poesia

Ricardo Pozzo

Ricardo PozzoRicardo Pozzo, além de um autodeclarado “abstêmio” e “blefador”, é um poeta, tradutor, músico e fotógrafo nascido em 1971 na Argentina e radicado em Curitiba. É o organizador do Vox Urbe, as noites de poesia que ocorrem toda terça-feira às 22h no Wonka Bar em Curitiba (tem uma matéria interessante a respeito no Caderno G da Gazeta do Povo, de 2011: link aqui), colaborador do Jornal RelevO, editado por Daniel Zanella, e membro do coletivo literário Pó&Teias, idealizado pela professora e escritora Glória Kirinus, que completa 10 anos este ano.

Seus poemas estão reunidos no caderno UrbeFagoCitoZ (aludindo, convém glosar, à fagocitose celular como metáfora para o engolimento do ser pela cidade, a urbe), que inclui ainda traduções e fotografias, além dos seus poemas próprios, e circula já desde 2011 por Curitiba através da editora artesanal Rock Leituras. Também podemos encontrar alRicardo Pozzo - El vuelo de la golondrinaguns de seus poemas aqui e acolá em periódicos de respeito, como o Cronópios e Germina Literatura. Como parte de seu trabalho fotográfico – intitulado Urbe Fágica –, sua poesia se concentra bastante sobre a temática da cidade, em tudo que ela tem de “obsceno, feérico, apocalíptico, espetacular”, como diria o nosso ilustre Fausto Fawcett – com privilégio para as figuras marginais como a(o) prostituta(o) e o mendigo, não por acaso protagonista constante de muitas das fotos em sua galeria do Flickr, como as que ilustraram minha postagem de dezembro de 2012 de poemas sobre mendigos – já a outra face de sua fotografia, a de natureza mais noturna e erótica, você pode acompanhar clicando aqui.

           

Ricardo Pozzo - Urbe fachada

Junto com alguns dos seus poemas que selecionei, deixo aqui também na sequência uma seleção de links para outros sites com trabalhos do Sr. Pozzo:

Poemas na Germina Literatura

Poemas no Portal Cronópios

“Fotocorpos”, fotografias de nu artístico, na revista Mallarmargens

Dois poemas em prosa na última edição (março/2013) do Jornal RelevO

Um projeto musical, com Rodrigo Madeira e Tullio Stefano, intitulado Cartografia da Hesitação entre o Som e o Sentido.

E, para encerrar, uma entrevista para o site Curitiba Cultura sobre poesia e a cena cultural de Curitiba

Adriano Scandolara

           

Per. Plexos

Michês desfilam esculpidas. Carcaças. Na interjecional estreita. Voluntários da Pátria. Entre o estereotípico Instituto e a praça Osório. Inspecionados por. Automóveis olhos. Circunda-os. Diluídos latrocidas indiciados. Por uma jaqueta, trinta reais e alguns centavos. Ilegítima defesa. Da honra garden-party à sombra. Em ambos. Lados de falsos efebos para evitar. Que sonhos de consumo tornem-se pesadelos; ou. O remédio dos velhos. Traquejados em liquescer homopétalos gametas. Ainda vale o ditado. Homem que trabalha será dignificado.

            urbe under construction

Alvéolos de petit pavê

Um drone
observa-me
por entre
alvéolos
de petit pavê
na cidade
tipo exportação
feita
pra ninguém

E meu irmão,
que
encontra-se
jogado
para fora do
espetáculo

: cidadania
examinada,

saca de
vísceras
instituídas
em álcool,

lamenta
que a vida
é rinha
sem saída;

e a
infância
invisível,
tal qual
o mendigo,

por entre
alvéolos
de petit pavê

            urbemorpheu

Falsa Varsóvia

Sorve a turba
o compulsivo maná
do sheol adicto,

Herdeiros
de um deserto
sinuoso
no gueto
do esgoto

ao qual escoam
a hipocrisia
e a solidão da
solidariedade
interesseira.

Antes bons pais,
bons funcionários,
boas filhas,
hoje acocorados
em manilhas,
sob o tronco
dos Chorões,
festejam
um ritual lascivo

na micro sinagoga
de alumínio,
a menorá
de isqueiros.

Irmãos da nóia
desorientados
pelo Inimigo,
crêem estar,
a Terra Prometida,
além dos portões
de uma psíquica
Treblinka.

            

Tanatologia das Relações Humanas

Para melhor compor
o puzzle
das fantasias
nostálgicas
acerca do futuro,
horas em dedicado
estudo
ao feixe solar
que incide sobre a colcha
ou ao intervalo
entre fusas e semibreves
no minueto
calha sob chuva.

farta
de sua máscara hipócrita,
aguarda
o habeas corpus
que a liberte do mundo real;

hypnos sussurra
em seus ouvidos
enquanto felinos
festejam a sua volta

o mundo
ao seu redor
sempre lhe pareceu
um tanto
fora de órbita.

