crítica, poesia, xanto

XANTO|Poesia brasileira, livros da década: partes V e VI

uma casa para conter o caos
dez anos de poesia brasileira
[2008 – 2018]

Partes V & VI

Como anunciado e, agora, dando continuidade, seguimos hoje com a série de livros escolhidos pelo professor Gustavo Silveira Ribeiro. A quem não tenha visto os posts anteriores, vale reforçar o anúncio: os livros não estão aqui numa numeração qualitativa de lista; o projeto aqui não é esgotar o interesse da poesia brasileira, por isso mesmo os livros foram aqui escolhidos por múltiplos critérios.

* * *

Ricardo

o que quer que o meu corpo escreva
Modelos vivos
2010 – Editora Crisálida
Ricardo Aleixo
[Belo Horizonte – 1960]

Numa década em que as experiências em torno da poesia visual parecem ter se deslocado, numa demonstração de que – em que pese o vigor criativo de um André Vallias e de um Sérgio Medeiros, por exemplo – o eixo vanguardista vindo dos concretos perdeu tração entre nós, os Modelos vivos de Ricardo Aleixo conseguem ao mesmo tempo sintetizar o enorme legado (brasileiro e internacional) da visualidade na poesia e expandi-lo, propondo novos meios de relação entre palavra e imagem, entre traço e corpo, entre artes plásticas e literatura, enfim. Um dado decisivo nesse reposicionamento da questão do visível e da visualidade na cena da poesia brasileira contemporânea passa, sem dúvida, pela performance, pelo lugar que essa prática artística (todo um campo de pesquisa e invenção quase desconhecido no país, pelo menos nos termos radicais em que o poeta mineiro o coloca) ocupa no livro. Os grafismos e os registros manuais da escrita que atravessam Modelos vivos dão conta de um processo vivo, em pulsação, que se não acontece, em ato, diante dos olhos do leitor, remete para uma tentativa de registro daquilo que, na corporalidade da ação performática, é gesto irrepetível, memória das mãos do artista-criador. Do mesmo modo, a presença, no livro, de um poema-ensaio como o “Poemanto” aponta também para o mesmo lugar, uma vez que o texto descreve e procura refletir sobre a corpografia ritual que a performance institui na obra de Aleixo, criando um novo ângulo através do qual a consciência visual do poeta vai se expressar. Até pela sua extensão (são 75 poemas, muitos dos quais longos, outros tantos seriais), Modelos vivos assinala ainda, com maior rigor, as linhas de força desse poeta tão singular no panorama brasileiro, em cuja obra se cruzam o legado sofisticado e hiperconsciente do Concretismo (de Augusto de Campos em especial), o gosto pela improvisação e pela mistura de um Hélio Oiticica (às vezes de um Leminski) com o resgate, de dimensão histórica e espiritual, da ancestralidade africana, seus sons, movimentos, gestos e sentidos. Talvez seja possível dizer que Aleixo, nos vários livros que publicou desde então, não tenha voltado a atingir o grau de domínio técnico e o largo alcance político dos poemas reunidos nestes Modelos vivos, o que explicita
ainda mais a importância do material, seja pela identificação com os marginalizados que se projeta em tantos textos (acentuando o compromisso ético perceptível desde o título, que remete aos artistas de rua do nosso tempo, invisíveis, e aos modelos anônimos fixados em quadros do passado), seja pela dimensão renovadora de seus objetos verbais e não verbais.

