entrevista

Entrevista com Tarso de Melo

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Montegem: Ari Felipe Miaciro. Foto original: David Wigg entrevista Freddie Mercury, 1986.

a série das entrevistas feitas por muá strikes again. para ver as outras clique aqui. sem muita enrolação desta vez, passo logo a palavra ao tarso de melo.

sergio maciel

 

* * *

SM – Num ensaio publicado na revista Germina, o Adriano Scandolara repensa toda uma relação entre “poesia”, “mito”, “modernidade”, “poetas” &c. Ele fecha o ensaio, aliás, dizendo o seguinte: “E refletir sobre isso, mais do que repetir automaticamente os velhos clichês sobre a herança xamânica da poesia – do poeta como o legislador não-reconhecido do mundo, antena da raça, aquele que purifica as palavras da tribo, etc., etc. – é a tarefa que, mais do que nunca, recai sobre o poeta escrevendo hoje”. Dito isto, me interessa saber como você vê a posição e o espaço do poeta (e da poesia) hoje; se você acha que há alguma “tarefa/função” a ser cumprida por quem se arrisca a escrever nestes tempos. Trocando em miúdos, qual é, pra você, “a tarefa que, mais do que nunca, recai sobre o poeta escrevendo hoje”?

TM – Ao menos para mim, é inevitável, enquanto lemos e escrevemos poemas, ficar à sombra da imensa questão “por que poesia?”, mas acredito que qualquer resposta que eu dê será sempre precária, porque as diversas formas históricas como a poesia apareceu sempre foram, de alguma maneira, respostas novas para essa questão e, principalmente, renovações da própria questão. E não penso o “por que poesia?” apenas com relação à escrita pessoal dos poemas, penso-o muito mais até pela necessidade que em mim sempre foi grande e é crescente de ler poemas, de saber o que dizem os poetas pelo mundo, pelo tempo, nas línguas que desconheço completamente. E eu acho que isso até mesmo facilita o convívio com a questão “por que poesia?”, porque não vejo diante dela a possibilidade de responder que não serve para nada, que não tem função alguma. Parto da constatação positiva – a poesia serve para algo, sim – e multiplico suas possibilidades: a poesia serve para algoS, sim. A poesia serve. No mínimo: me serve e serviu a autores e leitores durante todos esses séculos de poesia. Em certa medida, porque registra uma certa experiência histórica, comunica-a com um possível leitor próximo e com o mais inimaginável leitor do futuro, mas também porque responde às grandes questões que a vida nos coloca em momentos diversos, expande tais questões muitas vezes e se projeta para experiências distantes, talvez até ganhando mais força. Enfim, essa minha resposta confusa para “por que poesia?” é também em grande medida minha resposta para “o que é poesia?”. E conheço poucas coisas tão úteis quanto a poesia.

SM – Retiro um trecho aqui da entrevista que fiz com o poeta Ismar Tirelli e lanço a pergunta a você: “Diante da notícia constante do horror, não da vivência, porque a vivência do horror talvez ainda custe um bocado a chegar até nós, uma articulação sintática perfeita faz senso ainda? Este é o momento em que deveríamos ser o mais claro possível ou que deveríamos tentar plasmar na página a confusão de não conseguir abarcar o acontecimento? Ou seja, que diabos seria um poema escrito agora? Ele é dizível? Ele é legível? Se ele possui a menor conexão com a experiência vivida – e eu acho que tem, porque ele não é apenas um joguete lógico nas mãos dos racionalistas de plantão –, se ele ainda tem que ver com a vida, então, como deve ser agora?”

TM – Sempre me chamou atenção que alguns dos poemas mais tristes com que me deparava eram construídos rigorosamente, até mesmo “friamente”, ou seja, sem deixar que o sentimento bruto que inspirou o poema implicasse uma brutalização da forma, por assim dizer. E não há aí, em tese, um problema no poema, uma falha, uma acusação de falsidade ou fingimento. Pelo contrário, porque às vezes é no controle da forma que o poeta consegue intensificar a mediação que pretende criar entre um determinado objeto e o leitor de seu poema. João Cabral, por exemplo, em seus poemas sobre as touradas, sempre me fez pensar nisso. Hoje, no entanto, se fazemos poemas em meio ao horror (social, político, pessoal, que seja), como ademais muitos poetas sempre fizeram, a única certeza que me parece existir é que a poesia tem infinitas formas de lidar com isso, de impactar e de deixar-se impactar. Algum juízo sobre essa relação entre articulação sintática e realidade, a meu ver, só dará conta das formas como historicamente tal relação se deu, mas jamais antecipará ou bloqueará as possibilidades que os próprios poetas podem abrir. Surpreendentemente, como costumam fazer.

