crítica, xanto

XANTO | A teoria democrática do Mini-Big Bang: 33 rotações, de Luca Argel, por Patrícia Lino

36568682-_uy794_ss794_

33.
Cristo e Alexandre, O Magno morreram aos 33 anos. O Rei David reinou durante 33 anos em Jerusalém. Jacob tinha 33 filhos. O Livro Tibetano dos Mortos fala dos 33 céus governados por Indra e dos 33 céus governados por Mara. Os deuses védicos são 33. 33 é, segundo a escala de Newton, a temperatura a que a água ferve. Em código binário, 33 corresponde a 100001. Cf. Paralelo 33, Harry S. Truman & John F. Kennedy. O número 33 representa o magnetismo. O arsénio, que é uma substância letal, é qualificado segundo o número atómico 33 (33 protões e 33 eletrões). Há 33 voltas completas na sequência do ADN humano. Cada um(a) de nós tem 33 vértebras no corpo e cada “3” do número 33 pode ser visto como um triplo, assim como um triângulo tem três lados: 3+3+3=9. 9, como os 9 graus que simbolizavam a reentrada no útero para que, após três vezes três meses de gestação (9), o candidato renascesse no mundo da consciência espiritual. Cf. Templos de Atlântida.

O LP, abreviatura do inglês Long Play (conhecido na indústria como Twelve inches ou Doze polegadas), é um disco com 30 cm de diâmetro que toca a 33 1/3 rotações por minuto. O formato LP era utilizado, regra geral, para a comercialização de álbuns completos, antologias ou reuniões musicais.

Rotação.
Existem vários tipos de rotação.

O planeta Terra gira ao redor do seu próprio eixo. O movimento anti-horário, de oeste para leste, dura aproximadamente 23 horas, 56 minutos, 4 segundos e 9 centésimos. A delimitação dos dias e das noites resulta da iluminação progressiva (concordante com o próprio movimento de rotação) de várias áreas geográficas do mesmo planeta (correspondente ao objeto tridimensional sólido-rotador-euclidiano).

Já as diferentes partes do objeto tridimensional gasoso-líquido-rotador giram, por sua vez, diferencialmente (a cada parte do objeto corresponde uma velocidade angular distinta).

Matematicamente, apesar de a isometria não resumir-se ao movimento rotacional, a proposta é essencialmente isométrica.

 

O que separa a rotação do movimento circular é o facto de o movimento circular acompanhar o percurso imaginário do dedo indicador sobre a mesa e a rotação exigir ao dedo indicador que se revolva sobre si mesmo a partir de um ponto.

O movimento circular aproxima-se do processo do pensamento: partir do início conduz ao fim.

A rotação é o questionamento giratório ou a questão giratória em si. Questionar ou entender implica revolver-se sobre si mesmo.

asasdasiu

33 poemas, que partem da rotação sobre si mesmos, exigem a quem lê o mesmo movimento giratório. Leitor e leitora têm de colocar-se dentro do espaço filosófico de uma linguagem menos clara, própria de quem começou a questionar. Há, aliás, certas perguntas que surgirão ao entrar nesse mesmo espaço: qual é a base do questionamento? Serve, este questionamento, de algo? Até quando dura o questionamento? Qual é o tom desta linguagem?

Uma linguagem menos clara não é sinônimo de caos, perda de significado ou desentendimento. No caso dos 33 poemas de Luca Argel, ela não é sequer sinônimo da quebra das regras gramaticais, sintáticas ou semânticas. A quebra é temática, porque o questionamento parte do minúsculo. E precisamente por que o minúsculo é a base do poema, a rotação é sempre metonímica.

 

SUSIE AND THE SAILOR

você compra caixas de sorvete de morango
no meio do dia
só para usar as colherinhas de plástico
que eles deixam na porta de saída
dos supermercados?

 

A mesma quebra temática faz-se pela amplificação da natureza ideológica (das ideias) que, no contexto das perguntas finais da poesia ou da filosofia, circunda e absorve o próprio questionamento — hermético, abstrato, intelectual.

O hermetismo, a base abstrata e o caráter intelectual do poema giratório partem de uma estratégia aparentemente contraditória; são o resultado da indagação concreta e concretizada a partir das coisas. O questionamento das coisas, rotativo e musical, é o questionamento de quem, em primeiro lugar, pergunta e tenta responder.

 

UMA VERDADE SOBRE OS RAIOS

de todas as virtudes humanas, a sabedoria deve ser, de longe,
a mais superestimada.
diz-se que ela é uma coisa feita de todos os erros que cometemos e dos erros dos outros.
mas isto é mentira. a sabedoria é feita apenas de massa fresca
e azeitonas.

isto é um segredo muito bem guardado, mas estou disposto
a dividi-lo convosco.
é como descobrir que um raio na verdade nasce de um ponto na terra
e não no céu.
o esforço para ser sábio
é como um adulto tentando com muita perícia e concentração imitar
um desenho de criança.

 

Às vezes humorística, às vezes terna, a mesma quebra conteudística abraça o recurso à paródia. Metonímico e metafórico, o exercício paródico parte do interesse pelo minúsculo (a azeitona) e conduz à oposição natural entre o canônico e o mundano. Contrapor os dois não significa, porém, apostar na distância conceptual que há entre eles, mas na tonalidade e grau de importância que — tão-só socialmente — os envolvem e definem.  Qualquer definição é limitadora.

 

O NÚMERO ZERO

Foi o último (e não o primeiro)
a ser inventado.

Homero, por exemplo, escreveu tudo o que escreveu
sem tê-lo jamais conhecido.

E você aí reclamando
do barulho do ar-condicionado.

 

No universo minúsculo do poema giratório, construído a partir de rotações metafísicas mundanas, Homero e o ar condicionado partilham o mesmo espaço. E não só: nenhum deles, elementos de uma comparação humorística que efetivamente resulta, ganha evidência sobre o outro na composição. A ausência de tal centralidade — onde Homero ganharia facilmente ao ar condicionado — faz-se a partir de dois movimentos de valor: 1. Homero é tão insignificante quanto o ar condicionado. 2. O ar condicionado é tão fundamental quanto Homero.

ʘ

Despretensioso, o universo minúsculo reconhece ser minúsculo e a existência de outros universos tão minúsculos como ele. A teoria democrática do Mini-Big Bang.

ʘ

A diversidade interdisciplinar das leituras que estão por detrás dos poemas é outra das inovações de 33 Rotações e muito nos diz sobre a peculiaridade do trabalho de Luca Argel no contexto da poesia brasileira contemporânea. O interesse claro pelas referências cinematográficas revela não só a necessidade em transpor a visualidade do ecrã para o poema, mas em, longe do ecrã, preservar a independência do texto. Por outras palavras, a referência cinematográfica não segura o poema; amplifica-o. E o poema não depende da referência para ficar em pé; amplifica-a.

