poesia

Naiana Gomes

Naiana Gomes estudou um pouco de algumas coisas, jornalismos literaturas fotografias. está tropegamente aprendendo crochê com a avó, de forma que o ano vai mesmo começar todo torto. ainda assim, vive da teima em acreditar na dúvida, na pessoa e no mundo que se move pelo mundo. as imagens e vídeopoema abaixo são de sua autoria.

*

um outro fim do mundo é possível
intelectuais franceses afirmaram
há dois minutos e trinta segundos
talvez tomados pelo otimismo
que pede um começo de século
no despontar do milênio
eu sempre desconfiei
de tudo que vivesse além daquele peixe
cinco metros de comprimento
movendo-se pelo universo
durante trezentos e noventa e dois anos
fazem do tubarão da groenlândia
o vertebrado mais longevo
(pescado acidentalmente)
de que se tem notícia
mas confesso quis escrever um poema
que não sentisse nada por você
ignorando completamente
sua passagem pelo mundo
o fim do mundo
e o mundo

§

Dínamo

você sob o sol
ao toque tão forte do sol
você que se move
veloz feito um cão um gato
um lagarto
um bicho alado
atravessando a cidade de skate aos trinta anos
um peixe preto e dourado
deslizando rio rua abaixo
enquanto lá do quintal este peito se expande
vê lá vem eu meu alvoroço
ondeando os panos nos varais
tão suavemente quanto
foguete, peixe-espada, guitarra
rasgando o ar
e outra vez
o corpo todo no jogo
e uma vez mais
tomando fôlego
um balanço elevando-se
além das árvores
dos muros das torres dos edifícios comerciais
para alcançar o mar
tudo tão alto tão rápido
quase não percebemos
uma ligeira variação
entre as minhas as suas
coordenadas
uma fração de grau
partícula de luz
gota, grão
migalha
um quase nada
que nos afasta
um
do
outro
por inteiro
atravessados, entretanto, somos
de coisas muito pequenas
porém alarmantes
pólvora ou purpurina
tantas outras coisas vivas
besouros, nuvens, piabas, ranhuras
certezas mínimas
de que tudo pode mudar
existe o encontro e existe a distância
nesta manhã em que continuamos
nem sei como
mas continuamos
pelo mundo
e o mundo continua

uma grande confusão.

o avô nunca falou do fim do mundo
mas diante do mar calculava
eita água que ninguém acaba
e terra adentro apontava o bicho
que comia veneno e antídoto
sempre combinados
tentei procurar no google
mas nada é páreo ao inventário
do avô
morcegos subaquáticos
(nas goteiras de casa)
toupeiras que se alimentam
de grandes barcos
lagartos dados a peixe
amores longevos
essas coisas a gente prova
com pimenta e sal

§

é possível inclinar-se
alinhando o tronco ao horizonte
mover os dois braços
e sentir o ar
entrar e pender e erguer
um pássaro
isto eu sei
de te ver dançar
e naquele dia
quebrei cento e cinquenta taças
de uma vez

§

está no horóscopo de hoje
ou da semana passada
o ponto onde teu signo
e meu signo
contam como somos
diferentes
sob um mesmo sol
sentimos muito
sobrevoamos ilhas
visitamos as casas de nossa infância
vem, há esta árvore que eu quis te dar
quando ainda não te conhecia
cresce acima dos telhados
em fevereiro
frutifica
pequeninos sóis
resplandescentes
em cada geografia
colecionamos potinhos imaginários
neles queríamos
guardar B. e R. e M. e
guardar N.
e guardar T.
não os guardamos
os potinhos todos
vão preenchendo-se
de vazios
e os vazios contam
de uma cidade
atravessamos a rua
juntos
respirando
entre um passo e outro passo
há algo
que eu gostaria de te dizer
e digo.

*

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“Deus existe e minha mãe é triste”, de danilo augusto

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Danilo Augusto é poeta baiano, ensaísta, tradutor e professor. Publicou os livros Poemas (2014, edição do autor), Zumbi (2014, Coisa Edições) e Sonhos e outros Sonos (2005, Luripress), mas ainda tenta lançá-los. Em 2015 publicará Estar na Grama, poemas contra a terra devastada, a incompletude, a desesperança e o lugar nenhum.

* * *

Deus existe e minha mãe é triste

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