítica literária Marjorie Perloff, autora de outros livros importantes da área como A Escada de Wittgenstein.

O assunto de O Gênio Não Original – que, por sinal, foi lançado hoje, exatamente, em Belo Horizonte – é a poesia conceitual e apropriativa, que Perloff chama de não original (unoriginal), não para desconsiderá-la, com ares pejorativos, considerando-se o quanto o nosso paradigma lírico firmado desde o começo do século XIX na poética romântica valoriza a originalidade, mas por ser uma poesia que renuncia à essa necessidade de originalidade e de expressão individual, gerada a partir do discurso alheio (às vezes literário, às vezes banal, ou então um misto dos dois) ou a partir de restrições experimentais. No primeiro capítulo, introdutório, Perloff trata do poema The Waste Land, de T. S. Eliot, famoso justamente pela técnica de colagem literária à qual, como ela comenta, Eliot jamais retornou (posteriormente, a autora fala de Ezra Pound também). O capítulo seguinte se concentra sobre o Passagen-Werk (traduzido como Passagens, publicado também pela UFMG), de Walter Benjamin, uma obra colossal (e, o que é mais assustador, inacabada) composta quase que inteiramente de recortes, com alguns comentários do autor, que Benjamin planejava publicar com o título de Paris, Capital do Século XIX – o assunto que costura todo o livro, como se pode imaginar, é Paris e suas passagens ou arcadas, o lugar ideal para a prática da flânerie baudelairiana.

Na sequência, há uma discussão sobre poesia concreta, o que é surpreendente vindo de uma autora norte-americana, uma vez que no mundo anglófono o concretismo foi uma tendência que nunca pegou e até hoje é ainda muito mal-compreendida – e, como aponta Perloff, as acusações contra o concretismo variam entre ele ser uma “falácia icônica”, um “cratilismo” (em referência ao diálogo Crátilo, de Platão) ou de que esse tipo de poesia deveria ser discutido nos departamentos de design, em vez de letras. E, quando ela começa a falar das origens do concretismo, em países como Suíça, Suécia, Áustria, Escócia e o Brasil (além de falar do grupo Noigandres, ela menciona também Gomringer, Fahsltröm, Jandl e Finlay), de repente parece claro o porquê dessa rejeição, uma vez que se trata de um fenômeno do pós-guerra que surgiu em países periféricos, resistente à estética da introspecção existencialista que se desenvolveu nos países culturalmente centrais como a França, que foram o palco principal da Segunda Guerra. Outro conceito interessante que Perloff traz à tona, a partir da obra de William Marx, é o do concretismo como uma forma de arrière-garde, retaguarda, em vez de vanguarda, i.e. um movimento de consolidação (sobretudo no caso brasileiro, com a adoração a Pound, Mallarmé, cummings e Joyce) e não de ruptura, como foi o Futurismo, o Dada, o Surrealismo, etc. Enfim, sem querer valorizar o olhar estrangeiro mais do que o local, é, de qualquer modo, muito iluminador ter uma perspectiva externa sobre autores aos quais estamos mais do que acostumados e que parece que o restante do mundo está finalmente descobrindo – e, nesse sentido, a citação de Kenneth Goldsmith a respeito de uma mesa redonda com Décio Pignatari, de 2001, que abre esse capítulo 3, é curiosíssima: Eu fiquei atordoado. (…) De repente, fez sentido: como na famosa declaração de Kooning: “A história não me influencia. Eu que influencio a história”, demorou até a vinda da Web para vermos o quanto a poética concretista foi pré-ciente em prever sua própria e calorosa recepção meio século depois.

gênio não originalPelo bem da brevidade, não vou prosseguir dando descrições detalhadas de cada capítulo – me detive mais ao capítulo 3 justamente pela raridade que é um crítico estrangeiro não só voltar o olhar para a nossa produção, mas fazê-lo com a consideração e a abertura necessárias para se tecer comentários relevantes, ao contrário dos críticos que mantêm visões estereotipadas, preconceituosas e hipersimplificantes. O capítulo 4 elabora ainda essas questões concretistas, mas soma também uma discussão sobre a Oulipo francesa (com direito a comparações frutíferas entre os dois movimentos, com base no encontro de 1977 entre Jacques Roubaud e Haroldo de Campos) e parte disso para abordar a ópera Shadowtime, de Brian Ferneyhough, cujo libreto foi escrito pelo poeta Charles Bernstein, da poesia Language, e que tem como assunto a vida e pensamento de Walter Benjamin – uma obra sobra a qual planejo elaborar mais numa postagem futura. Perloff prossegue, então, para tratar do livro-poema The Midnight, de Susan Howe, depois da poética exofônica de Caroline Bergvall e Yoko Tawada, para enfim encerrar o livro com um capítulo sobre o livro Traffic, do polêmico Kenneth Goldsmith.