ʘ

Cada rotação corresponde a um universo minúsculo, onde, sucessivamente, cada um dos universos se encaixa e consolida dentro do universo seguinte. Os poemas formam-se à luz deste raciocínio. O minúsculo não pede, além disso, acréscimos, pois há nesta releitura do mundo um grande sentido de ética ou a grande crítica à falta de um sentido de ética. O poema giratório é, por partir em primeiro lugar de um exercício de empatia, inclusivo, corrosivo e atento (cf. “The act of Killing — Joshua Oppenheimer [2012]”). Ensina-nos que não há um espaço total de conforto; e se o há no tempo, ele é sempre questionável a partir do espaço do outro. Rotar a partir da inquietação e da insuficiência implica não parar de rotar. 33, 66, 99, 132 ou 165 vezes (cf. “Por que lês tantos livros?”).

§

 

Patrícia Lino (Porto, 1990) ensina na Universidade da Califórnia, Santa Barbara e é estudante do Doutoramento em Literatura Lusófona no Departamento de Espanhol e Português da mesma instituição. Licenciada em Clássicas e Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes — Literaturas de Expressão Portuguesa, escreveu a tese intitulada e então é verdade: então a vida não passa disto. Manoel de Barros e o Círculo dos três movimentos com destino ao Homem-Árvore (Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2013). Tem artigos, ensaios, poemas e ilustrações publicados em Portugal, no Brasil e em Espanha.

Anúncios
Padrão
crítica, xanto

XANTO| A falha que te torna em ti mesmo: “Tresmalhado”, de Jorge Roque, por Pádua Fernandes

O último livro de Jorge Roque, Tresmalhado (Lisboa: Averno, 2016), mantém a forma do poema em prosa que caracteriza o autor, com o mesmo tipo de sujeito que observa a si mesmo ou aos outros com um tom amargo, na poética descrita em “Som rouco”, de Broto sofro (Lisboa: Averno, 2008, com pinturas de Guilherme Faria): “Ouviu um som rouco que lhe saiu da garganta, espécie de ronco de animal ferido. […] Desligou a música, abriu o caderno, e segurando o lápis, começou a escrever o som medonho que ouviu.”

Tresmalhado confirma também o intercâmbio de imagens entre vidas animais humanas e não humanas. Um animal capturado pode, com empenho e sorte, tresmalhar-se; o homem, se se reconhecer animal, pode fazer o mesmo e escapar? Não neste livro, onde os seres vivos estão cativos:

Não, por este andar não vou lá. E não vejo que outras pernas possa ter, nem que outro chão possa pisar. A cerca está erguida, o animal encurralado. Um quadrado perfeito, traçado a régua e esquadro, as estacas cravadas a intervalos regulares, a rede de malha estreita, devidamente presa e esticada, rigoroso ministério de quem sabe o que faz, sabe o que quer, não admite a falha.

O trecho vem do poema “Ida e volta”, um dos mais irônicos do livro, que trata dos escritores e do sistema literário, ou seja, de bestas que amam o cativeiro. Jorge Roque não dispensa esse tipo de imagem apenas a essa categoria, no entanto, ela é mais abrangente: “rendo-me à evidência, o estado português é um negócio de trocar porcos por chouriços. E como os porcos são escassos, esgotada a ruinosa criação, somos nós que tomamos o seu lugar, trocando vida, trabalho, justiça, por um chouriço.” (“Certificados de aforro”).

Não podemos deixar de lembrar, nesse passo, do livro escrito todo a partir de imagens da mesma espécie animal, Senhor porco (Lisboa: &etc, 2004), com textos de Roque e pinturas de Guilherme Faria, sobre que escrevi uma resenha para o extinto K Jornal de Crítica (disponível aqui). Algo similar à “condição de animal de criação na empresa desses quantos, cujo negócio é precisamente a classe privilegiada de que fazem parte” (“Um exemplar falhado da espécie”, poema de Nu contra nu, publicado pela Averno em 2014).

Entregam-se a destino semelhante os ratos do poema “Tresmalhado” do livro novo: “subterrâneos, diligentes, os despudorados servidores da oportunidade e do medo, comandados, claro está, pelos inescrutáveis senhores”. Tais seres que gozam da ou na servidão não possuem real companhia no cativeiro: a identidade do destino não associa os cativos. O poema “Coelho no tacho”, que alude ao apelido de um político e a um prato da culinária portuguesa, acaba numa fuga discreta, como se o locutor descrito, depois do instantâneo sucesso de sua piada no meio de um café, não fosse digno nem mesmo de pisar o chão depois disso. Nesse sentido, o tresmalhado é aquele que está separado dos outros e, por isso, não tem uma ação política, nem mesmo contra o político que é ironizado.

Hugo Pinto Santos bem escreveu que “Em Tresmalhado, sem se intentar fazer poesia política, a escrita está imersa no mundo. E, se não há um desígnio político, em sentido estrito — é sobretudo de ética que se deveria falar —, os dados da realidade são tematizados por um prisma que é também político.” (“Corpo político”, O Público, 23 jan. 2017, acesso aqui).

De fato, o livro não é bem-sucedido no poema que se apresenta como abertamente político, “Salmo dos novos velhos liberais”, com estas lamentações: “Meu Deus, meu Deus, porque me tiraste emprego, reforma, sistema de saúde e segurança social? São os novos velhos liberais, descobriram uma solução: riqueza para uns poucos, pobreza para quase todos, exclusão para os que estão a mais […]”.

Note-se que esses liberais se apoderaram do poder também no Brasil. Brasileiros, por sinal, poderão rir ou reconhecer-se em outro poema, que satiriza a “filha de pai português e mãe espanhola” que afirma “sou toda Europa, somente nasci no Brasil” (“Queen Margarete”). “Leis da humana física” realiza algo parecido, parodiando o discurso que defende o liberalismo como lei natural. Outro momento que deixa um sorriso encontra-se na primeira parte de “Inferno”, na fala imaginária ao sargento, não na imagem banal do “lasso e venal cu”, mas no fim, na lembrança de que ambos morrerão: “se vivesse a sua vida, como eu tento, como sem dúvida falho, mas falhando, encontro-me, retomo-me”.

Temos nesse ponto algo de mais geral. Na poesia portuguesa, ocorre há tempos o cruzamento entre o fracasso pessoal e o plano coletivo da história de Portugal, fazendo com que imagens do declínio da nação sejam transportadas para outros tipos, particulares ou privados, de malogro. A terceira parte de “Inferno” começa desta forma: “Sempre vivi num reduto, sempre fui uma míngua de terra encostada a um muro. Mas o reduto estreita-se, o muro já mal me deixa mover nesse espaço exíguo que foi quanto me habituei a esperar da vida e era, visto de agora, um lugar feliz, uma cara onde o sorriso cabia.” Se pensarmos no muro como a fronteira espanhola, está aí outra descrição, agora infeliz, do “Jardim da Europa à beira-mar plantado”, segundo o célebre poema de Tomás Ribeiro “A Portugal”.

