poesia, tradução

Paul Van Ostaijen, por Gustavo Racy

Paul Van Ostaijen (22 de fevereiro de 1896, Antuérpia — 18 de março de 1928, Miavoye Anthée), foi um dos mais significativos representantes do modernismo flamengo. Tendo exercido diferentes funções em sua cidade natal, um exílio em Berlim após a Primeira Guerra, causado por seu ativismo flamengo, o levou a desenvolver aquilo que ele chamou de expressionismo “orgânico” ou “clássico”. Sua tipografia rítmica, repleta de absurdo, humor e niilismo talvez se faça presente de modo mais marcante em Bezette Stad (Cidade Sitiada), de 1921, em que o autor aborda a vida em sua cidade natal sob ocupação alemã. Um poeta ativo, Van Ostaijen foi amigo de muitos escritores e artistas de sua geração. Entretanto, morreu isolado, em 1928, vítima de tuberculose, nas Ardenas da Valônia, e teve seus últimos poemas publicados postumamente.

Gustavo Racy (1988—), nascido e criado em São Paulo, é antropólogo e filósofo de formação. Atualmente vive na Antuérpia, onde trabalha como pesquisador doutorando no Grupo de Pesquisa em Cultura Visual e Digital (ViDi), da Universidade da Antuérpia. Publicou alguns poemas esparsos em coletâneas e trabalha, atualmente, num ciclo de poemas sobre a cidade flamenga.

* * *

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poesia

Patricia Lavelle

Patrícia Lavelle nasceu no Rio de Janeiro, é professora do Departamento de Letras da PUC-Rio, associada ao Programa de Pós-graduação em Literatura, Cultura e Contemporaneidade. Doutora em filosofia pela École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris, onde morou entre 1999 e 2014, tem livros de ensaios publicados na França e no Brasil, suas pesquisas problematizam as relações entre criação literária e reflexão filosófica. Como poeta, publicou Migalhas metacríticas (7Letras, coleção megamíni, 2017) e Bye bye Babel (7Letras, 2018)

Bye bye Babel obteve a primeira menção honrosa do Prêmio Cidade de Belo Horizonte, edição de 2016.

* * *

Eco
(a Paulo Henriques Britto)

Nem sempre corresponde. “Responde onde?”
Pondera, repetindo. “Repetindo?”
Responde, repetindo lindo lindo
o eco à minha última palavra.

A lavra de ouro, essa palavra em larva…
“A lavra em larva?” Metáfora parva.
Imagem sonora em caricatura?
Cacofonia numa bela figura?

Figura bela “belabel a bel”
em eco invertida: abel, babel.
Vertida essa vertigem em espelho

partido de Narciso… “Ciso, siso?”
E nisso ironizo… é, ironizo.
Quem é que sonha em prosa? Eco trova.

 

§

O Tradutor

O corpo contorce
um gesto sem
som
esboça ritmos
em movimento arrítmico
dos lábios.

Entre duas tramas
(fonemas
palavras
sintagmas
sintaxes
sentidos
entre parêntesis)

um hiato:
cesura a-semântica
intervalo

e salto

§

Traduzida
(a partir de um poema de Ricardo Domeneck)

A língua do tradutor invade a minha boca
e lúbrica aliso a plástica muscular
de suas vogais macias
e essa reta ligeiramente ascendente
de cada frase sua
penetra
o elástico rítmico das minhas sílabas
em duplo silêncio
gozo
o eco nessa outra voz
langueur monotone
dentro.

§

Diálogo

Senti teu olhar endurecer
entre as minhas
palavras:
intumescência imediata
naquela fenda
obscura
entre o corpo e o discurso.

§

O corpo e a voz

Na sucessão de gestos matinais
uma involuntária contração
no músculo do braço
esquerdo

distrai minha atenção

Entre o corpo que ele é
e o corpo que ele tem,
um vai-e-vem
move membros e coisas

Tensão que se traduz
no timbre grave da voz

Entre a palavra que ele é
e as línguas que ele fala
uma só voz
vem e vai.

§

Metáfora

Suspenso o significado
a palavra espera
aberta
numa frase estranha,
brecha de onde o sentido
se projeta.

No abismo da imagem
o verbo é vertigem.

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poesia

Ericson Pires (1971-2012)

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Ericson Pires (1971-2012) era poeta, performer, ator, músico, produtor e agitador cultural, além de mestre e doutor em Literatura pela PUC-RJ e um dos fundadores do CEP 20.000, ao lado de Guilherme Zarvos e Ricardo Chacal. Foi também faixa preta e professor de jiu-jitsu, além de professor adjunto do Instituto de Arte da UERJ. Criou o coletivo musical HAPAX, o RRRadical et alii. Publicou, como poeta, os livros Cinema de garganta (Azougue, 2002) e Pele tecido (7Letras, 2010). Como ativista, publicou o livro Cidade ocupada (Aeroplano, 2007), um manifesto que defendia a ocupação urbana pela arte. Como acadêmico, publicou Zé Celso Oficina-Uzyna de corpos (Annablume, 2004), que é um desdobramento de sua dissertação de mestrado. Morreu em 2012 devido a problemas decorrentes de uma pancreatite aguda.

