Quatro poemas de Tristan Tzara, por Sergio Maciel e Google Tradutor

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tristan tzara, nascido samuel ou samy rosenstock (romênia 1896 – frança 1963), foi um poeta romeno, judeu, francês e dadaísta. foi, aliás, um dos membros fundadores do movimento dadaísta. algum tempo depois, após um certo declínio do movimento, junta-se ao surrealismo. junta-se, também, posteriormente, ao partido comunista e à resistência francesa. mas apesar de ser uma figura um tanto conhecida, em muito pela sua participação no movimento surrealista, tzara não goza de muita divulgação literária; ao menos não tanto quanto apollinaire, reverdy e soupault, por exemplo, pra citar alguns dos poetas franceses mais inovadores do séc. xx.

tzara, assim como seus contemporâneos supracitados, apareceram na importante revista SIC, que existiu entre 1916-19. num período problemático que foi o contexto da primeira guerra mundial, tzara, junto com outros emigrées, como hans arp e hugo ball, produziram o fino das vanguardas. para qualquer vanguardista que se prezasse, era mister que sua obra não ficasse restrita somente a uma linguagem. ou seja, disso resulta que boa parte da vanguarda européia legou uma série de poetas-pintores-escultores-músicos-performers no mesmo corpo. é disso que vem a impossibilidade de lermos nas vanguardas, sobretudo naquilo que toca a poesia, as mesmas expectativas que se leu até então, com especial enfoque no virtuosismo parnasiano e simbolista. hugo ball, para tomar alguém como exemplo, criou aquilo que veio a se chamar “poema fonético”. how in the hell alguém pode esperar de um poema como “karawane” (clique aqui) ou até mesmo “fisches nachtgesang” (clique aqui e aqui), de christian morgenstern, a mesma realização, no que se refere à questão da linguagem, de qualquer outra coisa que havia antes das vanguardas?

é a partir disso, portanto, e da ideia de um automatismo (que tanto chateava a cultura blasé da época) que era veiculada pelo dadaísmo, e depois pelo surrealismo, que resolvi escolher, meio ao acaso, e traduzi quatro poemas de tzara. os três primeiros, do livro vingt-cinq poèmes (1918); o último de juste présent (1961), um pouco menos radical e pós vanguarda.

para os três primeiros, escritos no calor da vanguarda e da porralouquice, resolvi adotar o seguinte procedimento: quando se adota um regime de escrita automática que busca romper com a lógica poética mesma da linguagem, talvez uma solução seja utilizar um processo tradutório semelhante: ou seja, para os três primeiros poemas, eu resolvi criar o embate entre a automaticidade da vanguarda com aquela de uma ferramenta de tradução automática, nosso querido google tradutor. realizei, obviamente, uma terceira tradução, minha, buscando um meio termo entre as duas. para a terceira, pós-vanguarda e menos caótica, dispensei a ajuda do nosso amigo virtual.

pra finalizar, recomendo muito a leitura do texto “DADA: implicações e inseminações” (clique aqui), do domeneck.

sergio maciel

* * *

LE GÉANT BLANC LÉPREUX DU PAYSAGE

le sel se groupe en constellation d’oiseaux sur la tumeur de ouate

dans ses poumons les astéries et les punaises se balancent
les microbes se cristallisent en palmiers de muscles balançoires bonjour sans cigarette tzantzantza ganga
bouzdouc zdouc nfoùnfa mbaah mbaah nfoùnfa
macrocystis perifera embrasser les bateaux chirurgien des bateaux cicatrice humide propre
paresse des lumières éclatantes
les bateaux nfoùnfa nfoùnfa nfoùnfa
je lui enfonce les cierges dans les oreilles gangànfah hélicon et boxeur sur le balcon le voilon de l’hôtel en baobabs de flammes les flammes se développent en formation d’éponges

les flammes sont des éponges ngànga et frappez
les échelles montent comme le sang gangà
les fougères vers les steppes de laine mon hazard vers les cascades
les flammes éponges de verre les paillasses blessures paillasses
les paillasses tombent wancanca aha bzdouc les papillons
les ciseaux les ciseaux les ciseaux et les ombres
les ciseaux et les nuages les ciseaux les navires
le thermomètre regarde l’ultra-rouge gmbabàba
berthe mon éducation ma queue est froide et monochromatique mfoua loua la
les champignons oranges et la famille des sons au delà du tribord à l’origine à l’origine le triangle et l’arbre des voyageurs à l’origine