Quando esse poema oitocentista foi escrito, o declínio de Portugal já era secular, e o Brasil estava independente há décadas. Tomás Ribeiro sabia disso, por isso exortou à “pátria”: “recorda ao mundo ingrato as priscas eras/ em que tu lhe ensinaste a erguer altares./ Mostra-lhe os esqueletos das galeras/ que foram descobrir mundos e mares…” É típico dessa época que o autor, a respeito do antigo colonialismo, lembrasse dos ossos metafóricos dos navios, mas não dos concretos restos mortais das vítimas nas terras invadidas, conquistadas e exploradas a custo de extermínio e escravismo.

Se lermos Roque em paralelo com Ribeiro, não podemos deixar de ver um gesto irônico no poema que segue a “Inferno” e conclui Tresmalhado: “Flash”. O poema recebe o título do nome de um peixe de aquário, “Pequeno e pouco combativo”, cuja comida era roubada pela carpa, e que “teve um AVC ou algo parecido”. Por causa disso, foi escolhido: “inepto, absurdo, votado ao fracasso”, somos “iguais a ele”, pois “O Flash, repito, tenta ainda.”

Do esqueleto das caravelas ao peixinho doente no aquário, quase um século e meio se passaram na história do imaginário poético português. Termino, de forma apropriada, voltando a “Inferno”:

A história perfeita de um falhado. O retrato concreto e exacto de um falhado. Sem o conforto da ironia ou a evasão da gargalhada. Sem tão pouco a consciência tranquila do esforçado trabalho e da pequena conquista, curso honesto de uma vida que, valer-te-ia isso, se valer pudesse, foste. Sem ao menos isso. Sem sequer. Com os olhos postos nesse erro, nessa falta, as órbitas vazias do rosto que falhaste tornado teu.

Pádua Fernandes

Padrão
xanto

XANTO | Êxodo da condição humana e desarticulação do matadouro no Mugido de Marília Floôr Kosby, por Rafael Zacca

23519155_1990838404526905_4297323934375075232_n

“o ninho estranho
atrás da casa toda (…)
os bichos se encaram”
Ana Carolina Assis

 

Quando cursei a graduação em História ouvi de professores que sofreram algum tipo de violência física durante a ditadura militar que o ser humano é o único animal que tortura. Seguindo o comentário, podemos supor que a racionalidade – com a qual nos distanciamos frequentemente da instintividade, a partir do que separamos mundo animal de mundo humano – é, mais ou menos vezes, a faculdade de torturar. É o balanço de Adorno e Horkheimer na sua Dialética do esclarecimento, em que avaliam o preço cobrado pela racionalidade nos campos de concentração (entendidos, por eles, não como desvio da história do humano enquanto animal racional, mas como o seu auge) – ou, se preferirmos permanecer no domínio poético, preço cobrado por Odisseu, o mais astuto dos heróis (o que lograva as forças do mito com a razão e fugia o tempo inteiro da condição de animalidade da qual seus companheiros por vezes não conseguiram escapar), quando retornou a Ítaca e não apenas matou como torturou os rivais ao trono e abusadores de Penélope, não poupando, tampouco, a criadagem que conspirou com os concorrentes. Trata-se, nas duas formulações, de uma subversão de uma moeda corrente, que gastamos na fala, quando afirmamos que determinada época ou personagem histórica é “desumana”, querendo dizer que essa época ou personagem violenta com requintes, e, por isso “não pensa”.
Tal subversão, que identifica na racionalidade (instrumental, no caso de Adorno e Horkheimer) a humanidade violenta, não esgotou a sua possibilidade de esgarçamento de nossa realidade. E pode mesmo representar algum conservadorismo, se lida levianamente, uma vez que pode levar mais à estabilidade dos pares duais que sustentam muitos dos nossos sistemas de dominação (entre espécies, entre gêneros, entre classes) que à sua dissolução. Refiro-me às oposições entre convívio e predação, vida e morte, animalidade e humanidade, e, principalmente, história e natureza. Sem se revolver com tais distinções, dificilmente se poderá chegar a uma teoria política propriamente dita, isto é, uma que torne estranho o que nos é familiar e que permita a transformação do que se supunha natural e, por extensão, imutável.

Trata-se, portanto, do problema da mutabilidade (ou do caráter radicalmente histórico) de todas as coisas, inclusive as “naturais”. É por ocasião da leitura de Mugido (Garupa, 2017), de Marília Floôr Kosby, em que principalmente os pares vida-morte e convívio-predação são confundidos, e da crescente atenção à questão animal (vide, por exemplo, a série de “zoopoéticas” que Ricardo Domeneck publicou antes do fim da revista Modo de Usar), que proponho aqui que a poesia talvez seja uma dessas possibilidades de confusão entre o natural e o histórico. Enquanto o agronegócio tenta, num gesto imoral, remoralizar a própria imagem (com intervenções diretas tanto em horário de propaganda política gratuita quanto no slogan da Rede Globo “agro é tech, agro é pop”), poetas hoje, como Ana Carolina Assis (e sua comunhão do minúsculo com o ermo), Heyk Pimenta (e seus bichos e flores fodidas) e Marília Floôr Kosby (e seu mugido) minam o uso do “animal” ou do “natural” na comunicação e na propaganda, favorecendo a possibilidade de uma zoopolítica[1] – para não falar no boom do programa zoopoético, que permeia a produção contemporânea como acontece com, para citar apenas alguns, pois a lista é exaustiva, Ricardo Aleixo, Júlia de Carvalho Hansen, Guilherme Gontijo Flores, Alberto Pucheu, Carla Diacov e Liv Lagerblad.

agora vocês imaginem
que o cão durou uma noite
inteira escarrando a espinha
entalada
de uma ovelha
que mal esperneou pra morrer

