poesia

Regina Azevedo: 2 poemas inéditos + 2

regiss

Regina Azevedo é uma poeta brasileira nascida em Natal – RN em 2000. Autora dos livros Das vezes que morri em você, Por isso eu amo em azul intenso e Pirueta.
Mais: www.reginazvdo.tumblr.com

***

TEMPO

quando você chegou
tirei o relógio do braço
pois saber a hora através
dos seus olhos
semicerrados
do seu corpo
semiaberto
da sua fala
seminua
era como tentar
um trava-língua
um enigma
uma senha
e aprender o idioma
do seu corpo
levou tempo
por exemplo
você sabia que existe
um relógio que se baseia
nas propriedades do átomo
existe a ampulheta
que antes foi utilizada
em igrejas
e hoje as crianças
usam em jogos de tabuleiro
e podem manipulá-la
por exemplo
nunca deixando que a areia
pese totalmente para um lado
você imagina
como eu aprendi a domar
o tempo do seu sono
o tempo da seu banho
do seu bocejo
e até evitar
que você abreviasse
a palavra e o beijo
você imagina que hoje eu sei
que nada nesse mundo
é capaz de te fazer ficar
mais fácil seria esconder uma bomba
disparar mísseis
ou investigar o código genético
das libélulas e das lavandas
você sabia que a cada 65 mil anos
perdemos 1 segundo
e a cada cigarro 11 minutos
mesmo se você fosse
um relógio de vela
pra começar
ainda assim seria mais fácil
impedir que o meu cheiro
queimasse o seu corpo
e consequentemente
acelerasse o tempo
e apressasse os seus passos
você sabia que os agricultores
sabem tanto sobre a posição do sol
quanto os egípcios
e ainda assim
depois que você se foi
você levou o meu relógio
você levou a música
você levou mais que
alguns instantes
os gestos
e a casa
mas sobretudo
depois que você se foi
não há quem deixe o sol entrar
e talvez por isso
esteja tudo
adormecido

§

 

FUNDO

clichê clássico
eu te amo do fundo
do meu útero
solo sagrado de pecado
perto de onde seu pau se enfia encosta e arde
no limiar da dor
afina o violino do futuro
células dançam
leite manchando mundinho cor de rosa
você não tem vontade de ir embora
porque chão é cama, chuveiro é cama
areia espelho escada e também em pé
cama é onde você se deita sente meu cheiro e perde o sono
onde eu mostro que as poetas são mais
com a mão dentro da calça
olhando fundo no seu olho
amando de novo

§

regi

poema de “pirueta”, em intervenção urbana

FESTEJO AO FOGO

só por um segundo
sob teu peito

o farfalhar do outono
e o que você fazia
em festejo ao fogo

a ponta dos dedos
ao relento

traquejo singular da labareda

misto de calmaria e lampejo
numa dança descabelada

a língua pronta para o surgimento
da manhã

o espírito de cavalo colorido
no ato de trocar os óculos com você
e te olhar de baixo

o minério que dorme na pele
o desafio que doma o segundo
a ginga que derrete as ondas

cheiro tônico diante do espelho

o rugido e o anúncio
do tropeço no ritual:

um orgasmo estupendo
anestesia contra bombas
de efeito moral

*

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Leila Guenther (1976-)

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Leila Guenther (Blumenau, SC, 1976) publicou os livros Viagem a um deserto interior, O voo noturno das galinhas e Este lado para cima. Participou de antologias como Capitu mandou flores: contos para Machado de Assis nos cem anos de sua morte, Cusco, espejo de cosmografias: antología de relato iberoamericano, Outras ruminações: 75 poetas e a poesia de Donizete Galvão, entre outras. Mantém o blogue na linha da vida.