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ANA

um acordo tácito com as coisas vivas

O livro das semelhanças
2015 – Companhia das Letras
Ana Martins Marques
[Belo Horizonte – 1977]

Se não é o melhor livro da curta, mas produtiva, trajetória poética de Ana Martins Marques (o exercício de concisão e a melancolia agridoce que informam Como se fosse a casa [2017] fizeram a poeta alcançar, até agora, seus resultados mais expressivos), O livro das semelhanças é certamente o seu volume mais importante e bem elaborado, um projeto muito consciente que reúne e organiza poemas de notável manejo técnico (a variedade e a precisão rítmica são um seu trunfo, por exemplo) e grande capacidade comunicativa, que conseguem dialogar, sem derivar para a banalidade, a fórmula fácil ou o clichê de apelo mercadológico, com o leitor não especializado, atraindo para si um público crescente e variado, responsável pelos seus significativos números de vendas. Um dos elementos que talvez explique o largo alcance dos seus versos seja o coeficiente de surpresa delicada que os textos têm, capazes de extrair pequenas epifanias de um universo de coisas simples, vivências cotidianas, cenas amorosas quase em surdina. A universalidade, por assim dizer, desse procedimento é considerável, haja vista o testemunho que parte importante do modernismo, brasileiro e internacional, deixou dessa combinação entre realismo, sobriedade construtiva e aceno ao sublime. Em Ana Martins Marques essa mistura vai se somar a uma ética que parte da crítica vem aproximando do humanismo, o que por vezes lembra – muito embora não esteja presente na poeta a auto-ironia corrosiva e o indisfarçável lastro romântico – certa dicção de Manuel Bandeira. A atenção ao mundo material, visível em todos os demais trabalhos da autora, tem no Livro das semelhanças um lugar de destaque: seus poemas observam com cuidado, tomando-os como convite ao pensamento, uma miríade de objetos comuns: em primeiro lugar, o próprio objeto-livro, perscrutado em todas as suas partes, da capa ao colofão, passando pelo índice remissivo, material de uma poesia que tem na metalinguagem uma de suas questões recorrentes; o isqueiro levado no bolso, o mapa aberto em viagem, a porta, a janela, os móveis que compõem uma casa. Para cada um deles os poemas parecem ter um acordo a propor, um modo projetivo de aproximação, que neles insufla vida e lirismo ao mesmo tempo que recupera de suas formas um silêncio necessário, um estranhamento que permite compreender, de outro modo, os ordenamentos e afetos humanos. Se não funciona sempre, produzindo, vez por outra, poemas um tanto irregulares, esse intercâmbio entre a poeta e as coisas que a cercam (que cercam toda a gente, enfim) se mostra interessante e necessário ao livro, uma vez que contém, em menor escala, a lógica da permuta e das afinidades que dá sentido aos poemas da seção central do volume, seção que tem título idêntico ao livro. A questão das semelhanças estabelece um princípio relacional como base constitutiva dessa poesia, que passa a se defrontar com o deslimite do mundo, onde tudo é outro e aponta para outro: as casas em que se habita são sempre casas dos vizinhos; se está metido numa roupa que é como um navio abrigando o corpo; as lembranças dos outros são intercambiáveis com a própria memória. Ponto central do livro, os poemas reunidos nessa parte estabelecem um jogo com o leitor, que a partir da sua leitura passa a reconhecer e não reconhecer o mundo ao seu redor, percebendo-o ora mais detidamente, ora como se o visse, de novo, pela primeira vez. A força de mobilização da poesia de Ana Martins Marques passa por aí, por essa força de renovação e memória, e é, quem sabe?, desse lugar que ela tem conseguido reaproximar, no panorama contemporâneo do país, a poesia lírica e o público comum.

*

O que ainda virá:

nenhum poema é mais difícil do que sua época
Monodrama
2009 – 7Letras
Carlito Azevedo
[Rio de Janeiro/RJ – 1961]

§

lamber o mundo com a própria língua
Ciclo do amante substituível
2012 – 7Letras
Ricardo Domeneck
[Bebedouro – 1977]

§

aqui a luz faz o contrário de iluminar
Um teste de resistores
2014 – 7Letras
Marília Garcia
[Rio de Janeiro – 1979]

§

pedra angular dos sem palavra
Qvasi
2017 – 34
Edimilson de Almeida Pereira
[Juiz de Fora – 1963]

§

nesta ausência de distinção entre nós
Trilha
2015 – Azougue Editorial
Leonardo Fróes
[Itaperuna – 1941]

