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Roger Robinson, por André Capilé & Prisca Agustoni

Roger Robinson author photo by Naomi Woddis

Roger Robinson [Londres/Trinidad] é um poeta, músico e performer que vive entre a Inglaterra, onde nasceu, e Trinidad, onde passou boa parte da vida levado por seus pais. Conforme diz, para o sítio meet the poet: “Quando eu tinha quatro anos meus pais me levaram para morar em Trinidad. Trinidad é uma ilha minúscula onde todo mundo fala o tempo todo. Principalmente sobre outras pessoas, comida e música; no fim das contas, o que importava era sempre haver histórias. Às vezes, eram mágicas e, por outras, somente inventadas, mas eram sempre histórias divertidas”.

Seu livro mais recente, ainda sem tradução no Brasil, chama-se A Portable Paradise (Peepal Tree Press) e foi vencedor do prêmio T. S. Eliot 2019, anunciado em Londres em janeiro de 2020. Ele é o segundo escritor da herança caribenha a ganhar o prêmio, depois de Derek Walcott, que ganhou o prêmio de 2010.

Toda uma nova constituição de poetas do Caribe, ou influenciados diretamente por tal produção poética, começam a aparecer com maior força, dados os avanços dos estudos diaspóricos e traduções de variados autores, como Cesáire, Glissant, o próprio Walcott, entre outros. Embora insuficiente ainda, não somente em terras brasileiras, vê-se um turno de forças mais evidenciado nos estudos antilhanos de Fred Moten, na NYU, bem como em campos mais atentos à poesia caribenha na Europa.

Robinson lida com uma variedade de temas ligados à família e ancestralidade, bem como as relações perigosas no ofício da arte, embora tenha sido bastante comentado por uma série de poemas que tratam sobre o trágico incêndio da Torre Grenfell em Londres. Os três poemas coligidos aqui, justamente, nos entregam uma pequena amostra das temáticas acima arroladas. São eles “Dolls”, que trata do incêndio mencionado, mostrando forte carga no uso de uma linguagem mista, em que certo coloquialismo ganha bom enredo; “Stubb’s Whistlejacket”, em que o poema narra, de forma tesa e precisão emocional, a constituição do quadro homônimo de Stubbs; e, finalmente, “A Portlable Paradise”, poema que dá título a seu último livro, em que a presença de uma voz ancestral dá a tônica.

Tendo a minha curiosidade atiçada por Prisca Agustoni, demos curso ao início de uma conversa tradutória, entre a complexificação da materialidade dos pronomes, até o uso técnico das dimensões sonoro-métricas no ofício tradutório. Dividimos a tradução, eu & ela, desse “residente britânico com sensibilidade Trini”, pro início de um papo que se promete a mais. Eu, de aqui, agradeço a Guilherme Gontijo Flores, outro com quem estão sedimentadas conversas intermináveis sobre poemas, poesia e tradução, que apontou valiosas dicas de estilo, em passo e outro, bem como a Paulo Henriques Britto, com quem trato, vai já década e tal, de pequenos ajustes da língua e da tecnologia do poema.

* * *

Dolls

If I could, like the gods of fate, somehow rearrange the events, I
would start with Muhammed’s fridge that exploded and started the
fire. I would give Muhammed some clue that all was not right with
it – perhaps his hummus goes off prematurely or the water collects
under the vegetable crisper. Something to make Muhammed replace
the fridge. Then I would give those who died on the top floors a
reason not to be home. I would have had the fire on the day of Carnival
and encouraged those on the top floors be a part of the festivities. I’d
let the husbands who left their wives and families home to earn some
money on night shifts or driving cabs find a little extra money in their
accounts, so that night they’d have taken their children out for
shawarma and orange juice down Marble Arch, while they smoked
shisha and talked about how good their lives felt. All the children who
died would have visited their grandparents that day, here or abroad. I’d
make the cladding that burned like dry straw be fireproofed to
international standards; let life and love continue in Grenfell.

Bonecos

Se eu pudesse, feito os deuses das sinas, de algum modo remontar os eventos, eu
começaria com a geladeira de Muhammed que explodiu e começou o
incêndio. Eu daria a Muhammed a pista de que nem tudo estava bem com
ela – talvez o homus estragando mais cedo ou a água acumulada
sob as verduras na gaveta. Um lance que fizesse Muhammed trocar
a geladeira. Então eu daria àqueles que morreram no andar de cima uma
razão pra não estarem em casa. Eu faria com que o incêndio ocorresse no Carnaval
e atiçaria aqueles do andar de cima a tomarem parte nas festas. Eu faria com que
os maridos que largaram mulher & filhos em casa pra ganhar
um troco nos serões ou como taxistas, a fim de um trocado a mais em suas
contas, naquela noite eles tivessem levado seus filhos pra lanchar
shawarma e suco de laranja sob o Marble Arch, enquanto eles fumavam
xixa e falavam sobre como estar de boa com a vida. Todas as crianças que
morreram visitariam seus avós naquele dia, aqui ou no estrangeiro. Eu faria
o revestimento que queimava feito palha seca ser à prova de fogo dentro dos
padrões internacionais; que a vida e o amor perdurassem em Grenfell.

§

Stubb’s Whistlejacket

Looking at Stubb’s horse in the dark
it becomes clear he was no glamoriser of muscle,
no fetishist of fur and skin.
Convinced that the body was host
to the horse’s spirit, he began making martyrs
of horses, subjecting them to jugular death,
beads of sweat rolling down
their barrelled torsos,
their eyelashes fluttering with a flourish,
as he pumped them with warm tallow
till their pulsing veins and arteries
slowly came to a halt.
Suspending them in a standing or trotting pose
by a series of hooks and tackles,
amid buckets of clotting blood,
first stripping off the skin,
he worked his way through, muscle
by muscle, bone by bone, dissecting
and defining limbs.
Turning the pages in this book of horse,
even in the dark of the museum
I can feel this horse breathing.

“Whistlejacket” de Stubbs

Vendo o cavalo de Stubbs no escuro
fica claro que não era de glamorizar os músculos,
nem fetichista de peles e pelos.
Convicto de que o corpo era o anfitrião
para o espírito do cavalo, ele começou a fazer cavalos
mártires, sujeitando-os à morte jugular,
escorrendo rosários de suor
por seus torsos embarrilados,
por seus cílios tremulando em floreios,
quando ele os bombeava com sebo morno
até que suas veias e artérias pulsantes
lentamente viessem a colapso.
Içando-os numa pose de trote ou repouso
por uma série de ganchos e apetrechos,
entre baldes de sangue coagulado,
primeiro arrancando a pele,
ele abria caminho, músculo
por músculo, osso por osso, dissecando
e definindo membros.
Virando as folhas deste livro de cavalos,
mesmo no escuro do museu
eu consigo sentir esse cavalo respirando.

§

A Portable Paradise

And if I speak of Paradise,
then I’m speaking of my grandmother
who told me to carry it always
on my person, concealed, so
no one else would know but me.
That way they can’t steal it, she’d say.
And if life puts you under pressure,
trace its ridges in your pocket,
smell its piney scent on your handkerchief,
hum its anthem under your breath.
And if your stresses are sustained and daily,
get yourself to an empty room – be it hotel,
hostel or hovel – find a lamp
and empty your paradise onto a desk:
your white sands, green hills and fresh fish.
Shine the lamp on it like the fresh hope
of morning, and keep staring at it till you sleep.

Um Paraíso Portátil

E se eu falar do Paraíso,
estou falando da minha avó
que me disse pra sempre carregá-lo
oculto comigo, pra que
ninguém soubesse além de mim.
Aí eles não podem te roubar, ela dizia.
E se a vida te bota na pressão,
traça seus cumes na algibeira,
cheire o pinho do perfume dela em teu lenço,
cantarola este hino no teu sopro.
E se tuas tensões são diárias, constantes,
segue pra um quarto vago – de pensão,
pousada ou casebre – pegue uma lâmpada
e despeje teu paraíso na mesa:
tuas areias claras, costas verdes, peixe fresco.
luze a lâmpada nele como a esperança fresca
da manhã, e olhe vidrado até você dormir.

Padrão
poesia, tradução

Joanne Kyger, por Mariana Basílio

joane

Joanne Kyger (1934 – 2017) foi uma das mais proeminentes poetas estadunidenses do século XX. Autora de mais de 30 livros de poesia e prosa, Kyger foi associada com os poetas do Renascimento de San Francisco, assim como a Geração Beat, Black Mountain e a Escola de Nova York. Sua poiesis está inserida tanto no modernismo norte-americano quanto nos clássicos orientais. Foi casada com Gary Snyder (1930) e grande amiga de Allen Ginsberg (1926 – 1997).

Ao lado de poetas como Diane di Prima (1934) e Anne Waldman (1945), a poeta deixou sua marca como autora, como mulher em destaque em um contexto de dominação masculina das letras americanas após a Segunda Guerra Mundial, personificada por autores como William S. Burroughs (1914 – 1997), Neal Cassady (1926 – 1968), Jack Kerouac (1922 – 1969), além dos próprios Ginsberg e Snyder.

Kyger faleceu de câncer aos 82 anos, no dia 22 de março de 2017, em sua casa em Bolinas – Califórnia na companhia de seu marido, Donald Guravich. Ela trabalhava em um novo livro, There You Are: Interviews, Journals, and Ephemera. O livro foi publicado postumamente pela Wave Books, em setembro do mesmo ano.

Sua obra também inclui livros como: The Tapestry and the Web (1965), All This Every Day (1975), Going On: Selected Poems, 1958–1980 (1983), Just Space: Poems 1979–1989 (1991), Again: Poems 1989–2000 (2001), As Ever: Selected Poems (2002), God Never Dies (2004), On Time: Poems 2005–2014 (2015), There You Are: Interviews, Journals, and Ephemera (2017).

Em relação à tradução, me organizei na poesia de Kyger procurando um equilíbrio entre seus versos livres, tanto na métrica quanto no ritmo, focando sobretudo no sentido, na fluidez, na contemporaneidade de seus versos na língua portuguesa, acompanhando a essência de Joanne: uma poesia de detalhes e inesperadas sensações – repleta de reflexões sociais e religiosas– em pensamentos que procuram saltar os escombros de uma sociedade que ainda se dizima constantemente.

 Mariana Basílio

*

Já faz muito tempo

NOTAS DA REVOLUÇÃO

Durante a batida desta história você pode encontrar outras batidas. Quero dizer
uma batida, quero dizer Cantus, quero dizer Firme-nos, quero dizer papel, quero dizer no Reino que está vindo, que está aqui em descoberta.

Também é Om Shri Maitreya, você não atravessa minhas vibrações,
mas com elas, perdendo o pronome. É Tu, é Ti, sou eu, sou mim.

Máquinas são metal, elas nos servem, nós cuidamos delas. Isso é para mim, e isso é para você. Você diz você para mim, e eu digo você para você. Algumas máquinas são muito delicadas, elas são precisas, elas não são grandes carimbadoras de metal, Ela fez poesia suficiente para manter sua companhia.

Minhas Vibrações. Você interceptou minhas vibrações. As longas sombras,
as longas sombras, as longas sombras. Meu pequeno e doce tom,
meu pequeno e doce tom é meu braço.

Naquilo Apenas: A canção que a menina cantou a canção que a menina cantou

It’s been a long time

NOTES FROM THE REVOLUTION

During the beat of this story you may find other beats. I mean a beat, I mean Cantus, I mean Firm us, I mean paper, I mean in the Kingdom which is coming, which is here in discovery.

It is also Om Shri Maitreya, you don’t go across my vibes, but with them, losing the pronoun. It is Thy, it is Thee, it is I, it is me.

Machines are metal, they serve us, we take care of them. This is to me, and this is to you. You say you to me, and I say you to you. Some machines are very delicate, they are precise, they are not big metal stampers, She made enough poetry to keep her company.

My Vibes. You intercepted my vibes. The long shadows, the long shadows, the long shadows. My sweet little tone, my sweet little tone is my arm.

On what Only: The song that girl sang the song that girl sang

§

“Quando eu me concentrava nas preocupações, todo mundo”

Quando eu me concentrava nas preocupações, todo mundo
estava à minha frente, eu era a base
do pilar do totem,
um animal amplamente agachado.

Que tal uma massagem rápida agora, ele me disse.
Eu não acho que seja legal, respondi.
Oh, disse ele, depois de uma pausa, eu deveria ter esperado
você me pedir.

As ondas chegaram cada vez mais perto.

