poesia norte-americana, tradução

Angelina Weld Grimké, por Mariana Correia Santos

angelina_weld_grimke_jpg_photo_x2_colored_toned

Angelina Weld Grimké foi poeta, dramaturga, jornalista e professora, nasceu em Boston, Massachusetts (EUA), em 1880, numa família miscigenada e influente no movimento abolicionista: suas tias-avós eram Angelina e Sarah Grimké, famosas sufragistas; seu pai era Archibald Grimké, segundo negro a se formar na Universidade Harvard e vice-presidente da NAACP (Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor).

É mais conhecida por seu trabalho poético e pela peça anti-racista “Rachel” (1916), cuja montagem a colocou entre os primeiros dramaturgos estadunidenses negros a terem peças performadas publicamente. Em poesia, Grimké é descrita como uma autora sentimental, mais voltada às experiências subjetivas – em temas como o amor perdido, o desejo frustrado –, se comparada aos demais escritores negros contemporâneos a ela. No entanto, alguns de seus poemas parecem se abrir para experiências daqui e de lá em encontro. Seus ensaios, contos e peças concentram sua produção mais expressamente social, ao abordar com destaque o linchamento e o racismo institucional.

Foi um nome importante para o Harlem Renaissance. Seus poemas apareceram em antologias editadas por Langston Hughes e Countee Cullen, e em periódicos da época. Publicou pouco em vida. Teve parte de seu trabalho editado postumamente pela Oxford University Press no volume The Selected Works of Angelina Weld Grimké (1991). Deixou diários e cartas, que indicam que era lésbica. Morreu na cidade de Nova Iorque, em 1958.

Mariana Correia Santos

*

Your Hands

I love your hands:
They are big hands, firm hands, gentle hands;
Hair grows on the back near the wrist……
I have seen the nails broken and stained
From hard work.
And yet, when you touch me,
I grow small ………and quiet………
………And happy………
If I might only grow small enough
To curl up into the hollow of your palm,
Your left palm,
Curl up, lie close and cling,
So that I might know myself always there,
………Even if you forgot.


As suas mãos

Amo suas mãos:
São mãos grandes, mãos firmes, mãos gentis;
Pelos crescem atrás, próximos ao pulso……
Conheço suas unhas quebradas e manchadas
Do trabalho duro.
Ainda assim, quando me toca,
Me apequeno…………. e me aquieto………..
……………….E me alegro……………………..
Se eu pudesse apenas ficar pequena o bastante
Para me encaixar no vão da sua palma,
Sua palma esquerda,
Me encaixar, deitar rente e me apegar,
Para que eu me encontre sempre lá,
………………Ainda que você me esqueça.

§

The Black Child

I saw a little black child
Sitting in a gold circle of sunlight;
And in his little black hand,
He had a little black stick,
And he was beating, beating,
With his little black stick,
The sunlight all about him,
           And laughing, laughing. 

And he was so fat,
There were dimples at his tiny, wriggling toes,
            And at his knees,
           And at his elbows,
          And at his fingers,
        And in his cheeks,
       And in his little chin. 

And his black hair was plaited
          Into innumerable, little braids,
                    All over his little head;
        Very even, very fine, very cunning,
                 They were. 

And his skin was ebon, beautiful,
With a bloom, a shining gleam upon it.
O! he was all black,
          Save for his tiny white teeth
         And the whites of his eyes,
        And the white cloth about his little middle.

And he sat in the gold circle of sunlight
        Kicking with his little feet,
        And wriggling his little toes,
       And beating, beating
      The sunlight all about him,
     With his little black stick,
     And laughing, laughing. 

And the circle of gold slipped tip-toeing away,
          Tiptoeing away from the little black child.
          And a little black hand slid into the shadows,
                     Into black shadows,
        And a little black leg,
       And a little black foot,
      And the half of a little black braided head,
      And a little black shoulder,
     And a little black beating stick,
     And a little black beating hand,
    And all that was left,
   At the edge of the circle of gold,
   Was a little black kicking foot
               And little black wriggling toes
              Wriggling – wriggling – gone! 

A little black child
            Sat in the black shadows,
            Kicking with his little feet,
           And wriggling his little toes,
          And beating, beating
         The shadows all about him,
         With his little black stick,
         And laughing, laughing.

A criança negra

Vi uma pequena criança negra
Sentada em um círculo dourado de sol;
E em sua mãozinha negra
Ela tinha um pequeno galho preto,
E ela batia e batia
Com seu pequeno galho preto,
A luz do sol sobre ela toda,
E ela rindo, rindo.

E era tão gorda,
Com dobrinhas em seus agitados dedinhos do pé,
E em seus joelhos,
E em seus cotovelos,
E em seus dedos das mãos,
E em suas bochechas,
E em seu pequeno queixo.

E seu cabelo negro estava entrançado
Em inumeráveis trancinhas,
Por toda a sua cabecinha;
Bem-feitas, bem bonitas, bem engenhosas,
Elas eram.

E sua pele era retinta, linda,
Com certo florescer sobre ela, um brilho luminoso.
Ah! era toda negra,
Exceto os seus dentinhos brancos,
E o branco de seus olhos,
E o tecido branco sobre seu corpinho.

E sentava-se em um círculo dourado de sol
Chutando com seus pezinhos,
E contorcendo seus dedinhos,
E batendo e batendo
A luz do sol sobre ela toda
E seu pequeno galho preto,
E ela rindo, rindo.

E o círculo de ouro foi embora de fininho,
De fininho para longe da pequena criança negra.
E uma mãozinha negra escorregou para as sombras,
Para as negras sombras,
E uma perninha negra,
E um pezinho negro,
E parte de uma cabecinha negra trançada,
E um ombrinho negro,
E um pequeno galho preto batendo,
E uma mãozinha negra batendo,
E tudo o que restou,
Nas margens do círculo de ouro,
Foi um pezinho negro chutando
E dedinhos negros contorcendo-se
Contorcendo-se – contorcendo-se – findos!

Uma pequena criança negra
Sentada em sombras negras,
Chutando com seus pezinhos,
E contorcendo seus dedinhos,
E batendo e batendo
As sombras sobre ela toda
E seu pequeno galho preto,
E ela rindo, rindo.

§

Tenebris

There is a tree, by day,
That, at night,
Has a shadow,
A hand huge and black,
With fingers long and black.
        All through the dark,
Against the white man’s house,
        In the little wind,
The black hand plucks and plucks
       At the bricks.
The bricks are the color of blood and very small.
        Is it a black hand,
       Or is it a shadow?

Tenebris

Há uma árvore, na manhã,
Que, à noite,
Forma uma sombra,
Uma mão enorme e negra,
De dedos longos e negros.
Por todo o negrume,
Contra a casa do branco,
Ao menor vento,
A mão negra cutuca e cutuca
Os tijolos.
Os tijolos são da cor de sangue e bem pequenos.
É ela uma mão negra
Ou é uma sombra?

§

Fragment

I am the woman with the black black skin
I am the laughing woman with the black black face
I am living in the cellars and in every crowded place
     I am toiling just to eat
  In the cold and in the heat
     And I laugh
I am the laughing woman who’s forgotten how to weep
I am the laughing woman who’s afraid to go to sleep

Fragmento

Sou a mulher da preta preta pele
Sou a mulher que ri de preto preto rosto
Vivo nos porões e em lugares lotados
Trabalho só para comer
No frio e no calor
E rio
Sou a mulher que ri que esqueceu como chorar
Sou a mulher que ri que teme ir deitar

§

El Beso

Twilight – and you,
Quiet – the stars;
Snare of the shine of your teeth,
Your provocative laughter,
The gloom of your hair;
Lure of you, eye and lip;
Yearning, yearning,
Languor, surrender;
           Your mouth,
And madness, madness,
Tremulous, breathless, flaming,
The space of a sigh;
Then awakening – remembrance,
Pain, regret – your sobbing;
And again quiet – the stars,
Twilight – and you.

El beso

O crepúsculo – e você,
Quieta – a estrela;
A armadilha do brilho de seus dentes,
Sua risada provocativa,
A melancolia em seus cabelos;
Seu ardil, olhos e lábios;
Ansiando, ansiando,
Languidez, entrega;
Sua boca,
E insanidade, insanidade,
Trêmula, arfante, ardente,
O espaço de um suspiro;
Então acordar – lembrança,
Dor, arrependimento – os seus soluços;
E quieta, novamente – a estrela,
O crepúsculo – e você.

§

A Winter Twilight

A silence slipping around like death,
Yet chased by a whisper, a sigh, a breath;
One group of trees, lean, naked and cold,
Inking their cress ‘gainst a sky green-gold; 

One path that knows where the corn flowers were;
Lonely, apart, unyielding, one fir;
And over it softly leaning down,
One star that I loved ere the fields went brown

Um crepúsculo de inverno
Um silêncio ao redor como a morte desliza,
Ainda que seguido por um sussurro, um suspiro, um respirar;
Um grupo de árvores magras, nuas e frias,
Tingindo contra um céu verde e dourado as suas copas;

Um caminho que sabe onde ficam as flores do milho;
Solitárias, afastadas, inabaláveis, um abeto;
E inclinando-se suavemente sobre elas, por mim amada
Antes dos campos tornarem-se marrons, uma estrela.