 

sergio maciel

* * *

 

CATEQUESE

Quando eu o ensinava a latir
você me ensinava a ser gente

O Papa de hoje diz
que os cachorros podem ir para o céu

Então poderíamos nos ver de novo algum dia
(se você me ensinasse também a entrar lá)

 

§

 

SOMBRAS, SOBRAS

O amargo da língua
O salgado dos olhos
As inúmeras variações do acre
O que somente alcanço
Pelos poros mais remotos

Despojos
De uma guerra que não lutei

Aceito os restos
(Nada tenho a oferecer em troca)

Só me é dado atingir a superfície
Por pedaços que não se comunicam entre si

Sei que nunca compreenderei o todo através das partes:

Não é para mim que retorna
– Em sonhos ou pesadelos –
A criança que se constrói
Em torno da mãe que não serei

 

§

 

ILHA DO TESOURO

As lâminas se espalham pelo chão
Em que pulamos amarelinha
E ninguém nos advertiu do risco
De se dormir próximo da fogueira
Náufragos de uma vida inteira
Nem percebemos quão perto estamos
dos brinquedos que perdemos
Tudo o que se enterrou na areia
Torna a aparecer com o relento
Repetimos os fracassos
Multiplicamos as falhas
Colecionamos decepções

Nascer
Amar
Partir

É sempre pela primeira vez que se comete o mesmo erro

 

§

 

DO MEU LIVRO DE TRAVESSEIRO

Quanto a flores, o crisântemo dos cemitérios e altares budistas. O lótus branco que nasce na lama. A acácia que não tem perfume. O ipê que os imigrantes japoneses adotaram por saudade das cerejeiras. E a flor do capim.

 

Se fosse possível aprender a distância: “A arte de ser gueixa em dez lições”, “Curso introdutório para dervixes”, “Método samurai nível avançado”, “Aulas de canto para muezzins”, “Meditação mindfulness com Buda Shakyamuni”.

Do sono: cenas de cinema em câmera lenta. Garupa de motocicleta. Narração de partida de golfe. Discursos cujo conteúdo não se compreende. Chuva caindo em telhado de zinco. Pescaria. Estrada sem curva. O movimento e o som de uma fogueira. O grilo quando canta.

Quanto a profissões, massagista de cachorro. Tradutora de pássaro. Manobrista de mula. Babá de bicho-preguiça.

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Victor Prado

Victor Prado, 21, publicou, por vias independentes e digitais, dois livretos de poesia: Mamute (2015) e Onde Eu Poderia Estar (2016). Em 2016 a Editora Urutau publicou Bastardo, seu primogênito com ISBN. Também já esteve por alguns lugares bem bonitos como: Enfermaria6, Diversos Afins, Jornal RelevO, Mallarmargens, SubVersa, Revista Raimundo entre outros.

* * *

para Ana de Araújo

No campo, as manhãs se formam

No campo,
as manhãs
se formam

Isso já foi dito,

Mas novamente:

No campo, as manhãs se formam como
pequenos adornos que as crianças carregam
por ai

Pequenos brinquedos, esses nossos
velhos dedos: tão sóbrios, tão retilíneos

Distantes dos rizomas, do
líquido viscoso da vida,
do orvalho, da
coisa bêbada como o vento

Essa dança é uma espécie
de sistema hidráulico
Essa curva é um ritmo verde

Mas a mula sempre empaca
ou
O caminho sempre exige, em sua
rigidez, outras chegadas

II

O fedor da casa antiga,

igual o da pele a muito presa
dentro do gesso,

sempre acha um canto, que respinga
tranquilo nos encaracolados das plantas

III

Trabalhosa estação, pronta
a ser onda brava:

Mãe que dá sua benção
a cria que logo adormece:

Essa casa erguida no primeiro Sol
Ereta e rija,
Mas também aberta

IV

A natureza observa

E atua

Tão cotidiana quanto um milagre.

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poesia

Maíra Dal’Maz

maíra

Maíra Dal’Maz, Rio Grande do Norte ou Pará, 1991, professora e pesquisadora na área de educação, tem dois zines publicados com amigos (“doze olhos ou terceira miopia” e “sedenta”), participou de uma coletânea de poemas publicada pela UBE – RN. Mais textos podem ser encontrados no blog Vortex de catatonia.

