poesia, tradução

Wallace Stevens (1879-1955), por Alessandro Funari

wallace-stevens-portrait

É notável como Wallace Stevens (1879 – 1955) imprime na materialidade de seus poemas o assunto abordado por eles. Usando como exemplo alguns poemas aqui trabalhados, vemos como em The Load of Sugar-Cane, não só o correr das águas do rio em questão carrega consigo versos inteiros (como se pode notar nas repetições, em estrofes diferentes, de ‘like water flowing’ e ‘under the rainbows’), mas leva também fonemas, como o g de ‘going’, que percorre o ‘glade-boat’, atravessa a estrofe e continua a caminhar pela ‘green saw-grass’. O mesmo ocorre com o w de ‘While the wind still whistles’ e, porque não, com o som de ‘Load’, no título, que adentra o poema e termina o primeiro verso com ‘boat’ (que tentei manter com ‘Açúcar’ e ‘sulcar’).

Em Anecdote of the Jar, temos o ritmo nos dizendo o que está semanticamente explicitado. Os jambos caminham regulares até o surgimento da palavra ‘slovenly’, no terceiro verso: ‘desalinhado’, ‘em desordem’, e é exatamente assim que o ritmo se comporta. O que estava em ordem agora está revolto.

Outro exemplo é a sexta parte de Thirteen Ways of Looking at a Blackbird, que traz ainda outro aspecto, desta vez tocando a materialidade das próprias letras. Ao desenhar uma cena de inverno, temos ‘Icicles filled the long window / With barbaric glass.’ Com o uso de letras de tipografia alongada (I, i, l, f, ll, t, h, l, d) ou que se afunilam (os w de ‘window’ e de ‘With’), é possível ver os próprios sincelos dependurados do batente da janela. Outra indicação do frio é a repetição do som ‘brrr’ em ‘barbaric’, uma exclamação dicionarizada pelo Oxford English Dictionary.

 

Alessandro Funari

* * *

 

Treze Maneiras de Olhar para um Melro

I
Em vinte montanhas nevadas,
Só o que se movia
Era o olho do melro.

II
Eu estava dividido em três,
Como os trevos
Entre os quais estão três melros.

III
O melro rodopiou nos ventos de outono.
Era uma pequena parte da pantomima.

 

IV
Um homem e uma mulher
São um.
Um homem e uma mulher e um melro
São um.

V
Não sei o que prefiro,
Se a beleza das inflexões
Ou a beleza das insinuações,
Se o assovio do melro
Ou o logo depois.

VI
Sincelos atulham a longa janela
Com vidro barbárico.
A sombra do melro
A cruzou diversas vezes.
A aura
Traçou na sombra
Uma causa indecifrável.

VII
Ó homens magros de Haddam,
Porque imaginais aves doiradas?
Não vedes como o melro
Caminha por entre os pés
Das damas à vossa volta?

VIII
Sei de acentos nobres
E de ritmos lúcidos, inescapáveis;
Mas sei, também,
Que o melro está envolvido
No que sei.

IX
Quando o melro voou para longe,
Demarcou a margem
De um dentre muitos círculos.

X
Ao avistar os melros
Voando à luz verde,
Até pécoras da eufonia
Gritariam estrídulas.

XI
Ele cruzou Connecticut
Em um coche de vidro.
Certa vez, tomou-lhe um medo,
Pois equivocou
A sombra de sua bagagem
Por um melro.

XII
O rio está se movendo.
O melro deve estar voando.

XIII
Era noite a tarde inteira.
Estava nevando
E iria nevar.
O melro pousado
Nos galhos do cedro.

Thirteen Ways of Looking at a Blackbird

I
Among twenty snowy mountains,
The only moving thing
Was the eye of the blackbird.

II
I was of three minds,
Like a tree
In which there are three blackbirds.

III
The blackbird whirled in the autumn winds.
It was a small part of the pantomime.

IV
A man and a woman
Are one.
A man and a woman and a blackbird
Are one.

V
I do not know which to prefer,
The beauty of inflections
Or the beauty of innuendoes,
The blackbird whistling
Or just after.

VI
Icicles filled the long window
With barbaric glass.
The shadow of the blackbird
Crossed it, to and fro.
The mood
Traced in the shadow
An indecipherable cause.

