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Yasmin Nigri, 1 + 1

yasmin

Yasmin Nigri (1990), nasceu no Rio de Janeiro, é poeta, artista visual e mestre em Filosofia (UFF). Integra o coletivo Disk Musa. Participou da antologia 50 Poemas de Revolta (Cia da Letras, 2017) e é colaboradora da Revista Caliban. Seu livro de estreia, Bigornas, saiu em julho pela Editora 34. Mantém o canal Alokadostutoriais, onde, além de tutoriais divertidos, encontramos os textos aqui apresentados [aqui e aqui]; já apareceu aqui na escamandro com outros poemas.

*

Qual aviso

Alguns textos nós achamos difíceis de falar. Por isso nos tocamos tanto. Antes, em todo abraço, me sentia semelhante à árvore. Nos seus não penso em nada. Fora a infância e seus braços – limiares – é que penso infinitamente. Como hoje pensei no prazer dos inícios e reinícios. Você me disse, no carro onde nos olhamos verdadeiramente pela primeira vez: você não me assusta. Perdi o ônibus. Na rodoviária, uma da manhã, enrodilhado em mim, você esteve feliz, pois constatou que não abro mão do desejo. Apesar de amarga. Apesar de ferida. Reclamei do gosto que tem os seus excessos. Aprendi que para você os excessos são a afirmação da vida. Eu não gosto quando você assopra meus seios. Eu gosto quando você me acende uma ideia. Você não gosta da maestria. Você pensa o prazer enquanto experiência festiva. Eu penso em você quando penso em reinícios. Eu finjo sono para escapar da sua festa. Você diz que o amor é o local onde a felicidade se realiza. Que prazer e dor são indissociáveis. Eu prefiro dormir. Enquanto você acolhe fossas, ressacas, paixões… eu tento não pensar exageradamente na morte. Quando penso em você penso em inícios. Porque entre nós, mesmo que de natureza inexprimível, se abriu um lugar vazio onde sentimentos e palavras podem acontecer. Os encontros casuais são a matéria da vida. O amor é fácil como sentir culpa. É difícil como sentir culpa. Em qualquer parte do globo.

§

paranoica

que palavras foram essas
que trocamos
na nossa caminhada
e não se ligaram a nós
e não as ligamos a nada
alma frouxa cobra alada
cheiro seu silêncio
vou pra cama antes do tempo
é muito penoso estar acompanhada
de mim de coisa alguma assim
nisso vejo mal yasmin yasmin
e acordo à noite
em miséria metafísica
quando deus me tira a poesia
olho a dor, sinto a dor mesma
e fico farta da beleza
e fico péssima poeta
e me contenho de um jeito horrível
vigio o celular
posto stories
vigio os meus vigias
paranoica e no cio
embaixo da tela o nome dele
bajulo meu clitoris
o sono me vence e desmaio
no edredon fofinho
durmo sem medo
faca dentro da fronha
acordo forçada por uma lembrança
penso penso penso enquanto basta
mato as ideias até o café
me arrasto até o almoço
me escavo até a jantar
por falta dele ou do acerto de contas
penso
que resina
penso
que resina se apoderou daquela cabeça
penso
dedos mudos
penso
mente criminosa
concluo
agora mesmo ele se esconde
num meio-sorriso atávico
enquanto me espera

*

 

 

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três poemas de yasmin nigri

nigri

Yasmin Nigri (1990) é carioca, poeta e escritora convidada da Revista Caliban (https://revistacaliban.net/) onde escreve ensaios críticos, crônicas e traduz poesia alemã. É bacharel em filosofia pela UFF onde atualmente cursa o mestrado na linha de estética e filosofia da arte. É co-fundadora e integrante do coletivo feminista de artes e poesia Disk Musa onde atua em diversas frentes tais como elaboração e realização de performances, ações urbanas e oficinas de criação poética. É inédita em livro e possui poemas publicados em diversas revistas e jornais no Brasil e em Portugal.