O contestado é agora

           

Anthropocetáceo

Igual a
personagem
desconfia
do ator
que é,
em voz
e carne,
ao remover
a primeira
camada
de maquilagem,

anthropocetáceo
emerjo,

do frívolo
mar
espesso
das
convenções
sociais.

(poemas e fotografias de Ricardo Pozzo)

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crítica, crítica de tradução, poesia, tradução

“Rapsódia de uma noite de vento” de T. S. Eliot

Old street lamp in the background of the building with sculpturesEliot já não é nenhum estranho por estas bandas, sendo que já dedicamos duas postagens ao seu Prufrock, uma com a tradução de Rodrigo Gonçalves, outra com a de Rodolfo Jaruga. Agora, eu gostaria de volver nossa atenção para um dos poemas “menores” (não tão menor assim, a bem da verdade, com seus 78 versos), presente na primeira coletânea do poeta, publicada em 1920, Prufrock and Other Observations, que é o “Rhapsody on a windy night”.

Seu título é um tanto auto-explicativo (apesar de o “on” ser ambíguo, podendo ser tanto uma rapsódia (composta) sobre uma noite de vento quanto uma rapsódia (que ocorreu) durante uma noite de vento): é um poema que se concentra sobre uma caminhada noturna da persona de Eliot, mesclando imagens confusas da memória com as cenas vistas pela figura durante a sua flanêrie. Como com a “Canção de amor de J. Alfred Prufrock”, a referência musical do título é irônica (“rhapsody” tem um sentido de algo entusiasmado em inglês, enquanto o tom do poema é melancólico), mas, diferente de Prufrock, não há um nome para essa persona, ainda que ela seja bastante semelhante ao Prufrock, em sua atitude reflexiva e desiludida em relação ao mundo das convenções sociais em que está imerso – e eu ainda arriscaria dizer que a persona da “Rapsódia” também tem suas angústias com o envelhecimento, como parece ficar sugerido na cena entre ele ter visto a criança na pedreira e o “velho siri”, com o qual ele revelando uma identificação, o que não ocorre com a criança, cujos olhos não permitem que ele veja “nada por trás”.

Estruturalmente, eu gostaria de apontar para o quanto o poema é bem amarrado. A primeira estrofe se apresenta como uma introdução musical, de fato, com todos os motivos que se desenvolvem ao longo dos versos seguintes: a descrição da cena (“the reaches of the street“), a marcação do tempo (começando à meia noite e encerrando, depois, às 4 da manhã, com o relógio retornando a cada estrofe, rítmico, como o “tambor fatalista” a que ele se refere no nono verso), a dissolução explicitamente referida da memória (que passa a caracterizar as imagens do poema inteiro) e a aparição dos postes, que ganham voz nas estrofes seguintes, chamando a atenção do eu-lírico para cada uma das cenas pela qual ele passa: a mulher entrando na casa (o vestido sujo e rasgado sendo sugestivo de sexualidade), o gato comendo a manteiga rançosa na sarjeta (ou numa calha, a palavra “gutter” é ambígua), a lua descrita em termos grotescos (esta, mencionada também já na primeira estrofe, na “lunar synthesis” e “lunar incantations”).

Há um crescendo, então, na antepenúltima estrofe, com a enumeração dos cheiros noturnos, naquilo que poderíamos descrever como um momento de identificação do eu-lírico com a lua – apesar de ela, a princípio, se distinguir dele por não ter memória (“La lune ne garde aucune rancune, / (…) The moon has lost her memory“) – em sua solidão e confusão sensório-mnemônica:

           

A washed-out smallpox cracks her face,    
Her hand twists a paper rose,    
That smells of dust and old Cologne,    
She is alone    
With all the old nocturnal smells
That cross and cross across her brain.

           

Por fim, o eu-lírico retorna ao que parece ser um hotel (daqueles em que se deixa, ou deixava, os sapatos à porta) e se deita, e o poema conclui com um desses finais angustiantes nos quais Eliot era mestre. No verso final, Eliot justapõe as ordens (ou conselhos) que a luz do último poste dá, o “prepare for life” (a preparação para a continuação da vida, da qual essa caminhada noturna seria uma forma de fuga, uma suspensão da realidade diurna, da qual, no entanto, é impossível escapar, justamente por conta das qualidades incontroláveis da memória), com a imagem inesperada de uma faca sendo retorcida pela última vez na vítima após o golpe:  The last twist of the knife , um verso isolado, que compõe sozinho a última estrofe, uma qualidade que lhe confere um peso especial e contribui para o tom desesperador do poema.