SM – Repito aqui uma pergunta que você costumou fazer no seu blog: indique um poema que lhe parece, hoje, especialmente fazer todo o sentido. Por quê?

TM – Eu gosto de muitas coisas, muitas mesmo, entre o tanto de livro que tem saído (e consigo ler, claro), mas posso destacar com facilidade, nos últimos tempos, o poema “Conheço vocês pelo cheiro”, do Ricardo Aleixo (está no mais recente livro dele, “Impossível como nunca ter tido um rosto”, de 2015). Por que o destaco em meio a tantos bons poemas e poetas? Porque é um poema que me parece reunir, com precisão, o melhor domínio da linguagem e uma aguda crítica social. É comum, infelizmente, ver essas duas faces andando separadas, mas o Aleixo, não apenas neste poema, encontra uma associação das mais eficientes entre a forma dura do poema e a porrada que pretende transmitir.

Conheço vocês pelo cheiro
(Ricardo Aleixo)

Conheço vocês
pelo cheiro,

pelas roupas,
pelos carros,

pelos aneis e,
é claro,

por seu amor
ao dinheiro.

%

Por seu amor
ao dinheiro

que algum
ancestral remoto

lhes deixou
como herança.

Conheço vocês
pelo cheiro.

%

Conheço vocês
pelo cheiro

e pelos cifrões
que adornam

esses olhos que
mal piscam

por seu amor
ao dinheiro.

%

Por seu amor
ao dinheiro

e a tudo que
nega a vida:

o hospício, a
cela, a fronteira.

Conheço vocês
pelo cheiro.

%

Conheço vocês
pelo cheiro

de peste e horror
que espalham

por onde andam
– conheço-os

por seu amor
ao dinheiro.

%

Por seu amor
ao dinheiro,

deus é um
pai tão sacana

que cobra por
seus milagres.

Conheço vocês
pelo cheiro.

%

Conheço vocês
pelo cheiro

mal disfarçado
de enxofre

que gruda em
tudo que tocam

por seu amor
ao dinheiro.

%

Por seu amor
ao dinheiro,

é com ódio
que replicam

ao riso, ao gozo,
à poesia.

Conheço vocês
pelo cheiro.

%

Conheço vocês
pelo cheiro.

Cheiro um e
cheirei todos

vocês que só
sobrevivem

por seu amor
ao dinheiro.

%

Por seu amor
ao dinheiro,

fazem até das
próprias filhas

moeda forte,
ouro puro.

Conheço vocês
pelo cheiro.

%

Conheço vocês
pelo cheiro

de cadáver
putrefato que,

no entanto,
ainda caminha

por seu amor
ao dinheiro.
SM – Você tem uma definição pessoal sobre o que é poesia? Se sim, como a partir dela você concebe seus poemas, seu ato de escrita e o próprio papel (e aqui quero focar na questão política e estética) de sua poesia?

TM – A minha definição de poesia se aproxima cada vez mais de uma antidefinição: cada poema, à sua maneira, define e redefine o que é poesia. Não subscrevo nenhuma definição teórica do que seja poesia como válida universalmente. As melhores definições que conheço são grandes provocações à aventura da poesia – de sua escrita e principalmente de sua leitura. Na história da poesia encontramos as mais radicais reinvenções do que a poesia pode ser do ponto de vista formal e também do conteúdo. Em alguma medida, nesses momentos de insurgência de um poeta contra o que lhe diziam ou impunham que poesia deve ser é que encontramos alguns dos principais feitos dos poetas. E aí, para mim, é indiscernível o aspecto estético do aspecto político, não apenas pelo inconformismo inerente à criação, mas também pela resistência implicada na manutenção da ideia de que a poesia é um uso da linguagem indispensável do ponto de vista existencial, cognitivo, social etc. Meus poemas, por fim, são marcados por essa indefinição proposital do poético, ainda que, do ponto de vista particular (até aqui, ao menos), eles pareçam se mover num espaço bem mais delimitado do que minha resposta leva a crer.

SM – Isto não é lá bem uma pergunta, é mais como um pedido. Eu gostaria que você fizesse um panorama da poesia que lhe é contemporânea, porque me interessa saber como você encara e define “a poesia (e os poetas) da tua geração, do teu tempo”, os teus pares. Me interessa saber, também, quais poéticas estão te atraindo e ocupando teu tempo. Chamo à roda, para expor os próprios caminhos de leitura, o Tarso crítico.