 

sergio maciel

* * *

 

CANTO III
(MISTÉRIO DA NECESSIDADE)

– aquele que escreve é
também aquele que
é escrito –
…………………………………………a potência
…………………………………………de nadar no tempo
…………………………………………a insistência
…………………………………………de sentir o fio
…………………………………………a querência
…………………………………………de brotar acaso

…………………………..continuo a inventar o instante
…………………………..contínuo
…………………………..mantenho meus sentidos alertas
…………………………..desperto
…………………………..imagino um mundo que não acaba
…………………………..destaco

e não acontecerá mais coisa alguma que não se possa inventar
e não esqueceremos absolutamente que se pode esquecer
e não poderemos ficar parados diante do imenso centro sol

as mudanças são encontros de mundos que se movem

– tudo pulsa –

é necessário fazer listas intermináveis
…………………….cruzar linhas infindáveis
…………………….tecer sonhos inimagináveis

é necessário cozer a roupa que parte o dia da noite
…………………….a luva que colhe o prato do sol
…………………….a calça que cobre o rubro do céu

é necessário criar no peito o grito que alinhava os fios

……………………………………………..o grito frio do calor que queima

o grito de todos os gritos de todas as paixões
…………..de todos os anseios de todas as medidas

o grito de todos os cantores de todas as desditas
…………..de todos os que mentem de todos os que gritam

…………..de todos
……………………………………….os que traem
……………………………………….os que sujam
……………………………………….os que mudam
……………………………………….os que lutam
……………………………………….os que sacam
……………………………………….os que escapam
……………………………………….os que traçam
……………………………………….os que podem
…………..de todos
……………………………………….os que partem
……………………………………….os que primam
……………………………………….os que saem
……………………………………….os que vibram
……………………………………….os que lascam
……………………………………….os que lambem
……………………………………….os que sentem
……………………………………….os que gozam

é necessário devorar leão ser leão ter a juba leão
…………………….correr na pata leão rugir leão quando ruge leão
…………………….cheirar como cheira leão
………………………………………………………………………….atacar leão

é necessário levar o dia a rodar o cu da boca
…………………….a boca a gemer gozo lua
…………………….a luz a beijar o útero sol

é necessário manter o corpo aberto
………………………………….o topo aberto
………………………………….o toque aberto
………………………………….o foco aberto

………………………………………………….manter aberto tudo que escoa
……………………………………………………………………………tudo que esvai
– pensar:
necessidade –

………………………………………………….trazer as linhas
………………………………………………….novo novilho
………………………………………………….fazer as linhas
………………………………………………….movo moinho
………………………………………………….perder as linhas

………………gritar uma super nova a cada minuto

……………………………….– o amor brilha –

§

 

CANTO I
(ROMANCE DE PERDER)

– a hora do que é
poderá ser a obra do que
SERÁ

neste momento

tudo pode

SERÁ
SOL

neste momento
(ser agora novamente)

noite perdida
pequena

noite perdida
tornada

de novo sol
de novo –

serei aquele que imaginou o não agora?
serei só o número ímpar no destacamento?
serei o instante instável reforçando o mínimo?
serei o que não poderá o que não retornará?

o que será aquilo que simplesmente é
o que simplesmente foge
o que simplesmente
simples escorre?

Lista lisa de tecido solto

– não ser no sou só:
encontrar fios –

serão os traços que esconderão?
as bordas que transportarão?
os acasos que multiplicarão?

(nenhuma verdade existirá ou restará)

imagens se sucedem:

anúncios estabelecendo possibilidades amargas do possível
taperas tentando esconder aquilo que é comum ao comum
serpentes escapando do jardim fechado pela madrugada

ser aquilo que será sendo
(o ser não existe
existe o é
é o é que será)

– sendo senderos –

será real não escapar do que pode ser?
será alguém escapando ao dito?
será você escutando o que não deveria?
será meu irmão cantando por não saber o que poderá ser?

