Louise Glück, por Adalberto Müller e Thiago Ponce de Moraes

The Poet Louise Glück Talks About Winning the Nobel Prize in Literature -  The New York Times

Como todo mundo atento ao momento já sabe, a poeta norte-americana Louise Glück acaba de ganhar o prêmio Nobel de literatura. Apesar de não ter nenhum livro publicado no Brasil, ela já vinha chamando atenção de gente ligada, por isso publicamos aqui traduções feitas por Thiago Ponce de Moraes e Adalberto Müller, duas figuras que já contribuíram com a escamandro. A apresentação é feita pelo Ponce.
Como são muitos poemas, dessa vez optei por deixar apenas as traduções no post, com o título do poema em inglês entre parênteses. Para quem tiver interesse, sugiro procurar também as traduções que fez Camila Assad.

Guilherme Gontijo Flores

§

Louise Glück é uma poeta e ensaísta estadunidense nascida em 1943. Filha de uma família de imigrantes húngaros e russos de origem judaica, Glück nasceu em Nova York e, atualmente, é escritora residente no programa Rosenkranz da Universidade de Yale, onde também é professora adjunta. Poeta amplamente laureada, recebeu o Pulitzer (1993), com seu livro The Wild Iris (de 1992), e o prêmio Wallace Stevens (2008), em reconhecimento ao domínio artístico/poético da sua obra, entre vários outros. Acaba de receber a distinção do Prêmio Nobel de Literatura (2020).

Fui apresentado a alguns poemas de Louise Glück há alguns anos por meu amigo e colega tradutor Eduardo Ferraz Felippe, professor do departamento de História da UERJ e parceiro em projetos relacionados à poesia e à tradução de poesia. Eduardo é um grande leitor de poesia anglófona moderna e contemporânea, compreendendo um espectro bem amplo de autores, de modo que sempre me oferece obras fundamentais para o mergulho.

Passei, portanto, a partir daí, a ler Louise Glück com interesse e a esboçar traduções de alguns de seus poemas. Com a notícia na manhã de ontem de que Glück havia recebido o Prêmio Nobel de Literatura, pensei que seria um momento mais que oportuno para revisar e retomar as traduções. Escolhi, dessa maneira, alguns poemas da minha seleta até então pessoal para compartilhar com um grupo maior de leitores (enquanto uma antologia mais ampla – ou várias – não aparece(m)).

Percebi, aliás, com alegria e entusiasmo, o interesse de vários poetas brasileiros pelo trabalho de Glück, inclusive oferecendo também suas próprias traduções para alguns de seus poemas ao longo do dia de ontem – o que me parece extremamente salutar quando se trata de uma obra tão vasta e importante como a da poeta, o que sem dúvidas vai colaborar para a recepção do seu trabalho no Brasil e em outros países lusófonos.

De maneira bastante pontual, sigo para um rápido comentário acerca do trabalho da poeta. Em primeiro lugar, é preciso apontar que Glück nos oferece uma poesia marcada pela clareza – o que não quer dizer que escreva uma poesia luminosa no sentido temático ou da exploração dessa temática; pelo contrário, a poeta trabalha questões bastante densas e mesmo obscuras –, com uma linguagem direta, em geral, que se abre à leitura. Sua poesia explora extensamente temas como o trauma, a morte, a perda, com forte viés autobiográfico, que, no entanto, se mescla com suas inúmeras recorrências à vasta tradição ocidental de poesia e de pensamento, mais especificamente à mitologia clássica (com destaque para os mitos e personagens gregos).

Seus poemas exploram um gesto de narratividade que se afasta do puramente prosaico. Além disso, seu trabalho é muito consistente na investigação e na revisitação da memória – e, de fato, também por isso apresenta uma dimensão altamente confessional. Contudo, tanto a narratividade quanto os traços confessionais são profundamente tensionados e esgarçados ao longo de seu trabalho, em última análise legando uma espécie de indecidibilidade à leitura, no sentido de que as fronteiras entre sujeito e objeto, observador e observado, ficção e lembrança, mito e fato histórico etc. são francamente borradas.

Vale lembrar, ainda, que o mundo natural aparece não só como tema, mas também como ambiência em vários de seus poemas e livros. Especificamente em um de seus trabalhos mais conhecidos, The Wild Iris (1992), metáforas da natureza são usadas em profusão. Nesse livro, flores e plantas ganham destaque e, literalmente, voz. Nos poemas em que aparece o tema da natureza, ora há uma investigação crítica da passagem do humano pelo mundo, ora certa revisão e revisitação da tradição romântica, ora, ainda, elementos naturais funcionam como alegoria para uma leitura subjacente.  

Termino esse pequeno texto recordando que se trata de uma brevíssima introdução: apenas uma forma de situar rapidamente a poeta para os leitores brasileiros. Convido, portanto (e finalmente), à leitura dessa série de poemas de Louise Glück.

Thiago Ponce de Moraes

* * *

Lamium (Lamium)

É assim que se vive quando o coração é frio.
Como eu: em sombras, rastejando sobre rochas frias,
sob os grandes bordos.

O sol mal me toca.
Às vezes o vejo na primavera, subindo distante.
Aí crescem folhas nele, ocultando-o todo. Sinto
ele luzindo entre as folhas, errático, como
alguém batendo o lado de um copo com uma colher.

Coisas vivas não requerem todas
a luz no mesmo nível. Algumas de nós
fabricam a própria luz: uma folha prateada
como uma senda que ninguém usará, um raso
lago de prata na escuridão sob os grandes bordos.

Mas você já sabe disso.
Você e os outros que pensam
que vivem para a verdade, e, por extensão, amam
tudo o que é frio.
(Trad. de Adalberto Müller)

§

Alvorada (Dawn)

1

Uma criança acorda num quarto escuro
gritando quero meu pato de volta, quero meu pato de volta

em uma língua que ninguém consegue entender —

Não há pato algum.

Mas o cachorro, todo estofado em pelúcia branca —
o cachorro está bem ali no berço ao lado dela.

Anos e anos — é o tanto que o tempo passa.
Tudo em um sonho. Mas o pato —
ninguém sabe o que aconteceu com ele.

2

Eles acabaram de se encontrar, agora
estão dormindo perto da janela aberta.