Lembro que, desde que li Eliot pela primeira vez (creio que em 2007 ou 2008), numa ediçãozinha pocket da Penguin, esse foi um dos poemas dele que mais me marcou, e por isso sempre quis traduzi-lo. Há já uma tradução feita pelo poeta e tradutor Ivan Junqueira, presente em sua antologia intitulada simplesmente Poesia (editora Nova Fronteira), junto com o seu “Prufrock”, “A Terra Desolada”, “Os Homens Ocos”, etc. No entanto, apesar dos méritos do trabalho de Junqueira, sua tradução deste poema em específico não me deixou muito satisfeito. Algo do ritmo me parece quebrado, na medida em que Junqueira muitas vezes alonga versos que no original eram curtíssimos  (como no caso do trecho do gato e da solidão da lua) e parece deixar de lado rimas que saltam aos olhos e aos ouvidos no poema de Eliot, como “The street lamp sputtered, / The street lamp muttered”, que viram “cuspia” e “resmungava”. Além disso, o final me soa esquisitíssimo, com o uso inusitado do verbo “talhar”, repetido com o “talho” do verso seguinte, e a substituição a imagem da faca sendo retorcida após a facada (sendo o movimento da torção especialmente importante. Note como o poema insiste o tempo inteiro sobre imagens de coisas tortas e retorcidas. Como disse, ele é todo amarrado) com a de uma navalha (um objeto que, convém dizer, não pode ser usado para apunhalhar) dando mais um golpe. Não é o caso da presunção minha de querer falar mal da tradução de Junqueira e oferecer uma melhor, mas, sim, de oferecer mais uma tradução, como fazemos sempre no escamandro, e com um projeto diferente. Aliás, eu digo, se tem algo pelo qual Junqueira, como tradutor, é realmente digno mesmo de condenação, é por elogiar e promover, como jurado, a tradução de Milton Lins de William Shakespeare no prêmio de tradução da ABL,  uma verdadeira aberração de tão bizarra, conforme registrado no blogue de Denise Bottman. Mas, enfim, isso é outra história.

Por isso, apresento a vocês, abaixo, a minha tradução e a de Ivan Junqueira, acompanhadas pelo original.

Adriano Scandolara

Van Gogh - Starry Night Over the Rhone

           

Rapsódia de uma noite de vento

Doze horas.
Pelos caminhos da rua
Preso em síntese lunar
A sussurrar encantos lunares
Dissolvem-se os assoalhos da memória
E suas relações claras
Divisões e precisões,
Todo poste que passo
Bate como um tambor fatalista,
E pelos espaços do escuro
A meia-noite chacoalha a memória
Como um louco chacoalha um gerânio morto.

Uma e meia,
A luz do poste gagueja,
A luz do poste rumoreja,
A luz do poste diz, “Veja aquela mulher
Que hesita na tua direção à luz da porta
Que se abre a ela como uma bocarra.
Vê-se que a barra do vestido
Está rota e suja de areia,
E que o canto do olho dela
Se retorce como um alfinete”.

A memória vomita alta e seca
Uma turba de coisas tortas;
Um galho retorcido sobre a praia
Carcomido, liso, polido
Como se o mundo entregasse
O segredo de seu esqueleto
Branco e rijo.
Uma mola quebrada numa fábrica,
Ferrugem que se prende à forma que a força abandonara
Dura e tesa e prestes a estourar.

Duas e meia,
A luz do poste diz,
“Note o gato à sarjeta, como se aconchega,
Mostra a língua
E devora um rançoso naco de manteiga”.
Então a mão da criança, automática,
Saiu e embolsou um brinquedo que corria pela pedreira.
Não pude ver nada por trás do olhar daquela criança.
Vi olhos na rua
Tentando espiar pelas cortinas acesas,
E um siri à tarde numa poça,
Um siri velho com cracas nas costas;
Prendendo a ponta do graveto que estendi pra ele.

Três e meia,
A luz do poste gagueja,
A luz do poste rumoreja no escuro.

A luz entoou:
“Veja a lua,
La lune ne garde aucune rancune,
Ela pisca um olho flébil
Ela sorri nas esquinas.
Alisa o cabelo da relva
A lua perdeu a memória.
Uma varíola lavada racha-lhe o rosto,
Sua mão retorce uma rosa de papel,
Com cheiro d’água de colônia velha e pó
Ela está só
Com todos os cheiros noturnos
Que cruzam e cruzam os cruzamentos de seu cérebro.
A reminiscência vem
De gerânios secos sem sol
E poeira nos cantos,
Cheiros de castanhas nas ruas,
E cheiros de mulher em quartos cortinados,
E cigarros nos corredores
E cheiros de coquetéis nos bares”.

