poesia

Liv Lagerblad

Liv-Lagerblad

liv lagerblad é artista plástica e poeta, desenha menos do que escreve, e escreve compulsivamente desde muito nova. Cursa a graduação em artes visuais pela UFRJ. É de 11 de setembro de 89. Frequenta o coletivo Oficina Experimental de Poesia há alguns meses e também o coletivo feminista de poetas Disk Musa, do qual é cofundadora. Tem um livro publicado e o segundo no prelo. A estreia foi pela Editora Cozinha Experimental, são dez poemas em um livro com o nome da autora, pela coleção Kraft, já disponível para download no site da editora (clique aqui). O próximo sairá por uma editora recém-formada, chamada Lug.

 

mucosa

falar de conchas que alinhavam-se à lua :
um deus mexicano da tempestade alardeava seu cordão de conchas
junto a jugular como um signo daquilo instável das águas e da lua
a concha como o signo do feminino, do sexo : o caracol : as ostras : a pérola
depois a pérola como embrião e como a delicadeza :
que o capital como deus tragou em joia rara porque
difícil e bela
mas antes : na china a pluma de pavão e a concha
e a lua como signo do yin :
ele o princípio feminino
e antes ainda espalhadas
as virtudes mágicas de moluscos e ostras
as conchas participam da sacralização da lua
ao mesmo tempo que prolongam as forças aquáticas
e a ostra gera-se sem o macho : gera-se do incômodo
de um grão de areia na boca mucosa da ostra
a pérola : conserva toda a força yin da ostra
que se embebe desse feminino ardido pra gerar
da energia cósmica feminina, lunar e úmida
yin úmido como as mucosas
as águas que a lua coordena
e então diziam na china que o excesso de yin ativo
num canto qualquer que se faça
exaspera o instinto sexual feminino
erguem-se já as dervixes derretidas e languidas
induz que <<as mulheres lascivas pervertam os homens>>

 

depois de dias líquidos

depois de dias líquidos
em que somos essa
soma disforme de dois
de trespassar abrindo sulcos
meu dentro todo sendo
teu nome todo tendo
teu toque bruto
no sal que é teu
tão meu que chega
a azedar os lençóis
acintosos

quando a coisa se rompe

é um rasgo isso
brincamos por longas
horas claras e pouco mais
nas sombras que fincam
no assoalho e nas quinas
sua maciez etérea e fomos
estendendo a data da cisão
e foi necessário um bisturi
preciso e de aço cirúrgico
brilhando só lâmina
e benzido naquilo linfa
que em bebeu os panos
quando fomos nós
delicadamente desligados

tão siameses, estávamos

e me lembrei de Gesualdo,o músico
que matou a esposa e ao seu amante
e dos dois corpos, ali
como troféus, os vasos sanguíneos
lindos, assustadoramente conservados

fazem quantos, três séculos?

Vi uma série de animais mortos
na rua, hoje e em maioria
vespas e abelhas
também
um morcego as três da tarde
trombando num poste
indo ao chão, tonto

trouxe o morcego

nas mãos em concha
e o pousei na cama
e esperei pacientemente
até que estancasse
a respiração
observei o peito
que era essa frequência
oscilatória, na qual
tudo parece dançar
e então seu gradativo
apaziguar
até um fim
o peito reticente do animal
parou de inflar-se
e usei as unhas para abrir
o peito como fosse fruta
a entranha e os tubos digestivos
tão bonitos na minúcia de serem

minúsculos e meigos

o coraçãozinho
por algum reflexo
bateu uma vez mais
depois de muito tempo
já estando o peito aberto
e aquela uma pulsão
sem vida porém
pulsão de fato
aquilo foi o amor
e quis te dizer

olha

é isso
esse um espasmo
o que andei buscando
nos teus pêlos negros
ébria dos teus cheiro

 

3

miolo meu : que será de ti assim engruvinhadíssimo
de pasto de carne podre definhando de sentir sem :
que será de ti miolo meu se eles ainda falam quando busco as letras :
agora agrava : pior que fernet que já é bosta :
mentecapto o cérebro coiceia entre desejar e desistir
entre resistir porque é preciso
entre navegar e viver precisamente o siso
quando este me está por nascer :

amarelidesverdeando
apaticanalisam
desengruvinculada
fractalréstiosa
diabreurícular
desentreformicidada
desolventerebentina

 

quê?

corpo é o estio bravio do mar antes do tsunami
aquele varredouro pra depois estilhaços
voz dentro do ouvido
cotonetes no ouvido : estio

barulho constante das máquinas

 

do encontro em tempos de guerra

encontrar o amor ainda que com outros signos
ainda é encontrar o amor e o amoricídio
grafar na carne o profano e a própria hierofania
do objeto profanado / você queira ou não : é assim.
Digere-se a carga energética da morte : grude
por sobre a pele perolada a mácula da dor
o ritual do coito : a cópula prolifica
mas sem o sono um signo se rompe
minha entrega de estar no leito : completude
mas vejo lhe as lágrimas e as minhas vê
podemos nos acalantar e todo redemoinho
se dissolve uma vez mais no calor dos braços

um, zênite fermentado

dois, o claustro meu parece urgir de luz

três, o silêncio sou eu

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