Uma alegria estilhaçada: Poesia brasileira 2008-2018, por Gustavo Silveira Ribeiro

Hoje sai finalmente a antologia preparada pelo professor Gustavo Silveira Ribeiro, em desdobramento da série Uma casa para conter o caos, que foi publicada em 2019, na seção Xanto, e também da antologia A extração dos dias: poesia brasileira agora, publicada aqui em 2017. Como em todos os casos, prezamos pela independência crítica e cedemos o espaço para que ela se desdobre em diálogos e debates. Desta vez a edição foi preparada pela Edições Macondo e deve em breve sair também no formato impresso.

escamandro

Baixe aqui a obra completa:
Uma alegria estilhaçada — Gustavo-Silveira-Ribeiro (org.) 2020.

Uma janela de Rilke em várias versões

Franz Ludwig Catel (German, 1788–1856) A View of Naples through a Window, 1824
Franz Ludwig Catel (German, 1788–1856)
“Vista de Nápoles por uma Janela”, 1824

Eu já disse, num passado nem tão distante, que a poesia francesa de Rilke era pouco conhecida no Brasil, na língua portuguesa como um todo. Começo a ver que não era, ou que certamente já não é verdade. Como prova cabal disso, eis logo abaixo cinco (sim, eu disse 5) versões lusófonas para um mesmo poema que aparece tanto na série Vergers quanto na Fenêtres. Três delas apareceram em livros: a de Fernando Santoro em 1995, a de Maria Gabriela Llansol saiu em 1998 (na verdade, uma bitradução), e a minha em 2009. Além disso, descobri recentemente a de a de Carlos R. Monteiro de Andrade, que tinha saído numa revista de arquitetura, em 2006. Por fim, William Zeytounlian, que vem traduzindo toda a série Vergers, apresentou uma nova versão. Rilke vai bem, obrigado.

Guilherme Gontijo Flores

ps: olhem este post aqui, que vale a pena.

* * *

N’es-tu pas notre géométrie,
fenêtre, très simple forme
qui sans effort circonscris
notre vie énorme ?

Celle qu’on aime n’est jamais plus belle
que lorsqu’on la voit apparaître
encadrée de toi ; c’est, ô fenêtre,
que tu la rends presque éternelle.

Tous les hasards sont abolis. L’être
se tient au milieu de l’amour,
avec ce peu d’espace autour
dont on est maître.

(Rainer Maria Rilke)

§

2 Versões de Maria Gabriela Llansol, no livro Frutos e apontamentos.

a) Em Vergéis:

I

Janela — o teu nome lembra geometria!
Não és tu essa forma simplicíssima
que, sem forçar, circunscreve
a nossa vida desmedida?

A mulher que amamos nunca foi tão bela
como que quando no-la mostras a surgir
do teu enquadramento! Ó janela,
quase que a tornas eterna. A ela.

Todos os acasos são suspendidos. O ente
amado, centrado no amor, só
tem, em seu redor, esse quase nada de espaço
de que somos donos e senhores.

b) Em As janelas: [é o mesmo poema, mas a tradução muda apenas na primeira estrofe]

III

É verdade, janela, que és a forma
Simplicíssima da nossa geometria,
E que, sem tensão, circunscreves
A amplidão da nossa vida?

A mulher que amamos nunca foi tão bela
como que quando no-la mostras a surgir
do teu enquadramento! Ó janela,
quase que a tornas eterna. A ela.

Todos os acasos são suspendidos. O ente
amado, centrado no amor, só
tem, em seu redor, esse quase nada de espaço
de que somos donos e senhores.

§

Versão de Fernando Santoro, no livro Jardins.

I

Não és tu a nossa geometria,
janela, tão simples forma
que sem esforço delimita
Nossa vida enorme?

Aquela a quem se ama nunca é tão bela
como quando entre em cena
enquadrada por ti; é que, ó janela,
tu quase a tornas eterna.

Todo acaso é abolido. O ser
permanece no meio do amor,
com este pouco espaço ao redor
onde nos cabe o poder.

