Concret_s como frutos nítid_s como pássaros (VIII): 12 poemas de Susana Araújo

Susana Araújo. Cossoul. 2019.



“Concretos como frutos nítidos como pássaros” é uma série dedicada à divulgação da poesia portuguesa contemporânea no Brasil.

Leia os posts anteriores da série.

Parte I: “Explicação, Miguel-Manso” [fevereiro 2021].
Parte II: “Regina Guimarães, Margarida Vale de Gato, Maria Brás Ferreira” [março 2021].
Parte III: “Poesia Expandida. Fernando Aguiar, Teresa M. G. Jardim, Ricardo Tiago Moura, Alexandre Francisco Diaphra e Marta Bernardes” [maio 2021].
Parte IV: Volta para Tua Terra (Urutau 2021)” [junho 2021].
Parte V: “Patrícia Lino conversa com Tiago Alves Costa” [agosto 2021].
Parte VI: “Casa de Gigante” [setembro 2021].
Parte VII: “7 poemas inéditos de Pedro Eiras” [outubro 2021].




Susana Araújo (Lisboa, 1975) é poeta, ensaísta, ficcionista e professora na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Entre outros títulos, é a autora do ensaio Transatlantic Fictions of 9/11 and the War on Terror Images of Insecurity, Narratives of Captivity (2015) e de dois livros de poemas, Dívida Soberana (2012) e Discurso aos Pacientes Cirúrgicos (2020). Se Dívida Soberana concentra o embrião do interesse anatómico de Susana pelo corpo, o volume seguinte, Discurso aos Pacientes Cirúrgicos, faz desse mesmo corpo descoberto o centro das suas atenções. O poema ou o bisturi com que Susana disseca as peripécias da crise financeira portuguesa, a vida portuguesa e o próprio conceito de nacionalidade aprofunda-se, oito anos depois, para narrar os detalhes e as dificuldades da doença e do processo cirúrgico que significam, expostos com empatia e crueza, muito mais do que o que sugerem à superfície da palavra.



5 POEMAS DE DÍVIDA SOBERANA (2012)

Susana Araújo. Dívida Soberana. Mariposa Azual. 2012.


MÁTRIA

Puxada pela cabeça, no reverso do
que tínhamos ensaiado, costuras
raspadas e cerzidas, na tentativa de
expelir um país em chamas onde o
Tecnocrata ternamente rege, ruge e cospe.

Pela clareira púrpura, os mesmos escrevem as
mesmas palavras nos mesmos jornais. Pátria,
puta hipócrita, porque falas de mim pelas costas?
Comprei o bilhete de regresso por engano.



CUMPRIMENTOS

Porque não agarras tu, asinha, aquela bóia
que passa de mão em mão, saber seguro de
chavões em bronze (encadernação dourada,
permanente em logro) e halo de laca?

Afundas-te só, forasteira nessa aversão pelo
axioma pátrio trancado a truísmos, nada
igual a si mesmo, cópia (sem original) do
já feito lá fora (nem consciência de tal).

Estica o membro superior direito, bem puxado
braçadeira que aperta indolor. Exerce cumprimentos
formatados que cegam na insubstância do
pouco pensar. Ser portuguesa:
tão tarde, tão pouco e tão certo.
Para quê nadar?



RAIVA

Ladraste-me ao ouvido (rugidos em forma
de cálculo) e dizes agora que a rima é cáustica.
Morderam fundo: eu seco bem a pele,
(para ressequir zoonoses, nevoeiro em nódoa)
o barco em que dormimos
vela sobre o fel

Por onde andámos, membros fechados
de corporação em corporação, sonhando
com o mel de uma amputação, partilhámos
Raiva: porta perfeita para
o nervo periférico.

E, assim, prenunciados,
rendidos a um estado
sem graça nem jurisdição
vadiamos pelo branco adentro,
bocas espumando
tinta em papel




SOBRE A RECORRÊNCIA DO BRAÇO

O braço não é hífen, nem metonímia
é uma extremidade do corpo, um membro
extremista com direcção. Não é joelho nem perna
não corre, nem pisa mas recorre aqui nestes poemas
O meu braço esquerdo é terrorista: ao invés de se dirigir para fora,
retrai, recua e retrocede para dentro de si próprio. Leva consigo a mão
e os dedos do lado esquerdo, que penetrando a clavícula sob a axila
entram pela pele do meu peito adentro.

Esse braço cruza-se então com o outro (braço
que também recuou e penetrou a carne de
aquele lado). Cá fora já não agarro nada,
sem agência nem determinação, sou o resultado
esperado de uma auto-amputação.

Mas lá dentro estão os dois membros
unidos pelas mãos e pelos quirodálitos
prontos a agarrar o meu pulmão, poderosos
que são, como se de uma bomba
ou de uma borboleta se tratasse.



PROGRAMA DE ESTABILIDADE E CRESCIMENTO

Tu vacilas, não queres ouvir e eu
não vou ter contigo a meio caminho
deposta, abandonada e irrisória
a ponte de ferro quebra-se
assim que o FMI avança

Um casal ainda criança
já refinancia
os seus juros

Não há compensação
para quem sonha severamente
enquanto espera pelo autocarro
durante o horário de Inverno

Vê agora, lá fora: uma
família que forja falsetes
tenta agarrar-se à rede,
frívolos esforços em que
os nossos filhos falham

O estímulo ao investimento
de iniciativa privada promove
a utilização proveitosa dos nossos
recursos: como esta faca de cozinha
que avança para nós com serrilha, sorrindo
combinação certeira entre a ergonomia
o melhor design e a qualidade

Todas as domésticas suturas serão
submetidas a uma rigorosa
análise de sensibilidade

Dorme bem, meu amor e
deixa a manhã reestruturar
a nossa dívida.



7 POEMAS DE DISCURSO AOS PACIENTES CIRÚRGICOS (2020) + 3 POEMAS LIDOS PELA AUTORA

Susana Araújo. Discurso aos Pacientes Cirúrgicos. Não Edições. 2020.


PRESAS

Se a poeta fosse uma fingidora, tu já
terias partido e eu não estaria para aqui
a percorrer canais de escândalo e crime
para evitar o cano apertado deste buraco

destravaria já aqui o gatilho
e o rolar dos dias
no cilindro

mas cansa disparar
sempre
sempre ao lado

e logo com o revólver
de Emily Dickinson.



PREÂMBULO CLÍNICO: NÉCTARES OPERATÓRIOS

Examinei os estragos e fiz o desenho do sinistro. Deitada no
bloco pré-operatório, olho para o meu corpo – o local do embate.
Talvez o acidente tenha sido necessário, uma forma de resgate
ou de desentorpecimento. O médico pergunta-me se quero ter
mais detalhes sobre o procedimento. Quero saber apenas sobre a
anestesia: tenho medo de acordar durante a operação quando me
fizerem o primeiro corte. Dizem que é um medo recorrente neste
tipo de cirurgias. Na minha pele foi marcado, com uma caneta, o
sítio onde será feita a incisão. Lembro-me de teres percorrido esse
lugar como um pássaro sobre a pétala de uma flor.
Sob o efeito da anestesia peridural vejo a cidade como uma
gaivota semi-amputada. Uma cidade sem asas, de onde pessoas,
casas, famílias inteiras, partem. Sinto a minha perna dormente, mas
tento sacudi-la para a acordar. Sacudo o resto do corpo, sacudo o
peito e as ancas. Tento estender o corpo até ao outro lado do rio, para
onde foram transplantados bairros e bairros. Os músculos dos meus
braços já adormeceram, os meus olhos pesam. Sei que o transplante
será bem-sucedido porque parte do meu corpo já alcançou o outro
lado. Espera aí pelas gaivotas e que elas não venham sozinhas. Mas
acompanhadas por cambacicas e beija-flores.



INTIMAÇÕES

Gosto muito de ti, Wordsworth
mas lamento muito
(e face às tuas intimações
continuarei a lamentar)

porque esteja onde eu estiver
seja de que forma for –
pela porta da ambulância
pela faixa de emergência
ou no embate do eléctrico
contra o autocarro

regressa a mim
sempre que lhe apetece
a maldita hora
of splendour in the grass
of glory in the flower.



LIGAÇÕES E LIGADURAS

Nem o cheiro a gaze
nem o suor dos corpos brancos
me confundirão o faro

Serei como o pequeno cão
acidentalmente à solta
no cenário decorado a preceito
de um filme apocalíptico

cauda em riste

(tão certo de te ter
reencontrado
entre os zombies).



CURA E CASTIGO

Agora que sabes que sou tudo isto
e ainda o monstro sem rosto
que reaparece entre o lixo
nos filmes do David Lynch

agora que me viste curvar em
contramão como o lápis alcoolizado
que se julgava o melhor condutor
do mundo mas fica de bico partido
já que me tornei na voyeuse vulgar
à espera do outro lado do vidro

agora que já sabes tudo de que sou capaz

diz-me por favor
– o que vais
(ou não vais)
fazer comigo?



CICATRIZAÇÃO

É estranho, mas quando paro
junto a uma montra, no elevador
ou quando me revejo no retrovisor do carro
reparo que ainda persiste
no rosto – algo
ligeiramente magoado

toco aqui e ali
mas não te acho
não sei bem o que aconteceu
o que fiz ou o que me fizeste nas trincheiras
junto aos olhos
mas não ficou marcado

por outro lado
reconheço ali
um soldado

é qualquer coisa
a nascer
no canto do lábio

ainda não o contei a ninguém
nem a mim mesma

mas desconfio
(e por isso sorrio)
que tenho um plano.



HELIOTERAPIAS

Junto de um contentor de resíduos hospitalares está deitada uma
mulher de meia-idade. Tem um gorro de lã que lhe tapa as orelhas
e parte dos olhos. Veste dois casacos, um em cima do outro e meias
grossas que passam por cima das calças. É uma tarde de Abril, mas
as noites ainda são frias.
Outra mulher aproxima-se. Vem da entrada junto dos
Serviços de Urgência. Tem cabelos longos e desgrenhados. Veste um
sobretudo de homem com a bainha solta que lhe cai pelos joelhos.
Traz na mão esquerda dois sacos cheios de restos de comida. Na mão
direita segura uma moldura de madeira vazia. Põe os sacos no chão
e segura a moldura com as duas mãos, admirando-a: “Só cinco euros
para pores aqui a cara!” diz à mulher de gorro de lã, sorrindo. Senta-
-se ao lado da outra, levantando a moldura à altura dos ombros, para
que ambas a possam apreciar. A amiga, olha-a torcendo o lábio: “Só
cinco euros?”
A mulher de cabelos longos vira-se de frente para a amiga.
Limpa o caixilho de madeira com a manga da camisola e arranca
duas farripas de madeira já soltas. A outra observa-a em silêncio,
olha a moldura que brilha ao sol. A de cabelos longos põe a cabeça
pelo caixilho adentro e, assim enquadrada, beija a companheira nos
lábios. O sol insiste em ficar e eu atravesso a rua.


+


Leituras de 3 poemas de Discurso aos Pacientes Cirúrgicos pela autora. 2020.

Jorge Canese, por Adalberto Müller

Canese na Faculdad de Medicina

Jorge Canese (1947-) é um dos mais importantes poetas paraguaios da geração que nasceu em meio à ditatura de Higinio Morígino (1940-1948)  e que teve que enfrentar uma das mais longas e cruéis ditaduras militares do século XX: a de Alfredo Stroessner (1954-1989). O nome desse sanguinário carrasco deve ser lembrado aqui por duas razões: primeiro, porque Canese foi aprisionado e torturado no final dos anos 1970 nos porões da ditadura; segundo, porque os poemas que se leem aqui fazem parte de Paloma blanca, paloma negra, livro proibido pela mesma ditadura logo após o seu lançamento, em 1982. O título aludia à canção  “Paloma Blanca” (George Baker) hit parade dos anos 70 que se referia ao Paraguai, e que foi regravada por gente como Julio Iglesias e Demis Roussos. Para a geração de intelectuais e artistas exilados,  perseguidos e torturados no Paraguai de Stroessner (cujo lema era “Tierra de Paz y de Sol”), essa música efusiva e dançante, que fala de uma “noche guarani”, era dolorosa. Assim, a adição, por contraste, da “paloma negra”, dá o tom do livro e da poesia de Canese: uma realidade opressora requeria uma mímesis feita a partir de um espelho negro, numa œuvre au noir. Canese foi aluno e amigo do gravurista Lívio Abramo (que viveu no Paraguai nesses anos terríveis), e retratou o sofrimento, a humilhação e, sobretudo o medo de viver em um regime brutal. Aliás, em tempos de ressurgimento do fascismo em escala mundial  a poesia de Canese é tão necessária quanto respirar.

Os poemas a seguir fazem parte Paloma branca, paloma negra, que se propõe a ser a primeira tradução integral de uma obra de Canese no Brasil. Ela é prefaciada pelo poeta e jornalista paraguaio Cristino Bogado, que relata a história de um livro proibido e de um autor perseguido, cuja obra proliferou em um caminho cada vez mais radical a partir dos anos 1990. Inclusive, o Jorge Canese passou a ser Jorge Kanese, e escreve hoje numa língua própria, que mistura o espanhol, o guarani e o português. Curiosamente, seus poemas em kanesês foram traduzidos para o alemão por Leonce W. Lupette, que criou uma interessante mistura de turco e alemão (veja o link abaixo do Lyrikline) para transcriar Kanese na língua de Kafka. Mas há que se reconhecer que esse Kanese já estava no Canese de 1982. Comparando os poemas do livro de 1982 a letras de punk rock, e salientando a distância de Canese em relação ao ufanismo romântico paraguaio, Bogado assim define:

Se alguém pensasse em filmar este livro emblemático da Weltanschauung dominante durante o stroessnerismo (medo, resignação, desesperança, felicidade com pequenas coisas como a primavera ou o cheiro das rosas), eu optaria por um filme fortemente expressionista em preto e branco, um noir com toques suaves de tropicalismo e com o pessimismo guarani de mba’e megua (fim dos tempos).  

Assim, que o leitor dessa seleção tenha também em mente os contrastes dolorosos e ao mesmo tempo sublimes da gravura de Lívio Abramo.

Adalberto Müller

Textos de Canese: https://www.lyrikline.org/pt/autores/jorge-kanese

* * *

“Figuras com medo”, de Livio Abramo

EU

Eu sou o que sou. O que é. O que sempre foi.
O que ainda às vezes não é, e continua a ser.

Sou aquele em quem cachorros cuspiram.
O que mendigou o carinho nas poças.
O que não soube o que fazer quando tinha a verdade nas mãos.
O que acabou fodido desde o princípio.
O que aumentou a tormenta; à toa e sem fundamento.

Eu sou o que procurou ser algo mais que eu mesmo.
Sou o idiota que se desespera quando lhe negam
um sorriso ou um gole de vinho.
Sou o que nunca soube amar como se deve.
Sou o infeliz que mexe e remexe o miolo das coisas.
Sou o que às vezes se sente só quando está com amigos.
Sou o que quer ser santo quando beija alguém
e o que se sente mártir quando o Espírito
Santo diz que só lhe concederá uma audiência
em 20 anos,
ou quando dizem simplesmente que não, porque
já é tarde.

YO SOY EL QUE SOY. El que es. El que aunque a veces no es, sigue siendo. Yo soy al que escupieron los perros. El que mendigó el cariño en los charcos. El que no supo qué hacer cuando tenía la verdad en la mano. El que se achicó cuando le apuntaron los chacales. El que se agrandó a la intemperie: al pedo y sin fundamento. Yo soy el que pasa. El que se expone al viento y a los tiroteos. Soy el infeliz que hurga y remueve en el meollo de las cosas. Soy el que quiere ser un santo cuando da un beso y el que se siente un mártir cuando el Espíritu Santo dice que concederá audiencia recién dentro de veinte años; o cuando le dicen sencillamente que no, porque ya es tarde.

§

DEMÔNIOS

Os demônios faziam turnos, obedientes.
Subiam e desciam
aparentemente sem lógica.

Demônios precisos e bonitos,
desses que sabem engordar
a esperança dos pobres.

Demônios brancos,
demônios corados
como o fogo eterno
que nos tenta e nos queima.

Demônios espectrais,
Demônios carcereiros,
escuros de muito amanhecer.
Utopistas enfim
e cheios de boas intenções.

LOS DEMONIOS se turnaban obedientes. Subían y bajaban aparentemente sin lógica. Demonios precisos y hermosos, de esos que saben engordar la esperanza de los pobres. Demonios blancos y demonios rojizos como el fuego eterno que nos tienta y quema. Demonios espectrales y demonios carcelarios oscuros de amaneceres. Utopistas al fin y llenos de buenas intenciones.

§

UMA FORMA DE DIZER

Ontem sonhei com as moléculas,
com edifícios, com o vento norte
e com os raros poros da tua pele.

Ontem sonhei contigo.
Eram os átomos do infinito
querendo te dizer pequenas coisas:
como que beijos são isso e nada mais
e às vezes não sabemos o quê,
que os sorrisos, os olhos,
as mordidinhas
são uma forma de a gente se gostar,
uma forma de dizer
que já não sabemos o que será o amanhã.

UNA FORMA DE DECIR Ayer soñé otra vez con las moléculas, los cementerios, el viento norte y los exquisitos poros de tu piel. Eran los átomos del infinito queriéndome decir pequeñas cosas. Como que los besos son eso nada más. Y a veces no sabemos qué. Que las sonrisas, los ojos o las mordiscos son una forma de querernos. Una manera de decir que no sabemos lo que va a pasar mañana.