Um pouco para acordá-los, para assegurar a eles
que o que eles lembram da noite está correto,
agora a luz precisa entrar no quarto,

também para mostrá-los o contexto em que isso ocorreu:
meias meio escondidas sob um tapete sujo,
colcha decorada com folhas verdes —

a luz do sol especificando
esses mas não outros objetos,
criando fronteiras, certa de si, não arbitrária,

e então demorando-se, descrevendo
cada coisa minuciosamente,
meticulosa, como uma redação em inglês,
até mesmo um pouco de sangue nos lençóis —

3

Depois, eles se separam para o dia.
Mais tarde ainda, em um balcão, no mercado,
o gerente insatisfeito com o salário que recebe,
os frutos mofados sob a camada mais externa —

de modo que alguém se retire do mundo
mesmo enquanto ainda continue a atuar nele —

Você chega em casa, é quando você percebe o mofo.
Tarde demais, em outras palavras.

Como se o sol te cegasse por um momento.
(Trad. de Thiago Ponce de Moraes)

§

Fura-Neves (Snowdrops)

Sabe o que eu era, como eu vivia? Você sabe
o que é o desespero; então pra você
o inverno deve ter sentido.

Não esperava sobreviver,
a terra me oprimindo. Não esperava
acordar de novo, sentir
na terra úmida meu corpo
capaz de responder de novo, lembrando
depois de tanto tempo como me abrir de novo
na luz fria
da pré-primavera –

medrosa, sim, mas contigo de novo
gritando sim risco júbilo

no vento cru do novo mundo.
(Trad. de Adalberto Müller)

§

Nostos (Nostos)

Havia uma macieira no quintal —
isso deve ter sido
há uns quarenta anos — atrás,
apenas pradarias. Montes
de açafrão na grama úmida.
Eu parei na janela:
fim de abril. As flores
da primavera no quintal do vizinho.
Quantas vezes, sério, a árvore
floresceu no meu aniversário,
no dia exato, nem
antes, nem depois? Substituição
do imutável
pelo variante, pelo emergente.
Substituição da imagem
pela terra implacável. O que
eu sei desse lugar,
o papel da árvore por décadas
tomada por um bonsai, vozes
aflorando das quadras de tênis —
Campos. Cheiro da grama alta, recém-cortada.
Como se espera de um poeta lírico.
Olhamos para o mundo uma vez, na infância.
O resto é memória.
(Trad. de Thiago Ponce de Moraes)

§

A Íris Selvagem (The Wild Iris)

No fim do meu sofrimento
tinha uma porta.

Escutem: o que chamam de morte
eu me lembro.

Lá em cima, ruídos, ramos do pinheiro movem-se.
Depois, nada. O sol fraco
cintilou sobre a superfície seca.

É terrível sobreviver
como consciência
enterrada na terra escura.

Depois, acabou: o que você teme, sendo
uma alma e incapaz
de falar, finando abrupta, a terra dura
dobrando-se um pouco. E o que eu achei que eram
pássaros cruzando arbustos baixos.

Você que não se lembra
a passagem por outro mundo
Digo que posso falar de novo: o que volta
do olvido volta
para encontrar uma voz:

do centro da minha vida veio
uma grande fonte, azul profundo
sombras na lazúli água marinha.
(Trad. de Adalberto Müller)

A Íris Selvagem (The Wild Iris)

No final do meu sofrimento
tinha uma porta.

Me escuta: aquilo a que você chama morte
eu me lembro.

Acima, barulhos, ramos do pinheiro balançando.
Depois nada. O sol fraco
tremeluzia sobre a superfície seca.

É terrível sobreviver
como consciência
enterrada no solo escuro.

Depois acabou: aquilo que você teme, sendo
uma alma ou incapaz
de falar, terminando abruptamente, a terra tesa
se curvando um pouco. E o que imaginei serem
pássaros se lançando nos arbustos.

Você que não se lembra
da passagem do outro mundo
eu te digo que falaria de novo: o que quer que
retorne do esquecimento retorna
para encontrar uma voz:

do centro da minha vida brotou
uma grande fonte, sombras
azul-profundas em água do mar azul-celeste.
(Trad. de Thiago Ponce de Moraes)

§

A Escada de Jacó (The Jacob’s Ladder)

Presa na terra,
você não ia querer ir também
para o céu? Eu moro
no jardim de uma moça. Me desculpa, moça;
a ânsia tirou a minha graça. Eu
não sou o que você esperava. Mas
como homens e mulheres parecem
desejar-se, também desejo
saber do paraíso – e agora
a tua mágoa, um talo nu
quase na janela da varanda.
E no fim, o quê? Uma florzinha azul
como uma estrela. Nunca
abandonar este mundo! Não é
isso o que dizem as tuas lágrimas?
(Trad. de Adalberto Müller)

§

Paisagem Aborígene (Aboriginal Landscape)

Você está pisando em cima do seu pai, minha mãe disse,
e de fato eu estava parada exatamente no centro
de uma cama de grama, aparada tão perfeitamente que poderia ser
o túmulo do meu pai, embora não houvesse lápide indicando.

Você está pisando em cima do seu pai, ela repetiu,
agora mais alto, o que me pareceu estranho,
uma vez que ela mesma já estava morta; até o doutor reconheceu.

Me movi ligeiramente para o lado, para onde
meu pai terminava e começava minha mãe.

O cemitério estava em silêncio. O vento soprava pelas árvores;
eu podia escutar, muito vagamente, sons de choro a vários corredores de distância,
e mais para além, um cão gemendo.

Com o tempo esses sons diminuíram. Passou pela minha cabeça
que eu não me lembrava de ter sido trazida aqui,
para o que agora parecia ser um cemitério, embora pudesse ser
um cemitério na minha cabeça apenas; talvez fosse um parque, ou se não um parque,
um jardim ou um pergolado, perfumado, agora me dou conta, com cheiro de rosas —
douceur de vivre enchendo o ar, a doçura de viver,
como diz o ditado. A certa altura,

me ocorreu que estava sozinha.
Onde tinham ido os outros,
Meus primos e irmã, Caitlin e Abigail?

Agora a luz se esvaía. Onde estava o carro
aguardando para nos levar para casa?

Então comecei a buscar alternativas. Senti
uma impaciência crescendo em mim, aproximando-se, eu diria, da ansiedade.
Finalmente, à distância, eu avistei um pequeno trem,
parou, me parece, atrás de alguma folhagem, o condutor
apoiado no batente da porta, fumando um cigarro.

