poesia, tradução

Ernst Herbeck (1920-1991) por Cristiane G. Bachmann

Ernst Herbeck (Stockerau, 1920-Gugging, 1991) tornou-se poeta de um modo incomum. Depois de oito anos de silêncio e isolamento, numa rotina controlada diariamente por psicotrópicos e choques insulínicos que lhe eram aplicados como tratamento no hospital psiquiátrico de Maria Gugging (Áustria), onde foi internado aos 26 anos, Herbeck foi convidado por Leo Navratil[i] a envolver-se com o entorno por meio da escrita. Navratil, antropólogo e psiquiatra da clínica, sugeriu-lhe um tema: “Der Morgen” [“Manhã”]. A resposta de Herbeck foi um poema. O psiquiatra percebeu o talento literário do paciente. Todos os dias, passou, então, a fornecer-lhe materiais pra escrever e a lhe sugerir temas.

Herbeck produziu intensamente, escrevendo poemas sobre os mais variados assuntos: guerra, vida, morte, amor, liberdade, máquinas, personagens de contos de fadas, cores, objetos, estações do ano, atividades cotidianas e banais (como fumar, por exemplo), entre outros. Há poemas dedicados a Navratil, a outros internos do Gugging, a Goethe, a Rilke, à relação entre paciente e psiquiatra, e muitos deles versam sobre animais.

Desde que seus primeiros poemas foram publicados (em 1966), Herbeck chamou a atenção na cena intelectual. Em 1977, a editora alemã DTV publicou uma extensa antologia de sua obra, que foi recebida num momento em que fervilhavam discussões sobre conceitos de “normalidade” e loucura”. No mesmo ano, Herbeck tornou-se membro da Grazer Autoren Versammlung [Associação de Autores de Graz, na Áustria]. Em 1980, o escritor alemão W. G. Sebald, a quem tanto a obra herbeckiana quanto suas condições de produção causaram forte impressão, publicou o romance Schwindel. Gefühle [“Vertigem”, na tradução de José Marcos Macedo], que insere a figura de Herbeck em uma de suas passagens. No mesmo ano, o poeta austríaco saiu da clínica, após receber alta. Mas retornou em definitivo ao Maria Gugging no ano seguinte.

Herbeck[ii] deixou um espólio de mais de 1.700 manuscritos, entre poemas e textos curtos em prosa, que fazem parte do acervo da Biblioteca Nacional Austríaca, em Viena.

* * *

Canarinho

Os canarinhos nas gaiolas
esperam pelo alvorejar na
manhã absoluta.
E nisso, gaiteiro, ele canta
porque ele canta e se banha
e então recanta.

O canarinho vê e ouve
a mobília. Gigantemente
cândido, ele veste amarela
plumagem.

Ouça, candidamente ouça.

Kanarienvogel

Kanarienvögel sind im Käfig drin,
warten auf das Frühgeschehen am
Morgen ganz und gar.
Insoweit ist er vergnügt und singt,
weil er singt und sich auch badet
und dann wieder singt.

Der Kanarienvogel hört und sieht
sich die Möbel an. Er ist riesig
unverdorben und hat ein gelbes
Gefieder an.

Hören Sie sich, unverdorben, Sie sich das
mal an.

§

Paciente e Poeta

Poeta

Quanto maior a dor
tanto maior o poeta
Tão mais árduo o labor
Tão mais profundo o sentido.

Paciente

Quanto maior a desdita
tanto mais árdua a luta
Tão maior o prejuízo
tanto mais Doidos os condenados

Paciente e Poeta

Quanto maior a dor
tanto menor o poeta
Tão mais árduo o labor
Tão mais profundo o sentido
Quanto maior a desdita
tanto mais árdua a luta
Tão maior o prejuízo
Tão mais doidos os condenados.

Patient und Dichter

Dichter

Je größer das Leid
desto größer der Dichter
Umso härter die Arbeit
Umso tiefer der Sinn

Patient

Je größer das Unheil
desto härter der Kampf
Umso ärger der Verlust
desto Irrsinniger die Verdammten

Patient und Dichter

Je größer das Leid
desto kleiner der Dichter
Umso härter die Arbeit
Umso tiefer der Sinn
Je größer das Unheil
desto härter der Kampf
Umso ärger der Verlust
desto irrsinniger die Verdammten.

§

A língua.

b + a cintilam no patuá[iii].
Flores na borda do campo.
A língua. —
a língua é dependente dos animais.
e sonha no a da soada.
o c cicia só assim ao redor e
……….é também num instante sua
…………………………………………arma.

Die Sprache.

a + b leuchten im Klee.
Blumen am Rande des Feldes.
Die Sprache. —
die Sprache ist dem Tier verfallen.
und mutet im a des Lautes.
das c zischt nur so umher und
………..ist auch kurz dann sein
………………………………..Gewehr.

§

A ninfeia.

Nenhum bicho sabe daonde ela[iv]
…………………….vem.
Ainda assim, um sapo venera,
……………………ela a Beira (E)
……………………e a Eira –
A beira de alguma
……………………….flor.

Die Seerose.

Es weis kein Tier von wo sie
……………………Stammt.
Und dennoch, ein Frosch verehrt,
……………………sie den Rand (B)
……………………und den Band –
Den Rand irgendeiner
………………………Blume.

* * *

NOTAS

[i] Navratil tratava seus pacientes aplicando um método que desenvolveu com base no conceito de art brut (formulado por Jean Dubuffet).

