Saeed Jones, por Tom Jones

Saeed Jones nasceu em Memphis, Tennessee e cresceu em Lewisville, Texas. Já trabalhou no BuzzFeed como editor  LGBTQIA+ e de cultura. Seu debut na literatura se deu com a publicação, em 2014, da coletânea de poemas intitulados Prelude to Bruise, uma obra com poemas brutalmente eróticos que apresentam a dores e as doçuras das relações afetivas das pessoas LGBTQIA+. No mesmo ano foi finalista do National Book Critics Circle Award e em 2019 lançou o livro de memórias How We Fight for Our Lives. 

Traduzir Saeed Jones é um processo que me remete à minha própria experiência de pessoa LGBTQIA+ com todas as nuances da busca pelo afeto, das dores e descobertas. Em Boy in a stolen evening gown, o eu lírico confunde-se com a paisagem de um campo de flores raras onde à performance da existência e do desejo experimenta o gozo e a dor. 

O vestido nessa poética é a metáfora da identidade, do desejo do ser, mas também é um limite, uma prisão que se move no corpo mas não na história. Permanece. Entretanto também guarda sem si a possibilidade da espera. 

I don’t even know what I am
in this dress; I just sway with
my arms open and wait.

O que há de vir? O que virá para um menino que rouba a saia e o vestido da irmã para poder alargar os limites das imposições de gênero e não aprendeu a lidar com a modelagem de sua identidade? 

O desejo é recorrentemente pintado como planta, talvez daninha, incapaz de ser compreendida na natureza de sua existência, impossível de ser amada pela imprevisibilidade de carácter e impossibilidade de controle. Kudzu me toca como se o poeta soubesse meus mais recônditos medos de ter a natureza negada e não poder viver livremente meus afetos.

Tom Jones

Boy in a Stolen Evening Gown

In this field of thistle, I am the improbable
lady. How I wear the word: sequined weight
snagging my saunter into overgrown grass, blonde
split-end blades. I waltz in an acre of bad wigs.

Sir who is no one, sir who is yet to come, I need you
to undo this zipped back, trace the chiffon
body I’ve borrowed. See how I switch my hips

for you, dry grass cracking under my pretend
high heels? Call me and I’m at your side,
one wildflower behind my ear. Ask me
and I’ll slip out of this softness, the dress

a black cloud at my feet. I could be the boy
wearing nothing, a negligee of gnats.

Garoto de vestido

Nesse campo florido, sou a improvável
dama. Como visto a palavra: leves lantejoulas
desfilando em uma passarela de grama alta, louras
lâminas cortantes. Valseio em território de picumãs malignas

Você que ainda não é ninguém, que ainda virá, preciso
de ajuda com o zíper nas costas, a modelar o chiffon
Deste vestido emprestado. Olha como rebolo

pra você, grama seca estalando sob as pontas
dos pés, saltos? Me chama e estou ao seu lado,
com uma flor selvagem atrás da orelha. Me chama
e escapo dessa suavidade, o vestido

uma nuvem escura aos meus pés. Eu poderia ser o garoto
sem vestir nada, nu sob véu.
£

Drag

The dress is an oil slick. The dress
ruins everything. In a hotel room
by the water, I put it on when
he says, I want to watch you take it off.
Zipping me up, he kisses the mile
markers of my spine. I can’t afford
this view. From here, I see a city
that doesn’t know it’s already
drowning. My neck shivers from
the trail of his tongue. I keep my
eyes on the window, just past
his bald spot. He’s short. I can see
the rain that has owned us for weeks
already. The dress will survive us.
The dress will be here when men
come in boats to survey the damage.
He makes me another drink, puts
on some jazz, and the dress begins
to move without me. Slow like some-
thing that knows it cannot be stopped,
the dress seeps. The dress slides
with my body floating inside,
an animal caught in the sludge.
If he wraps his arms around me,
it will be the rest of his life.
I don’t even know what I am
in this dress; I just sway with
my arms open and wait.

Drag

O vestido é um vazamento. O vestido
arruína tudo. Num quarto de hotel
às margens, me visto e ele diz
Tira tudo.
Seus beijos percorrem o zíper
e a malha nas minhas costas
não posso pagar pela vista
daqui vejo uma cidade
se afogando, mas não sabe
meu pescoço arrepia ao
rastro da sua língua enquanto olho
a janela por cima de sua calvície.
Ele é pequeno. Vejo a chuva
que já nos tem há semanas.
O vestido sobreviverá a nós.
Estará aqui quando homens de barco
sobreviverem aos danos.
Ele me serve outra bebida
e jazz. O vestido se move sem mim.
Devagar. Como se soubesse
que não será impedido,
o vestido infiltra-se.
O vestido desliza com meu corpo
navegando dentro. Um animal
preso ao lodo. Se ele me agarra
será o seu repouso, enfim.
Nem sei o que nesse vestido sou.
Apenas me movo de braços abertos
e espero.
£

Kudzu

………….. I won’t be forgiven
for what I’ve made
of myself.
………….. Soil recoils
from my hooked kisses.
………….. Pines turn their backs
on me. They know
what I can do
with the wrap of my legs.
………….. Each summer,
when the air becomes crowded
with want, I set all my tongues
upon you.
………….. To quiet this body,
you must answer
my tendrilled craving.
………….. All I’ve ever wanted
was to kiss crevices, pry them open,
and flourish within dew-slick
hollows.
………….. How you mistake
my affection.
And if I ever strangled sparrows,
it was only because I dreamed
of better songs.

Kudzu/ Puerária

………. Não terei perdão
pelo que fiz
de mim.

………. O solo recua
aos meus viciados beijos
Pinheiros me viram
as costas. Eles sabem
o que fazem minhas pernas.

………. Todo verão quando o ar se enche
de desejo, agarro minhas línguas
em ti.

………. Para acalmar este corpo,
respondo a minha
ânsia de gavinha.

………. Sempre quis beijar bocas
intrometer-me em fissuras
e florescer em ocos repletos
de orvalho.

………. Por que confundes
minha afeição?

………. Se alguma vez estrangulei andorinhas,
foi por sonhar
com melhores canções.
£

Tom Jones é um professor cearense. Estudioso das influências das culturas africanas na constituição da identidade brasileira, é mestre em Estudos da Tradução com pesquisa sobre as poéticas do culto afro-brasileiro do Xangô pernambucano. Interessa-se por literaturas e oraturas de certo modo consideradas à margem do cânone hegemônico; poéticas que formam todo um centro. Tem buscado traduzir poetas de origem africana e afro-americana na tentativa de tornar essas vozes ouvidas em português por quem em inglês não ouve. Já apareceu na escamandro com traduções de Warsan Shire.

*

essa língua tão áspera: Maria Sabina, por Julia Bicalho Mendes

me vejo encontrando Sabina, conto sobre minha filha neurodiversa, ela me ampara numa acolhida de sábia que é. diz coisas como “a menininha vai rir e não chorar com seus fantasmas; a ti te costuro com a própria ferida”. talvez a linguagem de seu livro (os cânticos que entoa), ditada pelos meninos santos (os cogumelos), a velada (o ritual) façam mais negócio que as inúmeras cartelas de drogas legalizadas trocadas de dois em dois meses que adoecem nossos corpos e bolsos. e sim, uma acolhida bem diferente muito diferente da gente mui amiga e gratiluz que nunca vai me responder quando digo “é muito sozinho estar aqui”, ou então me manda um “aceita, entrega, confia e agradece”. diferente também da terapeuta que também está cansada e, coitada, perdida.

esta é a Maria Sabina que uma parte de mim gostaria de se ver encontrando, àquela Maria Sabina que entende – e/ ou vê e sente – o mundo como coisa coletiva; que sabe que a educação e a saúde da minha filha não é um problema meu, e que não é quem pariu matheus que tem que o embalar, seja lá quem for matheus, é um problema coletivo; que a palavra mãe nem deveria existir, que a palavra pai nem deveria existir, que a criação e saúde das crias deveria ser coisa coletiva. que sabe que a morte de john lennon (que, dizem as lendas, foi mais um que a conheceu em busca de – iluminação, alucinação, quem sabe?), não é um fato individual, é coletivo. que sabe, eu aqui digitando isso nesta escola agora e pensando, em meus alunes pensando em educação não se trata de fazer desta uma escola melhor, deles alunes melhores, mas do coletivo o melhor. e isso se estende num sem fim: esta é a Maria Sabina, La Señora, a Sacerdotisa, a Xamã, a Curandeira, e um sem-fim de vocativos pelos quais ficou muito mais conhecida.

tem também essa parte de mim que se enche de raiva e se enraivece muito mesmo e que se interessa em falar sobre apropriação cultural e a miséria a que foi relegada após a converterem numa malinche moderna; e ainda a parte que quer falar sobre sua infância, os laços com a irmã, sua força de mulher que como uma Oyá pare nove; seu corpo de mulher-árvore que só se vê livre quando se torna viúva. tudo isso que você que me lê poderá conhecer nesse artigo escrito por Pedro Cardoso para a Revista Buala e também no livro “A Vida de Maria Sabina a Sábia dos Cogumelos” escrito por Álvaro Estrada (com vários de seus cânticos também compilados ao final), traduzido para o brasileiro por Beatriz Perrone Moisés e publicado em 1984 pela Martins Fontes.

acontece que outra parte de mim se interessa muito por essa linguagem e esse livro que Sabina recebeu de seus meninos niños santos e do qual era intérprete (e que poeta nunca foi cavalo da linguagem?) e que poucas pessoas leem como a própria Sabina o chamou: linguagem – a linguagem de livro que inclusive chegou a ser compilada e publicada em livro propriamente dito de papel e tal quando ela ficou famosa, num movimento que me lembra muito o falatório de Stella do Patrocínio, mulher preta, pobre, considerada louca e enclausurada num hospício, mas que quando uma senhora branca legitimada pela academia e outros meios grava suas falas num gravador e compila e coloca em livro de papel e tal se torna poeta (sim, Stela era poeta, como Sabina era poeta, a questão é precisar da validação e, risos, do papel!).

curiosamente, Reino dos bichos e dos animais é o meu nome, o livro de Stela do Patrocínio, foi publicado no Brasil em 2001 pela Azougue editorial, a mesma editora que traduziu e publicou muito do que chegou por aqui de etnopoesia – de povos indígenas (aqui no youtube uma entrevista bacana sobre tradução e etnopoesia): segundo um dos livros, Etniopoesia do Milênio de Jerome Rothemberg e em tradução de Luci Collin, “uma poética do outro, para o outro, com o outro, não uma leitura exótica de outros povos”.

sobre as traduções que se seguem nessa língua tão áspera, comecei a ler a linguagem-livro-poesia de Sabina há alguns anos e vinha guardando tudo o que encontrava em espanhol e mazateca, cotejando aqui e ali, no desejo de fazer minhas traduções algum dia. até que num outro dia me deparei com uma tradução tão bonita da Julia Bicalho Mendes que achei que seria bom estender essa caminhada e ler mais de Sabina via Julia. troquei uma ideia com ela e sugeri que traduzisse mais e ela achou massa, porque Sabina vai ali em seu coração de poeta num lugar bonito. e cá estamos.