Quando caio na lacuna da suspeita, já não estou mais aqui.

Neste mundo que foi fechado por casas
e redes, eu saio voando de
debaixo da barriga. A zonza coroa da vida,
de luzes giratórias, circula essa cabeça. Pura
com o assombro, quente
com o assombro. As ruas se tornaram douradas. Todos
os tamanhos aumentam, as cores brilham, estamos no mito.

Nós estamos em fácil compreensão.
Mal falando, os pensamentos passam por nós.
É a memória. Enquanto busco encontrar
a doce deriva deste dia. A névoa para o mar, o vento.

“When I used to focus on the worries, everybody”

When I used to focus on the worries, everybody
                      was ahead of me, I was the bottom
                of the totem pole,
              a largely spread squat animal.

How about a quick massage now, he said to me.
I don’t think it’s cool, I replied.
Oh, said he, after a pause, I should have waited
                     for you to ask me.

The waves came in closer and closer.

When I fall into the gap of suspicion I am no longer here.

In this world that has got closed over by houses
                       and networks, I fly out
from under the belly.     Life’s dizzy crown
of whirling lights, circles this head.    Pure
with wonder, hot
with wonder.    The streets become golden.     All
size increases, the colors glow, we are in myth.

We are in easy understanding.
Scarcely talking, thoughts pass between us.
                                    It is memory.    As I search to find
this day’s sweet drifting.    The fog out to sea, the wind.

§

Setembro

 A grama é marrom clara
e o oceano adentra
longas linhas cintilantes
sob a frota da noite anterior
que dorme agora de manhã cedo

Aqui e lá pastam os cavalos
no terreno de alguém

Estranhamente, não foi minha vontade

que me fez falar na igreja para ser liberada
mas a memória de como costumava ser
em um jogo descontraído e exótico

quando os personagens eram promessas
e depois reconhecimentos. O mundo da transformação
é real e irreal, mas confiante.

Chega dessas lições? Quero dizer
frases didáticas para te fazer entrar e sair dos
laços misteriosos do amor?

Bem, eu mesma não sou eu mesma

e o poder de sobrevivência pelo qual eu falo
não é feito de casas.

É luxo interior, de figuras douradas
que respiram como as montanhas
e cuja pele é escurecida por estrelas.

September

The grasses are light brown
              and the ocean comes in
              long shimmering lines
              under the fleet from last night
              which dozes now in the early morning

Here and there horses graze
              on somebody’s acreage

                               Strangely, it was not my desire

that bade me speak in church to be released
         but memory of the way it used to be in
careless and exotic play

               when characters were promises
      then recognitions.  The world of transformation
is real and not real but trusting.

                            Enough of these lessons?  I mean
didactic phrases to take you in and out of
love’s mysterious bonds?

                      Well I myself am not myself

           and which power of survival I speak

for is not made of houses.

          It is inner luxury, of golden figures
that breathe like mountains do
            and whose skin is made dusky by stars.

§

PALÁCIO NOTURNO

A melhor coisa do passado
é que acabou
quando você morre
você acorda
do sonho
que é a sua vida.

Então você cresce
e se torna pós-humano
em um passado que ainda acontece
à sua frente.


NIGHT PALACE

The best thing about the past
is that it’s over
when you die
you wake up
from the dream
that’s your life.

Then you grow up
and get to be post human
in a past that keeps happening
ahead of you.

*

Mariana Basílio (Bauru – São Paulo, 198). Prosadora, poeta, ensaísta e tradutora. Mestre em Educação pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Autora dos livros de poesia Nepente (2015) e Sombras & Luzes (2016). Colabora em portais e revistas nacionais e internacionais, tendo traduzido nomes como May Swenson, Alejandra Pizarnik, Edna St. Vincent Millay, Sylvia Plath e William Carlos Williams. Com patrocínio do prêmio ProAC (2017) do Governo de São Paulo, publicou em 2018 seu terceiro livro, o poema longo Tríptico Vital (Patuá). O projeto também foi finalista do programa de Residência Literária do Sesc (2018). Mantém o site www.marianabasilio.com.br.

*

Padrão
poesia, tradução

Transviscerar Roberto Piva, por Francisco de Matteu

Roberto Piva, 1963, foto de Cláudio Willer

PIVA (1937 – 2010)

Para ele, estar apaixonado era praticamente uma condição necessária para escrever, “a poesia é uma consequência da vida, um epifenômeno dela. É o que sobrou da paixão, é o que sobrou da orgia.” (PIVA, 2009, p.60). Ele certamente teria muito o que conversar com Leminski, que comenta que “Os hindus acreditam que os deuses criam este mundo por um excesso de ser. O que é um bom modelo para nossa humana e terrestre criatividade. Só por excessos se cria. Por uma exuberância.”

Uma experiência muito marcante na vida do escritor, que inclusive permeia toda sua obra e  vai ganhando mais espaço nos livros posteriores, foi o primeiro contato que teve com uma prática de cunho xamanista, a piromancia. Conta ele que, aos 12 anos de idade, por meio de Irineu, um mestiço de índio com negro, experimentou pela primeira vez uma das formas do êxtase ao contemplar fixamente uma fogueira na fazendo do pai em Analândia, perto de Rio Claro, no interior de São Paulo. Estimulado por Irineu, Piva encarava o fogo até enxergar imagens e espectros fugazes. Já aos 24, em 1961, dois anos antes da publicação de Paranoia, Piva adquire o livro O xamanismo e as técnicas arcaicas do êxtase (1951), escrito por Mircea Eliade, e com a sua leitura é “beneficiado pelo inconsciente coletivo que permeia a humanidade. Isso é a origem da poesia xamânica. É a origem da própria poesia na visão de Cortázar, Artaud, Octavio Paz, Mircea Eliade” (Ibid., p.149).

PARANOIA

Paranoia é um livro instilado de paixão transgressora, uma carta de amor virulento cujo destinatário é a cidade de São Paulo, ou seja, um poema do urbano contra o urbano. Falar sobre Paranoia é equacionar amor, êxtase, analogia, ritmo, correspondência. O ritmo da poesia de Piva é, eu acredito, da mesma ordem do movimento conforme descrito em  “O Anus Solar” (1931), ensaio de Bataille, ou seja, existe em função de uma atração implacável, de uma paixão amorosa. Trata-se do ritmo amoroso.Os dois movimentos principais são o rotativo e o sexual, de combinação expressa
numa locomotiva de pistões e rodas.

Dois movimentos que se transformam um no outro, reciprocamente.
Assim notamos que a terra a dar voltas faz coitar animais e homens (e, como
aquilo que resulta também é a causa que o provoca), animais e homens quando
coitam fazem dar voltas à terra.

(…)
Um guarda-chuva, uma sexagenária, um seminarista, o cheiro de ovos podres, os
olhos cegos de um juiz, são raízes por onde o amor se alimenta.
Um cão que devora um estômago de pato, uma mulher bêbeda que vomita, um
guarda-livros que soluça, um frasco de mostarda, representa a confusão que veicula
o amor.
(1985, p. 12-13)

Tendo isso em vista, seguiremos com Bachelard “um método que nos parece decisivo na fenomenologia das imagens, e que consiste em designar a imagem como um excesso da imaginação”, onde “acentuamos as dialéticas do grande e do pequeno, do oculto e do manifesto, do plácido e do ofensivo, do fraco e do vigoroso” (1993, p.123). Ou seja, Paranoia, enquanto resíduo e “excesso da imaginação”, está menos para uma sequência de peripécias mirabolantes vividas e testemunhadas poeticamente sob a égide da noite, e mais para um desregramento da própria linguagem em associações inusitadas que explodem vigorosamente a partir do detalhe. Tal abordagem está no centro do programa do livro, a versificação enquanto forma de organização sistematicamente caótica não é nada menos do que o emprego pessoal de Piva da atividade crítico-paranoica de Dali.

Em 1929 Dali pesquisa os mecanismos internos dos fenômenos paranóicos, encarando a possibilidade de um método experimental baseado no poder imediato das associações sistemáticas próprias à paranóia; esse método iria tornar-se, em seguida, a sintese delirante crítica que tem o nome de “atividade crítico-paranóica”. Paranóica: delírio da associação interpretativa, comportando uma estrutura sistemática – Atividade crítico-paranóica: método espontâneo de conhecimento irracional baseado na associação crítico-interpretativa dos fenômenos delirantes. (1974, p.18-19)

Assim, o efeito que se pretende criar na versificação de Paranoia é do desocultamento infinito daquilo que transborda. Por meio do exercício da espontaneidade e das associações desregradas, a ideia obcecante entra em cena sem recorrer à linguagem linear e ao significado racional, fazendo o mundo do delírio passar para o plano da realidade através do processo de ressignificação do mundo e seus objetos.

A TRANSVISCERAÇÃO

A transvisceração é mais um processo do que um método, trata-se de cultivar gradualmente no próprio corpo a poesia, o corpo se torna poético ao se deixar atravessar por um corpo de poemas, neste caso, o livro de Roberto Piva e Wesley Duke Lee, Paranoia (1963). Assim, mergulhei profundamente no devaneio de cada imagem, poema a poema, deixando o punctum barthesiano das fotografias alucinadas de Lee me assombrar também, palavras animadas com meu próprio sangue, reverberando nas minhas entranhas e pulsando no ritmo de minhas vísceras comovidas, imprimindo cada poema no meu inconsciente e povoando meu imaginário com sonhos de andanças desvairadas pela noite; só então, pude recriar os poemas no idioma do meu próprio corpo. A transvisceração trata-se, portanto, de uma abordagem tradutória que privilegia antes de mais nada, o sensorial e o intuitivo em detrimento do racional, que privilegia a continuidade da palavra em relação ao corpo, pensando no poema como uma extensão da vida, uma secreção do corpo produzida por um excesso de vivência, mais especificamente, no caso de Piva, por um êxtase amoroso. Colocando a linguagem como evidência também, enquanto máquina desejante, máquina de estabelecer correspondências e analogias novas, de potencialidade tradutória, de ressignificação de símbolos e da realidade, de transformação da própria vida através do exercício imaginativo da visualização e performance. O poema de que falo é uma meditação que altera e expande a sensibilidade do eu, que faz esse eu sonhar e que faz a própria linguagem sonhar.

Por isso mesmo, a tradução de um poema como esse, também precisa passar invariavelmente por um movimento de êxtase antes de se fazer existente, brotando diretamente das vísceras, do âmago desse eu e tomando forma na medida em que se faz transbordar. A criação dos poemas de Paranoia foi esse transbordamento mental e é assim que deveria ser a sua tradução poética ao meu ver: linguagem viva que brota do corpo e mancha o papel revelando um abismo que se condensa em palavra, em canto, em visão, imagem e analogia. O poema é a ritualização da vida, é a imaginação agindo sobre a realidade, é o ato mágico que tem por finalidade orientar uma força oculta no sentido de uma ação determinada. A força oculta é o poder intuitivo e criativo; e a ação determinada, nesse caso, é o estímulo, a provocação e a comoção das vísceras a partir da própria palavra. É como se o poema tentasse devolver para a vida o que tirou dela para se fazer e se criar,  a partir de sua própria substância: o desejo, o impulso violento, o movimento e o ritmo. Faço das seguintes palavras de Bachelard, as minhas próprias: “Quanto a mim, acolho a imagem do poeta como uma pequena loucura experimental, como um grão de haxixe virtual, sem cuja ajuda não podemos entrar no reino da imaginação” (2001, p.222).

PARA REPARO DE VÍSCERAS

A tradução de Paranoia deve engendrar, na minha opinião, uma espécie de inciação, a busca delirante por “aquilo que de fato sou”, busca que o livro de Piva representa de maneira tão singular. Nas palavras de Davi Arrigucci:

O delírio que acompanha o êxtase é a tentativa de ver mais claro, no cerne da noite, aquilo que de fato sou e quem sabe possa vir à luz. No fundo da sua própria obscuridade, o poeta, “incorrigível demônio”, caminha sem rumo pela cidade imaginária em busca de revelar o segredo que traz consigo mesmo. (2009, p.29)

Cabe aqui justificar e apontar a origem da minha proposta de tradução como reparo de vísceras: na minha analogia, a ossada, sendo o símbolo da fonte última da vida, a porção mais resiliente tanto do homem quanto do animal, seria a matéria a partir da qual a vida, ou seja, as vísceras, poderiam se reconstituir. A poesia é palavra encantatória que excita a carne pois roça o cerne do ser e é na medula óssea que são produzidas e renovadas as células do sangue, ou seja, o DNA, que contém nossa assinatura genética. O sangue, líquido quintessencial da vida que circula pelas vísceras, se produz e renova graças a medula óssea. Assim como os poemas se renovam com as traduções, e as línguas em estado elevado nos deixam vislumbrar a “língua pura”. Haroldo de Campos resgata o que Walter Benjamin havia dito sobre a tarefa do tradutor, ela consiste em “libertar na sua própria aquela língua pura, que está desterrada na língua estranha; libertar através da transpoetização, aquela língua que está cativa na obra” (2013, p.98). Em outras palavras, enquanto tradutor, devo libertar da língua que está contida no poema de partida, o esqueleto, a armação do ser do poema que delimita sua existência e justifica sua razão de ser.