Traffic é provavelmente a obra mais indigesta contemplada aqui. Como um livro de poesia conceitual “pura”, ele consiste na transcrição de relatórios de trânsito anunciados no rádio de Nova York ao longo de 24 horas de uma véspera de fim de semana de feriado – e, o que é mais impressionante, faz parte de uma trilogia de livros desse tipo, junto com The Weather e Sports, além de outros volumes de poesia conceitual de transcrição como Soliloquy (disponível online clicando aqui), que registra tudo que o poeta falou ao longo de uma semana, mas sem registrar as falas dos interlocutores. Confesso que acho difícil partilhar do mesmo entusiasmo de Perloff por esse tipo de obra, ainda mais quando lembro que Goldsmith é responsável pelo projeto bizarro de tentar imprimir toda a internet, mas Perloff tem alguns insights reveladores… por exemplo, o de que Traffic, apesar de supostamente transcrever todos os relatórios ao longo de 24 horas de uma véspera de feriado, consegue apagar todas as referências a qual era esse feriado, além de (o que é mais surreal) o feriado acabar inexplicavelmente antes de começar, conforme revelado pelas referências às leis de estacionamento – o que meio que põe por terra a noção dessa transcrição “pura” e “fiel”. Por coincidência, há dois meses saiu um artigo no site da Poetry Foundation de autoria de Robert Archambeau, intitulado “Charmless and Interesting: What Conceptual Poetry Lacks and What It’s Got” (clique aqui), em que o autor expõe uma concepção de poesia com base no “encanto” (charm) e no “interesse”, que me parece uma boa introdução ao assunto, para quem se interessar.  Para Archambeau, a poesia mais tradicional (original, na concepção de Perloff) seria uma poesia dotada desse encanto, esse apelo sensorial (do qual a melopeia poundiana seria um exemplo), ausente na poesia conceitual, que, por sua vez, se torna interessante justamente por ser uma poética não para ser fruída normalmente através dos sentidos, mas para ser objeto de reflexão, invertendo o conceito mallarmaico de que a poesia é feita de palavras, não de ideias. Enfim, qualquer que seja o julgamento a ser feito sobre esse tipo de poesia, ela é um fato e apresenta alguns argumentos convincentes para a sua existência – e, o que é mais interessante para mim, pessoalmente, como estudioso do romantismo, seriam os sinais de uma possível ruptura com o paradigma da poética romântica que essa poesia conceitual parece promover.

Se eu pudesse apontar algo de que senti falta no livro (e eu já apontei isso para a própria Perloff, inclusive, via facebook) seria um elo entre essa poética conceitual e apropriativa não original moderna/contemporânea e os possíveis precedentes dela nos séculos passados, anteriores ao XIX, XX e XXI. Acredito que poderíamos encontrar um antecedente para o livro das Passagens de Benjamin na obra do século XV A Anatomia da Melancolia de Robert Burton (que o nosso colega escamandrista Guilherme Gontijo Flores traduziu integralmente e publicou pela editora da UFPR), também composta como um imenso patchwork de citações eruditas de obras de teologia, geografia, história e, claro, poesia, ao mesmo tempo em que a prática eliotiana do poema citacional não só já era realizada na antiguidade como era um gênero literário à parte, chamado de cento (centão), cujo exemplo mais ilustre é o Cento Nupcialis, de Ausônio (310-395), que compõe um poema erótico-pornográfico a partir de versos extraídos inteiramente de Virgílio. Mas, enfim, essas comparações e considerações ficam para um estudo posterior. De qualquer modo, como é, o livro de Perloff representa uma belíssima introdução para um assunto complicado e polêmico, na medida em que alguma coisa ainda consegue levantar poeira e polêmica no mundo da poesia contemporânea.

Adriano Scandolara

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“Rapsódia de uma noite de vento” de T. S. Eliot

Old street lamp in the background of the building with sculpturesEliot já não é nenhum estranho por estas bandas, sendo que já dedicamos duas postagens ao seu Prufrock, uma com a tradução de Rodrigo Gonçalves, outra com a de Rodolfo Jaruga. Agora, eu gostaria de volver nossa atenção para um dos poemas “menores” (não tão menor assim, a bem da verdade, com seus 78 versos), presente na primeira coletânea do poeta, publicada em 1920, Prufrock and Other Observations, que é o “Rhapsody on a windy night”.

Seu título é um tanto auto-explicativo (apesar de o “on” ser ambíguo, podendo ser tanto uma rapsódia (composta) sobre uma noite de vento quanto uma rapsódia (que ocorreu) durante uma noite de vento): é um poema que se concentra sobre uma caminhada noturna da persona de Eliot, mesclando imagens confusas da memória com as cenas vistas pela figura durante a sua flanêrie. Como com a “Canção de amor de J. Alfred Prufrock”, a referência musical do título é irônica (“rhapsody” tem um sentido de algo entusiasmado em inglês, enquanto o tom do poema é melancólico), mas, diferente de Prufrock, não há um nome para essa persona, ainda que ela seja bastante semelhante ao Prufrock, em sua atitude reflexiva e desiludida em relação ao mundo das convenções sociais em que está imerso – e eu ainda arriscaria dizer que a persona da “Rapsódia” também tem suas angústias com o envelhecimento, como parece ficar sugerido na cena entre ele ter visto a criança na pedreira e o “velho siri”, com o qual ele revelando uma identificação, o que não ocorre com a criança, cujos olhos não permitem que ele veja “nada por trás”.

Estruturalmente, eu gostaria de apontar para o quanto o poema é bem amarrado. A primeira estrofe se apresenta como uma introdução musical, de fato, com todos os motivos que se desenvolvem ao longo dos versos seguintes: a descrição da cena (“the reaches of the street“), a marcação do tempo (começando à meia noite e encerrando, depois, às 4 da manhã, com o relógio retornando a cada estrofe, rítmico, como o “tambor fatalista” a que ele se refere no nono verso), a dissolução explicitamente referida da memória (que passa a caracterizar as imagens do poema inteiro) e a aparição dos postes, que ganham voz nas estrofes seguintes, chamando a atenção do eu-lírico para cada uma das cenas pela qual ele passa: a mulher entrando na casa (o vestido sujo e rasgado sendo sugestivo de sexualidade), o gato comendo a manteiga rançosa na sarjeta (ou numa calha, a palavra “gutter” é ambígua), a lua descrita em termos grotescos (esta, mencionada também já na primeira estrofe, na “lunar synthesis” e “lunar incantations”).

Há um crescendo, então, na antepenúltima estrofe, com a enumeração dos cheiros noturnos, naquilo que poderíamos descrever como um momento de identificação do eu-lírico com a lua – apesar de ela, a princípio, se distinguir dele por não ter memória (“La lune ne garde aucune rancune, / (…) The moon has lost her memory“) – em sua solidão e confusão sensório-mnemônica:

           

A washed-out smallpox cracks her face,    
Her hand twists a paper rose,    
That smells of dust and old Cologne,    
She is alone    
With all the old nocturnal smells
That cross and cross across her brain.