§

Mariana Correia Santos (1996) é poeta, escritora, tradutora e assistente editorial. Nasceu em Guarujá, na Baixada Santista. Vive em São Paulo e cursa graduação em Letras na Universidade de São Paulo (USP), na qual se concentra em estudos de poesia, tradução e sociedade. Participou do Curso Livre de Preparação do Escritor (CLIPE) da Casa das Rosas. Publicou poemas na Revista Lavoura e no projeto Sutura, e traduções na revista catalã sèrieAlfa e nas Notícias de outras ilhas, da Revista Cult. É autora da plaquete independente de poesia espaços íntimos (2019). marianacorreiasantos.com.

*

Padrão
poesia latinamericana, tradução

Fernanda Laguna, por Eduarda Rocha

na32fo01_12

Fernanda Laguna (Buenos Aires, 1972-) é escritora, artista plástica e curadora. Tornou-se uma das escritoras mais destacadas da chamada “geração dos 90”, na Argentina. Fundou junto a Cecilia Pavón a editora e galeria de arte Belleza y felicidad. Em 2003, abriu a sucursal de Belleza y felicidad no bairro de Villa Fiorito, que segue em atividade. Foi membro do coletivo Eloísa Cartonera e abriu com diversxs sócixs vários espaços de arte, em Buenos Aires. Publicou diversos livros de poesia e grande parte de sua produção está reunida em Control o no control (2012), seleção de poemas publicados entre 1999 e 2011; e La princesa de mis sueños (2018), que reúne poemas escritos entre 1994 e 2003. Em 2018, lançou a coletânea de inéditos Los grandes proyectos, pela coleção 8M do jornal Página/12. Sob o heterônimo Dalia Rosetti publicou os livros: Me encantaría que gustes de mí (2006), Dame pelota (2009) e Sueños y pesadillas (2016). Como artista plástica, participou de diversas exposições individuais e coletivas. Sua obra foi adquirida por diversos museus ao redor do mundo, tais como o Malba, Museo Reina Sofía e o Guggenheim. É militante e uma das fundadoras do coletivo feminista Ni Una Menos.

Fernanda Laguna transformou sua vida em literatura, sendo ela própria convertida em personagem de livros de César Aira e Washington Cucurto. Seus poemas são como um fluxo, uma tentativa de captar um instante, abordando assuntos que poderiam ser considerados banais e ganham uma dimensão poética. Nisso reside a potência de sua obra. A poesia de Fernanda Laguna é uma constante investigação sobre o ato da escrita, em que a tentativa de escrever um poema é o próprio poema. Esta poesia tão vinculada à experiência, escrita em primeira pessoa, com um tom confessional, resgatou um modo de produção poética considerado “menor”, por certo segmento da crítica, e mobilizou grande parte das novas gerações de poetas argentinxs que têm a autora como uma de suas referências.  Desde as relações amorosas com homens e mulheres até o seu absorvente, tudo que existe ao redor e dentro de Fernanda Laguna cabe em um poema dela.

Os três poemas abaixo integram a coletânea Control o no control, publicada em 2012 pela editora Mansalva.

Eduarda Rocha

*

A mi toallita femenina

Estaba en el baño y me inspiré
pero dudé si llegaría a la computadora a escribir este poema
porque me duele la panza.
Y pensé que si de pasada me tiraba en la cama
no duraría esta inspiración.
Pero llegué…
y todo para decir:
LAS MEJORES TOALLITAS DEL MUNDO SON

LAS LADY SOFT NORMALES
(y son las más baratas).

Este es un poema para el futuro
para dejar un rastro de estas fabulosas toallitas
que me acompañan tan bien cuando las consigo.
Son las mejores.
Algún día…
dentro de muchos años,
en el futuro,
no sé si se usará toallita
y ni me imagino que se usará.
Pero yo quiero que este poema
sea un homenaje y un recuerdo
para todas las chicas del futuro:
una vez existió una marca buena,
una toallita bárbara.

Este es un poema arqueológico
en un basural algún día
quedará sin descomponerse
una Lady Soft llena de gusanos.
Y para ella

también será este poema.

Para meu absorvente 

Estava no banheiro e me inspirei
mas duvidei se chegaria ao computador para escrever este poema
porque sinto cólicas.
E pensei que se por acaso me jogasse na cama
esta inspiração não duraria.
Mas cheguei…
e tudo isso para dizer:
OS MELHORES ABSORVENTES DO MUNDO SÃO
OS LADYSOFT NORMAIS
(e são os mais baratos).

Este é um poema para o futuro
para deixar um rastro destes fabulosos absorventes
que me acompanham tão bem quando os consigo.
São os melhores.
Algum dia…
daqui a muitos anos,
no futuro,
não sei se ainda se usará absorvente
e nem imagino o que se usará.
Mas eu quero que este poema
seja uma homenagem e uma lembrança
para todas as garotas do futuro:
uma vez existiu uma marca boa,
um absorvente espetacular.

Este é um poema arqueológico
em um depósito de lixo algum dia
restará sem se decompor
um LadySoft cheio de vermes.
E para ele
também será este poema.

§

Acerca de la noche

Tengo poco tiempo para escribir el mejor poema de mi vida
acerca de la noche.
Tengo poco tiempo para que se me ocurra algo brillante
y con el ritmo vertiginoso de una buena canción.
Tengo poco tiempo.
Alguien me persigue y no soy paranoica.
No sé quién es pero me impide escribir mi mejor poema
y ya lo tengo prometido para mañana.
Tengo 5 minutos y no puedo pensar acerca de la noche.
¿Dónde estará aquel novio que conocí aquella noche en la
presentación de la xxxxxxx?
Tengo que censurar mis poemas,
lo lamento más yo que ustedes
porque me encantaría contarlo todo.
Una noche entré a un hotel con una llave robada
y dormí en una habitación ocupada
con un chico que tenía una novia china francesa
y muy cultural (eso me dijo el chico)
El chico estaba borracho y xxxxxx…
No estuvo tan mal.
¿Cuánto tiempo me queda?
Ya voy tiempo extra y el tema de la falta de tiempo
deja de ser mi argumento por el cual
estoy inhibida para escribir un buen poema.
Todavía tengo unos minutos más pero estoy en la cuenta regresiva
y me divierte que este poema sea tan plomo ¿no?
¿O es divertido?
Es lindo tener el tiempo ocupado para no caer en la locura.

Sobre a noite

Tenho pouco tempo para escrever o melhor poema de minha vida
sobre a noite
Tenho pouco tempo para que me ocorra algo brilhante
e com o ritmo vertiginoso de uma boa canção.
Tenho pouco tempo.
Alguém me persegue e não sou paranoica.
Não sei quem é, mas me impede de escrever meu melhor poema
e já prometi isso para amanhã.
Tenho 5 minutos e não posso pensar sobre a noite.
Onde estará aquele namorado que conheci aquela noite na
Apresentação da xxxxxxx?
Tenho que censurar meus poemas,
eu lamento por isso mais que vocês
porque adoraria contar tudo.
Uma noite entrei num hotel com uma chave roubada
e dormi num quarto ocupado
com um garoto que tinha uma namorada chinesa francesa
e muito cult (isso foi o que ele me disse)
O garoto estava bêbado e xxxxxx…
Não foi tão ruim.
Quanto tempo me resta?
Já estou nos acréscimos e o tema da falta de tempo
deixa de ser meu argumento pelo qual
estou inibida para escrever um bom poema.
Ainda tenho uns minutos, mas estou na contagem regressiva
e me diverte que este poema seja tão chato, não?
Ou é divertido?
É lindo ocupar o tempo para não cair na loucura.

§

¿Qué hacés poema de mí?
¿Por dónde me llevás?
Has hecho que los poetas se enemisten conmigo,
Me has tirado en un campo de batalla
lleno de tanques.
Las bombas caen
mirá
sobre la “i”
cayó una bomba.
¿O está suspendida
 y esta guerra
es un sueño?
No sé
he abandonado en la empuñadura
la racionalidad
y la cambié
por tu mente rítmica.
Poesía maldita
no voy a luchar contra vos,
haremos el amor
acá
en medio de los cadáveres.

Un rayo eléctrico
cae sobre el pararayos
¡aaaaaaaahhhhhh!
y simplemente me cayó encima.
Pero vos, poesía,
seguirás loca
metiéndote en la cama de mis amigos
dándoles
más
locura,
erradicándoles su esencia.

Poema, o que você faz de mim?
Aonde você me leva?
Por sua culpa os poetas se tornaram meus inimigos,
Você me jogou em um campo de batalha
cheio de tanques.
As bombas caem
olhe aqui
sobre o “i”
caiu uma bomba.
Ou está suspensa
e esta guerra
é um sonho?
Não sei
abandonei na empunhadura
a racionalidade
e a substituí
por sua mente rítmica.
Poesia maldita
não vou lutar contra você,
faremos amor
aqui
em meio aos cadáveres.

Um raio elétrico
cai sobre o para-raios
aaaaaaaahhhhhh!
e simplesmente caiu em cima de mim.
Mas você, poesia,
continuará louca
se metendo na cama dos meus amigos
dando a eles
mais
loucura,
lhes erradicando sua essência.

§

Eduarda Rocha (Maceió, 1991) é pesquisadora e tradutora. Atualmente, realiza doutorado em Estudos Literários na Universidade Federal de Alagoas. Tem se dedicado a investigações sobre as poesias brasileira e argentina contemporâneas. Em sua tese, analisa a obra das poetas Angélica Freitas, Cecilia Pavón e Fernanda Laguna.