TM – Me sinto cada diz mais distante da figura do “crítico de literatura”, no sentido acadêmico que ganhou preponderância nos últimos tempos. Por várias razões, inclusive de ter feito um caminho muito particular na leitura de poesia, ditada mais por necessidades imediatas e paixões momentâneas do que pela sistematicidade que se espera de um crítico ou teórico da literatura. Não tenho formação em Letras. Brinco que tenho formação em sebos e mesas de bar, lendo na medida da fome e da sede que me acometem a cada época (e isso só piora…). E isso vale também, claro, para a forma como leio a poesia que se lança por aqui a cada dia. Leio tudo o que posso, mas sei que é bem pouco diante do tanto de livros que saem no país todo. Tenho acesso, portanto, a uma fatia desse panorama e, com relação a essa fatia, posso dizer que minha avaliação é positiva, quero dizer, grande parte do que leio me agrada muito. Mais do que “me agrada”: percebo que temos poetas, das mais variadas idades e regiões do país, reagindo de formas muito ricas ao estágio que vivemos, dentro da poesia, mas principalmente da nossa sociedade. Poetas que conseguem trazer para a página a tensão renovada da nossa época, aquela sobre a qual nenhum poeta do passado poderia ter falado especificamente (ainda que muito tenham a dizer sobre ela à distância, como Drummond diz tanto ainda sobre nosso tempo), o que indica mais uma vez a necessidade desses poetas que têm surgido. Enfim, não subscrevo os juízos negativos que alguns têm difundido a respeito da poesia do nosso tempo, mesmo dos poetas mais jovens. Não gosto de tudo, claro, talvez me apegue muito a bem pouco, mas há poetas realmente excepcionais lançando livros neste momento. Prefiro não nomeá-los, mas a Escamandro, por exemplo, tem sido o ponto de encontro deles.

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poesia

tarso de melo

tarso_de_melo

Tarso de Melo (Santo André, 1976) é autor de Caderno Inquieto (Dobra, 2012), seu sexto livro de poemas. É advogado e professor universitário, com doutorado em Filosofia do Direito pela USP.

Abaixo, um dos poemas presentes na primeira edição impressa do escamandro, a ser publicada em breve.

PS: confirma mais poemas de Tarso de Melo, junto de um pequeno comentário crítico ao seu Caderno Inquieto, clicando aqui.

escamandro

           

3.

na calçada, nos rios, na turba,
no céu, nas sombras, na carne:
você diz ter medo e preme
aos cacos
os dias, as noites, as palavras
que um dia entregaria

você (seu próprio homem-do-saco,
sua íntima loira-do-banheiro)

agarrado, mais e mais,
aos galhos, como fiapos,
que impedem o abismo
de engolir os voos
de sua infinita
fuga

(Tarso de Melo)

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crítica, poesia

Alguns poemas sobre mendigos

foto de Ricardo Pozzo

foto por Ricardo Pozzo

A ideia me ocorreu outro dia, no ônibus, e me dei conta de que alguns poetas contemporâneos, especialmente poetas que trabalham com a questão da urbanidade e cuja produção muito me agrada, tinham pelo menos um poema sobre a temática do mendigo. Não sei dizer agora o quanto se estuda isso, de fato, se o mendigo realmente constitui um lugar comum recorrente na literatura, mas a curiosidade me pareceu interessante, digna, ao menos, de uma postagem no escamandro. Não lembro de muitas menções na literatura clássica ao mendigo, embora tenha claro nesta memória falha o episódio da Odisseia em que Ulisses se passa por mendigo (com ajuda de Atena) para entrar em Ítaca despercebido, e que os filósofos da estirpe de Diógenes (que morava, como o Chaves, num barril) e Menipo (que deu origem ao gênero literário da sátira menipeia) viviam como mendigos e formavam a escola dos filósofos cínicos (do grego kynos, “cão”). Na literatura moderna, eu sei que Victor Hugo e Shelley têm cada um pelo menos um poema curto e de tom meio sentimental a respeito (“Le Mendiant” e “Summer and Winter”, respectivamente), Castro Alves aproxima a figura do poeta e do mendigo em “Poesia e Mendicidade” (“Tasso implora um olhar! Vai Ossian mendicante… / Caminha roto o Dante! e pede pão Camões.”), Cruz e Souza lhes dedica um poema inteiro, repleto de suas imagens simbolistas e transcendentais, e Baudelaire, em seu “A uma mendiga ruiva”, faz da figura um alvo de sua luxúria imaginada (depois revisita o tema da mendicância nos poemas em prosa de Spleen de Paris). E há também o choque de Manuel Bandeira no poema “O Bicho” (nos comentários), ao constatar que o que fuçava no lixo não era cão, gato ou rato, mas um homem. Já Wordsworth, notavelmente, nos quase 200 versos de seu “The Old Cumberland Beggar”, compõe o que deve ser provavelmente o retrato mais jubilante da figura do mendigo da história da literatura. Wordsworth, “poeta da natureza”, como é chamado, e um dos poucos poetas que escreveram sobre a alegria, vê num velho mendigo – evidentemente um andarilho mais rural do que urbano, comendo seus restos de comida (junto com os passarinhos) ao lado da estrada – a figura do homem natural, um homem em comunhão com a natureza, que foi desde o começo de sua produção o foco de sua melhor poesia. E, mais do que isso, havia também um sentido ético na visão de Wordsworth desse homem natural, na medida em que a situação abria portas para bons atos em relação ao mendigo, atos de caridade que faziam dele, portanto, um veículo de benevolência. É um belíssimo poema de Wordsworth, que esperamos apresentar em breve aqui no escamandro em tradução minha ou talvez do Guilherme.