São poucos versos que Kosby precisa para embaralhar as nossas coordenadas. Os símbolos do domínio (o cão “doméstico” que pastoreia) e da subordinação (a ovelha que mal esperneia pra morrer) “convivem”, mesmo após a “morte” da ovelha. Passam a noite juntos, na forma de um “escarro” atravessado por fonemas feitos das letras “m” e “n”, que remetem, visualmente, às costelas que os versos que precedem a estrofe faziam o leitor imaginar (“vocês já viram / o espinhaço / as vértebras / de uma ovelha / no açougue // têm três pontinhas / fininhas / com imaginação lembram / uma estrela pra quem / vê de cima”). Secretamente, ainda, convivem (e nos fazem conviver) com a vaca, pelo menos com a vaca poetificada no mugido, pela força da proliferação de “m”s, como propõe o poema que abre o Mugido, chamado, justamente, “mmmmmm” (o mesmo número de “m”s da estrofe que descreve a cena do engasgo), em que podemos ler que “o mugido foi a ação escolhida” para uma “desarticulação”. Kosby propõe, no poema de abertura, que essa desarticulação se efetua a partir de “um êxodo / de uma tal condição / humana”.
Para um leitor apressado, esse êxodo pode remeter a uma fuga. Examinemos melhor a questão. No prólogo de A condição humana, Hannah Arendt tece algumas considerações a respeito da “fuga da Terra” mobilizada pelo lançamento do Sputnik 1, em outubro de 1957, pela URSS, que orbitou em torno do planeta por 3 meses, enviando um pequeno sinal de rádio que poderia ser captado inclusive por rádios amadores. O lançamento foi realizado com o auxílio de um foguete R-7 Semyroka, e significou um teste dos limites que encarceravam o ser humano na Terra, reforçando a tomada de posição do humano como habitante não mais do seu planeta, mas do universo. O mesmo foguete R-7, que serviria ainda como arma de combate e aniquilamento, serviu para que o ser humano sondasse chances de fuga de seu primeiro habitat. Esse evento sinaliza, para Hannah Arendt, um verdadeiro niilismo contemporâneo: uma vontade de fuga da condição terrestre, da vida “como nos foi dada”, compreendida pelo ser humano como prisão. “A reação imediata”, diz o prólogo à Condição humana, a propósito do modo como foi noticiado o lançamento do Sputnik 1, “expressa no calor da hora, foi alívio ante o primeiro ‘passo para a fuga dos homens de sua prisão na Terra’.”
Se o avanço da tecnologia (e, contemporaneamente, do capitalismo) é identificado como chance de fuga da Terra (e, portanto, de colonização e domínio do espaço), é fácil perceber por que, historicamente, alguns movimentos políticos, artísticos e filosóficos quiseram se contrapor a esse destino das forças produtivas a partir da imagem idílica de um retorno à terra como paraíso natural a ser reconquistado. Desde a Lebensphilosophie até certas vertentes do romantismo, o antídoto contra o veneno da fuga foi a refamiliarização com a vida natural, com a Terra, com a natureza, etc. Uma fuga, portanto, para o interior (tanto o geográfico, longe dos litorais e da atmosfera, quanto o psíquico). Mas é contra as duas fugas, a que escapa para “fora” e a que escapa para “dentro” que Kosby nos oferece a imagem de um êxodo.
O que significa esse êxodo? A palavra deriva do grego éksodos, que significa “passagem”, “saída” (ou, literalmente, um “fora”, ex, do caminho, ódos). Contemporaneamente, remete ao deslocamento de grupos inteiros de pessoas de uma região para a outra, implicando, portanto, um estranhamento, uma condição de estrangeiridade. O estrangeiro suporta tanto a diferença da língua quanto a diferença de direitos desde pelo menos a Grécia Antiga – aliás, justamente na Tragédia Grega, segundo Aristóteles, chamamos éksodos o momento em que o Coro anuncia, sem canto, o desfecho da peça. No Mugido, esse êxodo implica, simultaneamente, a condição estrangeira do animal e da mulher, promovendo, por exemplo, uma identidade maior entre as “fêmeas” de todas as espécies do que entre a “fêmea” e o “macho” humanos. Implica também o sonho do fim da “peça teatral” do doméstico: “todos aqueles cães / eram cadelas // bocetas ao sol / não é todo dia”. Reforça este encontro de significados o comentário de Angélica Freitas, em forma de poema (“muuuu”) ao final do livro: “Ler poemas como quem presta atenção, de verdade, em uma fêmea de outra espécie. / Para se entender.”)[2].
A tese fica mais forte se trazemos à luz um poema de Kosby endereçado a uma “angélica”, que bem poderia ser a Freitas (autora de Um útero é do tamanho de um punho, referência incontornável tanto para a poesia contemporânea quanto para a poesia feminista), e em que se fala de um “útero / imenso” de uma vaca, que, para o parto, “requer punhos / firmes / finos porém” – e que ressoam, por sua vez, versos que aparecem cerca de 30 páginas depois: “uma vaca furiosa / te passa por cima / te pateia / ganha no mato // uma mulher furiosa / quem sabe // que carinhos tem / uma vaca?”.
Os poemas de Kosby realizam materialmente o que propõem simbolicamente. Com isso, não nos apresentam um mundo de fusão entre animal e humano, mas de confusão, o que amplia as suas possibilidades políticas. Sem definição, história e natureza não se significam mutuamente: se confundem, suspensas. Se a política acontece quando se rompe o consenso, ou seja, quando se desfaz a ficção de que todos nós sentimos as mesmas coisas, como propõe Jacques Rancière, permitindo, com isso, o ruído da diferença, o Mugido de Kosby, que é “difícil” de ouvir (segundo o poema de abertura do livro) se oferece menos como novo mundo, em que podemos habitar com os nossos sentidos, do que como ruído em nossas faculdades do entendimento. Dessa forma, Mugido é uma produção de ansiedade: quer que tudo anseie pelo fim da peça teatral que, segundo Kosby, produz “o cheiro de osso queimado” do “matadouro” (que deve ser compreendido em sentido ampliado, como qualquer sistema que transforma o “matado” em “ouro”, quer dizer, que mata para o consumo público), e que leva, “sem almoço”, “da fome / à náusea”.

 

NOTAS:

[1] Tento aqui diferenciar a “possibilidade de uma zoopolítica” (atuação política que só se realiza enquanto possibilidade, pois prepara a intervenção sem realizá-la, de fato, uma vez que não destrói “matadouros” em sentido ampliado) da necessidade de uma programática zooliteratura ou zoopoética, que lida simbolicamente com o problema da alteridade. Para um estudo dos bestiários contemporâneos, cf. os trabalhos recentes de Maria Esther Maciel.

[2] Não descarto ainda o alcance de camadas de sentido que um tal êxodo propõe, em conúbio com a memória e a atualidade de um êxodo rural que desde pelo menos o início de nossa República marca os trabalhadores do campo, muitas vezes explorados pelo agronegócio ou pela burguesia que processa e negocia os seus frutos nas grandes cidades, configurando um grande matadouro nacional.

Padrão
crítica, xanto

XANTO| “Descalço/nos/trópicos/sobre/pedras/portu/guesas” de Thiago Camelo, por Alexandre Werneck

DESCALÇO
NOS
TRÓPICOS
SOBRE
PEDRAS
PORTU
GUESAS (2017)

Thiago Camelo, Nós

Ao iniciarmos a leitura de Descalço/nos/trópicos/sobre/pedras/portu/guesas — o título nos é apresentado em verso, em um movimento que parece sugerir mais do que um performatismo de design —, nos deparamos com uma descrição: um avião, uma mulher que dorme, uma turbulência, um idoso. Essa forma textual, que sempre impõe ao tempo certo congelamento — por sua vontade de apresentação de cenário —, é o dispositivo narrativo do mundo construído pelo poeta Thiago Camelo e dispõe sobre ele justamente uma infinidade de coisas: a partir daquele momento, assentos, roupas, aeromoças, carpetes, fones, ruídos de motor etc. vão se colocando — sendo colocados — de forma a contar: eles contam uma história, eles são levados em conta, eles prestam conta, eles contam com a leitura. A estrutura da dinâmica poética, em geral mais contemplativa, é aqui produzida por um tensionamento daquilo que podemos chamar intensividade: vemos alguns elementos do mundo serem capturados e, com uma lente de aumento, potencializados em sua capacidade de se mostrar determinante.