Henry Munn, citado por Heriberto Yépez no artigo Re-reading Maria Sabina escreve: “Sabina herdou de sua cultura um repertório de temas e motivos nos quais ela, como outros xamãs, baseou suas próprias variações individuais […] portanto, ela era sábia não porque comia cogumelos e fazia viagens, mas porque dominava um dicionário dinâmico de significados […] ela reescreveu aquele dicionário dinâmico ao longo de sua vida. Estava tentando revolucionar a práxis. É por isso que até permitiu a participação de estrangeiros. Estava tentando ir além. Ela queria abrir o livro. Talvez tentar abrir o livro demais tenha sido o motivo pelo qual seu próprio livro se desfez.”

depois da minha desastrosa experiência na faculdade de história onde professores diziam pra gente ler a história pela lente dos vencidos, mas só nos ofereciam textos escritos pelos vencedores, foi através da poesia que pude me acercar um cadiño más não só dos povos originários, pretos e indígenas, de aqui e de acolá, mas fundamentalmente fortalecer minha identidade latinamericana (de gente, de mulher e, ó, de poeta!). E ler Maria Sabina é compreender que, ao ser uma mulher de mil tentáculos – esse “eu sou” cada coisa que vem a cada um de seus versos – elabora e reelabora mitos, que não há experimentação radical sem cura.

e esse ler poesia e compreender poetas como poetas não é apenas questão de linguagem: é o que é. e é respeito também. por isso te peço, leia essas traduções – e poesia, num geral – menos como um fenômeno etnográfico exótico e interessante – e mais como linguagem: poesia, arte.

nina rizzi

*

Maria Sabina foi uma sacerdotisa, xamã, poeta, sábia, mazateca, da região de Huautla (México). Seus cânticos foram entoados originalmente em sua língua nativa, em meio a ritos de cura/transe/êxtase e depois traduzidos e transcritos ao espanhol, sem nunca terem sido revisados por ela, que além de analfabeta, pouco conhecia a língua hispânica. Seus poemas são encontrados em inúmeras versões, variando muito em sua estrutura e composição, levando a entender que não há uma disposição definitiva/oficial para eles, mas que seus versos eram mesmo assim, repetidos oralmente de maneiras diversas. Suas palavras eram sopradas pelas “crianças santas” – cogumelos sagrados – que cantavam através dela. Palavras que caiam sobre seu corpo. Palavras de um livro que não tinha início nem fim, e que chegavam sobre si por uma ordem intuitiva, própria para cada instante. Assim, cada uma de suas palavras engendra uma força grandiosa, porque cada uma é dona de si, independentes de suas roupas e suas formas, carregadas de um manifesto mágico, que nos fala, e nos toca, tão diretamente como faria o próprio céu ou a terra.

*

Todo mi lenguaje está en el libro que me fue dado. Soy la que lee, la intérprete. Ése es mi privilegio. Mi sabiduría no puede enseñarse. Es por eso que digo que mi linguaje nadie me lo enseñó, porque es el lenguaje que los niños santos dicen al entrar a mi cuerpo. Los ignorantes nunca podrán cantar como los sabios. Los niños santos me dictan, yo soy la intérprete. Aparece el libro y ahí empiezo a leer. Cuando ellos me entregaron el libro había música. Sonaba el tambor, la trompeta, el violín y el salterio. Me sumerjo y camino por abajo. Puedo buscar en las sombras y el silencio. Así llego donde las enfermedades están agazapadas. Muy abajo. Abajo de las raíces y del agua, del barro y de las piedras. Otras veces asciendo, muy arriba, arriba de las montañas y de las nubes. Al llegar adonde debo miro a Dios. Miro a las gentes buenas. Allí se sabe todo. Del todo y de todos, porque allí está todo claro. Oigo voces. Me hablan. Es la voz del pequeño que brota. El dios que vive en ellos entra en mi cuerpo. Yo cedo mi cuerpo y mi voz a los niños santos. Ellos son los que hablan, en las veladas trabajan en mi cuerpo. Me dicen que soy la mujer de los mares, que traigo la sabiduría en mis manos. Que soy la mujer de San Pedro y San Pablo. Que soy la mujer niña. A veces lloro, pero cuando silbo nadie me espanta. En el medio está el Lenguaje. En esta orilla, en el medio y en la otra orilla está el Lenguaje. Com los niños veo a Dios. Ellos hablan y yo tengo el poder de traducir. Si digo que soy la mujercita de libro eso quiere decir que un pequeno que brota es mujer y que ella es la mujercita de libro y así me convierto durante la velada en hongo-mujercita-de-libro. Si estoy en la orilla acuática, yo digo:

soy mujer que está parada
en la arena,
porque la sabiduría viene
el lugar donde nace
la arena.
soy la mujer que escribe.
¿En qué número descansas,
Padre amado?
Padre lleno de vida
Padre lleno de frescura
aquí traigo mi rocío
mi rocío fresco
mi rocío transparente
soy la mujer del alba
soy la mujer día
soy la mujer santo
soy la mujer espíritu
soy la mujer que trabaja
soy la mujer que está debajo del árbol que gotea
soy la mujer crepúsculo
soy la mujer del huipil pulcro
soy la mujer remolino
soy la mujer que mira hacia dentro
soy mujer pensamiento
mujer de sentarse
mujer de pararse
El Cristo traigo yo
el corazón de nuestra Virgen traigo yo
el corazón de nuestro Padre traigo yo
el corazón de Tata traigo yo
Madre que estás en el cielo
Padre que estás en el cielo
hacia allá me dirijo
hacia allá voy
pues allí estoy hablando con mi libro
con mi lengua y mi boca

Toda minha linguagem está no livro que me foi dado. Sou a que lê, a interprete. Esse é o meu privilégio. Minha sabedoria não pode ser ensinada. É por isso que eu digo que ninguém me ensinou minha linguagem, porque é a linguagem que as crianças santas dizem ao entrarem em meu corpo. Os ignorantes nunca poderão cantar como os sábios. As crianças santas me recitam, eu sou a interprete. Aparece o livro e aí começo a ler. Quando elas me entregaram o livro havia música. Soava o tambor, o trompete, o violino e o saltério. Submerjo e caminho para o fundo. Posso buscar nas sombras e no silêncio. Assim chegou onde as enfermidades estão escondidas. Bem fundo. Abaixo das raízes e da água, do barro e das pedras. Outras vezes ascendo, muito alto, acima das montanhas e das nuvens. Ao chegar onde devo vejo Deus. Vejo as pessoas boas. Assim tudo se sabe. Sobre tudo e sobre todos, porque ali está tudo claro. Ouço vozes. Falam comigo. É a voz do pequeno que brota. O deus que vive nelas entra em meu corpo. Eu cedo meu corpo e minha voz para as crianças sagradas. Nas veladas são elas que falam, trabalham em meu corpo. Me dizem que sou a mulher dos mares, que trago a sabedoria em minhas mãos. Que sou a mulher de São Pedro e São Paulo. Que sou a mulher menina. Às vezes choro, mas quando assobio nada me assusta. No meio está a Linguagem. Na margem, no meio, e na outra margem, está a Linguagem. Com as crianças vejo Deus. Elas falam e eu tenho o poder de traduzir. Se digo que sou a mulherzinha de livro, isso quer dizer que um pequeno que brota é mulher e que ela é a mulherzinha de livro e assim me converto durante a velada em cogumelo-mulherzinha-de-livro. Se estou na margem aquática, eu digo:

sou a mulher que está parada na areia,
porque a sabedoria vem desde o lugar
onde nasce a areia.
sou a mulher que escreve.
em que número descansas Pai amado?
Pai cheio de vida
Pai cheio de frescor
aqui trago meu orvalho
meu orvalho fresco
meu orvalho transparente
sou a mulher da Alvorada
sou a mulher dia
sou a mulher
sou a mulher Santo
sou a mulher espírito
sou a mulher que trabalha
sou a mulher que está debaixo da árvore que goteja
sou a mulher crepúsculo
sou a mulher do huipil elegante
sou a mulher redemoinho
sou a mulher que olha para dentro
sou a mulher pensamento
mulher de sentar
mulher de parar
sou eu que trago o Cristo
sou eu que trago o coração da nossa Virgem
sou eu que trago o coração do nosso Pai
sou eu que trago o coração de Tata
Mãe que estais nos céus
Pai que estais nos céus
é para lá que estou indo
é para lá que eu vou
pois é onde falo com meu livro
com minha língua e minha boca
£

soy mujer que mira hacia adentro
soy mujer luz del día
soy mujer luna
soy mujer estrella de la mañana
soy mujer estrella dios
soy la mujer constelación guarache
soy la mujer constelación bastón
porque podemos subir al cielo
porque soy la mujer pura
soy la mujer del bien
porque puedo entrar y salir del reino de la muerte

soy una mujer que llora
soy una mujer que escupe
soy una mujer que ya no da leche
soy una mujer que habla
soy una mujer que grita
soy una mujer que da la vida
soy una mujer que ya no pare
soy una mujer que flota sobre las aguas
soy una mujer que vuela por los aires

soy una mujer que ve en la tiniebla
soy una mujer que palpa la gota de rocio posada sobre la yerba
soy una mujer hecha de polvo y vino aguado

soy una mujer que sueña mientras la atropella el hombre
soy una mujer que siempre vuelve a ser atropellada
soy una mujer que no tiene fuerza para levantar una aguja
soy una mujer condenada a muerte

soy una mujer de inclinaciones sencillas
soy una mujer que cría víboras y gorriones en el escote
soy una mujer que cría salamandras y helechos en el sobaco
soy una mujer que cría musgo en el pecho y en el vientre
soy una mujer a la que nadie besó jamás con entusiasmo
soy una mujer que esconde pistolas y rifles en las arrugas de la nuca

soy mujer que hace tronar
soy mujer que hace soñar
soy mujer araría, mujer chuparrosa
soy mujer águila, mujer águila dueña
soy mujer que gira porque soy mujer remolino
soy mujer de un lugar encantado, sagrado
porque soy mujer aerolito.

sou mulher que olha para dentro
sou mulher luz do dia
sou mulher lua
sou mulher estrela deus
sou a mulher constelação guarache
sou a mulher constelação bastão
porque podemos subir ao céu
porque sou a mulher pura
sou a mulher de bem
porque posso entrar e sair do reino da morte

sou uma mulher que chora
sou uma mulher que cospe
sou uma mulher que já não dá leite
sou uma mulher que fala
sou uma mulher que grita
sou uma mulher que dá a vida
sou uma mulher que não pare
sou uma mulher que flutua sobre as águas
sou uma mulher que voa pelos ares

sou uma mulher que vê na escuridão
sou uma mulher que que apalpa a gota de orvalho repousada sobre a erva
sou uma mulher feita de pó e vinho aguado

sou uma mulher que sonha enquanto é atropelada pelo homem
sou uma mulher que sempre volta a ser atropelada
sou uma mulher que não tem forças para levantar uma agulha
sou uma mulher condenada a morte
sou uma mulher de inclinações simples
sou uma mulher que cria víboras e pardais no decote
sou uma mulher que cria salamandras e samambaias no sovaco
sou uma mulher que cria musgo no peito e no ventre
sou uma mulher a qual ninguém jamais beijou com entusiasmo
sou uma mulher que esconde pistolas e rifles nas rugas da nuca

sou mulher que faz trovoar
sou mulher que faz sonhar
sou mulher arado, mulher chuparrosa
sou uma mulher águia, mulher águia dona
sou mulher que gira porque sou mulher redemoinho
sou mulher de um lugar encantado, sagrado,
porque sou mulher aerólito.
£

soy un ciervo: de siete púas,
soy una creciente: a través de un llano,
soy un viento: en un lago profundo,
soy una lágrima: que el Sol deja caer,
soy un gavilán: sobre el acantilado,
soy una espina: bajo la uña,
soy un prodigio: entre las flores,
soy un mago: ¿quién sino yo
inflama la cabeza fría con humo?

soy una lanza: que anhela la sangre,
soy un salmón: en un estanque,
soy un señuelo: del paraíso,
soy una colina: por donde andan los poetas,
soy un jabalí: despiadado y rojo,
soy un quebrantador: que amenaza la ruina,
soy una marea: que arrastra la muerte,
soy un infante: ¿quién sino yo
atisba desde el arco no labrado del dolmen?

soy la matriz: de todos los bosques,
soy la fogata: de todas las colinas,
soy la reina: de todas las colmenas,
soy el escudo: de todas las cabezas,
soy la tumba: de todas las esperanzas.

sou um cervo de sete pontas,
sou uma crescente: através de uma planície,
sou um vento: em um lago profundo,
sou uma lágrima: que o sol deixa cair,
sou um gavião: sobre o penhasco,
sou um espinho: debaixo da unha,
sou um prodígio: entre as flores,
sou um mago: quem senão eu
inflama com fumaça a cabeça fria?