Não me esqueça, eu gritei, agora correndo
sobre vários lotes, várias mães e pais —

Não me esqueça, eu gritei, quando enfim o alcancei.
Madame, ele disse, apontando para os trilhos,
certamente a senhora compreende que este é o fim, os trilhos não vão adiante.
Suas palavras eram duras, ainda que seus olhos fossem gentis;
isso me encorajou a argumentar de novo com mais ênfase.
Mas eles voltam, eu disse, e comentei
sobre a sua robustez, como se tivessem muitos retornos à sua frente.

Você sabe, ele disse, nosso trabalho é difícil: enfrentamos
muitas tristezas e decepções.
Ele me fitou com uma franqueza cada vez maior.
Eu já fui como você, acrescentou, apaixonado pela turbulência.

Agora falo como se com um velho amigo:
E você, eu disse, já que ele estava livre pra partir,
você não deseja ir para casa,
ver outra vez a cidade?

Esta é a minha casa, ele disse.
A cidade  — a cidade é onde desapareço.
(Trad. de Thiago Ponce de Moraes)

§

A Papoula Vermelha (The Red Poppy)

A grande coisa
é não ter
uma mente. Sentimentos:
oh, eu tenho desses; eles
me governam. Eu tenho
um senhor no céu
chamado o sol, e me abro
para ele, mostrando a ele
o fogo do meu coração, fogo
como a sua própria presença.
O que seria uma tal glória
se não um coração? Oh irmãos e irmãs,
vocês já foram como eu, faz tempo,
antes de serem humanos? Vocês
se permitem alguma
vez se abrirem, quem jamais
se abriria de novo? Pois em verdade
Estou falando agora
como vocês. Estou falando
porque estou destroçada.
(Trad. de Adalberto Müller)

§

Perséfone, a Errante (Persephone, the Wanderer)

Na primeira versão, Perséfone
é tirada de sua mãe
e a deusa da terra
pune a terra—isso tem
a ver com o que sabemos do comportamento humano,

os seres humanos têm profunda satisfação
ao fazer o mal, especialmente
o mal inconsciente:

podemos chamar a isso
de criação negativa.

A estadia inicial
de Perséfone no inferno segue sendo
apalpada por estudiosos que disputam
as sensações da virgem:

ela cooperou para seu estupro,
ou ela estava drogada, violada à revelia,
como é tão frequente acontecer agora com as garotas modernas.

Como bem se sabe, a volta do amado
não corrige
a perda do amado: Perséfone

volta pra casa
manchada de suco vermelho como
um personagem em Hawthorne—

Não estou certa de que eu vá
manter esta palavra: a terra
é “casa” para Perséfone? Ela está em casa, possivelmente,
na cama do deus? Ela não está
em casa em lugar algum? Ela é
uma errante nata, em outras palavras
uma réplica
existencial de sua própria mãe, menos
paralisada por ideias de causalidade?

Permite-se que você não goste
de ninguém, você sabe. Os personagens
não são pessoas.
Eles são aspectos de um dilema ou conflito.

Três partes: assim como a alma é dividida,
ego, superego, id. Da mesma forma

os três níveis do mundo conhecido,
um tipo de diagrama que separa
o céu da terra do inferno.

Você deve se perguntar:
onde está nevando?

Branco de esquecimento,
de sacrilégio—

está nevando na terra; o vento frio diz

que Perséfone faz sexo no inferno.
Ao contrário do resto de nós, ela não sabe
o que é o inverno, apenas que
ela é que o causa.

Ela está deitada na cama de Hades.
No que ela pensa?
Ela tem medo? Algo
apagou a ideia
da mente?

Ela bem sabe que a terra
é comandada por mães, isso
é certo. Também sabe
que ela não é mais o que
chamam de garota. Quanto ao
encarceramento, ela acredita

que é prisioneira desde que é filha.

As terríveis reuniões que a aguardam
vão tomar o resto de sua vida.
Quando a paixão pela expiação
é crônica, feroz, você não escolhe
o jeito como vive. Você não vive;
você não tem permissão para morrer.

Você vaga entre a terra e a morte
que parecem, enfim,
estranhamente similares. Os estudiosos nos dizem

que não faz sentido saber o que você quer
quando as forças que disputam por você
poderiam te matar.

Branco de esquecimento,
branco de segurança—

Eles dizem
que há uma fenda na alma humana
que não foi construída para pertencer
inteiramente à vida. A terra

nos pede que rejeitemos essa fenda, uma ameaça
disfarçada de sugestão—
como vimos
na fábula de Perséfone
que deveria ser lida

como uma briga entre a mãe e o amante—
a filha é apenas carne.

Quando a morte a confrontar, ela nunca terá visto
as pradarias sem margaridas.
De repente ela não canta
mais suas canções virginais
sobre a beleza e a fecundidade
de sua mãe. Onde
a fenda está, está a fratura.

Canção da terra,
canção da visão mítica da vida eterna—

Minha alma
despedaçada com a mancha
de tentar pertencer à terra—

O que você vai fazer,
quando é a sua vez no campo com o deus?
(Trad. de Thiago Ponce de Moraes)

George Mario Angel Quintero (1964-), por Thiago Ponce de Moraes

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George Mario Angel Quintero (1964-), nasceu de pais colombianos em São Francisco, Califórnia, onde viveu por 30 anos. Publica ficção, poesia e ensaios em inglês como George Angel. Desde 1995 vive em Medelín, Colômbia, onde, sob o nome Mario Angel Quintero, publicou seis coletâneas de poesia em espanhol, bem como três livros de peças teatrais.

Seu trabalho tem sido publicado ao redor do mundo, em países como Índia, Austrália, Croácia, Marrocos, Bulgária e Peru. Desde 2003 trabalha como diretor e dramaturgo da companhia Párpado Teatro, tendo sido ainda um dos fundadores dos grupos musicais Underflavour e Sell the Elephant.

 

Thiago Ponce de Moraes

* * *

 

OBRA

Remendar es una obsesión.
Por mucho que nos edifiquen
Los pasados no se construyen.
Se derrumban.
La rumba de los martillos,
El tango de taladros,
El cincel entrometido
Como una tilde.
Énfasis nos hace absolutos.