Em seu modelo para a análise de narrativas, o semiólogo lituano Algirdas Greimas propõe o conceito de actante como uma alternativa para se entender como se dá o avanço das construções textuais cuja base é a passagem do tempo: diferentemente do personagem, que impõe à narração uma determinação decisória — e, portanto, impinge tanto a pessoas quanto a coisas um certo excedente de racionalidade e de capacidade e, nesse sentido, às próprias histórias um excedente de teleologia (e acaba por criar um autor em geral onipotente) —, o actante representa aquilo que é decisivo, aquilo que faz diferença efetiva no andar da carruagem. Com um tratamento como esse, fica claro que, por mais que não se ignore que o autor tenha sempre uma vontade — e, pensemos em Foucault, que outro motivo a autoria teria de ser se não a manifestar? —, não é tanto ela que está mais fortemente em jogo para se estabelecer a lógica efetiva de uma diegese narrativa, mas sim sua capacidade de administrar competentemente a intervenção de seres (sejam pessoas sejam coisas) no interior de uma gramática, uma lógica autodeterminada que mais propõe do que impõe (como o narrado tem que fazer sentido – mesmo que um sentido que escorra pelos dedos, mergulhado em projetos non-sense – o autor, essa entidade abstrata sempre terá que se haver com a potência dos actantes, com sua actância).

Dessa maneira, a ideia mesma de determinar a narrativa ganha uma revisão, na medida em que se trata de uma outra forma de definição aqui em jogo. Não mais de uma situação conclusiva — aquela que encerraria qualquer história —, mas de uma situação atentiva: é de uma micronarrativa de como se atrai a atenção que se trata. Cada momento da leitura consiste em experimentar a experiência de um outro — aquele que “em teoria” (na dupla acepção da expressão) é o “eu poético” — por meio de sua afetação, de sua afetividade: que actante sequestra sua atenção e como? E, na outra ponta da relação, que característica desse outro é possuída por um mundo de pequenas coisas que viram, nesse momento, estímulos, a sepultar uma “atitude blasé” (para pensar no sociólogo alemão Georg Simmel)?

Assim, por exemplo, uma reflexão sobre uma banalidade (uma afirmação capturada em um documentário) é trocada rapidamente por uma ressituação do mundo, agora em um restaurante. Mas não porque o eu lírico seja volúvel ou aéreo ou padeça de déficit de atenção: ele é errante, fluxo — porque tudo é, toda cognição é (voltarei a ela). E isso determina uma fuga do épico central a esse empreendimento: não parece nunca se tratar de elevar esses pequenos “momentos” à condição de grandiosidades insuspeitadas, não se trata de cobrir com trecho de ópera uma cena de um gesto banal em um filme para revela-la como algo de beleza singularíssima. Trata-se de comentar aquilo que ao autor — ou a ele como imaginado no interior do poema — se impôs (ou a ele foi imposto pela actância incontornável das coisas) como assunto: ele, veja só, falaria o dia inteiro sobre a amendoeira — não sobre amendoeiras, mas sobre a forma abstrata mesmo, a generalização depreendida de se ter visto folhas, de se ter comido frutos — há algo de profundamente indutivista em seu olhar; ou ele reflete sobre o conceito de entropia a partir da mudança de, digamos, estado termodinâmico da vida de um amigo e da improbabilidade do sucesso de um dos mais bem-sucedidos jogadores de basquete da atualidade.

E esse movimento de descrição se manterá por todo o livro, mas, como disse no início, no exercício de uma, digamos, função narrativa. Entretanto, se soa como uma certa história o que Camelo nos apresenta, isso parece ser mais bem representado pela ideia de um certo fluxo de historiação: fatos acontecem (narração) com coisas e pessoas como elas são/estão (descrição) e especialmente conforme elas intervenham (actação) e, com isso, é exposto um certo universo semiótico. O mundo produz mundo(s) porque as coisas do mundo se fazem signos, se mostram significativas, e se congregam em uma teia de significados aos olhos — do escritor e (por contaminação, se houver a captura) do leitor. E, nesse sentido, faz muito sentido que o eu lírico diga que se interessa mais por objetos do que por pessoas: eles estão simetrizados, ambos são objetos (a escolha da palavra é oportuníssima). E não porque as pessoas sejam “objetificadas”, no sentido de uma desvalorização, mas porque tanto um quanto o outro são objetivos, no duplo sentido de serem o fim e o princípio, de serem aquilo que se persegue e o recorte lógico que permite perseguir.

Nesse sentido, embora se conecte com uma movimentação típica de certa poesia moderna — Drummond, por exemplo, também é encantado (embora em geral de uma maneira um tanto blasé) e confere especial atenção à intensividade e à pregnância das coisas — e com certa técnica de prosa contemporânea — em alguns momentos, parece que lemos as frases curtas, entrecortadas, de, digamos, Rubem Fonseca em sua versão mais brutalista —, o exercício de Camelo busca uma voz própria em sua atitude: ele se dá ao leitor como dispositivo, como aparato a permitir a experiência de uma cognição, de uma maneira de apreender o mundo: na leitura, fica-se como imerso em um laboratório de contato com o universo, no qual as coisas e pessoas (objetivados), os seres, em suma, são sempre ao mesmo tempo percebidos — isto é, captados automaticamente como perturbações do fluxo da rotina — e interpretados — ou seja, significados conforme um processo de comparação com uma vasta biblioteca de referências — e isso porque são sempre ao mesmo tempo genéricos e íntimos daquele que ali fala: ele ao mesmo tempo os categoriza, os situa em uma grande taxonomia dos seres, e os reconhece, tem para cada um comentário “de causa”, particularizado, crítico por vezes (e estupefato em outras, como diante da dinâmica informacional/comunicacional da experiência cognitiva contemporânea na internet), como se vivesse cercado por eles o tempo todo, como se não tivesse outra vida senão a de observador das coisas — e somos levados a experimentar essa mesma condição.

Assim, não são tanto os actantes — e a “beleza das pequenas coisas” — que efetivamente importam aqui, mas a actancialidade: o que é revelado é justamente aquele dispositivo laboratorial. Ele é sutil, oculto, mas está lá. É ele quem brota da experiência, como se o projeto consistisse em perceber um planeta no qual se está de pé e, de tão grande, torna-se invisível.

Mas, ora, sobre o qual se está de pé descalço e, portanto, com o qual se trava contato direto.

Alexandre Werneck

Padrão
crítica, xanto

XANTO | Tocar na ferida (Sobre “Outros jeitos de usar a boca” de Rupi Kaur), por Matheus Mavericco

 

rupi1

TOCAR NA FERIDA:
Sobre Outros jeitos de usar a boca, de Rupi Kaur.