A luz diz,
“Quatro horas,
Eis o número na porta.
Memória!
Você tem a chave,
A luz espalha um círculo na escada,
Suba.
A cama aberta; a escova de dente pendurada,
Sapato à porta, durma, a vida o aguarda”.

A torção final da facada.

(tradução de Adriano Scandolara)

           

Rapsódia sobre uma noite de vento

Meia-noite.
Uma síntese lunar captura
Todas as fases da rua,
Sussurrantes sortilégios lunares
Dissolvem os planos da memória
E todas as suas límpidas tramas,
Divisões e precisos mecanismos.
Cada lampião que ultrapasso
Pulsa como um tambor fatídico,
E através das lacunas do escuro
A meia-noite golpeia a memória
Como um louco brande um gerânio morto.

Uma e meia,
O lampião cuspia,
O lampião resmungava,
O lampião dizia: “Olha aquela mulher
Ao teu encontro hesitante à luz da porta
Que a recorta como um riso escarninho.
Repara-lhe a barra do vestido
Rasgada e suja de areia,
E o canto de seu olho que se arqueia
Como um grampo retorcido.”

A memória expele e disseca
Um turbilhão de coisas tortas;
Um ramo tortuoso sobre a praia
Polidamente carcomido e cinzelado
Como se o mundo erguesse à superfície
O segredo de seu esqueleto,
Rígido e alvadio.
A mola espatifada no pátio de uma fábrica,
A ferrugem que se aferra à forma
Que a força deixou tensa e enrodilhada
E pronta a abocanhar com uma dentada.

Duas e meia,
O lampião dizia:
“Observa o gato que na calha se adelgaça,
Espicha a sua língua e saboreia
Um naco rançoso de manteiga.”
Tal a mão do menino, automática,
Surripiou e embolsou um brinquedo
Que ao longo do cais deslizava.
Eu nada podia ver atrás dos olhos do menino.
Tenho visto pela rua olhos que tentam
Emergir por entre iluminadas persianas,
E certa tarde um caranguejo vi na lama,
Um velho caranguejo em sua carcaça calcária
A agarrar-se à ponta do graveto que eu sustinha.

Três e meia,
O lampião cuspia,
O lampião no escuro resmungava,
O lampião zumbia:
“Olha a lua,
La lune ne garde aucune rancune.
Pisca um olho tímido,
Sorri pelas esquinas.
Alisa os cabelos de gramínea.
A lua perdeu a memória.
Bexigas descoradas ulceram-lhe a face.
Suas mãos retorcem uma rosa de papel
Que recende a pó e água-de-colônia.
Ela está só, em companhia
De todos os antigos eflúvios noturnos
Que lhe cruzam e entrecruzam o cérebro.”
Aflora a reminiscência
De secos gerânios pálidos
E de poeira nas frinchas,
Aroma de castanhas pela rua,
E odor de fêmea nas alcovas clandestinas,
E de cigarros pelos corredores
E de coquetéis nos bares.

O lampião disse:
“Quatro horas,
Eis o número sobre a porta.
Memória!
Tens a chave,
A luminária alastra um círculo na escada.
Sobe.
A cama é franca; a escova de dentes na parede pende,
Põe teus sapatos junto à porta, dorme, para a vida te talha.

O último talho da navalha.

(tradução de Ivan Junqueira)

           

Rhapsody on a Windy Night
 
Twelve o’clock.    
Along the reaches of the street    
Held in a lunar synthesis,    
Whispering lunar incantations    
Dissolve the floors of memory
And all its clear relations    
Its divisions and precisions,    
Every street lamp that I pass    
Beats like a fatalistic drum,    
And through the spaces of the dark
Midnight shakes the memory    
As a madman shakes a dead geranium.    
 
Half-past one,    
The street lamp sputtered,    
The street lamp muttered,
The street lamp said, “Regard that woman    
Who hesitates toward you in the light of the door    
Which opens on her like a grin.    
You see the border of her dress    
Is torn and stained with sand,
And you see the corner of her eye    
Twists like a crooked pin.”    
 
The memory throws up high and dry    
A crowd of twisted things;    
A twisted branch upon the beach
Eaten smooth, and polished    
As if the world gave up    
The secret of its skeleton,    
Stiff and white.    
A broken spring in a factory yard,
Rust that clings to the form that the strength has left    
Hard and curled and ready to snap.    
 
Half-past two,    
The street-lamp said,    
“Remark the cat which flattens itself in the gutter,
Slips out its tongue    
And devours a morsel of rancid butter.”    
So the hand of the child, automatic,    
Slipped out and pocketed a toy that was running along the quay.    
I could see nothing behind that child’s eye.
I have seen eyes in the street    
Trying to peer through lighted shutters,    
And a crab one afternoon in a pool,    
An old crab with barnacles on his back,    
Gripped the end of a stick which I held him.
 