Amamos derruyentes.
Después del primer mazo contundente,
Tumbamos todo
En nombre de la mejora.

Una vez al piso
Sobamos.
Es lo más cercano
A compasión
Que podemos
Gesticular.
Seductores de sanar,
Palustres.

Nuestros murmullos
Arenosos,
De mezclas y lechadas,
Arrullan hacia un sueño,
Cada vez más nuevo,
Más útil.
Algo hecho de vacíos.

OBRA

Remendar é uma obsessão.
Por mais que nos edifiquem
Os passados não se constroem.
Desmoronam.
A rumba dos martelos,
O tango das furadeiras,
O cinzel intrometido
Como um til.
A ênfase nos torna absolutos.

Amamos desmoronantes.
Depois da primeira marretada contundente,
Derrubamos tudo
Em nome da melhora.

Uma vez ao chão
Afagamos.
É o mais perto
Da compaixão
Que podemos
Gesticular.
Sedutores de curar,
Pantanosos.

Nossos murmúrios
Arenosos,
De mistura e argamassa,
Embalam para um sonho,
Cada vez mais novo,
Mais útil.
Algo feito de vazios.

§

7.

Un pañuelo es una garza.
Un abrelatas es un rinoceronte.
Un cocodrilo es unas tijeras.

La casa es como una selva.
Tenemos que respetar a las cosas
Puntudas y filudas,
Como si fueran animales peligrosos.

Eso que se mete.
Duele por donde entra.
Cosas grandes andando por ahí
Mordiendo a la gente.

7.

Um lenço é uma garça.
Um abridor é um rinoceronte.
Um crocodilo é uma tesoura.

A casa é como uma selva.
Temos que respeitar as coisas
Pontudas e cortantes,
Como se fossem animais perigosos.

Isso que se insere.
Dói por onde entra.
Coisas grandes andando por aí
Mordendo a gente.

§

 

LA NOCHE,
…….un reguero florecido,
siembra
…….tan tambre,
apachurra
sus puchos,
se recuesta
…….sobre su alfombra
………de dardos,
y se cubre
……la cara,
……derrama
…………su ronquido,
alumbra…… abierta,
……..sus pétalos
………………polvorientos
traspasados
……………de tallos
que brotan
trenzados
….aquí abajo.

A NOITE,
…….um córrego florido,
semeia
…….tão sina,
esmaga
suas guimbas,
se recosta
…….sobre seu tapete
……….de dardos
e cobre
…….o rosto,
…….derrama
…….…….seu ronco,
acende….. aberta,
…….suas pétalas
…….…….empoeiradas
atravessadas
…….………por caules
que brotam
trançados
….aqui embaixo.

§

 

THE WORD BLOOD IS DEAD. THE WORD KNIFE, the word angels, the word stone, the word bones. All these words are dead. Word angels like monkey dying. The theory of trees and stones must crawl inside them and crack them open forever. Those words are the corpses of what we know. They are as useless as the word maggots that will come along and eat them. Say land again and you too are dead. Land is a dead word. The theory of trees and stones humbly submits that it is tired of the words light and strong. These words must be assassinated so that we may all see that they have been dead for ages. Every sayable word is a dead word. Run faster, killing as you go. Every explanation is a beautiful vulture. We have made it beautiful. The colors are all dead and we have fed them to the vulture.

Saying is killing. Laughter is mockery where a massive bright bird stands pecking the sinew out of the arms and legs of light. The theory of trees and stones is someone remembering something to himself. God is not the word for God.

A PALAVRA SANGUE ESTÁ MORTA. A PALAVRA FACA, a palavra anjos, a palavra pedra, a palavra ossos. Todas essas palavras estão mortas. Anjos de palavras como macacos agonizantes. A teoria das árvores e das pedras deve rastejar dentro delas e abri-las para sempre. Essas palavras são os cadáveres do que sabemos. Elas são tão inúteis quanto a palavra larvas que virá comê-las. Diga terra outra vez e você também estará morto. Terra é uma palavra morta. A teoria das árvores e das pedras humildemente alega que está cansada das palavras luz e forte. Essas palavras devem ser assassinadas para que possamos todos ver que estiveram mortas por tempos. Toda palavra dizível é uma palavra morta. Fuja mais rápido, matando pelo caminho. Toda explicação é um abutre lindo. Nós o tornamos lindo. As cores estão todas mortas e com elas alimentamos o abutre.

Dizer é matar. O riso é escárnio onde um pássaro enorme e brilhante fica bicando os tendões dos braços e pernas da luz. A teoria das árvores e das pedras é alguém lembrando alguma coisa a si mesmo. Deus não é a palavra para Deus.

§

 

MY FUNNIEST MISTAKE
is that I took
life personally.

It opens transformed now
from fluted water
to a forest
of indignity.

It waits for me,
like the sunlight
that ran on ahead,
waiting for this soft oaf,
who has fallen onto
his own paved past
and scuffed his knees.

But the world
is not virtuous long enough
to vindicate anyone’s shame.

All we can be sure of
is the gallop.

It has become
too easy to say.
It has become
too easy to tell.

It must be obvious
to someone, by now,
that we hardly ever
get there, to it,
that a dash is,
after all,
a pause, a change
of direction.

Our only forward
is to trip and fall.
Everything else is passing—

And yet the impulse
is an infant,
full of noise
but without a hint
of how almost
it all was.

Pretense vanished
without a bow.

Nowadays,
that I would
live to know
when they were then,
the time of the big lie.
When sorrow
knew no limits
and victory and death
were the same word.

Would you believe
she wove sandals
from her own hair
so he might continue walking.

Though I suffer
delusions of being
nourished, I am
just a conduit,
an elaborate hose,
a falling, a means
to a gravitational necessity.

And too there is the death
in bitterness, the death
in sick and tired.

Enough. Enough.
Enough many steps ago.
Just shut up a minute,
long enough to miss a fall,
long enough for the loss of fuck off!
to dissipate in the silence.

And still humiliation
insists I dance with her.

I am sure somehow.
I am sure
like a chord sounding out
and that is all.

I was made
for song.
That I didn’t
make it, though,
seems more obvious
than irrelevant.

I was not made
for battles,
for definitive endings.

When my body dies
it may well take my spirit
with it.

But it will go, my spirit,
like a laughing boy
atop a tumbling pachyderm.

