poesia, tradução

As Com/posições de Juan Gelman

Juan_GelmanJuan Gelman (1930) é um poeta judeu argentino, autor de mais de trinta livros e ganhador de prêmios literários como o Cervantes e o Reina Sofía de Poesía Iberoamericana. Sua história de vida é trágica e marcada pelo “desaparecimento” (leia-se sequestro e assassinato) de seu filho, sua nora e sua neta nas mãos dos militares da ditadura argentina e pelo subsequente exílio do poeta na Europa. Como comenta Cortázar, porém, “ninguém conseguiu matar nele a vontade de subentender essa suma de horror como um contragolpe afirmativo, criador de nova vida”, o horror da vida política, por assim dizer, não foi capaz de sufocar o seu lirismo.

Tenho aqui em mãos agora o volume Com/posições | Com/posiciones, em tradução de Andityas Soares de Moura, publicado em 2007 pela editora Crisálida, de Belo Horizonte. Não se trata de uma antologia em tradução, mas sim de um livro com uma proposta e uma unidade temática bastante curiosas, publicado em espanhol pela primeira vez em 1984. Como descreve o tradutor no texto de introdução, o livro “configura-se como um mosaico de vozes alienígenas, já que nele Gelman recolhe a tradição poética dos compositores judeus e árabes que habitaram a Espanha – Sheparad ou Al-Andaluz, o nome não importa – e que lá construíram uma lírica rica e fértil”. E, de fato, a primeira coisa que se nota ao folhear as páginas deste volume é que os poemas são assinados por outros nomes que não o de Gelman, como Abu Nuwas, Ibn Gabirol, Davi, e assim por diante. Em alguns casos, o que Gelman faz é revisitar a obra desses poetas anteriores, não com a pretensão de melhorá-los, como ele mesmo diz, mas como uma forma de diálogo, como uma construção de relação. Em outros casos, essa atribuição de autoria é um puro jogo ficcional, como quando assinam os poemas o cabalista Isaac Luria (que nunca deixou nada por escrito), o general judeu Samuel Hanagid ou o inventado Eliezer Ben Jonon (literalmente, “filho de Juan”).

Soma-se à inventividade do poeta o seu trabalho com os pormenores da linguagem, os jogos de palavras pelos quais o poeta já era conhecido e a sua versificação peculiar que se vale do uso de interrupciones, barras que marcam as pausas rítmicas para respiração, que coincidem às vezes com as pausas de fim de verso (ainda que, na poesia contemporânea, nem todos os poetas marquem essa pausa nas leituras de seus poemas… o que é assunto para discussões futuras ainda) e às vezes fazem pausas no interior do verso, mais ou menos como outros poetas fazem com espaços em branco.

Dito isso,  então (uma introduçãozinha importante para se começar a entender o livro e evitar confusões que possam surgir de se ler os poemas fora de contexto), seguem abaixo alguns poemas de Com/posições.

Adriano Scandolara

           

O BERÇO

acendem alegria no mundo/
trazem o vinho/ainda não tocado/
como virgem morena que já começava a encanecer/
não hás de beijá-la com desejo?/
quanto esperou/na grande escuridão/
para juntar-se ao teu sangue/
celebrar estas bodas?/
ó vinho velho/como a noite foi teu pai/
mas em minha alma farás um campo
verde como tua mãe/e jardins
cheios de pássaros de todas as espécies/
e haverá comércio entre eles e a língua/
e meus versos terão mais vôo e música
que todos os jardins de bagdá/
ó vermelho/não tens lugar para as tristezas/
escanceia-te um ser de partes femininas
em trajes de varão/
quando te levantou/puro/na jarra/
de seu rosto caíram resplendores/
a noite negra se fez dia/
e me serviu uma transparência/
que cegou o olho/a memória/
se mesclaram essa luz com outra luz/
a não vista/a última/
agora domo o tempo/
sentou à minha mesa a fêmea de meu desejo/
que não haja ausência entre nós/
tenho saudades de ti/não do lugar
onde a bela Hind/ou Asma
a de peitos redondos e branquíssimos/
plantou sua tenda/seus aromas de leite ardente e noite/
e quem desejará viver em uma tenda/
vendo passar ovelhas e camelos?/
quero viver em ti/vinho/sob
sóis que foram/com
tuas cândidas esposas balançando
o berço de meus versos adormecidos/

                                                                   abu nuwas
                                                                   (747?-815?/bagdá-basra-kufa)

           

LA CUNA

encienden alegría en el mundo/
traen el vino/aún no tocado/
como virgen morena que ya empezaba a encanecer/
¿no has de besarla con deseo?/
¿cuánto esperó/en la larga oscuridad/
juntarse con tu sangre/
celebrar estas bodas?/
oh vino añejo/como la noche fue tu padre/
pero en mi alma harás un campo
verde como tu madre/y jardines
llenos de pájaros de todas clases/
y habrá comercio entre ellos y la lengua/
y mis ersos tendrán más vuelo y músic
que todos los jardines de bagdad/
oh rojo/no tenés lugar para las penas/
te escancia un ser de partes femeninas
en traje de varón/
cuando te alzó/puro/en la jarra/
de su rostro cayeron resplandores/
la noche negra se hizo día/
y me sirvió una transparencia
que cegó el ojo/la memoria/
si mezclaran esa luz con la luz
su unión engendraría otra luz/
la no vista/la última/
ahora domeño el tiempo/
sentó a mi mesa la hembra de mi deseo/
que no haya ausencia entre nosotros/
te añoro a vos/no el sitio
donda la bella Hind/o Asma
la de pechos redondos y blanquíssimos/
plantó su tienda/sus aromas de leche ardiente y noche/
¿y quién querrá vivir en una tienda/
viendo pasar ovejas y camellos?/
quiero vivir en vos/vino/bajo
soles que fueron/con
tus cándidas esposas meciendo
la cuna de mis versos dormindos/

         
                                                                   abu núwas

           