sou uma lança: que anseia por sangue,
sou um salmão: eu um tanque,
sou um chamariz: do paraíso,
sou uma colina: por onde andam os poetas,
sou um javali: rubro e impiedoso,
sou uma britadeira: que ameaça a ruína,
sou uma maré: que arrasta a morte,
eu sou uma criança: quem senão eu
espreita o arco não esculpido do círculo de pedras?

sou a matriz: de todos os bosques,
sou a fogueira: de todas as colinas,
sou a rainha: de todas as colmeias,
sou o escudo: de todas as cabeças,
sou a tumba: de todas as esperanças.
£

soy la mujer que sólo nací.
soy la mujer que sola caí.
soy la mujer que espera.
soy la mujer que examina.
soy la mujer que mira hacia adentro.
soy la mujer que busca debajo del agua.
soy la nadadora sagrada
porque puedo nadar en lo grandioso.

soy la mujer luna.
soy la mujer que vuela.
soy la mujer aerolito.
soy la mujer constelación huarache.
soy la mujer constelación bastón
soy la mujer estrella, Dios
porque vengo recorriendo los lugares desde su origen.

soy la mujer de la brisa.
soy la mujer rocío fresco.
soy la mujer del alba.
soy la mujer del crepúsculo.
soy la mujer que brota.

soy la mujer arrancada.
soy la mujer que llora.
soy la mujer que chifla.
soy la mujer que hace sonar.
soy la mujer tamborista.
soy la mujer trompetista.
soy la mujer violinista.
soy la mujer que alegra
porque soy la payasa sagrada.

soy la mujer piedra del sol.
soy la mujer luz de día.
soy la mujer que hace girar.
soy la mujer del cielo.
soy la mujer de bien.
soy la mujer espíritu
porque puedo entrar y puedo salir
en el reino de la muerte.

soy la mujer que chupa
soy la mujer que limpia
soy la mujer que cura
soy la mujer hierbera
soy la mujer sabia en lenguaje
porque soy la mujer sabia en medicina.

sou a mulher que somente nasci
sou a mulher que sozinha caí
sou a mulher que espera
sou a mulher que examina
sou a mulher olha para dentro
sou a mulher que busca deibaixo d’água
sou a nadadora sagrada
porque posso nadar no grandioso
sou a mulher lua
sou a mulher que voa
sou a mulher aerólito
sou a mulher constelação huarache
sou a mulher constelação bastón
sou a mulher estrela Deus
porque venho percorrendo os lugares desde sua origem

sou a mulher da brisa
sou a mulher do orvalho fresco
sou a mulher do alvorecer
sou a mulher do crepúsculo
sou a mulher que brota
sou a mulher arrancada
sou a mulher que chora
sou a mulher que endoida
sou a mulher que faz soar
sou a mulher tamborista
sou a mulher trompetista
sou a mulher violinista
sou a mulher que alegra
porque sou a palhaça sagrada.

sou a mulher pedra do sol
sou a mulher luz do dia
sou a mulher que faz girar
sou a mulher do céu
sou a mulher do bem
sou a mulher espírito
porque posso entrar e posso sair
do reino da morte.

sou a mulher que chupa
sou a mulher que limpa
sou a mulher que cura
sou a mulher herborista
sou a mulher sábia em linguagem
porque sou a mulher sábia em medicina
£

Cúrate mijita, con La Luz del sol y los rayos de la luna
con el sonido Del Río e la cascada
con el vaivén del mar y el aleteo de las aves

Curate mijita con las hojas de mienta y la hierbabuena,
con el neem y el eucalipto
edúlzate con lavanda, romero y manzanilla
abrázate con el grano de cacao y un toque de canela
ponle amor al té en lugar de azúcar y tómalo mirando las estrellas

Cúrate milita, con los besos que te da el viento y los abrazos de la lluvia
hazte fuerte con los pies descalzos en la tierra y con todo lo que de ella nace
vuélvete cada día más lista haciendo caso a tu intuición
mirando el mundo con el ojito de tu frente.

Salta, baila, canta, para que vivas más feliz

Curate Mijita, con amor bonito, y recuerda siempre…
Tu eres la medicina

Cure-se, filhinha, com a luz do sol e os raios da lua
com o som do rio e da cachoeira
com o vaivém do mar e o esvoaçar das aves

Cure-se, filhinha, com as folhas de menta e hortelã
com o neem e o eucalipto
se adoce com lavanda, alecrim e camomila
se abrace com o grão do cacau e um toque de canela
acresça amor ao chá no lugar de açúcar e beba-o olhando as estrelas

Cure-se, filhinha, com os beijos que te dá o vento e os abraços da chuva
faça-se forte com os pés descalços na terra e com tudo o que dela nasce
torne-se cada dia mais preparada, escutando a sua intuição
enxergando o mundo com o seu olhinho da fronte

Salte, dance, cante, para que você viva mais feliz

Cure-se, filhinha, com amor bonito, e lembre sempre…
Você é a medicina.

£

Hay un mundo más allá del nuestro, un mundo que está lejos, también cercano e invisible. Ahí es donde vive Dios, donde vive el muerto y Los Santos. Un mundo donde todo ha pasado ya, y se sabe todo. Ese mundo habla. Tiene un idioma proprio. Yo informo lo que dice. El hongo sagrado me toma de la mano y me lleva al mundo donde se sabe todo. Allí están los hongos sagrados, que hablan en cierto modo que puedo entender. Les pregunto y me contestan. Cuando vuelvo del viaje que he tomado con ellos, digo lo que me han dicho y lo que me han mostrado

Há um mundo além do nosso, um mundo que está longe, também próximo e invisível. Aí é onde vive Deus, onde vive o morto e os Santos. Um mundo onde tudo já passou e tudo se sabe. Esse mundo fala. Tem um idioma próprio. Eu informo o que ele diz. O cogumelo sagrado me toma pelas mãos e me leva ao mundo onde tudo se sabe. Ali estão os cogumelos sagrados, que falam de forma que posso entender. Eu pergunto e eles respondem. Quando volto da viagem que tive com eles, revelo o que me disseram e o que me mostraram.
£

Julia Bicalho Mendes é poeta, terapeuta, performer, tem se dedicado à tradução de autories da região da America Latina, do espanhol e outras línguas e interlínguas atravessadas pela colonização, com a intuição de aproximar os lusófonos brasileiros, aos seus vizinhos de terra, em um processo de aprendizado, resgate, escuta, identificação e desfronteirização. Tem disponível em seu site http://www.juliabicalhomendes.com algumas dessas traduções.

*

Idea Vilariño: “No”, por Erlândia Ribeiro

Idea Vilariño (1920-2009) foi uma das poetas mais importantes do Uruguai, nasceu em 1920 em Montevideo e faleceu na mesma cidade em 2009. Já aos vinte e cinco anos de idade iniciou suas publicações com o poemário La suplicante (1945), seguida das obras Cielo, cielo (1947), Paraíso perdido (1949), Por aire sucio (1951), Nocturnos(1955), Poemas de amor (1957), Pobre mundo (1966) e No (1980), livro do qual me debrucei para esta tradução. A poeta também foi professora, tradutora e crítica literária, participando de importantes revistas uruguaias da época, contribuindo com autores e amigos como Angel Rama e Manuel Claps. 

Em No, obra integralmente aqui traduzida, os espaços em branco são maiores do que nos poemários do começo de sua carreira literária, Vilariño parece se permitir sintetizar sua poética e utilizar do vazio, do nada e do não, como uma forma de negação da própria vida. Assim se dá minha motivação em traduzi-los, em tempos tão obscuros como o que vivemos atualmente, esses poemas ressoam enquanto ecos que não queremos ouvir e nos deixam um gosto amargo na boca. Da solidão que todos atravessamos nesse período de isolamento, das reflexões que nos atravessam todos os dias ao lermos os noticiários; do asco, da revolta e vergonha que nos atinge só por sermos seres humanos. 

Vilariño acende esses sentimentos e nos faz olhar mais uma vez para dentro e nos perguntar: o que podemos fazer se não há delicadeza no viver? Ao mesmo tempo, por mais que digamos “não”, continuamos vivendo e seguindo a “sereia que nos leva ao fundo medonho e murmurante do mar”. Mesmo na negação resta a vontade de nomear as coisas, nomear os sentimentos. E porque não abrir os olhos de dentro e se permitir sentir? Esses doces aparatos que carregamos exaustivamente, que nos permite abarcar sensivelmente o mundo, sentir os outros e a nós mesmos é o mesmo que nos permite compreender o “não” como forma de resistência, não às injustiças, não aos padrões sociais, e não, principalmente, à falta de liberdade de ser quem se é.  

Erlândia Ribeiro

*

Erlândia Ribeiro: Escritora, tendo publicado o livro de contos Superfícies irregulares (Kotter, 2019), também graduada em Letras Espanhol, Mestra no Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários – PPG/MEL pela Universidade Federal de Rondônia e, atualmente, doutoranda em Estudos Literários no Programa de Pós-Graduação do PPGL-UFES pela Universidade Federal do Espírito Santo. Trabalha com os diários da escritora argentina Alejandra Pizarnik (1936-1972), seu objeto de vida e de pesquisa. Acredita na escrita como necessidade, existindo sempre uma sintonia fina entre o que se vive e o que se escreve. 

____

Baixe o pdf gratuito para ler a obra completa e bilíngue.

essa língua tão áspera: “Gatas Selvagens” e a ~língua bastarda~ de Claire Finch e Élodie Petit, por Izadora Xavier

É manhãzinha e estou ouvindo as vozes de Claire e Elódie com risos ao fundo no ano de 2019. Costumava ter um ouvido difícil quando não olhava os olhos das mulheres antes desse ano de 2019, e então desde que o mundo passou a ser contado em a.p, d.p (antes da pandemia, depois da pandemia), meus olhos pedem descanso e ligo nuvens nos ouvidos. Ouço com essa atenção de quem vai para Paris, de quem entra nos timbres e ritmos e risos e tintins. Para o nosso prazer, continue a ler comigo ouvindo isso, assim como uma atenção partilhada: https://soundcloud.com/clarkefinch/jai-toujours-aimee-les-filles-sauvages-de-claire-finch-et-elodie-petit

Eu havia lido as “Gatas selvagens” primeiro em português sem saber quem eram suas autoras, apenas imaginando, e adorando sapatão – a história do desejo -, de onde pudessem ser e sem saber de onde eram e então somos eu e as gatas tantas que se arranham e se embrenham e assanham e viçam gostoso linguarudes (evoé, rafa miranda). O que tu chamas “tô ficando atoladinha” é tão somente a pomba-gira que giro minha língua. Ah, o que tu chamas tu somos.

Fiquei muito curiosa e fui lá brechar o texto, seu primeiro original antes do original em brasileiro, e olha, é uma zine. Eu paro aqui para as digressões dominicais  – de quando era uma selvagenzinha e estava começando a experimentar a cidade e a poesia de uma ~outra forma~ não escolarizada, fora das bibliotecas, através justamente das fanzines de punk-rock (e também do rap com a vizinhança e meus irmãos e primos), e isso foi fundamental para o meu entendimento de “eu sou poeta/ sou publicadora” et allie. – e fico atoladinha mesmo lendo meio molhadinha essa confusão de línguas e isso que sempre digo ~duas línguas dão mais prazer que uma~, e os vários rasgos e risos, embora inscritamente não leia risos, eu entendo os risos que ouço agora nessa nuvem, porque é essa coisa de entrelinhas, como a selvagenzinha que está ali e, penso agora, eu que sempre escrevo tão erradamente o português, hoje até que não, como forma de abastardar o texto que comento. 