MEU ERRO MAIS ENGRAÇADO
é que eu levei
a vida pro lado pessoal.

Ela se abre agora, mudando
de água ondulada
para floresta
de indignidade.

Ela espera por mim,
como a luz do sol
antecipada,
esperando este ser desajeitado
que caiu sobre
seu próprio passado asfaltado
e ralou os joelhos.

Mas o mundo
não é virtuoso o bastante
para reivindicar a vergonha de qualquer um.

Só podemos ter certeza
do galope.

Passou a ser
muito fácil dizer.
Passou a ser
muito fácil contar.

Deve ser óbvio
para alguém, agora,
que nós quase nunca
chegamos lá, a isso,
que um travessão é,
afinal,
uma pausa, uma mudança
de direção.

Nosso único adiante
é tropeçar e cair.
Todo o resto está passando—

E além do mais o impulso
é uma criança,
cheia de barulho
mas sem qualquer ideia
de como quase
isso tudo era.

O fingimento desapareceu
sem uma reverência.

Hoje,
que eu
viveria pra saber
quando eles eram então,
o tempo da grande mentira.
Quando a tristeza
não conhecia limites
e vitória e morte
eram uma só palavra.

Você não acreditaria
que ela teceu sandálias
com seus fios de cabelo
para que ele continuasse andando.

Embora eu sofra
ilusões de ser
nutrido, sou
apenas um tubo,
uma mangueira elaborada,
uma queda, um meio
para uma necessidade gravitacional.

E há também a morte
na amargura, a morte
em estar farto.

Basta. Basta.
Basta a muitos passos atrás.
Só cale a boca um minuto,
o bastante para perder a queda,
o bastante para a perda do foda-se!
se dissipar no silêncio.

E ainda a humilhação
insiste para que eu dance com ela.

Tenho certeza, de algum jeito.
Tenho certeza
como um acorde soando
e isso é tudo.

Fui feito
para canção.
Que eu não tenha
conseguido, no entanto,
parece mais óbvio
que irrelevante.

Não fui feito
para batalhas,
para fins definitivos.

Quando meu corpo morrer
pode muito bem levar meu espírito
com ele.

Mas eu vou, meu espírito,
como um menino risonho
em cima de um paquiderme caindo.

§

 

10.

Birds sometimes fall,
and this hardly sounds.

A tired woman
adjusts her collar
on the platform
of a train station.

An example’s
manifestation
is always more
than its meager use.

A blue feather
dances in night’s depths.

10.

Pássaros às vezes caem,
e isso quase não faz barulho.

Uma mulher cansada
ajeita sua gola
na plataforma
da estação de trem.

A manifestação
de um exemplo
é sempre mais
que seu mero uso.

Uma pluma azul
Dança nas profundezas da noite.

Najwan Darwish (1978-), por Thiago Ponce de Moraes

Najwan Darwish, Žcrivain, Bruxelles, mars 208
Foto: Veronique Vercheval

Najwan Darwish (Jerusalém, 1978 –) é um dos mais destacados poetas de língua árabe de sua geração. Darwish vem conduzindo muitos projetos artísticos, entre os quais o Festival Palestino de Literatura se destaca. Em 2009, fundou uma editora em Jerusalém, responsável pelo jornal pan-arábico Al-Araby, onde é editor chefe nas seções de artes e de cultura. A poesia de Najwan Darwish é influenciada pelas tradições arábicas e ocidentais, tanto clássicas quanto modernas, bem como pela poesia sufi. Ele explora temas como a fé, o poder e o trauma para lançar interrogações à história e ao status quo. Sua obra já foi traduzida para mais de quinze línguas e tem sido publicada amplamente em todo o mundo.

* * *

 

 

reserved

“RESERVED”

Uma vez tentei sentar
em um dos assentos vagos da esperança
mas a palavra “reserved”
me encarava como uma hiena

(Eu não me sentei, ninguém se sentou)

Os assentos da esperança estão sempre reservados

 

 

§

 

reserved

 

NADA MAIS A PERDER

Ponha a cabeça no meu peito e escute
às camadas de ruínas
atrás da madraça de Saladin
ouça as casas soterradas
na aldeia de Lifta
ouça o moinho destruído, as lições e leituras
no primeiro piso da mesquita
ouça as luzes da varanda
saírem pela última vez
do alto do Vale da Cruz
ouça a multidão arrastando os pés
e ouça-a retornando
ouça os corpos sendo descartados, escute
a sua respiração no fundo
do Mar da Galileia
escute como um peixe
em um rio vigiado por um anjo
ouça os contos dos aldeões, bordados
como kufiyas nos poemas
ouça os cantores envelhecendo
ouça suas vozes atemporais
ouça as mulheres de Nazaré
enquanto cruzam os campos
ouça o cameleiro
que nunca para de me atormentar
ouça-o
e nos deixe, juntos, lembrar
então nos deixe, juntos, esquecer
tudo o que ouvimos
Ponha sua cabeça no meu peito:
Estou escutando a terra
Estou escutando a grama
Conforme passa pela minha pele…

Perdemos a cabeça no amor
e não temos nada mais a perder

§

 

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DORMINDO EM GAZA

Fado, vou dormir como as pessoas dormem
quando bombas estão caindo
e o céu se rompe em carne viva
Vou sonhar, então, como as pessoas sonham
quando bombas estão caindo:
Vou sonhar com traições
Vou acordar ao meio dia e fazer à rádio
as perguntas que as pessoas fazem:
O bombardeio acabou?
Quantos foram mortos?

Mas minha tragédia, Fado,
é que há dois tipos de pessoas:
aquelas que jogam seus sofrimentos e pecados
nas ruas para que possam dormir
e aquelas que catam os sofrimentos e pecados das outras
moldam-nos em cruzes e desfilam
pelas ruas de Babilônia e Gaza e Beirute
gritando sem parar
Há ainda mais por vir?
Há ainda mais por vir?

Há dois anos andei pelas ruas
de Dahieh, ao sul de Beirute
e carreguei uma cruz
tão grande quanto as casas destruídas
Mas quem vai levantar hoje uma cruz
das costas de um homem exausto em Jerusalém?

A terra são três pregos
e a misericórdia um martelo:
Ataque, Senhor
Ataque com os aviões

Há ainda mais por vir?