É claro, no entanto, que, num cenário urbano, as coisas mudam muito de figura. Wordsworth, escrevendo nesse momento muito próximo da modernidade, mas anterior ainda à completa urbanização, teve uma das poucas oportunidades para realmente se escrever poesia séria sobre a natureza (ao passo que o que nos resta hoje é a nostalgia, o bucolismo retirado ou o ativismo ecológico). Poderíamos, talvez, pensar no mendigo no cenário urbano como uma figura que encarna completamente a urbanidade (ainda que, paradoxalmente, eles se encontrem fora do sistema frenético de produção e consumo das cidades) do mesmo jeito que o mendigo rural de Wordsworth pode ser visto como um “homem natural”: a sujeira das cidades se encrusta neles, os lugares que para nós são locais de passagem são onde eles dormem e veem a vida passar, a indiferença que domina a vida empilhada em apartamentos se manifesta neles simultaneamente no modo como se pode vê-los dormir, sem perturbações, debaixo do pleno sol do meio dia, e no modo como a indiferença de boa parte dos passantes faz com que, aos seus olhos, eles sejam não mais do que parte da paisagem (quando não um incômodo ou ameaça). Mas há vida ainda por baixo dos trapos (existem mendigos esquizofrênicos e drogados, claro, mas eu arrisco dizer que a maioria é lúcida, muito lúcida), como uma prova da resistência e persistência do humano – e, algo sombriamente, uma lembrança constante de que qualquer um está sujeito aos riscos de ser engolido pela cidade e tornar-se parte dela à força.

foto por Ricardo Pozzo

foto por Ricardo Pozzo

Pensando nisso, preparei uma pequena seleção aqui de poetas contemporâneos que, de maneiras todas muito distintas, abordaram o tema dentro de sua obra. Incluo, então, em ordem alfabética de sobrenome, poemas de: Francisco Alvim, de O Metro Nenhum (2011, Cia das Letras); Fabiano Calixto, de Sanguínea (2007, Editora 34); do nosso colega de escamandro Guilherme Gontijo Flores, do seu livro no prelo Brasa enganosa (2013, Editora Patuá), do Tarso de Melo (cujo último livro comentamos já aqui, enquanto estava no prelo, e já foi lançado), de Exames de Rotina (2008, Editora da Casa), Paulo de Toledo, de 51 Mendicantos, um livro de poemas curtos (de 3 versos apenas cada um), todos inspirados por essa temática (2007, Editora Éblis) e, por fim, Dirceu Villa, de Icterofagia (2007, Editora Hedra). Para dar um aspecto mais focado ao post, desta vez me concentrei especificamente em poetas brasileiros contemporâneos, por isso Wordsworth e Baudelaire ainda vão ter de esperar a sua vez. Provavelmente esqueci alguns nomes para cada um de quem lembrei (mea culpa), mas a internet infelizmente falha conosco nessas horas, e uma pesquisa acabou me levando a poemas absolutamente terríveis.

