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Najwan Darwish (1978-), por Thiago Ponce de Moraes

Najwan Darwish, Žcrivain, Bruxelles, mars 208

Foto: Veronique Vercheval

Najwan Darwish (Jerusalém, 1978 –) é um dos mais destacados poetas de língua árabe de sua geração. Darwish vem conduzindo muitos projetos artísticos, entre os quais o Festival Palestino de Literatura se destaca. Em 2009, fundou uma editora em Jerusalém, responsável pelo jornal pan-arábico Al-Araby, onde é editor chefe nas seções de artes e de cultura. A poesia de Najwan Darwish é influenciada pelas tradições arábicas e ocidentais, tanto clássicas quanto modernas, bem como pela poesia sufi. Ele explora temas como a fé, o poder e o trauma para lançar interrogações à história e ao status quo. Sua obra já foi traduzida para mais de quinze línguas e tem sido publicada amplamente em todo o mundo.

* * *

 

 

reserved

“RESERVED”

Uma vez tentei sentar
em um dos assentos vagos da esperança
mas a palavra “reserved”
me encarava como uma hiena

(Eu não me sentei, ninguém se sentou)

Os assentos da esperança estão sempre reservados

 

 

§

 

reserved

 

NADA MAIS A PERDER

Ponha a cabeça no meu peito e escute
às camadas de ruínas
atrás da madraça de Saladin
ouça as casas soterradas
na aldeia de Lifta
ouça o moinho destruído, as lições e leituras
no primeiro piso da mesquita
ouça as luzes da varanda
saírem pela última vez
do alto do Vale da Cruz
ouça a multidão arrastando os pés
e ouça-a retornando
ouça os corpos sendo descartados, escute
a sua respiração no fundo
do Mar da Galileia
escute como um peixe
em um rio vigiado por um anjo
ouça os contos dos aldeões, bordados
como kufiyas nos poemas
ouça os cantores envelhecendo
ouça suas vozes atemporais
ouça as mulheres de Nazaré
enquanto cruzam os campos
ouça o cameleiro
que nunca para de me atormentar
ouça-o
e nos deixe, juntos, lembrar
então nos deixe, juntos, esquecer
tudo o que ouvimos
Ponha sua cabeça no meu peito:
Estou escutando a terra
Estou escutando a grama
Conforme passa pela minha pele…

Perdemos a cabeça no amor
e não temos nada mais a perder

§

 

reserved

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

DORMINDO EM GAZA

Fado, vou dormir como as pessoas dormem
quando bombas estão caindo
e o céu se rompe em carne viva
Vou sonhar, então, como as pessoas sonham
quando bombas estão caindo:
Vou sonhar com traições
Vou acordar ao meio dia e fazer à rádio
as perguntas que as pessoas fazem:
O bombardeio acabou?
Quantos foram mortos?

Mas minha tragédia, Fado,
é que há dois tipos de pessoas:
aquelas que jogam seus sofrimentos e pecados
nas ruas para que possam dormir
e aquelas que catam os sofrimentos e pecados das outras
moldam-nos em cruzes e desfilam
pelas ruas de Babilônia e Gaza e Beirute
gritando sem parar
Há ainda mais por vir?
Há ainda mais por vir?

Há dois anos andei pelas ruas
de Dahieh, ao sul de Beirute
e carreguei uma cruz
tão grande quanto as casas destruídas
Mas quem vai levantar hoje uma cruz
das costas de um homem exausto em Jerusalém?

A terra são três pregos
e a misericórdia um martelo:
Ataque, Senhor
Ataque com os aviões

Há ainda mais por vir?

Dezembro, 2008

§

reserved

NÃO ADIANTA

Não adianta se esconder e trancar as portas
Mudar-nos para onde ninguém nos conhecesse
também não adianta
Mesmo que você se lance do precipício
em direção ao abismo
a história
ainda vai se agarrar ao seu nome

§

reserved

AS DUAS ÚLTIMAS FRASES

As duas últimas frases antes de você cair
não exprimem o desejo
de deixar pra trás algum significado
Elas não são nem um adeus
nem uma expressão de esperança
Elas são simplesmente necessárias
para a sua queda

§

reserved

SEM QUALQUER ORIENTAÇÃO

Amanhã nossos filhos vão acordar
sem qualquer orientação
eles são os sobreviventes do futuro:
Por algum milagre do Criador
eles sobreviveram
a todas as tentativas de orientá-los

 

§

reserved

CONTE

Conte-me quem é esse jovem leão
e como ele saltava pelo ar
enquanto o caçavam
de Musrara a Sheikh Jarrah