Half-past three,    
The lamp sputtered,    
The lamp muttered in the dark.    
 
The lamp hummed:    
“Regard the moon,
La lune ne garde aucune rancune,    
She winks a feeble eye,    
She smiles into corners.    
She smooths the hair of the grass.    
The moon has lost her memory.
A washed-out smallpox cracks her face,    
Her hand twists a paper rose,    
That smells of dust and old Cologne,    
She is alone    
With all the old nocturnal smells
That cross and cross across her brain.    
The reminiscence comes    
Of sunless dry geraniums    
And dust in crevices,    
Smells of chestnuts in the streets,
And female smells in shuttered rooms,    
And cigarettes in corridors    
And cocktail smells in bars.”    
 
The lamp said,    
“Four o’clock,
Here is the number on the door.    
Memory!    
You have the key,    
The little lamp spreads a ring on the stair,    
Mount.
The bed is open; the tooth-brush hangs on the wall,    
Put your shoes at the door, sleep, prepare for life.”    
 
The last twist of the knife.

(poema de T. S. Eliot)

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crítica, poesia

Alguns poemas sobre mendigos

foto de Ricardo Pozzo

foto por Ricardo Pozzo

A ideia me ocorreu outro dia, no ônibus, e me dei conta de que alguns poetas contemporâneos, especialmente poetas que trabalham com a questão da urbanidade e cuja produção muito me agrada, tinham pelo menos um poema sobre a temática do mendigo. Não sei dizer agora o quanto se estuda isso, de fato, se o mendigo realmente constitui um lugar comum recorrente na literatura, mas a curiosidade me pareceu interessante, digna, ao menos, de uma postagem no escamandro. Não lembro de muitas menções na literatura clássica ao mendigo, embora tenha claro nesta memória falha o episódio da Odisseia em que Ulisses se passa por mendigo (com ajuda de Atena) para entrar em Ítaca despercebido, e que os filósofos da estirpe de Diógenes (que morava, como o Chaves, num barril) e Menipo (que deu origem ao gênero literário da sátira menipeia) viviam como mendigos e formavam a escola dos filósofos cínicos (do grego kynos, “cão”). Na literatura moderna, eu sei que Victor Hugo e Shelley têm cada um pelo menos um poema curto e de tom meio sentimental a respeito (“Le Mendiant” e “Summer and Winter”, respectivamente), Castro Alves aproxima a figura do poeta e do mendigo em “Poesia e Mendicidade” (“Tasso implora um olhar! Vai Ossian mendicante… / Caminha roto o Dante! e pede pão Camões.”), Cruz e Souza lhes dedica um poema inteiro, repleto de suas imagens simbolistas e transcendentais, e Baudelaire, em seu “A uma mendiga ruiva”, faz da figura um alvo de sua luxúria imaginada (depois revisita o tema da mendicância nos poemas em prosa de Spleen de Paris). E há também o choque de Manuel Bandeira no poema “O Bicho” (nos comentários), ao constatar que o que fuçava no lixo não era cão, gato ou rato, mas um homem. Já Wordsworth, notavelmente, nos quase 200 versos de seu “The Old Cumberland Beggar”, compõe o que deve ser provavelmente o retrato mais jubilante da figura do mendigo da história da literatura. Wordsworth, “poeta da natureza”, como é chamado, e um dos poucos poetas que escreveram sobre a alegria, vê num velho mendigo – evidentemente um andarilho mais rural do que urbano, comendo seus restos de comida (junto com os passarinhos) ao lado da estrada – a figura do homem natural, um homem em comunhão com a natureza, que foi desde o começo de sua produção o foco de sua melhor poesia. E, mais do que isso, havia também um sentido ético na visão de Wordsworth desse homem natural, na medida em que a situação abria portas para bons atos em relação ao mendigo, atos de caridade que faziam dele, portanto, um veículo de benevolência. É um belíssimo poema de Wordsworth, que esperamos apresentar em breve aqui no escamandro em tradução minha ou talvez do Guilherme.

É claro, no entanto, que, num cenário urbano, as coisas mudam muito de figura. Wordsworth, escrevendo nesse momento muito próximo da modernidade, mas anterior ainda à completa urbanização, teve uma das poucas oportunidades para realmente se escrever poesia séria sobre a natureza (ao passo que o que nos resta hoje é a nostalgia, o bucolismo retirado ou o ativismo ecológico). Poderíamos, talvez, pensar no mendigo no cenário urbano como uma figura que encarna completamente a urbanidade (ainda que, paradoxalmente, eles se encontrem fora do sistema frenético de produção e consumo das cidades) do mesmo jeito que o mendigo rural de Wordsworth pode ser visto como um “homem natural”: a sujeira das cidades se encrusta neles, os lugares que para nós são locais de passagem são onde eles dormem e veem a vida passar, a indiferença que domina a vida empilhada em apartamentos se manifesta neles simultaneamente no modo como se pode vê-los dormir, sem perturbações, debaixo do pleno sol do meio dia, e no modo como a indiferença de boa parte dos passantes faz com que, aos seus olhos, eles sejam não mais do que parte da paisagem (quando não um incômodo ou ameaça). Mas há vida ainda por baixo dos trapos (existem mendigos esquizofrênicos e drogados, claro, mas eu arrisco dizer que a maioria é lúcida, muito lúcida), como uma prova da resistência e persistência do humano – e, algo sombriamente, uma lembrança constante de que qualquer um está sujeito aos riscos de ser engolido pela cidade e tornar-se parte dela à força.