§

Versão de Carlos R. Monteiro de Andrade, publicada num artigo online, na “Revista de Pesquisa em Arquitetura e Urbanismo”

Não és tu nossa geometria,
janela, tão simples forma
que sem esforço delimita
nossa vida enorme?

Aquela a quem se ama nunca é tão bela
como quando a vemos surgir
enquadrada por ti; é que, ó janela,
tu a tornas quase eterna.

Todos os acasos são abolidos. O ser
permanece no meio do amor,
com este pouco espaço ao redor
do qual se é senhor.

§

Versão de Guilherme Gontijo Flores, no livro As janelas, seguida de poemas em prosa franceses

Não és a nossa geometria,
janela, tão uniforme
que fácil circunscrevia
nossa vida enorme?

Quem amamos nunca é mais bela
do que se a vemos aparecer na
tua bancada, quase eterna
em teu enquadramento, ó janela.

Todo o acaso é abolido. O ser
se insere no centro do amor,
sem muito espaço ao seu redor,
onde se pode vencer.

§

Versão de William Zeytounlian, inédita

Você não é nossa geometria,
janela, singela e uniforme
que de pronto conteria
a nossa vida enorme?

Nunca a amada é tão bela
do que quando vem aparecer
enquadrada só por você;
que a faz parecer eterna.

Todo acaso é abolido.
O ser vem ao cerne do amor,
com o pouco espaço ao redor
sobre o qual tem domínio

3 sonetos a orfeu, por william zeytounlian

RILKE_1.jpg Producción ABC.

II.1

Respirar, ah, poesia invisível!
Câmbio puro e contínuo entre o espaço
e o ser. Contrapeso castiço,
em cujo compasso me enlaço.

Única onda nos ares,
em cujo mar, progressivamente, me faço;
o menor de todos possíveis mares, –
conquista do espaço.

Quantas dessas estâncias de espaço não via
nascerem em mim? Muitos ventos
são cria minha.

Me reconheces, ar, cheio de partes da minha lavra?
Tu, que foste já casca lisa,
elipse e folha de minhas palavras.

II.1

Atmen, du unsichtbares Gedicht!
Immerfort um das eigne
Sein rein eingetauschter Weltraum. Gegengewicht,
in dem ich mich rhythmisch ereigne. 



Einzige Welle, deren
allmähliches Meer ich bin;
sparsamstes du von allen möglichen Meeren, –

Raumgewinn. 



Wieviele von diesen Stellen der Raume waren schon 

innen in mir. Manche Winde 

sind wie mein Sohn. 



Erkennst du mich, Luft, du, voll noch einst meiniger Orte? 

Du, einmal glatte Rinde, 

Rundung und Blatt meiner Worte. 

I.22.

Sempre estamos em via.
Mas do tempo a passar,
o que há de ficar
é só ninharia.

O que hoje se apura
acabará logo, em breve;
só o que perdura.
nos comove e compele.

Jovem, não gaste atitude
em ousada corrida,
ou voo tentador.

Tudo está na quietude:
breu, luz do dia,
livro e flor.

I.22.
Wir sind die Treibenden.
Aber den Schritt der Zeit,
nehmt ihn als Kleinigkeit
im immer Bleibenden.

Alles das Eilende
wird schon vorüber sein;
denn das Verweilende
erst weiht uns ein.
Knaben, o werft den Mut
nicht in die Schnelligkeit,
nicht in den Flugversuch.

Alles ist ausgeruht:
Dunkel und Helligkeit,
Blume und Buch.

II.29
Amigo silente de tantas distâncias,
sente como ao sopro o espaço dilata.
Que do triste campanário uma sonância
de ti ecoe. Pois isso, que hoje te traga,

será força amanhã, força redobrada.
Que a metamorfose seja o teu caminho!
Qual experiência parece a mais árdua?
Se beber for amargo, faz-te vinho.

Nesta noite fora de medida, ousa ser
a magia no cruzamento dos sentidos,
o sentido que esse estranho encontro causou.

E quando aquilo que é terreno te esquecer,
diz, pois, à terra firme e inerte: eu sigo!
E às águas corredeiras, diz: eu sou!