De pijamas e virada pra parede, a jovem deitada parece que descansa. Seu cobertor beje estampado de flores, com o qual a princípio se cobria, foi jogado para o lado a fim de que pudéssemos ver a mancha vermelha primeiro entre as pernas e depois no lençol de cama. O enquadramento da imagem, aliado ao contraste com uma paleta de cores pálida, realça a mancha. E no entanto, a posição do corpo e o cobertor tão à vontade evidenciam também a naturalidade daquela cena que se tenta a todo custo esconder, quase como se não existisse ou, pior ainda, não devesse existir. Em outras fotos do mesmo ensaio, a jovem contempla gotas de sangue perto do ralo do banheiro ou o vermelho da menstruação que se sobressai na brancura asséptica da privada.

o-rupi-kaur-facebook

“Não me vou desculpar por não alimentar o ego e orgulho de uma sociedade misógina que aceita o meu corpo em roupa interior mas fica desconfortável com uma perdazinha de sangue”, disse Rupi Kaur, a jovem da foto, quando sua imagem foi apagada da rede social em que havia sido postada. Com isto, recusava-se ainda a internalizar os artifícios e imagens que se naturalizam às custas da biologia do corpo feminino ou dos relacionamentos amorosos. Quem abre seu primeiro livro de poemas, publicado em 2014 nos Estados Unidos (onde encabeçou meses a fio a lista de mais vendidos) e no Brasil este ano, encontrará esta recusa a todo instante.

De minha parte, com exceção de “a arte de esvaziar” (elogiado também pela tradutora, Ana Guadalupe), não gostei do livro. Achei a realização artística um tanto fraca e em não poucos momentos rala e cafona, por exemplo quando ela diz ser um museu cheio de quadros que o rapaz, com os olhos fechados, não viu. Diria também que o livro, lambuzado de prosaísmo, quase não apresenta recursos poéticos e nem tampouco faz desta secura uma inesperada fonte de interesse, de modo que se o leitor espera um espetáculo de metáforas ou sonoridades retumbantes ou um modo mirabolante de ver o mundo então ele certamente se verá decepcionado com o livro, escrito, ao que a princípio parece, passando a tesoura aleatoriamente nas frases até que caiam retalhos no chão que de maneira arbitrária batizaremos “verso”.

O problema é que isto não encerra a discussão. Na verdade, mesmo que o objetivo fosse o do polegar pra baixo a questão teria sido quando muito colocada, no que a incumbência passaria ao leitor: que ele concordasse, discordasse, risse, ignorasse. O valor artístico que enxergamos numa obra é importante e sou da opinião que é perigoso minimizá-lo, mas uma obra também pode acumular outros valores que às vezes até são artísticos, mas de maneiras moderadas (por exemplo quando se limitam a efemérides temáticas), ou que de artísticos possuiriam muito pouco (a exemplo de quando a arte é tomada para fins terapêuticos). E Rupi Kaur, se para mim não faz jus ao primeiro sentido, claramente faz aos outros dois tanto por pelo menos abordar assuntos dolorosos e urgentes quanto por servir de mensagem revigorante para um público oprimido.

Pensemos naquilo que mencionei sobre os versos parecerem retalhos. Creio que consigo chegar a respostas distintas se rumino um pouquinho mais a coisa toda. Penso que de fato a autora não se preocupou muito em fornecer objetos artísticos bem acabados; na verdade, eu diria que o fato de que muitos de seus poemas se passam por frases de efeito é algo deliberado em seu projeto estético, no sentido de que poderiam ser veiculados em embalagens distintas sem acarretar o apocalipse. Claro que isso nos leva à acusação grave de que não possuem qualidade, pois, se considerarmos com Max Bense que o poema é a mensagem estética mais frágil, no sentido de que um simples arranhão ou o deslocamento de uma vírgula derrubam o casebre, então a possibilidade de que os poemas de Rupi Kaur sejam acomodados em outros invólucros não parece bom.

Pelo menos não se ainda os considerarmos como poesia. Ou seja: pode ser sim que estejamos diante de uma coletânea que contém não só poemas, mas também outra coisa que quer estar perto da poesia a fim de que sugue algumas propriedades do discurso poético e as utilize para incrementar sua mensagem. Concordo que é estranho cogitar tal hipótese, afinal de contas nós nos acostumamos a bater o martelo quando achamos que algo não é poesia e, depois disso, tirar as meias e colocar uma pizza no forno. Sou da opinião que proceder assim é um desperdício, não só porque é absolutamente plausível que um texto finja ser poético apenas para absorver benefícios de tal confusão sem que o resultado seja sempre negativo ou ardiloso, mas também pois, pra colocar de forma inteiramente pragmática, se você investiu seu dinheirinho naquilo e agora precisa esperar mês que vem pra embolsar outra coisa, o jeito é passar um tempo mastigando, elucubrando e buscando, porquê não?, novas maneiras de apreciá-lo, distintas das conclusões a que muitas vezes se chega de maneira insolitamente cômoda.

rupi2

De modo análogo a quando Adelaide Ivánova sobe no palco, saúda as meninas e as matriarcas no recinto, informa a página específica (setenta e cinco) e declama que “O problema não é que as pessoas lembrem por meio de fotos mas que só se lembrem das fotos” ela está de algum modo se aproveitando do fato de que aquilo é o maior festival literário do país e o público que a escuta espera degustar poesia, no que, assim procedendo, ela consegue espicaçar a sensibilidade e a consciência justamente pelo fato de que faz um voo rasante e propõe um mapa provisório do machismo brutal de nosso tempo, de modo análogo Rupi Kaur também se aproveita de nossas expectativas perante um livro de poemas, algo como abrir os poros e deixar que o coração transborde, e muitas vezes comunica mensagens curtas e diretas ou, caso queiramos adjetivos requintados, concisas e secas.

Uma comparação facilmente maldosa aproximaria os poemas da norteamericana aos do presidente brasileiro, principalmente pelo fato de que muitos são diretos, curtos e usam o cavalgamento de maneira livre, dando a impressão até de que não pensada. Eu tenho duas hipóteses sobre a última característica: a primeira é a de que, seguindo um comentário curiosíssimo de Rogério Chociay, o cavalgamento diz muito mais a respeito da estrofe do que a respeito do verso, de modo que devemos pensar o cavalgamento não a nível de um ganho entre um verso e outro, como é costume que façamos, mas sim num nível global, e a segunda hipótese é a de que o cavalgamento proporia um sistema de ênfases, como se, tentando desenvolver a ideia de uma maneira perigosa não obstante promissora, a disposição dada por Rupi Kaur fosse apenas uma dentre outras que os leitores também podem fazer. Afinal de contas, se eles podem acondicionar os versos na embalagem de uma única frase, então não me parece absurdo que possam repicotá-los e redistribuir as ênfases dadas pelo original.

eu não fui embora porque
eu deixei de te amar
eu fui embora porque quanto mais
eu ficava menos
eu me amava