***

I

como fosse domínio do homem
o pico do cabugi, ou qualquer dos pontos altos da terra
e como se não fosse dar jeito na vida do homem
ela cai e é soterrada como pedrinha que se descola
ou qualquer matéria desgarrada que deve ficar ao chão
jamais no alto

e eu imagino quantas vidas foram para que o pico do cabugi tomasse a forma
desse projeto de vulcão que nunca sofreu
com o ar quente dos gêiseres
ou o cheiro de enxofre que vem do desconhecido
mas o cheiro confundido com os das tantas raposas sem vida no acostamento
saindo do jovem displicente antagonista das recomendações “não vá”

como se fosse, portanto, domínio do homem
superar a natureza da mulher selvagem que recolherá
os ossos
na base do vulcão-pedra no deserto do sertão, onde os canos de adutoras distraem o passante, e cantará
para seus humores voltarem a correr ao redor
não do pico, mas dos corações parados em volta de um morro
com formato de seio

o morro, o bicho morto e a mulher:
domínios por si, nunca do homem

§

 

II

dedicatórias

*

para B.

abastado de mal entendidos o homem que morreu
cuja a pele eu conheço doutros tempos
pele desatada
munida
de oleosidade natural
macia
marcada
feito a dos homens que precederam meu pai

*

para M.

ainda aquele colar de prata com lápis-lazúli
ou qualquer azul que te não te demovam os olhos-opressores
por analogia teus olhos multiplicam-se sobre o teu torso e orelhas,
como brotoejas
em excesso:
lembretes de castigos em couraças negras

*

para H.

escrevi no quadro negro da cozinha algumas urgências
prevendo uma busca incessante de palavras novas
ou riscos nas casas desconhecidas próximas ao baldo
pedindo que me ligue, por favor, me ligue
ou acenda na escuridão aquele canudo de pólvora
e natureza
para que possamos dormir

§

 

III

lembranças do baldo

dezessete horas reaberto:
lembro-me da noite em que chovia

depois de alguns sambas
do alto do viaduto do baldo interditado
a vista do front:

travessia, libido, inconsciência

lembro-me, ainda,
dos fogos de artifício sempre ouvidos desde que não conhecia o outro fogo
embalados em caixas de papelão

com orientações:
“7 tiros” ou “12 tiros”

na cervical estremecida
da minha cachorra hoje

hoje:
baldo livre

de quem?

§

 

IV

lendo chaya, a mulher que só tinha o nome e o karma sifilítico desviado
e sendo exposta a todo esse íntimo
à luz, com pressa de se colocar pensando
e descrevendo o não-ser
ou o ser lírico que fala só dos aflitos

eu, tentando escrever um poema que fosse
lido como música e que me mostrasse poeta
de sentimentos e angústias

(eu, frustrada com meu poema
sem imagens
sem conseguir ver além de)

baratas, cemitérios e sonhos com embates meus e um red nose na rua do baldo
só penso nas unhas da embaladora do supermercado
e como elas devem estar nos poemas

mãos-suspense

toda embaladora de presentes tem as unhas longas,
pintadas com glitter sobre algum tom róseo

que ditam a maestria dos usos de durex
tal qual todas que embalaram os brinquedos da minha infância

e hoje embalam sagatibas ouro

§

 

V

“Violinos: seda encrespada, queixas de mulher à noite sozinha.”
(M. Darwish)
“…esta noche angustiosa
llena de dualismos”
(A. Pizarnik)

consummatum est:
solidão em qualquer não-litoral
e por quando passo trêsquatrocinco dias
componho o hábito teu

esquartejo as frutas
recriando teu vulto na cozinha

eu como,
pelo menos,
tua sombra

§

 