Conte-me sobre aquele homem magro e bravo
e como um esquadrão inteiro o atacou
no posto de controle de Qalandia
mesmo sem conseguir abatê-lo

Conte-me sobre aquela garota que se manteve firme
enquanto o buldôzer a esmagava
como uma amendoeira em março

Conte isso àqueles
que dizem que fomos derrotados

§

reserved

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

NO INFERNO

1

Nos anos 30
ocorreu aos nazistas
colocar suas vítimas em câmaras de gás
Os algozes de hoje são mais profissionais:
Eles colocam as câmaras de gás
nas suas vítimas

2

Para o inferno, 2010
Para o inferno, seus ocupantes, vocês e toda a sua prole
E que toda a humanidade vá para o inferno se for como vocês
Que os barcos e aviões, os bancos e os painéis todos vão para o inferno
Eu grito, “para o inferno…”
sabendo muito bem que
sou o único
que vive lá

3

Então, deixe-me deitar
e descansar minha cabeça nos travesseiros do inferno

 

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Aleyda Quevedo (1972–), por Thiago Ponce de Moraes

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Foto de Anaís Madrid.

Aleyda Quevedo (Quito, 1972–) é uma poeta, jornalista, ensaísta literária e gestora cultural equatoriana. Publicou diversos livros, entre os quais se destacam Jardín de dagas (2014, México, 2016, Toulon, edição em castelhano e francês, 2017, La Habana) e Soy mi cuerpo (2006, Quito y 2016, Quito). Ao longo dos anos, tem participado de inúmeros encontros, feiras de livro e festivais internacionais de escritores. Sua poesia está traduzida a diversas línguas, como francês, inglês, hebraico e sueco. Na atividade de curadora literária, organizou antologias importantes, como 13 poetas ecuatorianos nacidos en los 70, 2008, Venezuela e De la ligereza o velocidad que también es perfume, 2012, Cuba. É colaboradora da revista de artes e literatura Vallejo&CO e coordena o selo independente Ediciones de la Línea Imaginaria.

 

thiago ponce de moraes

* * *

Corales

No importa la profundidad del descenso
o la imposible maleza derramada en el camino.
Es largo y frío el viaje sobre oscuros caballos.
Ejercicio de inmersión y belleza piadosa
hasta pisar altos jardines de coral negro.
Entre mi dolor –que conozco tanto desde el lodo-
y el universo poco explorado por la falta de tus palabras,
me queda flotando la impenetrabilidad de la música y la sal.
Las medusas atrapadas entre mis pestañas me jalan rápido.
Más no importa el precio del descenso.
Es necesario volver al camino consciente del miedo
y el aliento del océano golpeándome en la nuca. 

Corais

Não importa a profundidade da descida
ou a impossível mata espalhada no caminho.
É longa e fria a viagem sobre escuros cavalos.
Exercício de imersão e beleza piedosa
até pisar altos jardins de coral negro.
Entre minha dor – que conheço tanto desde a lama –
e o universo pouco explorado pela falta de tuas palavras,
me deixa flutuando a impenetrabilidade da música e do sal.
As medusas presas entre meus cílios me puxam rápido.
Mas não importa o preço da descida.
É necessário voltar ao caminho consciente do medo
e do alento do oceano a me bater na nuca.

§

Ámbar
a E. M.

Enjambre de agua, eterna en su no huella. Duda líquida y abierta al fluir. Profunda inmersión del goce. Arriba o abajo, el lugar de los dos, aunque nada de eso importe ahora que tomamos el baño perfumándonos con esta resina. Entrar en tu cuerpo y encontrar el ámbar, un ejercicio de buceo sin el equipo adecuado. Da igual si estás arriba y yo abajo, o los dos suspendidos en el agua tibia y azulada de la tina pulida. Lisura de mi piel. Relieves en tu cuerpo. Flemas transparentes de un árbol sin nombre. Espuma que torna sinuosos dos cuerpos que no saben de dónde vinieron para encontrarse. Romero y pétalos perfumando el agua ya casi fría del vidrio molido que lo torna todo de un verde que erecta. Norte en tus pulmones y el sur queda debajo de mis axilas. Porcelana y fibra de vidrio, líquenes blancos y algo de aire alcalino que llega desde otra profundidad. Dos cuerpos secan al sol incalculables gotas. Los dos se miran sabiendo del fulgor del ámbar. Teoría y práctica furiosa de un hallazgo sobre la piel que saca humores gélidos del corazón.

Âmbar
a E. M.