Neste poema nós até possuímos um recorte bem pensado graças à anáfora pronominal deixando claro que sair de um relacionamento abusivo recuperou toda uma autoconfiança perdida. Um segundo exemplo de uso expressivo da quebra de linha é o desse aqui, onde o isolamento vocabular nos dois últimos versos está obviamente te dizendo algo num poema onde pouco parece ser dito e até o sujeito é indeterminado.

o jeito como
vão embora
diz
tudo

Ocorre que esta nem sempre é a realidade de outros textos do livro, onde a operação de repicotar, operação nem um pouco recomendável para qualquer leitor diante de obras literárias, parece abrir uma exceção tal como se a poesia de Rupi Kaur permitisse algo do tipo para seus leitores. Vejamos:

há uma diferença entre
alguém dizer que
te ama e
de fato
te amar

Com exceção do primeiro verso, que se terminasse em “diferença” perderia a chance de passar uma demão de ênfase justamente no contraste entre as duas opções, não vejo nada de especial na disposição dos versos. E o ponto que faço é que não julgo que a ênfase dada pela poeta seja a única possível, pois do mesmo modo que posso veicular o poema numa só frase, também posso, sem que isto implique uma perda tão profunda e lastimável como seria se com poemas de outros autores, transcrevê-lo como:

há uma diferença entre
alguém dizer que te ama
e
de fato te amar

Creio que se trata de um tipo de liberdade que pode ser especialmente produtiva nos poemas longos, onde, segundo Ana Guadalupe, Outros jeitos de usar a boca chega pertinho de uma poesia falada que pede para que o leitor a declame. Ora: como, na hora de declamar, é comum que desloquemos as ênfases do original e construamos algo que se ajuste melhor à performance escolhida, então creio que temos um incremento a mais para a hipótese que lancei.

deixar a barriga da minha mãe vazia
foi meu primeiro ato de desaparecimento
aprender a encolher para uma família
que gosta de ver as filhas invisíveis
foi o segundo
a arte de se esvaziar
é simples
acredite quando eles dizem
que você não é nada
vá repetindo
como um mantra
eu não sou nada
eu não sou nada
eu não sou nada
tão concentrada
que o único jeito de saber
que você ainda existe é
o seu peito ofegante

Esse daí é o tal “a arte de esvaziar”. Nele a autora faz uma óbvia referência à vilanela de Elizabeth Bishop, especialmente vista quando diz que a arte de esvaziar é simples (isn’t hard to master). Penso que se trata de um poema notável não só pela imagem de abertura, talvez a melhor do livro todo (afinal de contas é claro que quando um bebê nasce a barriga da mãe fica vazia, mas, porque o milagre da vida aconteceu, “vazia” definitivamente não parece ser o adjetivo correto, o que apenas realça a dor, o deslocamento e a privação que afligem o eu lírico), como também pelo fato de que a fluidez das frases e seu recorte coloquial fazem com que aquilo escorregue pela língua até o ponto em que nos pegamos lendo em voz alta. E isso é importantíssimo, afinal de contas se o poema fala de como toda uma trajetória de vida foi apequenada graças a uma educação que menospreza, então o ato de que no ápice do esvaziamento imposto (aqui surgido como uma versão deturpada de “mantra”) a pessoa descubra seu próprio corpo é um ato que quando mimetizado pelo leitor descobrindo, pela espontaneidade dos versos, a sua garganta que vocaliza o que está sendo lido ― é um ato que fecha o ciclo e carcome por dentro a arte de esvaziar. É como se o leitor, porque repercute as palavras em seus pulmões, contribuísse para libertar a voz lírica.

Mas voltando à comparação maldosa. Tomemos o caso de um poema do presidente chamado “Fuga”:

Está
Cada vez mais difícil
Fugir de mim!

Eu até entendo o que poderia levar alguém a comparar de maneira maldosa as duas poéticas. São poemas concisos a ponto de raquíticos mas que não recorrem a recursos tipicamente poéticos. Eles são, pelo contrário, bem diretos, o que já foi apontado como uma característica positiva na poesia de Rupi Kaur: ou seja, o fato de que ela não cria aquele tipo de ambiente palaciano atapetado de interjeições próprio, segundo o Ensino Médio, da poesia.

A diferença fundamental, além do fato de que o livro de Rupi se demonstrou como de maior relevância para seu público, agregando valor até de mercado, é que enquanto nos poemas do presidente nós encontramos um eu lírico que teme (!) revelar demais sua intimidade, no que o uso de poemas curtos acaba sendo um modo de amputar os veios emocionais com pitadas de mistério como se a carapaça do eu lírico fosse um esconderijo que validasse a “anônima intimidade” do título, e que diz respeito menos ao poeta do que ao leitor que, anônimo, vindo de todos os cantos, onipresente e sem rosto, deixa o escritor apreensivo diante da intimidade possivelmente estabelecida pelos textos, afinal de contas o leitor anônimo poderia devassar sua vida íntima em níveis que fugiriam do controle da voz enunciadora (o que, como sabemos quando se lida com políticos, pode representar a ruína); se com os poemas do presidente é assim que funciona, com Rupi Kaur nós temos um procedimento mais direto, onde o eu lírico sente a garra dos preconceitos ou dos relacionamentos abusivos ou de qualquer outra coisa que lhe ampute e, à medida que rechaça este passado e presente traumáticos, constrói uma individualidade cada vez mais forte, não a partir da proclamação expansiva e whitmaniana, digamos assim, de um Eu que suplanta tudo e a tudo abarca, mas sim num processo menor de curar as feridas e aceitar partes de si mesma que até então eram menosprezadas, a exemplo do que a aceitação do próprio corpo feminino, longe das idealizações mercadológicas e próximo de algo que é ferido, sente prazer e sangra, consegue demonstrar.

Com isto nós notamos que a intimidade da poesia da autora é distinta do temê-la e até mesmo do concebê-la caseiramente qual se fosse propaganda de margarina. Esta última diria respeito à chamada poesia caseira ou familiar, que esteve muito em voga no início do século passado e que encontrou no país cultores notáveis como Mário Pederneiras ou Guilherme de Almeida. Guilherme, aliás, chegou a traduzir um livro do poeta francês Paul Géraldy, Eu e você, onde as situações íntimas, miúdas e extremamente prosaicas são postas na ribalta. Num deles, chamado “Abat-jour”, o eu lírico chega pertinho da sua amada e pede pra que desliguem a luz do abajur para, vocês sabem…

Vamos ficar sem dizer nada.
Eu quero sentir bem o gosto
das suas mãos sobre o meu rosto!…
Mas quem está aí? Ah! a criada
que traz o café… Não podia
deixar aí mesmo? Não importa!
Pode ir-se embora!… E feche a porta!…
Mas o que é mesmo que eu dizia?

Consegue imaginar algo mais prosaico do que isso? Os dois quase no rala-e-rola e então a criada chega atrapalhando. Tudo em tempo real, revelando a intimidade não apenas de dois namorados que se preparam para a transa mas de uma casa onde o café ferve no bule. Não é assim que funciona? A visita chega e quer forrar o estômago. Pede-se pra criada que faça o café. Os dois vão pra cima, conversar miúdo e ranger as molas do colchão. Mas e o resto do mundo? Paralisou? Claro que não: e por isso prosaico, e por isso íntimo.