*

Padrão
poesia norte-americana, tradução

Nikki Giovanni, por Danieli Corrêa

D9U540kU8AA13zX

Nikki Giovanni, nascida Yolande Cornelia Giovanni. Jr, em Knoxville, Tennessee em 1943, é uma grande poeta norte americana, embora pouco conhecida no Brasil. Tem uma escrita que nos soa familiar: fala sobre si, o que vive e sente, sobre suas experiências. Dentro desse espectro, aborda temas como amor, amizade, rejeição, raiva, frustração. De certa forma, organiza o que sentimos em palavras de forma natural, parecendo simples, porém com uma consistência que não tem nada de ingênua. Além de poeta, Nikki é professora, ativista e além de escreve literatura infantil e de não-ficção.

Para traduzir, passei por muitas versões de laudos e manuais para, finalmente, tentar me guiar por caminhos mais contemplativos, ainda que sem perder a firmeza. Assim como na vida, me deixei levar pela poesia buscando amaciar corações enrijecidos, além do meu próprio, e tenho prosperado. Esperando que cada pessoa, ao ler um poema, sinta o calor que dele emana em tempos cada vez mais frios.

Danieli Corrêa 

*

I would not be different

Every now and then
We all fall in love
With a totally inappropriate
Person

And I would not be different

You sort of see someone
And you don’t want to notice
That ring on his finger
Nor really that sort of happy
Look in his eyes

You do however know
Immediately
How wonderful it would be
To fall into those arms
To nuzzle the hairs
Of his underarms
To rub your cold feet
Against those thighs

You do want to know
What the water would feel like
As it caresses you two
In a rainbow shower
The soapy suds swirling around
As you kiss and kiss and kiss

You do want to know
How he takes his eggs
Whether his toast should be buttered

On both sides
If he drinks decaf or regular

But he is a totally inappropriate person
And all the world knows
This cannot work

Yet all the world would think
If they could see him
“I want to be in love with that”

And I would not be different

Comigo não seria diferente

De vez em quando
Todos nós nos apaixonamos
Por uma pessoa completamente
inapropriada

E comigo não seria diferente

Você meio que vê alguém
E não quer perceber
Aquele anel em seu dedo
Muito menos aquele olhar de felicidade
em seus olhos

Você, no entanto, sabe
Imediatamente
Como seria maravilhoso
Cair em seu braços
Acariciar os pelos
de suas axilas
Esfregar seus pés gelados
Em suas coxas

Você quer saber
Como seria sentir a água
A acariciar vocês
Em um banho de arco-íris
As bolhas de sabão borbulhando
Enquanto vocês se beijam e beijam e beijam
Você quer saber sim
Como prepara seus ovos
Se passa manteiga nas torradas

Dos dois lados
Se o café é normal ou descafeinado

Mas é uma pessoa totalmente inapropriada
E o mundo todo sabe
Que isso não pode dar certo

Mesmo assim, o mundo pensaria
Se vissem essa pessoa
“Eu quero me apaixonar”

E comigo não seria diferente

§

Bicycles

Midnight poems are bicycles
Taking us on safer journeys
Than jets
Quicker journeys
Than walking
But never as beautiful
A journey
As my back
Touching you under the quilt

Midnight poems
Sing a sweet song
Saying everything
Is all right

Everything
Is
Here for us

I reach out
To catch the laughter

The dog thinks
I need a kiss

Bicycles move
With the flow
Of the earth

Like a cloud
So quiet
In the October sky
Like licking ice cream
From a cone
Like knowing you
Will always
Be there

All day long I wait
For the sunset
The first star
The moon rise

I move
To a midnight
Poem
Called
You
Propping
Against
The dangers

Bicicletas

Poemas da madrugada são bicicletas
Nos levando a caminhos mais seguros
Do que aviões
Mais rápidas
Do que caminhar
Mas nunca um caminho
Tão bonito
Quanto as minhas costas
Te tocando embaixo do edredom

Poemas da madrugada
Cantam uma doce canção
Dizendo que
está tudo bem

Está
Tudo
aqui por nós

Me estico
Para alcançar a risada

O cachorro pensa
Preciso de um beijo

Bicicletas se movem
com a brisa
da Terra

Como uma nuvem
Tão quieta
No céu de outubro
Como lamber um sorvete
No cone
Como saber que você
Estará
Sempre lá

Espero o dia todo
Pelo pôr do sol
Pela primeira estrela
Pela lua

Me movo
Para o poema
Da madrugada
Chamado
Você
Se apoiando
Nos perigos

§

No translations

the smells of a pot roast from the oven
turnips garlic onions
potatoes celery parsnips
tomatillo yucca root

Jack Frost painting
the windows

my cold feet
your warm back
“It started in New Orleans
but now its everywhere . . .” Pure Jazz on your dial

chocolates coffee
a good red wine
18 degrees and falling
high winds
maybe a power loss

giggles laughter
sweatpants jeans

I speak to you
in the language
of love

no translations
necessary

Nenhuma tradução

o cheiro de um assado no forno
nabos alho cebolas
batatas salsão mandioquinha
tomatillo¹ mandioca

quadro do Jack Frost
as janelas

meus pés gelados
em suas costas quentes
“Começou em New Orleans
mas agora está em todo lugar. . .” Pure Jazz no rádio

chocolates café
um bom vinho tinto
18 graus e caindo
ventos fortes
talvez uma queda de energia

risinhos risada
moletom jeans

Converso com você
no idioma
do amor

nenhuma tradução
se faz necessária

§

Mercy

She asked me to kill the spider
Instead, I got the most
peaceful weapons I can find

I take a cup and a napkin.
I catch the spider, put it outside
and allow it to walk away

If I am ever caught in the wrong place
at the wrong place, just being alive
and not bothering anyone,

I hope I am greeted
with the same kind
of mercy.

Misericórdia

Ela me pediu para matar a aranha
Ao invés disso, peguei as armas
mais pacíficas que pude encontrar

Peguei um copo e um guardanapo.
Capturei a aranha, levei-a para fora
deixei que fosse embora

Se eu for pega no lugar errado
no local errado, apenas vivendo
sem incomodar ninguém,

espero ser acolhida
com a mesma
misericórdia.

§

I wrote a good omelette

I wrote a good omelet… and ate
a hot poem… after loving you
Buttoned my car… and drove my
coat home… in the rain…
after loving you
I goed on red… and stopped on
green… floating somewhere in between…
being here and being there…
after loving you
I rolled my bed… turned down
my hair… slightly
confused but… I don’t care…
Laid out my teeth… and gargled my
gown… then I stood
… and laid me down…
To sleep…
after loving you

Escrevi um bom omelete

Escrevi um bom omelete e comi um poema quente…
depois de te amar
Abotoei meu carro… e dirigi meu casaco
para casa… na chuva…
depois de te amar
Segui no vermelho… e parei no verde… flutuando por aí…
aqui e ali…
depois de te amar
Enrolei minha cama… soltei meu cabelo…
um pouco confusa, mas… não me importo…
Vesti meus dentes… fiz um gargarejo na camisola…
então fiquei de pé… e me deitei…
Para dormir…
depois de te amar

§

Danieli Corrêa, tradutora e revisora de textos. Nasci, cresci e me formei no interior, moro agora em São Paulo, cidade que é um caso de amor e ódio (no meu caso, mais amor do que ódio, sempre bom dosar), trabalho regularmente como revisora em uma agência.

*

Padrão
poesia, tradução

Lucille Clifton, por Lubi Prates

clifton-lucille-400x600

Lucille Clifton (1936, Nova Iorque, EUA) foi uma poeta, escritora e professora negra. Publicou diversos livros de poesia e infantis. Seu livro de estreia, Good Times, de 1969, foi considerado um dos melhores livros de poesia do ano, nos Estados Unidos. Com Good Woman: Poems and a Memoir: 1969–1980, e Next: New Poems, ambos de 1987, concorreu ao Prêmio Pulitzer. Com Blessing The Boats: New and Collected Poems 1988–2000, de 2000, ganhou o National Book Award. Seus poemas tratam da condição da mulher negra na diáspora, valorizando a herança africana presente em nós (Lucille descendia da República do Benin). Lucille faleceu em 2010. Sua obra segue inédita no Brasil. Os poemas abaixo foram traduzidos por mim e contaram com o olhar atento do Manu Quadros, a quem agradeço.

*

listen children

listen children
keep this in the place
you have for keeping
always
keep it all ways

we have never hated black

listen
we have been ashamed
hopeless tired mad
but always
all ways
we loved us

we have always loved each other
children all ways

pass it on

ouçam, crianças

ouçam, crianças
guardem isso onde
vocês possam guardar
para sempre
guardem isso de todas as maneiras

nós nunca odiamos preto

ouçam
nós estivemos envergonhados
desesperançosos cansados com raiva
mas sempre
de todas as maneiras
nós nos amamos

nós sempre nos amamos
crianças, de todas as maneiras

passem isso adiante.