§

FOMOS MURCHANDO

Perdemos a saúde
e nos brotaram brotoejas
grandes como melancias a ponto de estalar.

A maleita e seus acólitos
nos minaram o sangue,
nos carcomeram os ossos,
nos infectaram irremediavelmente o cérebro,
o coração das tripas,
as mãozinhas ternas-suaves.

Perdemos a terra, a água,
perdemos o ar, o vento, a alegria.

O nosso fogo foi apagando
pouco a pouco, murchando:
e faz tanto tempo que não chove!

PERDIMOS LA SALUD y nos brotaron granos grandes como sandías a punto de estallar. La peste y sus acólitos nos minaron la sangre. Nos carcomieron los huesos. Nos infectaron irremediablemente el cerebro, el corazón de buena entraña. Perdimos la tierra. El agua. Perdimos el aire, el viento, la alegría. El fuego se nos fue apagando poco a poco, marchitándose ¡y hace tanto tiempo que no llueve!

§

O QUE FICA PRA NÓS

Todos os dias
se inauguram cemitérios.
Vivemos cavando sepulturas.
O contrabando de lápides e caixões
é a última moda.

Ninguém quer morrer
sem uma reza,
sem seu panteão último modelo.

Tudo entra de forma clandestina.
Tudo é gringo, tudo importado,
menos o medo
que continua sendo autóctone.

TODOS LOS DÍAS SE INAUGURAN CEMENTERIOS. Vivimos cavando sepulturas. El contrabando de lápidas y cajones está de última moda. Nadie quiere morirse sin un rezo, sin su panteón último modelo. Todo ingresa en forma clandestina. Todo es gringo; todo importado, menos el miedo que sigue siendo autóctono.

Concret_s como frutos nítid_s como pássaros (VII): 7 poemas inéditos de Pedro Eiras 


Pedro Eiras. 2016. © Sara Augusto

“Concretos como frutos nítidos como pássaros” é uma série dedicada à divulgação da poesia portuguesa contemporânea no Brasil.

Leia os posts anteriores da série.

Parte I: “Explicação, Miguel-Manso” [fevereiro 2021].
Parte II: “Regina Guimarães, Margarida Vale de Gato, Maria Brás Ferreira” [março 2021].
Parte III: “Poesia Expandida. Fernando Aguiar, Teresa M. G. Jardim, Ricardo Tiago Moura, Alexandre Francisco Diaphra e Marta Bernardes” [maio 2021].
Parte IV: “Volta para Tua Terra (Urutau 2021)” [junho 2021].
Parte V: “Patrícia Lino conversa com Tiago Alves Costa” [agosto 2021].
Parte VI: “Casa de Gigante” [setembro 2021].



Pedro Eiras (Porto, 1975) é uma das vozes mais singulares, desafiantes e fundamentais da literatura portuguesa atual. Autor de mais de 35 romances, livros de crónicas, peças de teatro, ensaios, livros de poemas e outros volumes impossíveis de catalogar, como This Is the Way the World Ends (2020) e Regras para a Direcção do Espírito (2021), Pedro destaca-se pela inteligência versátil com que se move entre registos, de que, muitas vezes, resulta a mescla interdisciplinar e, pontualmente, intermedial, e pela criatividade renovadora com que se arrisca de ideia em ideia. Depois de mais de 19 anos de carreira, estreou-se finalmente como poeta em 2020 com a publicação de Inferno (Assírio & Alvim). A Inferno seguiu-se Purgatório (2021), segunda parte da trilogia dantesca, com que, à semelhança dos seus trabalhos anteriores, voltou a distinguir-se não só pela criação rigorosa de um dispositivo empático, semelhante a um para-raios acrónico, como pelo domínio atualizado da tradição. Publicou recentemente, e além destes, Língua Bífida. Ensaio sobre Ecce Corpus, uma performance de António Gonçalves (Documenta, 2021).


Poemas inéditos
Pedro partilhou comigo 7 poemas inéditos: “Fraude”, “Season 1, episode 1”, “Desculpas”, “E outros argumentos”, “Breve explicação do contrato social”, “Votos” e “Pentecostes”.



FRAUDE

É a tua assinatura, vê,
neste documento: a tua letra,
traço a traço, com
o ataque nervoso das consoantes,
a acalmia das vogais –

é o teu nome, completo
e rigoroso, certificado por comparação
com outros documentos: atestados,
passaportes, o velho caderno
da escola primária,

é o teu aval, nesta página colonizada
por letras pequeninas, irritantes
(quem leria isto até ao fim?),
concordando, por actos e omissões,
com a sempiterna ordem das coisas.

E pouco importa se
não te lembras
de assinar: não se pode saber tudo
de cor, a vida
é tão breve.

E talvez seja melhor assim:
o que não tem remédio – remediado está;
o teu nome, argumentas, é só mais um
nesta longa lista de rubricas
ilegíveis:

não vale a pena, decerto,
meter os papéis para reclamar
por tão pouca coisa.



SEASON 1, EPISODE 1

É irritante, nas séries
sabermos
que o nosso juízo pouco vale.
A personagem mais viciosa
pode, em meia-dúzia de episódios,
tornar-se um santo.
Já os heróis, a quem
de bom grado confiaríamos
as nossas vidas,
se revelam, a qualquer momento,
infames.
No juízo do mundo,
um argumentista gere o plot
com régua e esquadro:
está na hora do twist, é preciso
revelar
esqueletos no armário dos bons,
motivações secretas nos gestos
dos malditos.
A ti, binge watcher, cabe apenas
resistir um pouco;
jurar: amarei esta personagem
por mais segredos que venha a descobrir,
e a esta outra
odiarei sem apelo,
ainda que me demonstrem quanto eram
nobres afinal
as suas motivações, e frágil
o seu coração.
Doesn’t matter:
o argumentista já tem na manga
duas ou três surpresas
para acabar o episódio,
que é como quem diz: para te obrigar a ver
o seguinte.
E tu – obedeces,
que remédio.

Mas não é assim também
o tribunal da vida? Não haverá
um secreto realizador, vigiando
o script, reservando-te
mistérios, o sim e o não confundidos,
a manipulação da tua inocência?
E tu, enquanto desabafas
na página do IMDB, julgas
que te sabes defender
dos truques, narrativas,
manipulação.
Shame on you.



DESCULPAS

Que naquela altura não sabíamos
fazer melhor;
que não foi por mal, pelo menos
conscientemente;
que os outros também fazem assim,
ou pior;
que não havia precedentes
nos livros consultados;
que foi por um gesto reflexo, mecânico,
condicionado;
que o sol, a chuva, os equinócios
trocados;
que os genes, a raça, os dados do contexto
histórico;
que o simples azar,
imperando;
que os imponderáveis
e os necessários;
que o sim
e o não, confundidos;
que assim seja,
para todo o sempre,
amen.



E OUTROS ARGUMENTOS

Pode ser que sim,
mas também
pode ser que não.

Pode ser um aplauso
mas também
um olhar de soslaio.

Pode ser a luz a olhar pela janela
mas também
os dedos trocados num charco.

Pode ser um genocídio
mas também
um erro de paralaxe.

Posso ser eu
mas também
podes ser tu.

Pode ser prudência metódica
mas também
envergonhada cobardia.



BREVE EXPLICAÇÃO DO CONTRATO SOCIAL

O dicionário foi escrito
pelos loucos que ganharam.




VOTOS

Eu prometo, eu juro
que hoje vou dar conta das horas
bu-ro-cra-ti-ca-mente:
triando as tarefas por ordem
de urgência, preenchendo atento
o caderno de encargos, adiando
para outro dia as minhas
opiniões.

Prometo que vou cumprir
bu-ro-cra-ti-ca-mente
o que esperam de mim: sorrisos,
compaixão, as virtudes dos
minerais: firmeza, constância,
a máscara cristalina que deflecte
este gosto amargo de um nome
ardente.

Juro que vou cumprir
bu-ro-cra-ti-ca-mente
o currículo solene, funcionário
do mês, nunca mais amarei
senhor, na minha morte quotidiana,
doravante: frio, gélido, técnico,
eu juro,
se o mundo arde, este é o meu
impecável pulsar de máquina.



PENTECOSTES

Quem precisa de línguas de fogo
se tem o google translator?

Quem precisa do sol e do éter,
se tem lâmpadas, e fluidos
supercondutores?

Quem precisa do mar, da distância,
se tem na ponta dos dedos
300 canais de distração?

Quem precisa de ti,
se tem a tua sombra
congelada?

Quem precisa de morrer,
se ainda nem deu conta
de que está morto?

Nigar Arif, por Francis Kurkievicz

Nigar Arif nasceu em 20 de janeiro de 1993, no Azerbaijão. Formou-se em Língua Inglesa pela Universidade Pedagógica do Estado do Azerbaijão, em 2014. É membro da União Mundial dos Jovens Escritores da Turquia e diplomou-se na III Escola de Escritores Jovens pela União de Escritores do Azerbaijão. Também é membro do Fórum Internacional para a Criatividade e Humanidade, instituição sediada no Marrocos. Alguns de seus poemas foram traduzidos para o inglês, turco, russo, persa, Montenegro e espanhol e foram publicados em revistas digitais de diferentes países. Ela participou do IV LIFT- Festival Literário Eurasiano, realizado em Baku no ano de 2019 e do 30° Festival Internacional de Poesia de Medillin em 2020, realizado na Colômbia e do Festival Literário International Panorama – 2020 na Índia, realizado através de uma plataforma online. Participou ainda do projeto Viagem das palavras pela Europa, 100 poetas ao redor do mundo por amor e Quarto Encontro Virtual Global de Poetas 2020.

Nigar Arif tem uma extensa e incansável atividade em prol da poesia e escreve tanto em azerbaijano, sua língua materna, quanto em inglês, com a mesma peculiaridade estética e a mesma força da sua juventude: de forma simples, direta sem subterfúgios, adornos ou pistas falsas. Ficará nítido ao leitor a maturidade e compromisso da poeta com o seu tempo. Assim como ficarão nítidas sua forma estética e dicção nos poemas aqui apresentados. Sua visão de mundo consegue abranger as entranhas do micro universo humano, dúvidas e inquietações íntimas, e também perscrutar os movimentos no macro, os destinos e contextos que acossam a humanidade. E embora ainda não tenha publicado um livro solo, caminha a passos largos na consumação de um volume, pois poemas se acumulam na diversidade digital de suas publicações.

Muitos são os temas que perpassam estes seis poemas onde podemos perceber o desenho arquitetônico de seus versos: o espanto pela separação amorosa, o inquérito sobre a ausência, a pacificação do ânimo através da autocompreensão, a perplexidade e dúvida com a própria jornada existencial, a morte e as falsas esperanças, a compreensão da natureza humana. Temas universais tratados na intimidade da experiência individual, no entanto, de modo não confessional, mas transmutados na singularidade poética. Talvez este seja o caminho mais difícil para poetas na contemporaneidade: como sublimar a experiência pessoal em obra de arte sem cair no clichê da evidência confessional do ego auto afirmado.

Os poemas apresentados aqui foram selecionados pela própria autora e encaminhados aos cuidados deste poeta, que os transmigrou intuitivamente para a língua portuguesa. Esperamos que esta contribuição literária possa voltar nossa atenção para uma poesia realizada num país que pouca notícia temos, mas que tem irradiado sua melodia e seus temas para além de suas fronteiras.

Francis Kurkievicz

THE RECONCILIATION

Hey man, taking umbrage at himself,
Have you done a lot of sinning?
All you’ve lost, is just yourself,
Is there anything you gained?
Who took you from you?
Who left you to the void?
Who put his hand on your heart?
And calmed you like that?
Who ruined your life and fate
looking at your “sorry” face?
What did he leave in your eyes,
Dropping as tears?
Maybe it’s you, and,
you’ve become a pain for yourself?
Maybe you just let your joys
slip through your fingers?
Hey you,
Who’s oppressed by sorrow,
Walking in his thoughts,
Getting tired of his ways…
Losing the sun among complaints.
Turn back,
Make peace with yourself.
Shake hands and have faith ,
With that one whom you turned away.

A RECONCILIAÇÃO

Ei cara, ofendido estás contigo mesmo?
Pecastes muito?
Tudo que perdeste foi a ti mesmo,
Existe algo que ganhaste?

Quem te tirou de ti?
Quem no vazio te deixou?
Quem pousou a mão em teu coração?
E isso te pacificou?

O que arruinou tua vida, teu destino
Mirando tua cara de “desculpa”?
O que foi deixado em teus olhos
Gotejando como lágrimas?

Talvez sejas tu e
Tenhas tornado uma dor para ti mesmo?
Talvez tu tenhas deixado tuas alegrias
Escorregarem pelos teus dedos?

Ei cara,
Quem é oprimido pela dor,
Perambulando em teus pensamentos
Cansado de tuas formas…
Perdendo o sol entre reclamações.

Volte!
Faça as pazes contigo mesmo.
Aperte tuas mãos e tenha fé
Naquele que rejeitastes.
£

THE WAY

Who did really cut out my way?
Either the way is chance or I’m green.
I may be the last human on this road,
Maybe I’m just a gravestone of this road.

My dreams looking through the window,
My leg got tangled with my own way;
I don’t know how it looks from that side,
My fate is clapping at my falling.

Or maybe it’s not me going on this way,
It’s my road, limped, my road’s crawling.
It turns to ground, it changes to stone,
It just follows and blankets with me.

How this way did fall on my fortune?
Maybe it slipped out of my pockets?
Had I trampled on its face and head?
That’s why it is so impudent to me!


O CAMINHO

Quem realmente podou meu caminho?
Ou o caminho é o acaso ou sou eu imatura.
Posso ser o último humano nesta estrada,
Talvez apenas uma lápide desta estrada.

Meus sonhos vagam através da janela,
Minhas pernas embaraçaram-se pelo caminho;
Não sei como se mostra do outro lado,
Aplaudindo minha queda está o meu destino.

Ou talvez não seja eu a seguir assim,
É minha estrada, vacilando, se arrastando.
O caminho se dissimula em solo, em pedra,
Apenas segue e avança comigo.

Como isso desceu em minha ventura?
Talvez tenha escapulido dos meus bolsos?
Havia pisoteado seu rosto e sua cabeça?
É por isso que é tão insolente comigo!
£

WHEN YOU LEFT

I used to see the flushed eyes of life
in geography class,
I used to see the truths that erupt like volcano,
and plains
on which were creeping the lies
under the truths,
I used to see the fall down the knees
of the highest mountains,
The same wind was blowing in all countries,
The same rain all over the world…
I was a country myself,
Yes, I was…
When I wanted to subdue the country like you
my heart was shaking
like it was an earthquake;
sweet waters were running,
pure springs were running
from the bottom
of the most rocky and barren lands
I used to see the beautiful faces of the best creatures
in the far-off places…
When you left…
When you left,
I realized that
human being is the biggest iceberg;
he will go on melting for years
and flowing into death.

QUANDO VOCÊ SAIU

Eu costumava ver os olhos ruborizados da vida
Na aula de geografia,
Costumava enxergar verdades irromperem como vulcões,
E planícies
Por onde as mentiras rastejavam
Sob as verdades,
Costumava contemplar o quedar de joelhos
Das montanhas mais altas,
O mesmo vento soprava em todos os países,
A mesma chuva em todos os lugares…
Eu mesma era um país,
Sim, era…
Quando desejei dominar um país como você
Meu coração tremeu
Como se fosse um terremoto;
Águas doces fluíam,
Fontes puras vertiam
Do fundo
Dos solos mais rochosos e áridos,
Eu costumava ver os belos rostos das melhores criaturas
Nos lugares mais remotos…
Quando você saiu…
Quando você saiu,
Compreendi que
O ser humano é um enorme iceberg;
Ele continuará derretendo por anos,
Vazando para a morte.
£

AT THE DOOR OF PARTING

I don’t know when
we were parted,
How and when
our love was ended?
Maybe
we shouldn’t have met
from the beginning…
Were we really bowed down
the love and desire?
Maybe we were children
in the hands of love.
And those hands parted us…
Maybe…
maybe I am wrong,
We did grow it ourselves
We grew up just each other.
And what parting was,
what was the parting then?
Parting was the bitter tea,
Parting was like bane.
When sleepless night
attempting to fall asleep
Parting was the morning.
A tender word I found
in the book I read
was a handful sadness.
Parting was worse
than the boring death!
I don’t know,
Where was the door of parting?
It’s like I knew,
but so what?
From now,
I won’t come back anymore,
and you won’t open that door.

À PORTA DO DESENLACE

Não sei quando
Nos separamos,
Como e quando
Nosso amor se esgotou?
Pode ser que
Não deveríamos ter nos encontrado
Desde o começo…
Estávamos realmente inclinados
Ao amor e ao desejo?
Talvez fossemos crianças
Nas mãos do amor.
E essas mãos nos apartaram…
Pode ser…
Talvez eu esteja errada,
Nós mesmos o cultivamos,
Brotamos apenas um para o outro.
E que despedida foi esta,
Qual foi então a separação?
A despedida foi um chá amargo,
Foi como uma desgraça.
À noite, insone,
Tentando adormecer,
E no alvorecer se deu a despedida.
Uma palavra de ternura
Que encontrei num livro que li
Estava plena de tristeza.
O adeus foi pior
Do que a morte tediosa!
Não sei,
Onde estava a porta da despedida?
É como se eu soubesse,
Mas e daí?
De agora em diante,
Jamais voltarei,
E você nunca abrirá essa porta novamente.
£

THE WIND

Hey wind,
knocking door to door,
is that one door
you’re looking for,
is that enough for you?
Where are they now,
those open doors
from the hot, sunny days of summer?
Where are those that loved you,
to dine with and to rest;
who once were pleased to welcome you
and treat you as their guest?
Hey wind, knocking door to door,
where are your lovers now?
Now the weather’s turned to winter,
have they turned cold as well?
Don’t knock, my dear, don’t knock,
no one’s opening their door,
no one will look out for you,
nor call on you,no more.
Who, I ask, now the weathers changed,
would call on you at all?
Go dear, go.
Just wander round these dull grey streets
and break dry trees in anger;
just wait as winter turns to summer and your friends,
dear wind, with the sun, will grow again once more.