Com Rupi Kaur, porém, a intimidade é distinta. É a intimidade de, levantada a coberta, a mancha vermelha saltar aos nossos olhos, é a intimidade de falar de um assunto levantando a camisa e também mostrando as cicatrizes. Não é que ela se limite ao puramente privado, o privado a ponto do leitor se sentir como quem bisbilhota, mas sim que busque chegar àquela área da vida íntima que o preconceito ignora, veda ou rechaça. Sua poesia pelo jeito se passa facilmente como frase de efeito ou como um tipo feminista de auto-ajuda, mas somente o faz à maneira de uma flecha que perfura o concreto até chegar a seu público como uma forma de alento. Se no poema de Géraldy ele nos mostra que na vida real terceiros entram e atrapalham o banho de lirismo, Rupi Kaur se preocupa com o que se infiltra nos lençóis freáticos da sociedade. Naquele que é talvez o poema mais forte do livro, ela diz:

o estupro
vai te rasgar
ao meio

mas
não vai ser
o seu fim

E aqui nós tocamos em pontos importantes. O primeiro é o de que o livro realmente se presta muito bem à causa do empoderamento feminino, o que é visto de forma admirável num poema como o que acabei de citar. Mas ele também mostra que os temas abordados por Rupi Kaur, temas como por exemplo de relacionamentos abusivos, são temas que dificilmente seriam tratados por homens. Não que homens estejam impedidos de falar disso. Ei, caras, qual é, eu jamais defenderia algo do tipo. Somos uma irmandade. Não vou dar o braço a torcer para essas malditas feministas, pelo menos não depois que elas roubaram meu sorvete de casquinha. É só que… Ninguém nunca nos impediu, não é mesmo? A gente sempre pôde. Claro que pôde, ô se pôde. E no entanto… Por que quase não se trata disso? Não existe? Ou tudo o que existe são metáforas que falam da vagina da mulher como espécie de floricultura mística?

É uma maneira interessante de abordar o assunto. O empoderamento dos poemas de Rupi Kaur me parece fazer com que eles deixem de lado alguns dos aspectos mais prezados do que chamamos de Discurso Poético em prol de um papo reto com seu público leitor, o que é facilmente notado pelas constantes referências a um “você” na maior parte dos casos feminino. Isso já é algo perceptível na produção dos chamados instapoets, escritores que alcançaram um número vertiginoso de acessos em suas páginas nas redes sociais. Outros nomes incluem Lang Leav:

ENCERRAMENTO

Feito o tempo em aberto
e ferimento aberto ―
você perto de mim.

Não dissemos adeus,
não tivemos um fim;

E eu vou sempre indagar
por que é que foi assim.

CLOSURE.

Like time suspended,
a wound unmended ―
you and I.

We had no ending,
no said goodbye;

For all my life
I’ll wonder why.

 

E Tyler Knott Gregson (“Eu escrevo temas e fotografo coisas e vou pra lugares e vejo pessoas”, diz seu perfil):

   Ninguém

o mundo
que nem nós,
Ninguém
vai apreciar
o peso
de outra
mão
na nossa
mais
que nós.

No one
sees
the world
how we do,
No one
will appreciate
the weight
of another
hand
inside ours
more
than we.

No Brasil poderíamos pensar em algo do tipo se tomarmos como base páginas como Eu me chamo Antônio ou Pó de Lua, onde não apenas a rede social muda como uma leitura do passado poético imediato do país leva a soluções formais e literárias distintas, de modo que enquanto os poemas de Rupi parecem se nutrir muito da experiência da chamada poesia confessional, no caso das páginas brasileiras encontramos jovens que usam e abusam de efeitos trocadilhescos e paranomásicos que nos remetem de pronto à prática da poesia marginal. Tudo, gosto de às vezes imaginar, amarrado por uma preocupação em romper as clausuras da vida contemporânea, em estilhaçar as paredes de vidro das redes sociais e com isto evidenciar que ainda somos capazes de tocar o coração do outro, como se a verdadeira mensagem fosse algo que não se expressa com textos imensos e padronizados nem com fotos de casais sorridentes. Os poemas de Rupi são especialmente hábeis neste sentido, em mostrar como a roupagem de uma vida normal ou feliz pode servir de pesada túnica que imprime sofrimento para aquela pessoa.

E é pensando a popularidade dos poemas da autora que não apenas o apontamento de que podem ser transportados em outros veículos, alguns até mesmo não adaptados para conteúdos poéticos, haja vista que a comunicação nas redes sociais demanda muitas vezes que ilustrações sirvam de acompanhamento e modifiquem a disposição do original a fim de que a postagem acumule uma cordilheira de curtidas; não apenas tal apontamento como, ainda, o de que a poeta de algum modo reduz a distância implícita ao conceito de eu lírico e fala para o leitor de maneira mais direta, sem, portanto, aquele embate entre fingimento e sinceridade que marcou a poesia de uma Ana C. Em Rupi Kaur um filete de sangue sempre escorre pela gengiva, e a leitora que encontra seus textos ou que principalmente acessa sua página numa rede social sabe que aquele poema sai de uma mulher que se comunica diretamente com ela, uma mulher que olha nos seus olhos e diz ter uma mensagem muito importante ― e prova disso é encerrar o livro com um texto chamado “uma carta de amor de mim para você”, onde agradece ao leitor “por ter cuidado com o que há de mais delicado em mim”.

rupi 3

Isso por óbvio leva a autora a reduzir a densidade semântica ou poética de seus textos a fim de que flerte com um tipo de construção textual que talvez nem seja mesmo poesia e sim algo muito mais próximo da confissão. Isso vai depender da disposição do leitor, e não acho que quem negue o status de poético para muitos textos de Rupi Kaur esteja por conseguinte fornecendo uma leitura ruim deles. Eu diria até que considerá-los o tempo todo como poemas pode atrapalhar: poemas, quando estabelecem uma relação de intimidade com o leitor, estabelecem de forma faceira, gingando de lá pra cá sempre dando a entender que pode não ser bem assim. Seja como for, existem formas artisticamente mais refinadas de pensar a mensagem empoderadora de Rupi Kaur, a exemplo do que podemos enxergar na poesia de uma Angélica Freitas, que passa o cutelo da sátira na pedra de afiar da alta cultura, ou mesmo de uma Adelaide Ivánova, que escreve poemas como quem planta uma bomba-relógio. O que não se pode negar é que a poesia da norteamericana emite uma mensagem que repercutiu de forma positiva no cenário estadunidense, espanhol e agora brasileiro, a exemplo do que as resenhas em vídeo de personalidades como a Jout Jout atestam. E embora eu realmente não tenha gostado do livro, não posso negar que é bom, muito bom que tenha acumulado um valor assim.

Matheus Mavericco

Padrão