§

blessing the boats

(at St. Mary’s)

may the tide
that is entering even now
the lip of our understanding
carry you out
beyond the face of fear
may you kiss
the wind then turn from it
certain that it will
love your back may you
open your eyes to water
water waving forever
and may you in your innocence
sail through this to that

abençoando os navios

que a maré
que agora mesmo adentra
o lábio do nosso entendimento
te carregue
para além da face do medo
que você beije
o vento e lhe dê as costas
com a certeza de que ele
te amará de volta que você
abra seus olhos para a água
água ondulando para sempre
e que você com sua inocência
consiga navegar através dela

§

won’t you celebrate with me

won’t you celebrate with me
what i have shaped into
a kind of life? i had no model.
born in babylon
both nonwhite and woman
what did i see to be except myself?
i made it up
here on this bridge between
starshine and clay,
my one hand holding tight
my other hand; come celebrate
with me that everyday
something has tried to kill me
and has failed.

você não vai celebrar comigo?

você não vai celebrar comigo
isto que eu moldei como
um tipo de vida? eu não tive nenhum modelo.
nascida na babilônia
não branca e mulher.
o que eu imaginei ser além de mim mesma?
eu forjei isso.
aqui nesta ponte entre
a luz da estrela e a argila,
minha mão segurando firme
minha outra mão; venha celebrar
comigo, que todos os dias
alguma coisa tenta me matar
e falha.

§

sisters

me and you be sisters.
we be the same.

me and you
coming from the same place.

me and you
be greasing our legs
touching up our edges.

me and you
be scared of rats
be stepping on roaches.

me and you
come running high down purdy street one time
and mama laugh and shake her head at
me and you.

me and you
got babies
got thirty-five
got black
let our hair go back
be loving ourselves
be loving ourselves
be sisters.

only where you sing,
I poet.

irmãs

você e eu somos irmãs.
somos iguais.

você e eu
vindas do mesmo lugar.

você e eu
passando óleo nas pernas
retocando nossas raízes.

você e eu
com medo de ratos
pisando nas baratas.

você e eu
descendo alegres correndo a rua purdy aquela vez
e a mãe rindo e balançando a cabeça para

você e eu.

você e eu
tivemos bebês

fizemos trinta e cinco
enegrecemos
deixamos nossos cabelos voltarem
amando nós mesmas

amando nós mesmas
somos irmãs.

apenas onde você canta,
eu sou poeta.

§

the lost women

i need to know their names
those women i would have walked with
jauntily the way men go in groups
swinging their arms, and the ones
those sweating women whom i would have joined
after a hard game to chew the fat
what would we have called each other laughing
joking into our beer? where are my gangs,
my teams, my mislaid sisters?
all the women who could have known me,
where in the world are their names?

as mulheres perdidas

eu preciso saber os nomes
daquelas mulheres com quem eu teria caminhado
alegremente como fazem os homens em grupo
balançando os braços, e daquelas mulheres
suadas com quem eu teria me juntado
depois de uma partida difícil para jogar conversa fora.
do que teríamos chamado umas às outras rindo
brincando na nossa cerveja? onde está minha gangue,
meu time, minhas irmãs extraviadas?
todas as mulheres que poderiam ter me conhecido,
onde nesse mundo estão seus nomes?

§

telling our stories

the fox came every evening to my door
asking for nothing. my fear
trapped me inside, hoping to dismiss her
but she sat till morning, waiting.

at dawn we would, each of us,
rise from our haunches, look through the glass
then walk away.

did she gather her village around her
and sing of the hairless moon face,
the trembling snout, the ignorant eyes?

child, i tell you now it was not
the animal blood i was hiding from,
it was the poet in her, the poet and
the terrible stories she could tell.

contando nossas histórias

 a raposa vinha todas as noites para a minha porta
sem pedir nada. meu medo
me prendia lá dentro, na esperança de dispersá-la,
mas ela sentava até a manhã, aguardando.

ao amanhecer, nós duas
nos erguíamos de nossos lombos, olhávamos através do vidro,
e saíamos andando.

será que ela reuniu as outras raposas ao seu redor
e cantou sobre a face redonda e sem pelos,
o focinho trêmulo, os olhos ignorantes?

criança, eu te digo agora que não era
do sangue animal que eu estava me escondendo,
era da poeta nela, a poeta e
as terríveis histórias que ela poderia contar.

§

Lubi Prates (1986, São Paulo/SP) é poeta, tradutora, editora e curadora de Literatura. Tem três livros publicados (coração na boca, 2012; triz, 2016; um corpo negro, 2018). um corpo negro foi contemplado pelo PROAC com bolsa de criação e publicação de poesia e está em processo de publicação na Argentina, Colômbia, Estados Unidos, Espanha e França, além de ter sido finalista do 61º Prêmio Jabuti e do 4º Prêmio Rio de Literatura. Tem diversas publicações em plaquetes, antologias e revistas nacionais e internacionais. Co-organizou junto com outras mulheres os festivais literários para visibilidade de poetas, [eu sou poeta] (São Paulo, 2016) e Otro modo de ser (Barcelona, 2018) e também participou de outros festivais literários no Brasil e em outros países da América Latina. É sócia-fundadora e editora da nosotros, editorial, e é editora da revista literária Parênteses. Dedica-se à ações que combatem a invisibilidade de mulheres e negros. Atualmente, é doutoranda em Psicologia do Desenvolvimento Humano, na Universidade de São Paulo.

*

Padrão
poesia, tradução

Natasha Felix: Considerações sobre a higiene íntima – performance e tradução

DSC00010 (1)

Considerações sobre a Higiene Íntima
é a mistura entre poemas do livro Use o Alicate Agora (ed. Macondo, 2018), de Natasha Felix, e o beat instrumental Black Skinhead, de Kanye West.
      Apresentada pela primeira vez no Macrofonia (São Paulo), a performance já passou por saraus e festas, como a Joga a PPK na Mesa e o Festival ELA (Santos).
      Agora, em parceria com o músico Barulhista e a agenciachaos, ela existe também em vídeo-poema, trazendo a interssecção entre a literatura, a dança, o audiovisual e o hip hop.
Apresentamos na escamandro além do vídeo-poema, duas traduções para o poema que deu origem à performance, uma inglês de Adi Gold, e uma espanhol de Sergio Ernesto Ríos.
*
Considerações sobre a Higiene Íntima

nunca conheci quem tivesse cabeça limpa
aliás os poucos que conheci
e talvez tivessem cabeça limpa
prestavam menos do que suspeitavam

sempre preferi aqueles cheios de bichos
escândalos baldeando de orelha a orelha

quem quebra copos
quem sabe o erro
toma para si o erro
segura escova gargareja
não cospe

testemunha perfeita do crime perfeito
quem sabe o erro assim
me inspira muita confiança mesmo

(reconhecer quem não tem cabeça limpa
alimentá-los, ser boa para eles)

olhei o tapete do banheiro sem medo dessa vez
todo um ecossistema lá
quem acreditaria?

ácaros mofo manchas de vinho
os meus joelhos nele
lembra?

os cotovelos no vaso sanitário a sua
língua entre as bandas da minha bunda
a gente ria feito duas cabras
era feriado ou algo assim
você atrasado pra uma festa ou algo assim
o azulejo português ou algo assim
quem acreditaria?
o fim do mundo ali vivendo entre
animaizinhos minúsculos lembretes
manchas impossíveis
lá bem ali

ácaro, mofo, manchas de vinho
eu nunca conheci quem tivesse cabeça limpa (x2)

eu saio do banheiro cada vez mais suja
cada vez mais suja (x4)

penso que esquecer é fácil, então eu esqueço.

ácaro, mofo, manchas de vinho
os meus joelhos nele
azulejos, o vazo sanitário, a sua língua
ácaro, mofo, eu nunca conheci
eu nunca conheci quem tivesse cabeça limpa
ácaro, mofo, manchas de vinho

olha, você pode até ser um homem piedoso
só eu não sou piedosa.

On personal hygiene
tradução Adi Gold 

nobody I ever knew had a clean head
and the few I knew 
who maybe did 
were not as great as they thought

I’ve always preferred heads crawling with creatures
(scandals stretching from ear to ear) 
those who break cups 
who can tell a mistake
take the mistake for themselves 
grasp the toothbrush gargle
don’t spit 

a perfect witness to the perfect crime
those who know the mistake 
make me trust them

(recognize those without a clean 
head feed them, be kind to them)

I looked at the bath mat now fearless
a whole ecocystem there. 
who would believe it? 

mites mold wine stains 
my knees on it 
remember?

elbows on the toilet your
tongue in my ass 
we laughed like two goats
it was a holiday or something
you were late to a party or something 
the portuguese tiles or something 
who would believe it? 

the end of the world there among
miniscule creatures reminders
impossible stains
there, right there 

mites mold wine stains 
nobody I ever knew had a clean head (x2)

I get out of the shower dirtier and dirtier 
dirtier and dirtier (x4)

I think forgetting is easy and so I forget

mites mold wine stains 
my knees on it
tiles, toilet, your tongue
mites mold nobody I ever knew
nobody I ever knew had a clean head
mites mold wine stains 

look, you might even be a rightous man
I’m the one who isn’t rightous 

Consideraciones sobre la higiene íntima
tradução Sergio Ernesto Ríos

Nunca conocí a alguien que tuviera la cabeza limpia
además a los pocos que conocí
y tal vez tuvieran la cabeza limpia
ofrecían menos de lo que sospechaban

siempre preferí a aquellos repletos de alimañas
escándalos pasando de oreja a oreja

quien rompe vasos
quien sabe el error
toma para sí el error
toma el cepillo cepilla hace gárgaras
no escupe

testimonio perfecto del crimen perfecto
quien sabe el error entonces
me inspira mucha confianza realmente

(reconocer a quien no tiene la cabeza limpia
alimentarlos, ser buena con ellos)

miré el tapete del baño sin miedo por esta vez t
odo un ecosistema allí
¿quién lo creería?
ácaros moho manchas de vino
mis rodillas sobre él
¿recuerdas?

los codos sobre la taza del baño y tu
lengua entre los costados de mi culo
la gente reía vuelta loca
era feriado o algo así
tu atrasado para una fiesta o algo así
el azulejo portugués o algo así
¿quién lo creería?
el fin del mundo ahí viviendo entre
animalitos minúsculos recordatorios
manchas imposibles
allí, justo ahí

ácaro, moho, manchas de vino
nunca conocí a alguien que tuviera la cabeza limpia
salgo del baño cada vez más sucia
cada vez más sucia

pienso que olvidar es fácil, entonces olvido.