VI

perdi as contas da quilometragem
toda rodada na vida

nessa perda, criei parâmetros
como o da textura dos asfaltos ou barro
que levam a três pontos da rosa dos ventos

como reverberam com o corpo sentado,
o movimento dos seios quando os buracos
as instabilidades do assento

a fricção da calça jeans no clitóris

(o prazer num ônibus velho rodeado do desconhecido)
as rodas dos automóveis, novas,
ou o desalinho

e conheço todos os postos de gasolina,

onde tomei os piores cafés, até perder este hábito
ou os grandes galpões-facções

e coloquei entre meus dedos tantos cigarros imaginários enquanto só
para não voltar ao hábito

fumei o ar

e senti
o cheiro de carniça quantas vezes
dos animais mortos na beira da estrada

e na estrada,
as desconversas
os desvios:

perdi as contas dos esquecimentos
mas algo sobra
não sei o quê

§

 

VII

sentir a permissão para alcançar uma emoção
coisa há muito esquecida
nas paixões e seus ímpetos de objetos quebrados,
como os vasos lançados das janelas,
acender o círio d’um santo
e rezar longas preces a essas paixões descuidadas:

o que entocam os poetas no cano que leva o fundo
dos seus vasos de banheiros sujos
depois de cervejas, cigarros e som?

sentir a permissão de jogar o corpo na estrada, ir até…
voltar a si e negar o arremesso

mas só depois do desvario
de quando sílvia me fala

§

 

VIII

contorno

dentre as principais coisas observáveis
com tamanho agrado estão:
o céu, a estrada vazia, os olhos dos meus cachorros
e o desenho do seu perfil

[lembro-me no teatro
como por minutos esqueci de dos amores y un bicho
e senti pela minha coluna todo o júbilo e lisonja
quando vi de tão perto o seu perfil]

investigava-o para chegar a isso
esse esquecimento dos tempos de guerras:
eu olhava todas as suas metades

era para isso, para encontrar todas as coisas observáveis com agrado
que eu flanava por todas as suas metades
pelas veias, por um ombro

mas, diferente do cavalheiro de Shalott:
[talvez ache, também, que gosta de se reajustar]
half is not enough

§

 

IX

oferenda

o fenômeno da fome
da mãe dos que nascem peixes
reduto de colo
recato de cor escura
um lar: todo negro

mania de anaeróbio
que costumo levar

o que costumo soltar:
o canto que apenas uns desatentos
uns passantes

um canto no vácuo

coágulo de ar:
três minutos de morte
brilho azul das vestes
odoyá

§

 

X

deitar-se
em decúbito ventral
tendo à vista
um livro-grão
uma flor no pensamento

a flor se abre

(uma pupa amadurece)

deitar-me
e ter com o livro-pólen
o estame:
pequeno filho

sempre que sou outra
deito-me com esse tipo

***

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poesia, tradução

Denise Levertov, por Mariana Basílio

Denise

Denise Levertov (1923 – 1997) foi poeta, escritora e tradutora inglesa, naturalizada nos Estados Unidos e ligada à Geração Beat.

Atualmente traduzo algumas das principais poetas americanas do século XX. Escolhi Denise Levertov para essa colaboração por dois fatores: primeiro, uma intensa ligação que sinto com a poeta no presente, além da mesma ser pouco conhecida no país. De traduções já realizadas da autora, encontrei uma anterior por aqui, por Stefano Calgaro, assim como outra na revista Zunái, feita por Ruy Vasconcelos, e por último, no Jornal Rascunho, por André Caramuru Aubert.

A escolha dos poemas aconteceu a partir de minha leitura dos seus livros, incluindo The Jacob’s Ladder (1961), O Taste and See (1964) e The Sorrow Dance (1967).  São livros que trazem conceitos marcantes da poética de Levertov, com imagens intensas e associações entre o ser, o seu local e a natureza das coisas, também explorando o momento de transição da sociedade na década de 60, incluindo sua constante práxis no feminismo.

Em relação à tradução, busquei uma equivalência em nossa língua para a dicção e o vocabulário da poeta, procurando valer-me de seus recursos e reproduzir a sonoridade do verso livre inglês sem comprometer o sentido, explorando a capacidade fluídica e o impacto de suas palavras.