[ii] O poeta também participou do documentário Zur Besserung der Person [“Para o aprimoramento da pessoa”], do suíço Heinz Bütler, que retrata o cotidiano de cinco artistas internos do Gugging. [Disponível aqui: https://vimeo.com/18427012]

[iii] Em alemão temos uma rima de “b” com Klee, que significa “trevo”. Em português, não encontrei nenhuma solução correspondente que terminasse com a tônica em “e”. Como “patuá” é um amuleto de sorte, assim como trevo, optei por inverter a soma (de “a + b” pra “b + a”) pra obter a rima e, assim, manter a proximidade semântica.

[iv] Neste verso, weis e von wo são desvios ortográfico e gramatical, respectivamente, típicos de falante de alemão que está aprendendo a escrever ou que não tem domínio da Standardsprache (“língua-padrão”). Herbeck foi consultado por Navratil sobre seu desejo de corrigir os poemas pra publicação. Alguns ele quis corrigir, outros não. Sua vontade foi respeitada por Navratil. Dessa forma, também procurei respeitar isso e busquei traduzir esses desvios. Para von wo, experimento usar “daonde”, porque me parece de natureza semelhante. Mas pra weis (o correto seria weiss) ainda não cheguei a uma solução, pois se trata de um “erro” bem comum e nada grave, como da ordem de uma distração. (Achei que “çabe” ficaria muito forçado…)

Cristiane G. Bachmann desenvolve seu projeto de estudo e tradução de poemas de Ernst Herbeck como mestranda em Estudos Literários na UFPR, na linha de Alteridade, Mobilidade e Tradução. Trabalha como revisora e preparadora de textos e durante vários anos dedicou-se também ao teatro, como atriz.

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poesia

Eliza Caetano (1980 –)

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Nasceu em Belo Horizonte, é jornalista e mãe de duas filhas. Escreve desde sempre. Publicou O caderno das inviabilidades (Ed. Urutau, 2016).

 

sergio maciel

* * *

 

seria preciso um muro inteiro
um muro inteiro que lamentasse
seria preciso um muro que chorasse
um de pedras largas e entre elas pequenos vãos por onde nós pudéssemos tentar ver o outro lado
sem sucesso
seria preciso um muro alto
de pedras largas
seria preciso pés descalços que chegassem até lá.
dois dígitos em horas de vôo
algum dinheiro para a passagem
um outro lado do mundo
seria preciso antes que nós lamentássemos (e lamentamos)
mas que estivéssemos no lugar impróprio
que fosse verão, claro
que estivéssemos em boa companhia
na praia
e que as mãos dadas enchessem nossos olhos
que nos olhássemos cientes do mundo
(e nos olhamos)
que tomássemos mais um picolé
e desejássemos que houvesse um muro alto
de pedras largas
do outro lado do mundo
antigo o bastante para nos manter de pé

§

 

A curva infinita

estou, estivesse esta noite

pronta para receber a água, o sonho, o corpo, o espírito de algo que nasce a partir do meu corpo, receber o parto, o gesto de partilha, o verbo, tenho tido no entanto sonhos de águas que correm entre as minhas pernas e descem pelo ralo, que brotam e criam desertos sobre a cama seca, o frio seco do vento que entra pela janela, a planta que coloquei no canto e que deposita dentro do quarto perguntas sobre o frio que

a lâmpada incandescente não será capaz de responder.

as folhas secas e frias que me fazem sonhar com a água e tensionar músculos – maxilar, ombros, mãos, talvez pés em espasmos que não assisto e para os quais não haverá testemunha, só o silêncio no quarto seco, barulho no sonho úmido, fracasso, barulho da água caindo, fracasso, barulho dos dentes rangendo, dentro e fora do sonho, sempre sobre a matéria da cama, do lençol, do colchão frio, da curva do rio sob a chuva, da curva da planta, do canto do quarto, do arco do voo decidido de

um pássaro fêmea – a curva infinita

do ovo deitado à margem pelo pássaro que ainda dormia, aguardava no sonho algo que pudesse nascer de si, uma forma infinita e curva, o resultado do esperar para nascer de novo a partir da terra, do rio, dos seixos que úmidos no sonho do pássaro fêmea se jogassem ou pudessem ser jogados no ponto mais fundo do rio, um esboço de gesto infinito, impossível para o pássaro fêmea, produzido no instante de nascer ou de dar à luz, dar a vida, entregar à luz do mundo mesmo que seja noite e que chova, mesmo que eu tenha que fazer nascer e abrigar da chuva e chorar a morte dentro do rio ou sobre a cama de dentro do quarto onde terei dado um nome, qualquer um e toda a luz do mundo como se nenhuma luz a menos fosse suficiente. terei dado

a eletricidade de todas as lâmpadas acesas de todas as cidades de todas as hidrelétricas e suas comportas

o fôlego da água incansável move turbinas, cidades, peixes e sinos de igrejas submersas, onde nascer já não importa, onde não se batizam mais crianças e elas permanecem sem nome diante de deus, sem vida porque a vida de qualquer criança será insignificante dentro da igreja submersa das águas profundas de cima da cama onde o pássaro fêmea contorna o sonho e dá à luz um ovo que por dentro ainda está no breu e é possível sentir do interior da forma infinita e curva o risco de não conseguir

produzir a rachadura necessária

para brotar através da dureza de uma casca de ovo. amanhã outro risco – debaixo d’água, sobre a cama, para o pássaro fêmea peixe brotado da igreja das crianças sem nome – de dentro do sonho, um risco maior:

não conseguir dormir.

escrever é então dar palavras a sonhos, nomes a crianças pagãs batizadas em igrejas submersas, gênero a pássaros, dar nomes, tempo, número, dar palavras novamente, ser pássaro fêmea mulher peixe igreja ovo e dentro do ovo outra mulher.

homem é depois rachar, seguir, mover, passar. é verbo e o verbo pode então caminhar longas distâncias

sem se lembrar os nomes das coisas, sem entender os enigmas deixados em cada curva de rio, dentro de cada ovo e em cada seixo fracassado e submergido pela mulher, que ao final observa o homem que enfim se deita e deixa descansar.