ácaro, moho, manchas de vino
mis rodillas sobre él
azulejos, la taza del baño, tu lengua
ácaro, moho, nunca conocí nunca conocí
a alguien que tuviera la cabeza limpia
ácaro, moho, manchas de vino
mira, hasta puedes ser un hombre piadoso
sólo yo no soy piadosa

*

FICHA TÉCNICA
 
direção: chaos prod. musical: barulhista poema: natasha felix performance: gabriel antonio mariano estilo: pedro bala e zé mariano
A música-poema também pode ouvir o poema no Spotify.
*
Padrão
poesia, tradução

Yusef Komunyakaa, por Viviane Nogueira

yusef-komunyadaa-866

Yusef Komunyakaa é um poeta e professor estadunidense nascido em Bogalusa, Louisiana, em 1947. Durante os anos de 1969 e 1970 Komunyakaa serviu na Guerra do Vietnã como correspondente, e posteriormente como editor, do jornal militar The Southern Cross.  Após o serviço militar estudou na Universidade do Colorado, Colorado Springs. Komunyakaa obteve seu Master in Arts em Escrita pela Colorado State University (1978) e um Master in Fine Arts em Escrita Criativa pela Universidade da Califórnia (1980). Ensinou poesia no sistema escolar público de Nova Orleans e escrita criativa na Universidade de Nova Orleans, na Universidade de Indiana. Em 1997 se tornou professor de inglês na Universidade de Princeton. Yusef Komunyakaa é professor do Programa de Escrita Criativa da Universidade de Nova York.

Em seus poemas trabalha através de uma narrativa autobiográfica temas como raça, guerra e jazz. Recebeu em 1994 o Pullitzer pelo livro Neon Vernacular: New and Selected Poems (1994), e entre outros prêmios, o Ruth Lilly Poetry Prize (2001), o Shelley Memorial Award da Poetry Society of America (2004), e o Wallace Stevens Award da Academy of American Poets (2011). Entre suas obras estão os livros: Dedications & Other Darkhorses (1977); Lost in the Bonewheel Factory (1979);  I Apologize for the Eyes in My Head (1986); Dien Cai Dau (1988), Warhorses (2008); Taboo: The Wishbone Trilogy, Part 1 (2006); Pleasure Dome: New & Collected Poems, 1975-1999(2001); Talking Dirty to the Gods (2000); and Thieves of Paradise (1998). Suas coletâneas de poesia mais recentes incluem The Chameleon Couch (2011);  Testimony: A Tribute to Charlie Parker (2013) e Emperor of Water Clocks (2015).

Agradeço a Ana Rusche, Francesca Cricellli e Maíra Mendes Galvão pelas revisões e pelo incentivo.

Viviane Nogueira

*

We Never Know

He danced with tall grass
for a moment, like he was swaying
with a woman. Our gun barrels
glowed white-hot.
When I got to him,
a blue halo
of flies had already claimed him.
I pulled the crumbed photograph
from his fingers.
There’s no other way
to say this: I fell in love.
The morning cleared again,
except for a distant mortar
& somewhere choppers taking off.
I slid the wallet into his pocket
& turned him over, so he wouldn’t be
kissing the ground

Nunca sabemos

Ele dançou com o capim alto
por um momento, como se bailasse
com uma mulher. O cano de nossas armas
brilhou incandescente.
Quando o encontrei,
uma auréola azul
de moscas já lhe reivindicava.
Puxei a fotografia amarrotada
de seus dedos.
Não há outro jeito
de dizer isso: me apaixonei.
A manhã clareou novamente,
exceto por um morteiro distante
& helicópteros alçando voo em algum lugar.
Deslizei a carteira para dentro de seu bolso
& o virei para cima, para que não
beijasse mais o chão.

§

 

You And I Are Disappearing–Bjorn Hakansson

The cry I bring down from the hills
belongs to a girl still burning
inside my head. At daybreak

she burns like a piece of paper.

She burns like foxfire
in a thigh-shaped valley.
A skirt of flames
dances around her
at dusk.

We stand with our hands

hanging at our sides,
while she burns
like a sack of dry ice.

She burns like oil on water.
She burns like a cattail torch
dipped in gasoline.
She glows like the fat tip
of a banker’s cigar,

silent as quicksilver.

A tiger under a rainbow
    at nightfall.
She burns like a shot glass of vodka.
She burns like a field of poppies
at the edge of a rain forest.
She rises like dragonsmoke
    to my nostrils.
She burns like a burning bush
driven by a godawful wind.

Você e eu estamos desaparecendo

O lamento que eu trago das colinas
pertence a uma garota que ainda queima
em minha cabeça. No romper do dia

ela queima como um pedaço de papel

queima fogo-fátuo
num vale em forma de coxa
Uma saia de chamas
dança ao seu redor
no cair da noite.

Ficamos com as mãos

soltas ao lado do corpo
enquanto ela queima
como um saco de gelo seco.

Queima como óleo na água.
Queima como uma tocha de taboa
mergulhada em gasolina.
Ela brilha como a ponta grossa
do charuto de um banqueiro,

silenciosa como mercúrio.
Um tigre sob o arco-íris
no anoitecer.
Ela queima como um shot de vodka.
Queima como um campo de papoulas
na borda de uma floresta tropical.
Se ergue como fumaça de dragão
até minhas narinas.
Ela queima como sarça ardente
movida por um vento de merda

§

Believing In Iron

The hills my brothers & I created
never balanced, & it took years
To discover how the world worked.
We could look at a tree of blackbirds
& tell you how many were there,
But with the scrap dealer
Our math was always off.
Weeks of lifting & grunting
Never added up to much,
But we couldn’t stop
Believing in iron.
Abandoned trucks & cars
Were held to the ground
By thick, nostalgic fingers of vines
Strong as a dozen sharecroppers.
We’d return with our wheelbarrow
Groaning under a new load,
Yet tiger lilies lived better
In their languid, August domain.
Among paper & Coke bottles
Foundry smoke erased sunsets,
& we couldn’t believe iron
Left men bent so close to the earth

As if the ore under their breath
Weighed down the gray sky.
Sometimes I dreamt how our hills
Washed into a sea of metal,
How it all became an anchor
For a warship or bomber
Out over trees with blooms
Too red to look at.

Acreditar no Ferro

Os montes que meus irmãos & eu criamos
Nunca fecharam as contas & foram anos
para descobrir como o mundo funciona.
Podíamos olhar para uma árvore de melros-pretos
& lhe dizer quantos estavam lá,
Mas com o homem do ferro velho
Nossas contas estavam sempre erradas.
Semanas levantando & grunhindo
Nunca rendiam muito,
Mas não podíamos parar de
Acreditar no ferro.
Caminhões & carros abandonados
Depostos no chão
Por dedos grossos e nostálgicos de trepadeiras
Fortes como uma dúzia de meeiros.
Voltávamos com nosso carrinho de mão
Gemendo debaixo de uma nova carga,
Ainda que os lírios vivessem melhor
Em seu lânguido domínio de agosto.
Entre papel & garrafas de Coca-cola
A névoa das chaminés apagava poentes,
& não podíamos crer que o ferro
deixava os homens tão perto do chão
Como se o minério em seu fôlego
Rebaixasse o céu cinzento.
Às vezes sonhava com nossos montes
Desaguando um mar de metal,
Como tudo isso se fez âncora
Para um navio de guerra ou bombardeiro
Por cima de árvores em flor
Rubras demais para serem olhadas.

§

Instructions for Building Straw Huts         

First you must have
unbelievable faith in water,
in women dancing like hands playing harps
for straw to grow stalks of fire.
You must understand the year
that begins with your hands tied
behind your back,
worship of dark totems
weighed down with night birds that shift their weight
& leave holes in the sky. You must know
what’s behind the shadow of a treadmill—
its window the moon’s reflection
& silent season reaching
into red sunlight hills.
You must know the hard science
of building walls that sway with summer storms.
Locking arms to a frame of air, frame of oak
rooted to ancient ground
where the door’s constructed last,
just wide enough for two lovers
to enter on hands & knees.
You must dance
the weaverbird’s song
for mending water & light
with straw, earth, mind, bright loom of grain
untortured by bushels of thorns.

Instruções para Construir Cabanas de Palha

Há de se ter
uma fé inabalável na água,
nas mulheres que dançam como mãos tocam harpas
para que da palha cresçam hastes de fogo.
Há de se entender o ano
que começa com tuas mãos presas
às costas,
adoração de entidades sombrias
sobrecarregadas com aves noturnas que mudam de peso
& deixam buracos no céu. Há de se saber
o que está atrás da sombra de uma moenda —
sua janela o reflexo da lua
& a estação silenciosa alcançando
as colinas do sol vermelho.
Há de se saber a ciência exata
de construir paredes que balançam com as tempestades de  verão.
Encerrar os braços numa moldura de ar, de madeira
enraizada em solo antigo
onde a porta é construída por último,
com a largura exata para que dois amantes
entrem de joelhos & mãos.
Há de se dançar
o canto dos tecelões
para remendar água & luz
com palha, terra, mente, tear brilhante de grãos
sem a tormenta de alqueires de espinho.