Não vou me demorar aqui em fazer uma crítica profunda sobre os poemas, até porque falar de cada um daria assunto para páginas e páginas de texto, mas gostaria de apontar neles para algumas coisas de que tratei acima, a fim de, primeiramente, afirmar mais uma vez a diversidade dos modos de tratamento de cada um desses poetas, e, em segundo lugar, demonstrar que não tirei do chapéu as coisas que disse acima. Podemos observar a transformação do homem em mera paisagem no poema fúnebre de Calixto, cuja declaração de que “antes da chuva,  o mendigo / já estava morto” traz sugestões dolorosas de morte em vida em sua apropriação pela cidade, ao mesmo tempo em que o poema de Tarso de Melo aponta para o contrário: “pedra fundida à calçada? não, há fôlego nos andrajos”, uma afirmação da vida que “persiste” (como é o próprio verbo usado pelo poeta no verso final), mesmo nessas condições extremas. Dirceu Villa faz um vívido retrato visual dos mendigos, focado na sujeira e repleto de imagens fortes (como a das árvores secas como “mãos esqueléticas” e a da calçada bebendo os corpos dos mendigos, à noite), algo também explorado pelo Gontijo, ao se concentrar na imagem de um único mendigo (em vez de mendigos) confrontado por um eu (ainda que seja um eu bastante sublimado e ausente no próprio texto), que o destaca sensoriamente da paisagem ao fundo (como se essa paisagem fosse um mar, e o próprio título “ptokhos anadyomenos” ecoa isso, significando, em grego, “mendigo saído do mar”, uma paródia do título da Vênus Anadiômene) e enxerga na cena toda uma visão transcendente. Já o foco de Paulo de Toledo é no humor, trabalhando com o trocadilho (numa das instâncias em que essa técnica, tão explorada já, consegue funcionar e bem) e uma forma de riso que lembra o leitor de que, como parte de sua humanidade, é possível manter o senso de humor na mendicância (o que aparece sobretudo nos poemas do livro que dão voz ao mendigo) como forma de persistência, ao mesmo tempo em que essa ironia acaba ressaltando a situação de negligência e abandono – fazendo com que seja um uso doloroso do humor, especialmente em poemas como “globalizado”. Por último (e primeiro), Francisco Alvim, num poema tão curto quanto os mendicantos do Paulo, acaba, talvez não conscientemente, sendo quem mais se aproxima de Wordsworth, agradecendo a quem lhe pede esmola pela oportunidade de realizar um ato de benevolência, que tira o eu-lírico do poema de seu estado de distração com o mar cinzento e homogêneo da paisagem urbana e o aproxima de uma maior humanidade, enquanto ele próprio no poema humaniza o pedinte – é, talvez, só uma suposição minha, mas me parece razoável – ao dar-lhe um nome próprio, Roberto, e dedicar o poema a ele.

A temática é mendicante, mas, ao que tudo indica, não sofremos, ao menos, de uma indigência de boa poesia.

(Adriano Scandolara)

em-casa-de-menino-de-rua

 

Acontecimento

                                    Ao Roberto

Quando estou distraído no semáforo
e me pedem esmola
me acontece agradecer

(Francisco Alvim)

         *

UMA PAISAGEM DE SÃO PAULO

antes da chuva, o mendigo
já estava morto

(uma flor suja – pétalas
despencando de sua camiseta – sua

única coroa)
antes da morte

o viaduto já abarrotava
antes da enchente

a boca já estava cheia
de sangue, de formigas,

de
granizo

(Fabiano Calixto)

         *

PTOKHOS ANADYOMENOS

quando atravessa a esquina
o olhar como que escapa
do amontoado
                         casa-ambulante
de mantas panos mantras
delirantes
                  que acaso brotam
em seu murmúrio

nos passos emerge & chacoalha
as moedas na mão
                  (que as do bolso se escondem
                  num diverso tilintar)
o seu cheiro resplende
no asfalto
                calando
as olências dos outros perfumes

& desse mar emerge
forjando em seu talhe
a súbita imagem de um monge
            mendicante

(Guilherme Gontijo Flores)

         *

FÓSSIL

pedra fundida à calçada? não, há fôlego nos andrajos,
algo respira embaixo, dentro, através dessa carcaça,
a luz não reflete, o cheiro não chega até aqui, ruído
algum escapa da manta ensopada, da peça de carne
exposta diante da imensa porta fechada da catedral.
depois, apenas depois do último trem, dos últimos
passos, dos últimos olhos e medos e sustos passarem,
algum movimento, urros, alguma nova migração
pelo centro da cidade denunciará o que persiste.

(Tarso de Melo)

         *

o papel do jornal

o vento investe contra o lar do
mendigo e seu teto voa junto
com a manchete: alta do dólar

globalizado

a tv o mendigo olha
na tela o reflexo dele
desculpem a nossa falha

que eme!

no lixão um mesquinho minidicionário
mostra ao mendigo que a miséria
infelizmente vem antes da misericórdia

(Paulo de Toledo)

         *

OS MENDIGOS

Eles imploram diante dos carros,
vivem com ratos nas vias expressas;
erguem barracos entre as árvores
secas de poluição, como mãos esqueléticas.
O sabor da fuligem, o espesso cinzento
dos escapamentos de metal fervente
direto no rosto com fendas de calor:
arrastam trapos que fedem a excremento.
Crianças com cabelos emplastrados;
que olhares mortais na doçura redonda
do rosto! Têm dentes que fraturam um osso.
À noite as calçadas bebem seus corpos,
vultos das bocas-de-lobo e esgotos;
bêbados dormem, coçam os escrotos.