SALMO

onde estão minhas muralhas?/
onde a paz de meus mortos/semente
disseminada na memória/ou planta
que calada cresces?/está em ti?/
não me conheço/como conhecer-te?/
com que nome posso te nomear?/
como se chama na verdade a calhandra?/
silêncio és da palavra/
quando não falo sou em ti/
tudo o que me digo é silêncio de ti/
pássaro que não voa/boi
que não ara/mara que não mara/sol
que não caminha pelo céu/és
este abrigo que me desnuda em
tuas muitas compaixões?/
me faz tremer de ti?/ em ti?/
cego de claridade/animal
que pasta em tua paciência?/
           
davi
           
SALMO

¿dónde están mis murallas?/
¿dónda la paz de mis muertos/semilla
diseminada en la memoria/o planta
que callada crecés?/¿está en vos?/
no me conozco/¿como conocerte?/
¿con qué nombre te puedo nombrar?/
¿cómo se llama en realidad la alondra?/
silencio sos de la palabra/
cuando no hablo soy en vos/
todo lo que me digo es silencio de vos/
pájaro que no vuela/buey
que no ara/mar que no mara/sol
que no camina por el cielo/¿sos
este abrigo que me desnuda en
tus muchas compasiones?/
¿me hace temblar de vos/¿en vos?/
¿ciego de claridad/animal
que pace en tu paciencia?/
           
                                                                   david

           
AS TESTEMUNHAS

disseram à jovem do cabelo que beija suas bochechas
“como pode o meio-dia de ouro beijar a alba rosada?”/
“vão é o belo/desilude a ilusão”/ela disse/
mas não estava falando dela/
suas bochechas não mentem/declaram
que os atos de Deus são insondáveis/

                                                                   salomão ibn gabirol
                                                                   (1021-1055/málaga-saragoça-valência)

           

LOS TESTIGOS

dijeron a la joven del cabello que besa sus mejillas
“¿cómo puede el mediodía de oro besar al alba rosada?”/
“vano es lo bello/desilusiona la ilusión”/ella dijo/
pero no estaba hablando de ella/
sus mejillas no mienten/declaran
que los actos de Dios son insondables

                                                                   salomón ibn gabirol

           

O SOLO

não me ferem nem sol/nem lua/
ardo ao teu paladar cravado/como
orvalho que treme
entre açucenas/

                                                                   eliezer ben jonon

           

EL SUELO

no me hieren ni sol/ni luna/
ardo a tu paladar clavado/como
rocío que tiembla
entre azucenas/

                                                                   eliezer ben jonon

           

DIZER

o que é este corpo meu/interminável
arde/teus peitos
movem em duas a noite/
e ele morrevive em teu entender/
come os livros da sombra/
és tu não conhecida formosura/
a que se esconde em tua formosura/
sol deste exílio/que
segues/giras/eternidades/
até a clara escuridão/

                                                                   judá halevi
                                                                   (1075-1141/tudela-granada-toledo-córdoba-alexandria)

           

DECIR

qué es este cuerpo mío/interminable
arde/tus pechos
mueven en dos la noche/
y él muerevive en tu entender/
come los libros de la sombra/
es tu no conocida hermosura/
la que se esconde en tu hermosura/
sol de este exilio/que
seguís/girás/eternidades/
hasta la clara oscuridad/

                                                                   yehuda halevi

           

SE

se a dor fosse tempo?/
tempo a dor contigo sentigo/
ossos durando
ao sol da dor?/
se o pão das criaturas
passareasse por todo o céu/como
a tempo da dor?/
se nada houvesse que olvidar?/
se a memória não tivesse chave?/
se amorasse seu tempo?/
duplo como tua felicidade?/
como peito de ti?/

                                                                   isaac luria
                                                                   (1534-1572/jerusalém-alexandria-safed)

           

SI

¿si el dolor fuera tiempo?/
¿tiempo el dolor con vos sin vos/
huesos durando
al sol de la dolor?/
¿si el pan de las criaturas
pajareara por todo el cielo/como
la tiempo del dolor?/
¿si nada hubiere que olvidar?/
¿si la memoia no tuviesse llava?/
¿si amorara su tiempo?/
¿doble como tu dicha?/
¿como pecho de vos?/

                                                                   isaac luria

           

(poemas de Juan Gelman, tradução de Andityas Soares de Moura)

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Uma certa taça de crânio de Byron em várias bocas

Quem, por acaso, já folheou as páginas de Espumas Flutuantes, do nosso famoso poeta Castro Alves (1847-1871), romântico de 3ª geração, conhecido pelo poema anti-escravista Navio Negreiro, com certeza deve ter percebido que o poeta mescla alguns poemas traduzidos junto com sua produção própria ao longo do volume. Um desses poemas, de grande destaque, é a seguinte tradução de um poema do, também romântico famoso, Lorde Byron:

A uma taça feita de um crânio humano

Não recues! De mim não foi-se o espírito…
Em mim verás – pobre caveira fria –
Único crânio que, ao invés dos vivos,
Só derrama alegria.

Vivi! amei! bebi qual tu: Na morte
Arrancaram da terra os ossos meus.
Não me insultes! empina-me!… que a larva
Tem beijos mais sombrios do que os teus.

Mais vale guardar o sumo da parreira
Do que ao verme do chão ser pasto vil;
– Taça – levar dos Deuses a bebida,
Que o pasto do réptil.

Que este vaso, onde o espírito brilhava,
Vá nos outros o espírito acender.
Ai! Quando um crânio já não tem mais cérebro
…Podeis de vinho o encher!

Bebe, enquanto inda é tempo! Uma outra raça,
Quando tu e os teus fordes nos fossos,
Pode do abraço te livrar da terra,
E ébria folgando profanar teus ossos.

