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Claudia Lars, por Victor Hugo Turezo

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Claudia Lars, arte de Natii Escobar

Claudia Lars (1899—1974), pseudônimo de Margarita del Carmem Brannon Vega, nasceu em Armenia, em El Salvador.  Marcada por elementos líricos, sua poesia comprime a síntese de sua dor intocada. Certo apelo a uma angústia sutil e a morte permeiam seus principais poemas, e foi através destes motes que Lars exprimiu quase toda a sua obra.

Alguns de seus principais livros são Estrellas en el Pozo (1934) Canción redonda (1936) e Ciudad bajo mi voz (1947). Os poemas originais utilizados para a tradução aqui apresentada estão no livro Antología de la Poesía Hispanoamericana (Editorial ALBA, 2000), org. de José María Gómez Luque.

*

ESPEJO

En el espejo se perdió la niña de antes,
con sus siete caminos primaverales
y una estrella de lágrimas en el corazón.

El espejo come rostros
y tiempo.

Hoy aparece en su cristal una mujer estristecida.
Quizás también la muerte.
Pero a la muerte…, ¿quién la ve?

ESPELHO

No espelho desfez-se a menina de antes,
com seus sete caminhos primaveris
e uma estrela de lágrimas no coração.

O espelho come rostos
e tempo.

Hoje aparece em seu reflexo uma mulher entristecida.
Talvez também a morte.
Mas a morte… quem a vê?

 §

NIÑO DE AYER

Eras niño de niebla
casi en la nada;
nombre de mi sonrisa
detrás del alma.

Y era un barco dichoso
de tanto viaje
y un ángel marinero
bajo mi sangre.

Subías como el lirio,
como las algas;
en tu peso crecía
la madrugada.

Y alzando el aire joven
sus ademanes
ya marcaba tu fuerza
de vivos mástiles.

¡Prado de nieve limpia
bosque de llamas!…
Y tú, semilla dulce,
bien enterrada.

Escondido en mi pulso,
sin entregarte;
pulsando en los temores
de mi quién sabe.

Buscabas en mi pecho
bulto y palabra;
entre mis muertos ibas
buscando cara.

Salías de la torre
de las edades
y en las lunas futuras
dabas señales.

No crea que te cuento
cosas de fábula:
para que me comprendas
coge esta lágrima.

MENINO DE ONTEM

Era menino de névoa
quase no nada;
nome de minha graça
detrás da alma.

E era um barco amparado
de viagem constante
e um anjo marinheiro
sob meu sangue.

Subia como o lírio,
como as algas;
em teu peso crescia
a madrugada.

E alçando o ar jovem
suas infalibilidades
já marcava tua força
de vivos mastros.

Prado de neve limpa
bosque de chamas!…
E você, semente doce,
bem enterrada.

Escondido em meu pulso
sem te entregar
pulsando nos medos
de minha incerteza.

Buscava em meu peito
vulto e palavra;
entre meus mortos ia
buscando cara.

Saia da torre
das idades
e nas luas futuras
enunciava sinais.

Não acredite que te conto
coisas de fábula:
para me compreender
toma esta lágrima.

§

 PALABRAS DE LA NUEVA MUJER

Como abeja obstinada
exploro inefables reinos
que desconoces
y al entrar en la memoria de tu corazón
señalo parajes virginales.

¡Aquí la eternidad
modificando nuestro minuto!
No puedo ser abismo:
con la luz se hacen viñedos
y retamas.

Pertenezco a la desnudez
de mi lenguaje
y he quemado silencios y mentiras
sabiendo que transformo
la historia de las madres.

Mujer
Sólo mujer
¿Entiendes?
Ni pajarilla del necesario albergue,
ni alimento para deseosos animales,
ni bosque de campánulas donde el cielo se olvida
ni una hechicera con sus pequeños monstruos.

¡Oh poderes del hombre
alzando mutaciones
de frágiles rostros!
¡Oh esplendor oculto en mi santuario
ya bajo la excelencia
de íntimos ángeles!
¿Logra mi amor decirte
que busco un amante
con frente inmortal?

PALAVRAS DA NOVA MULHER

Como abelha obstinada
exploro inexprimíveis reinos
que você desconhece
e ao entrar na memória do teu coração
avisto paisagens virgens.

Aqui a eternidade
modificando nossos minutos!
Não posso ser abismo:
com a luz se formam vinhedos
e retamas*.

Pertenço à nudez
de minha linguagem
e queimei silêncios e mentiras
sabendo que transformo
a história das mães.

Mulher
Apenas mulher
Entende?
Nem víscera do necessário albergue,
nem alimento de desejosos animais,
nem bosque de campânulas onde o céu se deslembra
nem uma feiticeira com seus pequenos monstros.

Ó poderes do homem
alçando mutações
de frágeis rostos!
Ó esplendor oculto em meu santuário
já sob a excelência
de íntimos anjos!
Consegue meu amor te dizer
que busco um amante
com semblante imortal?