mes cerveaux s’en vont vers l’hyperbole
le caolin fourmille dans sa boîte crânienne
dalibouli obok et tombo et tombo son ventre set une grosse caisse ici intervient le tambour major et la cliquette
car il y a des zigzags sur son âme et beaucoup de rrrrrrrrrrrrrr ici le lecteur commence à crier il commence à crier commence à crier puis dans ce cri il y a des flûtes qui se multiplient — des corails
le lecteur veut mourir peut-être ou danser et commence à crier
il est mince idiot sale il ne comprend pas mes vers il crie
il est borgne
il y a des zigzags sur son âme et beaucoup de rrrrrrr
nbaze baze baze regardez la tiare sousmarine qui se dénoue en algues d’or
hozondrac trac
nfoùnda nbabàba nfoùnda tata nbabàba

O GIGANTE PAISAGEM LEPROSO BRANCO

o grupo de sal de aves sobre o tumor constelação de rebatidas

em seus pulmões estrelas do mar e erros balanço
micróbios cristalizar balanços músculos palma Olá sem cigarro tzantzantza ganga
bouzdouc Zdouc nfoùnfa mbaah mbaah nfoùnfa
macrocystis perifera beijo barco cirurgião barcos cicatriz limpo e úmido
preguiça de luzes brilhantes
barcos nfoùnfa nfoùnfa nfoùnfa
I empurra as velas no boxer orelhas e gangànfah Helicon na varanda do hotel voilon chamas baobá chamas desenvolver na formação esponjas

as chamas são esponjas Nganga, e fira
subir escadas como Ganga sangue
lã Ferns estepes ao meu perigo para as cachoeiras
vidro bancada esponjas chamas bancos lesão
os colchões cair wancanca aha bzdouc borboletas
A tesoura tesoura tesoura e sombras
tesouras e nuvens tesoura navios
o termômetro parece ultra-vermelho gmbabàba
bertha minha educação minha cauda é frio e mfoua monocromática elogiou o
laranjas e cogumelos família soa além do estibordo originalmente atrás do triângulo e da árvore originalmente viajantes

meu cérebro está indo para hipérbole
o caulim cheias em seu crânio
dalibouli obok e tombo tombo e definir seu estômago um bumbo aqui vem o tambor grande e chocalhos
porque não ziguezagues na sua alma e muitos rrrrrrrrrrrrrr aqui o leitor começa a gritar que ele começa a começa a gritar gritando e depois chorar lá em flautas que se multiplicam – Corais
o leitor quer morrer ou talvez dançando e começa a gritar
é idiota sujo fina não entende meus versos ele grita
ele é cego
Há ziguezagues na sua alma e muitos rrrrrrr
nbaze Baze Baze assistindo tiara subaquática que ventos em algas douradas
nervosismo hozondrac
nfoùnda nbabàba nfoùnda tata nbabàba

(google tradutor)

O GIGANTE BRANCO LEPROSO DA PAISAGEM

o sal se agrupa em constelação de pássaros sobre o tumor de zuarte

em seus pulmões as asterídeas e os percevejos se balançam
os micróbios se cristalizam em palmeiras de músculos balanços bomdia sem cigarro tzantzantza ganga
bouzdouc zdouc ñfunfa mbaah mbaah ñfunfa
macrocystis pyrifera abraçar os barcos cirurgião dos barcos cicatriz úmida própria
preguiça das luzes brilhantes
os barcos ñfunfa ñfunfa ñfunfa
eu ele forço as velas nas orelhas trupànfah helicon e boxeador na varanda o violino do hotel em baobás de chamas e chamas se desenvolvem em formação de esponjas

as chamas são esponjas b^bob^bo e bateis
as escalas sobem como o sangue bbôbê
as samambaias nas estepes de lã meu acaso nas cascatas
as chamas esponjas de vidro os palhaços feridos palhaços
os palhaços tombam wancanca rá bzdouc as brabuleta
as tesoura as tesoura as tesoura e as sombras
as tesoura e as nuvens as tesoura os navios
o termômetro contempla o ultra-rubro gmbabàba
berta minha educação meu rabo é frio e monocromático mfuá luá là
os cogumelos laranja e a família de sons d’além do estibordo à origem à origem o triângulo e a árvore dos viajantes à origem

meus miolos se vão verso a hipérbole
o caulim formiga em sua caixa craniana
dalibouli obok e tombo e tombo seu ventre è um grosso caixa aqui intervém o tambor maior e o chocalho
pois há ziguezagues sobre sua alma e bastantes rrrrrrrrrrrrrr aqui o leitor começa a gritar ele começa a gritar começa a gritar pois em seu grito tem as flautas que se multiplicam – os corais
o leitor quer morrer talvez ou dançar e começar a gritar
ele é um refino idiota porco ele não compreende meus versos e grita
ele é caolho
há ziguezagues sobre sua alma e bastantes rrrrrrrrrrrrrr
nbaze baze baze olhai a coroa submarinha que se desata em algas d’ouro
hozondrac temor
nfunda nbabàba nfoùnda tata nbabàba