           

Por fim, o eu-lírico retorna ao que parece ser um hotel (daqueles em que se deixa, ou deixava, os sapatos à porta) e se deita, e o poema conclui com um desses finais angustiantes nos quais Eliot era mestre. No verso final, Eliot justapõe as ordens (ou conselhos) que a luz do último poste dá, o “prepare for life” (a preparação para a continuação da vida, da qual essa caminhada noturna seria uma forma de fuga, uma suspensão da realidade diurna, da qual, no entanto, é impossível escapar, justamente por conta das qualidades incontroláveis da memória), com a imagem inesperada de uma faca sendo retorcida pela última vez na vítima após o golpe:  The last twist of the knife , um verso isolado, que compõe sozinho a última estrofe, uma qualidade que lhe confere um peso especial e contribui para o tom desesperador do poema.

Lembro que, desde que li Eliot pela primeira vez (creio que em 2007 ou 2008), numa ediçãozinha pocket da Penguin, esse foi um dos poemas dele que mais me marcou, e por isso sempre quis traduzi-lo. Há já uma tradução feita pelo poeta e tradutor Ivan Junqueira, presente em sua antologia intitulada simplesmente Poesia (editora Nova Fronteira), junto com o seu “Prufrock”, “A Terra Desolada”, “Os Homens Ocos”, etc. No entanto, apesar dos méritos do trabalho de Junqueira, sua tradução deste poema em específico não me deixou muito satisfeito. Algo do ritmo me parece quebrado, na medida em que Junqueira muitas vezes alonga versos que no original eram curtíssimos  (como no caso do trecho do gato e da solidão da lua) e parece deixar de lado rimas que saltam aos olhos e aos ouvidos no poema de Eliot, como “The street lamp sputtered, / The street lamp muttered”, que viram “cuspia” e “resmungava”. Além disso, o final me soa esquisitíssimo, com o uso inusitado do verbo “talhar”, repetido com o “talho” do verso seguinte, e a substituição a imagem da faca sendo retorcida após a facada (sendo o movimento da torção especialmente importante. Note como o poema insiste o tempo inteiro sobre imagens de coisas tortas e retorcidas. Como disse, ele é todo amarrado) com a de uma navalha (um objeto que, convém dizer, não pode ser usado para apunhalhar) dando mais um golpe. Não é o caso da presunção minha de querer falar mal da tradução de Junqueira e oferecer uma melhor, mas, sim, de oferecer mais uma tradução, como fazemos sempre no escamandro, e com um projeto diferente. Aliás, eu digo, se tem algo pelo qual Junqueira, como tradutor, é realmente digno mesmo de condenação, é por elogiar e promover, como jurado, a tradução de Milton Lins de William Shakespeare no prêmio de tradução da ABL,  uma verdadeira aberração de tão bizarra, conforme registrado no blogue de Denise Bottman. Mas, enfim, isso é outra história.

Por isso, apresento a vocês, abaixo, a minha tradução e a de Ivan Junqueira, acompanhadas pelo original.

Adriano Scandolara

Van Gogh - Starry Night Over the Rhone

           

Rapsódia de uma noite de vento

Doze horas.
Pelos caminhos da rua
Preso em síntese lunar
A sussurrar encantos lunares
Dissolvem-se os assoalhos da memória
E suas relações claras
Divisões e precisões,
Todo poste que passo
Bate como um tambor fatalista,
E pelos espaços do escuro
A meia-noite chacoalha a memória
Como um louco chacoalha um gerânio morto.

Uma e meia,
A luz do poste gagueja,
A luz do poste rumoreja,
A luz do poste diz, “Veja aquela mulher
Que hesita na tua direção à luz da porta
Que se abre a ela como uma bocarra.
Vê-se que a barra do vestido
Está rota e suja de areia,
E que o canto do olho dela
Se retorce como um alfinete”.

A memória vomita alta e seca
Uma turba de coisas tortas;
Um galho retorcido sobre a praia
Carcomido, liso, polido
Como se o mundo entregasse
O segredo de seu esqueleto
Branco e rijo.
Uma mola quebrada numa fábrica,
Ferrugem que se prende à forma que a força abandonara
Dura e tesa e prestes a estourar.

Duas e meia,
A luz do poste diz,
“Note o gato à sarjeta, como se aconchega,
Mostra a língua
E devora um rançoso naco de manteiga”.
Então a mão da criança, automática,
Saiu e embolsou um brinquedo que corria pela pedreira.
Não pude ver nada por trás do olhar daquela criança.
Vi olhos na rua
Tentando espiar pelas cortinas acesas,
E um siri à tarde numa poça,
Um siri velho com cracas nas costas;
Prendendo a ponta do graveto que estendi pra ele.

Três e meia,
A luz do poste gagueja,
A luz do poste rumoreja no escuro.

A luz entoou:
“Veja a lua,
La lune ne garde aucune rancune,
Ela pisca um olho flébil
Ela sorri nas esquinas.
Alisa o cabelo da relva
A lua perdeu a memória.
Uma varíola lavada racha-lhe o rosto,
Sua mão retorce uma rosa de papel,
Com cheiro d’água de colônia velha e pó
Ela está só
Com todos os cheiros noturnos
Que cruzam e cruzam os cruzamentos de seu cérebro.
A reminiscência vem
De gerânios secos sem sol
E poeira nos cantos,
Cheiros de castanhas nas ruas,
E cheiros de mulher em quartos cortinados,
E cigarros nos corredores
E cheiros de coquetéis nos bares”.

A luz diz,
“Quatro horas,
Eis o número na porta.
Memória!
Você tem a chave,
A luz espalha um círculo na escada,
Suba.
A cama aberta; a escova de dente pendurada,
Sapato à porta, durma, a vida o aguarda”.

A torção final da facada.

(tradução de Adriano Scandolara)

           

Rapsódia sobre uma noite de vento

Meia-noite.
Uma síntese lunar captura
Todas as fases da rua,
Sussurrantes sortilégios lunares
Dissolvem os planos da memória
E todas as suas límpidas tramas,
Divisões e precisos mecanismos.
Cada lampião que ultrapasso
Pulsa como um tambor fatídico,
E através das lacunas do escuro
A meia-noite golpeia a memória
Como um louco brande um gerânio morto.