(Dirceu Villa)

PS: para quem chegou agora, há toda ainda uma riqueza de poemas e crítica nos nossos comentários abaixo, com poemas ainda de Fabio Weintraub, Alberto Martins e Alberto da Cunha Melo, cortesia do poeta Rodrigo Madeira.

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crítica, poesia

notas sobre o caderno inquieto de tarso de melo

onde se lê espanto,
espante-se
(tarso de melo, “aula (2)”)

tarso de melo (santo andré, 1976) tem uma das obras que eu mais admiro na poesia contemporânea brasileira. além de impressionar pelos poemas, o que mais chama atenção – a meu ver – é o percurso. tanto o percurso interno dos livros, onde estão cada um dos poemas, quanto o percurso maior entre os livros, entre o primeiro a lapso (1999) & o último lançado exames de rotina (2008). esse percurso é marcado por uma crescente concretude (nada de concretismo) da linguagem e dos temas – tarso faz parte de uma tradição de embate com o espaço urbano, de confrontamento direto com o presente, em que a poesia não serve de subterfúgio, escapatória, ou salvação. talvez ela seja para ele como a filosofia para adorno (“da filosofia só cabe esperar, na presença do desespero, a tentativa de ver todas as coisas tal como se apresentam do ponto de vista da redenção” e mais adiante “mesmo a sua impossibilidade tem que ser compreendida por ele em nome da possibilidade”, minima moralia, 153). ora, essa redenção não vai se dar na abdução salvatória, nem na paz facilitada pela harmonia dos contrastes. é nesse mundo em conflito, permeado de dor e do desejo de poesia, que sua poesia caminha. eu diria que, dos poetas brasileiros atuais que tentam esse confronto mais direto, como donizete galvão (de o homem inacabado), eduardo sterzi (de aleijão), fabiano calixto (de sanguínea) & dirceu villa (de icterofagia) – cada um bem do seu jeito, a bem da verdade) -, tarso é o que mais incomoda, porque vai direto na ferida, cada vez mais direto, sem o contorno do inefável ou do “poético”.

é aqui que entra o seu caderno inquieto (no prelo, pela dobra editorial). pra quem pode ou pôde conferir seu percurso, este livro – este nem livro, este caderno, um ato sempre inacabado de anotações – avança. e aqui eu poderia comparar sua inquietude com a de outra figura, claudia roquette-pinto, ambos pela inquietude constante da escrita que parece funcionar como uma apresentação de problemas, tentativa de respostas, com surgimento de novos problemas que por sua vez engendram a necessidade de um novo livro com suas novas perguntas, respostas e subsequentes novos problemas, num ciclo inacabável, típico do caderno. por isso selecionamos 3+1 poemas aqui. 3 poemas capazes de indicar esses novos problemas – basta ver como em “metal” o processo construtivo do automóvel ultrapassa o mero desgaste humano do operário, mas é a própria consunção desse homem, o seu corpo metamorfoseado em objeto & depois em mercadoria & fetiche, sem qualquer vislumbre de síntese harmônica. já em “escritas” & “welby”, a poesia aparece como tema central, mas de modo diverso, em sua relação com o mundo – uma relação fracassada, de certo modo, mas simultaneamente necessária; ou uma perspectiva da redenção impossível, ou um questionamento sobre a possibilidade de determinação desse fracasso, ou ainda: esse fracasso como incorporado e afirmativo, como necessidade de por na linguagem um lugar da perda.

eu poderia me alongar mais na discussão de cada um dos 3 poemas, mas o modus do blog não permite discussões com a profundidade que elas podem merecer. o blog é intencionalmente a ponta do iceberg (we’d rather have the iceberg than the ship), ponto de provocação à leitura e ao debate. por isso esse +1, “bar do pudim”, poema dedicado ao espaço do blog, derivado da cerveja e das conversas que pudemos trocar para além das pontas soltas. nesse para-além da literatura que toda boa literatura parece indicar que seja o fundamental.

guilherme gontijo flores

3 poemas

METAL

a cada dia um pouco da mão fica nas alavancas,
os cabelos incorporam às engrenagens, renascem
os seus dentes nas roldanas, manivelas instigam
e depois sugam seus músculos, a boca da máquina
cospe braços, pernas, grita sua canção monótona,
o suor lubrifica as polias, ferve os sulcos do parafuso
(ideias agora são de aço, o sonho mora no alumínio)

o dia todo se consome nessa troca;
                                                         gasta, a vida
em breve vai cruzar a cidade desfeita em cem cavalos,
em brasa, trocada por mil e quinhentas cilindradas

ESCRITAS

você sabe, entre as flores
não há qualquer tormento
não há dor, não há perda
não há muito o que temer
espinho é só espinho
uma pétala a mais, outra a menos
e tudo segue assim, jardim
engolindo a si mesmo

nem a flor outra, esta que
desce agora à terra, ponto final
na frase alheia, é mais
que uma espécie de dor
a cobrir-se de pedra
e esquecimento