(sergio maciel)

§

PÉLAMIDE

a e ou o youyouyou i e ou o youyouyou
drrrrrdrrrrdrrrrgrrrrgrrrrrgrrrrrrrr
morceaux de durée verte voltigent dans ma chambre
a e o i ii i e a ou ii ii ventre montre le centre je veux le prendre ambran bran bran et rendre centre des quatre
beng bong beng bang où vas-tu iiiiiiiiupft
machiniste l’océan a o u ith
a o u ith i o u ath a o u ith o u a ith
les vers luisants parmi nous
parmi nos entrailles et nos directions
mais le capitaine étudie les indications de la boussole
et la concentration des couleurs devient folle
cigogne litophanie il y a ma mémoire et l’ocarina dans la pharmacie
sériciculture horizontale des bâtiments pélagoscopiques
la folle du village couve des bouffons pour la cour royale
l’hôpitale devient canal
et le canal devient violon
sur le violon il y a un navire
et sur le bâbord la reine est parmi les émigrants pour mexico

PÉLAMIDE

um E ou O ou o youyouyou om youyouyou
drrrrrdrrrrdrrrrgrrrrgrrrrrgrrrrrrrr
pedaços de tempo de verde voam no meu quarto
um e o e i i ii ii ii ou uma barriga mostra o centro Eu quero levar farelo de farelo de ambran e tornar o centro dos quatro
beng beng bong estrondo onde está você iiiiiiiiupft
Machinist o oceano om o u
om u a o o i u o u ath tem om o u om um
os vaga-lumes entre nós
entre o nosso interior e os nossos sentidos
mas o capitão examina as direções da bússola
e concentração de cor fica louco
Stork litophanie atrás, minha memória ea ocarina na farmácia
pélagoscopiques sericicultura horizontais de edifícios
Mad fumegantes bobos da aldeia para a corte real
o canal se torna Hopital
e o canal se torna violino
no violino há um vaso
e na porta é a rainha entre os emigrantes para o México

(google tradutor)

SARRAJÃO

a e ou tututu eu e ou o tututu
drrrrrdrrrrdrrrrgrrrrgrrrrrgrrrrrrrr
peças de dura verde voam em meu quarto
a e o i ii i e a ou ii ii ventre mostra o centro eu quero o tomar ambran bran bran e tornar centro dos quatro
b e n g b o n g b e n g b a n g onde cê-vai iiiiiiiiiipieft
maquinista o oceano a o u ith
a o u ith i o u ath a o u ith o u a ith
os versos luzentes entre nós
entre nossas entranhas e direções
mas o capitão estuda os apontamentos da bússola
e a concentração das cores torna-se louca
cegonha litofania há minha memória e a ocarina na farmácia
sericicultura horizontal dos batimentos pélagoscópicos
a louca da vila cobre o bobo para a corte real
o hospital torna-se canal
e o canal torna-se violino
sobre o violino há um navio
e sobre o bombordo a rainha está entre os emigrantes para o méxico.

(sergio maciel)

§

LA GRAND COMPLAINTE DE MON OBSCURITÉ TROIS

chez nous les fleurs des pendules s’allument et les plumes encerclent la clarté
le matin de soufre lointain les vaches l’èchent les lys de sel
mon fils
mon fils
traînons toujours par la couleur du monde
qu’on dirait plus bleue que le métro et que l’astronomie
nous sommes trop maigres
nous n’avons pas de bouche
nos jambes sont raides et s’entrechoquent
nos visages n’ont pas de forme comme les étoiles
cristaux points sans force feu brulée la basilique
folle : les zigzags craquent
téléphone
mordre les cordages se liquéfier l’arc
grimper
astrale
la mémoire
vers le nord par son fruit double comme la chair crue
faim feu sang

O GRANDE LAMENTO DE MEUS TRÊS ESCURO

flores home relógios e penas leves cercar clareza
na manhã de enxofre distante as vacas èchent lírios sal
meu filho
meu filho
sempre sair pela cor do mundo
parece mais azul do que o metrô e astronomia
estamos muito magra
nós não temos nenhuma boca
nossas pernas são duras e colidem
nossos rostos não são em forma de estrelas
pontos de cristal sem força, fogo queimou a basílica
louco: os ziguezagues rachar
telefone
cordas mordida liquefazer o arco
subida
astral
memória
a norte pela sua dupla fruta como carne crua
fome de sangue fogo