Uma e meia,
O lampião cuspia,
O lampião resmungava,
O lampião dizia: “Olha aquela mulher
Ao teu encontro hesitante à luz da porta
Que a recorta como um riso escarninho.
Repara-lhe a barra do vestido
Rasgada e suja de areia,
E o canto de seu olho que se arqueia
Como um grampo retorcido.”

A memória expele e disseca
Um turbilhão de coisas tortas;
Um ramo tortuoso sobre a praia
Polidamente carcomido e cinzelado
Como se o mundo erguesse à superfície
O segredo de seu esqueleto,
Rígido e alvadio.
A mola espatifada no pátio de uma fábrica,
A ferrugem que se aferra à forma
Que a força deixou tensa e enrodilhada
E pronta a abocanhar com uma dentada.

Duas e meia,
O lampião dizia:
“Observa o gato que na calha se adelgaça,
Espicha a sua língua e saboreia
Um naco rançoso de manteiga.”
Tal a mão do menino, automática,
Surripiou e embolsou um brinquedo
Que ao longo do cais deslizava.
Eu nada podia ver atrás dos olhos do menino.
Tenho visto pela rua olhos que tentam
Emergir por entre iluminadas persianas,
E certa tarde um caranguejo vi na lama,
Um velho caranguejo em sua carcaça calcária
A agarrar-se à ponta do graveto que eu sustinha.

Três e meia,
O lampião cuspia,
O lampião no escuro resmungava,
O lampião zumbia:
“Olha a lua,
La lune ne garde aucune rancune.
Pisca um olho tímido,
Sorri pelas esquinas.
Alisa os cabelos de gramínea.
A lua perdeu a memória.
Bexigas descoradas ulceram-lhe a face.
Suas mãos retorcem uma rosa de papel
Que recende a pó e água-de-colônia.
Ela está só, em companhia
De todos os antigos eflúvios noturnos
Que lhe cruzam e entrecruzam o cérebro.”
Aflora a reminiscência
De secos gerânios pálidos
E de poeira nas frinchas,
Aroma de castanhas pela rua,
E odor de fêmea nas alcovas clandestinas,
E de cigarros pelos corredores
E de coquetéis nos bares.

O lampião disse:
“Quatro horas,
Eis o número sobre a porta.
Memória!
Tens a chave,
A luminária alastra um círculo na escada.
Sobe.
A cama é franca; a escova de dentes na parede pende,
Põe teus sapatos junto à porta, dorme, para a vida te talha.

O último talho da navalha.

(tradução de Ivan Junqueira)

           

Rhapsody on a Windy Night
 
Twelve o’clock.    
Along the reaches of the street    
Held in a lunar synthesis,    
Whispering lunar incantations    
Dissolve the floors of memory
And all its clear relations    
Its divisions and precisions,    
Every street lamp that I pass    
Beats like a fatalistic drum,    
And through the spaces of the dark
Midnight shakes the memory    
As a madman shakes a dead geranium.    
 
Half-past one,    
The street lamp sputtered,    
The street lamp muttered,
The street lamp said, “Regard that woman    
Who hesitates toward you in the light of the door    
Which opens on her like a grin.    
You see the border of her dress    
Is torn and stained with sand,
And you see the corner of her eye    
Twists like a crooked pin.”    
 
The memory throws up high and dry    
A crowd of twisted things;    
A twisted branch upon the beach
Eaten smooth, and polished    
As if the world gave up    
The secret of its skeleton,    
Stiff and white.    
A broken spring in a factory yard,
Rust that clings to the form that the strength has left    
Hard and curled and ready to snap.    
 
Half-past two,    
The street-lamp said,    
“Remark the cat which flattens itself in the gutter,
Slips out its tongue    
And devours a morsel of rancid butter.”    
So the hand of the child, automatic,    
Slipped out and pocketed a toy that was running along the quay.    
I could see nothing behind that child’s eye.
I have seen eyes in the street    
Trying to peer through lighted shutters,    
And a crab one afternoon in a pool,    
An old crab with barnacles on his back,    
Gripped the end of a stick which I held him.
 
Half-past three,    
The lamp sputtered,    
The lamp muttered in the dark.    
 
The lamp hummed:    
“Regard the moon,
La lune ne garde aucune rancune,    
She winks a feeble eye,    
She smiles into corners.    
She smooths the hair of the grass.    
The moon has lost her memory.
A washed-out smallpox cracks her face,    
Her hand twists a paper rose,    
That smells of dust and old Cologne,    
She is alone    
With all the old nocturnal smells
That cross and cross across her brain.    
The reminiscence comes    
Of sunless dry geraniums    
And dust in crevices,    
Smells of chestnuts in the streets,
And female smells in shuttered rooms,    
And cigarettes in corridors    
And cocktail smells in bars.”    
 
The lamp said,    
“Four o’clock,
Here is the number on the door.    
Memory!    
You have the key,    
The little lamp spreads a ring on the stair,    
Mount.
The bed is open; the tooth-brush hangs on the wall,    
Put your shoes at the door, sleep, prepare for life.”    
 
The last twist of the knife.