O VENTO

Ei vento,
Que bate de porta em porta,
É aquela porta
Que está procurando,
É suficiente para você?
Onde estão elas agora,
As portas abertas
Como nos dias quentes e ensolarados de verão?
Onde estão aqueles que o amavam,
Jantaram e descansaram consigo,
E que uma vez tiveram o prazer de recebê-lo
E tratá-lo como seu convidado?
Ei vento, que bate de porta em porta,
Onde estão agora seus amantes?
A estação mudou e inverno é agora,
Eles ficaram frios também?
Não bata, meu querido, não bata,
Ninguém abrirá a porta,
Ninguém cuidará de você,
Nem mesmo chamá-lo mais.
Pergunto eu, agora que a estação mudou,
Quem chamaria por você?
Vá querido, vá.
Perambule por essas ruas cinzentas e monótonas
E com sua raiva derrube as árvores secas;
Apenas espere o inverno se tornar verão e seus amigos,
Querido vento, com o sol, florescerão novamente.
£

THE WOMAN

Your life like an ant was away eaten,
There’s not even one day left for you.
You had the weight of the world
on your shoulders like an elephant
But no one really ever appreciated you.
You skimmed off and cleaned up your life,
But you’d relied on hopes, woman!
You just laughed in silence at your grief,
You’d troubled about your joy, woman?!
You’re pinning your hopes on now,
Your land is at the end of its rope.
Woman, maybe we don’t just know:
the land is unwitting, the stone is dark.
The death you walk on the balls of the feet
is your eaten life that waits for you,
It just waits for you in silence as dead.

A MULHER

Sua vida como uma formiga foi devorada,
Não resta nem um só dia para você.
Você teve o peso do mundo
Em seus ombros como a um elefante,
Mas ninguém jamais apreciou seu valor.
Você depurou e saneou sua vida,
Porém confiou em esperanças, mulher!
Em silêncio você apenas ria-se da própria dor,
Preocupada estava com a sua alegria, mulher?!
Você está sujeitando sua confiança no agora,
Sua terra está no fim da fiação.
Mulher, talvez nada saibamos:
A terra é inescrupulosa, a pedra, sombria.
A morte que você traz na ponta dos pés
É a sua devorada vida lhe espreitando,
Ela apenas espera por você em silêncio mortal.
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Francis Kurkievicz é poeta. Lançou pela Editora Patuá, em dezembro de 2020, seu primeiro livro de poemas B869.1 K96. Atualmente reside em Vitória/ES, onde se dedica exclusivamente à poesia.

*

Concret_s como frutos nítid_s como pássaros (VI): Casa de Gigante


Fotografia: Raquel Caetano Lopes @vivertodososdiascansa

“Concretos como frutos nítidos como pássaros” é uma série dedicada à divulgação da poesia portuguesa contemporânea no Brasil.

Leia os posts anteriores da série.

Parte I: “Explicação, Miguel-Manso” [fevereiro 2021].
Parte II: “Regina Guimarães, Margarida Vale de Gato, Maria Brás Ferreira” [março 2021].
Parte III: “Poesia Expandida. Fernando Aguiar, Teresa M. G. Jardim, Ricardo Tiago Moura, Alexandre Francisco Diaphra e Marta Bernardes” [maio 2021].
Parte IV: “Volta para Tua Terra (Urutau 2021)” [junho 2021].
Parte V: “Patrícia Lino conversa com Tiago Alves Costa” [agosto 2021].




A Casa

A Casa de Gigante, projeto integrado na Associação Cultural Mandriões no Vale Fértil, é gerida pelo poeta português Miguel-Manso e acolhe a R.E.Fazenda, uma residência de escrita para poetas portuguesas(es) e de outras nacionalidades que, durante julho, viajam até Vale do Pereiro (Castelo Branco, Portugal). Com apenas duas edições, entre 2019 e 2020, a R.E.Fazenda já acolheu nomes como Margarida Vale de Gato, Angélica Freitas, Mariano Marovatto, Inês Francisco Jacob, Andreia C. Faria, Mariano Alejandro Ribeiro, André Tecedeiro ou Sónia Balacó.

Além disso, a Casa recebe, a par deste evento anual, poetas, escritoras(es), músicas(os) e artistas durante o resto dos meses e ocupa, no contexto literário português, um espaço singular ao contrariar, pelo propósito coletivo e dialogante com que se apresenta, o individualismo e a solidão tradicionalmente associadas ao processo de escrita. A dimensão coletiva em que a iniciativa assenta parece também não poder desconetar-se da relação da poesia com as outras artes que define os perfis de algumas e alguns convidadas(os), o que, por sua vez, vai de encontro à obrigação monodisciplinar que assombra ainda o ofício da(o) poeta em Portugal.

As atividades da Casa podem ser acompanhadas na sua página Instagram.





Conversa entre Miguel-Manso e Patrícia Lino + depoimentos de Margarida Vale de Gato, Mariano Marovatto e Inês Francisco Jacob

Patrícia Lino: Começo pelos nomes. Casa de Gigante e R.E.FAZENDA. Como chegaram até eles? 

Miguel-Manso: Gigante é uma alcunha/ apelido de família e que vem do tempo das invasões francesas. Assim eram chamados aqueles que ergueram esta casa, no princípio do século XX. Sabe-se que não eram pessoas de grande estatura física, pelo que depreendemos que os alcunhados foram deixando de estar à altura do próprio epíteto e aos descendentes, a quem o edifício chegou, ocorreu-lhes recuperar o nome, iludindo também eles a própria falta de tamanho.

R.E.FAZENDA acomoda o título de uma canção do Gilberto Gil à função de nomear uma residência de escrita que acontece longe dos centros urbanos. Para esta residência temos convidado autoras e autores de poesia (lato sensu) a vir escrever – e não-escrever – para cá. Mais que a pertinência do convite, a localização da casa torna a coisa mais ou menos irrecusável.

PL: A R.E.FAZENDA teve, até à data, duas edições. Trata-se de um projeto recente e, por isso mesmo, imagino que vá mudando consideravelmente de edição para edição. Poderias descrever em detalhe estas duas primeiras edições?

MM: Este projecto de residências de escrita, pensado para poetas, partiu, em primeiro lugar, da necessidade pessoal de quem dirige a associação de não perder o contacto físico e afectivo com aquel_s que, como ele, estão a escrever poemas agora. Sobretudo depois de ter abandonado há muito o círculo onde esses encontros acontecem com maior frequência. A ideia, contudo, nunca foi a de convidar apenas _s amig_s mas sobretudo aquelas e aqueles com quem menos se relaciona, quer seja por simples desencontro no caminho ou porque estas e estes vieram a publicar anos depois formando, pela diferença de idades, senão uma nova geração, pelo menos uma fornada mais recente.

Porém, suprido esse primeiro impulso egoísta, depressa a coisa vem tomando caminhos mais estimulantes e promissores. Partiu-se da ideia simples de chamar 4 poetas para habitarem a Casa durante 4 a 5 dias a cada Julho. Sem lhes impor qualquer plano rígido de trabalho mas com tarefas a serem cumpridas em conjunto, desde cozinhar, nadar, apanhar abacates, caminhar na floresta, ler, conversar. Assim foi o encontro de 2020, já em plena pandemia – mas numa altura em que nos pareceu possível realizá-lo, ponderada a realidade que à data se vivia. Terminada a residência, os poemas foram chegando por correio electrónico sendo, em geral, impressões dos dias vividos aqui e da paisagem local. Estiveram presentes o André Tecedeiro, a Andreia C. Faria, a Margarida Vale de Gato e o Mariano Alejandro Ribeiro. Aproveitámos também, servindo-nos de ignição, o poema que a poeta indiana Sampurna Chattarji escreveu (e a Margarida traduziu) sobre a Casa, aquando de uma sua visita uns tempos antes.  

No encontro deste ano decidiu-se ir um pouco mais longe. Não só mantivemos a residência física (a vacinação global em curso aliviou em muito a pressão) como beneficiámos igualmente do que se aprendeu e incorporou durante os vários confinamentos: a banalização da videoconferência; neste caso quisemos chamar-lhe A Videoconferência dos Pássaros. Aproveitou-se essa possibilidade e vieram juntar-se ao encontro três poetas que não vivem perto. Assim, na Casa, tivemos a Inês Francisco Jacob, o Pedro Barateiro (substituindo o António Poppe, que não pôde vir) e a Sónia Balacó. Na tela, internacionalizando a residência, contámos com a Angélica Freitas, em Berlim, o Mariano Marovatto, no Rio de Janeiro e, desde Los Angeles, Califórnia, a poeta que me faz estas perguntas.

A chamada do Pedro, cujo trabalho se insere no domínio das artes plásticas ou visuais responde a uma necessidade, entretanto adquirida, de questionar a ideia logocêntrica de poema. O Pedro não veio, pois, colorir, ilustrar ou complementar coisa nenhuma. Convidámo-lo como poeta e como poeta pedimos-lhe que fizesse o que já faz. Mais à frente podemos convidar, partindo de premissa semelhante, bailarin_s, músic_s, cineastas, etc. Ao contrário do que aconteceu no primeiro encontro, desta vez os poetas decidiram pensar numa forma de trabalhar balizados por uma ideia surgida e construída em conjunto. O resultado destas e das próximas residências será publicado pela própria associação através daquele que será o seu futuro departamento editorial, a Gigante, pequenas edições.     



PL: A colaboração ou o princípio da coletividade está na base de um projeto como a R.E.FAZENDA e isto vai, obviamente, de encontro ao individualismo que circunda o perfil e o ofício tradicionais da(o) poeta. A própria ideia de intermedialidade que define os trabalhos de muitas(os) as(os) que participaram, sobretudo, na segunda edição também põe em causa a monodisciplinaridade do que é produzido, em termos gerais, em Portugal. Não há, na verdade, e a longo prazo, como separar as duas.

MM: Não apenas a residência de escrita mas todo o projecto associativo quer guiar-se por esse princípio de colaboração e diversidade. É importante ir derrubando as pequenas edificações egoístas (a começar pelas próprias) e no seu lugar ver instalar-se um sistema colaborativo, de aprendizagem e fazeres concordantes e discordantes. Com estes encontros e com o que possa surgir deles não nos interessa eternizar a figura do poeta ensimesmado, fechado sobre a página em que escreve. Parece-nos muito mais interessante colocar pessoas em contacto, mesmo (ou sobretudo) que não pertençam ao mesmo grupo estético ou cujo trabalho não imaginaríamos agrupável.

 

a casa: radiante e ordeira de um lado do outro o acaso empedrado o reboco um soluço num hiato um poço a que saberás não resistir em nome da subsequente transformação.

o projeto: sentinela para re-clamar o cultivo extensivo na província, mediante empenho do feitor e de um bando de mutualistas aka mandriões aka grupo heteróclito de curtidos flibusteiros para fazer t-shirts, filmes, taberna, edição e manufatura, massa eco-crítica, trabalhos de reconstrução, pintura e fotografia, entre outros, ramificando-se em:

gigante (peq. edições): intervenções de pormenor cirúrgico para alargar o campo a/e quem o trabalha;

residências espontâneas: por exemplo, uma cravista a “atirar Bach a Paredes” numa escola desativada de um lugar entre a floresta e o risco de incêndio;

re-fazenda: alambique de vasos comunicantes de poesia a ocupar o espaço e as vastas margens do que cresce no interior e se abre em comum, do que se mostra aos vizinhos e do que não, dos que imaginam paisagens e dos que vão entre outros.

MARGARIDA VALE DE GATO


PL: Como descreverias o processo destes encontros, no caso dos pássaros, e do convívio diário e quase permanente entre as(os) que ocupam fisicamente a casa?

MM: São processos diferentes. Com os poetas hospedados na casa as tarefas acabam por viver da espontaneidade e do descomprometimento, ninguém se obriga a nada. Essa é a forma que eu julgo ser a melhor, tendo em conta o pouco tempo de residência e o contexto estival em que ela se faz. Já com a “conferência dos pássaros” sente-se a necessidade de ter estabelecidas algumas diretrizes que justifiquem o aparato. A convergência dessas duas realidades parece-me ser o mais desafiante.

PL: E apesar dessa liberdade, as(os) envolvidas(os) na residência assumem o compromisso de escrever segundo um tema ou projeto coletivo como aconteceu, respetivamente, na primeira e segunda edições.

MM: Na primeira edição, não havendo tema previamente imposto ou acordado, o que aconteceu foi que os textos que foram chegando davam em geral notícia da própria experiência na Casa durante aqueles dias: descrições transfiguradas da sua arquitectura, a relação dos bardos com os bichos, com esta paisagem e circunstância. Guardamos esses poemas com muita vontade de os editar. Mas não assim, desacompanhados. Esperaremos o fruto de mais edições e, juntamente com o registo fotográfico que as acompanha (as fotografias da Raquel Caetano Lopes – @vivertodososdiascansa – que esteve e estará sempre presente) havemos de ir publicando estes trabalhos.

Na mais recente edição, os encontros online serviram para urdir a ideia, aí sim, de um projecto colectivo que está em curso (há sempre vida depois destes encontros) e sobre o qual pouco interessará revelar, sob pena de interferir com a surpresa e a própria natureza reservada do intento. Veremos o que surgirá.

 

Não há nada lá, mas é o melhor nada que há, é o que repito sobre a Sertã. Estive por lá algumas vezes, na Casa de Gigante, inclusive antes do Gigante tornar-se o grão diretor e mascote da casa. Nadei naquela ribeira no meio da estrada espiralada, nadei também no meio dos fartos montes de eucaliptos (antes e depois das terríveis queimadas), dei de comer às galinhas (que Nossa Senhora de Fátimas as tenha), li em voz alta e também escrevi poemas, senti muito calor e também muito frio, compus uma trilha sonora inteira (que também desapareceu, como as galinhas) e até comi feijoada brasileira na Casa de Gigante. Meu amigo Miguel Manso esteve sempre por lá para nos receber a todos. Este ano, porém, foi a primeira vez que visitei a Sertã pelo ecrã/tela do computador. Como sabemos, tudo hoje é feito pela tela do computador, principalmente se você é um trabalhador das artes. E também todos nós já temos muita fadiga dos ecrãs/telas e fadiga de falar sobre a fadiga dessa mediação com o outro através de ecrãs/telas. Mas, o final de semana na Casa de Gigante, participando da segunda edição da residência de escrita R.E.FAZENDA, sinceramente, foi diferente de todas as experiências mediadas pelo ecrã/tela desde o início da pandemia. A Teleconferência dos Pássaros foi extremamente inventiva e estimulante. Retomei os tempos da infância no recreio da escola, a inventar uma brincadeira inédita, ou ainda, experimentando personagens impossíveis nos exercícios instantâneos de improvisação teatral, fonte de criação e prazer na adolescência. Mesmo cada um no seu quadradinho pixelado pelo Zoom, carregando nas costas um fuso-horário distinto do globo terrestre, conseguimos com alegria, reunidos pela antena parabólica da Casa de Gigante, criar uma língua, um grupo, um jogo em comum. Em tempos tão desacompanhados, de imediato, e traumáticos, a longo prazo, estabelecemos os rastilhos de toda literatura ao sentarmos diante dos outros: ouvir as histórias para criar as fantasias e torná-las historias. E assim sucessivamente.

MARIANO MAROVATTO


PL: Além de assentarem tanto no perfil intermedial de algumas e alguns e partirem de uma ideia de criação coletiva, há também, já que as(os) poetas se juntam, um propósito ou background político nestes encontros?

MM: Seria político (mas tristemente) mesmo se não houvesse propósito político algum. Nisso julgamos não estar iludidos. O que queremos é que todo o projecto associativo – e não só estas residências – participe dos debates progressistas, ainda muito silenciados num país como Portugal, sobretudo fora da bolha urbana, mas também aí. Através de uma aprendizagem e prática partilhadas – ouvindo, sintonizando as minorias (ou “as maiorias minorizadas”), e colocando a tónica na diversidade e na sua representatividade – a nossa posição é a de buscar o desconforto de quem descobre o tamanho do próprio privilégio e se coloca, aceitando-o, no deslocamento. Assumir o “risco do deslocamento”, como explica Linn da Quebrada num debate recente. 

PL: Este propósito político estende-se também à Casa como um todo, inclusive às outras atividades que, para além da R.E.Fazenda, acontecem no espaço durante o resto do ano. A última residência foi, por exemplo, a da cravista Joana Bagulho. 