(google tradutor)

A GRANDE QUEIXA SOBRE MINHA OBSCURIDADE TRÊS

em nós as flores dos pêndulos se alumiam e as plumas contornam a claridade
a manhã de enxofre longínqua as vacas l’ambem os lírios de sal
meu filho
meu filho
arrastamos sempre pela cor do mundo
quem dirá mais tristonho que o metro e que a astronomia
nós estamos muito magros
nós não temos boca
nossas pernas estão esticadas e se entrechocam
nossas caras não tem forma como as estrelas
cristais pontos sem força fogo queimada a basílica
louca: os ziguezagues racham
telefone
morder as cordas liquefazer o arco
galgar
astral
a memória
verso ao norte por seu duplo fruto como a carne crua
fome fogo sangue

(sergio maciel)

§

À UNE MORTE

tu avances toujours aux confins de la nuit
le feu s’est éteint où finit la patience
même les pas sur des chemins imprévus
n’éveillent plus la magie des buts

braises braises
l’amour s’en souvient

rien ne nous distrait de l’attente assise
sur les genoux enfants aux plénitudes chaudes
pourrais-je oublier le son de cette voix
qui contribue à répandre la lumière
au-delà de toute présence

fraises fraises
à l’appel des lèvres

comme la mer contenue
toute une vie enlacée
et sur les innombrables poitrines des vagues
l’incessant froissement des ours effleurés

rêves rêves
au silence de braise

pourrais-je oublier l’attente comblée
le temps ramassé sur lui-même
le jour jaillissant de chaque parole dite
le long embrasement de la durée conquise

sèves sèves
ma soif s’en souvient

A UM MORTO

tu avanças sempre aos confins da noite
o fogo se extinguiu onde findou a paciência
mesmo os passos sobre as chamas imprevistas
não despertam mais a magia das metas

brasas brasas
o amor se lembra

nada nos distrai da espera assentada
sobre os joelhos infantis às plenitudes quentes
poderia esquecer o som desta voz
que contribui para derramar a luz
além de toda presença

morangos morangos
ao apelo dos lábios

como o mar constante
toda uma vida enlaçada
e sobre os incontáveis peitos das ondas
o incessante franzimento dos ursos tocados

sonhos sonhos
em silêncio de cinzas

poderia esquecer a espera plena
o tempo recolhido em si mesmo
o dia jorrando cada palavra dita
o longo alastramento da duração conquistada

seivas seivas
minha sede se lembra

3 poemas de césar vallejo por felipe paradizzo

César Vallejo, escritor peruano nascido em Santiago de Chuco, em 1892, pertence ao conjunto dos maiores poetas do castelhano. Vallejo publicou em Lima seus dois primeiros livros, Los Heraldos Negros (1918) e Trilce (1922), o segundo seria reeditado quatorze anos mais tarde em Madri, para onde o poeta se muda por um curto espaço de tempo após sua estada em Paris. As duas últimas obras poéticas de Vallejo foram publicadas após sua morte em 1938. Editadas por sua esposa, como Poemas humanos (1939) e España, aparta de mi este cáliz (1940) elas contêm os poemas escritos pelo autor em Paris, em que estão impressas sua posição frente à Guerra Civil Espanhola e sua forte filiação à doutrina socialista.

Reconhecido como um expoente do vanguardismo latino-americano, Vallejo é recorrentemente vinculado por muitos de seus comentadores tanto às correntes literárias modernistas da América Hispânica quanto às vanguardas europeias, principalmente ao surrealismo e ao dadaísmo. Certamente, as influências de César Vallejo passam por Ruben Darío e Julio Reissig e são profundamente enraizadas na tradição literária peruana, cuja grande reverberação em Vallejo passa por Manuel Gonzalez Prada, José María Egueren e Abraham Valdelomar. Gonzalez Prada, pontualmente, é um autor fundamental para a literatura peruana e mais especificamente para Vallejo. A paternidade do modernismo peruano é comumente atribuída a Gonzalez Prada, sobretudo por ter incluído o índio no debate moderno de nação e identidade cultural, assim como no cenário da realidade sociopolítica do Peru. Prada publica em Baladas Peruanas, série de poemas escritos desde 1871 dedicados aos mitos de criação andinos, à crueldade da colonização espanhola e à realidade de camponeses índios, o que contribui para forjar no nascimento da modernidade literária peruana um espaço de denúncia e reflexão das questões indígenas no Peru. Os nomes que sucedem Gonzalez Prada no modernismo peruano com mais notoriedade, José Santos Chocano e José María Egueren, desenvolvem caminhos antagônicos, um atento a questões sociopolíticas nacionais em um discurso progressista, como Chocano, enquanto o outro busca uma poesia “pura”, comumente avizinhada do simbolismo europeu, de Egueren.