§

a noite explode nas cidades
Vinagre: uma antologia de poetas neobarracos
2013 – Os vândalos
Fabiano Calixto & Pedro Tostes (org.)
[Garanhuns – 1972
Rio de Janeiro – 1981]

 

Padrão
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XANTO|Poesia brasileira, livros da década: partes III e IV

uma casa para conter o caos
dez anos de poesia brasileira
[2008 – 2018]

Partes III & IV

Como anunciado e começado ontem, seguimos hoje com a série de livros escolhidos pelo professor Gustavo Silveira Ribeiro. A quem não tenha visto o post anterior, vale reforçar o anúncio: os livros não estão aqui numa numeração qualitativa de lista; o projeto aqui não é esgotar o interesse da poesia brasileira, por isso mesmo os livros foram aqui escolhidos por múltiplos critérios.

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III. saber contido em seu ser-de-céu
Roça Barroca
2011 – CosacNaify
Josely Vianna Baptista
[Curitiba – 1957]

Composto por poemas que flutuam entre a dicção popular e a experimentação de vanguarda, e também por traduções de cantos sagrados indígenas, pequenos ensaios e notas explicativas, Roça barroca é um livro múltiplo e inclassificável, verdadeiro amálgama de tradições e linguagens que vai, em oscilação permanente, da ciência à arte, do discurso antropológico moderno à imaginação poética arcaica, do mundo social agrário e interiorano (a roça) ao universo estético – ibero-americano, fundamentalmente – dos volteios e dos excessos (o Barroco). Sua natureza compósita revela o que há no projeto de estranhamento e desejo de travessia. No livro, a tradição ocidental, descentrada, convive com outros entendimentos sobre a linguagem e a poesia, colocando em suspenso, continuamente, o sentido da escrita e da atividade poética, que ora é registro de palavras, sons e mitos ameaçados (pelo extermínio, pelo esquecimento, pela invisibilidade), em dimensão etnográfica imediata, ora é construção de uma nova língua e de novas formas expressivas – contaminadas por certo sopro épico e coletivo, que deixa ver ainda a busca por modos outros de inscrição poética da subjetividade, assentada agora na deslocamento do olhar individual e na renúncia ao passado pessoal como fonte privilegiada de conhecimento e emoção lírica. A presença da língua e dos mitos Mbyá-Guarani dá ao volume um caráter de “viagem sem rumo/e sem fim” em direção ao passado e às origens, ao abrir uma dobra na História e inserir nela a perspectiva dos povos nômades e sem escrita, cuja visão de mundo convive, desse modo, em pé de igualdade com os valores e mitos dos inícios do Ocidente. Esse processo de hibridação cancela certezas metafísicas e instala o leitor num campo de especulação aberto, que se prolonga para várias direções possíveis. Em todos os poemas que compõem Roça barroca, mesmo nos que não se alimentam diretamente dos ritos e falas ameríndias, há como que um ponto de fuga, um modo dissolvente de composição que estranha as formas poéticas e o próprio uso convencional da língua portuguesa, tocadas ambas por um saber transcultural e babélico, próprio das “l i n h a s o b l í q u a s” tão caras ao imaginário geral que atravessa o livro, marcado pela espontaneidade de contornos das plantas, pela sinuosidade dos rios, pela matéria amorfa do barro e pelos ziguezagues de bichos e homens através do campo aberto, sem pouso ou destino certo – distantes, nesse sentido, da racionalidade, do passo objetivo, dos ordenamentos funcionais do mundo urbano e industrial (e seus correlatos literários). Se a poesia de Josely Vianna Baptista sempre ocupou posição singular na lírica brasileira, seja pelo diálogo bastante original que teceu com o legado da Poesia Concreta desde o seu primeiro livro, Ar (1991), seja pelo seu convívio prolongado com tradições latino-americanas pouco comuns no país, a partir do projeto levado a cabo nessa Roça Barroca (e que não se sabe que desdobramentos terá, pois a autora ainda não deu ao público outro livro de poemas) a poeta inventa para si uma trilha particular, percurso muito próprio por caminhos pouco ou nada conhecidos pela poesia de língua portuguesa.