***

Flora

será verdade que as pessoas
solitárias preferem animais
a outras pessoas

a três baias de Flora pensava
qual seria seu animal favorito

pela brevidade
talvez uma mariposa
pela intolerância

talvez uma doninha
talvez um panda que só tem olhos

para ramos de bambu
do ornitorrinco

admira a solidão
ou prefere a agilidade
da toupeira

a três baias de Flora pensava
convidá-la para jantar

na madrugada será
que vai sozinha à caça

ou fecha os olhos
mente opaca e

fantasia inquieta
se abrir para a noite

como a mariposa
será que afugenta a todos

como a doninha ou
às vezes é vista em par

como o ornitorrinco
a três baias de Flora desesperou-se

porque talvez ela fosse uma toupeira
que vai pouco à superfície

brinca sozinha
nos túneis que cava

quem sabe queira companhia
para atravessar a bruma

branca sob o pôr do sol
será mesmo feliz entre a nervura das folhas e o húmus

§


largar você não vai ser fácil

no início especialmente
não vai ser nada fácil
mas também não vai ser
como das primeiras vezes
essas doeram um bocado
mesmo assim
largar você não vai ser fácil
lembra aquele mochilão
que fizemos pela europa e
descobrimos que quase toda estátua
é uma estátua da sorte
basta fechar os olhos
esfregar as mãos
na parte mais clara
geralmente os joelhos
pés seios ou mãos
e fazer um pedido
largar você vai ser
passar pelas estátuas
sem pedir por nada
sentir fome
de barriga cheia
o que me lembra que
cozinhar só pra mim não tem graça
viajar sozinha sai mais caro
largar você não vai ser fácil
como um intercâmbio em genebra
no início vai tudo bem
depois faz silêncio demais
as horas são demais
tudo vai calmo demais
é frio demais
não tem feijão em genebra
não sei lidar com términos
escrevi depois rasguei um bilhete que dizia
se você me atazanar te largo 1tiro
vê se me erra, satanás.
não sou comum com despedidas
sabe como é
no meu copo sempre fica um dedo de café
lavo a louça e largo o ralo sujo
tomo banho e esqueço o gás ligado
abandono um par de meias na máquina
fins pra mim são terríveis
tem sempre um vestígio
por onde eu passo
um prato sobre a mesa
alguns fios de cabelo no pente
não é uma questão urgente
é que a idade não é mais de esperar
a mágoa, a injúria e o rancor se instalarem
pra que contar com a mágoa imperdoável
largar você não vai ser fácil
mas lembra quando eu voltei de genebra
e perdi meu passaporte
não faz diferença
§

 

À guisa d’O Amante, de Marguerite Duras

“Jamais escrevi, acreditando escrever, jamais amei, acreditando amar, jamais fiz coisa alguma que não fosse esperar diante da porta fechada.” – Marguerite Duras

Lembro exatamente suas palavras e olhar lacrimosos.

-Tentei, mas não estou apaixonado. Sinto muito.

Todo resto um alívio.

Não me deixei revelar.
Esse pouco,

porém,
foi o suficiente.

Dureza
Desfigurada.

Desculpa
amarela.

Pude revê-lo anos mais tarde.
Quase disse.

– Queria que estivéssemos nos conhecendo agora.

Calei.
Aos seus ouvidos soaria fraqueza.

Aquela dor inconfessável.
As costas arqueadas levaram suas mãos até mim.

Outra noite juntos.

Quem sabe ali, unidos,
se eu me pusesse a chorar,

você compreendesse tudo,
num súbito,
e me acompanhasse.

Talvez ali
o amor brotaria.

Chorar aos seus olhos não é fraqueza.
Era imprescindível que a primeira lágrima fosse minha.

Não tive forças.
Lembro das suas palavras.

– Um dia você irá mandar na mesa. Você está se afastando deles por [achar que não pode dar as cartas.

Talvez mandar na mesa seja
apostar alto.

Talvez mandar na mesa seja
saber chorar primeiro.

*

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Yasmin Nigri (1990-)

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Extinção tem sido a palavra de ordem nesses últimos tempos. E a violência, dessa vez, não vem do escuro. Tudo está às claras: um massacre que ainda cai sobre nós, hoje vira sombra. Não mais se esconde por trás da política a sombra da polícia: ela se mostra de frente, por trás, por todos os lados as duas em uma, por cima e por baixo somos violentamente penetrados por uma máquina de extermínio. Hoje, eu me pergunto se o mercúrio não tem estado sempre retrógrado. Não mais me pergunto onde a comunicação falha: ela não falha. Claramente, ela acerta o buraco no qual nos vemos lançados a cada dia. O mundo vai mal.