VII
O thin men of Haddam,
Why do you imagine golden birds?
Do you not see how the blackbird
Walks around the feet
Of the women about you?

VIII
I know noble accents
And lucid, inescapable rhythms;
But I know, too,
That the blackbird is involved
In what I know.

IX
When the blackbird flew out of sight,
It marked the edge
Of one of many circles.

X
At the sight of blackbirds
Flying in a green light,
Even the bawds of euphony
Would cry out sharply.

XI
He rode over Connecticut
In a glass coach.
Once, a fear pierced him,
In that he mistook
The shadow of his equipage
For blackbirds.

XII
The river is moving.
The blackbird must be flying.

XIII
It was evening all afternoon.
It was snowing
And it was going to snow.
The blackbird sat
In the cedar-limbs.

§

 

Anedota do Jarro

No Tennessee pousei um jarro;
Arredondado, sobre um monte.
E fez a selva revolta
Cercar o monte.

A selva se elevou em seu entorno,
E se espalhou, não mais selvagem.
O jarro era redondo sobre o campo
Era alto e de um porto em ar.

Dominou todo o lugar.
O jarro era cinza e vulgar.
Não dava ave ou árvore.
Como nada mais no Tennessee.

Anecdote of the Jar

I placed a jar in Tennessee,
And round it was, upon a hill.
It made the slovenly wilderness
Surround that hill.

The wilderness rose up to it,
And sprawled around, no longer wild.
The jar was round upon the ground
And tall and of a port in air.

It took dominion everywhere.
The jar was gray and bare.
It did not give of bird or bush,
Like nothing else in Tennessee.

§

 

Infanta Marina

Seu terraço era a areia
E as palmeiras e o poente.

Fez dos meneios de sua mão
Gestos grandiosos
Do seu pensar.

O plissar das plumas
Desta criatura da noite
Veio a ser devaneio de velas
Sobre o mar.

E assim andava
Nas andanças de seu leque,

Partilhando do mar,
Partilhando da noite,
Enquanto fluíam em derredor,
E emitiam seu ruído derradeiro.

Infanta Marina

Her terrace was the sand
And the palms and the twilight.

She made of the motions of her wrist
The grandiose gestures
Of her thought.

The rumpling of the plumes
Of this creature of the evening
Came to be sleights of sails
Over the sea.

And thus she roamed
In the roamings of her fan,

Partaking of the sea,
And of the evening,
As they flowed around
And uttered their subsiding sound.

§

 

O Homem de Neve

É preciso uma mente de inverno
Para ver a geada e os galhos
Dos pinheiros cobertos de neve;

E ter-se há tempos no frio
Para olhar o cedro escarpado em gelo,
E abetos brutos no brilho distante

Do Sol de janeiro; e não pensar
Em toda a desgraça no ruído do vento,
No ruído de algumas folhas,

Que é o próprio ruído da terra
Cheia do mesmo vento,
Que sopra no mesmo ponto nu

Para o ouvinte, que ouve na neve,
E, ele nada, contempla
Nada que não está lá e o nada que está.

The Snow Man

One must have a mind of winter
To regard the frost and the boughs
Of the pine-trees crusted with snow;

And have been cold a long time
To behold the junipers shagged with ice,
The spruces rough in the distant glitter

Of the January sun; and not to think
Of any misery in the sound of the wind,
In the sound of a few leaves,

Which is the sound of the land
Full of the same wind
That is blowing in the same bare place

For the listener, who listens in the snow,
And, nothing himself, beholds
Nothing that is not there and the nothing that is.

§

 

A Carga de Cana-de-Açúcar

O sulcar da jangada
É como água corrente;

Como água corrente
Pelos juncos de jade
Sob os arco-íris;

Sob os arco-íris
Que são como aves,
Revoando, ataviadas,

Sempre que silvam sopros,
Como as saracuras,

Quando se alçam
Ao turbante vermelho
Do barqueiro.

The Load Of Sugar-Cane

The going of the glade-boat
Is like water flowing;

Like water flowing
Through the green saw-grass
Under the rainbows;

Under the rainbows
That are like birds,
Turning, bedizened,

While the wind still whistles
As kildeer do,

When they rise
At the red turban
Of the boatman.