Ora, a tarefa iniciatória do xamã é justamente se despir das vísceras, órgãos e toda carne, é preciso desnudar o esqueleto para que a partir da visualização extática da estrutura óssea seja possível, graças ao conhecimento adquirido pela sua contemplação, a reconstrução de um corpo novo e revigorado. Por trás de todo poema há um modo de intencionar, uma forma significante (Ibid., p.99) que suporta a informação estética: essa forma significante funciona exatamente como o esqueleto no ritual xamânico, a partir da nomeação mágica de cada osso na linguagem ritual (língua pura), é possível obter a visão  plena do esqueleto, que é a chave para a manutenção da vida e da cura. As vísceras e os demais materiais orgânicos (palavras) se cristalizam ao redor dessa estrutura óssea (modo de intencionar) praticamente invisível para o não iniciado, porém ainda assim detectável.

A tradução nessa analogia é um reparo de vísceras nos dois sentidos do verbo reparar, o primeiro abrange a reconstrução e a recriação do poema por meio da mesma matriz (esqueleto/forma significante) a partir da qual as mentes que “ficaram sonhando” (em êxtase/intuição da língua pura) vão consumar o seu amor delirante na forma de uma “flor de saliva”, por exemplo; o segundo sentido do verbo “reparar”  (notar, observar, perceber) está ligado à contemplação e nomeação do esqueleto em si, que é a investigação da forma significante que compõe o poema. Reparar o poema quer dizer significar e perceber seus mecanismos, desvendar sua linguagem, seus artifícios e funcionamentos, não é nada menos do que um exercício de crítica, de se enveredar pelos seus meandros e abrir no poema um caminho próprio, se equilibrando entre a materialidade do texto e a subjetividade daquele que se propõe a decifrá-lo. Foi do “Poema da Eternidade sem Vísceras” que retirei cirurgicamente o título da dissertação: “PARA REPARO DE VÍSCERAS”; pois a metáfora que ilustra meu processo tradutório é essa da transferência da dicção produzida pela persona de Piva que caminha pela noite paulista em Paranoia.

POEM OF ETERNITY WITHOUT VISCERA/POEMA DA ETERNIDADE SEM VÍSCERAS

PRAÇA DA REPÚBLICA OF MY DREAMS/PRAÇA DA REPÚBLICA DOS MEUS SONHOS

 

Francisco De Matteu entrou na UFPR em 2009. Na  monografia estudo a “Canção de Mim Mesmo” (1855), de Walt Whitman com um traço chamado “merge”, que nada mais é do que o estado meditativo de transe induzido no eu-lírico através dessa canção que provoca o êxtase cósmico, assimilando toda uma nação e um continente  e gerando as imagens do poema que são a jornada de expansão e fusão do eu lírico.

BIBLIOGRAFIA

BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. Tradução de Antonio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

BATAILLE, Georges. O ânus solar. Tradução de Anibal Fernandes. Lisboa: Hiena Editora, 1985.

CAMPOS, Haroldo de. Transcriação. Organização Marcelo Tápia, Thelma Médici Nóbrega. São Paulo: Perspectiva, 2015.

DALI, Salvador. Sim ou a paranóia: método crítico-paranóico e outros textos. Tradução de Denise Vreuls. Rio de Janeiro: Editora Artenova S. A., 1974.

ARRIGUCCI, Davi. O cavaleiro do mundo delirante. In: PIVA, Roberto. Paranoia. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2009.

PIVA, Roberto. Paranóia. Fotografado e desenhado por Wesley Duke Lee. São Paulo: Instituto Moreira Salles e Jacarandá, 2000.

____________. Roberto Piva: encontros. Organização Sergio Cohn. Rio de Janeiro: Beco do Azogue, 2009.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                         

Padrão
poesia, tradução

Jack Spicer, por Victor H. Azevedo

Jack Spicer nasceu em janeiro de 1925, em Los Angeles, Califórnia.

Uma boa introdução sobre o poeta, feita pelo Ricardo Domeneck, já foi feita na revista Modo de Usar (http://revistamododeusar.blogspot.com.br/2008/06/jack-spicer-1925-1965.html), por isso não vou me ater a arremedar uma outra introdução sobre o poeta.

Entretanto, Spicer era um tipo interessante, de uma poética igualmente interessante, mas ainda sim pouco traduzido ao português – traduções dele temos as da Patrícia Lino (http://makelove-notbeds.blogspot.com.br/2014/07/jack-spicer-tres-poemas-three-poems.html ), do já mencionado Ricardo Domeneck, do Guilherme Gontijo Flores (http://revistamododeusar.blogspot.com.br/2015/02/traducao-de-guilherme-gontijo-flores.html) e algumas minhas (http://guarita.tumblr.com/post/159372718350/poemas-de-amor-por-jack-spicer).

Nessas traduções abaixo selecionei alguns poemas em fases diferentes da sua vida, a exemplo dos escritos durante a Berkeley Renaissance (“UM POEMA PARA O DADA DAY AT THE PLACE, 1 ABRIL, 1955” e “NÓS ACHAMOS O CORPO DIFÍCIL DE FALAR…”), alguns textos do seu livro After Lorca (“BALADA DA GAROTINHA QUE INVENTOU O UNIVERSO”, “PASSEIO DE BUSTER KEATON”, “UM DIAMANTE” e uma “carta” enviada a Federico García Lorca, e QUATRO POEMAS PARA RAMPARTS”, presente no seu livro, BOOK OF MAGAZINE VERSE.

– victor h. azevedo

* * *

  “Nós achamos o corpo difícil de falar…”

Nós achamos o corpo difícil de falar,
O rosto muito duro de entreouvir,
Achamos que olhos ao beijar gaguejam
E essas pesadas virilhas erguidas
Balbuciam como idiotas.
Sexo é uma dor na boca. O
Rangido que os nossos corpos fazem
Quando eles esfregam suas bocas umas nas outras
Tentando falar.
Como crianças caladas abraçamos
Doendo juntos.
E o amor é um vazio no ouvido. Como cura
Nós colocamos um rosto contra o ouvido
E o escutamos como se fosse uma concha,
acalentada por seus rugidos.
Nós achamos o corpo difícil, e falamos
através da sua parede como estranhos.

“We find the body difficult to speak . . .”

We find the body difficult to speak,
The face too hard to hear through,
We find that eyes in kissing stammer
And that heaving groins
Babble like idiots.
Sex is an ache of mouth. The
Squeak our bodies make
When they rub mouths against each other
Trying to talk.
Like silent little children we embrace,
Aching together.
And love is emptiness of ear. As cure
We put a face against our ear
And listen to it as we would a shell,
Soothed by its roar.
We find the body difficult, and speak
Across its wall like strangers.

§

QUATRO POEMAS PARA RAMPARTS

1.

Tire essas palavras da sua boca e as coloque dentro do coração. Se não
existe
Um Deus não acredite Nele. “Credo
Quia absurdum,” cria guerras e amores vazios e era
até mesmo em tempos tertulianos uma heresia. Vi ele como uma tartaruga
rastejando pelo vasto deserto da incredulidade.
“As sombras do amor não são as sombras de Deus.”
Essa é a segunda heresia criada pelo homem primevo de Piltdown na
caverna de Platão. Mesmo
O fogo moldando uma sombra ou não.
Balões vermelhos, laranjas e roxos, todos soltos
juntos em um céu chuvoso.
O céu onde os homens choram pelos homens. E sobre o céu uma lua
ou um astronauta sorri na televisão. O amor
Por Deus ou pelo homem transformado em distância.
Essa é a terceira heresia. Dante
foi o primeiro escritor de ficção cientifica. Beatrice
Cintilando no espaço infinito.

2.

Um papa quase morrendo de soluçar. Ou São Pedro
Contando à polícia, “Juro por Deus que não conheço esse homem,”
até que o galo cante três vezes e eles o soltem.
“Uma pedra
Sobre a qual eu construirei uma igreja.”
E ainda está lá. Aceitando a divindade como Jesus aceitou
a humanidade. A contragosto, sem paixão, mas o ponto
mais importante para ver no mundo.
Não acreditamos muito nisso. Deus é uma inverdade palpável. Coisas
espalhando-se pelo universo como lições.
Mas Jesus morreu e retornou com buracos nas mãos.
Como o clima,
E é, espero, para ser alcançado, e é algo para se rezar
E é o Filho de Deus.

3.

Na rubra aurora do Apocalipse (São João não é o Departamento de
Defesa) posso ouvir os soldados se movendo. Papa João
Vestido como o Anticristo é o primeiro a sair do mato
ou seja lá qual selva.
“Pacem in terris,” ele brada como se estivesse cantando “The Eyes Of
Texas Are Upon You” e é atingido imediatamente na cabeça pelo tiro
de um revólver estrondoso.
Há tantos deles nos matos ou em Seja Lá Quais Selvas
(São João) que mal valem a pena serem mortos. Eles são
franco-atiradores disfarçados com os rostos da terra que deveríamos
estar protegendo. Seus japas parecem com nossos japas. Papa João
Parece morto mesmo quando sua fantasia cai.

4.

Mecanicamente nos movemos
no Universo de Deus, Incapazes de fazê-lo
Sem a graça ou ódio Dele.
O centro do ser. Como quase um centro de computadores,
sem graça. Um mundo enfadonho
Sem Seu ódio.
Um centro do ser — não a existência de robôs.
Se Ele quisesse, Ele poderia fazer de uma máquina um Cristo, colocá-lo
na segunda pessoa que é Você.
Por que ele se incomodou com o homem é um mistério que até Jó se Perguntou.
Deus tornando-se humano, tornou-se um assunto para antropólogos,
para história, e todos as outros, miseráveis coceiras de um animal
que de repente (tão de repente?) recebe uma alma.
Quando olho nos olhos e almas daqueles daqueles que amo, eu
(em uma floresta escura entre graça e ódio) duvido de Sua
sabedoria.
Cur Deus Homo, era o título do livro de São Anselmo. Sem
pontos de interrogação.
Graça!

FOUR POEMS FOR RAMPARTS

1.
Get those words out of your mouth and into your heart. If
there isn’t
A God don’t believe in Him. “Credo
Quia absurdum,” creates wars and pointless loves and was
even in Tertullian’s time a heresy. I see him like a tortoise
creeping through a vast desert of unbelief.
“The shadows of love are not the shadows of God.”
This is the second heresy created by the first Piltdown man in
Plato’s cave. Either
The fire casts a shadow or it doesn’t.
Red balloons, orange balloons, purple balloons all cast off
together into a raining sky.
The sky where men weep for men. And above the sky a moon
or an astronaut smiles on television. Love
for God or man transformed to distance.
This is the third heresy. Dante
Was the first writer of science-fiction. Beatrice
Shimmering in infinite space.

2.
A pope almost dying of hiccups. Or St. Peter
Telling the police, “Honest to God I don’t know this man,”
until the cock crowed three times and they released him.
“A rock
Upon which I will build a church.”
And yet it’s there. Accepting divinity as Jesus accepted
humanness. Grudgingly, without passion, but the most
important point to see in the world.
We do not quite believe this. God is palpably untrue. Things
spreading over the universe like lessons.
But Jesus dies and comes back again with holes in his hands.
Like the weather,
And is, I hope, to be reached, and is something to pray to
And is the Son of God.

3.
In the red dawn of the Apocalypse (St. John’s not the Defense
Department’s) I can hear the soldiers moving. Pope John
Dressed like the Antichrist is in first to come out of the bushes
or whatever jungle.
“Pacem in terris,” he shouts as if he were singing “The Eyes Of
Texas Are Upon You.” He is immediately shot in the head
by a loud revolver.
There are so many of them in the bushes or Whatever Jungle
(St. John’s) that they are hardly worth killing. They are
snipers disguised with the faces of the land we ought to be
protecting. Their gooks look like our gooks. Pope John
Looks dead even when his costume has fallen off.