Ando pensando que o último asteroide – aquele supostamente responsável pela extinção dos dinossauros – caiu há aproximadamente 66 milhões de anos. Segundo fontes duvidáveis (como todas deveriam ser), a maior das extinções foi há 251 milhões de anos e acabou com cerca de 90 a 96% das espécies. A extinção seguinte a essa (e imediatamente anterior a dos dinossauros) foi num intervalo de aproximadamente 50 milhões de anos. Então, se a última foi há 66, já passamos desse intervalo. Tudo indica que estamos com tempo, não? A velocidade da rotação da terra anda ficando mais lenta também, cada dia mais. E isso não é bom. É uma espécie de extinção. Apesar de o processo ser lento e ainda termos algum tempo, é inevitável. Os dias são de guerra. Há urgência. Os poetas andam enxergando sombras brancas rasgando o breu. Em uma única visada: na sombra de um meteoro cruzando o espaço, a barbárie dos tempos. Atemporal, a colonização penetra, rasga, invade. A queda se anuncia nos olhos que fitam o escuro. Yasmin Nigri, acostumada com a escuridão da noite (“Sempre fui noturna”), nos mostra que fitar o escuro é enxergar rastros de extinção.

Poucas coisas apontam para uma sobrevida. Seremos lembrados após a morte? Um jornal online disse que a exploração está no nosso DNA. Precisamos de mais tempo? Não precisamos de mais tempo para saber que sobrevivemos, ainda, com a poesia: é nela que convivemos intimamente com corpos estranhos. Dar corda no relógio e acelerar o tempo não faz afastar da noite as sombras, os corpos estranhos, os intrusos que, resistentes, nos habitam. “Ando nua”, andamos nus, como a poeta, como os poetas, com os poetas. “Enquanto eles se vestem com elegância e aprumo/ Vou perdendo roupas abotoaduras sapatos”, como quem despe os trajes até expor a nudez, a nudez da escuridão do corpo: a poeta anda nua porque anda tão somente com corpos estranhos. Parir um poema é parir às custas de si. Não há mais o “em si mesmo”: o poema é o “assombro incurável” das noites que “chegam com o barco que de mim partiu/ – Ivelejado -”. Não, a exploração não está no nosso DNA. Se ser assombrado é uma sensação de morte, só o é porque é uma sensação de vida: o poema acontece no assombro porque é no assombro que nos vemos fora de nós mesmos, suspensos no tempo e no espaço, lançados numa aporia incurável, sem saída, em que não distinguimos mais “eles” de “nós”. Somos o engano, “sou um blefe”. Podemos morrer abraçados à lágrima de não existirmos mais (“Poderia morrer abraçada a essa lágrima”), mas, na mesma visada, as águas que escorrem trazem em si o naufrágio, o “Terror de naufragar”. Entre a possibilidade de morrer dobrado sobre a lágrima, abraçando-a, e a espera de a lágrima congelar para ser possível ir por cima dela, por sobre ela (“Poderia morrer abraçada a essa lágrima/ (Ou esperaria que congelasse para patinar sobre?)”); entre a possibilidade e a espera, o que há é, a um só tempo, o “Terror de naufragar”, ou seja, “Todas as horas da vida”. Em outras palavras, a decisão que se impõe em “Todas as horas da vida”.

“Para ser lembrada após a morte” não diz nada a respeito do que poderia se colocar nos termos ante e post mortem. Tampouco diz respeito a uma ontologia. Neste poema, que poderia, no máximo e devidamente, ser antológico, o ser que há, incuravelmente assombrado, sobrevive e, mais que isso, vive de braços dados com as sombras intrusas, com o impossível que cria, com o barco invelejável que parte de si. O “ser é” um blefe. O ser que existe aí, para ser lembrado após a morte, é um “ser com”. Porque ele, ou ela, ela que anda nua, decidiu gostar da possibilidade de se dedicar, todas as horas da vida, à poesia (“Todas as horas da vida/ Gostaria de poder dedicar-me/ À poesia”). E gostar dessa possibilidade é gostar de se dedicar tão somente ao outro. “Para ser lembrada após a morte” é um poema da dedicação ao outro. Na noite, enquanto todos querem dormir, ela desperta. E faz da noite um despertar.

Todos os dias meteoros caem. E todos os dias temos ainda algum tempo. A Yasmin tem um corpo que não cansa. E que não cabe no “espaço-tempo criado pelo homem”. Ela tem uma grande nave no útero, inalcançável, que não se assemelha em nada a um objeto não identificado. Aviso aos navegantes: este corpo bélico está aqui para explodir a vida útil dos objetos – explodir a visão que se tem do corpo como objeto, a vida objetificável, os territórios colonizados. Este corpo bélico se identifica com todos os úteros não identificáveis da história de todas as eras. Ela é uma antimusa. Uma antimusa nunca chega, nunca vai entrar pela sua narina, pela sua goela (ela não chega, mas ela pode, de repente, cair sobre você). A Yasmin tem no corpo, no corpus, no corpo, o materialismo de uma foice que avança sobre as mãos de todos os homens que se empenham em destruir, em possuir, em governar. Hoje, nesses últimos tempos, como amar diante do terror do naufrágio? O que seria gostar? Caberia o amor no instante imediato do terror dos tempos? Arrisco: a poeta indica que gostar é se dedicar ao que não queremos presos nas mãos: “Gosto de você como gosto das coisas que o homem ainda não alcançou.”