II.29

Stiller Freund der vielen Fernen, fühle,
wie dein Atem noch den Raum vermehrt.
Im Gebälk der finstern Glockenstühle
laß dich läuten. Das, was an dir zehrt,

wird ein Starkes über dieser Nahrung.
Geh in der Verwandlung aus und ein.
Was ist deine leidendste Erfahrung?
Ist dir Trinken bitter, werde Wein.

Sei in dieser Nacht aus Übermaß
Zauberkraft am Kreuzweg deiner Sinne,
ihrer seltsamen Begegnung Sinn.

Und wenn dich das Irdische vergaß,
zu der stillen Erde sag: Ich rinne.
Zu dem raschen Wasser sprich: Ich bin.

(rainer maria rilke, trad. william zeytoulian)

um poema inédito de william zeytounlian

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William Zeytounlian (São Paulo, 1988) é mestre em História e desenvolve pesquisas sobre os usos dos comportamentos silenciosos, práticas de escrita, pornografia e anticlericalismo nos séculos XVII e XVIII. Ainda inédito, seu livro Diáspora tem lançamento previsto para agosto. Também é atleta da seleção brasileira de esgrima.

* * *

FUIT HIC

I.
eu falo a esta terra:
abra-te ao dia;
ousa mostrar-te em face
ao sol que nasce
e se avizinha –

pois o que é o fim,
senão o aço dos prédios
retorcido no horizonte?
…………..é lindo, eu sei
…………..mas o que dizer
…………..das mães procurando os bebês
…………..nas caçambas incontáveis pelas ruas?

e o que dizer-lhes?

se esconder é tua sina,
desmente a nuvem
que arroja contra ti,
e teme antes
o covarde sombrear-se
ao tentar inutilmente:

– tenta-te.

pois o que é o fim,
senão o soldado que entra na cela,
aponta os prisioneiros
e em poucas horas
não são homens,
…………..nem detentos,
…………..nem soldados,
……………………mas pilhas ?

II.
desavergonha tua luta
e sejamos cúmplices:
amanhã não contaremos a ninguém
que um dia se garimpou o lixo
para comprar crack;
………………..amanhã não contaremos a ninguém
………………..que um dia trocamos a audácia de viver
………………..pela senha do wifi de um shopping.

desavergonha tua luta
e sejamos cúmplices:
amanhã não contaremos a ninguém
que foram precisos três dias para colher 75 latinhas,
que isso equivalia a 1kg,
que equivalia a 15 reais
e que essa era a nossa vida indo embora,
escorrendo por entre os dedos.

teu segredo está seguro em nossas mãos,
ninguém saberá da neve falsa no natal da paulista,
ninguém saberá dos vídeos da polícia no youtube,
ninguém saberá das manifestações do dia 15 de março,
ninguém saberá da Folha de São Paulo
ou do batalhão de babás negras em clubes de luxo:
teu segredo está seguro em nossas mãos.

aliás, afortunadamente,
alguém saberá de nós.

III.
caminhamos sobre os escombros de uma escola;
eu tomo nas mãos um pedaço de ruína – nele se lê: fuit hic.

caminhamos sobre os escombros de uma prisão;
eu tomo nas mãos um punhado de terra – nele se lê: fuit hic.

uma gota de água escorre pelo toldo
e cai certeira em minha testa – nela se lê: fuit hic.

aqui era o palácio de governo,
nesse mastro ficava a bandeira já morta – nela se lia: fuit hic.

nas biqueiras de chopp da Augusta: fuit hic.
nas calçadas do centro velho: fuit hic.
nos cortiços da Luz: fuit hic.
na moça estuprada brutalmente na República: fuit hic.
no sapato na vitrine do Shopping JK: fuit hic.
na marca de borracha no asfalto da Raposo: fuit hic.