WELBY

nunca li um poema seu,
Piergiorgio Welby,
nem sei se o jornal diz bem
como vinha sendo a tortura
ou por que você escolheu sair
do hospital – e da vida –
pela porta inevitável

não sei se vai fazer falta
o funeral ou se as prometidas
rezas vão ajudar na salvação
de quem fez algo inaceitável,
agora que o computador perdeu
seus olhos, agora que a distrofia
vai esquecer seus músculos

mas será, Welby, que o poema
– não o poema qualquer,
sobre o papel qualquer,
com quaisquer palavras,
mas o poema final, o sinal
último e inconfundível
de que o combate não interessa
– pode decidir, como a vida,
onde acaba o seu sentido?
+ 1

BAR DO PUDIM

deixem Curitiba em paz,
suas esquinas, guias, seus postes
não precisam de outras rimas
deixem Curitiba dormir, polida
pelo verso antigo, modelo disso
e daquilo, rima rica, obra-prima

Curitiba cabe num copo
ou dois, Curitiba não é mais
que esta mesa, sempre a mesma,
Curitiba não vai além desta escolta
honrosa garrafa a garrafa
(é fácil perder Curitiba
entre as notas do caderno
ou da carteira, entre as noites
baças, curvas, entre os bares
cheios de vultos polacos)

Curitiba não muda, não cala
nem diz mais que a frase pisada
em que os mortos se encontram
e anulam, Curitiba é suja
e lava-se nas manhãs sem culpa

[para os escamandristas]

(tarso de melo)

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crítica de tradução, poesia, tradução

7 + 4 vermelhos carrinhos de mão (william carlos williams)

se pensarmos a tradução (segundo a já famosa metáfora) como a foto de uma estátua, sempre capaz de resolver uma  parte da sua tridimensionalidade, mas também sempre incapaz de esgotar as possibilidades de visão do original, ficamos com dois belos corolários:

1 – como a foto, a tradução é uma outra arte, que em grande parte vale por si só, mesmo quando aponta para uma obra que tenha um apelo próprio e que não se esgote na foto. o que se busca na experiência com a foto e com a escultura não deve ser resumido na mera correlação de igualdade – é a própria diferença que legitima a existência da tradução e, portanto, uma tradução perfeita não seria de fato tradução.

2 – todo original pede um número infinito de traduções, não só das várias línguas, mas de cada língua. e, ao contrário do que postula benjamin, as traduções reativam o gatilho e pedem, cada uma, novos infinitos tradutórios: a tradução (ou pelo menos a boa tradução) é traduzível, um novo convite ao traduzir.

e assim chegamos à poesia de william carlos williams. o poema the red wheelbarrow é um clássico na sua singeleza, ou melhor, na sua falsa singeleza; & como tal já recebeu um bom número de traduções em português. eu pude achar 4 (josé paulo paes, josé agostinho baptista, haroldo de campos e luís dohlnikoff), que me incentivaram a fazer a minha e a cooptar mais dois tradutores (nosso já conhecido coeditor adriano scandolara e o em breve postado felipe paradizzo).

o plano, é claro, não é fazer uma competição pela melhor tradução do poema. creio que os pontos 1 e 2 deixam isso implícito, mas preferi a redundância para evitar a má fé dos maus entendedores.

mesmo assim, estas 3 novas traduções vêm com uma breve justificativa do tradutor, com o intuito de demarcar sua historicidade, o porquê de uma outra tradução, como ela pode se inserir nesse corpus como nova foto, nova obra.

THE RED WHEELBARROW



so much depends
upon



a red wheel
barrow



glazed with rain
water



beside the white
chickens.

(william carlos williams)

* * * 

O CARRINHO DE MÃO VERMELHO

tanta coisa depende
de um

carrinho de mão
vermelho

esmaltado de água de
chuva

ao lado das galinhas
brancas.

(trad. josé paulo paes)

* * *


O CARRINHO DE MÃO VERMELHO

tanta coisa depende
de

um carrinho de mão
vermelho

reluzente de gotas de
chuva

ao lado das galinhas
brancas.

(trad. josé agostinho baptista)

* * *

O CARRINHO DE MÃO MARROM

Tanta coisa depende
desse

carrinho de mão
marrom

reluzindo sob a
chuva

junto às galinhas
brancas.

(trad. luís dohlnikoff)

* * *

CARRINHO DE MÃO VERMELHO

tanto depende
de um

carrinho de mão
vermelho

vidrado pela água
da chuva

perto das galinhas
brancas.