foto por Ricardo Pozzo

foto por Ricardo Pozzo

Pensando nisso, preparei uma pequena seleção aqui de poetas contemporâneos que, de maneiras todas muito distintas, abordaram o tema dentro de sua obra. Incluo, então, em ordem alfabética de sobrenome, poemas de: Francisco Alvim, de O Metro Nenhum (2011, Cia das Letras); Fabiano Calixto, de Sanguínea (2007, Editora 34); do nosso colega de escamandro Guilherme Gontijo Flores, do seu livro no prelo Brasa enganosa (2013, Editora Patuá), do Tarso de Melo (cujo último livro comentamos já aqui, enquanto estava no prelo, e já foi lançado), de Exames de Rotina (2008, Editora da Casa), Paulo de Toledo, de 51 Mendicantos, um livro de poemas curtos (de 3 versos apenas cada um), todos inspirados por essa temática (2007, Editora Éblis) e, por fim, Dirceu Villa, de Icterofagia (2007, Editora Hedra). Para dar um aspecto mais focado ao post, desta vez me concentrei especificamente em poetas brasileiros contemporâneos, por isso Wordsworth e Baudelaire ainda vão ter de esperar a sua vez. Provavelmente esqueci alguns nomes para cada um de quem lembrei (mea culpa), mas a internet infelizmente falha conosco nessas horas, e uma pesquisa acabou me levando a poemas absolutamente terríveis.

Não vou me demorar aqui em fazer uma crítica profunda sobre os poemas, até porque falar de cada um daria assunto para páginas e páginas de texto, mas gostaria de apontar neles para algumas coisas de que tratei acima, a fim de, primeiramente, afirmar mais uma vez a diversidade dos modos de tratamento de cada um desses poetas, e, em segundo lugar, demonstrar que não tirei do chapéu as coisas que disse acima. Podemos observar a transformação do homem em mera paisagem no poema fúnebre de Calixto, cuja declaração de que “antes da chuva,  o mendigo / já estava morto” traz sugestões dolorosas de morte em vida em sua apropriação pela cidade, ao mesmo tempo em que o poema de Tarso de Melo aponta para o contrário: “pedra fundida à calçada? não, há fôlego nos andrajos”, uma afirmação da vida que “persiste” (como é o próprio verbo usado pelo poeta no verso final), mesmo nessas condições extremas. Dirceu Villa faz um vívido retrato visual dos mendigos, focado na sujeira e repleto de imagens fortes (como a das árvores secas como “mãos esqueléticas” e a da calçada bebendo os corpos dos mendigos, à noite), algo também explorado pelo Gontijo, ao se concentrar na imagem de um único mendigo (em vez de mendigos) confrontado por um eu (ainda que seja um eu bastante sublimado e ausente no próprio texto), que o destaca sensoriamente da paisagem ao fundo (como se essa paisagem fosse um mar, e o próprio título “ptokhos anadyomenos” ecoa isso, significando, em grego, “mendigo saído do mar”, uma paródia do título da Vênus Anadiômene) e enxerga na cena toda uma visão transcendente. Já o foco de Paulo de Toledo é no humor, trabalhando com o trocadilho (numa das instâncias em que essa técnica, tão explorada já, consegue funcionar e bem) e uma forma de riso que lembra o leitor de que, como parte de sua humanidade, é possível manter o senso de humor na mendicância (o que aparece sobretudo nos poemas do livro que dão voz ao mendigo) como forma de persistência, ao mesmo tempo em que essa ironia acaba ressaltando a situação de negligência e abandono – fazendo com que seja um uso doloroso do humor, especialmente em poemas como “globalizado”. Por último (e primeiro), Francisco Alvim, num poema tão curto quanto os mendicantos do Paulo, acaba, talvez não conscientemente, sendo quem mais se aproxima de Wordsworth, agradecendo a quem lhe pede esmola pela oportunidade de realizar um ato de benevolência, que tira o eu-lírico do poema de seu estado de distração com o mar cinzento e homogêneo da paisagem urbana e o aproxima de uma maior humanidade, enquanto ele próprio no poema humaniza o pedinte – é, talvez, só uma suposição minha, mas me parece razoável – ao dar-lhe um nome próprio, Roberto, e dedicar o poema a ele.