em cada esperança espoliada por um punhado de votos
em cada corpo carbonizado entre pneus de caminhão
em cada vogal ou consoante num rap do Racionais
em cada sorriso ao ver que o carnaval renascia
em cada sílaba de nossa vida conjugada na procela dessa contradição

precisamente ali, em letras minúsculas, mas bem gravadas

fuit hic fuit hic fuit hic
fuit hic fuit hic
fuit hic

2 traduções de “l’enfance”, de victor hugo (1802-1885) — e mais 3

Victor Hugo lisant devant un mur de pierre, 1853 (?), foto de Auguste Vacquerie (1819-1895).
Victor Hugo lisant devant un mur de pierre, 1853 (?), foto de Auguste Vacquerie (1819-1895).

no post passado, em que comentei a nova edição eneida de virgílio, toquei no assunto delicado dos poetas canônicos descanonizados, ou melhor dizendo: os canônicos que, se todos conhecem, ninguém mais lê. eles estão em toda parte: milton, na inglaterra; goethe, na alemanha; bilac, no brasil; victor hugo, na frança; &c. a lista seria enorme. eu fico só em quatro casos, especificamente em quatro que julgo merecerem revisões, nos seus trabalhos de poesia (ainda lemos o fausto de goethe, ainda lemos a prosa de hugo). mallarmé via um fim do alexandrino com a morte de hugo, em 1885 (em “crise de vers” ele diz que hugo era “le vers personellement“); sabemos que seu funeral foi um dos acontecimentos públicos mais impactantes da frança depois da revolução (cerca de 2 milhões de pessoas!).

1 de junho de 1885, cortejo de victor hugo (fotógrafo anônima)
1 de junho de 1885, cortejo de victor hugo até o panthéon (fotógrafo anônimo)

então poderíamos nos perguntar por que está poeticamente morto no brasil, hoje. creio que, por ainda não termos refeito nossas revisões do romantismo nacional (para além da inclusão fundamental de sousândrade), vivemos uma incapacidade na leitura dos outros românticos, tanto alemães (goethe & schiller nas obras líricas, pra ficarmos em 2 nomes, ou mesmo heine que só foi revisto recentemente pelo livro de andré vallias),  ingleses (byron, keats, shelley, wordsworth) & franceses (hugo, musset, chateaubriand, &c.). não é à toa, portanto, que conheço apenas uma edição recente de hugo: poemas (2002), uma coletânea com trad. de manuela parreira da silva, publicada pela maravilhosa coleção “gato maltês”, da editora portuguesa  assírio & alvim.

ainda assim, são meros 20 poemas. para dar conta, resumidamente, da obra de quem escreveu les châtiments (1853), les contemplations (1856) la légende des siècles (1859), três obras imensas só do seu período de maturidade. no brasil, que eu saiba, continuamos sem hugo poeta. por isso, uma tradução inédita de william zeytounlian, além da já publicada por manuela parreira da silva, pode servir pra dar um gosto da porrada que há na poesia de hugo. o poema “l’enfance” está em les contemplations.

pra quem tiver interesse, um artigo, de dennys da silva reis & jocileide da costa silva, sobre as traduções hugo no brasil está disponível aqui.

guilherme gontijo flores

A infância

A criança cantava; a mãe, no leito, frágil,
Agonizava, o belo rosto cai num canto;
Acima dela, a morte em meio às nuvens, ágil;
Eu ouvia o gemido e escutava o canto.

A criança tinha cinco anos, junto à janela
Faz barulhinhos com seu riso e brincadeira;
E a mãe, deitada não muito distante dela
Que canta o dia todo, tosse a noite inteira.

A mãe adormeceu na pedra de um sepulcro;
E o serzinho infeliz renova seu cantar… —
A dor é um fruto: Deus não o deixa maduro
Em um ramo ainda fraco, incapaz de aguentar.

(trad. de wiliam zeytounlian)

* * *

A infância

O menino cantava; sua mãe, no leito, agonizava,
Extenuada, a sua fronte na sombra pendia;
E sobre ela, a morte numa nuvem vagueava;
E eu ouvia a canção e escutava a agonia.

Tinha cinco anos o menino, e junto à janela,
Um claro som de riso e de jogos se erguia;
E a mãe, ao lado da criança doce e bela
Que todo o dia cantava, toda noite tossia,

A mãe sob as lajes do claustro foi dormir;
E o menino voltou a cantar…
A dor é um fruto que Deus não faz surgir
Num ramo frágil demais para o suportar.