  Na emergência da vanguarda peruana, duas forças se fizeram reconhecer. Por um lado, o futurismo e o simplismo de Alberto Hidalgo propunham mudanças formais mais agudas, como se viu também em Carlos Oquendo, com seu léxico urbano e a disposição tipográfica de sua poesia. Por outro lado, a nova classe média provinciana peruana trazia reivindicações andinas às técnicas vanguardistas, como fez Alejandro Peralta, membro do grupo Orkopata. A revista Colónida, dirigida por Abraham Valdelomar, foi outro grande evento do vanguardismo peruano. A Colónida reunia decadentismo literário, rompimento com a mentalidade subserviente que pairava sobre o Peru do início do século, com o hispanismo e com academicismo, fazendo coro à herança de Gozalez Prada e relendo ativamente a poesia simbolista Egueren. Por força da Colónida, surgem mais tarde publicações reunindo alguns de seus antigos colaboradores, uma delas, Nuestra Época, contava com a participação de José Carlos Mariátegui e César Vallejo. Mariátegui seria mais tarde um dos articuladores da revista Amauta, publicada pela primeira vez em 1926. Nela a relação intrínseca entre a vanguarda literária e uma postura política socialista latino-americana e revolucionária se mostrou convergente.

A proximidade de César Vallejo com o pensamento de Mariátegui e sua filiação política denotam a imersão do poeta no espaço de debate intelectual e político do início do século XX no Peru, e os poemas “Huaco” e “Los Dados Eternos” carregam consigo aspectos da relação entre literatura de vanguarda e o movimento indigenista peruano. Mariátegui afirma que indigenismo “representa el color y la tendencia más característicos de una época por su afinidad y coherencia con la orientación espiritual de las nuevas generaciones, condicionada, a su vez, por imperiosas necesidades de nuestro desarrollo económico y social”. A partir da leitura do ensaísta peruano, a poesia vanguardista, que terá Vallejo como seu nome mais representativo, reinseriria o efervescente cenário da poesia e suas rupturas formais no grande tema do debate político peruano: o papel dos indígenas na sociedade e no estado moderno.

A escolha desses de “Huaco” e “Los Dados Eternos” visou sublinhar essa parte fundamental de Los Heraldos Negros, que segundo minha pesquisa em andamento contém uma ânsia mais comunicativa expressa nos elementos formais e temáticos da poesia de Vallejo. Por enquanto, me parece possível sugerir que diante da efervescência intelectual do debate dualista no Peru do início do século XX, Vallejo tenha “optado” por uma poética que entrasse no debate com mais eficiência comunicativa do que o fez, se fez, em sua mais aclamada obra, o hermético Trilce. O poema “Huaco” traz traços significativos das implicações políticas da lírica de Vallejo, em sua primeira fase, expressos a partir dos temas andinos e indigenistas. Já o título do poema apresenta o solo temático e o campo lexical que será ativado pelo poeta. Huaco é uma palavra derivada do quéchua, wáku, e designa as peças de cerâmica encontrada em sepulcros e templos pré-colombianos. O poema é também o ponto de maior presença da língua quéchua e tal presença reforça concomitantemente às poderosas imagens o paralelismo de dualidades por elas criadas. Nota-se que a linguagem é parte fundamental do projeto de denúncia social de Los Heraldos Negros, projeto esse que se alinha mais uma vez às proposições de Mariátegui sobre a inerente e a profunda relação da literatura moderna peruana com o dualismo cultural e a identidade nacional do Peru. O eu-lírico se apresenta como um coraquenque, ave de rapina andina que no poema “La Aparición Del Coraquenque”, de Manuel Gonzalez Prada, aparece como o emissário da morte na cerimonia do Intip-Raymi, festival em homenagem ao Deus-sol que acontecia em Cusco durante o solstício de inverno.Segundo Mariátegui, Gonzalez Prada “representa, de toda suerte, un instante – el primer instante lúcido –, de la conciencia del Perú”, e tal admiração é compartilhada por Vallejo em Los Heraldos Negros, dedicando-lhe o poema  “Los Dados Eternos”. No poema de Gonzalez Prada, o coraquenque invade a cerimônia trazendo a mensagem do “holocausto solemne”. No de Vallejo, a ave andina cega, enxerga pela lente de uma ferida o mundo presente ao qual está presa, como a um artefato de ruinas: um mundo relicárioda morte, resto sobrevivente da sepultura de um passado.