 Mariana Basílio

***

Quatro poemas dos livros The Jacob’s Ladder (1961), O Taste and See (1964) e The Sorrow Dance (1967).

 

SALMO RELATIVO AO CASTELO

Deixa-me estar no lugar do castelo.

Deixa o castelo estar dentro de mim.

Deixa que ele se eleve firme do anel do fosso.

Deixa que as águas do fosso reflitam a verde plumagem dos patos, deixa que os cascos das tartarugas rompam a superfície ou sejam vistos através das profundezas ondulantes.

Deixa a cavalaria postada nas bordas do fosso, e um cachorro, sempre alertas à chegada do sono.

Deixa que o espaço embaixo do primeiro piso seja escuro, deixa que a água envolva os pilares de pedra e que o vívido lodo verde neles cintile; deixa que lá fique um bote.

Deixa que as cariátides do segundo piso sejam ursos sustentados por vigas que sejam dragões.

No parapeito do salão central, deixa quatro arqueiros, olhando aos quatro horizontes. Dentro, deixa que o príncipe se sinta em casa, deixa-o sentar pensativo, em paz, todas as janelas abertas para as lógias.

Deixa que a jovem rainha se sente no alto, no ar fresco, seu filho nos braços; deixe-a ver com alegria o grande círculo, as sombras peregrinas, o labor do sol e o folgar do vento. Deixa-a caminhar de lá para cá. Deixa as colunas sustentarem o telhado, deixa que os pisos sustentem as colunas, deixa um espaço escuro embaixo do piso mais inferior, deixa que o castelo se eleve firme do fosso, deixa o fosso ser um anel e suas águas serem profundas, deixa que os guardiões o guardem, deixa que hajam vastas terras ao seu redor, deixa que o campo onde ele esteja fique dentro de mim, deixa-me estar onde ele estiver.

 

PSALM CONCERNING THE CASTLE

Let me be at the place of the castle. 

Let the castle be within me. 

Let it rise foursquare from the moat’s ring. 

Let the moat’s waters reflect green plumage of ducks, let the shells of swimming turtles break the surface or be seen through the rippling depths. 

Let horsemen be stationed at the rim of it, and a dog, always alert on the brink of sleep. 

Let the space under the first storey be dark, let the water lap the stone posts, and vivid green slime glimmer upon them; let a boat be kept there. 

Let the caryatids of the second storey be bears upheld on beams that are dragons. 

On the parapet of the central room, let there be four archers, looking off to the four horizons. Within, let the prince be at home, let him sit in deep thought, at peace, all the windows open to the loggias. 

Let the young queen sit above, in the cool air, her child in her arms; let her look with joy at the great circle, the pilgrim shadows, the work of the sun and the play of the wind. Let her walk to and fro. Let the columns uphold the roof, let the storeys uphold the columns, let there be dark space below the lowest floor, let the castle rise foursquare out of the moat, let the moat be a ring and the water deep, let the guardians guard it, let there be wide lands around it, let that country where it stands be within me, let me be where it is.

§

A DOR DO MATRIMÔNIO

A dor do matrimônio:

coxa e língua, amado,
carregam seu peso,

que pulsa nos dentes
Buscamos comunhão

e somos rejeitados, amado,
todos e cada um

É leviatã e nós

em seu estômago
atrás de alegria, alguma alegria
inconcebível fora dele

de dois a dois na arca

dessa dor.

THE ACHE OF MARRIAGE

The ache of marriage:

thigh and tongue, beloved, 
are heavy with it, 
it throbs in the teeth

We look for communion
and are turned away, beloved, 
each and each

It is leviathan and we 
in its belly
looking for joy, some joy 
not to be known outside it

two by two in the ark of 
the ache of it.

§

CANÇÃO DE AMOR 

Tua beleza, que uma vez perdi de vista

por longo tempo, é longa,
não simétrica, e veste

as cores terrosas que me fazem vê-la.