*

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IV. estrela de contrabando no bolso
Trans
2011 – CosacNaify
Age de Carvalho
[Belém – 1958]

Age de Carvalho é poeta da forma mínima, da palavra revirada ao avesso, plurissignificante, da língua fraturada e babélica, da consciência poética levada quase às últimas consequências, para quem qualquer letra, traço, sinal diminuto no papel (ou ainda a mancha gráfica do poema, vista como dado significativo da composição) importam tanto quanto uma estrofe inteira, uma frase completa e grandiloquente, todo um aparato retórico. Seu verso curto e preciso abriga, o mais das vezes, uma sintaxe que se torce, um esforço de voltas e negaceios que nos instala num território que se poderia chamar, ao mesmo tempo, neobarroco e minimalista, se admitimos o evidente paradoxo. Dentre os poetas brasileiros do presente, Age talvez seja aquele que melhor deglutiu e meditou dois autores decisivos do século: Paul Celan, quase sempre à beira do silêncio, e Haroldo de Campos, em especial a porção final de sua obra, a poesia pós-utópica que se espalha entre A educação dos cinco sentidos [1985] e Entremilênios [2009, póstumo], construindo, em diálogo com essas duas referências tão distintas, poemas graves e reflexivos, poemas-prece nos quais a visualidade ocupa ainda lugar decisivo, sem no entanto deixar-se fixar na forma estandartizada da poesia concreta, preferindo a fragmentação atomizada da palavra, que se escande na página letra a letra, ponto a ponto. Poeta do exílio e da passagem (cujos poemas flutuam tensamente entre países, tempos, línguas e culturas), Age de Carvalho consolida em Trans a dimensão anfíbia que sua poesia buscava há muito, desde, pelo menos, Areia, arena (1986), livro no qual se aproximavam, ainda de modo incipiente, a pedra e o céu, o chão e o espírito, elementos fundamentais para o poeta nos volumes que virão – Pedra-Um (1990), Caveira 41 (2003), Ainda: em viagem (2015) e, pelo que indicam os inéditos já divulgados, o livro por vir De-estar – entrestrelas. Profundamente assentados na matéria do mundo (povoam os seus versos, essenciais a eles, plantas, paisagens, ossos e outras formas minerais, além de inúmeros corpos humanos), os poema de Trans apontam também para o transcendente, para tudo aquilo que, na vida, é fresta para o sublime e o sagrado: a perscrutação das origens, o sexo, a morte, a persistência da vida na sucessão das gerações, a arte. Imagem muito frequente no livro e em seus trabalhos mais recentes, as estrelas indicam o desejo expansivo dessa poesia, que parece recordar aos homens a sua dimensão cósmica e elevada – atenta às coisas da terra, incontornavelmente, mas jamais desligada do mistério insondável que nos cerca, cobre e constitui.

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O que ainda virá:

nenhum poema é mais difícil do que sua época
Monodrama
2009 – 7Letras
Carlito Azevedo
[Rio de Janeiro/RJ – 1961]

§

o que quer que o meu corpo escreva
Modelos vivos
2010 – Editora Crisálida
Ricardo Aleixo
[Belo Horizonte – 1960]

§

lamber o mundo com a própria língua
Ciclo do amante substituível
2012 – 7Letras
Ricardo Domeneck
[Bebedouro – 1977]

§

aqui a luz faz o contrário de iluminar
Um teste de resistores
2014 – 7Letras
Marília Garcia
[Rio de Janeiro – 1979]

§

um acordo tácito com as coisas vivas
O livro das semelhanças
2015 – Companhia das Letras
Ana Martins Marques
[Belo Horizonte – 1977]

§

pedra angular dos sem palavra
Qvasi
2017 – 34
Edimilson de Almeida Pereira
[Juiz de Fora – 1963]

§

nesta ausência de distinção entre nós
Trilha
2015 – Azougue Editorial
Leonardo Fróes
[Itaperuna – 1941]