MM: Esta associação cultural está sedeada na zona mais envelhecida da Europa. Julgamos decisivo que se ocupem estes espaços desertificados e neles se façam duas coisas: 1) não deixar que se perca (para que possa continuar a ser mexido e transformado) um conjunto de saberes e de memórias colectivas relacionados com as gentes e as paisagens (físicas e incorpóreas); 2) proporcionar um contacto permanente e continuado com algo que confronte certos ideários populistas e neofascistas que grassam, sem nenhuma graça e com bastante força, por territórios onde a massa crítica empobreceu. Dizer isto, desta forma, poderá parecer arrogante, prepotente até, mas diante de que se nos afigura não nos sobra muito tempo para a prática da falsa modéstia. A Joana veio tocar Carlos Paredes (1925-2004), um músico popular, comunista de velha cepa, e cujo repertório ela tem vindo a transcrever para o seu instrumento. Liturgias à parte, há quantos séculos não soava um cravo por estas paragens?

PL: E, dentro desse movimento intelectual e comunitário de resistência, que projetos acolherá a Casa nos próximos tempos?

MM: Ainda que a associação tenha já seis anos de existência, a sua acção e integração tem sido até aqui preguiçosa. Temos, durante este tempo, colaborado em parcerias com agentes locais e recebido artistas em contexto de residência de trabalho. Isso prosseguirá. Mais recentemente decidimos assumir o projecto com outro empenho e dedicação. Além do trabalho contínuo naquilo que é a melhoria dos espaços físicos do edifício e a sua adaptação às necessidades da associação (a casa é antiga e de tamanho considerável, é um esforço diário salvá-la da ruína) há também um trabalho importante de integração do projecto numa rede de outros colectivos semelhantes a nível local, nacional e internacional. E a busca de financiamento para o que queremos fazer. A criação de uma editora ocupar-nos-á nos próximos meses, ainda que façamos já no dia 18 de Setembro, no encontro Poesia, Um Dia, em Vila Velha de Ródão, uma primeira apresentação pública – e platónica – do que pretendemos ser enquanto editores. No mesmo festival de poesia será apresentando o primeiro filme produzido pela associação: a longa-metragem documental Passagem dos Elefantes, de João e Miguel Manso, com António Poppe e Bárbara Assis Pacheco. O mais será música, que confirmamos ser uma maneira privilegiada de estreitar laços com a comunidade, organizando pequenos recitais com músicos e instrumentos menos óbvios, como foi com o cravo e será em breve com outros.

   

Há casas que surgem à nossa frente como se fossem pessoas. Falam connosco, escutam-nos, beliscam-nos quando assim tem de ser, respiram a nosso lado, alteram a nossa visão sobre as paredes e para lá delas. Estive na R.E.FAZENDA como se estivesse em minha casa, sem filtros, sem receio do absurdo, sem limites para os ecos e as ideias frescas.
Devido aos oceanos, às fronteiras inventadas, a este atrevido vírus, partilhei o momento ao vivo com o Miguel, a Sónia e a Raquel, mas quebrámos essas barreiras quando cruzámos vozes e sotaques e chegámos às palavras da Patrícia, da Angélica, do Pedro e do Mariano.

Respirámos, nesse curto espaço, nesse curto tempo, como uma pequena irmandade, firme e convicta, e escolhemos a demanda de não cruzar os braços. O jet-lag informal dos grandes abismos, que nos viram do avesso, tem muito que se lhe diga. Sair da Sertã não se tornou real quando apanhei o comboio para Lisboa. Demorou mais. Ainda estou a sair de lá. Gritar, mesmo que em sussurro, já é gritar. E agora é preciso ir e é preciso voltar.

INÊS FRANCISCO JACOB

Óssip Mandelstam, por Guilherme Zani Teixeira

Óssip Emilevitch Mandelstam (1891-1938), poeta, ensaísta e tradutor, publicou três coletâneas de poesia em vida: Камень [Pedra], em 1913, obra que mais se aproximou da proposta do acmeísmo, movimento iniciado em 1911 e que buscava responder aos excessos do simbolismo, tópico que já vinha sendo debatido há quase uma década; Tristia, em 1922, com um título que faz alusão a Ovídio, poeta com o qual se identifica em diversos poemas; e 1921 – 1925, seção de poemas inéditos que integra suas obras coletadas em 1928. Seus poemas da maturidade, escritos entre 1930 e 1937, não chegaram a ser publicados em livro em vida, alguns foram publicados em periódicos e muitos guardados de memória por sua esposa, a escritora Nadezhda Iakovlevna Mandelstam (189 -1980), e vieram a público apenas décadas mais tarde.

 Os poemas aqui apresentados, ainda de sua primeira fase, partem de associações visuais, sonoras e históricas, ligando passado e presente, criações da natureza e criações humanas, memória e invenção, o particular e o universal, a eterna repetição dos mesmos acontecimentos e temas. Busquei manter seu rigor formal característico através de rima, métrica e ritmo regulares.

Guilherme Zani Teixeira

*

На бледно-голубой эмали,
Какая мыслима в апреле,
Березы ветви поднимали
И незаметно вечерели.

Узор отточенный и мелкий,
Застыла тоненькая сетка,
Как на фарфоровой тарелке
Рисунок, вычерченный метко,

Когда его художник милый
Выводит на стеклянной тверди,
В сознании минутной силы,
В забвении печальной смерти.

1909

No suave azul do esmalte
Que abril nos traz à mente,
Bétulas em toda parte
Enoitaram sutilmente.

A afiada e fina rama,
Rija rede delicada,
Qual pintada porcelana
Com gravuras bem traçadas,

Quando o seu artista inscreve
Na abóbada de vidro,
Ciente do vigor do breve,
E da morte esquecido.

1909

£

О временах простых и грубых
Копыта конские твердят.
И дворники в тяжелых шубах
На деревянных лавках спят.

На стук в железные ворота
Привратник, царственно-ленив,
Встал, и звериная зевота
Напомнила твой образ, скиф!

Когда, с дряхлеющей любовью
Мешая в песнях Рим и снег,
Овидий пел арбу воловью
В походе варварских телег.

1914

Os cavalos e o som de seus cascos
Tempos rudes e simples suscitam.
Varredores em gordos casacos
Pelos bancos de tábua cochilam.

O porteiro — indolente-real —
Veio à porta de ferro à batida,
Seu bocejo, qual de um animal,
Recordou-me tua imagem, ó cita!

Quando o amor seu já envelhecido
Misturava em canções Roma e neve,
A carroça cantou, lá, Ovídio,
Onde os bárbaros tinham charretes.

1914

£

Золотистого меда струя из бутылки текла
Так тягуче и долго, что молвить хозяйка успела:
Здесь, в печальной Тавриде, куда нас судьба занесла,
Мы совсем не скучаем — и через плечо поглядела.

Всюду Бахуса службы, как будто на свете одни
Сторожа и собаки — идешь, никого не заметишь —
Как тяжелые бочки, спокойные катятся дни:
Далеко в шалаше голоса — не поймешь, не ответишь.

После чаю мы вышли в огромный коричневый сад,
Как ресницы на окнах опущены темные шторы,
Мимо белых колонн мы пошли посмотреть виноград,
Где воздушным стеклом обливаются сонные горы.

Я сказал: виноград как старинная битва живет,
Где курчавые всадники бьются в кудрявом порядке.
В каменистой Тавриде наука Эллады — и вот
Золотых десятин благородные, ржавые грядки.

Ну, а в комнате белой как прялка стоит тишина.
Пахнет уксусом, краской и свежим вином из подвала.
Помнишь, в греческом доме: любимая всеми жена —
Не Елена — другая — как долго она вышивала?

Золотое руно, где же ты, золотое руно?
Всю дорогу шумели морские тяжелые волны,
И покинув корабль, натрудивший в морях полотно,
Одиссей возвратился, пространством и временем полный.

1917

Entornado o mel dourado de um frasco era vertido
Tão viscoso e lento, que a nossa anfitriã falou:
“Cá, na triste Táurida, onde nos trouxe o destino,
Não sentimos tédio” — e por cima dos ombros olhou.

Ritos báquicos à volta, como se cães e vigias
Fossem todo o mundo — andas e ninguém tu vês à frente —
Sossegados, quais barris pesados, vão rolando os dias,
Longe, na cabana, vozes: não respondes, não entendes.

Findo o chá, nós ao jardim castanho imenso caminhamos,
Nas janelas as escuras persianas como cílios,
A olhar videiras por colunas brancas nós passamos,
Onde, sonolentas, banham-se as montanhas com ar vítreo.

A videira, eu disse, é como uma batalha antiga viva,
Onde em crespa legião combatem crespos cavaleiros.
Na rochosa Táurida o saber da Hélade — à vista,
Oxidados, nos dourados acres nobres, os canteiros.

E, no quarto branco, como roca o silêncio assenta.
Cheiro de vinagre, tinta e vinho fresco do porão.
Em um grego lar a esposa por todos amada, lembras —
Não Helena — outra — há quanto tempo ela bordava então?

Onde estás, tosão de ouro? Onde estás, tosão dourado?
A viagem toda as ondas com seu marulhar por perto,
E, o navio abandonando, quadro pelo mar roçado,
Odisseu eis que voltou, de espaço e tempo assaz repleto.

1917

£

Сестры тяжесть и нежность, одинаковы ваши приметы.
Медуницы и осы тяжелую розу сосут.
Человек умирает. Песок остывает согретый,
И вчерашнее солнце на черных носилках несут.

Ах, тяжелые соты и нежные сети,
Легче камень поднять, чем имя твое повторить!
У меня остается одна забота на свете:
Золотая забота, как времени бремя избыть.

Словно темную воду, я пью помутившийся воздух.
Время вспахано плугом, и роза землею была.
В медленном водовороте тяжелые, нежные розы,
Розы тяжесть и нежность в двойные венки заплела.

1920

Irmãs ternura e gravidade, em seus traços semelhantes.
As vespas junto às operárias sugam a pesada rosa.
Um homem morre, arrefece a areia antes escaldante
E posto em uma escura maca o sol de ontem vai embora.

Ah, como são as teias ternas, quão pesados são os favos,
É tão mais leve erguer a pedra que teu nome repetir.
E resta apenas uma coisa que me deixa angustiado:
Questão dourada: posso eu do tempo — fardo — me eximir?

E do ar turvado eu bebo como se ele fosse água escura.
O tempo arado com charrua, e a rosa como terra.
Em lento turbilhão as rosas gravidade e ternura,
Trançadas em guirlandas duplas as pesadas rosas ternas.

1920

£

Лишив меня морей, разбега и разлета
И дав стопе упор насильственной земли,
Чего добились вы? Блестящего расчета:
Губ шевелящихся отнять вы не могли.

1935, Воронеж

Depois de me privar dos mares, do embarque e do arranque
E dar aos pés a violenta terra por fundamento,
O que vocês ganharam? Uma observação brilhante:
Dos lábios não puderam arrancar o movimento.

1935, Vorônezh

*

Guilherme Zani Teixeira nasceu em São Paulo (SP), em 1989, e é professor de português. Graduado em Letras Português/Russo pela Universidade de São Paulo, está traduzindo a poesia de Óssip Mandelstam, tema de seu mestrado, em curso.

Concret_s como frutos nítid_s como pássaros (V): Patrícia Lino conversa com Tiago Alves Costa



“Concretos como frutos nítidos como pássaros” é uma série dedicada à divulgação da poesia portuguesa contemporânea no Brasil.

Leia os posts anteriores da série.

Parte I: “Explicação, Miguel-Manso” [fevereiro 2021].
Parte II: “Regina Guimarães, Margarida Vale de Gato, Maria Brás Ferreira” [março 2021].
Parte III: “Poesia Expandida. Fernando Aguiar, Teresa M. G. Jardim, Ricardo Tiago Moura, Alexandre Francisco Diaphra e Marta Bernardes” [maio 2021].
Parte IV: “Volta para Tua Terra (Urutau 2021)” [junho 2021].








________________________________________________________________________
VOZES EM CORO

________________________________________________________________________isto está muito mau
________________________________________________________________________isto está muito mau
________________________________________________________________________
isto está muito mau
________________________________________________________________________isto está muito mau
________________________________________________________________________isto está muito mau
________________________________________________________________________isto está muito bom (voz desconhecida)


_______________________________________________________________Tiago Alves Costa. Žižek Vai ao Ginásio. 2019-20.



1. Tiago, publicaste, até à data, 3 livros: W.C. Constrangido (2012), Mecanismo de Emergência (2016) e Žižek Vai ao Ginásio (2019, Galiza, Portugal; Brasil, 2020). Como explicarias esta sequência a um(a) leitor(a) brasileira(o) que não conhece o teu trabalho?

Diria com toda a sinceridade que é uma sequência sem um plano prévio. Escrevo normalmente para investigar e portanto gosto muito de não saber o que vou fazer, isso para mim é essencial, escrever sem saber o que vou fazer em busca de todo o novo que se abre sob os nossos olhos, tudo aquilo que supõe uma ruptura com a ordem das coisas. Para mim aquilo que realmente importa dá-se melhor em liberdade ou como dizia a Clarice Lispector “Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome”. É evidente que os livros têm muita relação entre si, considero até que são como animais completamente opostos que não podiam existir um sem o outro. O w.c constrangido foi o meu primeiro livro e, verdade seja dita, hoje sinto-me distante dessa obra. No entanto, confesso-te que foi um livro importante para chegar a outras sonoridades, outros ritmos, outras formas de potencializar o pensamento. Lembro-me que por aquela altura estava muito influenciado pelos contos do catalão Quim Monzó e procurava incessantemente uma ponta de sarcasmo, uma espécie de ângulo insólito da banalidade. Os dois últimos surgem numa fase distinta da minha vida, estão profundamente afetados pelo tempo que lhes tocou viver. Este constante adiar do futuro, uma espécie de depressão generalizada que consiste em perceber que sempre que o alcançamos, o futuro, ele não nos convence. São livros que possuem valores operativos que fazem parte do meu ser corporal e psíquico e de uma experiência imediata com o mundo, com atividades do quotidiano, uma operação rumo ao improvável.

2. Dirias que o que te tocou e toca viver está ligado ao facto de viveres fora de Portugal? Como é, para ti, a experiência de escrever a partir de outro lugar? 

Sim, absolutamente. Na verdade tudo começou com uma ida anterior para os E.U.A e já na Galiza produziu-se esse abalo profundo no meu real, uma fenda, uma espécie de demolição do eu, passou a existir uma outra sensibilidade perante as manifestações que se colocavam diante de mim; no fundo, passas a ver aquilo que de outra forma parecia invisível, não dizível. Quiçá uma outra percepção das coisas, um distanciamento até, que, curiosamente, te aproxima de tudo. E isso afectou-me indelevelmente na forma de pensar, nos meus hábitos, nas rotinas, no entendimento comigo mesmo e com o mundo, de tentar perceber o que é isso de ser português (o que é isso de ser português?), e na escrita claro, aliás, sobre isto que refiro há uma frase do Gonçalo M. Tavares com a qual me identifico muito:“Se o mundo não interfere na tua linguagem: muda de cidade”. E respondendo à tua última pergunta, conto-te um episódio com uma amiga romancista que um dia aqui na Corunha me confessou que achava que eu escrevia para Portugal. Nunca me tinha passado pela cabeça o facto de que, de alguma forma, eu pudesse escrever a pensar nesse lugar de origem, mas isso fez-me refletir sobre o meu processo criativo e é certo que de alguma forma os meus livros têm sempre algum texto relacionado com Portugal, embora sejam sempre em tons satíricos, mas, de forma quase instintiva, gosto muito de tornar Portugal numa pessoa, um Portugal antropomórfico. No entanto, não sinto que escreva de outro lugar. Talvez o lugar seja mesmo a escrita, uma espécie de animal antiquíssimo, faminto, que quer constantemente farejar o impossível, estourar de afectos. E a Galiza é isso tudo também, uma enorme aprendizagem, um regresso a mim mesmo, numa (re)descoberta dessa galeguidade que sempre existiu em mim; a cultura, as amizades, as falas, a própria geografia, essa Galécia que ia da Corunha até às margens do rio Mondego.

Macondo. 2020.


3. É precisamente o tom satírico que percorre o teu último livro, Žižek Vai ao Ginásio, publicado no Brasil pela Macondo em novembro do ano passado. Desde do título até poemas como “Vozes em coro” que nos cruzamos, de modo sistemático, com vários exercícios de auto-paródia que não só dizem generalizadamente respeito à cultura portuguesa, como materializam algumas críticas acesas ao meio intelectual. Costumas refletir sobre o exercício do humor, dentro e fora do contexto da poesia escrita em português? 

Para te dizer a verdade não penso muito no exercício do humor, é algo muito espontâneo no meu processo criativo, normalmente é ele que me procura, não o contrário. Mas sem dúvida que a ironia é a melhor forma de combater o absurdo da vida, a imbecilidade, a avareza de espírito. As “Vozes em Coro”, que referes, representam isso mesmo, uma espécie de sistema-nervoso de onde emerge uma multiplicidade de Eus que tentam, de alguma forma, imiscuir-se nesta sociedade actual, esta prurida confusão, nesta aceleração cada vez mais histérica dos acontecimentos que se estende a todos âmbitos da nossa vida. De igual modo, o humor é também uma forma de justiça perante o desânimo que nos assola, uma verdade poética também. E sem dúvida que a literatura escrita em português tem uma forte tradição neste género, Machado de Assis, Lima Barreto, António Vieira são referências vitais. Nós somos filhos/as de contradições e de contrastes, dessa atávica relação com a dificuldade, ou com a impossibilidade, e que se combate com engenho, com criatividade, com a habilidade de reconduzir situações difíceis e suscitar a inteligência de saber rir do próprio absurdo. Eu gosto muito de me rir de mim mesmo, esse mecanismo também me ajuda a enfrentar os imprevistos. E sobre essa crítica acesa ao mundo intelectual que mencionas, ou ao mundo literário, parte também dessa desconstrução, uma espécie de objeção frontal à desordem do possível com que se parte para o texto, colocar palavras a destruir auditórios, poemas sem autor que se apresentam a concursos de poemas, livros que são lançados a mais de sete metros, escritores que são amados pelo seu rosto, ou livros que são entrevistados. Claro que posso ser apanhado na armadilha que eu mesmo montei, mas isso faz parte do jogo, ou da brincadeira, que tudo quer e nada mede.