§

 

passando rapidamente os fotogramas na tela meus olhos não têm tempo de absorver
as últimas férias o nascimento
………….do filho o tórax oscilando durante o sono

por mais que pense sobre os fotogramas que passam rápido pela tela
vejo apenas
uma criança um sorriso de papel
carros que já passaram
por ruas cujo dia já morreu
um lugar bombardeado

por mais que eu não
queira olhar e passe rapidamente
pelos fotogramas em minha tela como quem passa de carro
rápido porém reduzindo
para um acidente
com vítimas
fatais

Ou que eu não
queira ainda olhando
compreender as imagens que passam
reduzindo a velocidade e
voltando-se
discretamente
para olhar enquanto
preparam uma frase
de desprezo a ser cuspida
da janela sobre aqueles que têm
o mórbido hábito de reduzir
a velocidade ao passar
por corpos caídos:
a frase das ultimas férias a do nascimento do filho a frase proclamada pelo tórax em movimento a bomba no ar

Passando rapidamente os fotogramas não compõem um movimento.

Mesmo que passe rapidamente
sempre olharei de lado
o corpo derramado
sobre o asfalto e é perigoso
dirigir mesmo que eu faça isso todo dia por muito tempo
ainda é perigoso e eu
poderia mesmo morrer ao falar ao celular
ou passando o dia parada neste lugar
veja bem eu podia morrer e podia morrer
ao ver o quanto é normal simples e
corriqueiro que as coisas acabem
e que eu acabe sentada
no banco do motorista com uma ferragem
qualquer atravessada
no peito como uma lança
arremessada com precisão
e muita força
e mesmo que eu merecesse orações não adiantaria nada
nada veja que o asfalto será lavado
na próxima chuva

passando rapidamente os fotogramas
paralisam e paro
de olhar
paro os olhos como peixe
fresco, morto recente
ainda quente no asfalto
paro os fotogramas
à força em voz alta
antes de morrer no asfalto
antes de olhar como peixe
os fotogramas descendo na tela e que eles por favor não façam sentido
não tenham memória
não produzam movimento.

por mais que eu pense sobre
os fotogramas que passam rápido pela tela e veja
apenas: a criança um sorriso que não existe
um campo cujas minas explodiram
carros que já passaram por ruas cujo dia já morreu
um campo cujas minas não explodiram

por mais que não me lembre
dos fotogramas e que os fotogramas
sejam palavras e que as palavras sejam
hoje só uma profusão de
imagens produzidas
por minha cabeça a partir
dos sons emitidos por pessoas que falam
sobre nada nada sem parar
e as palavras de que não me lembro sejam só
uma nuvem densa de estupidez que passa
e passa e passa em branco
sobre a minha testa diante
de um cansaço profundo
não sei se das últimas noites mal
dormidas se das poucas horas
de sono ou se dos meses e meses e meses que insistem
na repetição como 24 fotogramas
que criam um único segundo
afinal o que importa o que importa mesmo será sempre
repetido até criar raízes e asas e levantar voo e segurar a terra e partir-se ao meio.

§

 

O caderno das inviabilidades

Minha vontade irremediável de listar palavras inviáveis.
…………..Inviáveis, sua barba ou cabelos.
O avião, incapaz de remediar minhas convicções inviáveis ou
………………………………………………………………o defeito no lobo da orelha.
Minha perversidade.
O que me ocorre embaixo do chuveiro.

A ereção inviável e o beijo.
Os homens inviáveis.
Os homens, de onde nada nasce.
…………….Onde não há menstruação
…………………………não cabe vida, as mãos injustas e protetoras dos homens.
Os filhos inviáveis dos homens cujo desejo me torna inviável.
Os pés grandes demais, os olhos dos homens que não sabem
……………………………………………………………..chorar, ou nem só falar,
………….os homens que não sabem.
………….Os homens e seus pelos inviáveis, suas mãos sujas,
……………………………………………………………………………………….seu tesão exposto.

O homem que me alimenta, inviável, o caderno de inviabilidades, a quem sorvo diariamente na cama da casa que eu fiz viável para o homem morar.
O homem cuja inviabilidade eu exponho debaixo do lençol a
…………………………………………………………………..cada dia, todos os dias,
na inviabilidade selada com o anel, o olhar pobre ora meu,
ora dele, diante ao mesmo tempo
do dever inviável e do

mero amor,

livre de mim, livre dele,
o amor insone sobre a cama feita ao lado da janela voltada para
……………………………………………o prédio vizinho à revelia de nós dois.