Uma longa beleza. Que é isso?
Uma canção

que pode ser cantada uma e outra vez
longas notas ou longos ossos.

O amor é uma paisagem que as longas montanhas
definem mas não

separam da

distância imperceptível.
No outono, no outono,

tuas árvores esticam
seus braços longos em mangas

de vermelho terra e
amarelo céu, um pouco
podadas. Eu dou

longos passeios por eles. As uvas
que precisam de geada para amadurecer

são âmbar e crescem profundas na
sebe, meio ocultas,
como tua beleza cresce em longas gavinhas

meio na escuridão.

LOVE SONG 

Your beauty, which I lost sight of once
for a long time, is long,
not symmetrical, and wears
the earth colors that make me see it.

A long beauty, what is that?
A song
that can be sung over and over,
long notes or long bones.

Love is a landscape the long mountains
define but don’t
shut off from the
unseeable distance.

In fall, in fall,
your trees stretch
their long arms in sleeves
of earth-red and

sky-yellow, a little
lop-sided. I take
long walks among them. The grapes
that need frost to ripen them

are amber and grow deep in the
hedge, half-concealed,
the way your beauty grows in long tendrils
half in darkness.

§

OS ELFOS

Os elfos não são menores
que os humanos, e caminham
como os humanos fazem, nesse mundo,
mas com mais graça que a maioria,
e não são imortais.

Sua beleza os separa
dos demais homens e mulheres
a menos que uma mulher tenha aquele fogo frio em si

chamado poeta: com isso
ela pode vê-los e por sua luz

eles a conhecem e não a temem

e prateadas línguas de amor
cintilam entre eles.

THE ELVES

Elves are no smaller
than men, and walk
as men do, in this world,
but with more grace than most,
and are not immortal.

Their beauty sets them aside
from other men and from women
unless a woman has that cold fire in her
called poet: with that

she may see them and by its light
they know her and are not afraid
and silver tongues of love
flicker between them. 

***

 

MARIANA BASÍLIO (1989) é poeta. Autora de Nepente (Giostri, 2015) e Sombras & Luzes (Penalux, 2016), atualmente versa Megalômana, e Tríptico Vital (3º lugar ProAC 2016). Tem poemas em revistas do Brasil e de Portugal, como alagunas, Diversos Afins, Garupa, Germina, InComunidade, mallarmargens, Odara, Raimundo, entre outras. Aqui no escamandro já apareceu quatro poemas. Contato: http://www.marianabasilio.com.br

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Carina Castro

fotografia: luís bahú

Carina Castro (SP, 1988) é poeta, pesquisadora e artivista cultural. É autora do livro de poesia Caravana (Editora Patuá, 2013). Se dedica também aos textos para crianças e jovens, ganhou o Prémio Lusofonia de Portugal (2012) na categoria conto infantojuvenil; de lá pra cá muitos textos engavetados, alguns publicados em revistas digitais e antologias diversas, entre elas a mais recente É agora como nunca (Cia das Letras, 2017). Com Deborah Erê criou o selo de publicações independentes & intervenções gráfico-poéticas Selenitas. É idealizadora e atuante no coletivo de feminismo, arte-educação & infância Espaço Marciana. Atualmente escreve seu próximo livro e ministra oficinas de criação literária para mulheres e crianças. Seus textos e trampos podem ser encontrados internet afora no blog: Tudo é Coisa  e nas páginas: Caravana – poéticas de Carina Castro & Selenitas

***

afiadas

bem sabemos manusear facas
nem sempre na cozinha, meu bem
também riscamos chão
pontiagudas
lâminas afiadas
embainhadas na coragemedo
nem sempre armas brancas

afiamos a língua na pedra
estirada qual kali
mais cortante que a aresta do papel
aveludado capim cidreira
vento frio da madrugada
e o inconfundível sabor
que vem a boca

não mais delírios de buñuel
no brilho que espelha
confunde cegueira tua
rasgar de raios ou lancinante mirada?
§