(poema de T. S. Eliot)

Padrão
crítica, poesia, tradução

“a canção de amor de j. alfred prufrock”, por rodolfo jaruga


prufrocknós já fizemos uma postagem com uma tradução inédita do prufrock de t. s. eliot, por conta de rodrigo t. gonçalves, uma tradução que primava pelo ímpeto rítmico que buscava emular ao máximo a cadência do texto inglês de eliot.

hoje a nossa felicidade – como vocês já sabem, ou deveriam saber, pela proposta tradutória que tem se revelado neste blog, que eu poderia resumir como “quanto mais, melhor” – hoje a nossa felicidade é ter mais um prufrock inédito, com uma introdução em versos seguida de tradução de rodrigo jaruga. interessa ao leitor, além da oportunidade de ler & reler eliot, além da oportunidade de ver mais interpretações para um poema importantíssimo como o prufrock, a possibilidade de comparar projetos tradutórios implícitos. eu diria, que se rodrigo gonçalves partiu para o ritmo inglês, para uma reapresentação da música de eliot que estava ausente das traduções anteriores; rodolfo jaruga aqui busca uma cadência brasileira do texto, por uma recriação do tom de linguagem.

em alguns pontos, as duas se aproximam: na manutenção das rimas (cada um as tenta de modo bem diverso, é verdade, mas faz parte do projeto de ambos); a consciência clara eliotiana de que nenhum verso será libre, se for para ser bem feito; uma busca por uma linguagem fluente.

nesses decursos tradutórios, cada leitor fica com a sua, ou – como prefiro – fica é com as todas.

guilherme gontijo flores

coffee and prufrock

I. O ritmo da liberdade

O que é intrigante nos versos livres do Eliot é que eles têm ritmo.
E o ritmo dessa liberdade é natural.
Cada qual com sua naturalidade, obviamente.
Uma cubana caminhando é diferente de um chinês caminhando.
No mesmo sentido, penso,
existe certa pulsação natural a cada língua.
Acho que os modernistas perseguiram isso,
embora soubessem o difícil que é lográ-lo.
Quase sempre sobressai algum artifício,
alguma artificialidade.
Essa pulsação, de que falo,
é uma conjunção de vários elementos,
dentre os quais sobressaem
o ritmo sonoro da fala e a relação
entre o fluxo de pensamento e a sintaxe.
Encontrar essa pulsação não é coisa fácil.
O dilema é este: como ser artífice
e produzir objetos aparentemente naturais?
O verso livre, não sempre branco, de Eliot é isto:
imitação do ritmo natural da língua,
potencializada por uma tradição métrica
que está em jogo o tempo todo.
Pelo menos em poemas como a Canção de Amor.
Portanto, a meu ver, qualquer tradução do Eliot,
além de ser compreensível sintática e vocabularmente
já no primeiro contato,
deve expressar certa naturalidade rítmica do idioma.

II. Impressões do leitor

Quando eu recito este poema
e chego na terceira estrofe
penso sempre na imagem de um gato
vagando pelo bairro.
Os versos em seqüência
que falam das noites, tardes e manhãs,
dos olhos e dos braceletes
(I have known them all already, known them all),
têm as melhores rimas.
No original, obviamente.
Creio que Alfred se imagina personagem de uma narrativa
(daí a evocação de Hamlet, de João Batista
e, por que não, a de Lázaro também)
e esse é o seu inferno.
Aí começa a sua angústia.
Que classe de obra sua persona inspiraria?
A imagem do serviçal rindo de seu amo é a mais cruel de todas.
Por fim, as sereias, que chegam ao poema
por um caminho improvável,
não cantam – jamais cantariam – ao pobre Alfred.
E pra você elas cantam?

rodolfo jaruga

A canção de amor de J. Alfred Prufrock
(T. S. Eliot)

Que nós sigamos, pois, você e eu,
enquanto o anoitecer se estende pelo céu
como um paciente eterizado numa mesa;
que nós sigamos por certas ruas meio desertas,
refúgios murmurantes
de noites mal dormidas em pensões baratas
de uma estada só
e restaurantes recobertos de serragem
e conchas d’ostras:
ruas longas como argumentos tediosos
cuja razão insidiosa
é conduzir-te a uma questão angustiante…
Não, não me pergunte qual questão,
que nós sigamos e façamos a visita.

As mulheres vêm e vão
conversando sobre Michelangelo no saguão.

A névoa amarelada que roça as costas na vidraça,
o fumo amarelado que roça o fuço na vidraça
passeou a sua língua nas esquinas da noitinha,
deitou-se na sarjeta, sobre as poças,
deixou que sobre as suas costas
caísse a fuligem das chaminés,
deslizou pelo terraço, deu um salto abrupto
e vendo se tratar de uma suave noite de outubro
se enrolou em torno à casa e adormeceu.

E há tempo com certeza
para a névoa amarelada que se alonga pela rua
roçagar as suas costas na vidraça;
e há tempo, muito tempo,
pra preparar a face que conhecerá
as faces que você conhece já;
e há tempo pra matar e pra criar,
e tempo para todos os trabalhos
e dias destas mãos, que no teu prato,
levantam e declinam a questão;
tempo para mim e tempo pra você,
e tempo para mil indecisões
e para mil visões e revisões
antes de eu tomar chá com torradas.

A mulheres vêm e vão
conversando sobre Michelangelo no saguão.

E há tempo, com certeza, pra indagar
“será que eu ousarei”,
tempo para retornar e descender a escada,
c’um resplendor em meio à calva dos cabelos –
eles dirão “mas como há falhas no cabelo dele”;
minha casaca matinal, o colarinho firmemente contra o queixo,
minha gravata soberba mas modesta,
abrochada por um simples prego –
e eles dirão “mas como as pernas, braços dele estão delgados”.
E eu, será que eu ousarei
perturbar o universo?
Em um minuto há tempo
pra revisões e decisões que outro minuto faz diverso.

Pois eu a todas já conheço, a todas elas,
conheço as noites, tardes e manhãs,
tenho medido a vida com colheres de café
e sei das vozes morrendo em moritura queda
sob a música de um cômodo distante.
Como poderia me atrever, então?

Eu já conheço os olhos, todos eles,
os olhos que te fixam numa frase formular,
e quando formulado estou e estirado por um prego,
quando pregado estou e retorcido na parede,
então, como é que eu posso começar
a vomitar os resquícios de meus dias e caminhos?
E como eu poderia me atrever?

Eu já conheço os braços, todos eles,
braços brancos em que há braceletes, braços nus –
mas à luz de um lampião não são senão
penugem os leves e morenos pelos!
É o perfume de um vestido que me induz à digressão?
Braços repousados sobre a mesa ou entre xales.
E como eu poderia me atrever, então?
E como eu poderia começar?