E por que não? Se no correr da vida
Tanto mal, tanta dor ai repousa?
É bom fugindo à podridão do lado
Servir na morte enfim p’ra alguma coisa!…

(tradução de Castro Alves: Bahia, 15 de dezembro de 1869)

É um poema de impacto: escrito na voz do crânio que serve de taça, ele subverte a expectativa normal, as sensações de receio de se estar profanando o morto ao beber em sua caveira, para celebrar algo do hedonismo romântico que é bastante típico de Byron. A lógica em que ele insiste é que, perdido o cérebro – e, com o cérebro, tudo que representa, no que diz respeito à razão e os pensamentos, e, com eles, também os sofrimentos que os acompanham – , o vinho é um substituto dos mais nobres – e, com ele, também, tudo que o vinho representa, dionisicamente. Há algo de mórbido, sim, especialmente no modo como ele cria essa associação entre a própria taça-caveira e quem a empunha (ao dizer que viveu, bebeu e amou qual tu, no v. 5, ou que uma outra raça poderá fazer o mesmo que você quando você morrer, na penúltima estrofe), mas uma morbidez celebrativa do tipo que era muito ao gosto dos nossos românticos.

E, aparentemente, o que ainda é mais mórbido, a taça realmente existiu e foi feita a partir de um crânio, presumivelmente de um monge, que um dos jardineiros de Byron exumou, por acaso, em seu terreno na Abadia de Newstead.

Textualmente, porém, há algo de levemente estranho na impressão que fica da leitura desse poema. Notem como as rimas ocorrem somente entre o segundo e o quarto verso de cada estrofe e como este quarto verso também está sujeito a variações de métrica: enquanto todos os outros versos são decassílabos padrão, as estrofes se encerram com versos de 6, 10, 5 (ou 6, se ler como rép-til), 6, 10 e 10, respectivamente.

Bem, o original, em domínio público e disponível online, não é difícil de achar. E, consultando-o, podemos ver que, de fato, Castro Alves operou algumas mudanças formais difíceis de se compreender:

Lines Inscribed Upon A Cup Formed From A Skull

Start not – nor deem my spirit fled:
In me behold the only skull
From which, unlike a living head,
Whatever flows is never dull.

I lived, I loved, I quaffed like thee;
I died: let earth my bones resign:
Fill up – thou canst not injure me;
The worm hath fouler lips than thine.

Better to hold the sparkling grape
Than nurse the earthworm’s slimy brood,
And circle in the goblet’s shape
The drink of gods than reptile’s food.

Where once my wit, perchance, hath shone,
In aid of others’ let me shine;
And when, alas! our brains are gone,
What nobler substitute than wine?

Quaff while thou canst; another race,
When thou and thine like me are sped,
May rescue thee from earth’s embrace,
And rhyme and revel with the dead.

Why not – since through life’s little day
Our heads such sad effects produce?
Redeemed from worms and wasting clay,
This chance is theirs to be of use.

(Lorde Byron)

São estrofes formadas por 4 tetrâmetros jâmbicos cada (e a opção de traduzi-los por decassílabos não é injustificável, dada a possível necessidade de lidar com uma maior margem de manobra) em rimas alternadas abab: fled  skull  head  dull.

Não que eu queira dizer que Castro Alves tenha traduzido mal o poema – muito pelo contrário. Mas, em vez disso, as suas estranhas decisões formais, no que diz respeito às rimas e à variação métrica do último verso de cada estrofe, nos revelam/confirmam um outro dado muito interessante: Castro Alves não teve acesso ao Byron em inglês.

Que os nossos românticos tenham recebido o romantismo por via francesa já não é nenhuma novidade. Assim, o inglês foi uma língua muito pouco lida literariamente ao longo do nosso século XIX, sendo os nossos principais leitores Machado de Assis e Joaquim de Sousândrade. Não sei dizer se Castro Alves não sabia ler em inglês ou simplesmente não teve acesso, só sei que uma outra indicação muito reveladora de qualquer uma dessas duas hipóteses parte da epígrafe de um de seus outros poemas, “Boa Noite”:

Veux-tu donc partir? Le jour est encore éloigné;
C’était le rossignol et non pas l’alouette,
Dont te chant a frappé ton oreille inquiète;
Il chante la nuit sur les branches de ce grenadier,
Crois-mol, cher ami, c’élait te rossignol.

O autor dessa epígrafe em francês? Shakespeare!

Pois é.

Fica uma dúvida, então (além, isto é, da dúvida de qual é a tradução de Shakespeare utilizada aqui): se Castro Alves retraduziu Byron via uma tradução francesa, de quem era esse novo original? E essa é uma pergunta um pouco mais difícil de se responder.

É aí que os franceses nos dão um verdadeiro baile: a obra completa de Byron já no século XIX foi traduzida não uma, nem duas, mas três vezes. É bem verdade que duas dessas traduções são em prosa, mas ainda assim, tradução nunca é demais. Esses tradutores foram Benjamin Laroche (1797-1852, tradução em 4 volumes data de 1847), Amédée Pichot (1795-1877, publicou a tradução em 10 volumes entre 1819-1821) e Paulin Paris (1800-1881, tradução em 3 volumes, 1827). Que todos esses volumes tenham sido lançados antes da morte e, aliás, antes mesmo do nascimento de Castro Alves, deixa em aberto a possibilidade de ele ter lido qualquer uma das 3 traduções.

Felizmente, os franceses também são muito afeiçoados a guardar e divulgar essas coisas na internet, e todas as 3 traduções desse poema de Byron puderam ser encontradas aqui com enorme facilidade – e digo enorme (em vez de “relativa”) sem hipérbole, porque, não fosse a internet, para essa simples pesquisa eu provavelmente teria de percorrer antigas bibliotecas de Paris atrás desses volumes fustigados pelo tempo, o que, apesar de muito romântico, seria pouquíssimo prático.

Mas vamos por partes (e em ordem completamente arbitrária). O primeiro candidato aqui é Benjamin Laroche:

Vers gravés sur une coupe formée d’un crane

La mort ne m’a point fait sa proie;
Pourquoi de moi l’effrayer tant?
Je ne contiens que de la joie:
Quel cerveau peut en dire autant?

Boire, aimer, ce fut là ma vie.
Mort, voilà qu’on m’a déterré.
Bois! je crains moins ta lèvre amie
Que les vers qui m’ont dévoré.

Dans un festin, coupe écumante,
Mieux vaut régner avec orgueil.
Qu’aller dans la tombe béante,
Nourrir les hôtes du cercueil.