Fios seguem
Rumos sedem
Trapos rompem

Você é o que não poderá ser sem poder
Você esqueceu que qualquer um que só quer poder
não será
Você pediu para dizer que qualquer um é um que poderá
não ser
você acha que é
simplesmente é

você brilhará no espelho que eu quebro

imagens tecem:

falhas moverão folhas de um álbum que jamais irá perdurar
fontes capturam bicas que secarão solitárias trabalhando secando
flâmulas estarão completamente ríspidas seguindo o refugo
faixas não sinalizarão o Sol surgindo desesperadamente só

solitude é uma canção
– chamarei o Sol para conversar –

remédio é sentar ao sol

SOB O SOL
SALVE SOL
SANGUE SOL

Às vezes dói

– chão se rasga céu sem nunca parar chão –

dói sem dor

quero curar da cura que cura

SOL

voltar ao resto que repete outro

o que retorna é aquilo que sempre esteve de novo
– teia circular: querer perder –

§

 

FALA TECIDA

Tecer-se
Catar em cada parte o fio que se perde
Tecer-se
Trair cada fim que se pretende
Tecer-se
Criar cada outro que cria outros

Não há equidistância possível entre o dito e o imaginado
Nenhuma palavra resume em si o sentido que lhe cabe
A fatalidade inesperada do som abrevia a fala novamente falada

Tecer-se
Em cada linha que cruza
Em cada ponto que surge
Em cada salto que escapa

Esquecer o silêncio.
Esquecer todos os silêncios que nos calam. Esquecer que os
silêncios nos calam.
Esquecer que somos calados. Esquecer que estamos calados.
Esquecer silêncio.
Todo o imenso som do silêncio. Todo o silêncio que brota
da fala. Todo o silêncio que fala alto na fala. Todo silêncio
estagnado em todo som,
em todo silêncio.
Esquecer que meu cio é silêncio, que morro no silêncio, que
só vivo em silêncio, que falo em silêncio.

……Esquecer silêncio.
……Tecer-se.

É preciso inventar aquilo que já existe sem nunca esperar
que aquilo termine um dia.
É preciso aventurar-se naquilo que é teu silêncio redivivo a
aventura de inventar o dia.
É preciso não descansar enquanto a fala não terminar. É
preciso não terminar a fala.

……Esquivar do silêncio é perceber-se como silêncio inventado
……Falar é inventar o silêncio novo

……Tecer-se na fala os silêncios
…………no silêncio as falas

……Tecer-se fio de fala som
…………silêncio de fala tecida

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poesia, tradução

Mascha Kaléko, por Valeska Brinkmann

Mascha Kaléko (1907 – 1975) nasceu em Chrzanów no império Austro-Húngaro, hoje Polônia. Filha de judeus, ainda criança mudou-se com os pais para Alemanha, fugindo dos Pogrons, depois em 1933 emigrou para Nova York com o marido. no final dos anos 20 em Berlim, fez parte da Neue Sachlichkeit (Nova Objetividade), movimento vanguardista de artistas e escritores como Erich Kästner, Joachim Ringelnatz , Bertold Brecht e Kurt Tucholsky. Seus poemas falam do exílio, do dia-a-dia e do amor na cidade grande em tom melancólico e irônico, muitos foram musicados para os cabarés, na voz de cantoras como Claire Waldoff e Hanne Wieder. Sobre seu livro Das lyrische Stenogrammheft, 1933, o filósofo Martin Heideger lhe disse: “Seu caderno estenográfico mostra que você sabe tudo a que aos mortais é dado saber“ .

Os poemas abaixo foram tirados dos livros póstumos In meinen Träumen läutet es Sturm, dtv, 1977 e Sei klug und halte dich an Wunder, dtv 2013.

Valeska Brinkmann estudou Radio e TV na FAAP em São Paulo. Trabalha na emissora de Radio e TV pública de Berlin, onde vive há 14 anos.Escreve contos e histórias para crianças. Tem textos publicados em sites literários na Alemanha e no Brasil (Stadtsprache Magazin, Literaturabr). Publicou em 2016 Pedrina – A perua que queria ser Pavão – Die Pute die ein Pfaul sein wollte, pela editora Bübül Verlag Berlin.

* * *

Rezept

Jage die Ängste fort
Und die Angst vor den Ängsten.
Für die paar Jahre
Wird wohl alles noch reichen.
Das Brot im Kasten
Und der Anzug im Schrank.

Sage nicht mein.
Es ist dir alles geliehen.
Lebe auf Zeit und sieh,
Wie wenig du brauchst.
Richte dich ein.
Und halte den Koffer bereit.

Es ist wahr, was sie sagen:
Was kommen muß, kommt.
Geh dem Leid nicht entgegen.
Und ist es da,
Sieh ihm still ins Gesicht.
Es ist vergänglich wie Glück.

Erwarte nichts.
Und hüte besorgt dein Geheimnis.
Auch der Bruder verrät,
Geht es um dich oder ihn.
Den eignen Schatten nimm
Zum Weggefährten.

Feg deine Stube wohl.
Und tausche den Gruß mit dem Nachbarn.
Flicke heiter den Zaun
Und auch die Glocke am Tor.
Die Wunde in dir halte wach
Unter dem Dach im Einstweilen.

Zerreiß deine Pläne. Sei klug
Und halte dich an Wunder.
Sie sind lang schon verzeichnet
Im grossen Plan.
Jage die Ängste fort
Und die Angst vor den Ängsten.