Enxame d’água, eterno em não ter rastro. Dúvida líquida e aberta ao fluir. Profunda imersão do gozo. Em cima ou embaixo, o lugar dos dois, ainda que nada disso importe agora que tomamos banho nos perfumando com esta resina. Entrar em teu corpo e encontrar o âmbar, um exercício de mergulho sem equipamento adequado. Dá no mesmo se estás em cima e eu embaixo, ou os dois suspensos na água quente e azulada da banheira polida. Lisura da minha pele. Relevos em teu corpo. Fleumas transparentes de uma árvore sem nome. Espuma que torna sinuosos dois corpos que não sabem de onde vieram para se encontrar. Alecrim e pétalas perfumando a água já quase fria de vidro moído que o torna todo de um verde que erige. Norte em teus pulmões e o sul fica embaixo das minhas axilas. Porcelana e fibra de vidro, líquens brancos e algo de ar alcalino que chega de outra profundidade. Dois corpos secam ao sol incalculáveis gotas. Os dois se olham sabendo do fulgor do âmbar. Teoria e prática furiosa de um achado sobre a pele que tira humores gélidos do coração.

§

Brazada

Curtida la piel, gastados los ojos, aprendí a bucear desnuda entre corales y piedras cortantes. Brazada abriendo el lenguaje: mantener el codo más alto que el brazo, las imágenes más brillantes son música.

Braçada

Curtida a pele, gastos os olhos, aprendi a mergulhar nua entre corais e pedras cortantes. Braçada abrindo a linguagem: manter o cotovelo mais alto que o braço, as imagens mais brilhantes são música.

§

Escribo de tu cuerpo para que no llegue el olvido
No sé otra manera de retenerte si no es escribiéndote
Desde luego, con cierta angustia de que se me escapen detalles.

Escrevo de teu corpo para que não chegue o esquecimento
Não sei outra maneira de prender-te que não seja te escrevendo
Desde já, com certa angústia de que se me escapem detalhes.

§

El granizo ha comenzado a disolverse
Hilos helados corren entre las piedras y las ramas amargas
Parecería que nada se quemó
Que nada fue despojado de su belleza
Tan solo las flores del arupo lucen crispadas
Cristalizadas por tanta pasión del agua
que ha comenzado a disolverse.

O granizo começou a se dissolver
Fios gelados correm entre as pedras e ramas amargas
Pode parecer que nada foi queimado
Que nada foi despojado de sua beleza
Tão só as flores de arupo luzem crispadas
Cristalizadas por tanta paixão d’água
Que começou a se dissolver.

§

Volutas de humo brotan de las piedras porosas
Volutas de humo salen del corazón esponja que ha sabido amarte
Humo transfigurado en dolor como si fuera escrito en agua.

Espirais de fumo brotam das pedras porosas
Espirais de fumo saem do coração-esponja que soube te amar
Fumo transfigurado em dor como se fosse escrito em água.

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poesia, tradução

Um poema de Robert Creeley por Thiago Ponce de Moraes

RobertCreeleyNewBioImage_Credit-ChrisFelver

Robert Creeley foi um poeta e professor universitário estadunidense nascido em 1926, amplamente reconhecido por sua associação ao grupo chamado Black Mountain Poets, que gerou grande impacto sobre as gerações e movimentos de poesia posteriores, a exemplo da Geração Beat e do movimento L=A=N=G=U=A=G=E. Apesar de seu grande alcance junto aos poetas e leitores, Creeley nunca ganhou prêmios e por muito tempo teve sua obra diminuída pelos críticos – que a consideravam simplória por conta dos jogos de linguagem “primitivos”.

Enquanto editor da Black Mountain Review, Creeley desenvolveu um diálogo muito próximo com o também poeta e então reitor do Black Mountain College – universidade experimental da Carolina do Norte –, Charles Olson. Juntos, desenvolveram o conceito de “verso projetivo”, em que se propunha abandonar as formas tradicionais em favor de um verso construído livremente ao longo do processo de composição. Um dos princípios básicos desse conceito é o de que “a forma não é mais que uma extensão do conteúdo”.

Robert Creeley publicou diversos livros de poesia, com destaque para o livro de estreia For Love (1962), além dos livros Words (1965), Mirrors (1983) e Life & Death (1994), entre outros. Creeley também publicou um romance e alguns volumes de prosa, bem como livros de ensaios.