4. Uma forma de justiça certamente política, e usada também e cada vez mais pelas mulheres. Diz-me, Tiago, se o poema desconstrói um certo conceito de autor(a) e, consequentemente, de leitor(a) [“O fim da literatura”], de que modo encaras, então, a função social do poema? Como podem expandir-se socialmente as tuas críticas humorísticas à mercadologia, à superficialidade e à capitalização do próprio mercado literário?

Sim, sem dúvida uma forma de justiça política. A filósofa Maria Zambrano defendia que todos os tempos são de crise, e a crise, ou as crises que vivemos actualmente, estão a introduzir novas formas de poder que parecem querer reclamar esse domínio sobre novos territórios, até agora inexplorados do humano, forças impulsionadas por novos imperativos económicos anulando inclusive e perigosamente direitos sociais que são imprescindíveis em sociedades ditas democráticas. A função do poema será a de abrir uma linha de fuga, às forças obscuras, aos fascismos que se avizinham ou que já estão aí, à porta de casa, e será sempre essa possibilidade de potencializarmos o pensamento, de encarar o imponderável, de mergulharmos em algo onde não queremos operar de acordo com os trâmites do normal, de chegar também à alteridade do outro, e, claro, criar comunidade. Eu gostaria que o meu ponto de vista, ou as minhas críticas, se pudessem traduzir numa retirada do próprio autor que é essencial em termos de justiça, sob esse exterior que ele recria, assumindo uma posição lateral, em vez de se impor sobre o caminho, passando a ser ele mesmo uma figura que se retira em benefício dessa mesma comunidade, indo assim contra o predomínio narcísico dos nossos dias, indo contra a mercadologia, a superficialidade, que referes. Julgo que o “Fim da Literatura” aborda esta ideia.

5. Em Žižek Vai ao Ginásio, o cuidado com a disposição dos caracteres e do verso é evidente. A sua disposição, bem como o seu grafismo, são, mais do que sonoros, visuais — o que, aliás, me parece ser cada vez mais comum na poesia que se faz hoje em português. Como descreverias a construção da visualidade do poema a partir da acomodação do verso na página e em relação à cadência do texto?  

Eu deixo-me quase sempre levar não tanto pelo que as palavras querem dizer gramaticalmente mas sim pelo seu ângulo sonoro. Tateando as palavras como se estivéssemos no escuro, confrontando até a própria língua, a ditadura da língua. Todavia, as palavras chicoteiam, “Aqui, texto, sentado!” afirmava Maria Gabriela Llansol. E dá-me muito gozo essa construção mais plástica, ser surpreendido na subida e descida das palavras e admitir que o inesperado irrompa como uma solicitação violenta que tudo exige. A sensação de tranquilidade, de alguma maneira para mim não excita a linguagem, a linguagem tem de ser afectada por algo que a perturba. Uma espécie de sismógrafo onde se mede a vida. Uma dança onde a maioria das vezes sabemos que vamos ser dominados e que só nos resta farejar, intuir essa cadência que corresponda com aquilo que mais nos aproxima do mundo. Uma cadência, por exemplo, como a do pianista Thelonious Monk, singular, revolucionária e sensual. 



Tiago Alves Costa. Žižek Vai ao Ginásio. 2019-20.
Vídeo publicado originalmente na Revista Caliban.


6. A par do exercício humorístico, a apropriação é outra das bases formais de um livro como Žižek Vai ao Ginásio. Aproprias não só o esquema do anúncio publicitário, mas também a estrutura da carta, da entrevista, do manual de instruções ou das notificações das redes sociais. Como te posicionas num período onde se fala cada vez mais de não-originalidade e reciclagem literária?

Talvez o drama, pelo menos para mim, é saber que escrevemos quando todas as grandes obras da humanidade já foram escritas. E escrevemos, mais e mais e mais. Contudo o facto de, e citando um dos textos do livro, aumentarmos cada vez mais o número de escritores no mundo torna quiçá cada vez mais difícil a tarefa de encontrar essa singularidade, a não-originalidade, e com tantas lutas literárias, temos depois lutadores de boxe que escrevem livros e que ganham prémios literários [risos]. Mas estamos constantemente reescrevendo, ou reciclando, o que já foi escrito, adaptando-nos ao tempo que nos tocou viver e antecipando-o, quem sabe. Talvez há algo que nos perturba e é por isso que escrevemos. Se tudo estivesse bem, não precisaríamos de escrever. Por um lado não deveríamos escrever, por outro, não se pode não escrever.

7. Em “O vazio da página”, texto de Žižek Vai ao Ginásio, a expressão “sou escritor” é o resultado da equação “jamais serei pintor” + “jamais serei bailarino”. O poema está sempre em contacto com as outras artes?

Sim. Para mim é vital a relação com as outras artes. Convivo muito com amizades do mundo do cinema, pintura, música, dança, e sempre que posso, procuro perscrutar os seus pensamentos, os processos criativos, inclusive criar colaborações. Nos últimos anos tenho trabalhado com o cineasta e criador transmedia Roi Fernandez; fizemos uma sessão de live-cinema e dois filmes-poemas, o último para o Žižek vai ao Ginásio. É extremamente instigante poder fusionar o poema, a sonoridade, a cadência com a linguagem cinematográfica, através da criação de um imaginário em tempo real com manipulação de materiais (cut-ips, cera derretida, kamishibai). Neste último projecto as gravações foram realizadas no Centro Comercial Stop, no Porto, estes míticos shoppings dos anos 70 que estão praticamente abandonados e que representam de alguma forma as próprias ruínas do capitalismo. E foi uma experiência incrível poder gravar ali, e também continuar a aprender com outros olhares e sensibilidades e completar quem sabe esse vazio da página ou o facto de não ser bailarino, ou pintor.

8. Se o humor e a apropriação são as bases formais de Žižek Vai ao Ginásio, o emprego é certamente um dos seus pilares temáticos. 

Sim, sim, é insistir nessas contradições do capitalismo, o ritmo circular do tempo para quem estiver a vender a própria força de trabalho ou a não conseguir vendê-la. Há uma tentativa de explorar o cansaço da sociedade de produção, o esgotamento do corpo, uma espécie de Bartleby 2.0 que está dopado e ao mesmo tempo desprovido de mundo, ausente e apático, e penso que ele surge nessas personagens insólitas do livro: críticos de sonhos, vendedores de sofás especialistas em preguiça, carpinteiros existencialistas; que no fundo querem no seu íntimo rebelar-se contra os dispositivos de rentabilidade, aumentando a voltagem, tensionando tudo ainda mais.

9. Gosto particularmente do fim da entrevista imaginária de Žižek Vai ao Ginásio. Podes comentar esta “coisa de portugueses” a partir da própria poesia portuguesa? Que relação tem ela com o teu trabalho?

Imagino então que esteja desempregado?

Morto-Vivo.

Como assim?

Ao estar desempregado estou morto para o mundo; vivo dentro de mim, à solta, em aparente liberdade. Como um bicho doméstico.

Vive muito então?

Absolutamente, isto é coisa de portugueses, não propriamente de poetas. De quem morre muito, claro está.”


Entusiasma-me muito esse tipo de diálogos-entrevista. Volto aos nossos contrastes, penso que “a coisa de portugueses” é extraordinariamente criativa. Talvez por isso somos mais fadados para a rima do que para a prosa. E eu preciso duma certa (des)ordem, das margens, dessas vozes que tensionam constantemente. Por exemplo, os cães vadios a perseguir uma criança que tenta afugentá-los ao passar de bicicleta, uma ignota voz que grita desde uma janela para o meio da rua, os velhos que protestam de mansinho no centro das praças. Eu acho que continua a ser uma “coisa de portugueses” e que é lindo poder ser revigorada pela poesia ou por outra forma de arte. O diálogo-entrevista explica isto muito melhor do que eu: “Ser português está obviamente naquilo que eu considero ser digno de me representar como português. Mas é muito mais sensível e complicado do que imagina. Ser português foi condição a que naturalmente me obriguei por natureza. E estudei muito para isso! Estudei aquilo que me faltou de algo que nunca quis deixar de ser pela minha vontade de querer ser tudo. Parece-lhe confuso?…”

10. Como foi a experiência de publicar Žižek Vai ao Ginásio pela Macondo no Brasil? Conta-me sobre os projetos em que estás a trabalhar agora.

É uma experiência magnífica, chegar ao Brasil, a um país e uma cultura que eu admiro e onde sempre cultivei amizades. O facto de fazer parte de uma coleção de poetas que muito aprecio e ter a oportunidade de conhecer o trabalho da Macondo e do seu editor, o Otávio Campos, todo o cuidado que têm com autores/as e com as suas obras e a seleção aprimorada que fazem da poesia contemporânea parece-me digno de enaltecer. Quanto aos meus projetos actuais, tenho estado envolvido com o teatro, a trabalhar na peça de teatro o “CUBO” com a companhia de Teatro Elefante Elegante e que estreou no passado mês de maio na Galiza. Em termos mais pessoais continuo escrevendo, mas confesso-te que o teatro parece estar a ganhar cada vez mais preponderância no meu processo criativo, tenho uma obra que está praticamente concluída e que se manifesta como uma espécie de híbrido com vários géneros, assente num cenário burlesco dos nossos tempos. Estou a ver se ganho coragem para a publicar.



6 POEMAS DE ŽIŽEK VAI AO GINÁSIO. MACONDO. BRASIL 2020.


A REALIDADE – DECLARAÇÃO

Para os devidos efeitos se declara que a Realidade se encontra internada no Serviço de Cuidados Intensivos deste Livro-Hospital por neoplasia em estado terminal, estando actualmente em cuidados paliativos, por um período imprevisível de tempo.

Por ser verdade e me ter sido pedido, passo a presente declaração, que dato e assino:

UM MEMBRO DO CORPO
DE GENTE AINDA COM CORPO
QUE PASSOU POR CÁ
POR ACASO


O FIM DA LITERATURA

Há escritores que escrevem para que outros escritores deixem de escrever.
Há escritores que deviam deixar de escrever e que por soberba ou falta de dinheiro
nunca deixam de escrever e tornam-se eles em escritores que escrevem
para que outros escritores deixem de escrever.
Há leitores que quando se apercebem que os escritores nunca deixam de escrever,
e que tudo não passa afinal de um mecanismo contínuo e eficaz de aumentar
o número de escritores no mundo, deixam de ler, e passam a amar o rosto dos escritores.
Há escritores que passam a dedicar-se somente ao seu rosto.



*

depois de ler 4 páginas do seu curriculum
o poeta leu 2 palavras do seu maior poema

a plateia ovacionou sentada



*


VIVA-O-POETA-MORTO

O poeta morreu há muito

______a sua palavra vive

______— VI Congresso Internacional do Poeta
______— Cátedra de Poesia e Transcendência do Poeta
______— Estudos dinâmicos do Poeta-Morto
______— Jornadas de introdução ao estudo da vida do Poeta-Morto
______— Vida-obra e morte do poeta (4 dias de passeio + música ao vivo)

O corpo do poeta morreu há muito

______a sua palavra vive feérica______radiante______produtiva

__________________poeta-morto_______palavra-vida


_____________________________________VIVA-O-POETA-MORTO!



AO POETA INIMIGO

O teu número de ISBN
é tão parecido com o meu





CICLOTÍMICA ARTE DE SER PORTUGUÊS E/OU POETA-MORTO

Mas é poeta?

Sou português. No entanto não quero com isto dizer que não tente representar-me como um autor de desconfianças. Um inquilino de mim mesmo. Um poeta com todas as contas por pagar. Um empregado das palavras, portanto. Alguém que escreve de olhos fechados ou sem aquecimento prévio; sem pensar, como é óbvio.

Mas é português ou é poeta?

Ser poeta está obviamente naquilo que eu considero ser digno de me representar como português. Mas é muito mais complicado e sensível do que imagina. Ser português foi condição a que naturalmente me obriguei por natureza. E estudei muito para isso! Estudei aquilo que me faltou de algo que nunca quis deixar de ser pela minha vontade de querer ser tudo. Parece-lhe confuso? É mais simples do que parece. Digamos que ser poeta foi algo que inventaram um dia para eu poder passar na porta de um bar onde só era permitia a entrada a estrangeiros; estrangeiros, diga-se, com um bom comprimento de onda. Com um bom nível de altura.

Imagino então que esteja desempregado?

Morto-Vivo.

Como assim?

Ao estar desempregado estou morto para o mundo; vivo dentro de mim, à solta, em aparente liberdade. Como um bicho doméstico.

Vive muito então?

Absolutamente, isto é coisa de portugueses, não propriamente de poetas. De quem morre muito, claro está.

Concret_s como frutos nítid_s como pássaros (IV): Volta para Tua Terra (Urutau, 2021)



“Concretos como frutos nítidos como pássaros” é uma série dedicada à divulgação da poesia portuguesa contemporânea no Brasil.

Leia os posts anteriores da série.

Parte I: “Explicação, Miguel-Manso” [fevereiro 2021].
Parte II: “Regina Guimarães, Margarida Vale de Gato, Maria Brás Ferreira” [março 2021].
Parte III: “Poesia Expandida. Fernando Aguiar, Teresa M. G. Jardim, Ricardo Tiago Moura, Alexandre Francisco Diaphra e Marta Bernardes” [maio 2021].







os racistas temem o poeta
os golpistas temem o poeta
os inimigos do povo oh
esses temem o poeta

João Maria Vilanova



O contexto

Em 1996, Marjorie Perloff [1] previu, a partir da democratização da escrita poética [2] e dos movimentos interseccionalmente sociais das mulheres, da comunidade negra e das minorias, a queda inevitável da função modeladora e organizadora da antologia. De facto, o caos informativo de um mundo cada vez mais material e virtualmente globalizado, bem como o dever de incluir os trabalhos das referidas comunidades no debate, transformou e, em alguns lugares do mapa, descartou por completo a dimensão autoritária do ofício do antologador. O descarte assenta não só no perfil exclusivo e limitador, em termos de forma, conteúdo e representatividade, de grande parte das antologias publicadas até aos anos 80, e de alguns casos conservadores recentes, mas também nas particularidades do perfil de quem antologou e, às vezes, antologa ainda o futuro da poesia [3].

A politização da antologia, ou tão-só a sua ineficácia em acompanhar o ritmo das sociedades pós-modernas, explica novos projetos e designações, como, no caso brasileiro, em que a preocupação central parece ser a identidade, as recentes Poesia Indígena Hoje (2020), Poesia Hoje: Negra (2021) ou Poetas Contemporâneas do Brasil (2021) [4], e, no caso português, a Antologia Dialogante de Poesia Portuguesa, organizada por Rosa Maria Martelo em 2020, ou Volta para Tua Terra, co-organizada por Manuella Bezerra de Melo e Wladimir Vaz e publicada pela editora Urutau [5] em 2021, que, ao denunciar pós e anti colonialmente a violência da estrutura racista e imperial do país, reúne poemas de autoras(es) estrangeiras(os) em Portugal.

Volta para Tua Terra. Fotografia de Elizabeth Olegario. 2021.

Volta para Tua Terra: Uma Antologia Antirracista/ Antifacista de Poetas Estrangeirxs em Portugal inclui os trabalhos de 49 autoras(es) nascidas(os) em vários pontos geográficos do Brasil, Moçambique, Cabo-Verde, Guiné-Bissau, Espanha, Angola, México, França, Colômbia ou Itália, e ainda casos pontuais como os de Jamila Pereira, nascida em Portugal e imigrada no Reino Unido ou de Samara Ribeiro, descendente das(os) Kariri.

O termo “estrangeira(o)”, usado no lugar de uma palavra como “imigrante”, amplia, com base na etimologia e nos significados, a dimensão assumidamente política e interventiva do título. As(os) que estão fora são as(os) que, ao contrário da(o) imigrante, não se estabeleceram noutro lugar. Isto, em diálogo com a expressão “volta para tua terra”, que reconhecemos de imediato, gritada, aliás, por Evaristo Marinho antes de assassinar o ator afrodescendente Bruno Candé no dia 25 de julho de 2020, aclara a premissa. Estamos perante uma antologia de autoras(es) que escreverão sobre e contra formas de preconceito a partir da raça, das especificidades da língua, do género, da sexualidade e da classe.

Estrangeira(o) faz igualmente referência ao facto de várias(os) destas(es) autoras(es) viverem em pleno trânsito, entre países, fronteiras, línguas e culturas, pondo, assim, em causa os limites trazidos pela nacionalidade, porque: sem ignorar o valor emocional das particularidades culturais de cada comunidade, mas insistindo também no quão ilusória é a própria particularidade e na certeza de que o que nos faz pertencer é, em simultâneo, o que bane nacionalisticamente o Outro, o que significa exatamente ser brasileira(o), português(a) ou moçambicana(o) num mundo gradualmente mais global? Além disso, como lembra Manuella Bezerra de Melo no texto que prefacia a antologia, quão importa, afinal, no contexto internacional da luta contra a ascensão da extrema-direita, o berço?