§

 

Hibisco nas praias soníferas

Te digo, Hernando, que naquele dia
A mente flanava como as falenas
Por entre as flores além da areia aberta;

Que qualquer ruído que uma onda fazia
Sobre as algas e nas cobertas penhas
Não perturbava nem o mais vão ouvido.

E eis que aquela infernal falena,
Há pouco recolhida contra o azul
E o corado púrpura do mar vadio,

Que cochilara pelas praias ósseas,
Alheia ao grulhar do mover das águas,
Soergueu-se aspersa perseguindo o rubro-flama

Com amarelo pólen – rubro tão rubro
Quanto o emblema sobre o velho café –
E por lá flanou toda a tarde estúpida.

Hibiscus on the Sleeping Shores

I say now, Fernando, that on that day
The mind roamed as a moth roams,
Among the blooms beyond the open sand;

And that whatever noise the motion of the waves
Made on the sea-weeds and the covered stones
Disturbed not even the most idle ear.

Then it was that that monstered moth
Which had lain folded against the blue
And the colored purple of the lazy sea,

And which had drowsed along the bony shores,
Shut to the blather that the water made,
Rose up besprent and sought the flaming red

Dabbled with yellow pollen – red as red
As the flag above the old cafe –
And roamed there all the stupid afternoon.

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poesia, tradução

wallace stevens por danilo augusto

Wallace Stevens

wallace stevens (1879-1955) é uma figura importantíssima do modernismo norte-americano, embora tenha se mantido razoavelmente longe da vida literária & começado sua carreira de poeta bem tarde, com mais de 40 anos, com Harmonium (1923). à obra-prima do primeiro livro, seguiu-se um adendo em 1931, depois vieram os seguintes livros de poesia, Ideas of Order (1936), , The Man with the Blue Guitar (1937), Parts of a World (1942), Transport to Summer (1947) & The Auroras of Autumn (1950). após a sua morte, foram ainda lançados alguns livros: Opus Posthumous (1957) & The Palm at the End of the Mind (1972). por fim, foi encontrado em seu espólio um livro inteiro de 1936 Owl’s Clover, que nunca chegou a ser publicado. stevens ainda publicou 3 pequenas peças de teatro & um livro de ensaios, The Necessary Angel: Essays on Reality and the Imagination (1951), onde podemos perceber seu profundo interesse pela formulação mental da realidade, um tema central da sua poesia.

no brasil, além de traduções esparsas, temos uma antologia, Poemas, traduzida por paulo henriques britto (cia. das letras, 1987). logo abaixo, temos uma introdução feita por danilo augusto seguida pela tradução de três poemas (dois integrais & a primeira parte de um poema longo). danilo augusto (salvador, 1990) e é poeta, ensaísta e professor, é bacharel em humanidades pela UFBA e, atualmente cursa letras na mesma instituição. publicou os livros Poemas (2014), Canto para a morte de Mandela (2013, Ritmo Zero) & Zumbi (2014, Coisa Edições), já publicou poemas próprio aqui no escamandro.

guilherme gontijo flores

 * * *

Os Estados Unidos tem o costume de centralizar seu cânone literário nos espécimes mais disparatados. Penso em Leaves of Grass, pedra de toque da modernidade poética americana e na figura de Whitman, amplamente aclamado como O poeta dos alicerces da liberdade democrática; o que temos? São textos explosivos, carregados de um erotismo exarcebado, com descrições pansexuais detalhadas, posicionando-se contra as instituições e tradição, pregando uma religiosidade profanadora. É, no mínimo, curioso que uma sociedade como a estadunidense tenha centralizado uma figura como Whitman, poeta que passava tardes a assediar soldados feridos em seus leitos hospitalares, dizia querer substituir a bíblia pelo seu livro em eterno progresso e saia, ele mesmo, para vendê-lo de porta em porta.

Wallace Stevens não podia ser mais diferente. É célebre afirmar que não teve vida de poeta. Ele, um abastado corretor de seguros, modesto conservador e um velho, memoravelmente extrapolou uma vez, pelo menos, ao envolver-se numa briga mesquinha com Hemingway de onde saiu com um punho quebrado devido ao soco infelizmente acertado no maxilar do pugilista amador (podemos imaginar Whitman encorajando e lisonjeando Hemingway em um canto íntimo e exaltado). Porém, Whitman e Stevens se estranham no compartilhamento da afirmação canônica destinada àqueles convocados a ocuparem uma posição central em sua nação e era. Stevens é o poeta do cânone conservador americano, assim como Whitman, surrealmente, também o é. Esta posição, vislumbrada ainda em sua idade mais avançada – Stevens é um desses casos grotescos e interessantes do poeta tardio: começou na meia idade, consolidou sua forma depois dos sessenta –, guarda um misto de forças misteriosas e conflitantes, pois nos convida cada vez menos à leitura e nos facilita cada vez mais a antipatia. Mas eu acredito que os dois poetas compartilham intimidades devido a mais do que isso.