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6 poemas inéditos de Júlia de Carvalho Hansen

ju

Júlia de Carvalho Hansen (São Paulo, 1984) é poeta, astróloga e uma das editoras da Chão da Feira. Estudou literatura na Universidade de São Paulo e na Universidade Nova de Lisboa. Os poemas abaixo são de seu novo livro, ainda sem título. Já apareceu aqui no escamandro com poemas e entrevista.

***

POSSO

Posso te esperar a tarde inteira
atravessar você — o precipício
ou te chamar de Canyon
e colocar uns pássaros voando nele.

Posso te mostrar a parte de dentro
das coisas, da carne — posso me rechear
inteira de cuidados, lanças e perfumes
e desmontar à tarde todas as coisas.

Posso inventar-nos um desfecho
te chamar de ilha, charco, travessia
esquecer eu não posso — posso
dizer que eu irei me lembrar.

Posso perguntar pelo tempo
e assim conversaremos sobre o breu
normativo & inconstitucional desses dias
e de como não seremos derrotados.

Um pelo outro, talvez, não.

§

AMANSAR

Amansar a ideia de vê-lo
é o tecido dos meus dias
e eu me recubro totalmente

com este selo — esta companhia
podemos nos amar na distância
transcender o espírito largo

é o fosso que nos separa
e contigo estou — sempre — a um passo
do abismo escuto o eco dum graveto

quebrando lá embaixo o clique
pros meus ouvidos tão abertos é tão nítido
quanto o teu desejo de ficar comigo.

§

ROSAS

O amor me esquartejou em seis
continentes incapazes de se conter
o modo que eu morri
foi tão de repente

confesso fui eu que puxei seus dentes
antes e durante o entardecer tem rosas
nítidas e supérfluas sobre a mesa
purificando o meu espírito trôpego

foi-me dado um candeeiro um circo
ateando um chicote no lombo do acidente
eu me antecipo cada vez que vejo um poço
teu vitalício laço de fita nó de corda meu amor

a tua língua vale o que vale
teu ricochete, teus meandros
medos, usuras, os prevenidos
armários das famílias

abertos pelo caos nos guiamos
olhos mais longos que os de Lúcifer
moram nas suas coxas
quando me anteveem

marfim, colchão mole
água na boca
no tronco um portão
noite luz.

§

PARDAIS

Acordei com dois pardais dentro do quarto
se debatiam procurando o que não fosse vidro
radical em ser transparente e firme

eu causava sustos ao me aproximar
abri a janela
é o certo a se fazer com o que não se deixa tocar

no quintal caracóis imensos disputam
os restos de mamão que deitei aos passarinhos
bem cedo enquanto pedia beleza

suplicava por favor eu quero escutar
não é a primeira vez que numa ilha
meus ouvidos entopem

meu bisavô sofria do mesmo
não sei se ele escrevia, se visitava as ilhas
se perdeu como se perdem na terra

os homens têm tal mística com o mar
ser instável na sua regularidade
marulho salsugem saudade

entre as palavras que eu sei lembrar.

§

POÇA D’ÁGUA

Olhando bem pra dentro de você
o quanto você é difícil se espraia
dos seus olhos profundos ao buraco negro
seu íntimo me é tão completamente interditado

às vezes eu me pergunto
se aqueles que conheci antes de ti
não estavam a antecipar a estreia
que foi conhecê-lo naquele entreposto da vida

eu já tinha me estrepado o bastante
pra não pular em qualquer poça d’água
achando que era um abismo
eu naquela época andava numa distância

suficientemente segura dos abismos
tanto que já tinha inclusive esquecido
a capacidade do amor nos levar
aos precipícios, as precipitações ativarem

os respeitos, os conflitos, os desmedidos
impróprios imperfeitos instáveis
improváveis e no entanto sempre
perspicazes pertinentes acasos & motivos

de estarmos para sempre forever and ever
juntos de uma maneira jovem
nosso amor adolescente
se curva numa cambalhota

e nos remonta todos os dias
como quem sela o ânimo
e monta o vivo no invisível
atrela sua espora

como quem voltou a andar
a dizer e a concordar
em todos os tempos
o substantivo cavalo.

§

CÍLIOS

Entre nós a dimensão que importa
é o tamanho dos teus cílios
e como eles se curvam
conforme você ri ou se preocupa

eu estudo tanto cada gesto — cada passo
consulto tudo que eu posso
vejo sinais em tanto — colho indícios
contudo espero o instante

em que algo ou tudo pode sair do lugar
alguém quebrar os dois tornozelos
perder o timing do spaghetti
e o macarrão ficar molenga

ou uma abelha zunindo no cabelo
fascinada pelo açúcar no café
num acesso de vertigem
todo eu é ruidoso

porque eu vivo
e você também
e o que é vivo
se descontrola.

*

 

 

Padrão
poesia

2 poemas inéditos de Valeska Torres

valeska 2

Fotografia de Fernando Targino

Valeska Torres nasceu no Rio de Janeiro, Marechal Hermes em 1996. Mora em Irajá. Publicou poemas em Do rio ao mar, coletânea de poemas, crônicas e contos, nas revistas Mulheres que Escrevem Mallamargens, finalista do Slam das Minas RJ 2017 e vai publicar um livro em 2018 pela editora Kza1. Já apareceu aqui no escamandro com outros 2 poemas.