____

Thiago Ponce de Moraes é poeta e tradutor. Publicou os livros de poemas Imp. (Caetés, 2006) e De gestos lassos ou nenhuns (Lumme Editor, 2010), além do livro de ensaios Remos e Versões (Multifoco, 2012) e Agora sim… talvez seja eu e mais alguém: específica experiência da leitura de Paul Celan e Ricardo Reis (NEA, 2014). Faz parte do Conselho Editorial da Revista de Poesia e Debates – Zunái e foi editor da Revista Confraria de Literatura e Arte. Atualmente, é doutorando em Literatura Comparada na Universidade Federal Fluminense (UFF) e professor no Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ). Prepara, em lento progresso, seu terceiro volume de poemas: Dobres sobre a luz. No ano de 2015, participa de dois festivais: 31º Festival Internacional de Poesia de Tróis-Rivières (Canadá) e XX Encontro Internacional de Escritores (México).

* * *

MUDADO
           para Bobbie

Você mesmo entrou na sala ontem
e não era você. Seu modo de
estar aqui não é o modo de outro.
É tudo o mesmo talvez a esmo,
e a mesma coisa velha não é você.
Todas as negativas na existência
do mesmo modo não mudam nada.

As pessoas me contam histórias tristes às vezes,
e eu trato de contá-las de volta a elas.

Venha pra casa. É onde você está de todo modo.
De todo modo eu queria que você não estivesse em casa.
Onde é casa de todo modo sem mim.

Esse lugar poderia ser embrulhado
e acomodado. Alguém
poderia avisar às assim chamadas pessoas.

Eu queria que eu pudesse falar com as pessoas
sem me mudar. Casa,
onde quer que seja, é onde o coração está.

Eu não quero falar com as pessoas,
onde o coração está. É casa
Você e eu a falar por horas.

Por horas eu não pensei em você
E então pensei e não pude mudar.

Seu aniversário é aqui
sem você, aquele dia em que
você nasceu para estar aqui.

O dia mais adorável em que vi você
comprar seu primeiro carro
com uma presença de espírito adorável.

Não funciona sem você.
Eu sim, isso não. Engraçado
ou não, não é bom.

Estarei em casa, de todos os modos –
você que diz. Vou colocar um laço
nisso. Você é meu amor.

Atravesse o meu sopro, carente,
carente, pra chegar em casa novamente.
Um tipo de estrada estranha
presa no meio.

O que mais quer que isso seja,
o amor é o meio
com você e eu
bem no meio.

O meio da meia-noite
é o tempo que é,
duas horas mais cedo que você,
e eu indo a lugar algum.

Só o mesmo tempo,
seu aniversário. Você e eu
ao mesmo tempo no
mesmo lugar, imutáveis.

AWAY
for Bobbie

Yourself walked in the room tonight
and it wasn’t you. Your way of
being here isn’t another’s way.
It’s all the same somewhere maybe,
and the same old thing isn’t you.
All the negatives in existence
don’t change anything anyway.

The people tell me a sad story sometimes,
and I tend to tell it back to them.

Come home. It’s where you are anyway.
Anyway I wish you weren’t home.
Where is home anyway without me.

This place could be rolled up
and put away. Somebody
could warn the so-called people.

I wish I could talk to the people
without going away. Home,
wherever, is where the heart is.

I don’t want to talk to the people,
where the heart is. It’s home
you and me talk for hours.

For hours I didn’t think of you
and then I did and can’t stop.

Your birthday is here
without you, that day
you were born to be here.

The loveliest day I saw you
buying your first car
with such a lovely presence of mind.

It doesn’t work without you.
I do, it doesn’t. Funny
or not, it’s no good.

I’ll be home, all ways–
you name it. I’ll put a ribbon
on it. You’re my love.

Cross in my wind, wanting,
wanting, to get home again.
A kind of weird road
stuck in the middle.

Whatever else it is,
love is the middle
with you and me
right in the middle.

The middle of midnight
is what time it is,
two hours earlier than you,
and me going nowhere.

Only the same time,
your birthday. You and me
at the same time in
the same place, always.

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poesia, tradução

Antonio Gamoneda (1931-) por Thiago Ponce de Moraes

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Antonio Gamoneda é um poeta e crítico de arte espanhol nascido em 1931. A recepção crítica à sua obra é bastante positiva, especialmente a partir da publicação de Edad (1987), sendo hoje reconhecido como uma das vozes mais relevantes da poesia contemporânea espanhola. O prestígio crescente de sua escrita trouxe, entre outras distinções, o Prêmio Cervantes, em 2006. Alguns de seus livros foram traduzidos ao português e publicados pelas editoras Assírio & Alvim e Quasi Edições.