Dezembro, 2008

§

reserved

NÃO ADIANTA

Não adianta se esconder e trancar as portas
Mudar-nos para onde ninguém nos conhecesse
também não adianta
Mesmo que você se lance do precipício
em direção ao abismo
a história
ainda vai se agarrar ao seu nome

§

reserved

AS DUAS ÚLTIMAS FRASES

As duas últimas frases antes de você cair
não exprimem o desejo
de deixar pra trás algum significado
Elas não são nem um adeus
nem uma expressão de esperança
Elas são simplesmente necessárias
para a sua queda

§

reserved

SEM QUALQUER ORIENTAÇÃO

Amanhã nossos filhos vão acordar
sem qualquer orientação
eles são os sobreviventes do futuro:
Por algum milagre do Criador
eles sobreviveram
a todas as tentativas de orientá-los

 

§

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CONTE

Conte-me quem é esse jovem leão
e como ele saltava pelo ar
enquanto o caçavam
de Musrara a Sheikh Jarrah

Conte-me sobre aquele homem magro e bravo
e como um esquadrão inteiro o atacou
no posto de controle de Qalandia
mesmo sem conseguir abatê-lo

Conte-me sobre aquela garota que se manteve firme
enquanto o buldôzer a esmagava
como uma amendoeira em março

Conte isso àqueles
que dizem que fomos derrotados

§

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NO INFERNO

1

Nos anos 30
ocorreu aos nazistas
colocar suas vítimas em câmaras de gás
Os algozes de hoje são mais profissionais:
Eles colocam as câmaras de gás
nas suas vítimas

2

Para o inferno, 2010
Para o inferno, seus ocupantes, vocês e toda a sua prole
E que toda a humanidade vá para o inferno se for como vocês
Que os barcos e aviões, os bancos e os painéis todos vão para o inferno
Eu grito, “para o inferno…”
sabendo muito bem que
sou o único
que vive lá

3

Então, deixe-me deitar
e descansar minha cabeça nos travesseiros do inferno

 

Aleyda Quevedo (1972–), por Thiago Ponce de Moraes

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Foto de Anaís Madrid.

Aleyda Quevedo (Quito, 1972–) é uma poeta, jornalista, ensaísta literária e gestora cultural equatoriana. Publicou diversos livros, entre os quais se destacam Jardín de dagas (2014, México, 2016, Toulon, edição em castelhano e francês, 2017, La Habana) e Soy mi cuerpo (2006, Quito y 2016, Quito). Ao longo dos anos, tem participado de inúmeros encontros, feiras de livro e festivais internacionais de escritores. Sua poesia está traduzida a diversas línguas, como francês, inglês, hebraico e sueco. Na atividade de curadora literária, organizou antologias importantes, como 13 poetas ecuatorianos nacidos en los 70, 2008, Venezuela e De la ligereza o velocidad que también es perfume, 2012, Cuba. É colaboradora da revista de artes e literatura Vallejo&CO e coordena o selo independente Ediciones de la Línea Imaginaria.

 

thiago ponce de moraes

* * *

Corales

No importa la profundidad del descenso
o la imposible maleza derramada en el camino.
Es largo y frío el viaje sobre oscuros caballos.
Ejercicio de inmersión y belleza piadosa
hasta pisar altos jardines de coral negro.
Entre mi dolor –que conozco tanto desde el lodo-
y el universo poco explorado por la falta de tus palabras,
me queda flotando la impenetrabilidad de la música y la sal.
Las medusas atrapadas entre mis pestañas me jalan rápido.
Más no importa el precio del descenso.
Es necesario volver al camino consciente del miedo
y el aliento del océano golpeándome en la nuca. 

Corais

Não importa a profundidade da descida
ou a impossível mata espalhada no caminho.
É longa e fria a viagem sobre escuros cavalos.
Exercício de imersão e beleza piedosa
até pisar altos jardins de coral negro.
Entre minha dor – que conheço tanto desde a lama –
e o universo pouco explorado pela falta de tuas palavras,
me deixa flutuando a impenetrabilidade da música e do sal.
As medusas presas entre meus cílios me puxam rápido.
Mas não importa o preço da descida.
É necessário voltar ao caminho consciente do medo
e do alento do oceano a me bater na nuca.

§

Ámbar
a E. M.

Enjambre de agua, eterna en su no huella. Duda líquida y abierta al fluir. Profunda inmersión del goce. Arriba o abajo, el lugar de los dos, aunque nada de eso importe ahora que tomamos el baño perfumándonos con esta resina. Entrar en tu cuerpo y encontrar el ámbar, un ejercicio de buceo sin el equipo adecuado. Da igual si estás arriba y yo abajo, o los dos suspendidos en el agua tibia y azulada de la tina pulida. Lisura de mi piel. Relieves en tu cuerpo. Flemas transparentes de un árbol sin nombre. Espuma que torna sinuosos dos cuerpos que no saben de dónde vinieron para encontrarse. Romero y pétalos perfumando el agua ya casi fría del vidrio molido que lo torna todo de un verde que erecta. Norte en tus pulmones y el sur queda debajo de mis axilas. Porcelana y fibra de vidrio, líquenes blancos y algo de aire alcalino que llega desde otra profundidad. Dos cuerpos secan al sol incalculables gotas. Los dos se miran sabiendo del fulgor del ámbar. Teoría y práctica furiosa de un hallazgo sobre la piel que saca humores gélidos del corazón.

Âmbar
a E. M.

Enxame d’água, eterno em não ter rastro. Dúvida líquida e aberta ao fluir. Profunda imersão do gozo. Em cima ou embaixo, o lugar dos dois, ainda que nada disso importe agora que tomamos banho nos perfumando com esta resina. Entrar em teu corpo e encontrar o âmbar, um exercício de mergulho sem equipamento adequado. Dá no mesmo se estás em cima e eu embaixo, ou os dois suspensos na água quente e azulada da banheira polida. Lisura da minha pele. Relevos em teu corpo. Fleumas transparentes de uma árvore sem nome. Espuma que torna sinuosos dois corpos que não sabem de onde vieram para se encontrar. Alecrim e pétalas perfumando a água já quase fria de vidro moído que o torna todo de um verde que erige. Norte em teus pulmões e o sul fica embaixo das minhas axilas. Porcelana e fibra de vidro, líquens brancos e algo de ar alcalino que chega de outra profundidade. Dois corpos secam ao sol incalculáveis gotas. Os dois se olham sabendo do fulgor do âmbar. Teoria e prática furiosa de um achado sobre a pele que tira humores gélidos do coração.