Stevens é o poeta do eu. Labor que não o resume nem o resumiu. Porém, vemos uma parte belíssima do seu fôlego poético destinado ao alargamento e talhe (como em pedra, concisa, brilhando negramente) daquilo que Whitman chamou “eu” e, também daquilo que ele chamou “eu mesmo”. Surpresa foi para mim, tardio leitor de Stevens, constatar uma sensualidade que, uma vez desvelada, passa a transbordar em uma autoafirmação e segurança que tanto mais se firma quanto mais parece não estar ali. A modéstia – palavra que aparentou caber tão bem para designar o sem-vida-de-poeta Wallace Stevens, assim como seu contido uso do verso – não coube na minha leitura de seus poemas. Verdade que a diferença é gigante. Stevens mesmo já nega aquela visão, legada por Whitman, do poeta “eternamente em contato com as coisas” transmutando-se em tudo que vê ou experimenta. Stevens não parece passear ou passar por entre as coisas. Há o si e a interioridade e, pelos deuses, isso deve bastar.

Experiência, talvez, seja esta a palavra central (para mim) aquela que me desperta e suspende a surpresa incrédula na leitura de seus poemas. Essa palavra parece dar uma ligadura ao emaranhado ou, talvez mesmo, desvanecimento desse cânone poético americano. Emily Dickinson, Walt Whitman, junto a Wallace Stevens – como faróis a iluminar barcos ou ilhas – às vezes gigantescas ilhas nas quais podíamos nos perder alegremente – e que mesmo assim, são faróis nunca facilmente não vistos. Eles falam da experiência e do eu e como essas duas coisas podem coexistir.

Há outras tradições, certamente.

Tentei sua tradução mais por um exercício de leitura do que uma proposta de. Porém, ela me trouxe alguns resultados de compreensão e juntei, aqui, alguns poemas e passagens de Stevens que, talvez, mostrem esta face que quis expor.

Danilo Augusto

 * * *

Anedota do pote
(de Harmônio, 1923)

Eu dispus um pote sobre o morro,
Redondo, acima do Tennessee
Que fez o ermo maltrapilho
Se alastrar pelo morro.

O ermo emergiu diante dele,
E se esparramou, inerme.
O pote era redondo por cima da terra
Altivo como um porto no ar.

Seu domínio se alastrou.
O pote era cinza e desprovido,
Nada para pássaro ou arbusto,
Diferente de tudo no Tennessee.

Anecdote of the jar
(from Harmonium, 1923)

I placed a jar in Tennessee,
And round it was, upon a hill.
It made the slovenly wilderness
Surround that hill.

The wilderness rose up to it,
And sprawled around, no longer wild.
The jar was round upon the ground
And tall and of a port in air.

It took dominion every where.
The jar was gray and bare.
It did not give of bird or bush,
Like nothing else in Tennessee.

Um coelho como rei dos fantasmas
(de Partes de um mundo, 1942)

A dificuldade de pensar ao tardar do dia,
Quando a sombra sem forma cobre o sol
E nada resta exceto luz em seus pelos-

Lá o gato derramava o seu leite o dia todo
Gato gordo, língua vermelha, mente verde,
Leite branco e Agosto o mais calmo dos meses.

Estar, na grama, na mais calmíssima estação
Sem este monumento de gato,
O gato esquecido na lua;

E sentir que a luz é uma luz-coelho,
Onde tudo foi destinado a você
E nada carece de explicação;

Já não há nada a se pensar. Vem-se de si;
E o leste vai ao oeste e o oeste vai abaixo
Não importa. A grama está repleta

Repleta de você. Estas árvores são suas,
O todo da vastidão da noite é seu,
Um eu que toca todas as margens,

Você é um eu que enche os quatro cantos da noite,
O gato vermelho se esconde na luz-pelo
E lá está você arqueando sobre, e mais;

Arqueando mais e mais, negro feito rocha –
Repousa com a cabeça como um talhe no espaço
E o gatinho verde é um besouro na grama.