Grande parte de sua obra poética – referente ao período de 1947 a 2004 – está reunida no volume Esta luz (2004). Alguns anos mais tarde, Extravío en la luz (2009) reúne seis poemas inéditos acompanhados de gravuras de Juan Carlos Mestre; é sua última compilação de poemas até agora. Embora seja corrente a avaliação de que a voz poética de Gamoneda ocupa um lugar único no ambiente literário – e que, portanto, não pertence a nenhuma linhagem ou escola –, alguns críticos têm proposto diálogos aproximativos entre a sua obra e as de Georg Trakl e do último Garcia Lorca.

Thiago Ponce de Moraes

* * *

 PENSA a luz, me ama
sob seus cabelos.

Põe seus lábios em
minhas feridas, sorri,

sob seus cabelos.

PIENSA la luz, me ama
bajo sus cabellos.

Pone sus labios en
mis heridas, sonríe,

bajo sus cabellos.

§

TU

Cair em um rosto, existir
com sua respiração e com sua boca…

Quando tu estavas em perigo,
tu gritaste, mas foi
na garganta de outro ser humano;
se levantou teu corpo
e foi nos braços de outro ser humano.

Então compreendias.

E tua necessidade e tua dor
não foram nunca como antes. Tu
já não vês signos. Agora, tu desprezas
todas as dúvidas. E teu pensamento
não é espelho que cala; já é amor
e destino e conduta e existência.

Caer en un rostro, existir
con su respiración y con su boca…

Cuando tú estabas en peligro,
tú gritaste, mas fue
en la garganta de otro ser humano;
se levantó tu cuerpo
y fue en los brazos de otro ser humano.

Entonces comprendías.

Y tu necesidad y tu dolor
no fueron nunca como antes. Tú
ya no ves signos. Ahora, tú desprecias
todas las dudas. Y tu pensamiento
no es espejo que calla; ya es amor
y destino y conducta y existencia.

§

OUVIR o coração
em um silêncio novo,
advertir o destino
onde estava o desejo.

Ah verdadeiro amor,
que sensação de tempo
possuído, pensar
no mundo e em ti
em um só pensamento.

OÍR el corazón
en un silencio nuevo,
advertir el destino
donde estaba el deseo.

Ah verdadero amor,
qué sensación de tiempo
poseído, pensar
el mundo y en ti
en sólo un pensamiento.

§

NOSSOS corpos se compreendem cada vez mais tristemente, mas eu amo esta púrpura desolada.

Ah a flor negra dos dormitórios, ah as pastilhas do amanhecer.

NUESTROS cuerpos se comprenden cada vez más tristemente, pero yo amo esta púrpura desolada.

Ah la flor negra de los dormitorios, ah las pastillas del amanecer.

§

A SOLIDÃO se desnuda em teus olhos,
menina interminável, extensa na amargura;
talvez um morto fugitivo te habita
e te cruza o sangue e, no sangue, anoitece.

LA SOLEDAD se desnuda en tus ojos,
muchacha interminale, extensa en la amargura;
quizá un muerto fugitivo te anida
y te cruza la sangre y, en la sangre, anochece.

§

RAINHA de meu sangue, vontade de amargura,
juventude derrotada por um reino de sombra,
te balanças em meus braços como um mar; incessante
como o mar me nomeia.

Em mim acaba teu corpo. Há palavras obscuras
habitando teus olhos. Desnuda-te em minhas mãos.

Vive a noite. É
a hora de perder-me em teu cabelo e em teu pranto.

REINA de mi sangre, voluntad de amargura,
juventud derrotada por un reino de sombra,
te meces en mis brazos como un mar; incesante
como el mar me nombras.

En mí acaba tu cuerpo. Hay palabras oscuras
habitando tus ojos. Desnúdate en mis manos.

Vive la noche. Es
la hora de perderme en tu cabello y tu llanto.

(traduções de Thiago Ponce de Moraes)

Aqui vocês podem ver outras traduções de Gamoneda, feitas por Vinícius Nicastro Honesko.

* * *

Thiago Ponce de Moraes é poeta e tradutor. Publicou os livros de poemas Imp. (Caetés, 2006) e De gestos lassos ou nenhuns (Lumme Editor, 2010), além do livro de ensaios Remos e Versões (Multifoco, 2012). Atualmente, é doutorando em Literatura Comparada na Universidade Federal Fluminense (UFF) e professor no Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ). Em lento progresso, prepara uma nova compilação de poemas sob o nome de Dobres sobre a luz; além de traduções de J.H Prynne, Basil Bunting, Emily Dickinson e R.W. Emerson.

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