Incluo, essencialmente por essa razão, este pequeno ensaio sobre Volta para Tua Terra numa série dedicada à divulgação da poesia portuguesa no Brasil, porque, independentemente de estas(es) autoras(es) não terem nascido em Portugal, elas e eles vivem e circulam por lá. Mais: o que umas e uns escrevem circula não só por Portugal, como entra em contato direto com o que é produzido no país por poetas originalmente portuguesas(es). A possibilidade e os resultados deste diálogo criativo parecem-me muito mais relevantes para o debate crítico, a forma do poema e o crescimento representativo do meio literário português e afro-luso-brasileiro do que a legalidade governamental de qualquer certidão de nascimento [6].

Além disso, Volta para Tua Terra lembra às(aos) poetas originais que, apesar de eventuais coincidências linguísticas e até políticas, a(o) estrangeira(o) latino-americana(o) ou africana(o) não existe e, portanto, não escreve do mesmo lugar de conforto num país colonial [7]. De facto, o propósito de um projeto como Volta para Tua Terra, que, para disputar a satisfação canónica, se apropria justamente de um instrumento tradicional e ocidental [8] — neste caso, a mão que vem e colhe [9] —, não pode ignorar as agressões diárias dirigidas em variadíssimos contextos ao corpo estrangeiro e a preservação impositiva dos sonhos mitológicos e imperiais portugueses.

Quer dizer: o assassinato de Alcindo Monteiro há 26 anos atrás, a tortura e o homicídio de Gisberta Salce Júnior em 2006, os atos de violência racista e machista denunciados pelas(os) estudantes brasileiras(os) da Universidade de Coimbra em 2014 e pelas(os) estudantes brasileiras(os) da Universidade do Porto em 2021, a anedota limitada, ofensiva e tosca de algumas e alguns estudantes da Universidade de Lisboa em 2019, o crime de ódio racial e de género que marcou o corpo de uma mulher negra em 2020 na Amadora, as ameaças de morte dirigidas a certas figuras públicas portuguesas afrodescendentes e ativistas antifascistas em 2020, a brutalidade sistemática dos ataques dos meios de comunicação e da opinião social portuguesas à presença antirracista e feminista de Joacine Katar Moreira no espaço público ou as atitudes efetivamente reacionárias perante a pixação da palavra “DESCOLONIZA” no grupo escultórico que inclui a figura de Padre António Vieira em 2020 [10] são extensões atuais da dinâmica colonial de um país que se recusa ainda a reconhecer as monstruosidades do passado e a sua ligação estrutural com as monstruosidades do presente.

Universidade de Coimbra. 2014.

Vou até mais longe para dizer que o processo de descolonização, que consistirá, em primeiro lugar, no abandono, no questionamento e na destruição do embelezamento da História do colonialismo português, será protagonizado não só pela comunidade portuguesa afrodescendente, mas incontornavelmente pelas mulheres [11] e pelas(os) estrangeiras(os), sobretudo as(os) que visitam ou imigram para Portugal das ex-colónias. Este movimento construtivo, que é, acima de tudo, histórico, político e social, estende-se e estender-se-á cada vez mais e naturalmente à literatura, ao teatro, à performance, à música e às artes visuais e plásticas. Ou: a base do processo de descolonização será este encontro, voluntário, empático e interdisciplinar, entre as(os) descendentes das(os) colonizadas(os) e as(os) descendentes dos colonizadores com o propósito de criar, apoiados na parecença, na diversidade e na diferença, mais de uma versão para a(s) história(s) de Portugal e, consequentemente, para as histórias do Brasil, Moçambique, Cabo-Verde, Guiné-Bissau ou São Tomé e Princípe.

Anticolonial, desobediente e provocadora, Volta para Tua Terra parte do princípio de que a poesia é e deverá ser sempre política e, como escrevi em 2019, “uma prática anticolonial” [12]. O fazer poético não tem como não ser um não, pleno e redondo, dirigido ao sistema que, por seu lado, premeia o poema passivo e monodisciplinar escrito, aprovado ou desaprovado por um conjunto homogéneo de nomes brancos e masculinos.


Os poemas

Começo por reparar que a grande parte dos temas explorados pelas(os) 49 autoras(es) de Volta para Tua Terra se conecta a partir da língua (“a língua correta/ é a das placas e não/ a que sai da sua boca”, Carvalho 2021: 32) [13], ou da miragem de uma língua portuguesa, falada e escrita corretamente, que não existe e, isto posto, do deslocamento linguístico daquelas(es) que não aprenderam o português europeu (“500 e tal anos engolindo o português”, Pinheiro 165), ou tampouco se conformam com a normatividade linguística, detalhe metonímico de uma exclusividade nacional pretensiosa e postiça que suprime, como a invenção da raça, a heterogeneidade e a fluidez do corpo e da fala:

E a conversa é sempre a mesma.
Começa em redondilhas:
/mi nha pá triaé mi nha lín gua/
e logo desterram do inferno
a fúria autoritária
sob a forma dum cavalo de bronze
patrulhando o perímetro da praça.
Mas no rolê sou meio pombo:
rato vagabundo de asa
cagando e andando
na cabeça de estátua.

E roubo.
Tomo tudo,
engulo,
arraso terra,
reparto,
renomeio,
realinho.

Viva o banquete antropofágico
e as vísceras do bispo Sardinha!

(Cruz 46-47; clicar aqui para aceder à versão audiovisual do poema)


A referência ao bispo Sardinha, devorado pelas(os) caetés no nordeste brasileiro em +/- 1556, que Daniel Cruz convoca em “A língua de Camões”, traz, obviamente, para a discussão, o “Manifesto Antropófago” de Oswald de Andrade. Por certo, Oswald encerra o seu Manifesto com a data 374, “Ano […] da Deglutição do Bispo Sardinha”, com o propósito de elaborar um marco temporal e fictício para o início do Brasil [14]. 374 é o produto da subtração errónea entre 1928, ano em que o Manifesto foi escrito e publicado, e 1556, e falha por 2 anos o resultado correto. 372.

Apropriar a história canibalística do Bispo Sardinha corresponde a estabelecer uma associação entre a experiência moderna da imigração e o recomeço simbólico do Brasil ou, se preferirmos, a atualizar a dimensão anticolonial, metafórica e corpórea da antropofagia cultural dos anos 20 do século passado. O Brasil recomeça aqui, simbolica e sistematicamente, na experiência imigratória da(o) brasileira(o) que vive em Portugal nos dias de hoje e que, à semelhança da afronta protagonizada pelo corpo selvagem que devora e rompe com a auto-proclamada superioridade intelectual europeia, se reposiciona em 2021 ao devotar-se ao ataque.

Oswald volta a ser convocado por Ellen Lima em “Outro erro de português” e a chamada é dupla. O poema, que recupera o título do conhecido “Erro de português”, incluído em Pau Brasil (1925), dialoga com o poema de Cruz ao assumir-se, também, como uma investida antropofágica contra o colonizador: “Mas um dia,/ ainda cortamos a tua língua/ e oro-karu com abati” (Lima 67) [15].

A investida vem não só acompanhada da violência do prolongamento moderno do colonialismo, mas da perda que, além de irrecuperável (“minha língua virou ruína/ antes deu nascer”, Braga 39), se manifesta na unilateralidade fantasiosa da História universal (“E os corpos negros, migrantes e pobres/ jamais serão lembrados”, Olegario 63) e na defesa acérrima de dois conceitos tão trágicos quanto artificiais: o universalismo e a branquitude.


Lançamento de Volta para Tua Terra. Fotografia de Ana Viotti.
Casa do Capitão, Lisboa, Portugal. 2021.

Da crítica à mencionada unilateralidade histórica parte, de modo semelhante, o questionamento da pureza eugenista que sustenta, em primeiro lugar, nada menos que a já discutida nacionalidade (Neto 43), pois como, perante a multiplicidade do passado, definir realisticamente, através da manipulação de uma fórmula tão limitadora como a nação, as(os) que descendem das comunidades extintas e amputadas pelo processo colonial ou, a outro nível, o próprio corpo mesclado europeu (“nunca essa cidade foi portuguesa/ é romana, moura, açoriana/ goense, santomense, angolana/ timorense, macaense, moçambicana/ brasileira, guineense, cabo-verdiana”, Crioulo 195) [16]?

A abordagem da hostilidade “besuntad[a] de hipocrisia/ católica” (Carvalho 33), que perpassa toda a antologia, vai do passado (“estes salazares/ estes cabrais/ estes tantos/ genocidas”, Barbosa Jr. 79) até ao presente (“ano passado mataram duas mãos cheias/ de gente que não conjugava bem os verbos”, Braz 113) e, como trauma (Argel 146), desenvolve-se, sobretudo, com base no género (“Ó menina, onde está seu marido?”, Mühlhaus 36), assassinando (De Paulo 96), objetificando (“sou brasileira/ mas não quero/ fuder com você”, Las Casas 57), exterminando,

A cadela que fazia amizade
lambendo feridas e
não sabia abanar o rabo
teve a língua arrancada
_____________(adocicada)
servida com ovos moles

(De Melo 163; clicar aqui para aceder à versão audiovisual do poema)


e com base na raça (“Por que me olhas assim?/ O “preta volta pra tua terra”/ Escancarado no teu rosto”, Dumby 125), ao humilhar (“o homem branco que diz […] que o cão da família/ não estranhou à entrada da casa/ nenhum dos amigos do filho/ exceto aquele escurinho”, Soares 152) e ao impor a hierarquia da invenção da cor sobre o corpo racializado (“onde a mim me impõem a cor// Onde ser preto importa face uma tela”, Semedo 59).

Ivan Braz. “O facão da vovó”.
Volta para Tua Terra. 2021.

Apesar de não abater a violência (“A poesia de nada serve”, Olegario 64), o poema forma-se, ainda assim, para a denunciar. Volta para Tua Terra não introduz apenas o tema autoralmente (são as(os) estrangeiras(os) ou afrodescendentes que agora escrevem), mas fá-lo, ao contrário da práxis padronizada e sob a práxis da sobrevivência [17], através de formas poéticas não-canónicas e deslocamentos históricos estranhos, inesperados ou até surpreendentes para a missão ou postura civilizadora ibérica.

Como escrevi na publicação anterior (III) desta série a propósito do poeta português afrodescendente BIRU, a oralização e o apoderamento corporal do texto invertem a condição linear-discursiva da poesia tradicional e, generalizadamente, a lógica ocidental do esquema hierarquizado e verbal do conhecimento. São, como o humor ou o próprio exercício intermedial, consideradas subcategorias do universo literário e muitas vezes desvalorizadas ou até mesmo elididas por um sistema crítico que, perdido unicamente em si, se fundou e formulou com base na oficialidade e na seriedade da palavra escrita. Ou como comentava Zumthor há 37 anos atrás:

Doze ou quinze gerações de intelectuais formados à europeia, escravizados pelas técnicas escriturais e pela ideologia que elas secretam, haviam perdido a faculdade de dissociar da ideia de poesia da de escritura. O “resto”, marginalizado, caía em descrédito: carimbado “popular” em oposição a “erudito”, “letrado”, tirado (fazem-no ainda hoje em dia) de um desses termos compostos que mal dissimulam um julgamento de valor, “infra”, “paraliteratura” ou seus equivalentes em outras línguas” [18].


Ainda que estas(es) poetas escrevam e esta antologia siga o modelo do livro impresso convencional, a grande maioria delas(es) fá-lo muito claramente com a consciência da palavra falada e cantada. Por essa razão, depois de Volta para Tua Terra ter sido lançada, as(os) suas, seus autoras(es) gravaram, cada um(a), vídeos em que interpretam os textos incluídos no projeto.


Mariana Dorigatti Woritovicz. “Depende quem pergunta”.
Volta para Tua Terra. 2021.


Não é igualmente um acaso que, durante os lançamentos que aconteceram até agora em Portugal, muitas(os) delas(es) tenham performado os poemas com base numa dinâmica em muito similar à da slam poetry que, de resto, vem crescendo desde a organização do primeiro evento em Lisboa, durante o mês de junho de 2009 [19], e que, ao apoiar-se nas tradições estadunidenses e latino-americanas, se fortaleceu graças aos esforços da comunidade portuguesa afrodescendente.

Os vídeos, bem como as performances das(os) autoras(es) de Volta para Tua Terra, condensam uma variedade de sotaques, modos distintos de dizer e um fazer que depende quase exclusivamente do corpo expandido gestual e sonoramente no espaço público. Exemplo: o significado da reescrita subversiva de Fernando Pessoa (“Ó mar salgado, quanto do teu sal/ São lágrimas de Portugal!” [20]) transita da palavra para o som e do som para o gesto no poema de Samara Ribeiro que, à medida que o texto avança, apaga lentamente mais de uma pintura facial do rosto.

Mar salgado
das lágrimas
tupiniquim
vermelho-sangue
umami
das brasas
dos brasis
e brasões
a cortar-lhe em toras
por tão alvas mãos
usurpadoras
corroídas de sol
desbotadas de sal

___________________(Ribeiro 201-202)

Samara Ribeiro. “(Refluxo de mar)”.
Volta para Tua Terra. 2021.

O gesto engrandece significantemente a palavra. Como no vídeo de Murilo Guimarães, onde, ao som da sua voz, vemos, em close-up, as estátuas das três crianças ameríndias que, junto da estátua de Padre António Vieira, compõem o grupo escultórico encomendado pela Câmara Municipal de Lisboa e colocado, em 2017, no Largo Trindade Coelho. O videopoema de Guimarães contraria a tendência de grande parte da opinião social portuguesa que, em 2020, depois da já referida pixação, ignorou, uma e outra vez, a presença das crianças ao focar-se, quase totalmente, na figura do padre português [21]. E são justamente as crianças, dispostas secundariamente em torno do homem branco, que alargam a crítica: “É tua a desdita, Lisboa:/ sorri, esta é a tua história” (185).


Murilo Guimarães. “O presente”.
Volta para Tua Terra. 2021.


As imagens e o movimento que acompanham o texto também estimulam outras interpretações para lá daquelas motivadas pela palavra impressa. Como a figura enigmática de Salazar Crioulo que, de máscara e semi-nu, vagueando ininterruptamente em frente da câmara e exibindo duas frases tatuadas em cada um dos braços (“Vulnerant omnia, ultima necat”; “γνῶθι σεαυτόν” [22]), acrescenta ao papel a ironia crescente do oxímoro autoral. Aliás, a sua participação em Volta para Tua Terra é, em si mesma, oximórica: o autor que, na página, segue as regras da métrica e da rima convencionais cobre, ao mesmo tempo, o rosto e performa o desacato.


Salazar Crioulo. “Cidadela portuguesa”.
Volta para Tua Terra. 2021.


Quase nenhum(a) destas(es) autoras(es) trabalha como videógrafa(o) ou poeta híbrida(o) e é precisamente isso que me agrada nos seus exercícios audiovisuais. Arriscam-se na forma, sem receio ou pudor, para expandir o silêncio bidimensional da página e materializar o caráter interventivo da mensagem. Entendem, por outras palavras, que as questões em jogo, de vida ou morte, importam muito mais do que o conforto da matéria ou as regras do círculo literário. E reconhecem no corpo racializado, feminino, queer, trans, estrangeiro que ocupa o espaço público, o primeiro grande passo para a redimensionalização da poesia e, por conseguinte, da própria sociedade.