SPIRITUAL

te aceno do outro lado da margem
mas não sei como transpor esse
rio
de palavras
ditas não ditas
vez ou outra versadas

engulo o choro

pra molhar a garganta
pra desfazer o nó(dulo
molhar por dentro

brota em mim uma delicadeza
bruta
e enquanto cresce corpo acima
caminho sobre as águas

§


IN DOLOR

tem dores que latejam
juntinho do osso
e aprendemos a sorrir
mesmo assim
gengiva exposta
falta chorar
de rir
mostro os caninos
quando desestruturada
a gente fica sem cara
e aquela dor canina
insiste
a gente
insiste também
sem anestesia
sente fundo a dor até não sentir mais
espinha ereta
nadamos do âmago
ao mar aberto
até que possamos levitar

e carregar os próprios ossos

 ***

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poesia

Izadora Xavier do Monte

Izadora Xavier do Monte já teve vários blogs de poemas. Atualmente faz doutorado em estudos de gênero.

twitter.com/bebelarcher

* * *

 náite

Preparem-se todos.
Vou redizer tudo que já disse
e não vou ser a primeira.
Quando me repito, não repito a mim mesma.
Aos domingos, logo antes de dormir,
vou falar de tristeza, de algum filme pretensioso,
ou de cerveja.

E olha que eu nem tenho mais bebido cerveja
porque o álcool só acentua o meu desânimo
Como um domingo líquido e azedo, servido aos sábados.
Por algum, ou o mesmo, garçom mal-humorado.

A certa altura da noite
todos cheiram a cerveja.
É mais ou menos a hora que eu começo a querer ir embora,
até lembrar que estou de carona

E carona é como um casamento – compromisso e espera.

Pelo mesmo caminho, sempre, ele sempre me leva
por isso o espero. Desde sempre, ou para sempre, às vezes parece
Espero-o como se ele mesmo fosse a minha casa.
A espera amanhece em mim um arrependimento, com a noite ainda alta.
Um arrependimento que diz, fala, como tábuas, de obrigações
honrar mãe, não odiar ninguém, não pensar para si mesma:
como é burro aquele menino
ou insuportável aquela garota

não cobiçar

não cobiçar

não vou cobiçar…

Nem os vou pensar irreparavelmente idiotas, a todos, e a mim também.
Enfadada eu tento
uma ou duas conversas, desperdiço-me um pouco
em todas as coisas das quais amanhã vou me arrepender
Essa culpa me lembra, esse cheiro de cerveja, tenho tanto

do que me arrepender

Mas se eu ficasse em casa, esse arrependimento, esse arrependimento também estaria
Esse arrependimento como um sonho, porque desconheço a causa
Não saberia de onde vem, incapaz de curá-lo mesmo em casa

e cumprindo os deveres,

e me esforçando em tudo. Em ignorar ou transcrever esse arrependimento,

ele continua o mesmo, domingo

às cinco para as dez, teclado sujo,

teclas cansadas.

Então vou me repetir, pessoal, mas não me levem muito a sério
não me levem a lugar nenhum
não me chamem para nada.
O que sofro já foi descrito por Bob Dylan no 34o. verso
de uma canção, gravada há muito, desconhecida do público, só
recentemente lançada.

Vou me repetir e não se espantem
Vocês já viram isso acontecer
Nenhum de nós esboçou reação. Como se o lento desgastar de nós mesmos

fosse transmitido

por um canal estrangeiro.

Vou me repetir à exaustão, como festas
e copos de cervejas, para um dia poder dizer
‘se lembra’
e não ter havido nada. O que aconteceu

além de estarmos aqui

e aquelas kaiser sobrando no balde de gelo

porque kaiser é ruim pra caralho?

§

aparecer offline

É impossível estar perfeitamente só.