§

Viviane Nogueira tem 24 anos, é poeta, bacharela em psicologia pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. É mediadora do clube de leitura Leia Mulheres Osasco e autora da plaquete Onde estão os holofotes da tragédia (2018, com ilustrações de Steffano Lucchini) e do livro Uma casa se amarra pelo teto (Edições Macondo, 2019).

*

 

Padrão
poesia, tradução

Hopkins, Ronsard, Yeats, por Victor Queiroz

1
Os três poemas a seguir servem de epígrafes ao meu recém-lançado livro de poemas autorais, Uranium 235. Deles, contudo, apenas o “soneto” de Ronsard foi traduzido para compor o volume: o capítulo dedicado a poemas de amor, que ele de certa forma apresenta, parece deslocado no contexto político que vivemos — de retrocesso extremo e de afirmação desse retrocesso como valor… Precisei tecer um comentário autoirônico e assim o escolhi.
Os dois demais poemas: o “soneto 50” de Hopkins, pertencente ao conjunto conhecido como “Sonetos Obscuros”, e o poema “Segunda Vinda”, de Yeats. O primeiro foi traduzido segundo o método da paixão incondicional: de cor, o repetia para mim (pois, por ter trilhado a religião cristã sinceramente por um tempo, compartilho algo da angústia que ele exprime), até que alguns dos versos começaram a surgir em português. Chocou-me, ao fim da organização do capítulo primeiro, o quanto esse soneto o explicava. Inseri-o.
Quanto ao último, ele me cativara há muito e o seu processo de tradução foi mais penoso, de brigar com o texto. A ironia com que as coisas de deus (Javé), do Cristo, são tratadas, e essa promessa, sempre-além, do fim do mundo e a vaga descrição dos seus sinais e do declínio, fez-me querer tê-lo à frente dos meus textos, os quais também trazem certo pessimismo e ironia.
Talvez seja coisa de estreante o querer trazer diante de si, a cada parte de seu livro, um grande autor ou nome a fim de lhe servir de escudo. Mas como se pode ler em cada um deles, mais que brigar contra um leitor indisposto ou um crítico grosseiro, a lida dá-se, como lemos nos textos, com um deus, que não garante 1. a paz interior, ou 2. o amor vencer, frutificar, ou 3. qualquer justiça ou paz exterior. É contra (E)le o escudo.
Victor Queiroz
*

Thou art indeed just, Lord, if I contend
With thee; but, sir, so what I plead is just.
Why do sinners’ ways prosper? and why must
Disappointment all I endeavour end?

Wert thou my enemy, O thou my friend,
How wouldst thou worse, I wonder, than thou dost
Defeat, thwart me? Oh, the sots and thralls of lust
Do in spare hours more thrive than I that spend,

Sir, life upon thy cause. See, banks and brakes
Now, leavèd how thick! lacèd they are again
With fretty chervil, look, and fresh wind shakes

Them; birds build – but not I build; no, but strain,
Time’s eunuch, and not breed one work that wakes.
Mine, O thou lord of life, send my roots rain.

– Gerard Manley Hopkins

Sois sempre o Justo, ó meu Senhor, se houver contenda
de mim conVosco. Deus, dizei-me então por que
prospera o ímpio e aonde eu ando não se vê
nada além despontar meu desapontamento?

Fosses imigo, ó Vós, o meu amigo, eu penso,
como faríeis mais frustrar-me ou mais perder-
me, se os capachos da Luxúria têm poder
de, em ócio, ir mais além de mim, eu, quem empenha,

Deus, vida em Vossa Obra? O arbusto, o bosque, jaz-
em verde viço, vede-os! c’roas de matizes
revêm-lhes, e eis o vento ameno move-os, traz

frescor; a ave se aninha, ainda eu não me aninhe:
castrou-me o Tempo, e não emprenho obra eficaz.
Ó Vós, Vida da vida, regai-me as raízes.

§

Au milieu de la guerre, en un siecle sans foy,
Entre mille procez, est-ce pas grand folie
D’escrire de l’Amour ? De manotes on lie
Des fols, qui ne sont pas si furieux que moy.

Grison et maladif r’entrer dessous la loy
D’Amour, ô quelle erreur ! Dieux, mercy je vous crie.
Tu ne m’es plus Amour, tu m’es une Furie,
Qui me rends fol, enfant, et sans yeux comme toy :

Voir perdre mon pays, proye des adversaires,
Voir en noz estendars les fleurs de liz contraires,
Voir une Thebaïde, et faire l’amoureux.

Je m’en vais au Palais : adieu vieilles Sorcieres.
Muses, je prens mon sac, je seray plus heureux
En gaignant mes procez, qu’en suivant voz rivieres.

– Pierre de Ronsard

Num século sem fé, em meio a guerras,
réu de processos mil, será loucura
escrever sobre o Amor? Por menos curam
de outros loucos algemar, menos feras.

Velho e doente adentrar o Amor, não erra
quem o faça? Deus, esta lei, conjuro-a.
Não mais Amor, tu és-me a vera Fúria:
faz-me fulo e infante e cego como ela.

Ver perder-se o país, entre adversários
e estandartes flor-de-lis contrários;
frente à Tebaida, bancar o amoroso.

Vou-me ao Palácio: adeus, magia antiga.
Ó Musa, eu faço as malas, mais gozoso
é vencer meus processos, que o segui-la.
§

The Second Coming

Turning and turning in the widening gyre
The falcon cannot hear the falconer;
Things fall apart; the centre cannot hold;
Mere anarchy is loosed upon the world,
The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere
The ceremony of innocence is drowned;
The best lack all conviction, while the worst
Are full of passionate intensity.

Surely some revelation is at hand;
Surely the Second Coming is at hand.
The Second Coming! Hardly are those words out
When a vast image out of Spiritus Mundi
Troubles my sight: somewhere in sands of the desert
A shape with lion body and the head of a man,
A gaze blank and pitiless as the sun,
Is moving its slow thighs, while all about it
Reel shadows of the indignant desert birds.
The darkness drops again; but now I know
That twenty centuries of stony sleep

Were vexed to nightmare by a rocking cradle,
And what rough beast, its hour come round at last,
Slouches towards Bethlehem to be born?

– William Butler Yeats

The Second Coming

Gira-girando, e a gira a agigantar-se,
o falcão não pode ouvir o falcoeiro;
coisas desintegram-se; o centro cede;
mera anarquia é liberta contra o mundo,
a maré-sangue é liberta, e, em toda parte,
a cerimônia da inocência afoga-se;
os melhores, inconvictos, enquanto
os piores — intensos, passionais.

Decerto a Revelação bate à porta;
decerto a Segunda Vinda bate à porta.
Segunda Vinda! As palavras mal saem,
vem-me a imagem vasta do Spiritus Mundi
perturbar-me as vistas: no vago areal,
um vulto — corpo-leão/tez humana,
olhos-vácuo, impiedosos como o sol —
move as coxas lentas, e, em torno, sombras-
satélite, aves do deserto indignadas.
De novo, trevas; porém agora eu sei
que vinte séc’los de sono de pedra em
berço de balanço infligem pesadelos.
E qual besta rude, arribada a hora enfim,
rasteja até Belém para nascer?

§

Victor Queiroz (Campinas/ SP, 1991), formado em Composição pela UNESP, onde travou contato com a teoria e prática da tradução-arte, por meio do professor e amigo Omar Khouri. Desde então, dedica-se, enquanto poeta, sobretudo à prática da tradução, contribuindo com a Ponto Virgulina. Entre os seus principais interesses poéticos, encontram-se os Modernismos, dentro e fora do Brasil, e as poesias francesas clássica e pré-Simbolista; e ainda o Concretismo em toda a sua extensão: da poesia visual aos tratados teórico-críticos e (belíssimas) traduções desenvolvidas pelos Noigandres. Lançou este ano Uranium 235, pela editora Urutau e já apareceu aqui na escamandro com 1 poema.


*

 

Padrão
poesia, tradução

Patti Smith, por Nina Rizzi

U6USTSG6KII6TPUWNLNYDAQ6SA

Patti Smith nasceu em Chicago em 1946. É poeta, cantora, fotógrafa, escritora, compositora e musicista, conhecida como “poeta do punk” e “madrinha do punk”. Seu álbum de estreia, Horses (1975), que mistura rock, punk e poesia recitada, é considerado por muitos como o melhor álbum de estréia já lançado por um artista; ele começa com uma cover da música Gloria de Van Morrison e as palavras de abertura recitadas por Smith são umas das mais famosas na história do rock: “Jesus died for somebody’s sins… but not mine” (Jesus morreu pelos pecados de alguém…mas não pelos meus). Com composições feministas e influências poéticas variadas, sobretudo Arthur Rimbaud e William Blake, é uma artista vigorosíssima.

Autora dos volumes de poesia: Babel, Early Work, compilação inúmeros volumes de poemas publicados no início da década de 1970, The Coral Sea, uma extensa elegia a Robert Mapplethorpe e Patti Smith Complete, uma coletânea de suas composições musicais. No Brasil, estão publicados “Só garotos” (2010), “Linha M” (2016), “Devoção” (2019), e “O ano do Macaco” (2019), todos pela Companhia das Letras.