A Rabbit As King Of The Ghosts
(from Parts of a world, 1942)

The difficulty to think at the end of day,
When the shapeless shadow covers the sun
And nothing is left except light on your fur—

There was the cat slopping its milk all day,
Fat cat, red tongue, green mind, white milk
And August the most peaceful month.

To be, in the grass, in the peacefullest time,
Without that monument of cat,
The cat forgotten in the moon;

And to feel that the light is a rabbit-light,
In which everything is meant for you
And nothing need be explained;

Then there is nothing to think of. It comes of itself;
And east rushes west and west rushes down,
No matter. The grass is full

And full of yourself. The trees around are for you,
The whole of the wideness of night is for you,
A self that touches all edges,

You become a self that fills the four corners of night.
The red cat hides away in the fur-light
And there you are humped high, humped up,

You are humped higher and higher, black as stone—
You sit with your head like a carving in space
And the little green cat is a bug in the grass.

 

As Auroras de Outono
(de Auroras de outono, 1950)

I

Isto é o lar da serpente, a incorpórea.
Sua cabeça é ar. Sob seu bico à noite
Olhos pregados sobre nós em todo o céu.

Ou será outra se esgueirando fora d’ovo,
Outra imagem no fundo da caverna,
Outra incorpórea ao despojo do corpo?

Isto é o lar da serpente. Isto é seu ninho,
Estes campos, morros, distâncias tingidas,
E os pinheiros acima, ao longo e ao lado do mar.

Isto é forma tragando segundo o disforme,
Pele luzindo desvanecimentos desejados,
E o corpo da serpente luzindo sem pele.

Isto é altura emergindo com sua base
Estas luzes podem enfim atracar-se ao polo
Em meio a meia noite e encontrar a serpente,

Em outro ninho, o dono dédalo
De corpo e ar e forma e imagens
Infatigavelmente em posse da felicidade.

Isto é seu veneno: que devemos descrer
Mesmo disso. Suas cismas sob samambaias,
Com movimentos tão finos para garantir o sol,

Fez-nos não menos garantidos. Vimos em sua cabeça,
Ornada negra na rocha, o animal tingido,
A grama movente, o índio em sua senda.

[…]

The Auroras of Autumn
(from Auroras of Autumn, 1950)

I

This is where the serpent lives, the bodiless.
His head is air. Beneath his tip at night
Eyes open and fix on us in every sky.

Or is this another wriggling out of the egg,
Another image at the end of the cave,
Another bodiless for the body’s slough?

This is where the serpent lives. This is his nest,
These fields, these hills, these tinted distances,
And the pines above and along and beside the sea.

This is form gulping after formlessness,
Skin flashing to wished-for disappearances
And the serpent body flashing without the skin.

This is the height emerging and its base
These lights may finally attain a pole
In the midmost midnight and find the serpent there,

In another nest, the master of the maze
Of body and air and forms and images,
Relentlessly in possession of happiness.

This is his poison: that we should disbelieve
Even that. His meditations in the ferns,
When he moved so slightly to make sure of sun,

Made us no less as sure. We saw in his head,
Black beaded on the rock, the flecked animal,
The moving grass, the Indian in his glade.

[…]

(poemas de wallace stevens, trad. de danilo augusto)

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6 perspectivas do século XX sobre a morte

Aproveitando que hoje é o dia dos mortos, decidimos fazer uma pequena seleção de poemas curtos que tematizem ou de algum modo discutam a morte, a partir de seis poetas distintos do século XX (e dois deles ainda vivos no século XXI), de línguas e/ou nacionalidades distintas. Da língua portuguesa, os sempre populares Fernando Pessoa (o ortônimo no caso) e Carlos Drummond de Andrade; do inglês, Wallace Stevens, com o trecho número 5 do poema mais longo “Manhã de Domingo”, em tradução minha; do alemão, “PAISAGEM com seres de urna…” do romeno Paul Celan, em tradução do nosso próprio guilherme gontijo flores; do francês, “Esse Pedaço de Céu…” de Jacques Roubaud, traduzido por Inês Oseki-Dépré no volume Algo Preto, pela editora Perspectiva, livro dos poemas de Roubaud dedicados à sua mulher falecida (e o poema postado em questão seria, significativamente, o último do livro); e, por último, mas não menos importante, temos, do polonês, o poema “Álbum” da ganhadora do Nobel, Wislawa Szymborska, traduzido por Regina Przybycien, do volume intitulado simplesmente Poemas recentemente publicado pela Companhia das Letras.