***

(Insira uma frase de Eva Perón)

do bico do peito

os que mamam em grandes tetas

o pingo de leite
branco
sobre a hispano américa amedrontada

sobra-nos:
1. os farelos,
2. o chupar de dedos,
3. pedaços de alfajor caídos sob o tapete do vizinho.

aos que não tomam leite
– esses que infestam a cidade com cartazes de desaparecidos –
restam-lhe
o café preto amargo

trepamos sobre essa cama, mas não nos lambemos
tampouco
partilhamos nossas línguas
falta-nos salivas

a cerveja o matte dividimos no poema após um pancho entre Catarmaca y Sarmiento

da goela
o pollo descendo abaixo
até o engasgo
yo soy soy yo
a balsa que atraca no Rio Paraná
a faca que corta o pão massudo
dentro
salsicha temperada de salsa crioulla

§

 

Nós dois cantando Sidney Magal no karaokê da Feira de São Cristóvão
Para o Fernando

Estação da Penha
desemboco perdida na linha de fuga, percebo
– como se percebem os furos de tatuí na areia de Grumari –
o grão de purpurina no fim do carnaval,
são quatro por dois isso que inflama o meu peito.
Não chupo a espinha do peixe,
não como mocotó,
mas ainda sonho em me bronzear sob o sol de Ramos
me banhar no piscinão
ao seu lado
com as mãos entrelaçadas as suas
bebendo itaipava.

Sou mulher de gostos caros, digo a você enquanto
rasga meu sutiã
gasto
por amaciantes.

Picho na murada do prédio
seu nome ❤ o meu
para que você saiba o quão merda eu sou
quando apaixonada.

Meus pais me apontam dedos disseram para não me perder demais
¡perigo águas profundas, correnteza e redemoinho!
É tarde,
depois de meia noite
nossos horários são verões.
É tarde e estou fudida
porque a foda tem o gosto do meu homem
e disso
os meus lábios não cansam.

*

 

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poesia

5 poemas inéditos de Ismar Tirelli Neto (1985—)

Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, tradutor e roteirista cinematográfico. Nasceu no Rio de Janeiro a 1985; vive e trabalha atualmente em Curitiba. Lançou os livros synchronoscopio, Ramerrão e Os Ilhados, todos pela 7Letras.

* * *

Disciplina da extinção

Devem já ser desoras no mundo

Com os mesmos passos
cuidados com que costumávamos
deixar agosto
faz-se agora o torno do ano
inteiro, impensável

Neste poema ao menos
vencem
as tropas inimigas

Uma aragem má
destelha nossos galpões,
corre toda a alegria

Da linguagem
para os muros da cidade

No apagado arrabalde
(no apagado arrebol)
catar
palavras para dizê-lo

§

Enrique Lihn em Manhattan, II

O móbil do crime talvez seja a clareza
O que nos faz enxergar impérios no pó da mariposa
Capinar aporias
Comprimir
Os poemas até
A desumana exposição
Das linhas de força
De uma qualquer situação
Em tela
Citareiros jogados pelos corredores do metrô
Servos do sopro, de nada
Proliferando
Ascese de escadas rolantes
Que rompem claraboias cinzentas
Vamos, vamos
Irradiar mais uma metrópole
Perder os sinais na chuva negra
À mulher sentada a meu lado
Conto que acabo de ser expulso da República
Ela tem o bom gosto de me ignorar
Ela efabula
Faxinas que lhe roubaram a manhã
As varizes, o preço do extrato de tomate
Os tapumes crivados de balas
A esperança, ela diz, por pouco
Não dá cabo de si própria
E do marido também idoso
Noite passada
Esqueceu aberta uma das bocas do fogão
Depois da janta
Pegou no sono
Embalada pelo perfeito rolamento do veículo

§

Disciplina da extinção, II

Já neste poema
Circunstanciou-se que nós
Vencemos a guerra

Contudo
O problema da narrativa
Continua
A fazer-nos frente

Neste silêncio, cesura
Procuramos
Palavra de elevação
As palavras sonantes
Palavra de uma inocência
Emudecedora

Tomamos de sua fome
Para escrever saciedade

Para escrever sáfaro

Para escrever
O sol presidia vermelho sobre os campos
(Ao desincumbir-se
Era vermelho também)

§

Comparecimento diante do Provador

Descenso com pernas.
Não “ocaso”.
Não “crepuscular”, o verbo, não
Chamemos
Astro vestigial.
Não o tornar-se vestigial.
Não entre panejamentos.
Não o ter uma imagem
Tão demorada
Em nos atingir.
Não a tarde devagar
Desfibrada.
Descenso com pernas, com peso
De pernas.
Descenso
De cepas roliças
Comprimindo
Coxas
Que florem
Em pé
Inculto com
Sem caminho
Com
Solidão de jaula
Com
Fumos de centro
Com ócios
De preferido

Descenso

Descenso

Descenso

§

As andanças a que venho me referindo dão-se no mais dos casos em prejuízo dos pés.
Que poderá sobreviver à descoberta profunda, para além dos tipos, à redescoberta de que as estrelas não são senão os mortos,
senão revérberos?
Digressiona-se.
Tentei estabelecer as balizas mágicas desta excursão.
No Planetário, veem-se uns aos outros, não veem nada.
Que testemunham, afinal, os espelhos dos banheiros do Planetário?
Que eficácia?
Tentei dizer “baldio”, um substantivo.
Tentei dizer “engodados”, “engodados pela luz”.
Este Planetário é antigo. Bem como as crianças lá levadas em excursão.
Este Planetário é também o meu passado.
Estas crianças que entram, saem, dão a informação altiva e irracional.
Tentei dizer “baldio”, tento.
Esvaziar a ostra, ouvir atentamente ao ditado.
De seguida, a redação.
As crianças regressam de minhas notas com um Planetário, deixam-no aos meus pés.
Digo-lhes, os globos são caros.
Os ossários são caros.
Os revérberos, o passado… Tarde demais.
Entraram já para as notas.