O coração, um “objeto ínfimo”, “Vermelho-júbilo”: eis o terror: quando amor e terror se entrelaçam. “Não sinto medo quando meus olhos estão por trás de uma lente”. Não, afinal, o medo é enxergar a vida em sua nudez, sem filtro. Estamos falando do que há de mais frágil e vulnerável e precário. Sabemos que ir ao amor – como ir aos escombros do terror – é ir sabendo da queda irreparável, muitas vezes incurável, em um terreno esburacado. Como quando fitamos a vida sem lente: em tudo há a possibilidade de ser um sítio de guerra. Nesses lugares onde se está de mãos dadas com o fracasso, não há ombro que salve (“não há ombro na medida do meu fracasso”): a linguagem falha (“Digo tudo num verbo convulso”) quando estamos lado a lado com a ruína. De “objeto ínfimo”, o peito assume a forma de toda a extensão de um “sítio frágil”. Quando amar é correr o risco de naufragar, o “Terror de te amar” encontra o “Terror de naufragar” na iminência da mesma queda: não há saída, tombamos inevitavelmente. Como quem cai apaixonado, tombar brusca ou brandamente é apenas uma questão de tempo para se ver caindo no real: o terror de amar é o medo de tombar.

Não há saída, não há salvação. Enquanto a Terra não para, enquanto o asteroide não cai, enquanto a extinção acontece em todas as horas da vida, alguém explode o tempo como um meio de vida e como um modo de amar. E isso, sim, é uma máquina de guerra. “Eros sobrepuja Tanatos”. Há vida.

 

danielle magalhães

 

Yasmin Nigri (1990) é carioca, poeta, artista visual e bacharel em filosofia pela UFF, onde atualmente cursa o mestrado na linha de estética e filosofia da arte. Trabalha com mediação educativa em exposições de arte, elabora e ministra oficinas de criação poética, é crítica de arte, integrante e co-fundadora do coletivo feminista Disk Musa, onde trabalha na produção de conteúdos áudio visuais e performance.

 

sergio maciel

* * *

METEOROS

Inspirado na obra ‘Meteorito’ de Letícia Ramos exposta no MAM

Encosto os olhos na luneta
Vejo uma escala cromática de brancos rasgar o breu
Seria a sombra furta-cor de um meteoro cruzando o espaço
Ou a Europa penetrando o continente africano?

sem-titulo

 

§

GOSTO DE VOCÊ

Gosto de você como gosto da teoria das cordas, dos buracos de minhoca e dos buracos brancos: que são o outro lado dos buracos negros e permitem que o universo permaneça em constante expansão. Na prática não existe nenhuma comprovação dos buracos brancos. Mas você sabia que um par de partículas subatômicas, como um elétron e um antielétron, agem como se estivessem entrelaçados telepaticamente e bastaria um computador maior que o universo e átomos do nosso corpo entrelaçados a átomos livres para que pudéssemos nos teletransportar para qualquer lugar do multiverso? Sonho. Essa é a única maneira. Gosto de você como gosto das coisas que não compreendo e que, no entanto, são exatamente aquilo que não nos conforma ao espaço-tempo criado pelo homem. Esse mesmo homem que desde antes deu nascer me conforma em contornos muito bem traçados e previstos. Sinto-me uma grande nave que os homens se empenham em destruir. Gosto de você como gosto das coisas que o homem ainda não alcançou.

 

§

PARA SER LEMBRADA APÓS A MORTE

Poderia morrer abraçada a essa lágrima
(Ou esperaria que congelasse para patinar sobre?)