[1] “Whose American poetry?: Anthologizing the Nineties”, Diacritics, 26 (3/4), 1996, pp. 104-123. Acessível aqui: http://writing.upenn.edu/epc/authors/perloff/anth.html.
[2] Uso, no entanto, a expressão com algumas reservas, porque, assim como não acredito, no sentido da produtividade furiosa das sociedades pós-modernas, na democratização de algo tão inútil como a poesia, tampouco me parece que o referido processo de democratização da escrita poética disse respeito, nos anos 80, a todas as minorias. Por exemplo: a primeira antologia transgénero e genderqueer, de língua inglesa, foi apenas publicada em 2013 (Troubling the Line: Trans and Genderqueer Poetry and Poetics) e a primeira antologia de poetas transgénero, travestis e não-binários, de língua portuguesa, foi publicada no Brasil apenas em 2018 (Antologia Trans – 30 Poetas Trans, Travestis e Não-binários). “Escrita” quer dizer, além disso, muito mais do que escrever contigua e linearmente.
[3] Não me refiro, como é óbvio, às antologias que reúnem, por exemplo, as traduções dos poemas de autoras(es) que escrevem noutras línguas e que, graças ao trabalho antologador de tradução, são lidas(os) no país estrangeiro de publicação.
[4] Os três dossiês foram publicados pelo projeto p-o-e-s-i-a.org e estão disponíveis aqui: https://www.p-o-e-s-i-a.org/dossies.
[5] Apesar de a sua sede estar localizada no Brasil, a Editora Urutau é-nos apresentada como uma casa editorial de três lugares: Brasil, Galiza e Portugal.
[6] Ao mesmo tempo, Volta para Tua Terra integra o trabalho de poetas portuguesas(es) afrodescendentes. Poderia, além do mais, incluir o trabalho oral de ciganas(os) nascidas(os) em Portugal e, caso ampliássemos o termo estrangeira(o), apontando no sentido de uma ideia de exílio dentro e fora da própria terra, outras vozes brancas.
[7] Ou, a outro nível, a(o) imigrante ou a(o) estrangeirada(o), que, fora do país de origem, escreve a partir de outro.
[8] Questiono, porém, o uso fácil do termo “ocidental”. Além de muito recente e volátil, a demarcação do Ocidente no mapa é, como lembrei em outros ensaios, mais colonial do que geográfica. Cf. Boaventura de Sousa Santos, “Para além de um pensamento abissal. Das linhas globais a uma ecologia de saberes”, Novos Estudos, 79, novembro 2007. Acessível aqui: https://bit.ly/2TrSOyA.  
[9] Costumo, a propósito da antologia, relembrar às minhas e aos meus estudantes a etimologia do próprio termo. ἄνθος [anthos = flor] e λέγειν [​legein = escolher]. Uma colheita de flores.
[10] Recomendo, sobre a pixação da estátua, os textos de Patrícia Martins Marcos (“O   colonizador   afoito:   o   museu   que   Medina   fantasiou e as lições que insiste em não aprender”, Público, 16 jun. 2020) e de Pedro Cardim (“Para  uma  visão  mais  informada  e  plural  do  padre  António  Vieira”, Expresso, 25 de jun. 2020).
[11] Como refiro sempre e de modo incansável, conceber a opressão das mulheres como uma forma de colonialismo não é propriamente recente. Implica, além disso, pensar em duas versões do império: externa (o das colónias) e interna (o próprio território português). Logo, externa = a colonização dos corpos das mulheres das ex-colónias; e interna = a colonização dos corpos das mulheres portuguesas que, como pilares da casa patriarcal, sustentaram igualmente o funcionamento da máquina colonial. Sobre este assunto, recomendo a leitura do estudo de Stephanie Urdang, Fighting Two Colonialisms. Wo-men in Guinea-Bissau (1979), e o livro mais recente de Joacine Katar Moreira, Matchundadi: Género, Performance e Violência Política na Guiné-Bissau (2020), que atualiza precisamente a ideia e o projeto de Urdang.
[12] “P-A-R-A-O-I-D-É: A poesia moderna como prática anticolonial”, Impérios, Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa. Acessível aqui: https://bit.ly/3d0HJyY. Além disso, o termo “anticolonial” poderia ou poderá, um dia, substituir os termos “antirracista”, “antifascista” e “feminista”.
[13] Manuella Bezerra de Melo e Wladimir Vaz, Volta para Tua Terra: Uma Antologia Antirracista/ Antifascista de Poetas Estrangeirxs em Portugal, São Paulo, Urutau, 2021.
[14] Oswald parece, no entanto, não ter lido as cartas do italiano Américo Vespúcio que relata, muito claramente, ter presenciado um ritual antropofágico, com um corpo europeu, em 1501, no Rio Grande do Norte.
[15] O poema de Lima vem acompanhado de um mini-glossário. “Oro-karu” significa, em Tupi, “nós comemos”.
[16] De facto, a descontrução, que é dupla, não diz apenas respeito ao desmantelamento do preconceito em relação ao corpo racializado, feminino ou queer, mas aos instrumentos ideológicos apropriados pelo colonialismo ou pelo salazarismo. Como, por exemplo, no poema “O vinho derramado” (130-132), em que Juliano Mattos se dedica a recontar a história do fado português que, apesar de associado, até hoje, à propaganda salazarista, surgiu entre a classe trabalhadora e grupos anarquistas de Lisboa nos começos do séc. XIX.
[17] Expressão de Homi K. Bhabha. The Location of Culture, London and New York, Routledge Classics, 2004 [1994].
[18] Paul Zumthor, A Letra e a Voz: A Literatura Medieval, trad.: Jerusa Pires Ferreira e Amálio Pinheiro, São Paulo, Companhia das Letras, 1993, p. 8.
[19] Depois do Poetry Slam LX (Festival do Silêncio), surgiram logo depois o Poetry Slam Lisboa e o Poetry Slam Amadora. Fora de Lisboa, surgiu, em 2011, o Poetry Slam Coimbra, que anteciparia mais eventos organizados por várias cidades do país. Almada, Porto, Braga, Aveiro ou Ponta Delgada.
[20] “Mar português”, Mensagem, Domínio Público, Governo brasileiro, p. 11.
[21] Comentei detalhadamente este assunto no artigo “Contra a anestesia, a gargalhada corrosiva: o processo de escrita d’O Kit de Sobrevivência do Descobridor Português no Mundo Anticolonial“, Texto Poético, v. 17, n. 32, Universidade Federal de Góias, 2021. Acessível aqui: https://textopoetico.emnuvens.com.br/rtp/article/view/764.
[22] “Todas ferem, a última mata”; “Conhece-te a ti mesma(o)”.

essa língua tão áspera: “Gatas Selvagens” e a ~língua bastarda~ de Claire Finch e Élodie Petit, por Izadora Xavier

É manhãzinha e estou ouvindo as vozes de Claire e Elódie com risos ao fundo no ano de 2019. Costumava ter um ouvido difícil quando não olhava os olhos das mulheres antes desse ano de 2019, e então desde que o mundo passou a ser contado em a.p, d.p (antes da pandemia, depois da pandemia), meus olhos pedem descanso e ligo nuvens nos ouvidos. Ouço com essa atenção de quem vai para Paris, de quem entra nos timbres e ritmos e risos e tintins. Para o nosso prazer, continue a ler comigo ouvindo isso, assim como uma atenção partilhada: https://soundcloud.com/clarkefinch/jai-toujours-aimee-les-filles-sauvages-de-claire-finch-et-elodie-petit

Eu havia lido as “Gatas selvagens” primeiro em português sem saber quem eram suas autoras, apenas imaginando, e adorando sapatão – a história do desejo -, de onde pudessem ser e sem saber de onde eram e então somos eu e as gatas tantas que se arranham e se embrenham e assanham e viçam gostoso linguarudes (evoé, rafa miranda). O que tu chamas “tô ficando atoladinha” é tão somente a pomba-gira que giro minha língua. Ah, o que tu chamas tu somos.

Fiquei muito curiosa e fui lá brechar o texto, seu primeiro original antes do original em brasileiro, e olha, é uma zine. Eu paro aqui para as digressões dominicais  – de quando era uma selvagenzinha e estava começando a experimentar a cidade e a poesia de uma ~outra forma~ não escolarizada, fora das bibliotecas, através justamente das fanzines de punk-rock (e também do rap com a vizinhança e meus irmãos e primos), e isso foi fundamental para o meu entendimento de “eu sou poeta/ sou publicadora” et allie. – e fico atoladinha mesmo lendo meio molhadinha essa confusão de línguas e isso que sempre digo ~duas línguas dão mais prazer que uma~, e os vários rasgos e risos, embora inscritamente não leia risos, eu entendo os risos que ouço agora nessa nuvem, porque é essa coisa de entrelinhas, como a selvagenzinha que está ali e, penso agora, eu que sempre escrevo tão erradamente o português, hoje até que não, como forma de abastardar o texto que comento. 

Mas para quê comentar o que nossa tradutora comenta e traduz? Ah, sim, porque uma experiência individual é também coletiva, porque a selvagenzinha são tantas olhando-se num espelho de oxum e hoje erguendo a voz em saraus muito muito selvagens. Hoorray!

nina rizzi

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Claire Finch

é escritorx e pesquisadorx cujo trabalho sampleia teorias feministas e queer como formas de intervir na narrativa. Sua pequisa doutoral na universidade de Paris 8 explora as ligações entre a teoria experimental queer e o ativismo feminista acontecendo nos anos 70 na Universidade de Paris 8. Seus projetos mais recentes incluem a plaquete I Lie on the Floor(After 8 Books), o trabalho editorial na publicação da coleção dos primeiros textos datilografados de Kathy Acker em Kathy Acker 1971-1975 (Editions Ismael, 2019) e a tradução para o francês de Debbie: An Epic, de Lisa Robertson (Debbie une épopée, Joca Seria, 2021). [https://clairefinch.com/]

Élodie Petit 

é artista e poeta. Ela experimenta a literatura de um ponto de vista feminista e político sob o prisma das identidades de gênero e das relações sociais de classe. Ela publica regularmente em revistas literárias contemporâneas (Terrain Vague, Nioques, Mouvements, Féros etc.) e performa seus textos em bares lésbicos ou instituições de arte contemporâneas (CAC de Genève, Fondation Ricard Paris, Le Magasin des Horizons Grenoble etc.). Desde 2011, ela está à frente de um projeto de edição de zines que se consagra às escritas marginais e engajadas, Les éditions douteuses. Faz parte de diferentes coletivos de autorxs (RER Q, TON ODEUR) e organiza os sarais de poesia experimental-sapatão CANETTE. Publicou recentemente seu primeiro livro Fiévreuse Plébéienne pela Rotolux Press. Vive e trabalha em Paris. [http://elodiepetit.fr/]

Isadora Xavier – a tradutora

Nasceu em Fotaleza, Ceará e cursou relações internacionais na UnB. Fez um mestrado em sociologia em Paris, quando se tornou frequentadora assídua dos saraus de poesia experimental sapatão feminista. Desde então, tenta traduzir seu estado fronteiriço entre o Brasil e a França, entre a metrópole e a pós-colônia, entre o queer e o feminino em textos publicados nas revistas Raimundo, escamandro, Rosa e, mais recentemente, na coleção A Chama Depende do Combustível. É redatora do webzine queer militante Friction e performou um par de vezes na Station – Gare des Mines em Paris. 

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J’ai toujours aimé les filles sauvages é uma fanzine escrita a quatro mãos por Finch/Petit – em inglês&francês – publicada pelas edições Suck Campari Dyke, das quais xs autorxs são também xs iniciadorxs.

Uma parte desses textos — mais precisamente o manifesto de autoria dupla “O desejo forma toda escrita protege o teu desejo” — foi publicado na revista cheia do É selo de língua em novembro de 2020. Alguns poemas de Élodie, intitulados Arthur Rimbaud A Sapatão, foram publicados na revista Intempestiva n. 4.

Sobre a tradução, eu devo dizer que eu já nem sei mais porque eu fui embora do Brasil e, francamente, eu meio que não vejo a hora de voltar. Parece estranho, já que quando eu cheguei na França o Brasil estava na crista da onda e agora é o contrário. Ou talvez seja por isso mesmo. Imigrar é uma parada estranha, tão difícil de explicar, o estrangeiro ao mesmo tempo tão romantizado e tão vilipendiado (a estrangeira existe?). O lado positivo como o negativo apenas imagens invertidas do poder todo que se inventou para Estados e fronteiras. Acho que quero dizer que finalemente eu imigrei como gesto de rebeldia? Na continuidade dessa rebeldia, eu não apenas saí do Brasil mas, movimento contínuo de volta para uma casa que nunca conheci, saí da heterossexualidade também. O exílio quer dizer perder tanta coisa, mas quer dizer ganhar também.

Perder a própria língua, ganhar outras. Eu comecei a traduzir Élodie e Claire porque parecia estranho viver coisas tão incríveis quanto os saraus de poesia experimental-sapatão que elas organizam, Canette, beber cerveja no meio-fio com todas as minhas amigas mari-macho parisienses, e não saber falar de nada disso em português.

Eu comecei a traduzir Élodie e Claire porque queria transformar a minha língua materna em língua parente: quer dizer, recriar minha ligação com o português não como língua legada que segue uma lógica reprodutiva, mas como “língua bastarda” na qual eu reivento minha relação com o mundo e com as pessoas com quem sinto proximidade lusófona, para poder falar com elas da reinvenção do meu corpo e das minhas formas de amar. Queria compartilhar com essa parentada a ideia de ser minoria de gênero e de falar de prazer, de explodir todas as línguas, de pervertê-las, de salvá-las da redução ao papai-e-mamãe, como agorinha mesmo é isso aqui que está acontecendo quando você me lê. Para falar do que é existir no meu corpo marcado pelo sexo em português. Há para mim alguma verdade no português que eu não encontro em outro lugar e que eu preciso urgentemente desmentir. Por exemplo: que melhor hora para meter a língua nas fissuras do que quando o mundo parece desabar? No Brasil, ele está sempre desabando, e a gente está sempre lá, não? Com o dedo na fissura. Falemos disso. A partir dessas brechas permanente abertas e contra os adoradores da morte, gastaria de contribuir traduzindo/inventando algumas verdades gozosas de pós-mulher.

Além do mais, os textos em si já operam essa tranformação do parentesco com a língua, Claire et Élodie transformando cada uma sua língua materna em língua bastarda. Essa tradução é um jeito de forçar a amizade. E é feita de forma irreverente, e eu me permito, onde faz sentido para mim, trazê-la para o mais perto possível do meu corpo em português. É assim que “jemouillejemouillejemouille” vira “touficandoatoladinhatouficandoatoladinha”. Na hora de traduzir, foi a referência que me veio à cabeça, talvez porque eu estava pensando num bando de sapata bebendo cerveja no meio-fio e que tipo de som poderia estar saindo do carro de alguma delas? Bola de fogo talvez seja um imaginário muito hétero, mas achei que cabia pirateá-lo. Originalmente, jemouillejemouille não é referência à canção nenhuma, acho que nessa França nem o rapeiro mais sacana pensaria em ser tão explícito… “J’ai toujours aimé les filles sauvages” brinca muito, e brinca com um imaginário pornográfico cishet que é sempre meio zoado/subvertido, e é aqui que o funk entra e todas as outras “pombas-gira”, como me disse Nina (achei que no final de uma náite em que enchemos a cara, querer comer coxinha de padaria fazia mais sentido do que querer comer “tacos”) . A ideia aqui é que não há ponto de entrada e saída para as línguas que seja mais limpo do que o outro, mais adequado, correto. Procura a entrada e a saída que parecem mais gostosas, a alegria é a prova dos nove, vulgar sem ser sexy, essa é uma tradução safada, leia com suas amigas, roube as ideias das pessoas que você ama, deixe as pessoas que você ama roubar as suas, pirateie.

Izadora Xavier

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“LÉSBICAS criaram um pequeno mundo nas profundezas e ao largo desse mundo (…) Ou você está apaixonada por alguém ou não está. O principal de estar apaixonada é que você sabe que está apaixonada: ou você está voando ou você está a ponto de se matar.”

Kathy Acker, Eurídice no Submundo 

Eu sempre gostei das gatas selvagens

sumário 

Ressaca-recife é um momento vazio na beira de um cinzeiro cheio do suco dela, porque TUDO É CENÁRIO PARA O DESEJO, E SEU CORRELATO, DESESPERO, eu quis ainda assim a boca, no entanto Amar é difícil mas o amor é uma vaca, o que nos deu coragem e vontade de tirar toda a nossa roupa e de se juntar todas numa mesma sala NO QUAL ESSA MINA TROUXE POPPERS PRO GRUPO DE LEITURA: assim nasceu a  Língua bastarda 

[…]

Para preservar a formatação especial do texto optamos por disponibilizar o pdf para download. Clique para baixar, é realmente um acontecimento literário!


[Na imagem em destaque: étaïnn zwer, Camille Cornu, Rébecca Chaillon, Wendy Delorme, Élodie Petit & Claire Finch, da coletiva RER Q.]

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XANTO | Adam Zagajewski: In Memoriam, por Marcelo Paiva de Souza

Em meio a tantas, em toda parte, nos tempos que vamos vivendo – quantas mais, em nosso país, sob as torpezas de um necrogoverno desabridamente aliado à pandemia? –, a morte do poeta polonês Adam Zagajewski (1945-2021) em Cracóvia no último dia 21 de março não chegou de pronto a meu conhecimento. Ao contrário da suspeita que já acorre quase que num reflexo, a causa mortis não foi a covid-19. Como quer que seja, porém, o sentimento de perda não se atenua por isso. Para expressá-lo, Anna Arno, jovem ensaísta, tradutora e escritora polonesa, lançou mão das palavras de outro grande poeta de sua nação, Leopold Staff (1878-1957): “I rośnie, rośnie pustka dokoła olbrzymia” – “E cresce, cresce em redor um vazio imenso” (o verso pertence a “Martwa pogoda” – “Tempo morto”, poema de livro homônimo, publicado por Staff em 1946; o breve e tocante texto de Anna Arno toma emprestado o mesmo título – ver Martwa pogoda – wydawnictwoproby).
Deixo aos obituários a difícil tarefa de apresentar sinoticamente vida e obra de Zagajewski a quem delas não tenha notícia (entre outros, vale conferir Muere el poeta polaco Adam Zagajewski, premio Princesa de Asturias de las Letras 2017 | Cultura | EL PAÍS (elpais.com) e Adam Zagajewski obituary | Poetry | The Guardian; para um texto com acento mais pessoal, ver Adam Zagajewski ist tot: Ein Nachruf von Michael Krüger – WELT). Meu propósito aqui é apenas render um pequeno tributo à memória do autor, compartilhando um punhado de seus versos em tradução para o português do Brasil. A maior parte dos poemas que se seguirão leva minha assinatura como tradutor. Mais ou menos perto de um resultado que me satisfizesse, os textos estavam na gaveta há vários anos e foram retomados e concluídos (?) agora, para que viessem a lume no Escamandro. Mas me pareceu oportuno, igualmente, que o gesto de tributo a Zagajewski se desdobrasse também em uma homenagem a seus primeiros tradutores entre nós, aos colegas de métier que envidaram esforços, em iniciativas pioneiras, para incorporar a poesia zagajewskiana ao acervo literário brasileiro.
Datadas de meados e de fins dos anos 1980, essas investidas tradutórias inaugurais infelizmente (ainda) não culminaram no que seria preferível: a publicação em livro de poemas de Zagajewski em versão brasileira. Ambas tiveram seu impacto, decerto, não obstante a veiculação limitada. Achando-se em evidência para além do meio impresso, poderão quem sabe chegar a mais leitores – e ampliar, assim, pouco a pouco, a incipiente recepção do autor polonês em nossas letras (no mundo, ela já vai longe, sem excluir Portugal — em 2017, em Lisboa, uma antologia da produção poética zagajewskiana foi dada à estampa pela editora Tinta-da-china: Sombras de sombras; selecção e trad. de Marco Bruno, revisão de Jorge Sousa Braga).
Salvo engano, devemos à parceria de Grażyna Drabik e Ana Cristina Cesar os primeiros versos de Adam Zagajewski traduzidos e postos em circulação no Brasil. Os textos foram publicados – juntamente com obras de Czesław Miłosz, Anna Kamieńska, Anka Kowalska e Ryszard Krynicki, entre outros – em “Poemas da greve e da guerra”, quarta e última parte do volume Polônia: o Partido, a Igreja, o Solidariedade, nº 15 dos Cadernos do ISER, organizado por G. Drabik e Rubem César Fernandes (Rio de Janeiro: Instituto Superior de Estudos da Religião; Marco Zero, 1984, p. 321-341). Enriquecendo o material enfeixado no volume, que se propôs o objetivo de “fornecer elementos para a compreensão […] do Solidariedade” (p. 7), os “Poemas da greve e da guerra” trazem uma seleta de versos que prestam testemunho, conforme arrazoa Drabik, da “importante presença” dos poetas no bojo do movimento, em desafio aos órgãos de repressão do Estado, “às mentiras oficiais, à propaganda ufanista, ou ao cômodo silêncio” (p. 324). A dicção ríspida e alerta de “Espinhos” (p. 339), característica da poética zagajewskiana até aquela altura (o poema é de 1982), fornece um bom exemplo da gama de vozes reunidas na seleta – e do engenho tradutório que as recriou:

Se os ditadores quisessem
ler os nossos poemas ferozes, raivosos
e bem trabalhados, a poesia
certamente mudaria o mundo. Mas
as rosas também não conhecem os versos
que lhes são dedicados. Os espinhos
não bebem sangue.