§

Brazada

Curtida la piel, gastados los ojos, aprendí a bucear desnuda entre corales y piedras cortantes. Brazada abriendo el lenguaje: mantener el codo más alto que el brazo, las imágenes más brillantes son música.

Braçada

Curtida a pele, gastos os olhos, aprendi a mergulhar nua entre corais e pedras cortantes. Braçada abrindo a linguagem: manter o cotovelo mais alto que o braço, as imagens mais brilhantes são música.

§

Escribo de tu cuerpo para que no llegue el olvido
No sé otra manera de retenerte si no es escribiéndote
Desde luego, con cierta angustia de que se me escapen detalles.

Escrevo de teu corpo para que não chegue o esquecimento
Não sei outra maneira de prender-te que não seja te escrevendo
Desde já, com certa angústia de que se me escapem detalhes.

§

El granizo ha comenzado a disolverse
Hilos helados corren entre las piedras y las ramas amargas
Parecería que nada se quemó
Que nada fue despojado de su belleza
Tan solo las flores del arupo lucen crispadas
Cristalizadas por tanta pasión del agua
que ha comenzado a disolverse.

O granizo começou a se dissolver
Fios gelados correm entre as pedras e ramas amargas
Pode parecer que nada foi queimado
Que nada foi despojado de sua beleza
Tão só as flores de arupo luzem crispadas
Cristalizadas por tanta paixão d’água
Que começou a se dissolver.

§

Volutas de humo brotan de las piedras porosas
Volutas de humo salen del corazón esponja que ha sabido amarte
Humo transfigurado en dolor como si fuera escrito en agua.

Espirais de fumo brotam das pedras porosas
Espirais de fumo saem do coração-esponja que soube te amar
Fumo transfigurado em dor como se fosse escrito em água.

Um poema de Robert Creeley por Thiago Ponce de Moraes

RobertCreeleyNewBioImage_Credit-ChrisFelver

Robert Creeley foi um poeta e professor universitário estadunidense nascido em 1926, amplamente reconhecido por sua associação ao grupo chamado Black Mountain Poets, que gerou grande impacto sobre as gerações e movimentos de poesia posteriores, a exemplo da Geração Beat e do movimento L=A=N=G=U=A=G=E. Apesar de seu grande alcance junto aos poetas e leitores, Creeley nunca ganhou prêmios e por muito tempo teve sua obra diminuída pelos críticos – que a consideravam simplória por conta dos jogos de linguagem “primitivos”.

Enquanto editor da Black Mountain Review, Creeley desenvolveu um diálogo muito próximo com o também poeta e então reitor do Black Mountain College – universidade experimental da Carolina do Norte –, Charles Olson. Juntos, desenvolveram o conceito de “verso projetivo”, em que se propunha abandonar as formas tradicionais em favor de um verso construído livremente ao longo do processo de composição. Um dos princípios básicos desse conceito é o de que “a forma não é mais que uma extensão do conteúdo”.

Robert Creeley publicou diversos livros de poesia, com destaque para o livro de estreia For Love (1962), além dos livros Words (1965), Mirrors (1983) e Life & Death (1994), entre outros. Creeley também publicou um romance e alguns volumes de prosa, bem como livros de ensaios.

____

Thiago Ponce de Moraes é poeta e tradutor. Publicou os livros de poemas Imp. (Caetés, 2006) e De gestos lassos ou nenhuns (Lumme Editor, 2010), além do livro de ensaios Remos e Versões (Multifoco, 2012) e Agora sim… talvez seja eu e mais alguém: específica experiência da leitura de Paul Celan e Ricardo Reis (NEA, 2014). Faz parte do Conselho Editorial da Revista de Poesia e Debates – Zunái e foi editor da Revista Confraria de Literatura e Arte. Atualmente, é doutorando em Literatura Comparada na Universidade Federal Fluminense (UFF) e professor no Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ). Prepara, em lento progresso, seu terceiro volume de poemas: Dobres sobre a luz. No ano de 2015, participa de dois festivais: 31º Festival Internacional de Poesia de Tróis-Rivières (Canadá) e XX Encontro Internacional de Escritores (México).

* * *

MUDADO
           para Bobbie

Você mesmo entrou na sala ontem
e não era você. Seu modo de
estar aqui não é o modo de outro.
É tudo o mesmo talvez a esmo,
e a mesma coisa velha não é você.
Todas as negativas na existência
do mesmo modo não mudam nada.

As pessoas me contam histórias tristes às vezes,
e eu trato de contá-las de volta a elas.

Venha pra casa. É onde você está de todo modo.
De todo modo eu queria que você não estivesse em casa.
Onde é casa de todo modo sem mim.

Esse lugar poderia ser embrulhado
e acomodado. Alguém
poderia avisar às assim chamadas pessoas.

Eu queria que eu pudesse falar com as pessoas
sem me mudar. Casa,
onde quer que seja, é onde o coração está.

Eu não quero falar com as pessoas,
onde o coração está. É casa
Você e eu a falar por horas.

Por horas eu não pensei em você
E então pensei e não pude mudar.

Seu aniversário é aqui
sem você, aquele dia em que
você nasceu para estar aqui.

O dia mais adorável em que vi você
comprar seu primeiro carro
com uma presença de espírito adorável.

Não funciona sem você.
Eu sim, isso não. Engraçado
ou não, não é bom.

Estarei em casa, de todos os modos –
você que diz. Vou colocar um laço
nisso. Você é meu amor.

Atravesse o meu sopro, carente,
carente, pra chegar em casa novamente.
Um tipo de estrada estranha
presa no meio.

O que mais quer que isso seja,
o amor é o meio
com você e eu
bem no meio.

O meio da meia-noite
é o tempo que é,
duas horas mais cedo que você,
e eu indo a lugar algum.

Só o mesmo tempo,
seu aniversário. Você e eu
ao mesmo tempo no
mesmo lugar, imutáveis.

AWAY
for Bobbie

Yourself walked in the room tonight
and it wasn’t you. Your way of
being here isn’t another’s way.
It’s all the same somewhere maybe,
and the same old thing isn’t you.
All the negatives in existence
don’t change anything anyway.