Trilce é a imersão de Vallejo na vanguarda; para alguns, uma vanguarda latino-americana que se encontrou com a europeia, mais do que uma aproximação do poeta peruano aos movimentos emergentes do velho mundo. Mas esse é outro e vasto assunto. Propomos brevemente, com o poema “Altura e Pelos”, parte dos Poemas de Paris, publicado no livro póstumo Poemas Humanos, vislumbrar anos mais tarde o retorno de Vallejo à força comunicativa de sua poesia. Passado Trilce, o hermetismo vanguardista que marca a primeira vista sua lírica dá lugar a um estilo que se assemelha às primeiras produções peruanas, deslocando suas implicações políticas do debate indigenista para a reflexão do humano.

Huaco

Eu sou o coranquenque cego
que observa pela lente de uma chaga,
e que atado está ao Globo,
como a um huaco estupendo que girava.

Eu sou a lhama, a quem tão só alcança
a ignorância hostil de tosquiar
ornatos de clarim
ornatos de clarim brilhantes de asco
e bronzeadas de um velho yaraví.

Sou carne de condor já desplumado
por latino arcabuz;
e à flor de humanidade pairo os Andes,
como um perene Lázaro de luz.

Eu sou a graça incaica que se rói
em áureos corincachas batizados
de fosfato de errância e de cicuta.
Às vezes em minhas pedras se encabritam
os nervos gastos de um extinto puma.

Um fermento de Sol;
levedura de sombra e coração!

Huaco

Yo soy el coraquenque ciego
que mira por la lente de una llaga,
y que atado está al Globo,
como a un huaco estupendo que girara.

Yo soy el llama, a quien tan sólo alcanza
la necedad hostil a trasquilar
volutas de clarín,
volutas de clarín brillantes de asco
y bronceadas de un viejo yaraví.

Soy el pichón de cóndor desplumado
por latino arcabuz;
y a flor de humanidad floto en los Andes,
como un perenne Lázaro de luz.

Yo soy la gracia incaica que se roe
en áureos coricanchas bautizados
de fosfatos de error y de cicuta.
A veces en mis piedras se encabritan
los nervios rotos de un extinto puma.

Un fermento de Sol;
levadura de sombra y corazón!

Os Dados Eternos

Para Manuel González Prada,
Esta emoção bravia e seleta, uma das
que, com mais entusiasmo,
me aplaudiu o grande poeta.

Meu Deus, estou chorando o ser que vivo;
me pesa por te haver tomado o pão;
mas esse pobre barro pensativo
não é crosta fermentada ao teu lado:
E tu não tens Marias que se vão!

Meu Deus, si tu houvesses sido homem,
saberias ser Deus;
porém tu, que estiveste sempre bem,
nada sentes da tua criação.
E o homem, sim, te sofre: O Deus ele é.

Hoje em meus olhos bruxos há candelas,
como em um condenado,
Meu Deus, acenderás as tuas velas,
e jogaremos com o velho dado…
Talvez, ó jogador, lançada a sorte
do universo todo,
olheiras surgirão da própria morte Morte,
como dois ases fúnebres de Todo.

Meu Deus, e esta noite surda, obscura,
não poderás jogar, porque esta Terra
É um dado roído e já redondo
por força de girar à aventura,
que só pode parar em um buraco,
Num buraco de imensa sepultura.

Los Dados Eternos

Para Manuel González Prada esta
emoción bravía y selecta, una de
las que, con más entusiasmo
 me
ha aplaudido el gran maestro.

Dios mío, estoy llorando el ser que vivo;
me pesa haber tomádote tu pan;
pero este pobre barro pensativo
no es costra fermentada en tu costado:
tú no tienes Marías que se van!
 

Dios mío, si tú hubieras sido hombre,
hoy supieras ser Dios;
pero tú, que estuviste siempre bien,
no sientes nada de tu creación.
Y el hombre sí te sufre: el Dios es él!

Hoy que en mis ojos brujos hay candelas,
como en un condenado,
Dios mío, prenderás todas tus velas,
y jugaremos con el viejo dado…
Tal vez ¡oh jugador! al dar la suerte
del universo todo,
surgirán las ojeras de la Muerte,
como dos ases fúnebres de lodo. 