Mas para quê comentar o que nossa tradutora comenta e traduz? Ah, sim, porque uma experiência individual é também coletiva, porque a selvagenzinha são tantas olhando-se num espelho de oxum e hoje erguendo a voz em saraus muito muito selvagens. Hoorray!

nina rizzi

*

Claire Finch

é escritorx e pesquisadorx cujo trabalho sampleia teorias feministas e queer como formas de intervir na narrativa. Sua pequisa doutoral na universidade de Paris 8 explora as ligações entre a teoria experimental queer e o ativismo feminista acontecendo nos anos 70 na Universidade de Paris 8. Seus projetos mais recentes incluem a plaquete I Lie on the Floor(After 8 Books), o trabalho editorial na publicação da coleção dos primeiros textos datilografados de Kathy Acker em Kathy Acker 1971-1975 (Editions Ismael, 2019) e a tradução para o francês de Debbie: An Epic, de Lisa Robertson (Debbie une épopée, Joca Seria, 2021). [https://clairefinch.com/]

Élodie Petit 

é artista e poeta. Ela experimenta a literatura de um ponto de vista feminista e político sob o prisma das identidades de gênero e das relações sociais de classe. Ela publica regularmente em revistas literárias contemporâneas (Terrain Vague, Nioques, Mouvements, Féros etc.) e performa seus textos em bares lésbicos ou instituições de arte contemporâneas (CAC de Genève, Fondation Ricard Paris, Le Magasin des Horizons Grenoble etc.). Desde 2011, ela está à frente de um projeto de edição de zines que se consagra às escritas marginais e engajadas, Les éditions douteuses. Faz parte de diferentes coletivos de autorxs (RER Q, TON ODEUR) e organiza os sarais de poesia experimental-sapatão CANETTE. Publicou recentemente seu primeiro livro Fiévreuse Plébéienne pela Rotolux Press. Vive e trabalha em Paris. [http://elodiepetit.fr/]

Isadora Xavier – a tradutora

Nasceu em Fotaleza, Ceará e cursou relações internacionais na UnB. Fez um mestrado em sociologia em Paris, quando se tornou frequentadora assídua dos saraus de poesia experimental sapatão feminista. Desde então, tenta traduzir seu estado fronteiriço entre o Brasil e a França, entre a metrópole e a pós-colônia, entre o queer e o feminino em textos publicados nas revistas Raimundo, escamandro, Rosa e, mais recentemente, na coleção A Chama Depende do Combustível. É redatora do webzine queer militante Friction e performou um par de vezes na Station – Gare des Mines em Paris. 

*

J’ai toujours aimé les filles sauvages é uma fanzine escrita a quatro mãos por Finch/Petit – em inglês&francês – publicada pelas edições Suck Campari Dyke, das quais xs autorxs são também xs iniciadorxs.

Uma parte desses textos — mais precisamente o manifesto de autoria dupla “O desejo forma toda escrita protege o teu desejo” — foi publicado na revista cheia do É selo de língua em novembro de 2020. Alguns poemas de Élodie, intitulados Arthur Rimbaud A Sapatão, foram publicados na revista Intempestiva n. 4.

Sobre a tradução, eu devo dizer que eu já nem sei mais porque eu fui embora do Brasil e, francamente, eu meio que não vejo a hora de voltar. Parece estranho, já que quando eu cheguei na França o Brasil estava na crista da onda e agora é o contrário. Ou talvez seja por isso mesmo. Imigrar é uma parada estranha, tão difícil de explicar, o estrangeiro ao mesmo tempo tão romantizado e tão vilipendiado (a estrangeira existe?). O lado positivo como o negativo apenas imagens invertidas do poder todo que se inventou para Estados e fronteiras. Acho que quero dizer que finalemente eu imigrei como gesto de rebeldia? Na continuidade dessa rebeldia, eu não apenas saí do Brasil mas, movimento contínuo de volta para uma casa que nunca conheci, saí da heterossexualidade também. O exílio quer dizer perder tanta coisa, mas quer dizer ganhar também.

Perder a própria língua, ganhar outras. Eu comecei a traduzir Élodie e Claire porque parecia estranho viver coisas tão incríveis quanto os saraus de poesia experimental-sapatão que elas organizam, Canette, beber cerveja no meio-fio com todas as minhas amigas mari-macho parisienses, e não saber falar de nada disso em português.

Eu comecei a traduzir Élodie e Claire porque queria transformar a minha língua materna em língua parente: quer dizer, recriar minha ligação com o português não como língua legada que segue uma lógica reprodutiva, mas como “língua bastarda” na qual eu reivento minha relação com o mundo e com as pessoas com quem sinto proximidade lusófona, para poder falar com elas da reinvenção do meu corpo e das minhas formas de amar. Queria compartilhar com essa parentada a ideia de ser minoria de gênero e de falar de prazer, de explodir todas as línguas, de pervertê-las, de salvá-las da redução ao papai-e-mamãe, como agorinha mesmo é isso aqui que está acontecendo quando você me lê. Para falar do que é existir no meu corpo marcado pelo sexo em português. Há para mim alguma verdade no português que eu não encontro em outro lugar e que eu preciso urgentemente desmentir. Por exemplo: que melhor hora para meter a língua nas fissuras do que quando o mundo parece desabar? No Brasil, ele está sempre desabando, e a gente está sempre lá, não? Com o dedo na fissura. Falemos disso. A partir dessas brechas permanente abertas e contra os adoradores da morte, gastaria de contribuir traduzindo/inventando algumas verdades gozosas de pós-mulher.

Além do mais, os textos em si já operam essa tranformação do parentesco com a língua, Claire et Élodie transformando cada uma sua língua materna em língua bastarda. Essa tradução é um jeito de forçar a amizade. E é feita de forma irreverente, e eu me permito, onde faz sentido para mim, trazê-la para o mais perto possível do meu corpo em português. É assim que “jemouillejemouillejemouille” vira “touficandoatoladinhatouficandoatoladinha”. Na hora de traduzir, foi a referência que me veio à cabeça, talvez porque eu estava pensando num bando de sapata bebendo cerveja no meio-fio e que tipo de som poderia estar saindo do carro de alguma delas? Bola de fogo talvez seja um imaginário muito hétero, mas achei que cabia pirateá-lo. Originalmente, jemouillejemouille não é referência à canção nenhuma, acho que nessa França nem o rapeiro mais sacana pensaria em ser tão explícito… “J’ai toujours aimé les filles sauvages” brinca muito, e brinca com um imaginário pornográfico cishet que é sempre meio zoado/subvertido, e é aqui que o funk entra e todas as outras “pombas-gira”, como me disse Nina (achei que no final de uma náite em que enchemos a cara, querer comer coxinha de padaria fazia mais sentido do que querer comer “tacos”) . A ideia aqui é que não há ponto de entrada e saída para as línguas que seja mais limpo do que o outro, mais adequado, correto. Procura a entrada e a saída que parecem mais gostosas, a alegria é a prova dos nove, vulgar sem ser sexy, essa é uma tradução safada, leia com suas amigas, roube as ideias das pessoas que você ama, deixe as pessoas que você ama roubar as suas, pirateie.

Izadora Xavier

*

“LÉSBICAS criaram um pequeno mundo nas profundezas e ao largo desse mundo (…) Ou você está apaixonada por alguém ou não está. O principal de estar apaixonada é que você sabe que está apaixonada: ou você está voando ou você está a ponto de se matar.”

Kathy Acker, Eurídice no Submundo 

Eu sempre gostei das gatas selvagens

sumário 

Ressaca-recife é um momento vazio na beira de um cinzeiro cheio do suco dela, porque TUDO É CENÁRIO PARA O DESEJO, E SEU CORRELATO, DESESPERO, eu quis ainda assim a boca, no entanto Amar é difícil mas o amor é uma vaca, o que nos deu coragem e vontade de tirar toda a nossa roupa e de se juntar todas numa mesma sala NO QUAL ESSA MINA TROUXE POPPERS PRO GRUPO DE LEITURA: assim nasceu a  Língua bastarda 

[…]

Para preservar a formatação especial do texto optamos por disponibilizar o pdf para download. Clique para baixar, é realmente um acontecimento literário!


[Na imagem em destaque: étaïnn zwer, Camille Cornu, Rébecca Chaillon, Wendy Delorme, Élodie Petit & Claire Finch, da coletiva RER Q.]

*

Alejandra Pizarnik: “o inferno musical”, por nina rizzi

 Alejandra Pizarnik já apareceu diversas vezes aqui na escamandro, sendo a primeira em 2012: a tradução integral de seu primeiro livro La tierra más ajena/ A terra mais ao longe, em tradução do nosso então editor Vinícius Ferreira Barth, tradução primorosa que aliás muito me inspirou nas minhas próprias (suas traduções foram dividas em parte 1 e parte 2), e no mesmo ano Barth traduziu os seis poemas enfeixados como un signo en tu sombra.  Depois se seguiram traduções minhas para um de seus últimos poemas, o longo en esta noche, en este mundo/ nesta noite neste mundo, e traduções de Natália Agra e Victor Hugo Turezo para os poemas Cielo/ Céu e El Miedo/ O Medo

No ano passado fui convidada pela também poeta e tradutora Patrícia Lavelle a a enviar algumas traduções em curso para a sessão Arcas de Babel da Revista Cult. Se me pedem traduções em curso, só posso enviar poemas de Alejandra Pizarnik, comentei na apresentação dos Poemas de Sombra, enviados para a Babel como se deu meu contato com a obra de piknik:

“Em 2004 estive na Argentina junto com o Movimento Sem Terra (MST) em um evento da Vía Campesina no âmbito da Campanha Global pela Reforma Agrária. Fiquei alguns dias a mais por lá e travei contato com um pouco da literatura portenha contemporânea, dentre elas, a poesia de Alejandra Pizarnik, que embora hoje seja objeto de estudos e tenha ganhado traduções e na época já fosse uma lenda na Espanha, Argentina e outros países de língua espanhola, por aqui ainda estava sob brumas. E desde esse primeiro encontro, um alumbramento, um silêncio, um pássaro se debatendo em fuga a cada leitura.

As primeiras traduções de sua obra se iniciaram muito naturalmente, dessa maneira que fazemos quando lemos algo em outro idioma e traduzimos mentalmente; e essas leituras-traduções foram também uma maneira de me aproximar da língua, aprender a língua, amorosamente. A partir de 2011 comecei a traduzir sua poesia como uma forma mais aprofundada de leitura e pesquisa de sua linguagem, e em 2018 conclui a dissertação de mestrado onde traduzi sua obra poética completa.

Nesses mais de quinze anos de contato e tradução da obra de Alejandra – que chamo carinhosamente de piknikapós tanto tempo de intimidade de leitura –, acabo por entrar num círculo da própria autora: a escrita contínua das poemas: da mesma maneira que piknik era obcecada pela escritura de suas poemas, borrando e reescrevendo, sigo na mesma escrevendo e reescrevendo essas versões e traduções, que acabam sendo um outro original, outras poemas,  já diferente do primeiro original e também da dissertação.”

Para quem quiser saber e ler e verouvir mais de minhas aventuras e traduções com piknik pode ir direto ao meu blogue – a poema, onde tem um imenso compilado. Mas para hoje para agora nesta semana e neste mundo de inferno nem sempre musical, disponibilizo aqui em pdf – obviamente gratuito – meu livro preferido em edição integral e bilíngue e com o texto inicial da minha dissertação (calma, só duas páginas, risos) – El Infierno Musical/ O Inferno Musical, que neste ano faz bodas de ouro! 50 anos! e que também é uma comemoração a poeta que na semana passada, em 29 de abril, completaria 85 anos.

Viva Alejandra Pizarnik. Viva a literatura feita por mulheres e corpas dissidentes. Viva a poesia. Viva a América Latina! Boa leitura!