Receita

Expulsa os medos
E o medo dos medos
Para os poucos anos
Há de ser o suficiente.
O pão no cesto
E o terno no armário.

Não diga meu.
Tudo te é emprestado.
Vive o momento e vê,
Quão pouco precisas.
Instala-te.
E deixa a mala preparada.

É verdade o que falam:
O que é pra vir, vem.
Não te oponhas ao sofrimento
Se ele está lá,
Encara-o em silêncio.
Ele é efemero tal qual a felicidade.

Não esperes nada.
E protege bem teu segredo.
Também o irmão trai,
Trata-se de ti ou dele.
Toma tua própria sombra
Como tua companheira.

Varre bem tua sala.
E saúda teus vizinhos.
Ajeita tua cerca
E tambem o sino no portão.
A ferida em ti está desperta
Debaixo do telhado, por enquanto.

Rasga teus planos. Sê astuto
E te agarra nas maravilhas
Elas ja foram há tempos lançadas
No grande plano.
Expulsa os medos
E o medo dos medos.

§

Die frühen Jahre

Ausgesetzt
In einer Barke von Nacht
Trieb ich
Und trieb an ein Ufer.
An Wolken lehnte ich gegen den Regen.
An Sandhügel gegen den wütenden Wind.
Auf nichts war Verlaß.
Nur auf Wunder.
Ich aß die grünenden Früchte der Sehnsucht,
Trank von dem Wasser das dürsten macht..
Ein Fremdling, stumm vor unerschlossenen Zonen
Fror ich mich durch die finsteren Jahre.
Zur Heimat erkor ich mir die Liebe.

Os primeiros anos

Abandonada
Num barco da noite
Boiei
E cheguei até a margem.
Nas nuvens desviei contra a chuva.
Em bancos de areia contra o vento bravio.
Nada era de se confiar.
Só em milagres.
Comi dos frutos verdes do anseio,
Bebi da água que deixa sedento.
Uma estranha, muda na frente de zonas desconhecidas
Gelei mediante os anos sinistros.
Para meu país escolhi o amor.

§

Was man so braucht…

Man braucht nur eine Insel
allein im weiten Meer.
Man braucht nur einen Menschen,
den aber braucht man sehr.

De que se precisa mesmo…

Precisa-se só de uma ilha
sozinha, ao longe no mar.
Precisa-se só de uma pessoa
mas aí, muito se vai precisar.

§

Feinde

Die Feinde, sagst du,
geben dir
auf Erden keine Ruh.
Du hast nur einen
wahren Feind,
min Bruder
das bist du!

Inimigos

Os inimigos, dizes tu
não te dão
Na terra sossego algum
Tens somente um
verdadeiro inimigo,
meu irmão
este és tu!

§

Inventar

1
Haus ohne Dach
Kind ohne Bett
Tisch ohne Brot
Stern ohne Licht.
2
Fluß ohne Steg
Berg ohne Seil
Fuß ohne Schuh
Flucht ohne Ziel.
3
Dach ohne Haus
Stadt ohne Freund
Mund ohne Wort
Wald ohne Duft.
4
Brot ohne Tisch
Bett ohne Kind
Wort ohne Mund
Ziel ohne Flucht.

Inventário

1
Casa sem telhado
criança sem cama
Mesa sem pão
Estrela sem luz.

2
Rio sem cais
Montanha sem corda
Pé sem sapato
Fuga sem destino.

3
Telhado sem casa
Cidade sem amigo
Boca sem palavra
Floresta sem aroma.

4
Pão sem mesa
Cama sem criança
Palavra sem boca
Destino sem fuga.

§

Irgendwer

Einer ist da, der mich denkt.
Der mich atmet. Der mich lenkt.
Der mich schafft und meine Welt.
Der mich trägt und der mich hält.
Wer ist dieser Irgendwer?
Ist er ich? und bin ich Er?

Um certo alguém

Tem alguém aqui, que pensa em mim.
Que me respira. Que me guia.
Que cria a mim e meu mundo.
Que me carrega e me sustenta.
Quem é este certo alguém?
É ele eu? E sou eu ele?

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Um poema inédito de Luciano Ramos Mendes (1986-)

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Foto de Natália Faustino Marques.

Luciano Ramos Mendes é um idichista, poeta, tradutor e editor que nasceu em Curitiba, em 1986. É a mente por trás da Editora Dybbuk – pela qual publicou seu primeiro livro de poemas, O Livro do Yom Kippur. Nasceu em Curitiba mas hoje vive debaixo do Sol, em Fortaleza. No momento pesquisa e traduz a obra do poeta iídiche Abraham Sutskever.

O poema aqui-agora publicado integra seu segundo volume de poesia, intitulado autotanatografia, e me parece que segue um pouco da tradição de “poema para vozes”, algo ao modo de Os três mal-amados, de João Cabral de Melo Neto, algo ao modo de antigonick, de Anne Carson. Um tipo de poética que se concentra no limiar entre o gênero dramático e o literário-poético, criando um irresolução que funda um novo sentido, talvez, na performance.