Qu’on puise de l’esprit à table
Dans ce vase où régna le mien!
Puis, quand la cervelle est au diable.
Le vin la remplace fort bien.

Hâte-toi donc! bois à plein verre!
D’autres, quand tu seras là-bas.
De tes os ravis à la terre
Égairont aussi leurs repas.

Et pourquoi non? Homme futile,
Nul bien ne sort de ton cerveau:
Qu’après la mort il soit utile,
C’est encore un sort assez beau.

(tradução de Benjamin Laroche)

E a ordem que eu sigo para essa exposição é arbitrária justamente pelo bem do suspense e para dizer que esse autor já está desqualificado como candidato a novo original da retradução de Castro Alves. Ele mantém a rima tal qual no original e traduz os tetrâmetros trocaicos por versos de 8 sílabas, à moda da metrificação francesa. Fora isso, o que também o desqualifica como o possível original de Castro Alves é o primeiro verso da 2ª estrofe: Laroche traduz “I lived, I loved, I quaffed like thee” – “vivi, amei, bebi como tu” – por “Boire, aimer, ce fut là ma vie.” – “beber, amar, foi-se minha vida”. Provavelmente por causa de questões formais, ele não segue a ordem (aliás, ele a inverte), troca o passado pelo infinitivo (talvez porque seria mais difícil encaixar os 3 verbos no passado na métrica) e o direto “vivi” por uma locução mais longa, rimando “vie” com o “amie” do 7º verso. Castro Alves faz “Vivi! amei! bebi qual tu” que é muito mais literal e provavelmente impossível de ser recuperado a partir do francês aqui.

Laroche também toma liberdades com o verso 15, onde o “when our brains are gone” – “quando nossos miolos se forem” – se torna “quand la cervelle est au diable” – “quando o cérebro for pro diabo” -, que reflete uma certa oralidade que está presente em “are gone”, mas que introduz também o termo “diabo”, uma palavra em si já poeticamente pesada e que, se Castro Alves a tivesse lido, provavelmente gostaria de ter mantido. Há muitas outras alterações interessantes, mas não convém glosá-las aqui.

Vamos ao próximo, então, que é Amédée Pichot:

Vers gravés sur une coupe formée d’une tête de mort

I. Ne frémis pas… ne crois pas que mon âme se soit enfuie; considère en moi le seul crâne duquel il ne sort jamais rine de triste: c’est en cela surtout que je ressemble peu aux têtes vivantes.

II. J’ai vécu, – j’aimais, je buvais comme toi; je mourus. Que la terre garde le reste de mes os. Remplis-moi de vin… Tu ne peux m’outrager; tes lèvres sont moins fatales que celles des vers.

III. Il vault mieux contenir le jus pétillant de la grappe, que de nourrir les vers dévorans de la tombe; il vaut mieux former une coupe destinée à t’offrir le breuvage des dieux, que d’être la proie de ces odieux reptiles.

IV. Peut-être quelques saillies sont-elles jadis sorties de ma tête; qu’elle serve aujourd’hui à entretenir l’esprit des auters. Hélas! quand nos cerveaux ont disparu, peut-on leur substituer quelque chose de plus noble que le vin?

V. Savoure ce nectar aujourd’hui que tu le peux… Quand toi et les tiens vous ne serez plus, une autre génération peut-être te ravira comme moi à la terre, et appellera les morts à ses festins.

VI. Pourquoi non? Puisque, pendant la courte journée de la vie, nos têtes produisent de si tristes effets, ne pourrait-on les racheter des vers et de la destruction pour les employer à un bon usage?

(tradução de Amédée Pichot, Oeuvres de Lord Byron, Volume 2)

Temos um problema, já que descartamos a única tradução em verso das 3. Como mencionei acima, esta tradução é em prosa e a outra também. Pois bem, o que podemos, a princípio, pensar como uma vantagem da tradução em prosa (talvez a única) é a possibilidade de manter semanticamente as informações do original, sem precisar recorrer a malabarismos verbais e omissões para encaixar a métrica e as rimas. E é interessante ver que Castro Alves, ao que tudo indica, leu uma tradução em prosa e, por isso, teve de repoetizar o poema. Mas, se ele sabia que o poema original tinha estrofes de 4 versos com rimas entre o 2º e 4º versos, ao menos, de cada estrofe, ou se deduziu isso de algum modo – talvez contando mais ou menos o tanto de sílabas de cada estrofe, reorganizando-as e adivinhando a rima – é algo que escapa à nossa investigação.

À primeira vista, nota-se que, ela de fato, é mais literal que a outra, e a tríade “vivi-amei-bebi” do original e da tradução de Castro Alves foi deixada intacta. Mas dá para observar alguns desvios em relação à tradução brasileira. Quando Byron diz “espirit” no primeiro verso, e ele se torna “âme”, “alma”, na tradução de Pichot, apesar de se tratar de uma mudança perfeitamente compreensível, a repetição de “espírito” em Castro Alves, tanto aí quanto na 4ª estrofe, onde Pichot traduz “wit” por “esprit” (que tem aí um sentido muito mais amplo do que o sentido metafísico de espírito, como Byron utiliza no começo), se torna difícil de justificar.

Podemos presumir (ou por sorte ou por perspicácia) que Pichot, por preferir usar “esprit” para dar conta de traduzir “wit” (como também Laroche o faz, e omite completamente o “espírito” da primeira estrofe) e notar que “spirit” e “wit” são coisas muito distintas em inglês, ele preferiu usar na primeira estrofe um sinônimo de “espírito” (no sentido metafísico), que é “alma”. Mas Castro Alves repete “espírito” em ambos os casos.

Talvez nada disso prove de fato que essa tradução não possa ter sido a fonte, mas são pontos que pesam contra ela. Vejamos, então, a última tradução, de Paulin Paris:

Vers écrits sur une coupe faite avec un crane ‘dhomme

1. Point d’effroi:–ne crois pas mon esprit envolé: en moi, vois seulement un crâne qui, par un privilége refusé aux têtes vivantes, ne répand jamais au dehors rien que d’excellent.