Avanço vitrais e abóbadas em comoção
Vejo inumeráveis marcas impressas do que li e ouvi

Borges claramente ensinou
Que se escreve com os pedaços de toda tradição

Assombro incurável
Todo poema se cumpre às minhas custas

Em que diabos pensava quando os pari?
Sou um blefe e nunca mais vou escrever

Enquanto eles se vestem com elegância e aprumo
Vou perdendo roupas abotoaduras sapatos

Por baixo dos trajes eles não existem
Ando nua

Caminho até o relógio e dou corda
Para afastar a sombra intrusa do meu quarto

Sempre fui noturna
Crio situações impossíveis enquanto todos querem dormir

As noites chegam com o barco que de mim partiu
– Ivelejado –

Terror de naufragar

Sorrio no espelho à revelia de tudo

Todas as horas da vida
Gostaria de poder dedicar-me

À poesia

 

§

TERROR DE TE AMAR

Pegue nas mãos e pese este objeto ínfimo
Vermelho-júbilo
Enquanto trabalho
Não sinto medo quando meus olhos estão por trás de uma lente
Apesar de nunca ter atingido o resultado pretendido
É na busca pela terra sólida e dura que
Digo tudo num verbo convulso até tombar brandamente
Só o peito permanece
Sítio frágil

§

 

NÃO HÁ OMBRO

Rio-me

Quando me pego pensando

Em pedir desculpas por trazê-los à minha realidade

Desmedida para a poesia e

Nada diante das pedras

Cuja queda descobriu minha farsa

Já não há ombro na medida do meu fracasso

Pensar que piso onde antes Cleópatra esteve

E depois Dante aquele que

Teria jogado no inferno

Minhas antimusas

Ana C.

Silvia Plath

Anne Sexton

E tantas outras que o habitaram em vida

Escreviam para resgatar o que é morto

E nisso descobriam os vivos

Onde Eros sobrepuja Tanatos

 

(poemas de Yasmin Nigri, introdução de Danielle Magalhães)

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Yasmin Nigri

yasmin-nigri

Yasmin Nigri (1990), carioca, é graduada em Filosofia pela Universidade Federal Fluminense, onde cursa atualmente o mestrado na linha de Estética e Filosofia da arte. É membro da Oficina Experimental de Poesia, que acontece toda quarta-feira, no Méier. Feminista, cofundadora e integrante do coletivo DISQUE MUSA, participa também de um cartel lacaniano vinculado à Escola Brasileira de Psicanálise. Teve poemas publicados já na revista Mallarmargens.

 

Antídoto para impossibilidades e paralisias

Estamos pisando sobre os restos
Única maneira de não esquecer

Irina bebe às vezes respira
Hoje é o último capítulo da novela

Rastreador ligado
Por livre e espontânea assinatura

Vai pro futuro, Olga,
Um carro de dois lugares

Quantos morreram na Liberdade
Em nome da Ordem

Macha não sabe aonde quer chegar
Andrei se entregou a um ponto fixo

Rompe uma luz perdida
Eles não sabem por onde pisam

Fios de sangue varridos
Massacres Esquecidos

Uma prisão chamada entretenimento
Uma prisão de classes

Subindo pela língua
Os rostos refletidos no asfalto

As lanternas da Liberdade estão
Queimadas afogadas sem vestígio

Como é o olhar dos motoristas
De caminhão pipa

Que não têm água em casa
Que não têm água em casa

 

Planos de fuga e outros assuntos

Hace mucho tiempo,
le dijimos adiós
a los nombres de las nueve musas
y vimos a la ecuación cuadrática empacar
su maleta.

Você me lembrou que os tatuís sumiram da praia de Copacabana
enquanto eu cavava a areia com os dedos

me bota pra pensar
me bota de quatro
me bota as calças e adeus
que é chegada a hora do lobo

Vamos viver de agricultura orgânica em Lumiar!
Também quero que o moço do telemarketing vá

um rapaz de 21 anos me saudou com
“alô você”
eu ri

ainda assim quero ir embora daqui
ainda assim quero ir embora daqui

em plena terça feira ele veio
me comeu e ainda pagou pelas pizzas
e refri que eu não tomei

como os pedaços de pizza
que sobraram
no café da manhã
enquanto leio Pedro Lage

sem café
café tem me tirado o sono
sabe como é
uma voz interna escarnece violenta
                  – tudo tem te tirado o sono
menos café

e essa irritação na língua
              , que insistem chamar de afta,
que não passa

 

                                              ________ resiste a qualquer operação racional

Jogaram fermento biológico em mim e cresci, depois solei

Por trás do olho o númeno

Em nome de quê você ficou assim?

todo ato é falho
todo gesto está fadado ao fracasso
toda imagem anula e conserva uma potência
toda estrutura é fragmentária_________

Sonhei que a veia
verde que pul-
                          sava
nas suas mãos

             sal
                   tava
sobre mim

de súbito ganhei asilo

 

 

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