 

sergio maciel

* * *

 

DISSOLUÇÃO

Personagens:
Shaul: um homem envelhecido, magro, cabeça raspada – com várias falhas. Costelas salientes, olheiras profundas. Chagas lhe cobrem as mãos e o tórax.
Shulamite: um mulher que já foi bela. Está devastada. Cabelos cor de cinza.
Itstok: um jovem forte, vigoroso, porém extremamente pálido. Está nú.

 

Um não-lugar, de cor vermelho-escuro, que lembre sangue. Uma espécie de fundo infinito. No início não há ninguém em cena. Das trevas, faz-se Shaul.

 

Shaul

sem direção nem
foco
como a fumaça
do cigarro que
se espalha
eu me
perco
e não sei
mais quem sou
eu sinto meu coração
batendo forte
batendo fora de compasso
prestes a explodir
não vai explodir
pois
é como a fumaça
e se espalha
sem ruído algum
apenas
desaparece
o desejo murcho
o desejo morto
o desejo nulo
que me resta
é incapaz de
manter as forças de atração
entre os átomos
que me formam
carbono
hidrogênio
enxofre e nem sei
mais o quê
me desagrego
sem forças
o começo do
fim
encarcerado
em mim
não sei mais onde ir
acendo esse
cigarro – e nem quero
fumar
sem direção nem
foco não sei mais
aonde ir a
fumaça que se espalha e se dissolve e se perde
se torna
invisível como parte do ar
me espalho e me dissolvo e
me perco
me torno
invisível
como parte da morte
como parte dos
dias

Shulamite (surge, gritando)

o que você pensa
que vai conseguir?
que eu tenha pena
que eu te despreze
que eu te ame
não
se sente não se faz
nada
a respeito dos dias
ou da morte ou do ar ou da fumaça
eu não me importo
com sua tristeza
não
me importo com
seus sentimentos confusos
suas desesperanças
ou os poemas idiotas
que você
escreve com sangue

Shaul

não esqueça
que todas
e cada uma
das vezes
fui eu quem
te desprezei
não quero
que se
importe
eu
simplesmente
não quero
coisa
alguma

Me’ahevet

por que
por que
por que então você não
morre e me deixa
em paz
sem que
essa sua dor
estrague a lembrança
da felicidade

Shaul

sem rumo
sem direção
como
a fumaça de
um cigarro
que
eu acendo sem
ao menos querer
fumar
desapareço
me dissolvo
no ar
como se fosse parte
dos dias como se
fosse
parte da morte

Me’ahevet

eu segui
com a vida
eu até esqueci
que você
existia
você
e sua falta
de desejo
seu desejo morto seu desejo murcho
seus cigarros sem vontade e seu uísque anestésico
os comprimidos de felicidade
que sempre acabavam no ralo
porque com eles
dizia você
não se pode escrever porque
com eles não
sou eu
dizia você
mas eu esqueci tudo
isso como
se fosse parte
dos dias
como se fosse parte
da morte
e continuei
com a vida
só que a mancha da
sua miséria
me maculou para sempre

Shaul

por outro lado
nunca esqueci
e nunca vou esquecer
de nada
que disse
de nada que fiz
cada palavra
cada lágrima ou gota
de sangue
cada fio de baba
de tudo me recordo
menos
de mim
me recordo de tudo e não esqueço de nada
mesmo daquilo
que fingi
nunca saber
e de tudo
que nunca acreditei

Shulamite

por acaso algum
dia acreditou
em algo
não no amor nem
na liberdade até mesmo
seus esforços
para crer em
algo maior que
tudo foi em vão
nem mesmo em si
acreditou
por acaso algum
dia

Shaul

minha única verdade
sempre foi a
descrença
meu único sentimento
sempre foi a dor
ensimesmado
preso acorrentado
mesmerizado
dentro
da caixa de pandora
da minha alma
se é que
um dia tive uma
por acaso
algum dia

Shulamite

você não faz ideia
depois que
se foi
o que passei
sofri chorei tentei
esquecer
porque amei você
porque aceitei
você dentro de mim
e quis ser parte
do seu mundo
podre
onde tudo é
parte dos dias
parte da morte
por acaso
seu egoísmo
sem filhos sem liberdade
sem amor sem vida
apenas acreditava em
não acreditar
apenas vivia para
um gesto derradeiro
que nunca cometeu
não era fácil
a corda ou a lâmina do bisturi
os pulsos ou mesmo a jugular
quem sabe um tiro
e você prometeu
que não me amava
porque só sabia
disso
porque era parte dos dias
parte
da morte

Shaul

seria fácil
seria muito fácil
eu poderia
fingir amar
eu poderia fingir acreditar
e mentir sobre
ser feliz
e um dia
por acaso
não mais acordar
mas o que
então
aconteceria
sofri
depois que você se foi
como se fosse parte dos
dias parte da morte
sem filhos sem vida
sem amor sem
nada
sem um único
sentimento sequer
apenas o desejo
murcho
morto
vazio
um dia por
acaso