Warsan Shire, por Tom Jones

ceplkbqwd8vk3eubmud2fyg6sycyszvrwo1d1dhk6xrmxrnecmgwz0bpphewaxwb

Warsan Shire é uma poeta, editora, escritora e professora Keniana de origem Somalesa,  criada no Reino Unido e atualmente residente em Los Angeles. Recebeu o prêmio de poesia africana da Universidade de Brunel. Publicou em 2011 a plaquete de poesia com o título Teaching my mother how to give birth (Ensinando minha mãe a dar a luz) pela Flipped eye, editora que mais tarde publicou sua coleção de poemas. Sua poesia ganhou destaque ao aparecer no Álbum Lemonade de Beyoncé em 2016 com adaptações de “The Unbearable Weight of Staying” (“O Peso Insustentável de Ficar“), “Dear Moon” (“Querida Lua“), “How to Wear Your Mother’s Lipstick” (“Como Usar o Batom da Sua Mãe“), “Nail Technician as Palm Reader” (“Manicure como Cartomante“), e “For Women Who Are Difficult to Love” (“Para Mulheres que São Difíceis de Amar“), este último traduzido também aqui.

Gostaria de trazer ao público que não tem acesso às palavras de Warsan Shire, suas importantes lições para o fortalecimento das vozes femininas tão universais em sua poesia. Warsan Shire traz suas experiências como mulher, negra, imigrante para a construção estética com as palavras. São como memórias compartilhadas por tantas como ela que foram ensinadas desde a concepção a ocupar um lugar antinatural, um lugar que como tantas, Shire questiona e ao qual não se limita. Extrapola. 

Questões conceituais sobre estética tão racialmente construídas e socialmente aceitas são trazidas para o foco do olhar da poesia de Shire. Em Ugly (Feia), a aparência da personagem confunde-se com as experiências da guerra civil em tantos países africanos, vivenciada por tantos refugiados e imigrantes. Não temos certeza se Warsan fala de uma mulher como um continente ou de um continente descrito como uma mulher. Particularmente, vejo neste poema a experiência de tantas Áfricas do lado de cá, obrigadas a construir outra aparência, outra estética que não a sua para tornar sua passagem pelo mundo mais sutil, o que provoca nelas sensações tão sutis como os resultados da experiência da guerra. Elas levam o mundo em seu corpo. Elas se vestem dele. Elas o constituem. Talvez por essa razão o amor parece ser fugidio, as relações com mulheres frágeis que os homens buscam não se encontram nessas mulheres, mas eles continuam a buscá-las para nelas se ancorarem e delas sugar a última gota sem nada em troca. Shire desnaturaliza modos de ser mulher perpetuados na relação entre mães e filhas.  Sua poética ensina mulheres-mães e mulheres-filhas You are her mother. Why did you not warn her; Shire traz à tona as experiências de várias mulheres nas relações amorosas my father’s arms around my mother’s neck; Yes, I’m insecure, but so was my mother and her mother; The women in my family die waiting. Em Shire, entretanto, as mulheres não compartilham mais com essas essas experiências a exemplo de suas mães I didn’t want to die waiting for you; I didn’t want to fail at love like our parents. Em Shire as mulheres constróem sua liberdade e não aceitam mais relações em que elas não são valorizadas I’ll swallow you whole; i let you leave, i need someone who knows how to stay; Essas mulheres aprendem profundamente a experiência do autocuidado e do auto-amor I belong deeply to myself. A poética de Warsan Shire ecoa em muitas mulheres e portanto, merece ser ouvida por elas em suas línguas-mães.

Tom Jones

*

UGLY

Your daughter is ugly.
She knows loss intimately,
carries whole cities in her belly. 

As a child, relatives wouldn’t hold her.
She was splintered wood and sea water.
They said she reminded them of the war.  

On her fifteenth birthday you taught her
how to tie her hair like rope
and smoke it over burning frankincense. 

You made her gargle rosewater
and while she coughed, said
macaanto girls like you shouldn’t smell
of lonely or empty.

You are her mother.
Why did you not warn her,
hold her like a rotting boat
and tell her that men will not love her
if she is covered in continents,
if her teeth are small colonies,
if her stomach is an island
if her thighs are borders? 

What man wants to lay down
and watch the world burn
in his bedroom?  

Your daughter’s face is a small riot,
her hands are a civil war,
a refugee camp behind each ear,
a body littered with ugly things 

but God,
doesn’t she wear
the world well.

Feia

Sua filha é feia.
Ela é íntima da perda,
leva cidades inteiras no estômago.

Criança, não lhe davam o colo.
Água e madeira estilhaçada ela era.
Ela os lembrava da guerra, diziam.

Aos quinze anos você a ensinou
a domar o cabelo
a perfumá-lo com incenso

a purificar o hálito com água de rosas
e quando ela se engasgava, você dizia:
Doces garotas macaanto como você não deveriam
cheirar a vazio e solidão.

Você é a mãe dela.
Por que não a avisou,
não a segurou em seu naufrágio
e disse que os homens nunca vão amá-la
se ela é coberta de continentes,
se seus dentes são pequenas colônias,
se seu estômago é uma ilha,
se suas coxas são fronteiras?

Que homem iria querer
o mundo destruído
em sua cama?

A face da sua filha é uma pequena rebelião,
suas mãos uma guerra civil,
um campo de refugiados atrás de cada orelha
um corpo repleto de feiuras

mas Deus,
ela não se veste
bem do mundo?

§

I’m not sad,
but the boys who are looking for sad girls always find me.
I’m not a girl anymore
and I’m not sad anymore.
You want me to be a tragic backdrop so that you can appear to be illuminated,
so that people can say
‘Wow, isn’t he so terribly brave to love a girl who is so obviously sad?’
You think I’ll be the dark sky so you can be the star?
I’ll swallow you whole.

Não sou triste
mas os que buscam garotas tristes me encontram
não sou mais uma garota
não sou mais triste
Você me quer como um trágico pano de fundo onde você possa brilhar,
e as pessoas dizerem
Como ele é forte e bom por amar alguém tão triste!
Você acha que eu serei o céu negro onde você é a estrela?
Antes eu te engulo inteiro.

§

i don’t know when love became elusive
what i know, is that no one i know has it
my father’s arms around my mother’s neck
fruit too ripe to eat, a door halfway open
when your name is a just a hand i can never hold
everything i have ever believed in, becomes magic.

i think of lovers as trees, growing to and
from one another searching for the same light,
my mother’s laughter in a dark room,
a photograph greying under my touch,
this is all i know how to do, carry loss around until
i begin to resemble every bad memory,
every terrible fear,
every nightmare anyone has ever had.

i ask did you ever love me?
you say of course, of course so quickly
that you sound like someone else
i ask are you made of steel? are you made of iron?
you cry on the phone, my stomach hurts
i let you leave, i need someone who knows how to stay.

não sei quando o amor se tornou esquivo
o que eu sei é que não conheço ninguém que o tenha
o braço do meu pai no pescoço da minha mãe
fruto maduro demais pra comer, uma porta entreaberta
quando seu nome é uma mão que não consigo segurar
 tudo em que já acreditei, torna-se mágico.

penso em amantes como árvores crescendo
de si para a outra em busca da mesma luz,
a risada de minha mãe num quarto escuro,
uma fotografia amarelando ao meu toque,
isto é o que sei fazer, levar a perda por aí até
me parecer com cada memória ruim
cada terrível medo,
cada pesadelo que alguém já teve.

eu pergunto se um dia você me amou.
claro que sim. claro que sim tão rápido
que soa como outra pessoa
de que você é feito? de aço? de ferro?
você chora ao telefone, meu estômago dói
e te deixo ir. eu preciso de alguém que saiba ficar.

§

Beauty

My older sister soaps between her legs, her hair
a prayer of curls. When she was my age, she stole
the neighbour’s husband, burnt his name into her skin.
For weeks she smelt of cheap perfume and dying flesh.

It’s 4 a.m. and she winks at me, bending over the sink,
her small breasts bruised from sucking.
She smiles, pops her gum before saying
boys are
haram, don’t ever forget that.

Some nights I hear her in her room screaming.
We play Surah
Al-Baqarah to drown her out.
Anything that leaves her mouth sounds like sex.
Our mother has banned her from saying God’s name.

Beleza

Minha irmã mais velha se lava entre as pernas, o cabelo
uma prece de cachos. Quando tinha minha idade, roubou
o homem da vizinha. Ele com o nome marcado na pele dela
e ela cheirou a perfume barato e dor por semanas.

São 4 da manhã e ela pisca pra mim, curvada sobre a pia
com os seios cheios de hematomas
Ela sorri, explode a goma de mascar e diz
Garotos são haram, nunca se esqueça.

Algumas noites a escuto gemendo no quarto.
Interpretamos o sura Al-Baqarah até afogá-la.
Qualquer coisa que sai da sua boca soa como sexo.
Nossa mãe a proibiu de dizer o nome de Deus.

§

For women who are difficult to love

you are a horse running alone
and he tries to tame you
compares you to an impossible highway
to a burning house
says you are blinding him
that he could never leave you
forget you
want anything but you
you dizzy him, you are unbearable
every woman before or after you
is doused in your name
you fill his mouth
his teeth ache with memory of taste
his body just a long shadow seeking yours
but you are always too intense
frightening in the way you want him
unashamed and sacrificial
he tells you that no man can live up to the one who
lives in your head
and you tried to change didn’t you?
closed your mouth more
tried to be softer
prettier
less volatile, less awake
but even when sleeping you could feel
him travelling away from you in his dreams
so what did you want to do, love
split his head open?
you can’t make homes out of human beings
someone should have already told you that
and if he wants to leave
then let him leave
you are terrifying
and strange and beautiful
something not everyone knows how to love.

Para mulheres que são difíceis de amar

Você é um cavalo solitário
que ele tenta domar
te compara a uma impossível estrada
a uma casa em chamas
diz que não vê mais ninguém
que nunca poderia te deixar
te esquecer
querer outra coisa, além de você
você o atordoa, você é insuportável
qualquer mulher antes ou depois de você
é apagada em seu nome
você lhe enche a boca
seus dentes doem com a memória dos sabores
o corpo dele apenas uma longa sombra em busca do seu
mas você é sempre intensa demais
assustadora no jeito de querer
sem vergonha e sacrificial
ele diz que nenhum homem jamais será
como este na sua cabeça
e você tentou mudar, não foi?
fechou mais a boca
tentou mais suavidade
mais beleza
menos volatilidade, menos consciência
mas mesmo dormindo dava pra senti-lo
sumir em seus sonhos
então o que você queria fazer, amor
abrir a cabeça dele?
não dá pra fazer de gente um lar
alguém já deve ter te dito isso
e se ele quer partir
que parta
Você é terrível
e estranha e linda
e isso nem todos sabem como amar.

§
34 Excuses for why we failed at love

  1. I’m lonely so I do lonely things
  2. Loving you was like going to war; I never came back the same.
  3. You hate women, just like your father and his father, so it runs in your blood.
  4. I was wandering the derelict car park of your heart looking for a ride home.
  5. You’re a ghost town I’m too patriotic to leave.
  6. I stay because you’re the beginning of the dream I want to remember.
  7. I didn’t call him back because he likes his girls voiceless.
  8. It’s not that he wants to be a liar; it’s just that he doesn’t know the truth.
  9. I couldn’t love you, you were a small war.
  10. We covered the smell of loss with jokes.
  11. I didn’t want to fail at love like our parents.
  12. You made the nomad in me build a house and stay.
  13. I’m not a dog.
  14. We were trying to prove our blood wrong.
  15. I was still lonely so I did even lonelier things.
  16. Yes, I’m insecure, but so was my mother and her mother.
  17. No, he loves me he just makes me cry a lot.
  18. He knows all of my secrets and still wants to kiss me.
  19. You were too cruel to love for a long time.
  20. It just didn’t work out.
  21. My dad walked out one afternoon and never came back.
  22. I can’t sleep because I can still taste him in my mouth.
  23. I cut him out at the root, he was my favorite tree, rotting, threatening the foundations of my home.
  24. The women in my family die waiting.
  25. Because I didn’t want to die waiting for you.
  26. I had to leave, I felt lonely when he held me.
  27. You’re the song I rewind until I know all the words and I feel sick.
  28. He sent me a text that said “I love you so bad.”
  29. His heart wasn’t as beautiful as his smile
  30. We emotionally manipulated one another until we thought it was love.
  31. Forgive me, I was lonely so I chose you.
  32. I’m a lover without a lover.
  33. I’m lovely and lonely.
  34. I belong deeply to myself .