2. Comme toi, je vécus, j’aimai, je m’enivrai,–je mourus;–la terre t’a cédé mes os pour en faire un vase à boire; va, emplis-le jusqu’aux bords,–tu ne peux m’outrager: les vers ont une lèvre plus hideuse que la tienne.

3. Mieux vaut enserrer le jus pétillant de la grappe, que de nourrir la gent glaireuse des vers de terre; mieux vaut, en forme de coupe, porter à la ronde la boisson des dieux, que de pourrir en proie aux reptiles.

4. Là, où jadis mon esprit a peut-être brillé, brillons encore en inspirant les autres. Lorsque, hélas! nos cerveaux ne sont plus, peut-on mettre en leur place chose plus noble que le vin?

5. Bois toujours, tant que tu le peux faire;–lorsque toi et les tiens vous aurez passé comme moi, une autre race t’enlèvera, peut-être, aux embrassemens de la terre, et festinera, rimera avec des ossemens.

6. Pourquoi non? Puisque, durant les jours de notre courte vie, nos têtes produisent de si tristes effets; arrachées aux vers et aux débris de notre argile, elles courent la chance d’être de quelque usage.

(tradução de Paulin Paris, volume 4, oeuvres complètes)

Voilà! O monsieur Paris utiliza “esprit” em ambos os casos. Não somente isso, como um trecho complicado da segunda estrofe que é alterado por Pichot foi traduzido de maneira mais semântica (embora não exatamente literal) por Paris e chega com um sentido parecido em Castro Alves. Vejam:

Byron: let earth my bones resign (“que a terra renuncie aos meus ossos”)

Pichot: Que la terre garde le reste de mes os. (“que a terra guarde o resto dos meus ossos”, que implica que só o crânio foi salvo, e a terra, longe de cedê-los, ainda os guarda)

Paris: la terre t’a cédé mes os pour en faire un vase à boire (“a terra cedeu a você meus ossos para fazer um copo”, é uma tradução mais explicativa e tem informação extra para quem não entendeu até essa altura o que está acontecendo)

Castro Alves: Arrancaram da terra os ossos meus. (a terra muda de ativa para passiva, mas não há menção a guardar o restante dos ossos, é um verso possível de ser derivado a partir da tradução de Paulin Paris)

A primeira estrofe também é reveladora. Pichot inverte a ordem das sentenças. Se o original diz “Não se assuste, nem pense que meu espírito se foi / Contemple em mim o único crânio / De onde, ao contrário das cabeças vivas, / o que quer que flui jamais aborrece”, Pichot faz algo como “Não trema… não creia que minha alma se foi; considere em mim o único crânio do qual jamais sai nada de triste: é nisso sobretudo que me pareço pouco com as cabeças vivas”, onde se vê claramente que o final foi mudado de lugar.

Já Paris faz “Não precisa temer – não creia que meu espírito é partido: em mim, vês somente um crânio que, por um privilégio recusado às cabeças vivas, não flui jamais nada que não seja excelente”, que, além de manter a mesma ordem que Byron e Castro Alves, permite que da dupla negação “não flui jamais nada que não seja excelente”, possa-se deduzir uma afirmação positiva, o “só derrama alegria”, de Castro Alves – o que, na minha opinião, é mais difícil de se fazer com o “triste”, já que a tendência seria se não manter a palavra “triste”, achar algum sinônimo, assim como “excelente” está associado a “alegria”.

Só como bônus, já que acredito que essas evidências textuais bastem para podermos afirmar que é, muito provavelmente, Paris, em vez Pichot ou Laroche, a referência byroniana francesa de Castro Alves, olhemos os títulos:

Byron: Lines Inscribed Upon A Cup Formed From A Skull

Pichot: Vers gravés sur une coupe formée d’une tête de mort

Paris: Ves écrits sur une coupe fait avec un crane d’homme

Castro Alves: A uma taça feita de um crânio humano

Primeiro, já dá para ver a maior proximidade entre “crânio humano” e “crane d’homme” do que com “tête de mort”, o que mostra que não precisávamos analisar tanto as 2 traduções para chegarmos à conclusão que chegamos (mas analisamos de qualquer jeito). Mas o que eu quero apontar é o pequeno problema de transmissão que ocorreu aqui no “inscribed upon”.

É um telefone sem fio. Em Byron, os versos estão inscritos na própria taça, que não é o que está no título de Castro Alves, que se dirige para a taça (o que cria um efeito muito confuso quando você lê o poema e constata que é a taça-caveira que se dirige ao poeta, e não o contrário). Quando Paris traduz o título, em vez de um adjetivo que deixasse isso mais claro (como o “gravés” de Pichot), ele opta pelo genérico “écrits”, “escritos”, e, numa ambiguidade terrível, o “sur” que vem logo depois, segundo as regras de regência, não deixa claro se esses versos estão escritos sobre a superfície da taça, como é de fato, ou se eles foram escritos sobre a taça como um tema, como se escreve sobre o mar, as flores, a vida, etc. Ocorreu então que Castro Alves fez essa segunda interpretação e a simplificou, fazendo, então, de “versos escritos sobre uma taça” o “a uma taça”.

Isso quer dizer que sua tradução é ruim? Não necessariamente. Há problemas, claro, alguns dos quais partem dos próprios franceses – o que serve de aviso também para quem acredita ainda que a tradução em prosa é necessariamente mais “fiel” (muitas aspas necessárias aqui) do que a tradução poética. Mas Castro Alves está entre os melhores poetas do nosso romantismo, e seus dotes refulgem até mesmo nessa situação, em que trabalha em meio a diversas adversidades textuais. E o resultado, na minha opinião, é um bom poema, um poema que funciona.

