crítica, xanto

XANTO | Ficção provisória, por exemplo no megamíni de Victor Heringer, por Luiz Guilherme Barbosa

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[Texto lido no dia 27 de março desse ano na Faculdade de Letras da UFRJ, no evento em homenagem ao Victor Heringer, que contou com as participações de Flavia Trocoli, Alberto Pucheu, Danielle Magalhães, Dimitri BR, Patrick Gert Bange, Leonardo Alves de Lima.]

Hoje volto aqui a esse auditório, retorno à Faculdade de Letras como ex-aluno para homenagear outro ex-aluno, com quem muitos de nós conviveu. Ter estado ao longo de anos sentando nessas salas e andando por esses corredores nos irmana como a todos que aqui estiveram e estão, estudam e trabalham. Mas foi noutro círculo, mais difuso, que convivemos um pouco e trocamos algumas palavras. Temos frequentado bares depois de lançamentos, temos lido livros depois de lançados e escrito nossas impressões pros autores, temos nos beijado e jogado futebol juntos e começado namoros e viajado juntos, temos cozinhado uns pros outros e editado livros e plaquetes uns dos outros, temos nos traduzido e brigado, temos produzido críticas uns dos outros e arrumado emprego uns pros outros, de repente o Victor era um de nós e estava do nosso lado e poderia ser ele a dizer, se quisesse, eu era um de nós, e era todos os outros. Quero dizer que convivemos, um pouco, principalmente no último ano. Trocávamos algumas palavras, nos encontrávamos às vezes, sempre em bando. Éramos dois ex-alunos daqui, aonde retorno hoje para dizer umas poucas palavras sobre ter estado, ter feito, ter convivido, ter conversado, ter escrito, ter estudado. Gostaria, assim, de dizer poucas palavras e me dirigir a vocês para lembrar do Victor no futuro, este que conheço no estranho encontro entre o que leio assinado pelo Victor Heringer e o que lembro dos encontros com o Victor. E só consigo falar desse depois pela frequentação do texto. Tenho lido. Insisto nessa expressão: o verbo ter, no presente, acompanhado de um particípio. Tenho lido. Alguma coisa começa nela para chegar ao texto que desejo ler hoje. Tenho lido textos do Victor e tenho lembrado dele, como uma amiga tem sonhado com ele, são coisas que têm acontecido, ou seja, estão acontecendo inscritas num tempo que já passou mas, pela frequência com que acontecem, é provável que continuem acontecendo. É nessa dúvida que me pego pensando: não digo que estou lendo e sim que tenho lido, esse tom parece mais próximo do que acontece. Se digo que estou lendo, é certo que continua acontecendo, agora, hoje ou hoje em dia, mas se digo que tenho lido, não é certo que continue acontecendo, e o futuro, na dúvida, existe como promessa, e rezamos. Esse tempo verbal, o pretérito perfeito composto, guarda mesmo esse aspecto daquilo que se repete e ainda não cessou de se repetir, guarda esse aspecto que a gramática denomina como iterativo imperfectivo, guarda a imperfeição de um evento que, repetindo-se, não se completou perfeitamente inteiro. Mas com esse nome, iterativo imperfectivo, não se nomeia a dúvida quanto ao que vem, eu digo que tenho lido mas não sei se, a partir de hoje, continuarei a ler. O presente é provisório. Parece que, dizendo assim, o que aconteceu e o que vai acontecer são o mesmo e o outro, não cabendo à imaginação decidir pelo que vem, suspensa na imperfeição do que acontece. Pode ser que aconteça, é possível, é verossímil. Se comecei a pensar no tempo e na gramática, não foi apenas porque vacilamos ao falar daquilo que amamos, antes é uma maneira de corrigir o verbo, o tempo do verbo, e dizer, em vez de dizer que conheci o Victor, que tenho conhecido o Victor. Se ambos fomos alunos da Faculdade de Letras da UFRJ mas, nesse momento, não somos mais, é mais