34 desculpas porque fracassamos no amor

  1. Sou solitária e dada à solidão.
  2. Te amar era como ir à guerra; eu nunca voltava a mesma.
  3. Você odeia as mulheres como o seu pai e o pai do seu pai. Está no seu sangue.
  4. Eu busquei carona pra casa no estacionamento vazio do seu coração.
  5. Você é uma cidade fantasma e eu patriota demais pra partir.
  6. Eu fico porque você é o início de um sonho que quero lembrar.
  7. Não o pedi pra voltar porque ele gosta de garotas sem voz.
  8. Não é que ele queira ser um mentiroso; é que ele não conhece a verdade.
  9. Não consegui amar a guerra que é você.
  10. Cobrimos o cheiro da perda com piadas.
  11. Eu não quis falhar no amor como nossos pais.
  12. Você fez a nômade fixar moradia.
  13. Eu não sou um cão.
  14. Nós tentamos provar que o nosso sangue estava errado.
  15. Eu ainda era solitária então fiz coisas ainda mais solitárias.
  16. Sim, sou insegura, mas sou como minha mãe e a mãe da minha mãe.
  17. Não, ele me ama. Ele só me faz chorar muito.
  18. Ele sabe meus segredos e ainda assim quer me beijar.
  19. Por muito tempo você foi cruel demais para amar.
  20. Simplesmente não deu certo.
  21. Meu pai saiu de casa um dia e nunca voltou.
  22. Não consigo dormir porque ainda sinto seu gosto na boca.
  23. Arranco da minha raiz. Ele era minha árvore favorita, apodrecendo. Uma ameaça ao alicerce do meu lar.
  24. As mulheres da minha família morrem à espera..
  25. Porque eu não quis morrer te esperando.
  26. Tive que partir pois me senti sozinha dentro do seu abraço.
  27. Você é a canção que repito até aprender de cor e adoecer.
  28. Ele me mandou uma mensagem com “Eu te amo demais”.
  29. Seu coração não era tão lindo quanto seu sorriso.
  30. Manipulamos um ao outro até pensarmos que era amor.
  31. Me perdoe, eu era solitária então te escolhi.
  32. Sou uma amante sem amante.
  33. Sou amável e sozinha.
  34. Sou dona de mim. Profundamente minha.

§

Tom Jones é um professor cearense. Estudioso das influências das culturas africanas na constituição da identidade brasileira, possui mestrado em Estudos da Tradução com pesquisa sobre as poéticas do culto afro-brasileiro do Xangô pernambucano. Interessa-se por literaturas e oraturas de certo modo considerados à margem do cânone hegemônico. Poéticas que formam todo um centro. Tem buscado traduzir poemas de poetas de origem africana e afro-americana na tentativa de tornar essas vozes ouvidas em português por quem em inglês não ouve.

*

 

Angelina Weld Grimké, por Mariana Correia Santos

angelina_weld_grimke_jpg_photo_x2_colored_toned

Angelina Weld Grimké foi poeta, dramaturga, jornalista e professora, nasceu em Boston, Massachusetts (EUA), em 1880, numa família miscigenada e influente no movimento abolicionista: suas tias-avós eram Angelina e Sarah Grimké, famosas sufragistas; seu pai era Archibald Grimké, segundo negro a se formar na Universidade Harvard e vice-presidente da NAACP (Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor).

É mais conhecida por seu trabalho poético e pela peça anti-racista “Rachel” (1916), cuja montagem a colocou entre os primeiros dramaturgos estadunidenses negros a terem peças performadas publicamente. Em poesia, Grimké é descrita como uma autora sentimental, mais voltada às experiências subjetivas – em temas como o amor perdido, o desejo frustrado –, se comparada aos demais escritores negros contemporâneos a ela. No entanto, alguns de seus poemas parecem se abrir para experiências daqui e de lá em encontro. Seus ensaios, contos e peças concentram sua produção mais expressamente social, ao abordar com destaque o linchamento e o racismo institucional.

Foi um nome importante para o Harlem Renaissance. Seus poemas apareceram em antologias editadas por Langston Hughes e Countee Cullen, e em periódicos da época. Publicou pouco em vida. Teve parte de seu trabalho editado postumamente pela Oxford University Press no volume The Selected Works of Angelina Weld Grimké (1991). Deixou diários e cartas, que indicam que era lésbica. Morreu na cidade de Nova Iorque, em 1958.

Mariana Correia Santos

*

Your Hands

I love your hands:
They are big hands, firm hands, gentle hands;
Hair grows on the back near the wrist……
I have seen the nails broken and stained
From hard work.
And yet, when you touch me,
I grow small ………and quiet………
………And happy………
If I might only grow small enough
To curl up into the hollow of your palm,
Your left palm,
Curl up, lie close and cling,
So that I might know myself always there,
………Even if you forgot.


As suas mãos

Amo suas mãos:
São mãos grandes, mãos firmes, mãos gentis;
Pelos crescem atrás, próximos ao pulso……
Conheço suas unhas quebradas e manchadas
Do trabalho duro.
Ainda assim, quando me toca,
Me apequeno…………. e me aquieto………..
……………….E me alegro……………………..
Se eu pudesse apenas ficar pequena o bastante
Para me encaixar no vão da sua palma,
Sua palma esquerda,
Me encaixar, deitar rente e me apegar,
Para que eu me encontre sempre lá,
………………Ainda que você me esqueça.

§

The Black Child

I saw a little black child
Sitting in a gold circle of sunlight;
And in his little black hand,
He had a little black stick,
And he was beating, beating,
With his little black stick,
The sunlight all about him,
           And laughing, laughing. 

And he was so fat,
There were dimples at his tiny, wriggling toes,
            And at his knees,
           And at his elbows,
          And at his fingers,
        And in his cheeks,
       And in his little chin. 

And his black hair was plaited
          Into innumerable, little braids,
                    All over his little head;
        Very even, very fine, very cunning,
                 They were. 

And his skin was ebon, beautiful,
With a bloom, a shining gleam upon it.
O! he was all black,
          Save for his tiny white teeth
         And the whites of his eyes,
        And the white cloth about his little middle.

And he sat in the gold circle of sunlight
        Kicking with his little feet,
        And wriggling his little toes,
       And beating, beating
      The sunlight all about him,
     With his little black stick,
     And laughing, laughing. 

And the circle of gold slipped tip-toeing away,
          Tiptoeing away from the little black child.
          And a little black hand slid into the shadows,
                     Into black shadows,
        And a little black leg,
       And a little black foot,
      And the half of a little black braided head,
      And a little black shoulder,
     And a little black beating stick,
     And a little black beating hand,
    And all that was left,
   At the edge of the circle of gold,
   Was a little black kicking foot
               And little black wriggling toes
              Wriggling – wriggling – gone! 

A little black child
            Sat in the black shadows,
            Kicking with his little feet,
           And wriggling his little toes,
          And beating, beating
         The shadows all about him,
         With his little black stick,
         And laughing, laughing.

A criança negra

Vi uma pequena criança negra
Sentada em um círculo dourado de sol;
E em sua mãozinha negra
Ela tinha um pequeno galho preto,
E ela batia e batia
Com seu pequeno galho preto,
A luz do sol sobre ela toda,
E ela rindo, rindo.

E era tão gorda,
Com dobrinhas em seus agitados dedinhos do pé,
E em seus joelhos,
E em seus cotovelos,
E em seus dedos das mãos,
E em suas bochechas,
E em seu pequeno queixo.

E seu cabelo negro estava entrançado
Em inumeráveis trancinhas,
Por toda a sua cabecinha;
Bem-feitas, bem bonitas, bem engenhosas,
Elas eram.

E sua pele era retinta, linda,
Com certo florescer sobre ela, um brilho luminoso.
Ah! era toda negra,
Exceto os seus dentinhos brancos,
E o branco de seus olhos,
E o tecido branco sobre seu corpinho.

E sentava-se em um círculo dourado de sol
Chutando com seus pezinhos,
E contorcendo seus dedinhos,
E batendo e batendo
A luz do sol sobre ela toda
E seu pequeno galho preto,
E ela rindo, rindo.

E o círculo de ouro foi embora de fininho,
De fininho para longe da pequena criança negra.
E uma mãozinha negra escorregou para as sombras,
Para as negras sombras,
E uma perninha negra,
E um pezinho negro,
E parte de uma cabecinha negra trançada,
E um ombrinho negro,
E um pequeno galho preto batendo,
E uma mãozinha negra batendo,
E tudo o que restou,
Nas margens do círculo de ouro,
Foi um pezinho negro chutando
E dedinhos negros contorcendo-se
Contorcendo-se – contorcendo-se – findos!

Uma pequena criança negra
Sentada em sombras negras,
Chutando com seus pezinhos,
E contorcendo seus dedinhos,
E batendo e batendo
As sombras sobre ela toda
E seu pequeno galho preto,
E ela rindo, rindo.

§

Tenebris

There is a tree, by day,
That, at night,
Has a shadow,
A hand huge and black,
With fingers long and black.
        All through the dark,
Against the white man’s house,
        In the little wind,
The black hand plucks and plucks
       At the bricks.
The bricks are the color of blood and very small.
        Is it a black hand,
       Or is it a shadow?

Tenebris

Há uma árvore, na manhã,
Que, à noite,
Forma uma sombra,
Uma mão enorme e negra,
De dedos longos e negros.
Por todo o negrume,
Contra a casa do branco,
Ao menor vento,
A mão negra cutuca e cutuca
Os tijolos.
Os tijolos são da cor de sangue e bem pequenos.
É ela uma mão negra
Ou é uma sombra?

§

Fragment

I am the woman with the black black skin
I am the laughing woman with the black black face
I am living in the cellars and in every crowded place
     I am toiling just to eat
  In the cold and in the heat
     And I laugh
I am the laughing woman who’s forgotten how to weep
I am the laughing woman who’s afraid to go to sleep

Fragmento

Sou a mulher da preta preta pele
Sou a mulher que ri de preto preto rosto
Vivo nos porões e em lugares lotados
Trabalho só para comer
No frio e no calor
E rio
Sou a mulher que ri que esqueceu como chorar
Sou a mulher que ri que teme ir deitar

§

El Beso

Twilight – and you,
Quiet – the stars;
Snare of the shine of your teeth,
Your provocative laughter,
The gloom of your hair;
Lure of you, eye and lip;
Yearning, yearning,
Languor, surrender;
           Your mouth,
And madness, madness,
Tremulous, breathless, flaming,
The space of a sigh;
Then awakening – remembrance,
Pain, regret – your sobbing;
And again quiet – the stars,
Twilight – and you.

El beso

O crepúsculo – e você,
Quieta – a estrela;
A armadilha do brilho de seus dentes,
Sua risada provocativa,
A melancolia em seus cabelos;
Seu ardil, olhos e lábios;
Ansiando, ansiando,
Languidez, entrega;
Sua boca,
E insanidade, insanidade,
Trêmula, arfante, ardente,
O espaço de um suspiro;
Então acordar – lembrança,
Dor, arrependimento – os seus soluços;
E quieta, novamente – a estrela,
O crepúsculo – e você.

§

A Winter Twilight

A silence slipping around like death,
Yet chased by a whisper, a sigh, a breath;
One group of trees, lean, naked and cold,
Inking their cress ‘gainst a sky green-gold; 

One path that knows where the corn flowers were;
Lonely, apart, unyielding, one fir;
And over it softly leaning down,
One star that I loved ere the fields went brown

Um crepúsculo de inverno
Um silêncio ao redor como a morte desliza,
Ainda que seguido por um sussurro, um suspiro, um respirar;
Um grupo de árvores magras, nuas e frias,
Tingindo contra um céu verde e dourado as suas copas;

Um caminho que sabe onde ficam as flores do milho;
Solitárias, afastadas, inabaláveis, um abeto;
E inclinando-se suavemente sobre elas, por mim amada
Antes dos campos tornarem-se marrons, uma estrela.