Padrão
poesia

Israel Azevedo

ISRAEL AZEVEDO_REVISTA ESCAMANDRO

Israel Azevedo nasceu em São Paulo (SP), cidade onde vive. Integra as antologias: Qasaêd Ila Falastin – Poemas para a Palestina (Selo Zunái Edições, 2012) e Poetas Jovens no Papel Rascunho (Lumme Editor, 2006). Ainda na internet, seus poemas também podem ser lidos nas revistas Germina – Revista de Literatura e Arte, Diversos Afins, Mallarmargens e Zunái.

***

ESBOÇO PARA FRANZ KLINE

fortuita moldura ampara a pintura
onde uma face afilada adorna a figura
de dois olhos tristes
de estreita abertura.

 §

REYKJAVÍK

Agora a vemos bem
Realçada pela névoa
Penumbra tranqüila e cálida
Onde olhos cor de anis brilham
Vêem como o céu é belo
Vêem como estrelas não tardam
Vêem como há sentido em perder-se
De dentro para fora do coração.

§

GAROTA HÚNGARA

Dentro dela
o deleite por perder-se
sobre desigual e branco
território de lençóis,
divagando, pensamentos
soltos.

*

 

Padrão
poesia, tradução

Ana Pérez Cañamares, por Marcelo Reis de Mello

Ana Pérez Cañamares nasceu em 1968 em Santa Cruz de Tenerife, mas desde um ano de idade mora em Madrid. Sua carreira na poesia começa com a publicação em 2007 do livro La alambrada de mi boca, publicado pela editora Baile del Sol. Pela mesma editora publicou seu primeiro livro de contos e seu segundo poemário, Alfabeto de cicatrices, de 2010. Em 2013 o livro Las sumas y los restos foi “V Premio de Poesía Blas de Otero”. Em 2014 publicou Economía de guerra pela Lupercalia editorial.

* * *

GENERACIONES

Antes de morir, mi madre dijo mamá, ven
mientras me miraba sin verme;
yo dije mamá, quédate
abrazando su cuerpo diminuto
envuelto en pañales y olor a talco;
mi hija dijo mamá, no llores
y me acarició la cabeza consolándome.

Cuando mama murió, durante unos segundos
no tuvimos muy claros los lazos que nos unían
no supimos quién se había ido
y quién se había quedado
ni en qué momento de nuestras vidas
estábamos viviendo

o muriendo.

GERAÇÕES

Antes de morrer, minha mãe disse mamãe, vem
enquanto me olhava sem ver-me;
eu disse mamãe, fica
abraçando seu corpo diminuto
envolvido em fraldas e cheiro de talco;
minha filha disse mamãe, não chora
e me acarinhou a cabeça consolando-me.

Quando mamãe morreu, durante alguns segundos
não tivemos muito claros os laços que nos uniam
não soubemos quem havia partido
e quem havia ficado
nem em que momento de nossas vidas
estávamos vivendo.

(La alambrada de mi boca)

§

Los platos que me regaló mi madre
están ya deslucidos y pasados de moda.
Cuando hacemos limpieza
nos miran como enfermos agonizantes
que no entienden qué queremos de ellos.

Pero son los platos que me regaló mi madre
que ya nunca volverá a regalarme
nada.

Si un día nos decidiéramos a tirarlos
intentaré escuchar su voz en mi cabeza:
“las cosas, hija, son sólo cosas“.

Mi madre no está en un plato.
Mi madre está en el pan que como.

Os pratos que me deu minha mãe
estão já sem brilho e fora de moda.
Quando vamos à limpeza
nos olham como doentes agonizantes
que não entendem o que queremos deles.

Mas são os pratos que me deu minha mãe
que nunca voltará a me dar
nada.

Se um dia nos decidíssemos a jogá-los fora
Tentarei escutar a sua voz na minha cabeça:
“as coisas, filha, são só coisas”.

Minha mãe não está em um prato.
Minha mãe está no pão que como.

(Las sumas y los restos)

§

MI PADRE SE LLAMABA DANIEL

Lo primero que pensé fue:
se ha muerto solo
(acompañar en la muerte
es el mejor bálsamo
para la culpa).

Lo segundo que pensé:
no me ha devuelto
mi última llamada
(nunca nos planteamos
que el deseo de independencia
también puede ser hereditario).

Lo tercero: ya no tengo padres
(y al mirar atrás descubrí
que hace ya mucho tiempo
que ninguna mano
sujeta la bici que monto).

Ahora no puedo dejar de pensar:
padre, yo no estoy muerta
pero también me pierdo muchas cosas.

Ya no estoy enfadada contigo.
Cada vez que te pienso
es domingo por la mañana.
Me llevas sobre los hombros
y yo sé que vas a invitarme
a un batido de chocolate
en el bar de la barra de zinc.
Después tu mano grande se abrirá
frente a mis ojos, y me mostrará el tesoro:
una chapa de mirinda y otra de pepsi.

Cuarenta años para descubrir
que allí estaba todo ya dicho.

MEU PAI SE CHAMAVA DANIEL

A primeira coisa que pensei foi:
morreu sozinho
(acompanhar na morte
É o melhor bálsamo
Para a culpa).