________________________________

*Planta baixa da família das papilionáceas, muito comum na Espanha

   *

Victor Hugo Turezo nasceu em Curitiba (Pr), em 1993. É poeta e tradutor. Lançou minha massa encefálica despenca como se de um desfiladeiro (Patuá, 2017). Traduziu, com Natália Agra, bosque musical (corsário-satã, 2018), plaquete com poemas de Alejandra Pizarnik.

***

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poesia, tradução

Alejandra Pizarnik, por Natália Agra e Victor Hugo Turezo

Inalterar capacidades, sentidos na poesia de Alejandra Pizarnik é quase que efeméride. Tanto a busca de uma significação justaposta é instransponível. Argentina incandescente em abordar a surreal crise de sua existência, é também espelho de uma lápide na qual reverbera o escuro e a permissibilidade da morte. Limar a palavra desta poeta é desatar nós. Compilar e tentar aproximá-la daqui é como correr atrás de pássaros ruins, como escreveu Rodrigo Madeira certa vez.

Investigar a crueza de seus poemas é como adentrar num bosque musical e se aproximar de cada espécie selvagem, é como entoar a canção da morte. Sua poesia é quase uma experiência em comunhão com o universo, onde o corpo e a mente são a mesma coisa, numa cosmovisão. E talvez seja essa a essência dos poemas que traduzimos. Talvez conseguimos desvendar um pouco do portal imaginário do inconsciente da Pizarnik.

Natália Agra e Victor Hugo Turezo

***

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Cielo

mirando el cielo

me digo que es celeste desteñido (témpera
azul puro después de una ducha helada)

las nubes se mueven

pienso en tu rostro y en ti y en tus manos y
en el ruido de tu pluma y en ti
pero tu rostro no aparece en ninguna nube!
yo esperaba verlo adherido a ella como un
trozo de algodón enyodado dentro de tela adhesiva
sigo caminando

un cocktail mental embaldosa mi frente
no sé si pensar en el cielo o en ti
y si tirara una moneda? (cara tú seca cielo)
no! tu ser no se arriesga y
yo te deseo te de-se-o!
cielo trozo de cosmos cielo murciélago infinito
inmutable como los ojos de mi amor

pensemos en los dos

los dos tú + cielo = mis galopantes sensaciones
biformes bicoloreadas bitremendas bilejanas
lejanas lejanas
lejos

sí amor estás lejos como el mosquito
sí! ese que persigue a una mosquita junto
al farol amarillosucio que vigila bajo el
cielo negrolimpio esta noche angustiosa
llena de dualismos

 

Céu

olhando o céu

me digo que é celeste desbotado (têmpera
azul puro depois de um banho gelado)

as nuvens se movem

penso em seu rosto e em você e em suas mãos e
no ruído de sua caneta e em você
mas seu rosto não aparece em nenhuma nuvem!
eu esperava vê-lo misturado a ela como um
pedaço de algodão iodado dentro do tecido adesivo
sigo caminhando

um coquetel mental embala minha cabeça
não sei se pensar no céu ou em você
e se eu jogasse uma moeda? (cara, você; coroa, o céu)
não! seu ser não se arrisca e
eu te desejo, te de-se-jo!
pedaço de céu do cosmos céu morcego infinito
imutável como os olhos do meu amor

pensemos nos dois

os dois você + céu = minhas sensações galopantes
biformes bicoloridas bitremendas bidistantes
distantes distantes
longe

sim o amor está longe como o mosquito
sim! esse que persegue um outro mosquito perto
do farol amarelado que vigia, sob o
céu negrolimpo, esta noite angustiante
                                cheia de dualismos

§

 

El miedo

En el eco de mis muertes
aún hay miedo.
¿Sabes tú del miedo?
Sé del miedo cuando digo mi nombre.
Es el miedo,
el miedo con sombrero negro
escondiendo ratas en mi sangre,
o el miedo con labios muertos
bebiendo mis deseos.
Sí. En el eco de mis muertes
aún hay miedo.

 

O medo

No eco de minhas mortes
ainda há medo.
Você percebe o medo?
Sei do medo quando digo meu nome.
É o medo,
O medo com um chapéu preto
escondendo ratos em meu sangue,
ou o medo com lábios mortos
bebendo meus desejos.
Sim. No eco de minhas mortes
ainda há medo.

***

Natália Agra é poeta e editora na Corsário-Satã. Nasceu em Maceió, AL, em 1987. Publicou De repente a chuva (Corsário-Satã, 2017). Já apareceu aqui na escamandro com alguns poemas.

Victor Hugo Turezo é poeta e tradutor. Nasceu em Curitiba, PR, em 1993. Publicou minha massa encefálica despenca como se de um desfiladeiro (Editora Patuá, 2017).

*

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poesia, tradução

Alfonsina Storni (1892—1938), por Victor Hugo Turezo

Alfonsina Storni nasceu na Suíça em 1892 e estabeleceu-se na Argentina ainda criança. Poeta e escritora, também foi professora e jornalista. Sua obra, de cunho introspectivo e naturalista, ficou marcada pelo modernismo empregado à época. Aqui, apresento a tradução de três poemas contidos nos livros El dulce daño, de 1918 e Languidez, de 1920. No primeiro poema Cuadrados y Ángulos, pode-se observa o comprometimento da poeta com palavras ópticas, realistas e naturalistas. Em Sábado, a escritora constrói uma progressão imagética cheia de composições estruturalmente realistas. No último escrito, Miedo, Alfonsina nos mostra sua complexidade aliterada e costura, meio que ensimesmada, sua objetificação enclausura. Alfonsina Storni se suicidou em 1938, na cidade de Mar del Plata.