§

Mariana Correia Santos (1996) é poeta, escritora, tradutora e assistente editorial. Nasceu em Guarujá, na Baixada Santista. Vive em São Paulo e cursa graduação em Letras na Universidade de São Paulo (USP), na qual se concentra em estudos de poesia, tradução e sociedade. Participou do Curso Livre de Preparação do Escritor (CLIPE) da Casa das Rosas. Publicou poemas na Revista Lavoura e no projeto Sutura, e traduções na revista catalã sèrieAlfa e nas Notícias de outras ilhas, da Revista Cult. É autora da plaquete independente de poesia espaços íntimos (2019). marianacorreiasantos.com.

*

Fernanda Laguna, por Eduarda Rocha

na32fo01_12

Fernanda Laguna (Buenos Aires, 1972-) é escritora, artista plástica e curadora. Tornou-se uma das escritoras mais destacadas da chamada “geração dos 90”, na Argentina. Fundou junto a Cecilia Pavón a editora e galeria de arte Belleza y felicidad. Em 2003, abriu a sucursal de Belleza y felicidad no bairro de Villa Fiorito, que segue em atividade. Foi membro do coletivo Eloísa Cartonera e abriu com diversxs sócixs vários espaços de arte, em Buenos Aires. Publicou diversos livros de poesia e grande parte de sua produção está reunida em Control o no control (2012), seleção de poemas publicados entre 1999 e 2011; e La princesa de mis sueños (2018), que reúne poemas escritos entre 1994 e 2003. Em 2018, lançou a coletânea de inéditos Los grandes proyectos, pela coleção 8M do jornal Página/12. Sob o heterônimo Dalia Rosetti publicou os livros: Me encantaría que gustes de mí (2006), Dame pelota (2009) e Sueños y pesadillas (2016). Como artista plástica, participou de diversas exposições individuais e coletivas. Sua obra foi adquirida por diversos museus ao redor do mundo, tais como o Malba, Museo Reina Sofía e o Guggenheim. É militante e uma das fundadoras do coletivo feminista Ni Una Menos.

Fernanda Laguna transformou sua vida em literatura, sendo ela própria convertida em personagem de livros de César Aira e Washington Cucurto. Seus poemas são como um fluxo, uma tentativa de captar um instante, abordando assuntos que poderiam ser considerados banais e ganham uma dimensão poética. Nisso reside a potência de sua obra. A poesia de Fernanda Laguna é uma constante investigação sobre o ato da escrita, em que a tentativa de escrever um poema é o próprio poema. Esta poesia tão vinculada à experiência, escrita em primeira pessoa, com um tom confessional, resgatou um modo de produção poética considerado “menor”, por certo segmento da crítica, e mobilizou grande parte das novas gerações de poetas argentinxs que têm a autora como uma de suas referências.  Desde as relações amorosas com homens e mulheres até o seu absorvente, tudo que existe ao redor e dentro de Fernanda Laguna cabe em um poema dela.

Os três poemas abaixo integram a coletânea Control o no control, publicada em 2012 pela editora Mansalva.

Eduarda Rocha

*

A mi toallita femenina

Estaba en el baño y me inspiré
pero dudé si llegaría a la computadora a escribir este poema
porque me duele la panza.
Y pensé que si de pasada me tiraba en la cama
no duraría esta inspiración.
Pero llegué…
y todo para decir:
LAS MEJORES TOALLITAS DEL MUNDO SON

LAS LADY SOFT NORMALES
(y son las más baratas).

Este es un poema para el futuro
para dejar un rastro de estas fabulosas toallitas
que me acompañan tan bien cuando las consigo.
Son las mejores.
Algún día…
dentro de muchos años,
en el futuro,
no sé si se usará toallita
y ni me imagino que se usará.
Pero yo quiero que este poema
sea un homenaje y un recuerdo
para todas las chicas del futuro:
una vez existió una marca buena,
una toallita bárbara.

Este es un poema arqueológico
en un basural algún día
quedará sin descomponerse
una Lady Soft llena de gusanos.
Y para ella

también será este poema.

Para meu absorvente 

Estava no banheiro e me inspirei
mas duvidei se chegaria ao computador para escrever este poema
porque sinto cólicas.
E pensei que se por acaso me jogasse na cama
esta inspiração não duraria.
Mas cheguei…
e tudo isso para dizer:
OS MELHORES ABSORVENTES DO MUNDO SÃO
OS LADYSOFT NORMAIS
(e são os mais baratos).

Este é um poema para o futuro
para deixar um rastro destes fabulosos absorventes
que me acompanham tão bem quando os consigo.
São os melhores.
Algum dia…
daqui a muitos anos,
no futuro,
não sei se ainda se usará absorvente
e nem imagino o que se usará.
Mas eu quero que este poema
seja uma homenagem e uma lembrança
para todas as garotas do futuro:
uma vez existiu uma marca boa,
um absorvente espetacular.

Este é um poema arqueológico
em um depósito de lixo algum dia
restará sem se decompor
um LadySoft cheio de vermes.
E para ele
também será este poema.

§

Acerca de la noche

Tengo poco tiempo para escribir el mejor poema de mi vida
acerca de la noche.
Tengo poco tiempo para que se me ocurra algo brillante
y con el ritmo vertiginoso de una buena canción.
Tengo poco tiempo.
Alguien me persigue y no soy paranoica.
No sé quién es pero me impide escribir mi mejor poema
y ya lo tengo prometido para mañana.
Tengo 5 minutos y no puedo pensar acerca de la noche.
¿Dónde estará aquel novio que conocí aquella noche en la
presentación de la xxxxxxx?
Tengo que censurar mis poemas,
lo lamento más yo que ustedes
porque me encantaría contarlo todo.
Una noche entré a un hotel con una llave robada
y dormí en una habitación ocupada
con un chico que tenía una novia china francesa
y muy cultural (eso me dijo el chico)
El chico estaba borracho y xxxxxx…
No estuvo tan mal.
¿Cuánto tiempo me queda?
Ya voy tiempo extra y el tema de la falta de tiempo
deja de ser mi argumento por el cual
estoy inhibida para escribir un buen poema.
Todavía tengo unos minutos más pero estoy en la cuenta regresiva
y me divierte que este poema sea tan plomo ¿no?
¿O es divertido?
Es lindo tener el tiempo ocupado para no caer en la locura.

Sobre a noite

Tenho pouco tempo para escrever o melhor poema de minha vida
sobre a noite
Tenho pouco tempo para que me ocorra algo brilhante
e com o ritmo vertiginoso de uma boa canção.
Tenho pouco tempo.
Alguém me persegue e não sou paranoica.
Não sei quem é, mas me impede de escrever meu melhor poema
e já prometi isso para amanhã.
Tenho 5 minutos e não posso pensar sobre a noite.
Onde estará aquele namorado que conheci aquela noite na
Apresentação da xxxxxxx?
Tenho que censurar meus poemas,
eu lamento por isso mais que vocês
porque adoraria contar tudo.
Uma noite entrei num hotel com uma chave roubada
e dormi num quarto ocupado
com um garoto que tinha uma namorada chinesa francesa
e muito cult (isso foi o que ele me disse)
O garoto estava bêbado e xxxxxx…
Não foi tão ruim.
Quanto tempo me resta?
Já estou nos acréscimos e o tema da falta de tempo
deixa de ser meu argumento pelo qual
estou inibida para escrever um bom poema.
Ainda tenho uns minutos, mas estou na contagem regressiva
e me diverte que este poema seja tão chato, não?
Ou é divertido?
É lindo ocupar o tempo para não cair na loucura.

§

¿Qué hacés poema de mí?
¿Por dónde me llevás?
Has hecho que los poetas se enemisten conmigo,
Me has tirado en un campo de batalla
lleno de tanques.
Las bombas caen
mirá
sobre la “i”
cayó una bomba.
¿O está suspendida
 y esta guerra
es un sueño?
No sé
he abandonado en la empuñadura
la racionalidad
y la cambié
por tu mente rítmica.
Poesía maldita
no voy a luchar contra vos,
haremos el amor
acá
en medio de los cadáveres.

Un rayo eléctrico
cae sobre el pararayos
¡aaaaaaaahhhhhh!
y simplemente me cayó encima.
Pero vos, poesía,
seguirás loca
metiéndote en la cama de mis amigos
dándoles
más
locura,
erradicándoles su esencia.

Poema, o que você faz de mim?
Aonde você me leva?
Por sua culpa os poetas se tornaram meus inimigos,
Você me jogou em um campo de batalha
cheio de tanques.
As bombas caem
olhe aqui
sobre o “i”
caiu uma bomba.
Ou está suspensa
e esta guerra
é um sonho?
Não sei
abandonei na empunhadura
a racionalidade
e a substituí
por sua mente rítmica.
Poesia maldita
não vou lutar contra você,
faremos amor
aqui
em meio aos cadáveres.

Um raio elétrico
cai sobre o para-raios
aaaaaaaahhhhhh!
e simplesmente caiu em cima de mim.
Mas você, poesia,
continuará louca
se metendo na cama dos meus amigos
dando a eles
mais
loucura,
lhes erradicando sua essência.

§

Eduarda Rocha (Maceió, 1991) é pesquisadora e tradutora. Atualmente, realiza doutorado em Estudos Literários na Universidade Federal de Alagoas. Tem se dedicado a investigações sobre as poesias brasileira e argentina contemporâneas. Em sua tese, analisa a obra das poetas Angélica Freitas, Cecilia Pavón e Fernanda Laguna.

*

Nikki Giovanni, por Danieli Corrêa

D9U540kU8AA13zX

Nikki Giovanni, nascida Yolande Cornelia Giovanni. Jr, em Knoxville, Tennessee em 1943, é uma grande poeta norte americana, embora pouco conhecida no Brasil. Tem uma escrita que nos soa familiar: fala sobre si, o que vive e sente, sobre suas experiências. Dentro desse espectro, aborda temas como amor, amizade, rejeição, raiva, frustração. De certa forma, organiza o que sentimos em palavras de forma natural, parecendo simples, porém com uma consistência que não tem nada de ingênua. Além de poeta, Nikki é professora, ativista e além de escreve literatura infantil e de não-ficção.

Para traduzir, passei por muitas versões de laudos e manuais para, finalmente, tentar me guiar por caminhos mais contemplativos, ainda que sem perder a firmeza. Assim como na vida, me deixei levar pela poesia buscando amaciar corações enrijecidos, além do meu próprio, e tenho prosperado. Esperando que cada pessoa, ao ler um poema, sinta o calor que dele emana em tempos cada vez mais frios.