4.
Mechanicly we move
In God’s Universe, Unable to do
Without the grace or hatred of Him.
The center of being. Like almost, without grace, a computer
center. Without His hatred
A barren world.
A center of being—not the existence of robots.
If He wanted to, He could make a machine a Christ, enter it in
its second person which is You.
Why he bothered with man is a mystery even Job wondered.
God becoming human, became a subject for anthropologists,
history, and all the other wretched itchings of an animal
that had suddenly (too suddenly?) been given a soul.
When I look in the eyes and the souls of those of those I love, I
(in a dark forest between grace and hatred) doubt His
wisdom.
Cur Deus Homo, was the title of St. Anselm’s book. Without
question marks.
Grace!

§

UM POEMA PARA O DADA DAY AT THE PLACE, 1 ABRIL, 1955

Querido,
A diferença entre o Dada e o barbarismo
É a diferença entre um aborto e um sonho molhado.
Um aborto
É um sacrifício consciente do passado, a pintura de um bigode
Na Mona Lisa, a rendição
De crianças reais.
O outro, querido, é um sacrifício
Dos filhos de ninguém, é barbarismo, é um Esquimó
Correndo amuado em um museu, é a Boêmia
Renunciando cidades que nunca foram conquistadas.
Um Vândalo feio mijando em uma estátua não é Fídias
mijando em uma estátua. Barbarismo
É menor que um gesto.
Destrua seus próprios deuses se você quer ser Dada:
Desista dos seus vícios, queime sua jukebox,
Desenhe bigodes na música, pinte uma mãe de verdade
em cada tela não-objetiva. Suje somente
Essas coisas que pertencem a você.
“Beleza é uma coisa tão rara,” Pound disse,
“pouquíssimos bebem da minha fonte.”
Você só tem o direito de mijar na fonte
Se você for belo.

A POEM FOR DADA DAY AT THE PLACE, APRIL 1, 1955

Darling,
The difference between Dada and barbarism
Is the difference between an abortion and a wet dream.
An abortion
Is a conscious sacrifice of the past, the painting of a mustache
On Mona Lisa, the surrender
Of real children.
The other, darling, is a sacrifice
Of nobody’s children, is barbarism, is an Eskimo
Running amok in a museum, is Bohemia
Renouncing cities it had never conquered.
An ugly Vandal pissing on a statue is not Phidias
Pissing on a statue. Barbarism
Is something less than a gesture.
Destroy your own gods if you want Dada:
Give up your vices, burn your jukebox,
Draw mustaches on music, paint a real mother
On every non-objective canvas. Befoul only
Those things that belong to you.
“Beauty is so rare a thing,” Pound said,
“So few drink at my fountain.”
You only have the right to piss in the fountain
If you are beautiful.

§

TRÊS ENSAIOS MARXISTAS

HOMOSSEXUALIDADE E MARXISMO

Não deveriam haver regras para isso mas deveria ser simultâneo se fosse pra haver.

Homossexualidade é essencialmente estar só. Que é uma luta contra os patrões capitalistas que não querem
que nós sejamos sós. Sozinhos somos perigosos.

Nossa insatisfação poderia arruinar a América. Nosso amor poderia arruinar o universo se quiséssemos.

Se deixarmos nosso amor florescer na verdadeira revolução ficaremos cheios de ofertas para camas.

OS JATOS E O MARXISMO

Jatos odeiam política. Eles crescem em uma sociedade de gatos gordos onde não houve nenhuma depressão ou guerra. Eles
são contra a pena de morte.

Eles não poderiam se importar menos. Eles usam canivetes atados com fitas. Eles sabem que o que move este país
é uma máquina IBM conectada a uma máquina IBM. Eles nunca pensam em usar seus canivetes contra seus gabinetes de alumínio.

Uma Liga Contra a Juventude e o Fascismo deveria ser formada imediatamente pelo nosso Partido. Eles são nossos convidados. Eles são ignorantes.

OS JATOS E A HOMOSSEXUALIDADE

Certa vez no áureo amanhecer da homossexualidade houve um filósofo que havia dado a fórmula para uma nova sociedade —
“de cada qual, segundo sua capacidade, a cada qual, segundo suas necessidades.”

Essa fórmula aparece no Novo Testamento — a parábola da figueira — e em outros lugares.

Continuar o argumento é infrutífero.

THREE MARXIST ESSAYS

HOMOESEXUALITY AND MARXISM

There should be no rules for this but it should be simultaneous if at all.

Homosexuality is essentially being alone. Which is a fight against the capitalist bosses who do not want us to be alone. Alone we are dangerous.

Our dissatisfaction could ruin America. Our love could ruin the universe if we let it.

If we let our love flower into the true revolution we will be swamped
with offers for beds.

THE JETS AND MARXISM

The Jets hate politics. They grew up in a fat cat society that didn’t even have a depression or a war in it. They are against capital punishment.

They really couldn’t care less. They wear switchblade knives tied with ribbons. They know that which runs this country is an IBM machine connected to an IBM machine. They never think of using their knives against its aluminum casing.

A League Against Youth and Fascism should be formed immediately by our Party. They are our guests. They are ignorant.

THE JETS AND HOMOSEXUALITY

Once in the golden dawn of homosexuality there was a philosopher who gave the formula for a new society—“from each, according to his ability, to each according to his need.”

This formula appears in the New Testament—the parable of the fig tree—and elsewhere.

To continue the argument is fruitless.

§

Balada da Garotinha Que Inventou O Universo
uma tradução para George Stanley

Flor de jasmim e um touro com a garganta cortada.
Calçada infinita. Mapa. Quarto. Harpa. Amanhecer.
Uma garotinha imita um touro feito de jasmim
E o touro é um crepúsculo sangrento que sobe.

Se o céu fosse um garotinho
Os jasmins pegariam metade da noite para si
E o touro uma praça de touros azul só sua
Com o coração ao pé de uma pequena coluna.

Mas o céu é um elefante
E os jasmins são água sem sangue
E a garotinha é um buquê de flores noturnas
Perdida em uma grande calçada escura.

Entre o jasmim e o touro
Ou ganchos das adormecidas pessoas de mármore ou
No jasmim, nuvens e um elefante —
O esqueleto de uma garotinha se virando.

Ballad of the Little Girl Who Invented the Universe
A Translation for George Stanley

Jasmine flower and a bull with his throat slashed.
Infinite sidewalk. Map. Room. Harp. Sunrise.
A little girl pretends a bull made of jasmine
And the bull is a bloody twilight that bellows.

If the sky could be a little boy
The jasmines could take half the night to themselves
And the bull a blue bullring of his own
With his heart at the foot of a small column.

But the sky is an elephant
And the jasmines are water without blood
And the little girl is a bouquet of night flowers
Lost on a big dark sidewalk.

Between the jasmine and the bull
Or the hooks of the sleeping people of marble or
In the jasmine, clouds and an elephant—
The skeleton of a little girl turning.

§

Passeio de Buster Keaton
uma tradução para Melvin Bakkerud

GALO: Cocoricó!

(Buster Keaton entra carregando quatro crianças em seus braços.)

BUSTER KEATON (pega um punhal de madeira e os mata):
Minhas pobres crianças!

GALO: Cocoricó!

BUSTER KEATON (contando os corpos no chão): Um, dois, três, quatro. (Pega uma bicicleta e vai embora.)

(Entre pneus velhos e latas de gasolina um negro come um chapéu de palha)

BUSTER KEATON: Que tarde bonita!

(Um papagaio tremula no céu sem sexo.)

BUSTER KEATON: Gosto de andar de bicicleta.

CORUJA: Hoo hoo.

BUSTER KEATON: Que bonito o canto desses pássaros!

CORUJA: Hoo!

BUSTER KEATON: É lindo!

(Pausa. Buster Keaton inefavelmente cruza juncos e pequenos campos de centeio. A paisagem se encurta sob as rodas da sua máquina. A bicicleta tem uma única dimensão. É capaz de entrar em livros e expandir-se até mesmo em óperas e minas de carvão. A bicicleta de Buster Keaton não tem uma sela de caramelo ou pedais de açúcar como as bicicletas que os homens maus pedalam. É uma bicicleta como todas as outras exceto por uma única chuvarada de inocência. Adão e Eva passam correndo, assustados como se estivessem carregando um vaso cheio de água e, ao passar, acariciam a bicicleta do Buster Keaton.)

BUSTER KEATON: Ah, amor, amor!

(Buster Keaton cai no chão. A bicicleta escapa dele. Corre até atrás de duas enormes borboletas cinzentas. E roça loucamente meio centímetro no chão.)

BUSTER KEATON: Eu não quero falar. Alguém por favor diga algo?

UMA VOZ: Imbecil!

(Ele continua andando. Seus olhos, infinitos e tristes como um animal recém-nascido, sonho de lírios e anjos e cintos sedosos. Seus olhos que são como o fundo de um vaso. Seus olhos d’uma criança louca. Quais são os mais fiéis. Quais são os mais belos. Os olhos de um avestruz. Seus olhos humanos de uma equivalência segura com melancolia. A Filadélfia é vista ao longe. Os habitantes dessa cidade agora sabem que o antigo poeta de uma máquina Singer é capaz de circular as grandes rosas da estufa mas não de todo, para compreender a diferença poética entre uma tigela de chá quente e uma tigela de chá gelado. A Filadélfia brilha ao longe.)

(Uma menina americana com olhos de celuloide surge da grama.)

A AMERICANA: Olá.

(Buster Keaton sorri e olha para os sapatos da garota. Que sapatos! Nós não temos que admirar seus sapatos. Seria preciso um crocodilo para usá-los.)

BUSTER KEATON: Eu gostaria de—

A AMERICANA (sem fôlego): Você carrega uma espada adornada de folhas de murta?

(Buster Keaton dá de ombros e levanta o pé direito.)

A AMERICANA: Você tem um anel de pedra envenenada?

(Buster Keaton se entorta lentamente e levanta uma perna inquirida)

A AMERICANA: Bem?

(Quatro anjos com asas de um celestial balão de gás mijam entre as flores. As senhoras da cidade tocam num piano como se estivesse pedalando uma bicicleta. A valsa, a lua, e dezessete canoas indianas balançam o precioso coração do nosso amigo. Como a maior surpresa de todas, o outono invade o jardim como a água que explode um amontoado geométrico de açúcar.)

BUSTER KEATON (suspirando): Eu gostaria de ter sido um cisne. Mas eu não posso fazer o que eu gosto. Porque — O que aconteceu com o meu chapéu? Onde está meu colarinho de passarinhos e minha gravata mohair? Que desgraça!

(Uma moça com uma cintura de vespa e um colarinho alto surge montada em uma bicicleta. Ela tem a cabeça de um rouxinol.)

MOÇA: Quem tenho a honra de saudar?

BUSTER KEATON (com um arco): Buster Keaton.

(A moça desmaia e cai da bicicleta. Suas pernas no chão tremem como duas najas agonizantes. Um gramofone toca milhares de versões da mesma canção — “Na Filadélfia eles não têm rouxinóis”.)

BUSTER KEATON (ajoelhado): Querida Srta. Eleanor, pardon me! (mais baixo) Querida (ainda baixo) Querida (mais baixo) Querida.

(As luzes da Filadélfia piscam e saem do rosto de milhares de policiais.)

§

Um Diamante
uma tradução para Robert Jones

Existe
Um diamante
No coração da lua ou dos ramos ou da minha nudez
E não há nada no universo como um diamante
Nada em toda a mente.

O poema é uma gaivota descansando em um cais no fim do oceano.

Um cão uiva na lua
Um cão uiva nos ramos
Um cão uiva na nudez
Um cão uivando com a mente pura.

Peço ao poema que ele seja tão puro quanto a barriga de uma gaivota.

O universo desmorona e revela um diamante
Duas palavras chamadas gaivota estão pacificamente flutuando lá onde as ondas estão.
O cão está morto lá com a lua, com os ramos, com minha nudez
E não há nada no universo como um diamante
Nada em toda a mente.

Diamond
A Translation for Robert Jones

A diamond
Is there
At the heart of the moon or the branches or my nakedness
And there is nothing in the universe like Diamond
Nothing in the whole mind.

The poem is a seagull resting on a pier at the end of the ocean.

A dog howls at the moon
A dog howls at the branches
A dog howls at the nakedness
A dog howling with pure mind.