E isso é mais do que podemos dizer, por exemplo, da tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos desse mesmo poema, já no final do século XX. Apesar do privilégio de traduzir diretamente do inglês, ele também não dá conta de todas as rimas e, inexplicavelmente, opta por traduzir os tetrâmetros jâmbicos (octassilábicos, portanto) de Byron não somente por decassílabos, como fez Castro Alves, mas por uma estranha alternância de decassílabos e dodecassílabos, que, sendo o verso par excellence da poesia francesa, faz com que o poema de Péricles, paradoxalmente, seja muito mais francês do que uma tradução do francês de fato. Na minha opinião, essa falta de concisão (representada por um aumento em 37% do número de sílabas, contra os 18% de Castro Alves) leva a uma dissolução poética, que, juntamente com a falta de um ritmo marcado, acaba por deixar o poema muito mais prosaico, diluindo a rapidez da sagacidade afiada de Byron em um discurso mais extenso e cansativo. Sua maior vantagem, acredito, é a de conseguir ser semanticamente mais próximo do que qualquer uma das traduções acima, mas às custas da poeticidade.

Reproduzo-a abaixo, portanto, conforme encontrada no volume Poemas, publicado pela editora Hedra:

Versos Inscritos numa Taça Feita de um Crânio

Não, não te assustes: não fugiu o meu espírito
Vê em mim um crânio, o único que existe
Do qual, muito ao contrário de uma fronte viva,
Tudo aquilo que flui jamais é triste.

Vivi, amei, bebi, tal como tu; morri;
Que renuncie a terra aos ossos meus
Enche! Não podes injuriar-me; tem o verme
Lábios mais repugnantes do que os teus.

Antes do que nutrir a geração dos vermes,
Melhor conter a uva espumejante;
Melhor é como taça distribuir o néctar
Dos deuses, que a ração da larva rastejante.

Onde outrora brilhou, talvez, minha razão,
Para ajudar os outros brilhe agora eu;
Substituto haverá mais nobre que o vinho
Se o nosso cérebro já se perdeu?

Bebe enquanto puderes; quando tu e os teus
Já tiverdes partido, uma outra gente
Possa te redimir da terra que abraçar-te,
E festeje com o morto e a própria rima tente.

E por que não? Se as frontes geram tal tristeza
Através da existência –curto dia–,
Redimidas dos vermes e da argila
Ao menos possam ter alguma serventia.

(tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos)

E, por fim, como é difícil resistir à tentação de se traduzir um poema ao se falar tanto dele, eu ofereço aqui também a minha própria tradução, feita tendo em mente o objetivo de manter as rimas e experimentando um pouco com a ideia da tradução em pés métricos:

Versos inscritos numa taça feita de um crânio

Não temas: a alma não partira
Só em mim dos crânios que já viste
Vês que, não como um que suspira,
Nada que flui jamais é triste.

Vivi, amei, bebi qual tu;
Morri: a terra não desejo:
Despeja! – em meu osso cru
Mais vil é ter da larva o beijo.

Pior servir do verme a raça
Do que à parreira com seus lumes,
Guardando néctar, como taça,
Não o dos répteis, mas dos numes.

Onde brilhara a minha mente,
P’ra as outras, deixa-me brilhar;
Que é mais nobre, se é o miolo ausente,
Que o vinho, então, em seu lugar?

Há tempo, bebe: ao morrer
Os teus e tu, que uma outra prole
Co’os mortos vá rimar, beber,
E a paz da terra assim viole.

E por que não – se a mente abala
A vida com seu breve dia?
Na redenção do verme e vala,
É a chance de ter serventia.

(tradução de Adriano Scandolara)

(comentário de Adriano Scandolara)

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Hafez e o gazel

Na poesia persa, o gazel é um poema breve, de aproximadamente sete a quinze dísticos cuja rima é aa, ba, ca, etc. Uma de suas características mais marcantes é a afirmação do eu poético através da alusão ao nome artístico do poeta nos versos finais. Mas, como no caso da elegia erótica romana, não se deve pensar, por causa disso, que ele seja uma expressão da experiência subjetiva de seu autor. Trata-se, na verdade, de um recurso convencional que é bastante útil para tratar da temática amorosa, seu assunto por excelência.

O gazel formou-se na poesia oral da Pérsia, mas as primeiras versões escritas datam do século XII d.C. É também nesse período que sua temática amorosa se torna um veículo de expressão do amor místico a Deus vivido pelos sufis. A partir daí, vemos surgir uma interessante sobreposição entre o tema do amor profano e divino, de modo que, em muitos casos, é difícil saber a qual tipo o poema se refere, se é que tal distinção pode ser legitimamente em alguns desses casos.

Isso é particularmente notável na poesia de Hafez (séc. XIV). Alguns de seus poemas permitem tanto uma leitura profana quanto religiosa, que produzem, por sua vez, efeitos bem diferentes no leitor. O poema que apresento aqui, traduzido por Aurélio Buarque de Holanda, é um bom exemplo do que quero dizer, se nos lembramos que, no simbolismo da poesia persa, o vinho representa a graça divina, a embriaguez é a experiência mística do sufi e Deus se apresenta como um jovem de cabelos cacheados:

Ao raiar do dia, após uma noite devassa, tomei o alaúde, a taça e o vinho. Disse adeus à prudência e arrastei-a pelo caminho que vai ter ao país encantado da embriaguez.

Aquele que vende o suco da vinha fitou-me uns olhos acariciantes, e esse olhar libertou-me das mentiras do tempo.

Falei a estas mentiras: “ide armar a outro pássaro as vossas armadilhas; a águia constrói seu ninho nas alturas!”

O companheiro, o músico, o escanção, todos eles são fantasmas, um pouco de argila e de água! Tudo é só ilusão.

Traze-me uma taça de vinho para que eu me possa orientar com segurança fora deste mar sem porto.

Hafiz, a vida é um enigma. O esforço para resolvê-lo – um ridículo e uma vaidade.

 

bernardo lins brandão

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Omar Khayyam

Omar Khayyam foi um sábio que viveu na Pérsia entre os séc. X-XI. Escreveu textos de matemática, astronomia e metafísica, mas se tornou especialmente conhecido no Ocidente após a tradução de Edward FitzGerald, no século XIX, de alguns de seus rubaiyat.