Devo dizer que ao lusco-fusco eu palmilhei ruelas
e vi alçar-se a fumaça de cachimbos de homens solitários
em mangas de camisa, debruçados à janela?
Eu deveria era ter sido um par de garras andrajosas
a se arrastar pelo soalho de oceanos silenciosos.

Dormem tão em paz a tarde e o anoitecer!
Acariciados por dedos longos,
adormecidos, exaustos ou fingindo enfermidade,
esticados no soalho, aqui ao nosso lado.
Pois eu teria forças, depois do chá, biscoitos e sorvetes,
forças pra induzir o instante à sua crise?
E muito embora eu tenha jejuado e pranteado,
rezado e pranteado,
e embora eu tenha visto minha cabeça
(mais calva ainda) ser servida na bandeja,
eu não sou profeta – mas isso pouco importa;
eu vi o instante do vacilo de minha grandeza,
eu vi o vassalo eterno sustentar minha casaca
e refrear o riso,
e em suma, eu tive medo.

E teria valido a pena, depois de tudo,
depois de chás e taças,
depois das porcelanas e dos doces,
entre palavras que nós proferimos,
valido a pena haver dilacerado o assunto c’um sorriso
e condensado o universo numa esfera,
deslizado-a em direção de uma questão opressiva,
e haver falado: “Sou Lázaro, vindo dos mortos,
voltei para falar a todos, pois eu devo falar a todos” –
se alguma delas,
acomodando uma almofada sob os ombros,
dissesse: “não, de modo algum foi isso
o que eu quis dizer, de modo algum foi isso”.

E teria valido a pena, depois de tudo,
valido a pena realmente,
depois dos pátios, de ruas garoadas e poentes,
depois dos chás e das novelas,
depois das saias arrastando-se no chão –
e de mais quê?
Não é possível dizer o que quero!
É como se uma lanterna mágica numa tela
projetasse nervos em seqüência:
teria valido realmente a pena
se alguma delas,
acomodando uma almofada ou retirando o xale,
e desviando a vista pra janela,
houvesse dito: “de modo algum foi isso
o que eu quis dizer, de modo algum foi isso”.

Não, eu não sou Hamlet! Nem se esperava isso.
Sou só um lorde solícito, alguém
pra dar volume, iniciar alguma cena, ou duas,
e aconselhar o príncipe. Sem dúvidas,
um pacato instrumento, deferente,
feliz por ser usado, político e prudente, meticuloso;
cheio de sentenças altas, um pouco rude;
às vezes, na verdade, quase ridículo,
e quase, às vezes, sou o bobo.

Estou ficando velho… ficando velho…
Devo levar enroladas as barras de minhas calças.

Devo dividir ao meio os meus cabelos?
Ousarei comer um pêssego?
Devo vestir calças brancas de flanela
e caminhar pela praia.
Eu tenho ouvido as sereias
cantando umas às outras.

Mas não penso cantarão a mim.
As tenho visto nadando sobre as ondas,
penteando a crina branca de ondas refluentes
enquanto o vento sopra sobre a água alvinegra.

Demoramo-nos nas grutas do oceano
junto a garotas marinhas
coroadas de algas rubras e castanhas
até que humanas vozes nos despertam e nos afogamos.

(trad. de rodolfo jaruga)

Padrão
poesia, tradução

“a canção de amor de j. alfred prufrock”, por rodrigo t. gonçalves

thomas sterns eliot (1888 – 1965), prodigioso poeta do modernismo inglês, também dramaturgo, crítico e  discípulo de ezra pound, é um desses autores que dispensam apresentações. seu longo poema the waste land, de 1922, é um dos grandes poemas do século XX e todos os leitores de poesia já devem ter, pelo menos, ouvido falar dele. outros grandes poemas dele incluem “the hollow men” (famoso pelos versos “this is the way the world ends / not with a bang but a whimper”), “ash wednesday” e o foco deste post, “the love song of j. alfred prufrock”, publicado pela primeira vez em 1915.

composto na forma de um monólogo dramático, “prufrock” é um retrato doloroso do homem moderno, uma figura que oscila entre o grandiloquente e o patético, as preocupações metafísicas da percepção da mortalidade e a frivolidade do cotidiano, da vida medida em colherinhas de café, como ele mesmo põe. é também uma excelente introdução à poesia de t. s. eliot, menos hermético que os seus outros grandes poemas, com uma influência profunda daquilo que edmund wilson chamou “estilo coloquial irônico” do simbolismo francês, identificado nas obras de laforgue e corbière: a complexidade do poema de eliot está exatamente no tratamento irônico (reforçado pela rima, em muitos momentos) dado a um sentimento doloroso e “assincerado” – já que “sincero” não seria o melhor termo para se tratar de eliot.

em português, várias traduções já foram feitas: idelma ribeiro de faria (t. s. eliot. poemas: 1910-1930), ivan junqueira (poesia), jorge wanderley (22 ingleses modernos, uma antologia poética), além de joão almeida flor, alex severino e rodolfo jaruga, disponíveis em seus respectivos links. a elas acrescentamos agora a de rodrigo tadeu gonçalves (jaú, 1981), tradutor e professor da ufpr que já apareceu aqui anteriormente com um dos nossos vários carrinhos de mão vermelho, e agora faz o seu debut solo com “a canção de amor de j. alfred prufrock”.

como jorge wanderley e idelma ribeiro de faria, rodrigo se esforça para manter os jogos sonoros do original, que fazem perder muito da ironia na tradução sem rima e sem métrica, por exemplo, de ivan junqueira. é um clichê comum pensar o modernismo como rompendo com as tradições de métrica e rima… porém, uma leitura mesmo que rasa do “prufrock” já nos mostra imediatamente o trabalho de assimétrico de rimas da primeira estrofe com “I“/”sky“, “street/retreat“, etc, bem como o efeito cômico, por conta de sua frivolidade, no refrão “in the room the women come and go / talking of michelangelo.”, que rodrigo traduz por “na saleta, as moças em deâmbulo /falam de michelangelo.”  as últimas estrofes também substituem o verso livre por tercetos rimados, porém com um efeito lírico mais sério. ao atentar para essas nuances do jogo entre liberdade de forma e uso (irônico ou não) da tradição, temos aqui uma bela contribuição às traduções de eliot.