certo dizer que temos sido alunos dessa Faculdade, do que dizer que fomos alunos dessa Faculdade. Pois mesmo ao dizer que somos ex-alunos, dizemos no presente e dizemos alunos, pois mesmo ao dizer que somos ex-alunos, há um traço que liga o não ser ao ser aluno. Temos sido alunos, todos, dessa Faculdade de Letras quando temos lido o Victor Heringer. Que leio como escritor, O escritor Victor Heringer. O retrato em forma de plaquete que Victor compôs num megamíni, em 2015, começa, talvez, com um rosto, talvez não. Sua assinatura como um ex-libris, Victor, na primeira página do livro, parece um rosto, de um ciclope. O V, o I e o T organizam a face, as linhas que se encontram no vértice do queixo, V, a linha do nariz que sobre até a testa e funde I a T, as orelhas C e R, e o olho, O, no meio da face. O retrato tipográfico do escritor Victor Heringer. Parece que a letra erra o rosto do escritor, falta um olho. Viro a página. Agora vejo as duas mãos do escritor Victor Heringer. Elas estão em close, sobre uma superfície lisa e clara, onde fazem sombra, e não sei, ao vê-las, se de fato são as suas mãos. Ambas estão em concha, posicionadas prestes a pegar algum objeto volumoso que se agarra com os dedos todos, mas menor do que a mão. Sapatos, um ferro de passar, o erê padroeiro, uma pedra de rio. Estão nuas, exceto por um band-aid no dedo indicador da mão direita. Olhando assim, não dá para saber qual é a destra, qual a canhota: a fotografia poderia mentir, editada. E ainda que, ao final da plaquete, esteja indicado que à esquerda está a mão esquerda e à direita, a direita, não sei qual delas tem mais destreza, qual a mais gauche. Temos escrito com as duas mãos. Elas compõem um verso em ritmo troqueu, um ritmo manco: “Tenho apenas duas mãos”. As mãos de quem escreve à máquina de escrever, ao teclado do computador, mãos de quem digita com as mãos vazias, dançando os dedos pelas teclas, sem nada que pegar para escrever: a máquina, não mais pena agarrada, excedeu as mãos e dispõe, para os olhos e o tato dos dedos, cada tipo possível que, combinados indefinidamente, compõem qualquer texto, e um rosto. Que, virando a página, o passaporte e a carteira de trabalho do escritor Victor Heringer sejam os próximos elementos fotografados, apenas confirma o território drummondiano em que nos mexemos, desamparado, irônico, apaixonado pelo verso: “Tenho apenas duas mãos / e o sentimento do mundo / mas estou cheio de escravos”. Mãos, passaporte, carteira de trabalho. Basta virar mais uma página para a estrofe se completar: vemos, segundo a descrição da imagem, os sapatos do pai morto, embora nada nele, gasto, de couro, os cadarços amarrados, confirme ao olhar a designação que recebe. Agora a estrofe está completa: mãos, passaporte, carteira de trabalho, sapatos do pai. “Tenho apenas duas mãos / e o sentimento do mundo / mas estou cheio de escravos / minhas lembranças escorrem / e o corpo transige / na confluência do amor”. O escritor Victor Heringer compõe versos como quem fotografa. Seu procedimento parece estabelecer, entre realidade e ficção, uma relação irônica de repetição, a saber: esses sapatos que você vê fotografados e impressos na página são sapatos quaisquer. E quando lemos, ao final da plaquete, que são do pai os sapatos, e olhamos de novo para os sapatos, então agora esses sapatos são, para nós, que lemos, os sapatos do pai do escritor Victor Heringer. Não sabemos ao certo, nem mesmo temos indícios, na imagem, que confirmem, apesar do couro enrugado, de modo que nossa relação com a memória do sapato é ficcional, e por isso esse atributo abre um universo. Penso que esse procedimento, que eu gostaria de chamar, hoje, de ficção provisória, foi descrito em alguns versos de O escritor Victor Heringer:

 

o escritor vuitton heringuer
foi criado por babás que ele amava muito
foi com babás que o pequeno escritor vitorrérgin
conheceu a pobreza
não a pobreza abjeta, uma pobreza calma e brasileira
uma pobreza vraiment manuel bandeira

o estictor vtor heringcer
uma vez chutou o dedo de uma babá muito amada
porque ela não quis comprar canetinhas hidrocor
para o scriptor vitto err

aí a babá chorou e foi pra casa
aí o escrivirré ficou de castigo num quarto pobrezinho
aí a irmã da babá apareceu no quarto e disse:
vão ter que arrancar fora o dedo da babá amada!
o pqn esq vh quis morrer queimado, mas não
arrancaram o dedo não

& o écrivain vector hér aprendeu mais sobre a
arte da ficção com a irmã da babá amada do que
com todo o cânone ocidental, até mais do que
com flaubert e machado de assis, mais até do
que com joyce que só fala de igreja

 

No dia três de março, na abertura da exposição Rejuvenesça: poesia expandida hoje, com curadoria da Pollyana Quintela, esfreguei o chão do Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica, no Centro do Rio, acompanhado por três amigos. Augusto Melo Brandão, Lucas Van Hombeeck e Rafael Zacca. Nós escolhemos cinco livros com poemas, abrimos esses livros e começamos a esfregar, não sabíamos o que podia acontecer. Eu esfreguei Os cem melhores poemas brasileiros do século no chão. Houve um momento que eu esfregava as Galáxias, e a página ia se sujando de pequenos pontos pretos, depois de manchas pretas, o papel ia se gastando, depois rasgando, e o poema se tornando menos legível à medida que esfregava. Estávamos aos pés das pessoas que visitavam a exposição, imprimindo galáxias de sujeira nas páginas dos poemas, usando, além do livro, as duas mãos. Essa ação, parte de um trabalho maior chamado Conversa infinita, trabalhou, por exemplo, com a memória e a provisoriedade de textos canonizados. Temos lido esses poemas, não sei se continuaremos a lê-los dos mesmos modos. Nesse dia, eu e Victor nos cumprimentamos. Temos nos cumprimentado. Cinco dias depois, escrevi uma postagem para ele.

 

Postagem para Victor Heringer

teve um dia / eu tinha acabado de me casar
com a jessica / e era meu aniversário
tudo era uma festa / no apartamento novo
e o victor veio / e foi o primeiro futebol
e ele não jogou / ele disse ter pernas
de cimento / todos entenderam
mas até hoje / todos duvidam

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poesia

“Não sou poeta”, de Victor Heringer

foto de F. R. Negrão

foto de F. R. Negrão

Victor Heringer (Rio de Janeiro, 1988) é escritor, autor dos livros Glória (2012, Prêmio Jabuti), O escritor Victor Heringer (2015) e automatógrafo (2011), além das séries de vídeos Arquespélago (2012) e (2013). Seu próximo romance, intitulado O amor dos homens avulsos, será publicado em breve.
☛ http://automatografo.org/

* * *

Não sou poeta

Agora que os estalos da adolescência passaram
e a vida assenta como uma cômoda de mogno

agora que os joelhos estalam quando me levanto
sem mulher, sem filhos, mas com emprego estável
é preciso admitir que não sou poeta.

Embora o meu amor esteja solto no mundo
violento, semicego e ferido no ombro
não sou poeta.

Todos me felicitam. Que bom, dizem
vida de poeta é muito difícil.

Logo a gente chega a ser homem
e acaba com as coisas de menino.

A vida afunila.

Eu tinha dois, três truques nos bolsos
de calças compradas em shoppings.

Não soube nunca comprar como poeta
a longa espera por um par de sapatos
sentinela no deserto.

Os sapatos são fabricados e os pés dos poetas passam anos se deformando. Até que um dia cabem.
Por isso qualquer roupa parece velha
no corpo de um poeta.
Por isso estão sempre se desculpando
pelas roupas velhas.
Mas em segredo se orgulham.

Embora eu tenha um corpo
que pode ser confundido com o corpo de um poeta
não sou poeta.

Tenho as pernas fortes e os braços magros.
O torso amolecido dos boxeadores
os órgãos de dentro estropiados.

Mas quem me vê nu instintivamente sabe que não sou poeta.

Não levantei a mão esquerda em golpe de dançarina de flamenco ao ler Jaime Gil de Biedma para os meus amigos,
embora tudo tenha conspirado para isso.
Para que se me entranhassem as coisas.

Concluo que não sou poeta.

Tenho os dedos frios de um técnico em informática
e sou triste como um técnico em informática
mas não sou tão triste quanto um barbeiro.

Eu li todos os tratados da métrica portuguesa.

Assinei dois contratos como poeta
que doravante já não têm validade.
Assinarei um terceiro, como última traição.

Serei perdoado por todos.

Doravante vão reinar o olho e a raiva.

As melhores botas para caminhar na areia
os cálculos de longas distâncias
os treinamentos de apneia.

O amor virá até mim como vai aos jornalistas e CEOs, aos sushimen de São Paulo (SP) que vieram do Ceará – ideais porque têm mãos quentes.

As partes elegem o Foro da comarca de São Paulo (SP), renunciando a qualquer outro, por mais privilegiado que possa ser, para dirimir todas as questões surgidas quanto à interpretação ou execução deste contrato que não puderem ser resolvidas amistosamente.

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