I ask for the poem to be as pure as a seagull’s belly.

The universe falls apart and discloses a diamond
Two words called seagull are peacefully floating out where the
waves are.
The dog is dead there with the moon, with the branches, with
my nakedness
And there is nothing in the universe like Diamond
Nothing in the whole mind.

§

CINCO PALAVRAS PARA JOE DUNN SOBRE SEU VIGÉSIMO-SEGUNDO ANIVERSÁRIO

Te devo cinco palavras de aniversário.
A primeira palavra é anthropos
Aquele que celebra aniversários.
Ele está mirrado e rijo e cego, tagarela
Das velhas guerras e da beleza morta.
Ele está lá pela calma do teu coração quando os dias correm
E as guerras se perdem e as rosas murcham.
Ele pode derrotar todos os inimigos que te atingirem.
Ele pode lembrar de toda beleza que possa morrer em teu coração.

A segunda palavra é andros
Aquele que se orgulha de seu gênero
Que se veste como um galo de rinha, ereto
Através da meia-noite do tempo
Como uma vela de aniversário.
Ele te dar sabedoria assim como um Tolo
Se esconde nos lombos
Chorando pela deselegância
De tudo isso que não é sagrado.

A terceira palavra é eros
Aquele que se apega a ti a cada nascimento
Trazendo ao teu coração sustância.
Seja lá quem for que você toque ele irá te amar,
Sentirá o apego do Seu toque
Como a luz do sol dispersa sobre um espelho antigo.

A quarta palavra é thanatos, o ventre negro
Que devora aniversários.
Eu não te dou thanatos. Eu te trago a palavra para chamá-lo
Thanatos, devorador de rapazes, mordedor cardíaco, lambedor de ossos.
Olhe, Ele se esgueira quando você o chama.
Chame-o! Thanatos.

A última palavra é agape,
A dançarina que põe aniversários em movimento.
Ela está lá para conduzir as palavras.
Contrariando tudo, Ela faz as palavras
Girarem ao Seu redor. Palavras dançam.
Veja. Anthropos perene,
Andros tornado virgem, Eros irrefletível
Thanatos devorado.
Agape, Agape, mestra de cerimônias,
Ame
Isso que vem para além dos aniversários,
Isso que faz poesia
E move estrelas.

FIVE WORDS FOR JOE DUNN ON HIS TWENTY-SECOND BIRTHDAY

I shall give you five words for your birthday.
The first word is anthropos
Who celebrates birthdays.
He is withered and tough and blind, babbler
Of old wars and dead beauty.
He is there for the calmness of your heart as the days race
And the wars are lost and the roses wither.
No enemy can strike you that he has not defeated.
No beauty can die in your heart that he will not remember.

The second word is andros
Who is proud of his gender
Wears it like a gamecock, erects it
Through the midnight of time
Like a birthday candle.
He will give you wisdom like a Fool
Hidden in the loins
Crying out against the inelegance
Of all that is not sacred.

The third word is eros
Who will cling to you every birthnight
Bringing your heart substance.
Whomever you touch will love you,
Will feel the cling of His touch upon you
Like sunlight scattered over an ancient mirror.

The fourth word is thanatos, the black belly
That eats birthdays.
I do not give you thanatos. I bring you a word to call Him
Thanatos, devourer of young men, heart-biter, bone-licker.
Look, He slinks away when you name Him.
Name Him! Thanatos.

The last word is agape,
The dancer that puts birthdays in motion.
She is there to lead words.
Counter to everything, She makes words
Circle around Her. Words dance.
See them. Anthropos ageless,
Andros made virgin, Eros unmirrored,
Thanatos devoured.
Agape, Agape, ring-mistress,
Love
That comes from beyond birthdays,
That makes poetry
And moves stars.

§

PSICANÁLISE: UMA ELEGIA

No que você está pensando?

Estou pensando no começo do verão.
Estou pensando em colinas molhadas de chuva
Água correndo. Derramando-se
Em hectares vazios de carvalho e manzanita
Na velha e verde moita emaranhada ao sol,
Chaparral, sálvia e mostarda-marrom.
Ou no vento quente que vem de Santa Ana
Vindo pelas montanhas como louco,
Um vento veloz com um pouco de poeira nele
Ferindo tudo e tornando as sementes doces.
Ou na cidade onde os pessegueiros
São estranhos como cavalos novos,
E onde pipas ficam presas nas fiações
Sobre os postes das ruas,
E os bueiros estão todos engasgados de arbustos mortos.

No que você está pensando?

Estou pensando que gostaria de escrever um poema que fosse lento como um verão
Que lentamente fosse começando
Como 4 de Julho em algum lugar pelo meio da segunda estrofe
Depois de muita chuva inusitada
A Califórnia parece maior no verão.
Eu gostaria de escrever um poema tão comprido quanto a Califórnia
E tão lento quanto um verão.
Você me entende, Doutor? Tem que ser tão lento
Quanto cada ponta do verão.
Tão lenta quanto o verão
Em um dia quente bebendo cerveja fora de Riverside
Ou parado no meio de uma estrada branca e quente
Entre Bakersfield e o Inferno
Esperando pelo Papai Noel

No que você está pensando agora?

Estou pensando que ela é bem parecida com a Califórnia.
Quando ela ainda está de vestido é como um mapa das estradas. Rodovias
Indo de cima a baixo na sua pele
Estradas longas e vazias
Com a lua perseguindo lebres
Nas noites quentes de verão.
Estou pensando que seu corpo poderia ser a Califórnia
E eu um turista do oriente, rico,
Perdido em algum lugar entre o Inferno e o Texas
Olhando para um mapa de uma Califórnia comprida, molhada e dançante
Que eu nunca vi.
Envie alguns cartões postais baratos, moça,
Envie.
Cada peito de cada fotografado parecendo
Com curiosos monumentos nacionais,
Um do seu corpo extenso como uma rodovia de três pistas
Vinte e sete milhas de uma noite hospedado
No hotel mais antigo do mundo.

No que você está pensando?

Estou pensando em quantas vezes esse poema
Será repetido. Quantos verões
Irão torturar a Califórnia
Até que os malditos mapas queimem
Até que o cartógrafo louco
Caia no chão e possua
A doce e dura terra da qual ele estava se escondendo.

No que você está pensando agora?

Estou pensando que um poema poderia continuar para sempre.

PSYCHOANALYSIS: AN ELEGY

What are you thinking about?

I am thinking of an early summer.
I am thinking of wet hills in the rain
Pouring water. Shedding it
Down empty acres of oak and manzanita
Down to the old green brush tangled in the sun,
Greasewood, sage, and spring mustard.
Or the hot wind coming down from Santa Ana
Driving the hills crazy,
A fast wind with a bit of dust in it
Bruising everything and making the seed sweet.
Or down in the city where the peach trees
Are awkward as young horses,
And there are kites caught on the wires
Up above the street lamps,
And the storm drains are all choked with dead branches.

What are you thinking?

I think that I would like to write a poem that is slow as a summer
As slow getting started
As 4th of July somewhere around the middle of the second stanza
After a lot of unusual rain
California seems long in the summer.
I would like to write a poem as long as California
And as slow as a summer.
Do you get me, Doctor? It would have to be as slow
As the very tip of summer.
As slow as the summer seems
On a hot day drinking beer outside Riverside
Or standing in the middle of a white-hot road
Between Bakersfield and Hell
Waiting for Santa Claus.

What are you thinking now?

I’m thinking that she is very much like California.
When she is still her dress is like a roadmap. Highways
Traveling up and down her skin
Long empty highways
With the moon chasing jackrabbits across them
On hot summer nights.
I am thinking that her body could be California
And I a rich Eastern tourist
Lost somewhere between Hell and Texas
Looking at a map of a long, wet, dancing California
That I have never seen.
Send me some penny picture-postcards, lady,
Send them.
One of each breast photographed looking
Like curious national monuments,
One of your body sweeping like a three-lane highway
Twenty-seven miles from a night’s lodging
In the world’s oldest hotel.

What are you thinking?

I am thinking of how many times this poem
Will be repeated. How many summers
Will torture California
Until the damned maps burn
Until the mad cartographer
Falls to the ground and possesses
The sweet thick earth from which he has been hiding.

What are you thinking now?

I am thinking that a poem could go on forever.

§

Caro Lorca,

Quando traduzo um de seus poemas e encontro palavras que não entendo, sempre deduzo os seus significados. Estou inevitavelmente certo. Uma poema realmente perfeito (ninguém escreveu ainda um) poderia ser facilmente traduzido por uma pessoa que não sabe uma palavra do idioma em que foi escrito. Um poema realmente perfeito tem um vocabulário infinitamente pequeno.
É dificílimo. Queremos transferir o objeto imediato, a emoção imediata para o poema — e no entanto o imediato sempre tem centenas de palavras próprias agarradas a ele, de vida curta e tenazes como cracas. E é errado escalpelá-las ou substituir por outras. Um poeta é um mecânico do tempo não um embalsamador. As palavras ao redor desse murchar imediato e decaído como carne ao redor do corpo. Nenhum trapo de múmia da tradição pode ser usado para parar o processo. Objetos, palavras devem ser conduzidas através do tempo, não preservadas contra ele.
Eu grito “Merda” sob um penhasco próximo do oceano. Mesmo na minha vida o imediatismo dessa palavra irá desaparecer. Estará morta como “Alas”. Mas se eu colocar o penhasco verdadeiro e o oceano verdadeiro dentro do poema, a palavra “Merda” irá perdurar com ele, viajando na máquina do tempo até que os penhascos e os oceanos desapareçam.
A maioria dos meus amigos gosta muito de palavras. Eles as colocam sob a luz cega do poema e tentam extrair toda e qualquer conotação possível de cada uma delas, cada trocadilho temporário, cada conexão direta ou indireta — como se uma palavra pudesse se tornar um objeto por mera adição de consequências. Outros pegam palavras das ruas, dos seus bares, dos seus escritórios e os exibem com orgulho em seus poemas como se estivessem berrando, “Veja o que peguei da Língua Americana. Olhe para minhas borboletas, meus selos, meus velhos sapatos!” O que alguém faz com toda essa bosta?
Palavras são o que aderem ao real. Nós usamos elas para impulsionar o real, para arrastar o real para o poema. Elas são o que temos, nada mais. Elas são tão valiosas em si próprias como uma corda com nada a ser amarrada.

Repito — O poema perfeito tem um vocabulário infinitamente pequeno.

Com amor,

Jack.

Dear Lorca,

When I translate one of your poems and I come across words I do not understand, I Always guess at their meanings. I am inevitably right. A really perfect poem (no one yet has written one) could be perfectly translated by a person who did not know one word of the language it
was written in. A really perfect poem has an infinitely small vocabulary.

It is very difficult. We want to transfer the immediate object, the immediate emotion to the poem—and yet the immediate always has hundreds of its own words clinging to it, short-lived and tenacious as barnacles. And it is wrong to scrape them off and substitute others. A poet is a time mechanic not an embalmer. The words around the immediate shrivel and decay like flesh around the body. No mummysheet of tradition can be used to stop the process. Objects, words must be led across time not preserved against it.

I yell “Shit” down a cliff at an ocean. Even in my lifetime the immediacy of that word will fade. It will be dead as “Alas.” But if I put the real cliff and the real ocean into the poem, the word “Shit” will ride along with them, travel the time-machine until cliffs and oceans disappear.

Most of my friends like words too well. They set them under the blinding light of the poem and try to extract every possible connotation from each of them, every temporary pun, every direct or indirect connection—as if a word could become an object by mere addition of consequences. Others pick up words from the street, from their bars, from their offices and display them proudly in their poems as if they were shouting, “See what I have collected from the American language. Look at my butterflies, my stamps, my old shoes!” What does one do with all this crap?

Words are what sticks to the real. We use them to push the real, to drag the real into the poem. They are what we hold on with, nothing else. They are as valuable in themselves as rope with nothing to be tied to.

I repeat—the perfect poem has an infinitely small vocabulary.

Love,
Jack

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poesia, tradução

Denise Levertov, por Mariana Basílio

Denise

Denise Levertov (1923 – 1997) foi poeta, escritora e tradutora inglesa, naturalizada nos Estados Unidos e ligada à Geração Beat.

Atualmente traduzo algumas das principais poetas americanas do século XX. Escolhi Denise Levertov para essa colaboração por dois fatores: primeiro, uma intensa ligação que sinto com a poeta no presente, além da mesma ser pouco conhecida no país. De traduções já realizadas da autora, encontrei uma anterior por aqui, por Stefano Calgaro, assim como outra na revista Zunái, feita por Ruy Vasconcelos, e por último, no Jornal Rascunho, por André Caramuru Aubert.