The people tell me a sad story sometimes,
and I tend to tell it back to them.

Come home. It’s where you are anyway.
Anyway I wish you weren’t home.
Where is home anyway without me.

This place could be rolled up
and put away. Somebody
could warn the so-called people.

I wish I could talk to the people
without going away. Home,
wherever, is where the heart is.

I don’t want to talk to the people,
where the heart is. It’s home
you and me talk for hours.

For hours I didn’t think of you
and then I did and can’t stop.

Your birthday is here
without you, that day
you were born to be here.

The loveliest day I saw you
buying your first car
with such a lovely presence of mind.

It doesn’t work without you.
I do, it doesn’t. Funny
or not, it’s no good.

I’ll be home, all ways–
you name it. I’ll put a ribbon
on it. You’re my love.

Cross in my wind, wanting,
wanting, to get home again.
A kind of weird road
stuck in the middle.

Whatever else it is,
love is the middle
with you and me
right in the middle.

The middle of midnight
is what time it is,
two hours earlier than you,
and me going nowhere.

Only the same time,
your birthday. You and me
at the same time in
the same place, always.

Antonio Gamoneda (1931-) por Thiago Ponce de Moraes

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Antonio Gamoneda é um poeta e crítico de arte espanhol nascido em 1931. A recepção crítica à sua obra é bastante positiva, especialmente a partir da publicação de Edad (1987), sendo hoje reconhecido como uma das vozes mais relevantes da poesia contemporânea espanhola. O prestígio crescente de sua escrita trouxe, entre outras distinções, o Prêmio Cervantes, em 2006. Alguns de seus livros foram traduzidos ao português e publicados pelas editoras Assírio & Alvim e Quasi Edições.

Grande parte de sua obra poética – referente ao período de 1947 a 2004 – está reunida no volume Esta luz (2004). Alguns anos mais tarde, Extravío en la luz (2009) reúne seis poemas inéditos acompanhados de gravuras de Juan Carlos Mestre; é sua última compilação de poemas até agora. Embora seja corrente a avaliação de que a voz poética de Gamoneda ocupa um lugar único no ambiente literário – e que, portanto, não pertence a nenhuma linhagem ou escola –, alguns críticos têm proposto diálogos aproximativos entre a sua obra e as de Georg Trakl e do último Garcia Lorca.

Thiago Ponce de Moraes

* * *

 PENSA a luz, me ama
sob seus cabelos.

Põe seus lábios em
minhas feridas, sorri,

sob seus cabelos.

PIENSA la luz, me ama
bajo sus cabellos.

Pone sus labios en
mis heridas, sonríe,

bajo sus cabellos.

§

TU

Cair em um rosto, existir
com sua respiração e com sua boca…

Quando tu estavas em perigo,
tu gritaste, mas foi
na garganta de outro ser humano;
se levantou teu corpo
e foi nos braços de outro ser humano.

Então compreendias.

E tua necessidade e tua dor
não foram nunca como antes. Tu
já não vês signos. Agora, tu desprezas
todas as dúvidas. E teu pensamento
não é espelho que cala; já é amor
e destino e conduta e existência.

Caer en un rostro, existir
con su respiración y con su boca…

Cuando tú estabas en peligro,
tú gritaste, mas fue
en la garganta de otro ser humano;
se levantó tu cuerpo
y fue en los brazos de otro ser humano.

Entonces comprendías.

Y tu necesidad y tu dolor
no fueron nunca como antes. Tú
ya no ves signos. Ahora, tú desprecias
todas las dudas. Y tu pensamiento
no es espejo que calla; ya es amor
y destino y conducta y existencia.

§

OUVIR o coração
em um silêncio novo,
advertir o destino
onde estava o desejo.

Ah verdadeiro amor,
que sensação de tempo
possuído, pensar
no mundo e em ti
em um só pensamento.

OÍR el corazón
en un silencio nuevo,
advertir el destino
donde estaba el deseo.

Ah verdadero amor,
qué sensación de tiempo
poseído, pensar
el mundo y en ti
en sólo un pensamiento.

§

NOSSOS corpos se compreendem cada vez mais tristemente, mas eu amo esta púrpura desolada.

Ah a flor negra dos dormitórios, ah as pastilhas do amanhecer.

NUESTROS cuerpos se comprenden cada vez más tristemente, pero yo amo esta púrpura desolada.

Ah la flor negra de los dormitorios, ah las pastillas del amanecer.

§

A SOLIDÃO se desnuda em teus olhos,
menina interminável, extensa na amargura;
talvez um morto fugitivo te habita
e te cruza o sangue e, no sangue, anoitece.

LA SOLEDAD se desnuda en tus ojos,
muchacha interminale, extensa en la amargura;
quizá un muerto fugitivo te anida
y te cruza la sangre y, en la sangre, anochece.

§

RAINHA de meu sangue, vontade de amargura,
juventude derrotada por um reino de sombra,
te balanças em meus braços como um mar; incessante
como o mar me nomeia.

Em mim acaba teu corpo. Há palavras obscuras
habitando teus olhos. Desnuda-te em minhas mãos.

Vive a noite. É
a hora de perder-me em teu cabelo e em teu pranto.

REINA de mi sangre, voluntad de amargura,
juventud derrotada por un reino de sombra,
te meces en mis brazos como un mar; incesante
como el mar me nombras.

En mí acaba tu cuerpo. Hay palabras oscuras
habitando tus ojos. Desnúdate en mis manos.

Vive la noche. Es
la hora de perderme en tu cabello y tu llanto.

(traduções de Thiago Ponce de Moraes)

Aqui vocês podem ver outras traduções de Gamoneda, feitas por Vinícius Nicastro Honesko.

* * *

Thiago Ponce de Moraes é poeta e tradutor. Publicou os livros de poemas Imp. (Caetés, 2006) e De gestos lassos ou nenhuns (Lumme Editor, 2010), além do livro de ensaios Remos e Versões (Multifoco, 2012). Atualmente, é doutorando em Literatura Comparada na Universidade Federal Fluminense (UFF) e professor no Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ). Em lento progresso, prepara uma nova compilação de poemas sob o nome de Dobres sobre a luz; além de traduções de J.H Prynne, Basil Bunting, Emily Dickinson e R.W. Emerson.