Como a maioria dos artistas do punk, Patti Smith se engajou em diversas lutas políticas, por exemplo: foi contra a invasão chinesa no Tibete, contra a Guerra no Iraque e a favor do impeachment do presidente George W. Bush. E esta semana, publicou em sua conta no instagram uma poema apoiando a mobilização que acontece no Chile e que deseja acabar com injustiças e desigualdades.

Quem conhece a cantora, já vai sentindo a sonoridade peculiar e balançando os pés, as mãos, chamando umas distorções, uma percussão mental – algo próximo, talvez, de People Have the Power escrita por Patti e seu então companheiro Fred “Sonic” Smith e lançada em 1988 como single principal do álbum Dream of Life, cuja fotografia é de Robert Mapplethorpe, assim como a de Horses.

A cantora e poeta estará no Chile para um concerto dia 18 de novembro, após sua passagem pelo Brasil, quem sabe não apresenta uma versão musical para a poema. Caso não, do it yourself! Deixamos três versões escritas pra inspirar: português e espanhol vertidas por mim e em inglês conforme escrito por Patti Smith e publicado em sua rede social 😉

nina rizzi

*

O REINO MAPUCHE 

Este é
o reino da coragem
o reino da convicção
o reino da unidade
Um milhão de pessoas
em Santiago, Chile.
Exigindo igualdade
Exigindo do governo
responsabilidade.
Exigindo um Chile
tão unido quanto eles,
tomando as ruas.
Este é o reino
de cidadãos ativistas,
que estão sendo vistos
e ouvidos pelo mundo.
Mostrando-nos como
O povo tem o poder.

EL REINO MAPUCHE

Este es
el reino del coraje
el reino de la convicción
el reino de la unidad
Un millón de personas
en Santiago, Chile.
Exigiendo igualdad
Exigiendo al gobierno
responsabilidad.
Exigiendo un Chile
tan unido como ellos,
tomándose las calles.
Este es el reino
de los ciudadanos activistas,
que están siendo vistos
y oídos por el mundo.
Mostrándonos como
el pueblo tiene el poder.

This is
the realm of courage
the realm of conviction
the realm of unity.
One million people
in Santiago, Chile.
Calling for Equality.
Calling for government
accountability.
Calling for a Chile
as unfied as they,
taking the streets.
This is the realm
of Citzen Activists,
who are being seen
and heard globally.
Showing us all how
people have the power.

***

Padrão
poesia, tradução

Muriel Rukeyser, por Vitória Régia

muriel

Muriel Rukeyser (1913-1980) foi uma poeta, ensaísta e ativista feminista norte-americana de origem judaica. Frequentou o Fieldston Schools e matriculou-se na Universidade Vassar (Poughkeepsie, NY). De 1930 a 1932, cursou a Universidade de Columbia em Nova York. Estreou na literatura com o livro Theory of Flight (1935), vencedor do Yale Younger Poets Series, o mais antigo prêmio literário anual dos Estados Unidos. Na época de sua estreia notável, W. R. Benet comentou na revista norte-americana Saturday Review of Literature: “quando você segura este livro em sua mão, você segura algo vivo.”

Rukeyser lutou fortemente pelos direitos humanos e construiu uma extensa e potente produção literária. Sua poesia é densa, impactante e convida à reflexão. Movida pela paixão que nutria pela condição humana e pelo mundo, esse “lar desconstruído” que herdamos, foi capaz de “carregar nações inteiras para a frente através da urgência de sua mensagem”. Apesar de ser marcadamente política, a autora explorou em sua poesia inúmeros temas como a condição da mulher, sexualidade, criatividade e morte.

Publicou os títulos A Turning Wind (1939), Beast in View (1944), The Green Wave (1948), Elegies (1949), Body of Waking (1958), The Speed of Darkness (1968), Breaking Open (1973), The Gates (1976) entre outros. Adrienne Rich chegou a comentar: “ela nos alerta, leitores, escritores e participantes da vida de nosso tempo, para ampliar nosso senso de que a poesia é para o mundo, bem como o lugar dos sentimentos e da memória na política”.

Das traduções já realizadas da autora para o português, menciono as de André Caramuru Aubert, no Jornal Rascunho, e as de Ricardo Domeneck, na revista eletrônica Modo de usar & co. Para esta publicação, selecionei os seguintes poemas: Paisagem que respira (Theory of Flight, 1935), O nascimento (Body of Waking, 1958) e Alas (Breaking Open, 1973). Traduzindo para o português, optei por mudanças estruturais que garantam uma leitura mais fluida e coerente, evitando interferir na concisão e quebra dos versos originais.

*

Paisagem que respira

Deitada sob o sol
e deitada aqui tão quieta
um ovo poderia ser chocado lentamente nesta mão
As pessoas passam
abruptamente acenam: elas sorriem
arrastam–se no ar, silêncio segue seus rostos.
Eu sei, deitada
como as colinas estão fixas
e a lua do dia corre no topo delas
Nada cruzou o campo
o dia todo, mas um pássaro
contorna a grama alta em um rápido trânsito
Suas ideias severas
um longo trabalho para cada
e até mesmo blindados dificilmente nos tocamos
O vento inclina,
o ar devidamente imposto
Sobre esses rostos e pensamentos em uma dança solene
O silêncio abraça o ar
Nada é dito, mas o som
de certos rios continuam subterrâneos.

Breathing Landscape

Lying in the sun
and lying here so still
an egg might slowly hatch in this still hand.
The people pass
abruptly they nod : they smile
trailed in the air, silence follows their faces.
I know, lying
how the hills are fixed
and the day-moon runs at the head of the fixed hills.
Nothing crossed the field
all day but a bird
skirting the tall grass in briefest transit.
Their stern ideas
are a long work to each
and even armored we hardly touch each other.
The wind leans,
the air placed formally
about these faces and thoughts in formal dance.
Silence hangs in the air.
Nothing speaks but the sound
of certain rivers continuing underground.

§

O nascimento

Recentemente escapei de três tipos de morte
Não por evasão, mas por sobreviver
Eu celebro o que pode ser o verdadeiro começo

Mas comecei sem mais recurso
Estúpida e parada
Como um recém nascido cresce? Eu sou um deles
O frescor tem tomado nossos corações
A dor nos tira de uma nova fonte, crianças de uma nova vida
Esperando pela infância como esperamos pela forma

Então venho para o mundo de todos os vivos
O mutilado meio triunfante de meu caminho
Onde há doação, não é necessário perdão
Vi agora o presente que está aqui para dizer:
Nada do que escrevi é o que devo ver escrito
Nada do que eu fiz é o que agora preciso fazer—
O sorriso da escuridão na minha canção e no meu filho.

Recentemente emergiram casas desoladas
Que já viram espíritos fechados, cercados pelo sol
E ter, entre incontáveis rostos comuns
assistido todas as coisas mudarem, um lar desconstruído herdar

Objetos do desejo, aquela pedra e madeira e ar
Iluminado por um nascimento, eu defendo começos obscuros
Desperdício que nunca é desperdício, doação mais humana
Declarado e evidente como o corpo mortal da graça
Começos da verdade na vida, os espaços do deserto
Onde a verdade alimenta e o coração ramificado,
até o meu, glorificando o passado em suas peças
Minha carne lacerada que me trouxe para este lugar.

A Birth

Lately having escaped three-kinded death
Not by evasion but by coming through
I celebrate what may be true beginning.

But new begun am most without resource
Stupid and stopped.
How do the newborn grow? I am of them.
Freshness has taken our hearts;
Pain strips us to the source, infants of further life
Waiting for childhood as we wait for form.

So came I into the world of all the living
The maimed triumphant middle of my way
Where there is giving needing no forgiving.
Saw now the present that is here to say:
Nothing I wrote is what I must see written,
Nothing I did is what I now need done.—
The smile of darkness on my song and my son.

Lately emerged I have seen unfounded houses,
Have seen spirits not opened, surrounded as by sun,
And have, among limitless consensual faces
Watched all things change, an unbuilt house inherit
Materials of desire, that stone and wood and air.
Lit by a birth, I defend dark beginnings,
Waste that is never waste, most-human giving,
Declared and clear as the mortal body of grace.

Beginnings of truth-in-life, the rooms of wilderness
Where truth feeds and the ramifying heart,
Even mine, praising even the past in its pieces,
My tearflesh beckoner who brought me to this place.

§

Alas
St. George’s Hospital, Hyde Park Corner

Deitada neste momento, ela escala neves brancas;
Ao pé da cama o quadro relata.
Aqui um homem queima em febre, ele está aqui, ele está lá,
Cinco mil anos atrás no país da gruta
Nesta cama, eu vago em Macau
Eu corro toda noite pelos becos escuros. O tempo corre
No limite e tudo existe em todos. Nós abraçamos
Toda a história humana, toda geografia,
Eu não consigo lembrar da palavra que eu preciso
Nossas explorações, tudo no precipício
A mesa de cabeceira, uma paisagem de zebras
Constelações condutoras. Toda essa música,
Eu ouvi antes de nascer. Eu venho
Neste caminho, para o lugar
Nos iluminamos,
Este momento me dando necessidade
Dando a nós mesmos e arriscamos tudo
Caminhando em nossa vida.