A questão da autoria desses poemas é bastante controversa. É apenas no séc. XII que encontramos uma citação de versos seus e apenas no séc. XV que começam a aparecer pequenas coletâneas de quartetos (em persa rubai, pl. rubaiyat) em seu nome. Além disso, muitos dos quartetos aparecem em manuscritos medievais com o nome de outros autores.

Tudo indica que o Khayyam poeta é, antes de tudo, uma persona poética utilizada por vários escritores no decorrer dos séculos para veicular um certo tipo de poesia. Parece-me que Khayyam representa a voz do sábio, que após dominar todo o conhecimento humano, reconhece que a sua falta de importância diante da brevidade da vida e da incerteza do mundo.

Uma outra controvérsia interessante diz respeito à possibilidade de interpretar esses poemas em uma perspectiva mística. O Khayyam de FitzGerald é uma espécie de sábio estoico desiludido com a vida e o conhecimento. Mas essa não é a única leitura possível. Alguns dos elementos que estão constantemente presentes nesses quartetos, como o vinho, aparecem em outros autores persas como o símbolo do êxtase místico. Além disso, temas como a brevidade da vida, a fugacidade do mundo, a necessidade de viver o momento presente e a insuficiência do raciocínio discursivo foram tão usados por aqueles que falam de uma experiência supra-discursiva quanto por céticos e niilistas. Por isso não é de se estranhar que, ainda no séc. XIX, tenhamos, ao lado da versão de FitzGerald, a tradução francesa de J.B. Nicolas, que se encaminha mais para essa interpretação mística, que aliás, Nicolas parece aprendido com um mestre sufi do Teerã.

De qualquer modo, essa ambiguidade parece ser recorrente na poesia persa medieval, aparecendo, de um modo ainda mais nítido, em autores como Hafez. Os dois poemas que transcrevo aqui, na versão em português feita por Otávio Tarquínio de Sousa, são bons exemplos de textos que podem ser lidos nessa perspectiva.

 

I.
Bebe vinho!
Só ele te dará a mocidade,
ele é a vida eterna!

Divina estação das rosas
do vinho e dos bons amigos!

Sê feliz um instante,
o instante fugidio
que é tua vida

 

II.
Não pedi
a vida a ninguém

Esforço-me por acolher
sem espanto e sem cólera
tudo o que a vida me oferece.

Partirei sem indagar
o motivo da minha misteriosa
estada neste mundo

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horácios na ode 1.11 “a leuconoe”

a imagem acima resume o ponto: esta ode de horácio é a mais pop, mesmo que nem tanta gente a tenha lido integralmente. o mote expresso no carpe diem é o resumo de um topos clássico para viver o agora, sem confianças no que possa vir ou não, no dia seguinte.

não pretendo aqui fazer uma apresentação da poesia de quinto horácio flaco (65 a.c. – 8 a.c.), das suas quatro obras (epodos, sátiras, odes & epístolas); mas, como tem virado uma praxe aqui no blog, mostrar uma série de traduções & terminar com a minha.

não pretendo aqui fazer uma crítica digna de cada tradução. em resumo, eu diria que elas são bem variadas (amém!), mas tendem para duas escolhas mais gerais: a) o uso dos versos mais tradicionais (decassílabos e hexassílabos, em geral com mistura entre eles; com o caso do britto, que opta por dodecassílabos na sua recriação); e b) verso livre (tanto do augusto de campos e do paulo leminski, com a visualidade centralizando o texto, quanto o verso mais longo e de levada anapéstica de leandro cardoso). da minha parte, como projeto que tem me consumido ultimamente (a saber, traduzir TODAS as odes de horácio, para o doutorado), tentei recriar o poema com um verso mais longo, ligeiramente anapéstico, que pudesse recriar o efeito de estranheza que o metro original devia ter gerado num romano, pouco acostumado aos metros que horácio incorporou dos gregos em suas odes (catulo também já tinha feito isso com certa sistematicidade, mas com um uso bem mais restrito quanto ao número de formas poéticas). além disso, tentei passar um pouco da secura do poema, seu tom austero e moral, sem penduricalhos (ou, como diria horácio, persicos apparatus).

antologia tradutória, ou quantos horácios cabem num poema?

1.11

Tu ne quaesieris, scire nefas, quem mihi, quem tibi
finem di dederint, Leuconoe, nec Babylonios
temptaris numeros. ut melius, quidquid erit, pati.
seu pluris hiemes seu tribuit Iuppiter ultimam,
quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare
Tyrrhenum: sapias, vina liques et spatio brevi
spem longam reseces. dum loquimur, fugerit invida
aetas: carpe diem quam minimum credula postero.

(quintus horatius flaccus)

* * *

Tu não trates (que é mau) saber, Leucônoe,
Que fim darão a mim, a ti os Deuses;
Nem inquiras as cifras Babilônias,
Por que melhor (qual for) sofrê-los apures.
Ou já te outorgue Jove invernos largos,
Ou seja o derradeiro o que espedaça
Agora o mar Tirreno nos fronteiros
Carcomidos penhascos. Vinhos coa:
Encurta em tracto breve ampla ‘sperança.
Foge, enquanto falamos, a invejosa
Idade. O dia de hoje colhe, e a mínima
No dia de amanhã confiança escores.

(filinto elísio)

* * *

Saber não cures (é vedado) os deuses
A ti qual termo, qual a mim marcaram,
Nem consultes, Leucônoe, os babilônios
Cálculos, por que assim melhor já sofras
Tudo quanto vier, ou te dê Jove
Muitos invernos, ou só este, que ora
O mar tirreno nas opostas rochas
Quebra. Tem siso, o vinho coa, e corta
Em vida breve as longas esperanças.
Ínvida idade foge: colhe o dia,
Do de amanhã mui pouco confiando.

(elpino duriense)

* * *

A Leucônidis

Ah! Não procures indagar que termo
Tenha prescrito o Fado a nossos dias;
Vedado é saber tanto:
Os vaticínios babilônios deixa,
Para aprender a suportar constante
Os assentes da Sorte.