adriano scandolara / guilherme gontijo flores.

a canção de amor de j. alfred prufrock

S’io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo
Questa fiamma staria sensa piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s’i’odo il vero
Sensa tema d’infamia ti rispondo.

vamos lá, você e eu
quando a noite está espalhada contra o céu
tal paciente eterizado sobre a mesa
vamos nós, por tais semi-desertas alamedas
as quebras quietas
de inquieta noite insone na espeluncas de uma noite
bistrôs baratos com jornal no chão:
ruas que seguem tal tedioso argumento
de perigosa pretensão:
levá-lo a uma pergunta arrasadora…
ah, “qual seria?”, não insista,
vamos lá à nossa visita.

na saleta, as moças em deâmbulo
falam de michelangelo.

a névoa espessa roça as costas nas venezianas
fumaça espessa que o focinho roça nas venezianas
raspando a língua nas esquinas do anoitecer
demora sobre as poças sobre os ralos
derruba em suas costas cinzas lá das chaminés
desliza no terraço, faz-se reerguer
e vendo que era noite calma de um outubro
em volta enrosca a casa a adormecer.

e é certo, o tempo vai chegar
para o fumo espesso errante pela rua,
que esfrega as costas nas venezianas;
o tempo vai chegar e vai chegar
de preparar a cara a ver as caras conhecidas suas;
vai chegar o tempo de criar e de matar
e o tempo dos trabalhos e os dias e as mãos
que erguem e jogam a dúvida em seu prato;
tempo pra você e para mim,
e tempo pra mais cem indecisões,
e mais cem visões e revisões,
antes da hora de tomar chá com torrada.

na saleta, as moças em deâmbulo
falam de michelangelo.

e é certo, o tempo vai chegar
em que se possa perguntar, “eu ousaria?”
tempo para voltar e descer a escadaria,
e a mancha calva no meio da cabeça já se via –
(vão dizer: “como o cabelo dele vai rareando!)
meu fraque e o colarinho bem alto abotoando,
minha gravata honesta e rica, com uma só prega fechando
(vão dizer: mas como as pernas e os braços dele tão afinando!”)
ousaria
o universo perturbar?
num minuto há muito tempo
em que o minuto as decisões e revisões pode abortar.

pois eu já as conheci a todas elas, todas elas –
conheço as noites, tardes e manhãs, até,
eu medi a minha vida em colherinhas de café
conheço as vozes abafadas se apagando
em meio à música de um quarto distante.
como é que eu ia adivinhar?

e eu conheci os olhos todos, todos eles –
os olhos que lhe pregam numa frase formulada,
e quando eu, formulado, num alfinete a estrebuchar,
quando eu estou pregado e me espalhando na parede,
como é que eu ia começar a
cuspir bitucas dos dias e vias?
como é que eu ia adivinhar?

pois eu já conheci os braços todos, todos eles –
braceletados braços, brancos e desnudos
(à meia luz, porém, cobertos com ruiva penugem!)
será o perfume de um vestido
que me faz assim perdido?
braços jogados sobre as mesas, ou nos xales enrolados.
então como é que eu ia adivinhar?
como eu podia começar?

***

e eu direi que andei ruelas pelo anoitecer
que vi a fumaça fugindo dos cachimbos
de uns homens solitários de pijama nas janelas?

eu devia era ter sido um par de diras garras
pairando pelos leitos de quietos oceanos.

***

e o entardecer, o anoitecer, dorme em tanta paz!
por longos dedos acariciado
dormindo… cansado… ou finge dor,
espichado aqui no chão, do meu lado e do seu,
devia eu, depois do licorzinho nesse cálice,
ter força de forçar o instante até seu ápice?
embora eu tenha feito reza, cena e até quaresma,
embora eu tenha visto minha cabeça (já meio careca) trazida na bandeja,
não sou profeta – e aqui deixo pro azar;
eu vi o meu momento de grandeza tremular,
e eu vi o Lacaio eterno com o meu terno e um riso abafar,
e, resumindo, eu tive medo.

e valeria a pena, ao fim de tudo,
das xícaras, do chá e das geleias,
em meio às porcelanas e íntimas trocas de ideias,
teria, ao fim, valido alguma pena
ter encerrado num sorriso nossa cena,
e espremer o universo numa bola
rolá-lo a uma pergunta arrasadora,
dizer “eu sou lázaro, vindo dos mortos
retorno para lhes dizer tudo, direi tudo” –
se então, ajeitando o travesseiro em sua cabeça
alguém dissesse: “não é nada disso tudo;
não é isso, eu juro.”

e valeria a pena, ao fim de tudo,
e valeria alguma pena
depois do pôr-do-sol e das soleiras e das ruas respingadas,
depois dos livros e dos chás, depois das saias que se arrastam pelo chão –
e disso e muito mais então? –
é impossível dizer tudo o que eu quero!
mas como se a lanterna mágica lançasse seus padrões num anteparo:
valeria alguma pena
se alguém, ajeitando o travesseiro ou enrolando um xale,
ao virar-se pra janela, enfim dissesse:
“não foi isso, eu juro,
fui incompreendida em tudo.”