Shulamite

e agora
que nos reencontramos
não existe mais
nós
pois esqueci
de você de mim
amei e amei e amei
várias vezes
vários dias
e nunca foi por acaso
tive filhos
fui livre
e esqueci
de você
mas nunca
da sua dor
como se fosse parte
dos dias
como se fosse parte
da morte

Shaul

eu nunca esqueci
de nada
mesmo que por acaso
algum dia
tenha fingido esquecer
como se fosse parte dos dias
como se fosse
parte da morte
eu nunca esqueci
e eu nunca acreditei

Shulamite

você quem
nunca
esqueceu eu
que nunca lembrei
apesar
de tudo apesar
do tempo
apesar dos dias e da morte eu
penso em algo que não
foi
algo que nunca lembrei

Shaul

um dia
uma semana
nós dois quase um
ano depois
você ainda sangrava
você ainda
tinha dores mas ninguém
se dava conta
apesar
de tudo eu
vi

Shulamite (coloca uma das mãos na vagina, a tira suja de sangue)

um dia
uma semana
nós dois quase um
ano depois
eu ainda sangrava
eu ainda
tenho dores mas ninguém
se dá conta
apesar de tudo
você
viu
apenas você

Itstok (surgindo do escuro)

e eu
estive lá
o tempo todo
em que nunca
existi
eu estive lá
o tempo todo
em que deveria
ter sido algo

Shaul

e ele
que nunca
existiu nós não
permitimos
e assim
entre nós
mais um
fantasma
mais uma
dor

Shulamite

foi você
que não existiu
foi você
que se negou
eu sempre quis
a vida mas
desisti
em seu nome
eu sempre quis
um filho
mas desisti
em seu
nome
o nome do pai

Itstok

vocês dizem cor
mas eu digo sangue vocês dizem
fantasma mas eu digo
eu
vocês dizem desistir
e eu não
quebro o silêncio

Shaul

como se fosse parte
dos dias como se
fosse parte
da morte
nunca escapei
nunca desejei
pois tudo era
morto tudo era nada
como a fumaça do cigarro eu
me espalho eu me separo eu me
dissolvo
como os mortos
que eu enterrei eu
lamento mais
de uma vez
por todas
eu ainda vejo seu sangue

Shulamite

meu sangue não
meu sangue não é meu sangue
meu sangue não é
minha cor
minha voz
tudo isso foi você
quem fez foi
você quem
tirou foi
você
sempre

Itstok

meu sangue não
é meu
sangue é
minha cor
de vocês
tudo isso é
nada
vocês dizem cor
eu digo sangue
vocês dizem o mundo
eu digo um altar
vocês dizem nada eu
digo morte
eu digo tudo
e os vejo
separados por uma distância
infinita
de meu tamanho

Shaul

de todos os vazios entre
os tempos de todas as distâncias entre as
filas de
soldados das brechas
de tapume das portas
que fechamos mal
das mãos
que separamos do vazio
entre os corpos
nasce uma planície um
deserto
para onde
eu vou sempre
onde eu sempre
estive

Itstok

nesse vazio nessa
solidão
um deserto a fumaça
onde você diz que
está eu
sou

Shulamite

de todos os vazios o
que mais me dói
é o que vocês
deixaram dois
fantasmas
sempre como seres dormentes
e palpitantes
que saltam de
meu corpo
sempre

Itstok

ouço meu sangue e tua
voz numa única
pulsação
vejo teus olhos e minha
miséria num único
clarão
sempre

Shaul

acendo um cigarro e
nem ao menos quero
aceno um adeus e nem
ao menos
sei
porque
mas é o que faço
como se fosse parte
dos dias como se
fosse
parte da morte
nem ao menos
quero

Shulamite

dois fantasmas
como seres dormentes e palpitantes
que saltam
de meu corpo

(Lentamente, todos desaparecem.)

FIM.

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poesia

Silvana Guimarães

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Silvana Guimarães (Belo Horizonte/MG). Socióloga e escritora brasileira. Participou de algumas coletâneas, entre elas, duas que organizou: 29 de abril: o verso da violência (Patuá, 2015), Dedo de Moça — Uma Antologia das Escritoras Suicidas (Terracota, 2009), Hiperconexões — Realidade Expandida Vol. 2 (Org. Luiz Bras, Patuá, 2014) e 1917-2017 — O Século sem Fim (Org. Marco Aqueiva, Patuá, 2017). Editora da Germina — Revista de Literatura & Arte e do site Escritoras Suicidas. Lança seu primeiro livro, de poesia, em 2018.