Paris, Janeiro de 1835

(trad. de manuela parreira da silva)

* * *

L’enfance

L’enfant chantait; la mère au lit, exténuée,
Agonisait, beau front dans l’ombre se penchant;
La mort au-dessus d’elle errait dans la nuée;
Et j’écoutais ce râle, et j’entendais ce chant.

L’enfant avait cinq ans, et près de la fenêtre
Ses rires et ses jeux faisaient un charmant bruit;
Et la mère, à côté de ce pauvre doux être
Qui chantait tout le jour, toussait toute la nuit.

La mère alla dormir sous les dalles du cloître;
Et le petit enfant se remit à chanter… —
La douleur est un fruit ; Dieu ne le fait pas croître
Sur la branche trop faible encor pour le porter.

(victor hugo)

* * *

MAIS 3 (por william zeytounlian)

 Aos anjos que nos veem

– Quem és, passante? Eu te conheço.
Mas, se és neblina, sombra e espectro,
Não tens mais idade nem sexo.
– Sou tua mãe, e desapareço.

– E tu, cuja asa hesita e brilha,
Cujo olho imerge em doce afã,
Quem és – Eu sou a tua irmã.
– E quem és tu? – eu sou tua filha.

– E tu, quem és, passante obscura?
Sou aquela a quem dizias que amavas
– E tu? – Eu sou tua própria alma. –
Oh! me escondam, noites profundas!

Junho de 1855.

Aux anges qui nous voient

— Passant, qu’es-tu ? je te connais.
Mais, étant spectre, ombre et nuage,
Tu n’as plus de sexe ni d’âge.
—
Je suis ta mère, et je venais !

— Et toi dont l’aile hésite et brille,
Dont l’œil est noyé de douceur,
Qu’es-tu, passant ? — Je suis ta sœur
—
Et toi, qu’es-tu ? — Je suis ta fille.

— Et toi, qu’es-tu, passant ? — Je suis
Celle à qui tu disais : Je t’aime !
— Et toi ? — Je suis ton âme même.
Oh ! cachez-moi, profondes nuits !

Juin 1855.

Batendo em uma porta

Perdi minha mãe e meu pai.
O primogênito, um bebê!
Para mim o mundo é um ai
a me doer.

Eu dormia entre dois irmãos,
Crianças, os três passarinhos;
A sorte mudou em caixão
os seus dois ninhos.

Eu te perdi, ó minha filha,
você que enche, ó minha paixão,
o meu destino com a centelha
em teu caixão.

Eu soube subir e descer.
Eu vi luz e sombra no além.
Eu vi a púrpura; e a cinza que
mais me convém.

Conheci ardências profundas,
Conheci as paixões sombrias;
Eu vi fugirem asas, ondas,
ventos, dias.

Tenho sobre a cabeça a praga
Que todo o meu trabalho infesta,
Aos pés o pó, no peito a chaga,
Espinho à testa.

Tenho choro no olho que pensa,
Rasgos na minha roupa imunda;
Não tenho nada na consciência;
Abra-te, tumba.

Marine-Terrace, 4 de setembro de 1855.

En frappant à une porte

J’ai perdu mon père et ma mère,
Mon premier né, bien jeune, hélas !
Et pour moi la nature entière
Sonne le glas.

Je dormais entre mes deux frères ;
Enfants, nous étions trois oiseaux ;
Hélas ! le sort change en deux bières
Leurs deux berceaux.

Je t’ai perdue, ô fille chère,
Toi qui remplis, ô mon orgueil,
Tout mon destin de la lumière
De ton cercueil !

J’ai su monter, j’ai su descendre.
J’ai vu l’aube et l’ombre en mes cieux.
J’ai connu la pourpre, et la cendre
Qui me va mieux.

J’ai connu les ardeurs profondes,
J’ai connu les sombres amours ;
J’ai vu fuir les ailes, les ondes,
Les vents, les jours.