The Wards
St. George’s Hospital, Hyde Park Corner

Lying in the moment, she climbs white snows;
At the foot of the bed the chart relates.
Here a man burns in fever; he is here, he is there,
Five thousand years ago in the cave country.
In this bed, I go wandering in Macao,
I run all night the black alleys. Time runs
Over the edge and all exists in all. We hold
All human history, all geography
I cannot remember the word for what I need.
Our explorations, all at the precipice,
The night-table, a landscape of zebras,
Transistor constellations. All this music,
I heard it forming before I was born. I come
In this way, to the place.
Our selves lit clear,
This moment giving me necessity
Gives us ourselves and we risk everything
Walking into our life.

§

Vitória Régia nasceu em Fortaleza, em 1991. É graduada em Letras e mestra em Linguística pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Publicou os livros de poesia Partida de não dizeres (Editora Substânsia, 2015) e Náutico (Editora Patuá, 2018). Atualmente edita a revista de Literatura e Artes Para Mamíferos e escreve regularmente para a coluna Leituras da Bel do Jornal O Povo.

***

Padrão
poesia, tradução

Adrienne Rich, por Sarah Valle

adrienne-rich

Adrienne Rich (1929 – 2012) foi uma poeta norte-americana, pensadora e ativista, ícone feminista, também reconhecida pela ampla militância em prol de direitos humanos. Vinte e um poemas de amor (1976) integram o livro O sonho de uma língua comum, conjugando a história do silenciamento coletivo e o diálogo amoroso. Além de poemas a uma amante, são atos mentais de consciência e vontade, assumindo responsabilidade frente às forças que minam o relacionamento narrado. A sequência já foi chamada de a “primeira abertamente lésbica” escrita por uma autora norte-americana de renome e um “marco histórico” no Women’s Liberation Movement.

Sobre a tradução

Apesar de diretos, dialógicos e cortantes, os poemas de Adrienne muitas vezes se fazem nas bordas do verso regular. Vinte e um poemas de amor flertam com as sequências de sonetos de amor, de forma a inserir um tema renegado numa forma canônica repaginada. A partir da percepção de que nesses “quase sonetos” há um metro fantasma, o pentâmetro iâmbico, recrio na tradução um flerte com os versos tradicionais decassílabos, hendecassílabos e dodecassílabos, contudo diluídos. Especialmente no início, os poemas tendem à lembrança da métrica, acabando por vezes em finais antiestéticos. Incluo nesta amostra o “poema flutuante, não numerado”, que resiste a ser enquadrado na sequência e surpreende quem espera de Adrienne poemas mentais. Este é meu primeiro exercício de tradução e durou os anos do mestrado. A tarefa de alcançar um tom médio entre a tradição e o caráter direto engessou um pouco os poemas. Ainda assim, suponho que incorporam a tensão entre ato estético e ato político e colocam contra a parede a tradição literária de língua inglesa, bem como a tradição literária de minha própria língua.

Sarah Valle

*

VI
Suas mãos pequenas, tão iguais às minhas—
só o polegar é mais largo, longo—nessas mãos
eu entregaria o mundo, ou em muitas mãos como essas,
manuseando ferramentas, volantes
ou tocando um rosto. . . Tais mãos poderiam recolocar
a criança não nascida no canal do parto
ou pilotar o exploratório navio de resgate
por entre icebergs, ou reunir
os cacos feito agulhas de uma grande cratera grega
sustentando à sua volta
silhuetas de mulheres em êxtase dando grandes passos
rumo à gruta da sibila ou à caverna de Elêusis—
tais mãos poderiam comportar uma violência inevitável
com tal restrição, com um tal senso
dos alcances e limites da violência
que toda violência seria, dali em diante, obsoleta.

VI
Your small hands, precisely equal to my own—
only the thumb is larger, longer—in these hands
I could trust the world, or in many hands like these,
handling power-tools or steering-wheel
or touching a human face. . . Such hands could turn
the unborn child rightways in the birth canal
or pilot the exploratory rescue-ship
through icebergs, or piece together
the fine, needle-like sherds of a great krater-cup
bearing on its sides
figures of ecstatic women striding
to the sibyl’s den or the Eleusinian cave—
such hands might carry out an unavoidable violence
with such restraint, with such a grasp
of the range and limits of violence
that violence ever after would be obsolete.

§

VIII
Vejo-me há muitos anos em Sunião
sofrendo com um pé infeccionado, Filoctetes
em forma de mulher, mancando pelo longo caminho,
deitada num cabo sobre o mar escuro,
olhando embaixo as rochas rubras onde uma linha muda
e branca me contou que uma onda as golpeara,
supondo a tração da água àquela altura,
sabendo que suicídio deliberado não era meu métier,
no entanto todo tempo aleitando, aferindo a ferida.
Bem, isso está acabado. A mulher que acarinhava
seu sofrimento está morta. Sou sua descendente.
Amo a malha de cicatrizes que ela me concedeu,
mas quero seguir daqui com você
resistindo à tentação de fazer da dor uma carreira.

VIII
I can see myself years back at Sunion
hurting with an infected foot, Philoctetes
in woman’s form, limping the long path,
lying on a headland over the dark sea,
looking down the red rocks to where a soundless curl
of white told me a wave had struck,
imagining the pull of that water from that height,
knowing deliberate suicide wasn’t my métier,
yet all the time nursing, measuring that wound.
Well, that’s finished. The woman who cherished
her suffering is dead. I am her descendant.
I love the scar-tissue she handed on to me,
but I want to go on from here with you
fighting the temptation to make a career of pain.

§

IX
Seu silêncio de hoje é um poço onde vivem submersas
coisas que eu quero ver alçadas, pingando ao sol.
Não é meu próprio rosto que vejo ali, mas outros rostos,
até mesmo o seu rosto em outra idade.
O que quer que esteja perdido ali é necessário a ambas—
um relógio de ouro velho, um gráfico de febre borrado,
uma chave. . . Mesmo os seixos e o lodo do fundo
merecem seu lampejo de percepção. Temo esse silêncio,
essa vida inarticulada. Espero
um vento suave que abra esse lençol d’água
finalmente, e me mostre o que fazer
por você, que tantas vezes tornou o inomeável
nomeável para outros, até para mim.

IX
Your silence today is a pond where drowned things live
I want to see raised dripping and brought into the sun.
It’s not my own face I see there, but other faces,
even your face at another age.
Whatever’s lost there is needed by both of us—
a watch of old gold, a water-blurred fever chart,
a key. . . Even the silt and pebbles of the bottom
deserve their glint of recognition. I fear this silence,
this inarticulate life. I’m waiting
for a wind that will gently open this sheeted water
for once, and show me what I can do
for you, who have often made the unnameable
nameable for others, even for me.

§

(O POEMA FLUTUANTE, NÃO NUMERADO)

Aconteça conosco o que for, seu corpo
vai assombrar o meu—delicado, terno
quando faz amor, como a rama espiralada
do broto de samambaia em bosques
recém-banhados pelo sol. Suas coxas viajadas, generosas
entre as quais meu rosto inteiro goza e goza—
a inocência e a sabedoria do lugar que a minha língua achou ali—
a dança viva, insaciável, dos seus mamilos na minha boca—
seu toque em mim, firme, protetor, que me
busca, sua língua forte e seus dedos esguios
atingindo onde esperei tantos anos por você
na minha caverna rosa-molhada—aconteça o que for: é isso.

(THE FLOATING POEM, UNNUMBERED)

Whatever happens with us, your body
will haunt mine—tender, delicate
your lovemaking, like the half-curled frond
of the fiddlehead fern in forests
just washed by sun. Your traveled, generous thighs
between which my whole face has come and come—
the innocence and wisdom of the place my tongue has found there—
the live, insatiate dance of your nipples in my mouth—
your touch on me, firm, protective, searching
me out, your strong tongue and slender fingers
reaching where I had been waiting years for you
in my rose-wet cave—whatever happens, this is.

§
XIV
Sua visão do piloto confirmou
minha visão de você: você disse, Ele atira
o barco contra as ondas, de propósito
enquanto nos encolhemos no alçapão aberto
vomitando em sacos plásticos
durante três horas entre St. Pierre e Miquelon.
Nunca me senti tão próxima a você.
Na cabine apertada onde os casais em lua-de-mel
se amontoavam nos colos e braços uns dos outros
coloquei minha mão sobre sua coxa
para nos confortar, e sua mão veio sobre a minha,
ficamos assim, sofrendo juntas
em nossos corpos, como se todo o sofrimento
fosse físico, nos tocando na presença
de estranhos que nada sabiam nem se importavam
vomitando suas dores privadas
como se todo sofrimento fosse físico.

XIV
It was your vision of the pilot
confirmed my vision of you: you said, He keeps
on steering headlong into the waves, on purpose
while we crouched in the open hatchway
vomiting into plastic bags
for three hours between St. Pierre and Miquelon.
I never felt closer to you.
In the close cabin where the honeymoon couples
huddled in each other’s laps and arms
I put my hand on your thigh
to comfort both of us, your hand came over mine,
we stayed that way, suffering together
in our bodies, as if all suffering
were physical, we touched so in the presence
of strangers who knew nothing and cared less
vomiting their private pain
as if all suffering were physical.

§

Sarah Valle é mestre em Estudos da Tradução pela Universidade de São Paulo. É autora da novela Arquitetura do Sim – fragmentos de um diário da Ásia (2018, Editora Cozinha Experimental).

Padrão