A segunda coisa que pensei:
não retornou
minha última chamada
(nunca nos damos conta
de que o desejo de independência
também pode ser hereditário).

Em terceiro: já não tenho pais
(e ao olhar pra trás descobri
que já faz muito tempo
que nenhuma mão
segura a bicicleta que eu monto)

Já não estou chateada contigo.
Sempre que penso em você
é domingo pela manhã.
Você me leva nos ombros
e eu sei que vai me convidar
para uma batida de chocolate
no bar do balcão de zinco.
Depois sua mão grande se abrirá
na frente dos meus olhos, e me mostrará o tesouro:
uma tampa de mirinda e outra de pepsi.

Quarenta anos para descobrir
que ali tudo já estava dito.

(Alfabeto de cicatrices)

§

Si un día me oyes
-después de una noche
en la que he resultado ser
encantadora:
de esas mujeres que beben
y se ponen graciosas
contando anécdotas
de bares y ácidos y viajes
y camas y cabrones
con el pelo despeinado
para mejor
y el carmín corrido
como si viniera
de morrearme en el baño
con el tío más guapo
del garito-
si un día
después de una de estas noches
en las que ejerzo
de encantadora de serpientes
al despedirme
me oyes decir
que sólo soy un fraude
compadéceme:
los adictos a los aplausos
también necesitamos testigos
cuando nos quitamos
el maquillaje.

Se um dia você me escuta
-depois de uma noite
em que acabei por ser
encantadora;
uma dessas mulheres que bebem
e ficam engraçadas
contando piadas
de bares e ácidos e viagens
e camas e patifes
com o cabelo despenteado
para melhor
e o batom excessivo
como se viesse
de beijar de língua no banho
o patrão mais bonito
do bordel-
se um dia
depois de uma destas noites
nas quais banco
a encantadora de serpentes
ao me despedir
me ouves dizer
que sou só uma fraude
e se compadece:
os viciado em aplausos
também precisamos de testemunhas
quando tiramos a maquiagem.

(Alfabeto de cicatrices)

§

Pocos saben que tengo otra hermana.
El azar nos separó al nacer.
Yo mamaba la leche de mi madre
mientras ella se secaba al sol.
Cuando perforaron mis orejas
ella recibió la ablación del clítoris.
Follé con hombres y sufrí por todos;
a manos de uno solo se quebró ella.
Me separé, lloré, abandoné mis sueños.
Ella murió unas cuantas veces
bajo piedras, ácido, sida y malaria.
Su cuerpo se deshizo y se recompuso.
En una o dos ocasiones fue feliz de morir.
Mi hija creció; mi hermana murió en el parto.
Años después parió una niña y se la quitaron.
Yo veo mi cuerpo envejecer; ella no tiene espejo.
Me pongo cremas antiarrugas
pero toda ella es un surco.
Yo hago listas de lo que le duele:

pero ella es la que administra su dolor.

Poucos sabem que tenho outra irmã.
O azar nos separou ao nascer.
Eu mamava o leite da minha mãe
enquanto ela se secava ao sol.
Quando furaram as minhas orelhas
ela recebeu a ablação do clitóris.
Trepei com homens e sofri por todos;
nas mãos de um só ela se quebrou.
Me separei, chorei, abandonei meus sonhos.
Ela morreu umas quantas vezes
Debaixo de pedras, ácido, aids e malária.
Seu corpo se desfez e se recompôs.
Em uma ou duas ocasiões foi feliz de morrer.
Minha filha cresceu; minha irmã morreu no parto.
Anos depois pariu uma menina e a tiraram dela.
Eu vejo meu corpo envelhecer; ela não tem espelho.
Passo cremes antirrugas
Mas ela toda é um sulco.
Eu faço listas do que nela dói:

mas é ela quem administra a sua dor.

(Las sumas y los restos)

§

Para todos mis gatos

A mis gatas yo les doy agua
ellas me traen rumores de selva
y belleza indómita.
Les doy comida
ellas libertad irrenunciable
pactos de respeto entre especies.
Les doy calor
ellas ponen límites a mi arrogancia
cuando intento traducirlas.
Les doy caricias
ellas enseñan astucia de samuráis.
Les doy cobijo
a las embajadoras de lo lejano y posible.
Al final un arañazo para dejar bien claro
que la ternura no es una mercancía.

Para todos os meus gatos

Às minhas gatas dou água
elas me trazem rumores da selva
e beleza indômita.
Dou-lhes comida
elas liberdade irrenunciável
pacto de respeito entre espécies.
Dou-lhes calor
elas põem limites na minha arrogância
quando tento traduzi-las.
Dou-lhes carinho
elas ensinam astúcia de samurais.
Dou abrigo
às embaixadoras do distante e possível.
Por fim um arranhão para deixar bem claro
que a ternura não é uma mercadoria.

(Las sumas y los restos)

§

Para Talo, mi primer novio

Estoy en el lugar donde fuiste a morir
aunque no conozca el cruce exacto
y no importa, yo sé que el nombre de este pueblo
está guardando tu muerte.

Nunca he visitado tu tumba ni sé dónde está.
Hablé con una de tus hermanas y me contó
que nos recordaba perfectamente
bailando una canción lenta con los ojos
cerrados, mirando hacia nuestro futuro.

Así que sé que en alguna parte estamos vivos y juntos
desafiando las leyes de la vida y la muerte
en una casa nuestra levantada en la memoria.