A escolha dos poemas aconteceu a partir de minha leitura dos seus livros, incluindo The Jacob’s Ladder (1961), O Taste and See (1964) e The Sorrow Dance (1967).  São livros que trazem conceitos marcantes da poética de Levertov, com imagens intensas e associações entre o ser, o seu local e a natureza das coisas, também explorando o momento de transição da sociedade na década de 60, incluindo sua constante práxis no feminismo.

Em relação à tradução, busquei uma equivalência em nossa língua para a dicção e o vocabulário da poeta, procurando valer-me de seus recursos e reproduzir a sonoridade do verso livre inglês sem comprometer o sentido, explorando a capacidade fluídica e o impacto de suas palavras.

 Mariana Basílio

***

Quatro poemas dos livros The Jacob’s Ladder (1961), O Taste and See (1964) e The Sorrow Dance (1967).

 

SALMO RELATIVO AO CASTELO

Deixa-me estar no lugar do castelo.

Deixa o castelo estar dentro de mim.

Deixa que ele se eleve firme do anel do fosso.

Deixa que as águas do fosso reflitam a verde plumagem dos patos, deixa que os cascos das tartarugas rompam a superfície ou sejam vistos através das profundezas ondulantes.

Deixa a cavalaria postada nas bordas do fosso, e um cachorro, sempre alertas à chegada do sono.

Deixa que o espaço embaixo do primeiro piso seja escuro, deixa que a água envolva os pilares de pedra e que o vívido lodo verde neles cintile; deixa que lá fique um bote.

Deixa que as cariátides do segundo piso sejam ursos sustentados por vigas que sejam dragões.

No parapeito do salão central, deixa quatro arqueiros, olhando aos quatro horizontes. Dentro, deixa que o príncipe se sinta em casa, deixa-o sentar pensativo, em paz, todas as janelas abertas para as lógias.

Deixa que a jovem rainha se sente no alto, no ar fresco, seu filho nos braços; deixe-a ver com alegria o grande círculo, as sombras peregrinas, o labor do sol e o folgar do vento. Deixa-a caminhar de lá para cá. Deixa as colunas sustentarem o telhado, deixa que os pisos sustentem as colunas, deixa um espaço escuro embaixo do piso mais inferior, deixa que o castelo se eleve firme do fosso, deixa o fosso ser um anel e suas águas serem profundas, deixa que os guardiões o guardem, deixa que hajam vastas terras ao seu redor, deixa que o campo onde ele esteja fique dentro de mim, deixa-me estar onde ele estiver.

 

PSALM CONCERNING THE CASTLE

Let me be at the place of the castle. 

Let the castle be within me. 

Let it rise foursquare from the moat’s ring. 

Let the moat’s waters reflect green plumage of ducks, let the shells of swimming turtles break the surface or be seen through the rippling depths. 

Let horsemen be stationed at the rim of it, and a dog, always alert on the brink of sleep. 

Let the space under the first storey be dark, let the water lap the stone posts, and vivid green slime glimmer upon them; let a boat be kept there. 

Let the caryatids of the second storey be bears upheld on beams that are dragons. 

On the parapet of the central room, let there be four archers, looking off to the four horizons. Within, let the prince be at home, let him sit in deep thought, at peace, all the windows open to the loggias. 

Let the young queen sit above, in the cool air, her child in her arms; let her look with joy at the great circle, the pilgrim shadows, the work of the sun and the play of the wind. Let her walk to and fro. Let the columns uphold the roof, let the storeys uphold the columns, let there be dark space below the lowest floor, let the castle rise foursquare out of the moat, let the moat be a ring and the water deep, let the guardians guard it, let there be wide lands around it, let that country where it stands be within me, let me be where it is.

§

A DOR DO MATRIMÔNIO

A dor do matrimônio:

coxa e língua, amado,
carregam seu peso,

que pulsa nos dentes
Buscamos comunhão

e somos rejeitados, amado,
todos e cada um

É leviatã e nós

em seu estômago
atrás de alegria, alguma alegria
inconcebível fora dele

de dois a dois na arca

dessa dor.

THE ACHE OF MARRIAGE

The ache of marriage:

thigh and tongue, beloved, 
are heavy with it, 
it throbs in the teeth

We look for communion
and are turned away, beloved, 
each and each

It is leviathan and we 
in its belly
looking for joy, some joy 
not to be known outside it

two by two in the ark of 
the ache of it.

§

CANÇÃO DE AMOR 

Tua beleza, que uma vez perdi de vista

por longo tempo, é longa,
não simétrica, e veste

as cores terrosas que me fazem vê-la.

Uma longa beleza. Que é isso?
Uma canção

que pode ser cantada uma e outra vez
longas notas ou longos ossos.

O amor é uma paisagem que as longas montanhas
definem mas não

separam da

distância imperceptível.
No outono, no outono,

tuas árvores esticam
seus braços longos em mangas

de vermelho terra e
amarelo céu, um pouco
podadas. Eu dou

longos passeios por eles. As uvas
que precisam de geada para amadurecer

são âmbar e crescem profundas na
sebe, meio ocultas,
como tua beleza cresce em longas gavinhas

meio na escuridão.

LOVE SONG 

Your beauty, which I lost sight of once
for a long time, is long,
not symmetrical, and wears
the earth colors that make me see it.

A long beauty, what is that?
A song
that can be sung over and over,
long notes or long bones.

Love is a landscape the long mountains
define but don’t
shut off from the
unseeable distance.

In fall, in fall,
your trees stretch
their long arms in sleeves
of earth-red and

sky-yellow, a little
lop-sided. I take
long walks among them. The grapes
that need frost to ripen them

are amber and grow deep in the
hedge, half-concealed,
the way your beauty grows in long tendrils
half in darkness.

§

OS ELFOS

Os elfos não são menores
que os humanos, e caminham
como os humanos fazem, nesse mundo,
mas com mais graça que a maioria,
e não são imortais.

Sua beleza os separa
dos demais homens e mulheres
a menos que uma mulher tenha aquele fogo frio em si

chamado poeta: com isso
ela pode vê-los e por sua luz

eles a conhecem e não a temem

e prateadas línguas de amor
cintilam entre eles.

THE ELVES

Elves are no smaller
than men, and walk
as men do, in this world,
but with more grace than most,
and are not immortal.

Their beauty sets them aside
from other men and from women
unless a woman has that cold fire in her
called poet: with that

she may see them and by its light
they know her and are not afraid
and silver tongues of love
flicker between them. 

***

 

MARIANA BASÍLIO (1989) é poeta. Autora de Nepente (Giostri, 2015) e Sombras & Luzes (Penalux, 2016), atualmente versa Megalômana, e Tríptico Vital (3º lugar ProAC 2016). Tem poemas em revistas do Brasil e de Portugal, como alagunas, Diversos Afins, Garupa, Germina, InComunidade, mallarmargens, Odara, Raimundo, entre outras. Aqui no escamandro já apareceu quatro poemas. Contato: http://www.marianabasilio.com.br

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poesia, tradução

uma tradução medoñenta pra pink dog, por nóspornós

Elizabeth Bishop com índios em visita à Amzônia

Elizabeth Bishop em visita à Amazônia – com índios que gritam num silêncio ensurdecedor EU NÃO SOU SEU ZOOLÓGICO.

 

claro que a poema podia estar e está nos icebergs imaginários. mas essa poema só quer ficar dançada num beatboompá do rap sem qualquer música e arranha lá no fundo mais que rima —rhythm and poetry. essa poema só quer dançar a tradução mais analfabeta, dançar co’cês tudim. todos coloridin todos índios todos pretos coloridos pretos e aqueles pretos e os quase todos pretos de tão pobres.

         nina rizzi

***

Cã-de-rosa

[Fortaleza]

O sol é encarnadoescaldante, o céu azul puro cirrus.
Cangas & biquínis vestem a praia de todos coloridos.
Nua, entre o passo bêbo e a corrida, você cruza a avenida.

Ó, nunca vi uma cadela tão peladinha!
Peladinha, cor-de-beiços, imberbe cã-de-rosa…
Assustada, a reca recua – olha ispritada.

Claro que tão espumando de gastura, com medo de raiva.
Tá é abirobado não, mãh! – é um caso de sarna
avie lá os zóim enribado. Onde estão seus bebêzim?

(A mãe, escarraga a enfermeira, com as tetas cheias, amojadas)
Em que favela você os escondeu, puta pobre, cadela, rapariga
enquanto implora? vive de seus zói picardia e sebo nas canela?

Você não sabia? Saiu no Barra Pesada, em todos os jornais, que é                        [que fazem
para resolver esse tipo de problema; como você acha que lidam com                         [a ruma
de mendigos? Assuvia feito Iara e rebola tudim na maré cheia, até                         [chegar na Barra.

Podiscrê: verminoso, chambregado, zuruó, aleijados, descatitados
todos vão nadando pelo esgoto que escorrega nas periferias escuras.

Se fazem isso com quem implora desmilinguido
cus de cana e noiados e pebados, tomados pela cirrose e fome e                        [neurose
o que não fariam por uma doente de quatro, cãs, cadelas?

Nas barbearias, bares, livrarias, calçadas e esquinas
a piada é o arengue com os mendigos
– ao invés de dar esmolas, dão coletes salva-vidas.

Mas você, cã-de-rosa, não seria capaz
de remar com suas pernas nem sequer boiar.
Avie: uma idéia prática, a delicada

solução é se mascarar.
Esta noite você não precisa se dar ao luxo de ser essa bosta-
merda monstruosa. Será única, cã-de-rosa mascarada micareta.
Logo invém quarta de cinzas, mas oxe! todo dia é carnaval, feriado                        [nacional.
Você pode sambar? Como vai se fantasiar, papangu?

Todos dizem que o Carnaval é um festejo coisado
– as rádios, os crentes, os descontentes, esse povo fêi que bota
buneco em tudo o que é pra gente. Conversa fiada, mininu.

O Carnaval é só o mi disbuiado, é porreta!

Arribe! uma cadela depilada e tão rosinha assim nuazinha não                        [pega bem.
Sai do mei! se fantasie, se mascare e dance o Carnaval!

Iiiiiiêêêiiiiii!!!

Fortaleza, 2017.

 

PINK DOG

[Rio de Janeiro]

The sun is blazing and the sky is blue.
Umbrellas clothe the beach in every hue.
Naked, you trot across the avenue.

Oh, never have I seen a dog so bare!
Naked and pink, without a single hair…
Startled, the passersby draw back and stare.

Of course they’re mortally afraid of rabies.
You are not mad; you have a case of scabies
but look intelligent. Where are your babies?

(A nursing mother, by those hanging teats.)
In what slum have you hidden them, poor bitch,
while you go begging, living by your wits?

Didn’t you know? It’s been in all the papers,
to solve this problem, how they deal with beggars?
They take and throw them in the tidal rivers.

Yes, idiots, paralytics, parasites
go bobbing int the ebbing sewage, nights
out in the suburbs, where there are no lights.

If they do this to anyone who begs,
drugged, drunk, or sober, with or without legs,
what would they do to sick, four-legged dogs?

In the cafés and on the sidewalk corners
the joke is going round that all the beggars
who can afford them now wear life preservers.

In your condition you would not be able
even to float, much less to dog-paddle.
Now look, the practical, the sensible

solution is to wear a fantasía.
Tonight you simply can’t afford to be a-
n eyesore… But no one will ever see a

dog in máscara this time of year.
Ash Wednesday’ll come but Carnival is here.
What sambas can you dance? What will you wear?

They say that Carnival’s degenerating
— radios, Americans, or something,
have ruined it completely. They’re just talking.

Carnival is always wonderful!
A depilated dog would not look well.
Dress up! Dress up and dance at Carnival!