A temática é mendicante, mas, ao que tudo indica, não sofremos, ao menos, de uma indigência de boa poesia.

(Adriano Scandolara)

em-casa-de-menino-de-rua

 

Acontecimento

                                    Ao Roberto

Quando estou distraído no semáforo
e me pedem esmola
me acontece agradecer

(Francisco Alvim)

         *

UMA PAISAGEM DE SÃO PAULO

antes da chuva, o mendigo
já estava morto

(uma flor suja – pétalas
despencando de sua camiseta – sua

única coroa)
antes da morte

o viaduto já abarrotava
antes da enchente

a boca já estava cheia
de sangue, de formigas,

de
granizo

(Fabiano Calixto)

         *

PTOKHOS ANADYOMENOS

quando atravessa a esquina
o olhar como que escapa
do amontoado
                         casa-ambulante
de mantas panos mantras
delirantes
                  que acaso brotam
em seu murmúrio

nos passos emerge & chacoalha
as moedas na mão
                  (que as do bolso se escondem
                  num diverso tilintar)
o seu cheiro resplende
no asfalto
                calando
as olências dos outros perfumes

& desse mar emerge
forjando em seu talhe
a súbita imagem de um monge
            mendicante

(Guilherme Gontijo Flores)

         *

FÓSSIL

pedra fundida à calçada? não, há fôlego nos andrajos,
algo respira embaixo, dentro, através dessa carcaça,
a luz não reflete, o cheiro não chega até aqui, ruído
algum escapa da manta ensopada, da peça de carne
exposta diante da imensa porta fechada da catedral.
depois, apenas depois do último trem, dos últimos
passos, dos últimos olhos e medos e sustos passarem,
algum movimento, urros, alguma nova migração
pelo centro da cidade denunciará o que persiste.

(Tarso de Melo)

         *

o papel do jornal

o vento investe contra o lar do
mendigo e seu teto voa junto
com a manchete: alta do dólar

globalizado

a tv o mendigo olha
na tela o reflexo dele
desculpem a nossa falha

que eme!

no lixão um mesquinho minidicionário
mostra ao mendigo que a miséria
infelizmente vem antes da misericórdia

(Paulo de Toledo)

         *

OS MENDIGOS

Eles imploram diante dos carros,
vivem com ratos nas vias expressas;
erguem barracos entre as árvores
secas de poluição, como mãos esqueléticas.
O sabor da fuligem, o espesso cinzento
dos escapamentos de metal fervente
direto no rosto com fendas de calor:
arrastam trapos que fedem a excremento.
Crianças com cabelos emplastrados;
que olhares mortais na doçura redonda
do rosto! Têm dentes que fraturam um osso.
À noite as calçadas bebem seus corpos,
vultos das bocas-de-lobo e esgotos;
bêbados dormem, coçam os escrotos.

(Dirceu Villa)

PS: para quem chegou agora, há toda ainda uma riqueza de poemas e crítica nos nossos comentários abaixo, com poemas ainda de Fabio Weintraub, Alberto Martins e Alberto da Cunha Melo, cortesia do poeta Rodrigo Madeira.

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crítica, poesia

notas sobre o caderno inquieto de tarso de melo

onde se lê espanto,
espante-se
(tarso de melo, “aula (2)”)

tarso de melo (santo andré, 1976) tem uma das obras que eu mais admiro na poesia contemporânea brasileira. além de impressionar pelos poemas, o que mais chama atenção – a meu ver – é o percurso. tanto o percurso interno dos livros, onde estão cada um dos poemas, quanto o percurso maior entre os livros, entre o primeiro a lapso (1999) & o último lançado exames de rotina (2008). esse percurso é marcado por uma crescente concretude (nada de concretismo) da linguagem e dos temas – tarso faz parte de uma tradição de embate com o espaço urbano, de confrontamento direto com o presente, em que a poesia não serve de subterfúgio, escapatória, ou salvação. talvez ela seja para ele como a filosofia para adorno (“da filosofia só cabe esperar, na presença do desespero, a tentativa de ver todas as coisas tal como se apresentam do ponto de vista da redenção” e mais adiante “mesmo a sua impossibilidade tem que ser compreendida por ele em nome da possibilidade”, minima moralia, 153). ora, essa redenção não vai se dar na abdução salvatória, nem na paz facilitada pela harmonia dos contrastes. é nesse mundo em conflito, permeado de dor e do desejo de poesia, que sua poesia caminha. eu diria que, dos poetas brasileiros atuais que tentam esse confronto mais direto, como donizete galvão (de o homem inacabado), eduardo sterzi (de aleijão), fabiano calixto (de sanguínea) & dirceu villa (de icterofagia) – cada um bem do seu jeito, a bem da verdade) -, tarso é o que mais incomoda, porque vai direto na ferida, cada vez mais direto, sem o contorno do inefável ou do “poético”.