J’ai sur ma tête des orfraies ;
J’ai sur tous mes travaux l’affront,
Aux pieds la poudre, au cœur des plaies,
L’épine au front.

J’ai des pleurs à mon œil qui pense,
Des trous à ma robe en lambeau ;
Je n’ai rien à la conscience ;
Ouvre, tombeau.

Marine-Terrace, 4 septembre 1885

II.

O poeta vai pelos campos; ele admira,
ele adora; ouve em si mesmo uma lira;
e vendo-o vir, as flores, todas as flores,
que dos rubis apagam as cores,
que do pavão o rabo anulam
a florzinha de ouro, a florzinha azul, a-
ssumem, para em seus ramos acolhê-lo,
jeitinhos distraídos, jeitões bem faceiros,
e, familiarmente, pois convém às belas:
“Calma! é nosso amante que passa”, dizem elas.
E, cheias de dia e sombra e confusas vozes
As profundas árvores que vivem nos bosques,
Essas anciãs, os teixos, as tílias, os áceres,
Salgueiros enrugados, carvalhos veneráveis,
O olmo de ramagem negra, o musgo grave,
Como os ulemás quando o mufti surge,
Saúdam-lhe e se curvam até a terra
A cabeça frondosa e as barbas de hera,
Contemplam em sua fronte o sereno fulgor,
E murmuram baixinho: “Ei-lo! é o sonhador”.

Les Roches, junho de 1831.

II.

Le poète s’en va dans les champs ; il admire,
Il adore ; il écoute en lui-même une lyre ;
Et le voyant venir, les fleurs, toutes les fleurs,
Celles qui des rubis font pâlir les couleurs,
Celles qui des paons même éclipseraient les queues,
Les petites fleurs d’or, les petites fleurs bleues,
Prennent, pour l’accueillir agitant leurs bouquets,
De petits airs penchés ou de grands airs coquets,
Et, familièrement, car cela sied aux belles :
– Tiens ! c’est notre amoureux qui passe ! disent-elles.
Et, pleins de jour et d’ombre et de confuses voix,
Les grands arbres profonds qui vivent dans les bois,
Tous ces vieillards, les ifs, les tilleuls, les érables,
Les saules tout ridés, les chênes vénérables,
L’orme au branchage noir, de mousse appesanti,
Comme les ulémas quand paraît le muphti,
Lui font de grands saluts et courbent jusqu’à terre
Leurs têtes de feuillée et leurs barbes de lierre,
Contemplent de son front la sereine lueur,
Et murmurent tout bas : C’est lui ! c’est le rêveur !

Les Roches, juin 1831

william zeytounlian (1988)

Zeytounlian

william zeytounlian (sampa, 1988) é poeta ainda inédito em livro próprio, assistente no clube literário hussardos, formado em história pela unifesp, onde desenvolve sua pesquisa de mestrado sobre as práticas de silêncio na modernidade a partir de documentos moralistas na frança do século XVII.

alguns poemas seus já  saíram na antologia é que os hussardos chegam hoje (2014) & no blog da modo de usar & co. publicou algumas plaquetes com traduções de três peças de samuel beckett (improviso de ohio, canção de ninar & que onde) um texto de john cage (o futuro da música: credo) & está para lançar mais duas plaquetes — canções, de bill callahan (de que também participo) & poemas, de leonard cohen.

como se não bastasse, o rapaz toca um blog produtivíssimo (i beg your pardon) ainda é atleta profissional de esgrima na modalidade sabre.

guilherme gontijo flores

RUÍNAS

Aqui chegamos:
o nosso ponto
indefinível –

motivo
repetitivo:
…………..cimo do
…………..labirinto.

que pergunta
não traria
sempre a
mesma
resposta?
…………..Que resposta
…………..não acertaria
…………..o alvo da
…………..mesma aposta?

Se você
não muda,
permanece
intraduzível;
…………..Se eu não me
…………..detenho,
…………..a minha imagem
…………..permanece.

motivo
repetitivo:
…………..talvez
…………..um dia
…………..cesse –

Aqui chegamos:
o nosso ponto
indefinível.

……………………….27 II 14