1979

[Elizabeth Bishop, New Poems, 1979]

 

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Carina Sedevich, por Jennifer Araújo

carina-semi

Carina Sedevich nasceu em Santa Fé, Argentina em 1972 e atualmente reside em Córdoba, Argentina. Licenciada em Comunicação pela Universidade Nacional de Vila Maria e doutora em Semiótica pela Universidade Nacional de Córdoba, a poeta publicou até o momento 10 livros de poesia: La violencia de los nombres (Ediciones Fe de Ratas, Santa Fé, 1998); Nosotros No (Lítote Ediciones, Santa Fé, 2000); Cosas dentro de otra cosa (Lítote Ediciones, Santa Fé, 2000); Como segando un cariño oscuro (Llanto de Mudo Ediciones, Córdoba, 2012); Incombustible (Alción Editora, Córdoba, 2013); Escribió Dickinson (Alción Editora, Córdoba, 2014); Klimt (Suburbia Ediciones, Gijón, España e Club Hem Editores, La Plata, 2015); Gibraltar (Dínamo Poético Editorial, Córdoba, 2015); Un cardo ruso (Ediciones del Movimiento, Maracaibo, Venezuela e Alción Editora, Córdoba, 2016); Cuadernos de Lolog (Pasto Ediciones, Córdoba, 2016).

Carina nunca viu a literatura como carreira, sendo a poesia, desde a infância, um prazer e não uma (futura) profissão para a autora.  Carina Sedevich acredita não seguir ou pertencer a nenhum movimento literário e diz não saber apontar quais são as influências de sua escrita, pois não tem formação em específica em literatura e quando questionada, em entrevista, sobre os autores pelos quais se interessa a poeta faz uma longa lista de nomes de diferentes nacionalidades e estilos. Entretanto, apesar de a autora não dar nomenclatura, formato ou rótulo a sua poesia, o leitor pode perceber, logo nos primeiros contatos, uma escrita intimista e, ao passo que descobre um pouco mais sobre sua vida, nota um forte traço biográfico. O leitor pode ver claramente essa questão autobiográfica nas poesias de Carina, principalmente após ver suas entrevistas, pois a própria autora afirma que seus livros acompanham sua vida, sendo perceptível o relato sutil e por vezes explícito de acontecimentos pessoais como depressão, divórcio e mudança do filho.  Quanto à forma, sua poesia não apresenta forma fixa, métrica ou rima exata, o formato de seus textos muda de livro para livro, de poema para poema. Quanto a temática, Carina escreve sobre temas cotidianos, como amor, desamor, passado, morte, mudanças interiores e exteriores, entre outros, em suma, a autora diz escrever sobre a vida, pois acredita que não é possível escrever sobre outra coisa:

          “Con respecto a los temas de mi escritura debo decir que no los elijo: los temas de mi escritura vienen a mí como viene la vida. Escribo sobre la vida, creo que es imposible escribir sobre otra cosa. Siempre digo que no hay muchos temas para el ser humano: la vida, por ende la muerte. Y dentro del infinito tema de la vida caben todas las cuestiones en que las personas pueden pensarse, sentirse, ser: el amor, el desamor, el sentido, el sinsentido.  Así que no hago otra cosa que escribir sobre eso.” (Carina Sedevich em entrevista 26/10/2016).

***

  1. (de Gibraltar, 2015)

 El olvido es un fruto que requiere trabajo.

Casi siempre tardío, pero rara vez dulce.
No es uva ni es la parra donde pende el racimo.

No es como la sombra que daría la parra
ni como sus raíces contraídas y bruscas.

Se parece a la piedra del cantero y la fuente
que apisona la parra, que la ordena y la ciñe.

*

Hay que hacer saltar el olvido de un golpe
como a una piedra caliza en la cantera.

Que se entibie en la mano que quiera tallarla.
Sea opaca a los ojos. Sea venérea y ajena.

*

Una piedra tan blanca es casi como un niño.
Casi un sacramento para mí.

Inclino mis huesos como panes ácimos
sobre cunas que guardan el amor ajeno.

Qué fue de la ternura que pude sentir.
La siento en la garganta bajar como una hostia.

O esquecimento é um fruto que requer trabalho.

Quase sempre tardio, porém raramente doce.
Não é uva nem é a videira de onde pende o cacho.

Não é como a sombra que a videira daria
nem como suas raízes comprimidas e ásperas.

Se parece com a pedra do cercado e a fonte
que pisoteia a vide, que a ordena e a cinge.
*

Deve-se arremessar o esquecimento de súbito
como uma pedra de calcário na pedreira.

Que se aquece na mão que queira esculpi-la.
Seja opaca aos olhos. Seja venérea e alheia.
*

Uma pedra tão branca é quase como um filho.
Quase um sacramento para mim.

Dobro meus ossos como pães ázimos
sobre berços que guardam o amor ao outro.

O que houve com a ternura que pude sentir.
A sinto na garganta descendo como uma hóstia.
§

  1. (de Escribió Dickinson, 2014)


Enciendo la lámpara de sal de la montaña

junto a mi cama.
Me suelto el pelo
recordando las canas invisibles.
Me acuesto entre las sábanas de hilo
con la bata dorada de la China.
Debajo mi piel blanca no desea
ni en sus botones rosados
ni en sus lunares pálidos.
Sobre la almohada se escuchan mis anillos
porque está fresco, quizás,
y se afinaron mis dedos.
El oro, la plata, la amatista.
Afuera la noche se ha espesado
porque terminó la luna llena.
Empieza el mes que precede al invierno.

Qué ligera que soy sin tus deseos.

Qué dulce corre el alma
en mi esqueleto.
Qué cierta es esta cara y estos flancos
qué ciertos que son,
qué delicados.
Me admira mi gata, blanca y parda,
y yo la admiro a ella en su silencio.
Hasta el perfume rojo de las flores
tengo.

Qué ligera que soy sin mis deseos.

Acendo a lâmpada de sal da montanha
ao pé de minha cama.
Solto meu cabelo
recordando os grisalhos invisíveis.
Me deito entre os lençóis de linho
com o chambre dourado da China.
Por baixo, minha pele branca não deseja
nem com seus botões rosados
nem com suas pintas pálidas.
Sobre a almofada se ouvem meus anéis
porque está fresco, talvez,
e se afinaram meus dedos.
O ouro, a prata, a ametista.
Lá fora a noite está mais espessa
porque terminou a lua cheia.
Inicia o mês que precede o inverno.

Como sou ágil sem seus desejos.

Como corre suave a alma
em meu esqueleto.
Como é pura esta cara e estas curvas
como são puras,
tão delicadas.
Minha gata me admira, branca e parda,
e eu a admiro em seu silêncio.
Até o perfume vermelho das flores
tenho.

Como sou ágil sem meus desejos.
§

3. (de Cuadernos de Lolog, 2016)

 

 Palermo, Buenos Aires

 

 El viento mueve las hojas de los árboles

como señales de luz intermitente

junto al sendero donde sé que vive

el hombre aquel, que yo quería tanto.

Vuelve su nombre, cada vez más raro,

como una caja que se quedó vacía.

*

No voy a verlo.

Cae la semilla de los plátanos.

Vuelan los pájaros,

demasiado bajo.

Mujeres hermosas

pasan muchas.

Más que los copos

que caen de las ramas

o la bandada

de palomas locas.

*

Yo envejezco.

*

Estoy lejos de todo.

De la Belleza,

de la Inmensidad.

Ahora que Comprendo

y Compadezco,

ahora que cualquier lugar

es bueno,

estoy arribando siempre tarde.

*

Pasan los hombres sin Misterio

sobre mi corazón sin Inquietud.

*

Sólo cuando lo olvido todo

el tiempo se mueve, intempestivo.

Profundamente,

como un atentado.

*

-Estas flores blancas que se abren

sobre los árboles, para Navidad,

parece que lo hicieran a propósito.-

Palermo, Buenos Aires

O vento move as folhas das árvores

como sinais de luz intermitente

junto ao caminho onde sei que vive

o homem  a quem eu amava tanto.

Seu nome volta, cada vez menos,

como uma caixa que ficou vazia.

*

Não vou vê-lo.

Cai a semente das árvores.

Voam os pássaros,

muitíssimo baixo.

Mulheres formosas

passam muitas.

Mais que os flocos

que caem dos galhos

ou a revoada

de pombas loucas.

*

Eu envelheço.

*

Estou distante de tudo.

Da Beleza,

da Imensidão.

Agora que Compreendo

e Compadeço,

agora que qualquer lugar

é bom,

estou chegando sempre tarde.

*

Passam os homens sem Mistério

sobre meu coração sem Inquietude.

*

Só quando o esqueço por completo

o tempo muda, intempestivo.

Profundamente,

como um atentado.

*

– Estas flores brancas que se abrem

sobre as árvores, para o Natal,

parece que o fizeram de propósito.-

***

Jennifer Araújo, graduanda no curso de Letras (Licenciatura em Língua Portuguesa, com habilitação em Português como Língua Estrangeira) na Universidade Estadual de Campinas.

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Cantar Langston Hughes, por Pedro Tomé: “Manhã Seguinte”

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Então, se a poesia tenta transmitir algo além do que pode ser transmitido nos ritmos da prosa, continua, do mesmo modo, havendo uma pessoa falando a outra; e isso também é verdade se você canta, pois cantar é outra maneira de falar. (T. S. ELIOT)

Famoso poeta do blues, Langston Hughes (1902-67) foi um dos pioneiros na expressão da cultura popular negra estadunidense através do veículo “formal” da literatura escrita. O poema “Morning After”, que traduzi para o português e musiquei, foi publicado pela primeira vez no livro Shakespeare in Harlem, de 1942. Assim como muitos poemas da parcela dita mais musical da obra de Hughes, “Morning After” é composto no formato cancional do twelve-bar blues, em que os dois primeiros versos são replicados e em seguida recebem uma conclusão nos dois versos finais, que encerram o ciclo de 12 compassos de cada estrofe.

Em tom jocoso, o enunciador do poema relata que, na noite anterior, após abusar de uma bebida alcoólica de qualidade duvidosa, teve pesadelos em que se via no inferno. Ao acordar, deparou-se com sua companheira roncando boquiaberta num volume ensurdecedor. As imagens apresentadas mostram certo apelo ao grotesco, com a mulher sendo comparada a um poço aberto e a uma multidão ruidosa. Poderíamos pensar numa espécie de devaneio experimentado pelo enunciador, que vai se intensificando com a sobreposição de sucessivas camadas: a embriaguez, o pesadelo e o estímulo sensorial dos sons de ronco. Se as duas primeiras estrofes soam como relatos, com verbos no passado, a terceira já se coloca como uma interpelação à mulher para que deixe de roncar tão alto, com verbos no imperativo, uso de vocativos e de exclamações.

Quanto à linguagem, as expressões e a grafia das palavras remetem ao inglês falado dos negros dos EUA (black english): “licker” em vez de “liquor”, “I drempt” em vez de “I dreamed”; “you jest” em vez de “you’re just”.

Resolvi musicar o poema com base na progressão de acordes tradicional do blues, em que se alternam os acordes tônico, subdominante e dominante: no caso, a tonalidade escolhida foi a de Lá Maior. A harmonia fica então configurada em torno dos acordes de Lá, Ré e Mi. Optei por uma sequência não tão óbvia, em que se começa a cantar no acorde subdominante (Ré Maior) em vez do tônico (Lá Maior), como seria mais intuitivo. Tal estrutura é encontrável em canções como “Little Red Rooster”, de Willie Dixon (1915-92), cuja versão mais famosa é a interpretada por Howlin’ Wolf (1910-76), expoente do blues elétrico de Chicago. 

Porém, a grande inspiração para o arranjo veio das canções de outro grande nome do blues elétrico do pós-Segunda Guerra: John Lee Hooker (1917-2001), oriundo do Mississippi, como seus colegas de Chicago, mas radicado em Detroit. Como canções de referência para a musicalização, eu citaria “Wandering Blues”, “Hobo Blues” e “Boogie Chillen”, todas de Hooker, cujo estilo se caracteriza pela instrumentação mínima, em que violão e voz são no máximo acompanhados pela percussão da batida do pé no assoalho. Busquei inspiração em seus licks e riffs de violão, altamente percussivos e tocados em resposta aos versos cantados.

O canto de Hooker é grave e sombriamente calmo, com eventuais arroubos vocais nos momentos em que a música se adensa. Muito próximo da fala, seu modo de cantar soa como um prosear: se “cantar é outra maneira de falar”, no dizer de Eliot, Hooker realiza essa comunicabilidade expressiva, tão típica do blues, em sua plenitude. Detectei igualmente um tom anedótico, de relato pessoal, no poema de Hughes, donde minha ideia de cantar de maneira pouco melódica, quase recitativa, como quem acorda meio tonto da ressaca e desorientado pelas visões de uma noite delirante. Assim, busquei privilegiar certas inflexões da voz que denotem ironia, súplica etc., num canto cuja teatralidade se acentua particularmente na estrofe final, quando minha voz adquire um timbre rouco, frouxo, meio nauseado – e aqui eu gostaria de destacar a influência de Raul Seixas, outro praticante da entonação vocal altamente interpretativa, além de pioneiro do blues no Brasil.