*

depois do vendaval

começar a estudar geografia humana
para entender as distâncias

fazer cálculos de estatística
para banalizar os prazos de validade

recolher os quatro elementos
para asfixiar a revoada de pássaros no meu peito

comer um saco de sal
para juntar os cacos de cristal dentro de mim

esperar o galo cantar
para te negar três vezes

repara: quanta crueldade existe na palavra corpo

§

supermercado

devo-lhe um poema de amor mas
preciso fazer a lista das compras
andar sobre as águas quebrar pedras
romper a fortaleza das palavras
convencer estrelas e cotovias
buscar um farrapo de eternidade
limpar a angústia dos móveis
tirar o encantamento do armário
desvendar seu abismo meus ismos
ferir o pudor raspar o desejo
pera uva maçã ou algodão doce
como se como sempre como sou
adivinhar seu cheiro de magnólia
a febre a dor o desalento implícitos
amar e desamar o seu avesso

: apalpo a palavra pêssego e ela
se diz entrega em suas mãos

§ 

dois bem-te-vis

— como foi?
— o poste explodiu, pegou fogo, o
ninho foi parar longe e o corpo do
homem ficou grudado ao fio, estrebuchando,
os olhos mutilados, a alma presa nos
mistérios da insignificância.
— nossa, horripilante.
— assim.
— e aí?
— a mãe apavorou-se e abandonou os
dois, ali, no chão, com as penas queimadas.
hoje, abri a porta da gaiola e eles voaram,
encabulados com a liberdade: mudos.

§

o óbvio lancinante

a morte é um milagre: ela vem leva um
e outros morrem ao redor de quem foi:
todo morto nunca é um só na sua dor

não existe rota de fuga não há esconderijo
ela chega e acaba com as flores pássaros
espaço consciência memória tempo beleza

descobre códigos senhas mapas da cidade
nada está a salvo: nada segura a sua gula
nenhuma valentia lhe dobra a arrogância

nunca mais eu te amo, te ligo amanhã
nunca mais essa música: olha que triste
nunca mais aquela viagem aquela droga

fica faltando um verso no poema impossível
tudo o que podia ter acontecido e não vai ser
o morto carregando seus mortos que respiram

bendita seja a morte: essa rainha da liberdade
que me faz rastejar nesse escuro dia das mães

***

Padrão
poesia, tradução

Gabriela Clara Pignataro, por Marcus Groza

Gabriela Clara Pignataro nasceu em Floresta, Buenos Aires; escreve, é atriz e fotógrafa. No Brasil publicou Traço cabelo, cai um raio (Ed. Benfazeja – 2018), donde foram retirados os poemas aqui apresentados. Na Argentina, publicou Eso que no se parte es una respuesta (Difusión Alterna, 2014), Muta (Nulu Bonsai, 2014) e Tundra (Añosluz, 2018). Atualmente, trabalha no projeto La belleza random de los días de investigação fotográfica analógica e em seu primeiro romance. Escreve resenhas, poemas e ensaios em lasalvajelucidez.tumblr.com e principalmente observa e respira.

Marcus Groza é escritor, dramaturgo e encenador. Publicou, entre outros, e a lua como órgão principal (Ed. Primata – 2017). Escreveu e dirigiu a antiópera Rua Carne entre as Articulações e a peça Maré Morta.

* * *

A intermitência

Uma folhinha seca
parece uma ratinha
tremendo tíbia
na vereda
mas não
parece
mas não é
como tantas outras coisas
o engano da aparência
formosa
a alucinação diante da fagulha
que não é fogo
uma folhinha seca
pisá-la
dói range
como as coisas verdadeiras
quando se rompem

La intermitencia

Una hojita seca
parece una ratita
temblando tibia
en la vereda
pero no
parece
pero no es
como tantas otras cosas
el engaño de la apariencia
hermosa
la alucinación ante la chispa
que no es fuego
una hojita seca
pisarla
duele cruje
como las cosas verdaderas
cuando se rompen

 

§

ADN

Amasso pão
com minhas torpes
e modernas mãos
amasso o pão
como outros o fizeram
e outros o farão

Há algo
na repetição
que me cura

Amasso pão
e me sinto parte de algo
muito maior
meu nome não se relambe

Sou substantivo
do que não se pode apropriar

Uma moça
com as mãos cheias de farinha

ADN

Amaso pan
con mis torpes
y modernas manos
amaso el pan
como otros lo han hecho
Y otros lo harán

Hay algo
en la repetición
que me cura

Amaso pan
y me siento parte de algo
mucho más grande
mi nombre no se relame

Soy sustantivo
de lo que no puede apropiarse

Una chica
con las manos llenas de harina

§

Sudestada

Saí
a cortar os campos
enchi a casa de flores
não preciso
mover as pedras
para trazer até mim
a montanha
o simples transpassar
dos corpos
modifica a fisionomia
da paisagem

Não pretendo alterar
a direção da semeadura
para mudar a colheita
posso extrair
o desejo de raiz
e transplantá-lo
para uma terra
da minha escolha