§

a noite explode nas cidades
Vinagre: uma antologia de poetas neobarracos
2013 – Os vândalos
Fabiano Calixto & Pedro Tostes (org.)
[Garanhuns – 1972
Rio de Janeiro – 1981]

Padrão
crítica, xanto

XANTO|Poesia brasileira, livros da década: partes I e II

uma casa para conter o caos
dez anos de poesia brasileira
[2008 – 2018]

O professor da UFMG e crítico Gustavo Silveira Ribeiro escolhe e comenta os livros mais importantes da última década na poesia brasileira. Uma série de brevíssimos ensaios sobre algumas das vozes que marcaram a lírica contemporânea de 2008 para cá. Antecipamos aqui os dois textos da série, que em breve estará, completa, na página da escamandro. Um aviso aos navegantes: os livros não estão aqui numa numeração qualitativa de lista; o projeto aqui não é esgotar o interesse da poesia brasileira, por isso mesmo os livros foram aqui escolhidos por múltiplos critérios.

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I. uma arte como a sombra temperando a luz
Icterofagia
2008 – Hedra
Dirceu Villa
[São Paulo – 1975]

Poeta das máscaras e das múltiplas vozes, Dirceu Villa assume de modo bastante consciente, neste que é o seu mais complexo e extenso livro, a dupla lição de Ezra Pound: o poeta deve ser muitos sendo um só, cantando/escrevendo à maneira de outros, domando estilos e perspectivas que não são (não podem ser) as suas; o seu tempo, por sua vez, estará conectado a todos os outros tempos – ser contemporâneo é pertencer a todas as épocas (com ênfase na sua, no seu momento histórico), entrando e saindo por elas sem se deixar prender por nenhuma. Icterofagia combina, nesse sentido, o impulso em direção ao novo e à experimentação formal típico das vanguardas com a solicitação permanente da história literária e da tradição (são mais decisivas as reverberações da Antiguidade e do Medievo, mas há também traços da lírica de outros tempos da Modernidade, do século XVI ao XX), o que dá aos seus versos uma dicção bastante singular, posta entre a ordem severa dos clássicos e a tormenta desestabilizadora (e profícua) dos modernos; entre, enfim, as questões – de ordem ética e estética – ainda abertas e prementes, formuladas há milênios por poetas e filósofos, e os dilemas do tempo presente, que estranham e refratam aquelas questões, acrescentando a elas novas dimensões, que, no entanto, não satisfazem as suas demandas. No livro, a invocação das musas, dos mitos (recorde-se, aqui, o belo e emblemático poema “DISCURSO FLORAL DE DAFNE TRANSFORMADA EM LOUREIRO”, que justapõe Ovídio e Radiohead, a imaginação poética do mundo antigo, centrada no processo da metamorfose, e a visualidade comum à poesia do século XIX e XX, de Mallarmé, cummings e a Poesia Concreta) e dos trovadores se dá sobre a matéria impura dos dias que correm, eivada de burocracia, progresso e estratégias de marketing. A crítica ao mundo contemporâneo proposta nos versos de grande apuro formal, ao mesmo tempo atualiza a força derrisória dos mestres do passado (fazendo-os pensar indiretamente, por deslocamento, questões de outro momento histórico) e alonga, de modo quase indefinido, a carnadura trágica dos conflitos que assolam o mundo atual, na medida em que eles se projetam em contradições arcaicas, fundadoras. O poema dramático e a sátira são duas formas-força do passado revisitadas com maior interesse e perícia por Villa, que as toma como campo de experimentação, seja pelo aspecto anacrônico que têm diante das fórmulas poéticas do momento, seja pela atualidade urgente que elas podem ter – dado que acrescentam ao repertório político da lírica contemporânea um caráter sibilino e mordaz (caso da sátira) que as certezas e assertivas muito diretas de certa poesia presente não deixam ver, ou ampliam as possibilidades expressivas do poema a partir do efeito de deslocamento e pluralização que o drama-poesia oferece, uma vez que se abre ao simulacro de uma outra voz e à encenação (por vezes mais aguda) de um conflito entre tempos, valores, classes ou pontos de vista distintos. Erudito, multilíngue, rigoroso, o livro (cujo título remete à devoração de uma cor, indicando a incorporação, pelo poeta, do que há de melhor e de pior – o ouro e a bile) certamente foi menos lido do que poderia, mantendo-se, por vezes, à margem do debate que tem sacudido, bem ou mal, a cena poética brasileira. Ainda assim, no entanto, figura entre suas criações mais relevantes e desafiadoras, dialogando e se desdobrando na obra de poetas como Ricardo Domeneck, companheiro de geração de Dirceu, e Guilherme Gontijo Flores, cuja estreia se deu 15 anos depois do primeiro livro do autor.