O uso da viola caipira, afinada em “ceboção em ré maior”, confere um sabor brasileiro à gravação, além de sugerir algo sobre as diversas confluências entre o universo do blues rural estadunidense e a música de raiz dos interiores do Brasil, como o tom de causo mineiro que enxergo em “Morning After”.

A tradução do poema foi pautada pela musicalização: os versos em português foram se consolidando à medida que eu buscava cantá-los, verificando empiricamente o que soava bem como canto de blues. Nesse sentido, trata-se de uma tradução em voz alta, não presa à textualidade estrita, à leitura/escritura silenciosa. Esse parâmetro aural/vocal resolve, por si só, as questões do ritmo e rima. Por exemplo, para fazer jus à regularidade rítmica de “your mouth was open like a well”, com alternância entre sílabas tônicas e átonas, lancei mão de outra cadência em “boca era um bueiro aberto”. Nesse verso, em que a cadência é salientada pela aliteração da consoante “b”, a alternância entre uma tônica e duas átonas foi permitida pela flexibilidade prosódica do canto, em que pude enfatizar a primeira sílaba de “bueiro”, desse modo criando uma célula métrica de tercinas – para colocar em termos musicais.

A naturalidade da expressão foi também um critério: na canção popular, a comunicação deve ser direta, e por isso busquei fluidez sintática e escolha léxica acessível. Se não optei por algum socioleto específico do português brasileiro a fim de fazer jus ao black english de Hughes, usei o registro da fala contemporânea (“eu tava lá no inferno”), com algumas gírias (“goró”). Em verdade, usei o registro da minha própria fala, e assim creio ter obtido uma maior naturalidade.

De todo modo, me parece que a canção popular, para além da naturalidade na expressão, exige certo grau de entretenimento para o ouvinte. Daí a opção por mencionar o centro de São Paulo como tradução para “great big crowd”: a aclimatação metafórica, comum em tradução de canção, não só dá conta do efeito humorístico dos versos originais – em que o ronco da pequena moça é comparado a uma multidão barulhenta –, mas passa ao público receptor brasileiro certa sensação de familiaridade, tendo em vista a referência à maior cidade do país. Do ponto de vista musical, o uso da viola também traz essa familiaridade. Afinal, não estou apenas fazendo blues, estou fazendo blues brasileiro; e aí está o cerne do próprio processo de tradução – reemitir, não replicar, o poema, levando em consideração certos aspectos da língua-cultura de chegada. O poema traduzido é, como objeto autônomo, um poema brasileiro.

Pedro Tomé

* * *

Manhã Seguinte

Passei tão mal essa noite,
Nem respondia mais por mim.
Passei tão mal,
Nem sabia mais de mim.
Minha vista embaçou
Por causa de um goró ruim.

Eu sonhei essa noite
Que eu tava lá no inferno.
Sonhei essa noite
Que eu tava lá no inferno.
Acordei e olhei pros lados –
Babe, sua boca era um bueiro aberto.

Eu falei, Baby! Baby!
Vê se não ronca tão alto.
Baby! Faz favô!
Vê se não ronca tão alto.
Você é pequenininha mas seu ronco
Lembra o centro de São Paulo.

Morning after

I was so sick last night I
Didn’t hardly know my mind.
So sick last night I
Didn’t know my mind.
I drunk some bad licker that
Almost made me blind.

Had a dream last night I
Thought I was in hell.
I drempt last night I
Thought I was in hell.
Woke up and looked around me –
Babe your mouth was open like a well.

I said, Baby! Baby!
Please don’t snore so loud.
Baby! Please!
Please don’t snore so loud.
You jest a little bit o’ woman but you
Sound like a great big crowd.

 

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1 versão pra linhas retas – Susana Thénon, por Nina Rizzi

 

thenon-susana-gr

susana thénon (buenos aires/ argentina, 1937-1990). além de poeta, foi tradutora, ensaísta e fotógrafa artística. senhora de uma voz irônica, sua poesia não se assemelha a de nenhum outro conterrâneo, embora seja comumente associada , junto com alejandra pizarnik e juana bignozzi, a chamada geração de 60; não fez parte de nenhum grupo ou movimento literário, sua relação com os poetas de sua geração é quase nula, salvo exceções como maria negroni, que mais tarde compilou seus livros póstumos La Morada Imposible I y II, e alejandra pizarnik, com quem publicou na revista literária agua viva, nos anos 60 e uma de suas poucas amigas. a linha reta que se segue abaixo consta no volume La morada imposible (corregidor, 2001), que reúne as obras completas de susana thénon (1931-1991), em edicão de ana maría barrenechea e maría negroni.

p.s.: em 2013 traduzi o volume Susana Thénon: Habitante do Nada, que pode ser lido e baixado aqui!

a linha reta abaixo é uma primeira versão para o que não pode ser reto – soa estranho o maravilhamento; qualquer coisa entre o impossível y o necessário. a paixão o rastro y o fracasso.

***

 I

Eu creio nas Noites. – R. M. Rilke

Ontem à tarde pensei que nenhum jardim justifica o amor que se afoga desaforadamente em minha boca e que nenhuma pedra colorida, nenhum jogo, nenhuma tarde com mais sol que de costume, conseguem formar a sílaba, o sussurro esperado como um bálsamo, noite e noite.

Nenhum significado, nenhum equilíbrio, nada existe quando o não, o adeus, o minuto recém-morto, irreparável, se levantam inesperadamente e cegam até morrermos em todo o corpo, infinitos.

Como uma fome, como um sorriso, penso, deve ser a solidão, já que assim que nos engana e entra e assim a surpreendemos uma tarde reclinada sobre nós.

Como uma mão, como um recanto simples e sombreado deveria ser o amor para tê-lo perto e não desconhecê-lo cada vez que nos invade o sangue.

Não há silêncio nem que canção que justifiquem esta morte lentíssima, este assassinato que ninguém condena.

Não há liturgia nem fogo nem exorcismo para deter o fracasso risível dos idiomas que conhecemos.

A verdade é que me afogo sem penalidade, pelo menos resisti ao engano: não participarei da festa suave, nem do ar cúmplice, nem da metade da noite.

Mordo ainda e ainda que pouco se pode já, sorriso guarda um amor que assustaria a deus.

 

II

Voltará essa mulher de muitos nomes, sua morada sem olhos.

Ela gritava já nos corredores como um cardume de violinos raivosos, já se nutriam as gralhas-pretas de sua  beleza quando eu avançava pelos poentes de minha mãe, nua e mínima, para iniciar o grande erro.

Neste mundo, nesta pedra escura, não é crime te invocar, rasgar tua pálpebra de luz com amor, com implacáveis anzóis?

Somos pequenas mortes em tua morte?

Ou nos recebe como sombras em tuas costas de sombra, em teu silêncio acostumado ao mar?

Não: chega aqui com teu murmúrio ao redor, que nos ama, depois de tudo, com a clara paciência de um rio, você, cercada de vento, rosto de alma.

 

III

vento nas torres do rio oeste ri distante a boca extinta empapado em suor o corpo busca uma cabeça de chacal nos pátios se acende o nome oculto vibra a noite (por que meu amor este poema vazio ) sob a lua de metal o galo sonha aglomeradas vigílias (por que meu amor esta casa de ar)

 

IV

as palavras em branco rabiscadas repletas malqueridas as palavras aceitam ao que escreve convertemos cada noite em palavra?

altas mentiras?

tetos de ar que abrigam para não te recordar a cada passo que a raposa está no encalço e permite no entanto que escape?

corre sim corre queima a estopa de tua liberdade e anseia grades mas onde há grades?

só há estranhamento e te faço senhas e alguma vez há flores ou espessura de sol quão longe estou dentro de mim nunca te disse: sou um infinito disfarçado de osso corre corre te busca solta os deuses pelo rastro corre corre te inventa solta as fúrias pelo rastro e alguma vez há luzes ou ferradura de amor (altas mentiras) (redenções do barro) as palavras proféticas riscadas gravemente feridas as palavras atrapalham ao que escreve.

§

I

 Yo creo en las Noches. R. M. Rilke

 Ayer tarde pensé que ningún jardín justifica el amor que se ahoga desaforadamente en mi boca y que ninguna piedra de color, ningún juego, ninguna tarde con más sol que de costumbre alcanzan a formar la sílaba, el susurro esperado como un bálsamo, noche y noche.

 Ningún significado, ningún equilibrio, nada existe cuando el no, el adiós, el minuto recién muerto, irreparable, se levantan inesperadamente y enceguecen hasta morirnos en todo el cuerpo, infinitos.

 Como un hambre, como una sonrisa, pienso, debe ser la soledad puesto que así nos engaña y entra y así la sorprendemos una tarde reclinada sobre nosotros.

 Como una mano, como un rincón sencillo y umbroso debería ser el amor para tenerlo cerca y no desconocerlo cada vez que nos invade la sangre.

 No hay silencio ni canción que justifiquen esta muerte lentísima, este asesinato que nadie condena.

 No hay liturgia ni fuego ni exorcismo para detener el fracaso risible de los idiomas que conocemos.

 La verdad es que me ahogo sin pena, por lo menos he resistido al engaño: no participé de la fiesta suave, ni del aire cómplice, ni de la noche a medias.

 Muerdo todavía y aunque poco se puede ya, sonrisa guarda un amor que asustaría a dios.


II

 Volverá esa mujer de muchos nombres, su mirada sin ojos.

 Ella gritaba ya en los corredores como un cardumen de violines rabiosos, ya se nutrían las cornejas de su hermosura cuando avanzaba yo por los puentes de mi madre, desnuda y mínima, para iniciar el gran error.

 En este mundo, en esta piedra oscura ¿no es crimen invocarte, rasgar tu párpado de luz con amor, con despiadados anzuelos?

 ¿Somos pequeñas muertes en tu muerte?

 ¿O nos recibes como a sombras en tu espalda de sombra, en tu silencio acostumbrado al mar?

 No: he aquí que llegas con tu murmullo alrededor, que nos amas, después de todo, con la clara paciencia de un río, tú, circuída de viento, rostro de alma.


III

 viento en las torres del oeste ríe lejana la boca extinta empapado en sudor el cuerpo busca una cabeza de chacal en los patios se enciende el nombre oculto vibra la noche (por qué mi amor este poema vacío) bajo la luna de metal el gallo sueña aglomeradas vigilias (por qué amor mío esta casa de aire)


IV

 las palabras en blanco borroneadas repletas malqueridas las palabras acechan al que escribe ¿convertiremos cada noche en palabra?

 ¿altas mentiras?

 ¿techos de aire que alberguen para no recordarte a cada paso que el zorro está en la huella y permite que escapes todavía?

 corre sí corre quemas la estopa de tu libertad y anhelas barrotes pero ¿dónde hay barrotes?

 solo hay ajenidad y te hago señas y alguna vez hay flores o espesura de sol qué lejos estoy dentro de mí nunca te dije: soy un infinito enmascarado de hueso corre corre búscate suelta a los dioses por el rastro corre corre engéndrate suelta a las furias por el rastro y alguna vez hay luces o herradura de amor (altas mentiras) (redenciones del barro) las palabras proféticas tachadas malheridas las palabras atrapan al que escribe.

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perverter cummings, achar ungaretti

 

ontem o matheus mavericco fez uma bela postagem sobre o poema mais famoso de e.e.cummings por estas plagas.

bateu aquela vontade de traduzir, mas acabei pervertendo, o que é uma forma honesta de versão.

aqui vão elas, sem mais.

guilherme gontijo flores

§

a primeira é um contracummings que celebre a rosa em flor, num movimento de interioridade que pode apontar para a pluralidade relativa (reparem em os, as, o, um, em vez da série de l e a do inglês). transmutação da folha em queda para flor&força

contracummings

§

a segunda vem de uma coincidência sonora: o poema mais famoso de giuseppe ungaretti, “mattina”, tem apenas seis sílabas poéticas (m’illumino d’imenso), tal como este de cummings (loneliness, a leaf falls, se lermos as duas imagens em linha). traduzi então ungaretti para a forma de cummings, lançando uma série de desdobramentos interiores (me, o, l, um), que mais uma vez contrariam a solitude cummingsiana por um transbordamento do deslumbre.

cummings-ungaretti

(perversões de guilherme gontijo flores)

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