é aqui que entra o seu caderno inquieto (no prelo, pela dobra editorial). pra quem pode ou pôde conferir seu percurso, este livro – este nem livro, este caderno, um ato sempre inacabado de anotações – avança. e aqui eu poderia comparar sua inquietude com a de outra figura, claudia roquette-pinto, ambos pela inquietude constante da escrita que parece funcionar como uma apresentação de problemas, tentativa de respostas, com surgimento de novos problemas que por sua vez engendram a necessidade de um novo livro com suas novas perguntas, respostas e subsequentes novos problemas, num ciclo inacabável, típico do caderno. por isso selecionamos 3+1 poemas aqui. 3 poemas capazes de indicar esses novos problemas – basta ver como em “metal” o processo construtivo do automóvel ultrapassa o mero desgaste humano do operário, mas é a própria consunção desse homem, o seu corpo metamorfoseado em objeto & depois em mercadoria & fetiche, sem qualquer vislumbre de síntese harmônica. já em “escritas” & “welby”, a poesia aparece como tema central, mas de modo diverso, em sua relação com o mundo – uma relação fracassada, de certo modo, mas simultaneamente necessária; ou uma perspectiva da redenção impossível, ou um questionamento sobre a possibilidade de determinação desse fracasso, ou ainda: esse fracasso como incorporado e afirmativo, como necessidade de por na linguagem um lugar da perda.

eu poderia me alongar mais na discussão de cada um dos 3 poemas, mas o modus do blog não permite discussões com a profundidade que elas podem merecer. o blog é intencionalmente a ponta do iceberg (we’d rather have the iceberg than the ship), ponto de provocação à leitura e ao debate. por isso esse +1, “bar do pudim”, poema dedicado ao espaço do blog, derivado da cerveja e das conversas que pudemos trocar para além das pontas soltas. nesse para-além da literatura que toda boa literatura parece indicar que seja o fundamental.

guilherme gontijo flores

3 poemas

METAL

a cada dia um pouco da mão fica nas alavancas,
os cabelos incorporam às engrenagens, renascem
os seus dentes nas roldanas, manivelas instigam
e depois sugam seus músculos, a boca da máquina
cospe braços, pernas, grita sua canção monótona,
o suor lubrifica as polias, ferve os sulcos do parafuso
(ideias agora são de aço, o sonho mora no alumínio)

o dia todo se consome nessa troca;
                                                         gasta, a vida
em breve vai cruzar a cidade desfeita em cem cavalos,
em brasa, trocada por mil e quinhentas cilindradas

ESCRITAS

você sabe, entre as flores
não há qualquer tormento
não há dor, não há perda
não há muito o que temer
espinho é só espinho
uma pétala a mais, outra a menos
e tudo segue assim, jardim
engolindo a si mesmo

nem a flor outra, esta que
desce agora à terra, ponto final
na frase alheia, é mais
que uma espécie de dor
a cobrir-se de pedra
e esquecimento

WELBY

nunca li um poema seu,
Piergiorgio Welby,
nem sei se o jornal diz bem
como vinha sendo a tortura
ou por que você escolheu sair
do hospital – e da vida –
pela porta inevitável

não sei se vai fazer falta
o funeral ou se as prometidas
rezas vão ajudar na salvação
de quem fez algo inaceitável,
agora que o computador perdeu
seus olhos, agora que a distrofia
vai esquecer seus músculos

mas será, Welby, que o poema
– não o poema qualquer,
sobre o papel qualquer,
com quaisquer palavras,
mas o poema final, o sinal
último e inconfundível
de que o combate não interessa
– pode decidir, como a vida,
onde acaba o seu sentido?
+ 1

BAR DO PUDIM

deixem Curitiba em paz,
suas esquinas, guias, seus postes
não precisam de outras rimas
deixem Curitiba dormir, polida
pelo verso antigo, modelo disso
e daquilo, rima rica, obra-prima

Curitiba cabe num copo
ou dois, Curitiba não é mais
que esta mesa, sempre a mesma,
Curitiba não vai além desta escolta
honrosa garrafa a garrafa
(é fácil perder Curitiba
entre as notas do caderno
ou da carteira, entre as noites
baças, curvas, entre os bares
cheios de vultos polacos)

Curitiba não muda, não cala
nem diz mais que a frase pisada
em que os mortos se encontram
e anulam, Curitiba é suja
e lava-se nas manhãs sem culpa

[para os escamandristas]

(tarso de melo)

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