§

II. uma mulher de tijolos à vista
Um útero é do tamanho de um punho
2012 – CosacNaify
Angélica Freitas
[Pelotas – 1973]

Um dos livros de maior impacto das últimas décadas no universo da poesia brasileira (em números de vendas e na presença no debate público do país), Um útero é do tamanho de um punho tem no riso e na paródia as suas principais apostas, num discurso que se arma, sempre crítico, pelos deslocamentos e pela desproporção típicas do humor, de um lado, e pelo gume terrível da derrisão de outro, a partir do qual todas as coisas que têm lugar no poema, inclusive as mais graves (o direito ao aborto, o homoerotismo e a homofobia, a misoginia difusa no tecido social brasileiro, o feminicídio), só se validam pelo olhar desabusado que de tudo ri. Os modos de composição privilegiados são as formas seriais da repetição, visíveis sobretudo nos temas e voltas da poesia antiga ou do cancioneiro popular retomados no livro, e nos poemas de estrutura anafórica que se fazem como ladainhas ou fórmulas de propaganda, utilizando a saturação como estratégia: pela repetição exaustiva alcança-se o efeito do ridículo, da piada que se impõe pela extensão sem limites de um mesmo procedimento ou informação; pela repetição, a violência invisível de um fato qualquer (por exemplo, o desprezo pelas mulheres difundido – e naturalizado – em pequenas frestas da linguagem comum) vem à tona, tornado assim absurdo e insuportável aos olhos de quem antes não o notava; pela repetição, por fim, a maquinaria do poema se revela ao leitor, num processo de desnudamento da operação poética que acentua, ainda mais, o seu caráter crítico, posto que distancia o leitor de qualquer apreciação desatenta e leve desses textos. Eles são artifícios, antipoesia, peças sem qualquer confissão sentimental ou desejo de enlevo: preferem, ao contrário, o desconforto e a reflexão. O tema fundamental do livro – os muitos modos da violência contra as mulheres e as formas várias que elas têm de enfrentá-los – foi inventivamente assumido por Angélica Freitas, que contorna as suas armadilhas e seduções fáceis com bastante habilidade e verdadeiro tino teórico: ao dar dimensão coletiva e impessoal aos seus poemas, afastando-os de modo tático da expressão de um eu individual e circunscrito, a autora potencializa a radicalidade da discussão de gênero que se dá no livro, levando às últimas consequências algumas das indagações sobre as quais seu projeto se estrutura: sobre as potencialidades do feminino, suas possibilidades de enunciação e suas liberdades; sobre a natureza dos poemas (seu aspecto genérico, seu estatuto formal, sua discursividade feminina mesma, uma vez que escrever, no livro, é tarefa por excelência das mulheres, dada a simetria entre útero e punho proposta desde o título); sobre a condição disruptiva (em relação à lei, ao Estado e à própria instituição literária) que os poemas portam. Essa modulação discursiva que se move entre o pessoal e o público, entre o relato de si e a luta coletiva tem marcado a fogo a poesia brasileira dos últimos anos, deflagrando uma onda de respostas e incitações ao diálogo, num desrecalque de temas e pontos de vista antes improváveis entre nós. Por si só isso já confirma a força, a originalidade e a pertinência (estética, política) do projeto.

Gustavo Silveira Ribeiro

Padrão