(trad. haroldo de campos)

* * *

CARRIM DE MÃO

tanto depende
de um

carrim de
mão

no verniz da
chuva

entre os frangos
brancos.

(trad. guilherme gontijo flores)

ao analisar o poema, notei que ele se dupliestruturava: por um lado, visualmente, com suas 4 estrofes de 2 versos e sempre uma palavra apenas no segundo verso. porém simultaneamente, uma estrutura melódica dava harmonia ao poema, ele pode ser lido como apenas 2 versos decassilábicos: so much depends upon a red wheel barrow / glazed with rain water beside the white chickens. apesar do alongamento do português, tentei manter esse aspecto rítmico; para tanto, optei pelo oral “carmim” por dois motivos: manutenção do metro (sabendo que certo oralismo não seria completamente estranho à poesia de wcw), e pelo fato de carrim ser um quase anagrama perfeito de carmim, onde poderia estar o “vermelho” desaparecido da minha tradução.

* * *

O CARRINHO VERMELHO DE MÃO

tanto depende
de um

carrinho vermelho
de mão

lustroso d’água
da chuva

ao lado do branco
dos frangos

(trad. adriano scandolara)

“Minha justificativa é a da quebra de versos. Nas 3 últimas estrofes do poema, o Williams cria um esquema de fazer um verso mais longo onde o enjambément cria uma expectativa que não se cumpre totalmente no verso mais curto a seguir. Aí, em vez da roda vermelha (the red wheel), tem-se o carrinho de mão vermelho: o leitor espera uma coisa, mas vem outra, e assim o ritmo da leitura fica mais irregular, meio soluçante. O mesmo vale para a chuva da 3ª estrofe, que não é a chuva caindo, mas uma água de chuva parada, que deixa o carrinho lustroso, e para o branco da última estrofe, que só revela ser das galinhas no último verso e cria um efeito de contraposição de cor com o vermelho do 3º verso.”

* * *

O CARRINHO DE MÃO VERMELHO

Tanto depende
de

um carrinho de mão
vermelho

orvalhado com água
de chuva

ao lado das galinhas
brancas.

(trad. felipe paradizzo)

“Minha tentativa foi reproduzir a relevância da imagem para o poeta norte americano em alguns detalhes da tradução. Acredito haver nas três últimas estrofes, blocos de imagens que se articulam entre si e orbitam “um carrinho de mão vermelho”, além de também oferecem às fortes imagens de WCW singularmente. Por isso, optei por manter o artigo indefinido na segunda estrofe, a fim de marcar a singularidade da imagem poética em questão. Quanto ao “orvalhado” na terceira estrofe, tomei a liberdade de deslocar o sentido da palavra inglesa “glazed”, em busca da imagem cotidiana de Williams, trazendo o adjetivo o mais próximo possível do cenário, da imagem.”

* * *

o convite a novas traduções/justificativas/comentários/críticas fica a partir de agora aberto ao infinito

APÊNDICE: 4 novas traduções.

O VERMELHO CARRINHO DE MÃO

muito depen-
de

um vermelho carrinho
de mão

vitrea da
chuva

ao lado dos brancos
frangos

(trad. leonardo MAthias)

“Procurei destacar, na tradução, o fator relacional entre versos e estrófes, responsável pela mutação nos sentidos da leitura. O peoma parece, a cada palavra posteriormente lida, estar constantemente se auto-descontextualizando. Aínda, foi preciso manter um certo caráter ruidoso, presente no poema original, qual potencializa as possibilidades sintéticas misteriosas, inerentes ao magnetismo estranho de suas peças e espaços.”

* * *

O RUBRO CARRINHO

tanto depen-
de de um

rubro carri-
nho

molhado de
chuva

lá com as gali-
nhas brancas

(trad. rodrigo gonçalves)

“mímese de som e ritmo, imagem e concisão. exercício de sintese. ludus.”

* * *

A CARRIOLA VERMELHA

há muito a pesar
sobre

a vermelha
carriola

lustrada pela
chuva

entre brancos
frangos.

(trad. tarso de melo)

segundo o próprio,  “uma tradução injustificável”!

* * *

CARRIM-DE-MÃO VERMEIO

tanta coisa depende
dum

carrim-de-mão
vermeio

moiado da
chuva

do lado dos frango
branco.

(trad. daniel martineschen)

“Sei lá, pensei no que diria um pedreiro (ou eu mesmo na reforma de casa), logo após parar de chover e o sol brilhar de novo, ao ver umas galinhas que saíram pro terreiro pra tomar sol depois da chuva. simplicidade, oralidade (bem curitibana, eu diria), brincadeira sem ofensa. e descaradamente roubei a opção do guilherme por ‘carrim’.”

* * *

guilherme gontijo flores

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