Dios mío, y esta noche sorda, oscura,
ya no podrás jugar, porque la Tierra
es un dado roído y ya redondo
a fuerza de rodar a la aventura,
que no puede parar sino en un hueco,
en el hueco de inmensa sepultura.

Altura e Pelos

Quem não tem seu vestido azul?
Quem não almoça e não pega o bonde,
Com seu cigarro contratado e sua dor de bolso?
Eu que tão só nasci!
Eu que tão só nasci!

Quem não escreve uma carta?
Quem não fala de um assunto importantíssimo,
Morrendo de costume e chorando de ouvido.
Eu que somente nasci!
Eu que somente nasci!

Quem não se chama Carlos ou qualquer outra coisa?
Quem ao gato não diz gato gato?
Ai, eu que só nasci somente!
Ai, eu que só nasci somente!

Altura y Pelos

¿Quién no tiene su vestido azul?
¿Quién no almuerza y no toma el tranvía,
con su cigarrillo contratado y su dolor de bolsillo?
¡Yo que tan sólo he nacido!
¡Yo que tan sólo he nacido!

¿Quién no escribe una carta?
¿Quién no habla de un asunto muy importante,
muriendo de costumbre y llorando de oído?
¡Yo que solamente he nacido!
¡Yo que solamente he nacido!

¿Quién no se llama Carlos o cualquier otra cosa?
¿Quién al gato no dice gato gato?
¡Ay, yo que sólo he nacido solamente!
¡Ay, yo que sólo he nacido solamente!


Tradução e comentário de Felipe Paradizzo.

federico garcía lorca: libro de poemas (1921)

autorretrato de Lorca

Voltando com mais algumas traduções do mestre Lorca, hoje escolhi alguns poemas de seu primeiro livro, o Libro de Poemas, de 1921. Embora sejam de temática um pouco diversa do Romancero Gitano (leia aqui), sem fazer referências ao imaginário cigano de sua vila de criação, Lorca apresenta algumas peculiaridades recorrentes e bastante interessantes, como a animização de forças naturais (p.e.: o vento em Preciosa, assim como a lua e a morte em… A Lua e a Morte =D ) , a divisão entre os sentimentos do eu lírico que observa uma paisagem e reflete os sentimentos evocados dentro de si próprio, o repertório de descrições da natureza, etc.

A minha intenção inicial era de traduzir e publicar apenas um poema curto de cada vez, devido ao tempo apertado, mas não resisti porque o cara é foda demais. Realmente, creio que os tipos de sensações que ele evoca são únicas e cada leitor criará a sua própria identificação com o que é descrito. Portanto, leiam com carinho e atenção.

Por fim, segue a referência do livro que utilizei como original-base (não foi o citado no último post por motivos logísticos):
GARCÍA LORCA, Federico. Libro de poemas. Edición, introducción y notas de Mario Hernández. Madrid: Alianza Editorial, 1998.

o don perlimpim de García Lorca; peguei daqui http://www.filipamalva.net/2011/05/perlimpin-de-garcia-lorca.html


árvores (1919)
  árvores!
terão sido flechas
caídas do azul?
que terríveis guerreiros as lançaram?
terão sido as estrelas?

vossas músicas vêm da alma dos pássaros,
dos olhos de Deus,
da paixão perfeita.
árvores!
conhecerão vossas raízes toscas
meu coração em terra?

a lua e a morte (1919)
  a lua possui dentes de marfim.
que velha e triste assoma!
estão os canais secos,
os campos sem verdores
e as árvores sombrias
sem ninhos e sem folhas.
Dona Morte, enrugada,
passeia por salgueiros
com absurdo cortejo
de ilusões remotas.
vai revendendo cores
de cera e de tormenta
como fada de conto
malvada e ardilosa.

a lua, pois, comprou
pinturas para a Morte.
nesta noite tão turva
está a lua louca!

eu entretanto ponho
em meu peito sombrio
uma feira sem músicas
com as tendas de sombra.

ninho (1919)
  que é o que guardo nesses
momentos de tristeza?
ai!, quem poda meus bosques
dourados e floridos?
que leio no espelho
de prata comovida
que a aurora me oferece
sobre a água do rio?
que grande olmo de idéia
irrompeu por meu bosque?
que chuva de silêncio
me deixa estremecido?
se amor meu deixei morto
numa ribeira triste,
que arbustos me ocultam
algo recém nascido?