Arnold Böecklin - A Ilha dos Mortos

Iniciação
– Fernando Pessoa

Não dormes sob os ciprestes,
Pois não há sono no mundo.
…………………………………………….
O corpo é a sombra das vestes
Que encobrem teu ser profundo.
Vem a noite, que é a morte,
E a sombra acabou sem ser.
Vais na noite só recorte,
Igual a ti sem querer.

Mas na Estalagem do Assombro
Tiram-te os Anjos a capa :
Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que te tapa.

Então Arcanjos da Estrada
Despem-te e deixam-te nu.
Não tens vestes, não tens nada :
Tens só teu corpo, que és tu.

Por fim, na funda caverna,
Os Deuses despem-te mais.
Teu corpo cessa, alma externa,
Mas vês que são teus iguais.
…………………………………………….
A sombra das tuas vestes
Ficou entre nós na Sorte.
Não ‘stás morto, entre ciprestes.
…………………………………………….

Neófito, não há morte.

Os Ombros Suportam o Mundo
– Carlos Drummond de Andrade

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Manhã de Domingo
– Wallace Stevens

5

Diz ela, “Ainda que contente, sinto
Carência duma graça imperecível.”
A morte é mãe do belo; e dela vem,
Só, a realização dos nossos sonhos
E desejos. Embora espalhe as folhas
Da obliteração em nossas vias,
A via da mágoa enferma, as várias vias
Onde há o férreo clangor do triunfo, ou
O amor sussurra um pouco por ternura,
Ela faz o chorão tremer ao sol
Pra donzelas que sentam-se e observam
Por sobre a relva, entregues até os pés.
Faz rapazes num prato empilhar novas
Peras e ameixas. As donzelas provam
E apaixonadas vagam nos folhedos.

(tradução de Adriano Scandolara)

PAISAGEM com seres de urna...
Paul Celan

PAISAGEM com seres de urna.
Conversa
de boca-fumo a boca-fumo.

Comem:
a trufa-sanatório, fatia
de poesia insepulta,
achou língua e dente.

Um lágrima reflui ao seu olho.

A canhota, órfã
parte do marisco-
peregrino – elas se ofertaram
depois te enlaçaram –
reluz à espreita no espaço:

o jogo de clinques contra a morte
pode começar.

(tradução de guilherme gontijo flores)

ESSE PEDAÇO DE CÉU…
– Jacques Roubaud

Este pedaço de céu
doravante
te é consagrado

em que a face cega
da igreja
se encurva

complicada
por uma castanheira,

o sol, ali
hesita
deixa

um vermelho
ainda

antes que terra
emita

tanta ausência

que teus olhos
se exprimem

de nada

(tradução de Inês Oseki-Dépré)

Álbum
– Wislawa Szymborska

Ninguém na família nunca morreu de amor.
O que passou, passou, mas nada que alimente um mito.
Romeus tísicos? Julietas diftéricas?
Alguns até atingiram uma idade senil.
Nenhuma vítima de falta de reposta
a uma carta manchada de lágrimas!
Ao fim e ao cabo sempre aparecia algum vizinho
de pincenê carregando um buquê.
Nunca ninguém sufocou num armário estiloso
porque o marido da amante voltou de repente!
Nenhuma mantilha, babado ou fita
nunca impediu ninguém de aparecer na foto.
E nunca na alma o Bosch infernal!
E nunca com uma pistola pelo quintal!
(Faleceram de bala na cabeça, mas por outros motivos
e em macas de campanhas.)
Mesmo essa de coque extático
e olheiras fundas como depois de uma folia
se foi em meio a uma grande hemorragia
mas não para ti, dançarino, e não com pena.
Talvez alguém muito antes do daguerreótipo –
mas desses no álbum, nenhum, que eu tenha sabido.
As tristezas se desfaziam em risos, corriam os dias
e eles consolados sumiam-se de gripe.

(tradução de Regina Przybycien)

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