En un rincón de tu ataúd aún se yergue el instituto
hay un partido de baloncesto que nunca termina
nos cogemos borracheras sin resaca
y sigo teniendo tentaciones de romper aquel vaso
y rasgarme la muñeca, para parar el futuro
que un día nos separará.

Estaremos juntos siempre, me dijiste.
De alguna forma, era cierto.
Mi adolescencia fue la tuya.
Está tan muerta como tú, impresa en la piel
como un libro que no habrá que leer nunca más
porque los dos lo conocemos
palabra por palabra.

Para Talo, meu primeiro namorado

Estou no lugar aonde você foi pra morrer
Mesmo sem conhecer o ponto exato
e não importa, eu sei que o nome desta vila
está guardando a sua morte.

Nunca visitei a sua tumba nem sei onde está.
Falei com uma das suas irmãs e me contou
que lembrava perfeitamente de nós
dançando uma música lenta com os olhos
fechados, contemplando o nosso futuro.

Por isso eu sei que em algum lugar estamos vivos e juntos
desafiando as leis da vida e da morte
em uma casa nossa levantada na memória.

Em um canto do seu ataúde ainda se ergue a escola
há uma partida de basquete que nunca termina
tomamos uns porres sem ressaca
e continuo tendo tentações de quebrar aquele copo
e rasgar os pulsos, para parar o futuro
que um dia vai nos separar.

Estaremos juntos sempre, você me disse.
De algum modo, era verdade.
Minha adolescência foi a sua.
Está tão morta quanto você, impressa na pele
como um livro que não será preciso ler nunca mais
porque os dois o conhecemos
palavra por palavra.

(Las sumas y los restos)

§

para Cristina Morano

Las gatas buscan atalayas
desde las que contemplar el mundo.

Ellas dormitan sabiéndose a salvo;
yo me amurallo tras un libro.

Dice el poeta Rigo que la última
coraza es la lealtad.

Las hembras nos comprendemos:
el mundo es un peligro a nuestra disposición.

Para Cristina Morano

As gatas procuram guaritas
de onde possam contemplar o mundo.

Elas cochilam sabendo-se a salvo;
eu me amuralho atrás de um livro.

Diz o poeta Rigo que a última
Couraça é a lealdade.

As fêmeas nos entendemos:
o mundo é um perigo à nossa disposição.

(Las sumas y los restos)

§

Mi educación:
no desees nada demasiado
no te vanaglories ante nadie
-mucho menos de ser feliz-
no sueñes sueños imposibles
-tampoco sueñes la posibilidad-
no rías demasiado alto
no enfades a los dioses
      • no creas en ellos ni en sus premios
aunque estarán ahí para castigarte-
no llores delante de los otros
      • la tristeza es otra forma de ser presuntuoso-
no te aferres pero no te sueltes del todo del pasado
no te emborraches sin sufrir por la resaca
no te menosprecies
esperando compasión
no luches
todo está perdido desde siempre.

Y ahora sal al mundo, sostente, sé un ejemplo.

Minha educação:
não deseje nada demais
não se vanglorie diante de ninguém
-muito menos de ser feliz-
não sonhe sonhos impossíveis
-tampouco sonhe a possibilidade-
não ria alto demais
não entedie os deuses
• Não acredite neles e em seus prêmios
ainda estarão aí para te castigar
não core na frente dos outros
• A tristeza é uma outra forma de ser presunçoso-
não se aferre mas não se solte completamente do passado
não se embriague sem sofrer a ressaca
não se menospreze
esperando compaixão
não lute
tudo está perdido desde sempre.

E agora sai pro mundo, se aguenta, seja um exemplo.

(Las sumas y los restos)

§

Me arranco las bragas
negras de la tristeza.
Las dejo al pie de la cama
como un perro roto.
Ya se compondrá después
cuando haya que disfrazarse
para la alegría o la nada.

Arranco-me as pregas
negras da tristeza.
Deixo-as ao pé da cama
como um cachorro cansado.
Logo em seguida irá se recompor
quando tiver que se disfarçar
para a alegria ou o nada.

(Economía de guerra)

§

No soy esta que veis palidecer
bajo el fémur tibio del fluorescente.
Tampoco la mujer que oye dar las tres
como el gong del martillo absolutorio
o la bala de un fusil encasquillado.
Ni la que escribe frases sin amor
y firma igual que quien mata una mosca.

Ocupo mi silla antes de que el sol
me bendiga la frente con un beso
y salgo a la calle infiel y huérfana.
Toso el virus de la resignación
cuando el mar es un rumor clandestino
y los lirios burlas del carcelero.

Soy quien sueña llegar a la vejez
para dejarse adoptar por gallinas
y vivir en la luz de las mañanas
que ahora abandono en la casa de empeños.

Não sou esta que vês empalidecer
sob o fêmur cálido da luz fluorescente.
Tampouco a mulher que ouve dar as três
como o gongo do martelo absolutivo
ou a bala de um fuzil engatilhado.
Nem a que escreve frases sem amor
e assina como quem mata uma mosca.

Ocupo minha cadeira antes que o sol
me bendiga a testa com um beijo
e saio à rua infiel e órfã.
Tusso o vírus da resignação
quando o mar é um rumor clandestino
e os lírios mentiras do carcereiro.

Sou quem sonha chegar à velhice
para deixar-se adotar por galinhas
e viver com a luz das manhãs
que agora abandono na casa de penhores.

(Economía de guerra)

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