Danieli Corrêa 

*

I would not be different

Every now and then
We all fall in love
With a totally inappropriate
Person

And I would not be different

You sort of see someone
And you don’t want to notice
That ring on his finger
Nor really that sort of happy
Look in his eyes

You do however know
Immediately
How wonderful it would be
To fall into those arms
To nuzzle the hairs
Of his underarms
To rub your cold feet
Against those thighs

You do want to know
What the water would feel like
As it caresses you two
In a rainbow shower
The soapy suds swirling around
As you kiss and kiss and kiss

You do want to know
How he takes his eggs
Whether his toast should be buttered

On both sides
If he drinks decaf or regular

But he is a totally inappropriate person
And all the world knows
This cannot work

Yet all the world would think
If they could see him
“I want to be in love with that”

And I would not be different

Comigo não seria diferente

De vez em quando
Todos nós nos apaixonamos
Por uma pessoa completamente
inapropriada

E comigo não seria diferente

Você meio que vê alguém
E não quer perceber
Aquele anel em seu dedo
Muito menos aquele olhar de felicidade
em seus olhos

Você, no entanto, sabe
Imediatamente
Como seria maravilhoso
Cair em seu braços
Acariciar os pelos
de suas axilas
Esfregar seus pés gelados
Em suas coxas

Você quer saber
Como seria sentir a água
A acariciar vocês
Em um banho de arco-íris
As bolhas de sabão borbulhando
Enquanto vocês se beijam e beijam e beijam
Você quer saber sim
Como prepara seus ovos
Se passa manteiga nas torradas

Dos dois lados
Se o café é normal ou descafeinado

Mas é uma pessoa totalmente inapropriada
E o mundo todo sabe
Que isso não pode dar certo

Mesmo assim, o mundo pensaria
Se vissem essa pessoa
“Eu quero me apaixonar”

E comigo não seria diferente

§

Bicycles

Midnight poems are bicycles
Taking us on safer journeys
Than jets
Quicker journeys
Than walking
But never as beautiful
A journey
As my back
Touching you under the quilt

Midnight poems
Sing a sweet song
Saying everything
Is all right

Everything
Is
Here for us

I reach out
To catch the laughter

The dog thinks
I need a kiss

Bicycles move
With the flow
Of the earth

Like a cloud
So quiet
In the October sky
Like licking ice cream
From a cone
Like knowing you
Will always
Be there

All day long I wait
For the sunset
The first star
The moon rise

I move
To a midnight
Poem
Called
You
Propping
Against
The dangers

Bicicletas

Poemas da madrugada são bicicletas
Nos levando a caminhos mais seguros
Do que aviões
Mais rápidas
Do que caminhar
Mas nunca um caminho
Tão bonito
Quanto as minhas costas
Te tocando embaixo do edredom

Poemas da madrugada
Cantam uma doce canção
Dizendo que
está tudo bem

Está
Tudo
aqui por nós

Me estico
Para alcançar a risada

O cachorro pensa
Preciso de um beijo

Bicicletas se movem
com a brisa
da Terra

Como uma nuvem
Tão quieta
No céu de outubro
Como lamber um sorvete
No cone
Como saber que você
Estará
Sempre lá

Espero o dia todo
Pelo pôr do sol
Pela primeira estrela
Pela lua

Me movo
Para o poema
Da madrugada
Chamado
Você
Se apoiando
Nos perigos

§

No translations

the smells of a pot roast from the oven
turnips garlic onions
potatoes celery parsnips
tomatillo yucca root

Jack Frost painting
the windows

my cold feet
your warm back
“It started in New Orleans
but now its everywhere . . .” Pure Jazz on your dial

chocolates coffee
a good red wine
18 degrees and falling
high winds
maybe a power loss

giggles laughter
sweatpants jeans

I speak to you
in the language
of love

no translations
necessary

Nenhuma tradução

o cheiro de um assado no forno
nabos alho cebolas
batatas salsão mandioquinha
tomatillo¹ mandioca

quadro do Jack Frost
as janelas

meus pés gelados
em suas costas quentes
“Começou em New Orleans
mas agora está em todo lugar. . .” Pure Jazz no rádio

chocolates café
um bom vinho tinto
18 graus e caindo
ventos fortes
talvez uma queda de energia

risinhos risada
moletom jeans

Converso com você
no idioma
do amor

nenhuma tradução
se faz necessária

§

Mercy

She asked me to kill the spider
Instead, I got the most
peaceful weapons I can find

I take a cup and a napkin.
I catch the spider, put it outside
and allow it to walk away

If I am ever caught in the wrong place
at the wrong place, just being alive
and not bothering anyone,

I hope I am greeted
with the same kind
of mercy.

Misericórdia

Ela me pediu para matar a aranha
Ao invés disso, peguei as armas
mais pacíficas que pude encontrar

Peguei um copo e um guardanapo.
Capturei a aranha, levei-a para fora
deixei que fosse embora

Se eu for pega no lugar errado
no local errado, apenas vivendo
sem incomodar ninguém,

espero ser acolhida
com a mesma
misericórdia.

§

I wrote a good omelette

I wrote a good omelet… and ate
a hot poem… after loving you
Buttoned my car… and drove my
coat home… in the rain…
after loving you
I goed on red… and stopped on
green… floating somewhere in between…
being here and being there…
after loving you
I rolled my bed… turned down
my hair… slightly
confused but… I don’t care…
Laid out my teeth… and gargled my
gown… then I stood
… and laid me down…
To sleep…
after loving you

Escrevi um bom omelete

Escrevi um bom omelete e comi um poema quente…
depois de te amar
Abotoei meu carro… e dirigi meu casaco
para casa… na chuva…
depois de te amar
Segui no vermelho… e parei no verde… flutuando por aí…
aqui e ali…
depois de te amar
Enrolei minha cama… soltei meu cabelo…
um pouco confusa, mas… não me importo…
Vesti meus dentes… fiz um gargarejo na camisola…
então fiquei de pé… e me deitei…
Para dormir…
depois de te amar

§

Danieli Corrêa, tradutora e revisora de textos. Nasci, cresci e me formei no interior, moro agora em São Paulo, cidade que é um caso de amor e ódio (no meu caso, mais amor do que ódio, sempre bom dosar), trabalho regularmente como revisora em uma agência.

*

Lucille Clifton, por Lubi Prates

clifton-lucille-400x600

Lucille Clifton (1936, Nova Iorque, EUA) foi uma poeta, escritora e professora negra. Publicou diversos livros de poesia e infantis. Seu livro de estreia, Good Times, de 1969, foi considerado um dos melhores livros de poesia do ano, nos Estados Unidos. Com Good Woman: Poems and a Memoir: 1969–1980, e Next: New Poems, ambos de 1987, concorreu ao Prêmio Pulitzer. Com Blessing The Boats: New and Collected Poems 1988–2000, de 2000, ganhou o National Book Award. Seus poemas tratam da condição da mulher negra na diáspora, valorizando a herança africana presente em nós (Lucille descendia da República do Benin). Lucille faleceu em 2010. Sua obra segue inédita no Brasil. Os poemas abaixo foram traduzidos por mim e contaram com o olhar atento do Manu Quadros, a quem agradeço.

*

listen children

listen children
keep this in the place
you have for keeping
always
keep it all ways

we have never hated black

listen
we have been ashamed
hopeless tired mad
but always
all ways
we loved us

we have always loved each other
children all ways

pass it on

ouçam, crianças

ouçam, crianças
guardem isso onde
vocês possam guardar
para sempre
guardem isso de todas as maneiras

nós nunca odiamos preto

ouçam
nós estivemos envergonhados
desesperançosos cansados com raiva
mas sempre
de todas as maneiras
nós nos amamos

nós sempre nos amamos
crianças, de todas as maneiras

passem isso adiante.

§

blessing the boats

(at St. Mary’s)

may the tide
that is entering even now
the lip of our understanding
carry you out
beyond the face of fear
may you kiss
the wind then turn from it
certain that it will
love your back may you
open your eyes to water
water waving forever
and may you in your innocence
sail through this to that

abençoando os navios

que a maré
que agora mesmo adentra
o lábio do nosso entendimento
te carregue
para além da face do medo
que você beije
o vento e lhe dê as costas
com a certeza de que ele
te amará de volta que você
abra seus olhos para a água
água ondulando para sempre
e que você com sua inocência
consiga navegar através dela

§

won’t you celebrate with me

won’t you celebrate with me
what i have shaped into
a kind of life? i had no model.
born in babylon
both nonwhite and woman
what did i see to be except myself?
i made it up
here on this bridge between
starshine and clay,
my one hand holding tight
my other hand; come celebrate
with me that everyday
something has tried to kill me
and has failed.

você não vai celebrar comigo?

você não vai celebrar comigo
isto que eu moldei como
um tipo de vida? eu não tive nenhum modelo.
nascida na babilônia
não branca e mulher.
o que eu imaginei ser além de mim mesma?
eu forjei isso.
aqui nesta ponte entre
a luz da estrela e a argila,
minha mão segurando firme
minha outra mão; venha celebrar
comigo, que todos os dias
alguma coisa tenta me matar
e falha.

§

sisters

me and you be sisters.
we be the same.

me and you
coming from the same place.

me and you
be greasing our legs
touching up our edges.

me and you
be scared of rats
be stepping on roaches.

me and you
come running high down purdy street one time
and mama laugh and shake her head at
me and you.

me and you
got babies
got thirty-five
got black
let our hair go back
be loving ourselves
be loving ourselves
be sisters.

only where you sing,
I poet.

irmãs

você e eu somos irmãs.
somos iguais.

você e eu
vindas do mesmo lugar.

você e eu
passando óleo nas pernas
retocando nossas raízes.

você e eu
com medo de ratos
pisando nas baratas.

você e eu
descendo alegres correndo a rua purdy aquela vez
e a mãe rindo e balançando a cabeça para

você e eu.

você e eu
tivemos bebês

fizemos trinta e cinco
enegrecemos
deixamos nossos cabelos voltarem
amando nós mesmas

amando nós mesmas
somos irmãs.

apenas onde você canta,
eu sou poeta.

§

the lost women

i need to know their names
those women i would have walked with
jauntily the way men go in groups
swinging their arms, and the ones
those sweating women whom i would have joined
after a hard game to chew the fat
what would we have called each other laughing
joking into our beer? where are my gangs,
my teams, my mislaid sisters?
all the women who could have known me,
where in the world are their names?

as mulheres perdidas

eu preciso saber os nomes
daquelas mulheres com quem eu teria caminhado
alegremente como fazem os homens em grupo
balançando os braços, e daquelas mulheres
suadas com quem eu teria me juntado
depois de uma partida difícil para jogar conversa fora.
do que teríamos chamado umas às outras rindo
brincando na nossa cerveja? onde está minha gangue,
meu time, minhas irmãs extraviadas?
todas as mulheres que poderiam ter me conhecido,
onde nesse mundo estão seus nomes?

§

telling our stories

the fox came every evening to my door
asking for nothing. my fear
trapped me inside, hoping to dismiss her
but she sat till morning, waiting.

at dawn we would, each of us,
rise from our haunches, look through the glass
then walk away.

did she gather her village around her
and sing of the hairless moon face,
the trembling snout, the ignorant eyes?

child, i tell you now it was not
the animal blood i was hiding from,
it was the poet in her, the poet and
the terrible stories she could tell.

contando nossas histórias

 a raposa vinha todas as noites para a minha porta
sem pedir nada. meu medo
me prendia lá dentro, na esperança de dispersá-la,
mas ela sentava até a manhã, aguardando.

ao amanhecer, nós duas
nos erguíamos de nossos lombos, olhávamos através do vidro,
e saíamos andando.

será que ela reuniu as outras raposas ao seu redor
e cantou sobre a face redonda e sem pelos,
o focinho trêmulo, os olhos ignorantes?

criança, eu te digo agora que não era
do sangue animal que eu estava me escondendo,
era da poeta nela, a poeta e
as terríveis histórias que ela poderia contar.

§

Lubi Prates (1986, São Paulo/SP) é poeta, tradutora, editora e curadora de Literatura. Tem três livros publicados (coração na boca, 2012; triz, 2016; um corpo negro, 2018). um corpo negro foi contemplado pelo PROAC com bolsa de criação e publicação de poesia e está em processo de publicação na Argentina, Colômbia, Estados Unidos, Espanha e França, além de ter sido finalista do 61º Prêmio Jabuti e do 4º Prêmio Rio de Literatura. Tem diversas publicações em plaquetes, antologias e revistas nacionais e internacionais. Co-organizou junto com outras mulheres os festivais literários para visibilidade de poetas, [eu sou poeta] (São Paulo, 2016) e Otro modo de ser (Barcelona, 2018) e também participou de outros festivais literários no Brasil e em outros países da América Latina. É sócia-fundadora e editora da nosotros, editorial, e é editora da revista literária Parênteses. Dedica-se à ações que combatem a invisibilidade de mulheres e negros. Atualmente, é doutoranda em Psicologia do Desenvolvimento Humano, na Universidade de São Paulo.

*