Originadas em um contexto conturbado, um movimento corajoso e arrebatador de protesto, com maciça adesão social, a que o regime então em vigor respondeu com máxima violência – cassetetes, tanques e lei marcial –, as vozes poéticas vertidas por Grażyna Drabik e Ana Cristina Cesar repercutiram num Brasil também turbulento, de manifestações multitudinárias pelas “Diretas Já” e uma ditadura que, muito embora estertorante, teimava em não acabar… Hoje, em vista de tudo que restou do Brasil daqueles dias – e teima em não acabar, a leitura de “Espinhos” guarda suas arestas e ganha nova pungência.
Na Polônia e no mundo, eram bem outras as circunstâncias quando Zagajewski constituiu objeto de mais uma empreitada de tradução entre nós. Em fins de 1989, em Brasília, dá-se à estampa no Suplemento nº 3 da revista Aproximações – Europa de Leste em Língua Portuguesa, em inspiradíssima versão brasileira de Henryk Siewierski, com revisão de José Santiago Naud, “Eliade” (p.13-14):

Romênia, melancolia, longos passeios
a pé ou de canoa (a tempestade no Danúbio
podia terminar em tragédia),
depois a viagem à Índia, Lisboa, Londres,
afinal Paris – rue Vaneau – e Chicago.
Quis ser como Buda ou Sócrates –
tirar-nos dos porões da história.
Centelha dos deuses – conjurava –, ensina-me o riso da alegria!
Centelha dos deuses, põe de pé os combalidos
refugiados da Moldávia, que dancem, que esqueçam
as casas arruinadas, a enchente, os túmulos.
Judeus, já não tenhais medo das perseguições,
espera-vos um momento de êxtase, a felicidade.
Centelha dos deuses, livra-nos da tirania trivial
dos Neros, dos Tibérios modernos;
ar, abre as comportas da magia.
Pois se até objetos miúdos – alfinetes,
correias, pentes – conhecem o sabor da eternidade.
Os arqueólogos acaso não os encontram
na poeira e no barro onde repousam, em paz,
como se fossem sonhados pelos grandes pintores?
Pensionistas deste século, não sabeis
que por toda parte há lumes de júbilo,
que os bons espíritos seguem-nos na ponta dos pés
e que seus corações invisíveis batem levemente
como os pequenos martelos numa ária de Mozart?
O historiador da religião – escreveu sobre ele
Cioran – não sabe rezar.
A salvação é uma onda alta, cega, quebrando
em costa de areia, se houver costa, oceano,
nuvem negra e lua, governadora do céu.
Os demônios da Europa do Leste, que eram sua paixão,
vieram ao seu funeral no cemitério americano
e riram inaudíveis, com admiração.

Siewierski recria em português um poema que, à primeira vista, sequer parece obra do mesmo autor de “Espinhos”. Esculpindo em verso uma notável estela funerária para Mircea Eliade, Zagajewski adota uma dicção grave e caudalosa, que intercala, com arte requintada, rememoração e reflexão, notas elegíacas, mas também luminosas. Assim, entre serenidade e arroubo, o autor polonês evoca não apenas o estudioso romeno; em relances, vão emergindo paisagens e dramas daquela outra Europa, que experimentou tão de perto tantos cataclismos da história no século XX.
Mais um deles, aliás, estava em curso na altura em que “Eliade” é publicado em nosso idioma. Recordemos que 1989 assinala um ponto crítico na desintegração do antigo bloco socialista: a cortina de ferro afinal ia se rompendo (no caso polonês, em particular, avançam decididamente ao longo daquele ano as transformações no sistema político do país). O signum temporis da operação tradutória, de novo, merece destaque, sem mencionar o fato de que ela é levada a cabo por um europeu do Leste radicado em solo brasileiro. A “centelha dos deuses” do texto zagajewskiano não havia justamente se deixado conjurar? Não era hora do “riso da alegria” e de intensos “lumes de júbilo”? “Centelha dos deuses, livra-nos da tirania trivial/dos Neros, dos Tibérios modernos”! Do seu presente ao nosso, o traslado de Siewierski assume inflexões singulares, reverberando – lá e cá – em inesperados, sugestivos efeitos de sentido.
Quanto aos poemas que traduzi, algumas observações apenas, para que não tarde mais o momento da leitura dos próprios textos. A diretriz de escolha tentou combinar os caprichos do gosto pessoal e critérios básicos de representatividade: abrangência cronológica, por um lado; por outro, diferenciação temática e formal. O conjunto de obras é quantitativamente modesto, mas a despeito disso contempla distintas etapas e facetas do verso zagajewskiano. “Plany, sprawozdania” (Planos, relatórios) e “Komunikat” (Comunicado) pertencem a List (Carta), que tem uma primeira edição clandestina em 1978; “W cudzym pięknie” (Na beleza alheia) pertence a Oda do wielości (Ode à multiplicidade), cuja primeira edição, também clandestina, data de 1982 (o volume incluiu uma versão ampliada de List); “Oglądając Shoah w pokoju hotelowym, w Ameryce” (Vendo Shoah em um quarto de hotel, na América), integra a coletânea Płótno (Tela), de 1990; por fim, “Spróbuj opiewać okaleczony świat” (Tenta cantar este mundo machucado), é de Anteny (Antenas), livro publicado em 2005. “Planos, relatórios” e “Comunicado” são poemas que remontam aos inícios da trajetória criativa de seu autor (Zagajewski estreia em fins dos anos 1960, no contexto da assim chamada “Nowa Fala” [a Nova Onda] – mais detalhes em Adam Zagajewski – Biography | Artist | Culture.pl); “Na beleza alheia”, “Vendo Shoah em um quarto de hotel, na América” e “Tenta cantar este mundo machucado”, por seu turno, fornecem amostra de levas posteriores da produção poética zagajewskiana, em seu estilo maduro.
A edição de que me vali para as traduções é a antologia Wiersze wybrane (Poemas escolhidos; Kraków: a5, 2010), com exceção de “Plany, sprawozdania”, texto não incluído na obra e para o qual recorri a uma recente reedição em e-book de List. Oda do wielości (Warszawa: Biblioteka Narodowa, 2021; disponível gratuitamente em List ; Oda do wielości – Zagajewski Adam | Polona). A discussão de problemas do processo tradutório – e das soluções que dei a eles – seria demorada; terá de ficar para outra ocasião. Tampouco me permiti o acréscimo de notas aos poemas em português, fossem elas de cunho tradutológico ou tão-só informativo. Cabe todavia alertar que nos versos assombrosos de “Vendo Shoah em um quarto de hotel, na América” o diálogo interartes com o filme de Claude Lanzmann envolve claras referências biográficas: Zagajewski passou a infância e a adolescência em Gliwice, cidade a cerca de 60 km de Oświęcim.
“Tenta cantar este mundo machucado” encerra a breve sequência de textos aqui reunidos. Como é o caso no original e nas muitas línguas em que está traduzido, que seus versos sejam também para nós uma espécie de memento. E, talvez, um pouco de consolo.


Plany, sprawozdania

Naprzód są plany,
potem sprawozdania
Oto jakim językiem
umiemy się porozumiewać
Wszystko musi być przewidziane
O wszystkim trzeba
później opowiedzieć
To, co zdarza się naprawdę
nie zwraca niczyjej uwagi

Planos, relatórios

Primeiro são os planos,
depois os relatórios.
Eis a língua em que
conseguimos nos entender
Tudo tem de estar previsto
Mais tarde é preciso
relatar tudo.
O que acontece mesmo
não chama a atenção de ninguém.


Komunikat

Jeśli żyjesz w państwie deficytowym,
w którym wielka ilość przemówień
równoważy wszystkie niedomówienia,
w którym ogrody botaniczne i zielniki
są wzorem poprawności językowej
a ulubioną potrawą ludności
są gołąbki pokoju, jeśli mieszkasz w kraju,
w którym płoną róże, ulice są coraz szybsze,
miasto pochyla się jak słonecznik
i jednomyślnie rosną lasy,
gdzie każdy nosi przy sobie swoją fotografię
i imiona zmarłych, gdzie wyznaje się
ironiczną religię wspomnień i podwójnej wiary,
napisz do mnie; zbieram widokówki,
interesuję się muzyką, malarstwem,
filatelistyką, sportem i poezją.

Comunicado

Se você vive em um Estado deficitário,
em que o grande número de discursos
compensa tudo que não é dito,
em que jardins botânicos e herbários
são um modelo de correção de linguagem
e o prato predileto da população
são as pombas da paz, se você mora em um país
de rosas que queimam, de ruas cada vez mais rápidas,
em que a cidade se curva como um girassol
e os bosques crescem unanimemente,
onde cada um traz consigo sua foto
e os nomes dos mortos, onde se professa
uma irônica religião de lembranças e de dupla fé,
me escreva; coleciono postais,
me interesso por música, pintura,
filatelia, esporte e poesia.


W cudzym pięknie

Tylko w cudzym pięknie
jest pocieszenie, w cudzej
muzyce i obcych wierszach.
Tylko u innych jest zbawienie,
choćby samotność smakowała jak
opium. Nie są piekłem inni,
jeśli ujrzeć ich rano, kiedy
czyste mają czoło, umyte przez sny.
Dlatego długo myślę, jakiego
użyć słowa, on czy ty. Każde on
jest zdradą jakiegoś ty, lecz
za to w cudzym wierszu wiernie
czeka chłodna rozmowa.

Na beleza alheia

Só na beleza alheia
há consolo, na música
alheia, na poesia alheia.
Só nos outros há salvação,
embora saiba a ópio estar
sozinho. Os outros não são o inferno
quando os vemos de manhã e
têm a fronte limpa, lavada pelos sonhos.
Por isso penso longamente
na palavra a usar, ele ou você. Cada ele
é traição de algum você, mas
em troca o poema alheio espera
para uma conversa certa e serena.


Oglądając Shoah w pokoju hotelowym, w Ameryce

Noc bywa delikatna jak sierść źrebaka,
ale my wolimy szachy lub karty: oto
goście hotelowi śpiewali happy birthday to you
a jednooki telewizor obojętnie tasował obrazy.
Drzewa mojego dzieciństwa przepłynęły ocean
i pozdrawiały mnie oschle z ekranu.
Polscy chłopi wdawali się w teologiczne spory
z jezuicką swadą, tylko Żydzi milczeli,
zmęczeni długim umieraniem.
Strumienie moich wakacji płynęły ostrożnie
przez nieznany sobie, obcy kontynent.
Wozy drabiniaste wiozły włosy zamiast siana
i skrzypiały ich osie pod puszystym ciężarem.
Jesteśmy niewinne, oświadczały sosny.
Esesmani zamienili się w kruchych starców,
lekarze walczyli o ich serce, życie, sumienie.
Było już późno, czułem podstępną falę senności.
Chciałem zasnąć, zasnąć, ale goście hotelowi
coraz głośniej krzyczeli happy birthday to you
(wołali głośniej niż umierający Żydzi).
Wielkie ciężarówki zwoziły gwiazdy z firmamentu,
pociągi jechały melancholijnie w deszczu.
Jestem niewinny, usprawiedliwiał się Mozart,
tylko osika drżała jak zawsze,
przyznając się do każdej zbrodni.
Gdzie jest mój dom, śpiewali czescy Żydzi.
Nie ma domu, domy płoną, w domach gwiżdże zimny gaz.
Byłem coraz bardziej senny i niewinny.
Telewizor zapewniał mnie: my obaj
jesteśmy poza wszelkim podejrzeniem.
Urodziny stawały się coraz bardziej huczne.
Usypane w sięgającą nieba piramidę
buty Oświęcimia skarżyły się cicho:
niestety, przeżyłyśmy ludzkość.
Śpijmy, śpijmy, nie mamy dokąd pójść.

Vendo Shoah em um quarto de hotel, na América

A noite costuma ser suave como o pelo de um potro,
mas preferimos o xadrez ou o carteado: alguns
hóspedes do hotel entoavam happy birthday to you
e o olho da televisão, indiferente, embaralhava imagens.
As árvores da minha infância cruzaram o oceano
e me saudavam secamente da tela.
Campônios poloneses se metiam em disputas teológicas
com uma verve de jesuítas, só os judeus calavam,
cansados de sua longa morte.
As correntezas das minhas férias fluíam cautelosas
em um continente desconhecido, estrangeiro.
Carroças carregavam cabelos em vez de feno
e seus eixos rangiam sob o peso macio.
Somos inocentes, declaravam os pinheiros.
Os SS se transformaram em frágeis idosos,
médicos lutavam por seu coração, vida, consciência.
Já era tarde, eu sentia uma onda ardilosa de sono.
Queria dormir, dormir, mas os hóspedes do hotel
berravam cada vez mais alto happy birthday to you
(clamavam mais alto que os judeus agonizantes).
Grandes caminhões traziam estrelas do firmamento,
trens seguiam melancolicamente na chuva.
Sou inocente, justificava-se Mozart,
só o choupo tremia como sempre,
pronto a confessar quaisquer crimes.
Onde é minha casa, cantavam os judeus tchecos.
Não há casa, as casas queimam, sibila nas casas um gás frio.
Eu me sentia mais e mais sonolento e inocente.
A televisão me assegurava: nós dois
estamos além de toda suspeita.
O aniversário era cada vez mais ruidoso.
Amontoados em uma pirâmide beirando o céu,
os sapatos de Oświęcim se queixavam surdamente:
eis, então, sobrevivemos à humanidade.
Durmamos, durmamos, não nos resta aonde ir.


Spróbuj opiewać okaleczony świat

Spróbuj opiewać okaleczony świat.
Pamiętaj o długich dniach czerwca
i o poziomkach, kroplach wina rosé.
O pokrzywach, które metodycznie zarastały
opuszczone domostwa wygnanych.
Musisz opiewać okaleczony świat.
Patrzyłeś na eleganckie jachty i okręty;
jeden z nich miał przed sobą długą podróż,
na inny czekała tylko słona nicość.
Widziałeś uchodźców, którzy szli donikąd,
słyszałeś oprawców, którzy radośnie śpiewali.
Powinieneś opiewać okaleczony świat.
Pamiętaj o chwilach, kiedy byliście razem
w białym pokoju i firanka poruszyła się.
Wróć myślą do koncertu, kiedy wybuchła muzyka.
Jesienią zbierałeś żołędzie w parku
a liście wirowały nad bliznami ziemi.
Opiewaj okaleczony świat
i szare piórko, zgubione przez drozda,
i delikatne światło, które błądzi i znika
i powraca.

Tenta cantar este mundo machucado

Tenta cantar este mundo machucado.
Lembra-te dos longos dias de junho
e dos morangos silvestres, gotas de vinho rosé.
Das urtigas que tomaram, metodicamente,
as casas abandonadas dos exilados.
Tens de cantar este mundo machucado.
Viste navios e iates elegantes;
um tinha pela frente uma longa viagem,
por outro, esperava apenas um salgado nada.
Viste refugiados seguindo para parte alguma,
ouviste carrascos cantarolando alegremente.
Tinhas de cantar este mundo machucado.
Lembra-te dos instantes em que, juntos
no alvor do quarto, a cortina se alvoroçou.
Volta na mente ao concerto, quando a música eclodiu.
No outono, colhias no parque os frutos dos carvalhos
e as folhas esvoaçavam sobre as cicatrizes da terra.
Canta este mundo machucado
e a peninha cinza perdida pelo tordo,
e a luz delicada que vagueia e se vai
e regressa.