hora de estrelas (1920)
  o silêncio arredondado da noite
sobre o pentagrama
do infinito.

eu saio desnudo pela rua,
maduro de versos
perdidos.
o negro, esburacado
pelo canto do grilo,
tem esse fogo fátuo,
morto,
do ruído.
essa luz musical
que percebe
o espírito.

os esqueletos de mil mariposas
dormem em meu recinto.

há uma juventude de brisas loucas
sobre o rio.

federico garcía lorca: preciosa e o ar (1928)

Federico García Lorca (1898-1936), o principal nome da chamada ‘geração de 27’ é, talvez por unanimidade, o maior poeta de língua espanhola do século XX. Nascido em Granada, na Espanha, possui uma vasta produção poética e teatral. Entre estas, destacam-se, por exemplo, Bodas de Sangue e a Casa de Bernarda Alba. Sobre a poesia, nota-se já nas primeiras leituras a peculiaridade com que Lorca trata seus temas em relação ao contexto literário europeu, distanciando-se da mentalidade vanguardista dominante na Europa e procurando um equilíbrio entre a inovação formal e a sensibilidade humana. Podemos ver, sob esse aspecto, um elemento marcante da poética de toda essa ‘geração de 27’, que elege o sentimento em vez do intelectualismo. Qualquer leitura de um poema de Lorca parece deixar isso muito explícito. Outros nomes da ‘geração de 27’ seriam, então: Jorge Guillén, Pedro Salinas, Rafael Alberti, Dámaso Alonso, Gerardo Diego, Luis Cernuda, Vicente Aleixandre, Manuel Altolaguirre e Emilio Prados.

Feita essa brevíssima apresentação, eu, que ainda muito recentemente adentrei a poesia de Lorca (e espero voltar ao blog tratando mais a fundo do seu trabalho), trago essa tradução de Preciosa y el aire, presente no livro intitulado Romancero Gitano, de 1928. Esse poema traz um dos elementos mais interessantes da poesia de García Lorca, que é a retomada de temáticas populares e cancioneiros do século XV, revigoradas em uma poesia novecentista de ares bastante ‘frescos’. O Romancero Gitano, especificamente, traz como motivo a figura do cigano e seu imaginário, que o autor reconstrói a partir da tradição da sua própria terra.

A edição base do texto espanhol que utilizei foi a contida na Obra Poética Completa de García Lorca, publicada em formato bilíngue pela Martins Fontes e com tradução de William Agel de Mello.

Vinicius Ferreira Barth

soloelmisterioIlustração de García Lorca presente na abertura do Romancero Gitano, como se apresenta nessa edição da Martins Fontes. Ela contém a seguinte inscrição: “Solo el misterio nos hace vivir. Solo el misterio / Só o mistério nos faz viver. Só o mistério”

Preciosa e o ar

Sua lua de pergaminho
Preciosa tocando vem
por um anfíbio sendeiro
de cristais e de louros leves.
O silêncio sem estrelas,
fugindo do sonsonete,
cai onde o mar bate e canta
sua noite cheia de peixes.
Nos altos picos da serra
carabineiros dormecem
vigiando as brancas torres
onde vivem os ingleses.
E a ciganagem da água
levanta co’ algum prazer,
carrosséis de caracóis
e ramos de pinho verde.

*

Sua lua de pergaminho
Preciosa tocando vem.
Ao vê-la se põe erguido
o vento que não dormece.
São Cristóvão desnudado,
cheio de línguas celestes,
olha a menina tocando
uma doce gaita ausente.

Moça, deixa que levante
teu vestido para ver-te.
Abre em meus dedos arcaicos
a rosa azul de teu ventre.

Preciosa atira o pandeiro
e corre sem se deter.
O vento-machão persegue
com espada incandescente.

Franze seu rumor o mar.
Olivas empalidecem.
Cantam as flautas de sombra
e o liso gongo da neve.

Preciosa, corre, Preciosa,
que te agarra o vento verde!
Preciosa, corre, Preciosa!
Olha por onde ele vem!
Sátiro de estrelas baixas
com suas línguas reluzentes.

*

Preciosa, cheia de medo,
entra na casa existente,
mais acima dos pinheiros,
consulado dos ingleses.

Assustados pelos gritos
três carabineiros vêm,
suas negras capas cingidas
e gorros em suas frentes.

O inglês dá à cigana
um copo de um morno leite,
e uma taça de genebra
que Preciosa, então, não bebe.

E enquanto conta, chorando,
a aventura àquela gente,
nas telhas de ardósia o vento,
furioso, mete-lhe os dentes.