Victor Hugo Turezo

* * *

De EL DULCE DAÑO (1918) ALFONSINA STORNI
De O DOCE DANO (1918)

CUADRADOS Y ÁNGULOS
Casas enfiladas, casas enfiladas,
Casas enfiladas.
Cuadrados, cuadrados, cuadrados,
Casa enfiladas
Las gentes ya tienen el alma cuadrada,
Ideas en fila
Y ángulo en la espalda.
Yo misma he vertido ayer una lágrima,
Dios mío, cuadrada.

QUADRADOS E ANGULAÇÕES
Casas enfileiradas, casas enfileiradas,
Casas enfileiradas.
Quadrados, quadrados, quadrados,
Casas enfileiradas
O povo tem a alma quadrada
Ideias em fila
E costas anguladas.
Eu mesma verti ontem uma lágrima,
Meu Deus, quadrada.

§

SÁBADO
Levanté temprano y anduve descalza
Por los corredores; bajé a los jardines
Y besé las plantas;
Absorbí los vahos limpios de la tierra,
Tirada en la grama;
Me bañé en la fuente que verdes achiras
Circundan. Más tarde, mojados de agua
Peiné mis cabelos. Perfumé las manos
Con zumo oloroso de diamelas. Garzas
Quisquillosas, finas,
De mi falda hurtaron doradas migajas.

Luego puse traje de clarín más leve
Que la misma gasa.
Mi sillón de paja.
De un salto ligero llegué hasta el vestíbulo.
Fijos en la verja mis ojos quedaron,
Fijos en la verja.
El reloj me dijo: diez de la mañana.
Adentro un sonido de loza y cristales.
Comedor en sombras; manos que aprestaban
Manteles.
Afuera, sol como no he visto
Sobre el mármol blanco de la escalinata.
Fijos em la verja siguiron mis ojos
Fijos. Te esperaba.

SÁBADO
Levantei cedo e andei descalça
Pelos corredores; desci aos jardins
E beijei as plantas;
Absorvi os aromas limpos da terra,
Atirada sobre a grama;
Me banhei na fonte em que verdes achiras*
cingiam. Mais tarde, molhados de água
Penteei meus cabelos. Perfumei as mãos
com sumo cheiroso de jasmim. Garças
Ariscas, finas,
De minha saia roubaram douradas migalhas.

Logo coloquei um traje de gala mais leve
Que a própria malha.
Minha poltrona de palha.
De sobressalto cheguei até o vestíbulo.
Fixos na grade meus olhos ficaram,
Fixos na grade.
O relógio me disse: dez da manhã.
Dentro um barulho de louça e cristais.
Sala de jantar em sombras; mãos que alinhavam
Toalhas de mesa.
Fora, sol como jamais vi.
Sobre o mármore branco da escadaria.
Fixos na grade seguiram meus olhos
Fixos. Te esperava.

* Planta peruana, da família das cannáceas, de raiz comestível.

De LANGUIDEZ (1920)

MIEDO

El niño se ha alejado de la casa un momento
Y se vuelve de pronto hasta más ligero que el viento.

El niño en el camino se paró de repente
Porque dormida estaba al sol una serpiente.

Con el juguete nuevo en las manos deshecho
El niño se recuesta tembloroso en mi pecho.

Y en la pequeña caja del cuerpo estremecido
Repercute sin tregua un violento latido.

Así cuando en las manos aunque sean muy suaves
Temblorosas de miedo se acurran las aves,

Sobre el pecho del niño mis dos manos coloco
Y siento que la entraña se aquieta poco a poco.

Luego el niño levanta la cabeza, me mira
Con sus ojos azules, y muy quedo suspira.

MEDO

O menino se distanciou de casa um momento
E voltou rápido; mais veloz que o vento.

O menino no caminho parou de repente
porque sonolenta ao sol estava uma serpente.

Com um brinquedo nas mãos despedaçado
O menino se aninha irrequieto em meu peito.

E na pequena caixa do corpo estremecido
Repercute sem trégua um violento latido.

Assim, quando nas mãos, mesmo que sejam muito suaves
tremendo de medo se debandam as aves,

Sobre o peito do menino minhas mãos coloco
E sinto que a entranha se aquieta pouco a pouco.

Logo o menino levanta a cabeça, me olha
Com seus olhos azuis, e muito sereno suspira.

Os originais dos poemas traduzidos foram retirados do livro Antología poética (Editora Espasa Calpe S.A., Buenos Aires – México), impresso no ano de 1947.

* * *

Victor Hugo Turezo é poeta. Nasceu em Curitiba, em 1993. Publicou minha massa encefálica despenca como se de um desfiladeiro (Editora Patuá, 2017). Cursa Letras Português/Espanhol na UFPR.

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