Não preciso
mover as pedras:
sou a montanha
compacta por fora
líquida por dentro
não estou sobrevivendo
me movo
sobre o tempo
como o magma
potência de fogo
protege o cristal
até a ruptura
que descubra
o brilho necessário
para correr de noite
sobre o solo ácido
do rio
sem nos ferirmos

A sudestada
foi uma cacetada
somos um bairro
acendendo suas luzes
para ver a tormenta
que lavará o gelo
e o sangue
na entrada
de nossas casas

Saí a cruzar os campos
um coiote me comeu
agora escreve
sacudindo a poeira
do deserto
enquanto
o vapor do banho
o inunda todo
deixo de escutar minha forma
para ser
o anel caindo no vulcão
meu cachorro latindo
para as notícias do rádio

Sudestada

Salí
a cortar los campos
llené la casa de flores
no necesito
mover las piedras
para traer hacia mí
la montaña,
el sólo traspaso
de los cuerpos
modifica la fisonomía
del paisaje

No intento alterar
la dirección del sembrado
para cambiar la cosecha
puedo extraer
el deseo de raíz
y trasplantarlo
en la tierra que yo elija

No me es preciso
mover las piedras:
soy la montaña
compacta por fuera
líquida por dentro
no estoy sobreviviendo
me muevo
sobre el tiempo
como el magma
potencia de fuego,
protege el cristal
hasta la ruptura
que descubra
el brillo necesario
para correr de noche
sobre el suelo ácido
del río
sin lastimarnos

La sudestada
fuè una cachetada
somos un barrio
encendiendo sus luces
para ver la tormenta
que lavará el hielo
y la sangre
en la entrada
de nuestras casas

Salí a cruzar los campos
un coyote me comió
ahora escribe
sacudièndose el polvo
del desierto
mientras
el vapor de la ducha
lo inunda todo,
dejo de escuchar mi forma
para ser
el anillo cayendo en el volcán,
mi perro ladrándole
a las noticias en la radio.

§

David Lynch sonha comigo

De tanto pisar no freio
paramos no km 2
o motor ajustado
o tanque cheio
kodak 36 sem usar
a água do mate
ainda quente
a rádio do bairro
passando a mesma música
durante horas
o espelho retrovisor
vazio:
ninguém vem aqui

Não sei aonde íamos
de tanto manobrar
estragou a embreagem
a marca do pneu
mosquinha morta
no asfalto
km 2 paragem rural
a rádio do bairro
anuncia alfajores
consertos de encanamento
empanadas fritas
o telefone da parteira
as notícias do carnaval
carroça descarrilhada
ovelhas tóxicas
o espelho retrovisor:
vazio
ninguém vem aqui, sabe,
nossas caras
ficam invisíveis
por trás das gotinhas de suor
de um feriado regional

Faz tempo que ninguém
viaja neste carro
apenas uma camisa e shorts
um vestido florido
chinelos velhos e desformes
no isopor sopa em cubinhos
icebergs entre pão e queijo
três dias encalhados
km 2
não chegamos às montanhas
três dias com enjoo
as fotos por tirar
a água gelada
o motor abobado
o radiador fervendo
saio do carro
prefiro pegar a estrada
nos cotovelos raspados
me ungir com mertiolate
na salinha de emergência
a que a polícia rodoviária
encontre um carro vazio
e desgrude meu corpo
do couro sintético
do assento sem cabeça
e um volante sem ginete.

David Lynch sueña conmigo

De tanto pisar el freno
clavamos en el km 2
el motor a punto
el tanque lleno
kodak 36 sin usar
el agua del mate
todavía caliente
la radio zonal
pasando la misma música
durante horas
el espejo retrovisor
vacío:
nadie viene por acá
No sé dónde íbamos
de tanto maniobrar
se rompió el embrague
la marca de las llantas
mosquita muerta
en el asfalto
km 2 paraje rural
la radio zonal
auspicia alfajores
arreglos de plomería
empanadas fritas
el teléfono de la partera
las noticias de carnaval
carroza descarriada
ovejas tóxicas
el espejo retrovisor:
vacío
nadie viene por acá, sabés,
nuestras caras
se invisibilizan
tras las gotitas de sudor
de un feriado regional
Hace tiempo que nadie
viaja en este auto
tan solo una camisa y shorts
un vestido floreado
ojotas rotas y deformes
la heladerita sopa de cubitos
icebergs entre el pan y queso
tres días encallados
km 2
no llegamos a las montañas
tres días mareados
las fotos sin sacar
el agua fría
el motor bobeado
el radiador caldeado
me tiro del auto
prefiero llevar la ruta
en los codos raspados
santiguarme con merthiolate
en la salita de emergencias
a que la policía caminera
encuentre un auto vacío
y despegue mi cuerpo
de la cuerina
del asiento sin cabeza
y un volante sin jinete.

 

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