Ou Jove te destine mais invernos
À curta idade, ou seja o derradeiro,
Este, que ao Mar Tirreno
As fúrias quebra nas opostas rochas,
E nele a Parca inexorável feche
O círculo da vida.

Se és prudente, se és cauta, arrasa as taças
De doce vinho, apouca as esperanças
Em duração tão breve.
Enquanto assim discorro, a idade foge:
Aproveita o presente, e não confies
Crédula no futuro.

(josé agostinho de macedo)

* * *

A Leucótoe

            Não queiras saber quando
Terão fim, ó Leucótoe, nossas vidas,
            Por números contando
As babilônias sortes proibidas,
Quais hão-de ser, se curtas, se compridas;

            Se o escuro lago Averno
Havemos de ir passar, se tarde ou cedo,
            Se neste hórrido inverno
Que quebra o mar no duro e alto rochedo,
E seu rigor nos põe espanto e medo.

            Será melhor aviso
O são vinho gastar e a vã esperança
            Da vida em festa e riso:
E pois que a idade e o tempo faz mudança,
Logra o presente e no porvir não cansa.

(andré falcão de resende)

* * *

Não indagues, Leucônoe, ímpio é saber
            a duração da vida
que os deuses decidiram conceder-nos,
nem consultes os astros babilônios:
            melhor é suportar
            tudo o que acontecer.
Quer Júpiter te dê muitos invernos,
            quer seja o derradeiro
este que vem fazendo o mar Tirreno
            cansar-se contra as rochas,
mostra-te sábia, clarifica os vinhos,
            corta a longa esperança,
que é breve o nosso prazo de existência.
            Enquanto conversamos
            foge o tempo invejoso.
Desfruta o dia de hoje, acreditando
o mínimo possível no amanhã.

(péricles eugênio da silva ramos)

* * *

Ask not ungainly askings of the end
Gods send us, me and thee, Leucothoe;
Nor juggle with the risks of Babylon,
            Better to take whatever,
Several, or last, Jove sends us. Winter is winter,
Gnawing the Tyrrhene cliffs with the sea’s tooth.

Take note of flavors, and clarity’s in the wine’s manifest.
Cut loose long hope for a time.
We talk. Time runs in envy of us,
Holding our day more firm in unbelief.

(ezra pound)

Deixa as questões canhestras de que fins
Mandam deuses, Leucôtoe, a ti e a mim,
Nem jogues com riscos da Babilônia,
            Mas pega o que vier
Vários ou derradeiros, à mando de Jove. Inverno é inverno,
Rói o Tirreno no dente do mar.

Anota os sabores, e a clareza é no vinho manifesta.
Corta fora a longa esperança por ora.
Conversamos. Corre o tempo com inveja,
Firmando o nosso dia na descrença.

(ezra pound via adriano scandolara)

* * *

não me perguntes
                                – é vedado saber –
o fim
que a mim
e a ti
                               darão os deuses
                                                           Leucônoe
                               nem babilônios
números consultes                           antes
                               o que for           recebe
quer te atribua Júpiter muitos invernos
quer o último
                        que o mar tirreno debilita com abruptas
r
o
c
h
a
s
bebe o vinho                      sabe a vida                       e corta
a longa esperança
                                    enquanto falamos
                                                                        foge
                                                                                  invejoso
o tempo:          
                 curte o dia
                                       desamando amanhãs

(augusto de campos)

* * *

não me perguntes
                                 saber não presta
Leuconoe
                    que fim os deuses nos preparam
nem arrisque
                        números de Babel
como se fosse o máximo – o que vier: fature

se o Pai te concedeu vários invernos
ou o último
                      agora o mar tyrrheno cepilha pedras de naufragar
filtre o vinho
                                                                 sorva os coos
                                                                        prazo breve
                                                                        corta
                                                                        a espera
a era já era
                                                                antes do tempo de dizer
estamos conversados

pega este dia
                        crer no próximo
                                                      não vale um nihil

(paulo leminski)

* * *

ODES I, 11

Não me perguntes, pois é proibido,
que fim darão, Leocono, a ti e a mim
os deuses; nem em adivinhações
ao modo babilônico confies.
Enfrenta o que cruzar o teu caminho.
Quer tenhas pela frente ainda muitos
invernos, quer fustigue já a costa
do mar Tirreno o último que Júpiter
há de te dar, sê sábio, bebe vinho,
e espera pouco. Neste mesmo instante
em que falamos, o invejoso tempo
de nós já foge. – Aproveita o dia,
confia no amanhã somente o mínimo.

Horácio no Baixo
(Odes I, 11)

Tentar prever o que o futuro te reserva
não leva a nada. Mãe de santo, mapa astral
e livro de autoajuda é tudo a mesma merda.
O melhor é aceitar o que de bom ou mau
acontecer. O verão que agora inicia
pode ser só mais um, ou pode ser o último –
vá saber. Toma o teu chope, aproveita o dia,
e quanto ao amanhã, o que vier é lucro.

(paulo henriques britto)

* * *

I, 11

Não perguntes – saber é nefasto – qual fim nos foi dado
pelos deuses, Leuconoe, nem jogues c’os números
babilônicos. Como é melhor que se sofra o que for!
Quer conceda a nós Júpiter muitos invernos quer o último,
que, nas pedras opostas, agora enfraquece o Tirreno mar,
sejas cauta: depures o vinho e, num breve momento,
abandones a longa esperança. Enquanto falamos, o tempo
invejoso passou. No porvir não te fies: carpe diem.

(leandro cardoso)

* * *

1.11

Não perguntes (saber nefasto) o fim que a mim e a ti
os deuses concederam, ó Leucônoe; Babilônios
números não procures. Vai, aceita o que vier,
mesmo que Jove envie mais invernos, ou só este,
que agora contra as rochas debilita o mar Tirreno:
vai, sabe, saboreia, coa o vinho e em curto espaço
poda a tua esperança. Se falamos, foge o tempo
de inveja: colhe o dia, mas não creias no amanhã.

(guilherme gontijo flores)

* * *

para os obcecados que chegaram até aqui & não se saciaram, um link com um punhado de versões para o inglês

guilherme gontijo flores

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