***

não! não sou príncipe hamlet, nem era para ser
sou um nobre figurante, que vai só servir
pra inchar a comitiva, uma cena ou mais abrir,
aconselhar o príncipe, decerto, papel simples,
deferente, feliz por ser de auxílio,
sagaz, meticuloso e precavido;
cheio de frases feitas, mas meio perdido;
às vezes, até, quase ridículo –
às vezes, quase, o Tolo.

envelheço… envelheço…
vou dobrar as barras da minha calça eu mesmo.

ousarei comer um pêssego? reparto meu cabelo pra trás?
vou por calças de flanela branca e sair pra andar na praia.
ouvi o canto das sereias, e cantavam entre si.

não acho que elas vão cantar pra mim.

e as vi cortando as ondas para o mar
partindo as cãs das ondas para trás
quando o vento sopra as alvinegras águas.

passeamos nos palácios do oceano
co’ondinas coroadas de algas rubras
té que com humanas vozes despertando,
morramos afogados.

(trad. rodrigo t. gonçalves, curitiba 08/01/2009//17/05/2012 paris)

 

 

The Love Song of J. Alfred Prufrock – 1917

S’io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo
Questa fiamma staria sensa piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s’i’odo il vero
Sensa tema d’infamia ti rispondo.

Let us go then, you and I,
When the evening is spread out against the sky
Like a patient etherized upon a table;
Let us go, through certain half-deserted streets,
The muttering retreats
Of restless nights in one-night cheap hotels
And sawdust restaurants with oyster-shells:
Streets that follow like a tedious argument
Of insidious intent
To lead you to an overwhelming question . . .
Oh, do not ask, ‘What is it?’
Let us go and make our visit.
In the room the women come and go
Talking of Michelangelo.
The yellow fog that rubs its back upon the window-panes,
The yellow smoke that rubs its muzzle on the window-panes,
Licked its tongue into the corners of the evening,
Lingered upon the pools that stand in drains,
Let fall upon its back the soot that falls from chimneys,
Slipped by the terrace, made a sudden leap,
And seeing that it was a soft October night,
Curled once about the house, and fell asleep.
And indeed there will be time
For the yellow smoke that slides along the street,
Rubbing its back upon the window-panes;
There will be time, there will be time
To prepare a face to meet the faces that you meet;
There will be time to murder and create,
And time for all the works and days of hands
That lift and drop a question on your plate;
Time for you and time for me,
And time yet for a hundred indecisions,
And for a hundred visions and revisions,
Before the taking of a toast and tea.
In the room the women come and go
Talking of Michelangelo.
And indeed there will be time
To wonder, ‘Do I dare?’ and, ‘Do I dare?’
Time to turn back and descend the stair,
With a bald spot in the middle of my hair—
[They will say: ‘How his hair is growing thin!’]
My morning coat, my collar mounting firmly to the chin,
My necktie rich and modest, but asserted by a simple pin—
[They will say: ‘But how his arms and legs are thin!’]
Do I dare
Disturb the universe?
In a minute there is time
For decisions and revisions which a minute will reverse.
For I have known them all already, known them all—
Have known the evenings, mornings, afternoons,
I have measured out my life with coffee spoons;
I know the voices dying with a dying fall
Beneath the music from a farther room.
So how should I presume?
And I have known the eyes already, known them all—
The eyes that fix you in a formulated phrase,
And when I am formulated, sprawling on a pin,
When I am pinned and wriggling on the wall,
Then how should I begin
To spit out all the butt-ends of my days and ways?
And how should I presume?
And I have known the arms already, known them all—
Arms that are braceleted and white and bare
[But in the lamplight, downed with light brown hair!]
Is it perfume from a dress
That makes me so digress?
Arms that lie along a table, or wrap about a shawl.
And should I then presume?
And how should I begin?
. . . . .

Shall I say, I have gone at dusk through narrow streets
And watched the smoke that rises from the pipes
Of lonely men in shirt-sleeves, leaning out of windows? . . .
I should have been a pair of ragged claws
Scuttling across the floors of silent seas.
. . . . .

And the afternoon, the evening, sleeps so peacefully!
Smoothed by long fingers,
Asleep . . . tired . . . or it malingers
Stretched on the floor, here beside you and me.
Should I, after tea and cakes and ices,
Have the strength to force the moment to its crisis?
But though I have wept and fasted, wept and prayed,
Though I have seen my head [grown slightly bald] brought in upon a platter
I am no prophet—and here’s no great matter;
I have seen the moment of my greatness flicker,
And I have seen the eternal Footman hold my coat, and snicker,
And in short, I was afraid.
And would it have been worth it, after all,
After the cups, the marmalade, the tea,
Among the porcelain, among some talk of you and me,
Would it have been worth while
To have bitten off the matter with a smile,
To have squeezed the universe into a ball
To roll it toward some overwhelming question,
To say: ‘I am Lazarus, come from the dead,
Come back to tell you all, I shall tell you all’—
If one, settling a pillow by her head,
Should say: ‘That is not what I meant at all.
That is not it, at all.’
And would it have been worth it, after all,
Would it have been worth while,
After the sunsets and the dooryards and the sprinkled streets,
After the novels, after the teacups, after the skirts that trail along the floor—
And this, and so much more?—
It is impossible to say just what I mean!
But as if a magic lantern threw the nerves in patterns on a screen:
Would it have been worth while
If one, settling a pillow or throwing off a shawl,
And turning toward the window, should say:
‘That is not it at all,
That is not what I meant at all.’
No! I am not Prince Hamlet, nor was meant to be;
Am an attendant lord, one that will do
To swell a progress, start a scene or two
Advise the prince; no doubt, an easy tool,
Deferential, glad to be of use,
Politic, cautious, and meticulous;
Full of high sentence, but a bit obtuse;
At times, indeed, almost ridiculous—
Almost, at times, the Fool.
I grow old . . . I grow old . . .
I shall wear the bottoms of my trousers rolled.
Shall I part my hair behind? Do I dare to eat a peach?
I shall wear white flannel trousers, and walk upon the beach.
I have heard the mermaids singing, each to each.
I do not think that they will sing to me.
I have seen them riding seaward on the waves
Combing the white hair of the waves blown back
When the wind blows the water white and black.
We have lingered in the chambers of the sea
By sea-girls wreathed with seaweed red and brown
Till human voices wake us, and

(t. s. eliot)

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