Com o barulho dos carros na avenida –
alcança os ouvidos como moscas
alcançam os ouvidos, zunindo, como entomóveis, intrometendo-se
pelas portas entreabertas de um quase sono.
Como se não se saber mosca,
ou não se saber carro na avenida
perdoasse a impolidez
de não deixar alguém em paz -,

como a fronha e a escrivaninha
e as duas chamadas não atendidas
não entendem
que é impossível estar
perfeitamente só
quando estar só
é inevitável.

Fechou-se a janela sobre a noite fria
tarde demais. Estava já algo em mim quebrado,
irrestituível.
Como é terrível, terrível
a noite e todos os programas de TV que ela oferece.

Queria estar só,
mas não consigo.
Pensei se haveria, atrás da cortina,
algo que eu já não tenha visto.
Não poderia explicar o que seria
porque, é claro,
nunca vi, o que quer que seja,
parente de maravilhas e paralelepípedos.

Se alguém me chamasse em uma janela
do msn, agora,
não responderia. Nem abrirei a cortina.
Não há emotícone que represente o que eu sinto
nada para demonstrar o conforto imperfeito
da minha solidão.
Talvez
aquela carinha, a amarela,
com as lágrimas
que aparecem e somem,

e voltam a aparecer
e a sumir,
chegue perto de tudo isso, talvez essa carinha seja o
retrato exato de mim,
presa às possibilidades
de uma janela.
Uma janela para algo distante, distante.

Hoje eu não vou sair.
Estou pequena demais
para a noite lá fora.

§

poema feito com o auxílio da wikipedia

eu conto a distância da sua ausência
pelo comprimento das minhas unhas.
Essa manhã, tirando a sujeira que aparece por baixo da borda esbranquiçada,
contei uma semana.

Uma semana desde a sua última chamada, última mensagem
ou antes uma semana desde que a antecipação do encontro
me levou pra dentro do banheiro,
para reduzira as bordas esbranquiçadas a pontas nuas de dedo

– em certos mamíferos, unhas não são garras. Em certos mamíferos, unhas são menores e arrendondadas para facilitar a manipulação de ferramentas

Certos mamíferos tem unhas, não garras, que permitem a manipulação de ferramentas tais como um corta unhas
que corta unhas em antecipação à manipulação de outros elementos –
tais quais o sabão com que eu lavo todos os meus pêlos quando antecipo te encontrar.
A garrafa de argânia não a manipulo com as unhas curtas.
Só quando elas crescem que eu recubro meu corpo de argânia para lembrar teu cheiro sobre o meu.

Tantos homens certamente se lembram das minhas longas garras selvagens
Que agora alegramente podo em dedos macios para te agradar.
Esperando, eu higienizo minhas garras, e contemplo em centímetros de queratina
o negativo de um encontro.

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moussaka vegana

de repente respiro fundo e em vez de respirar ar a única coisa que respiro é o espaço vazio o espaço no qual você existia e que não existe mais. parece que eu tentei respirar direto do último sopro que saiu do seu corpo

uma manhã de sábado exatamente como essa.

será que foi você mesmo ou fui eu que morri

(um momento me falta ar e eu um momento eu quase sou feliz porque não sei ao certo se foi você ou fui eu que desapareci)

perder não é uma arte elisabete. perder é um trabalho manual é o trabalho de descascar as peles da minha mão que não estavam lá enquanto as peles da sua mão se descascavam até não mais existir até perderem o contato para onde foi o contato da sua mão com as batatas que me alimentavam com meus cabelos com o teclado.

Quando a gente morre, para onde vai todo o nosso amor

só a tia nonoia podia te banhar só ela sabia como.

perder é o artesanato de odiar cada dia

o trabalho de ter que esquecer todo dia                                 pra poder conseguir descascar as batatas na cozinha e dansar na cozinha e me odiar na cozinha porque eu estava esquecendo que você era capaz de morrer antes de você morrer.

mas você não queria ser lembrado

envelhecer é o contrário

perder é o contrário de uma arte e tant mieux tant mieux saber desaperecer saber não ser conhecido saber ser esquecido saber esquecer

tantas gram´ætica scompradas tantas gramaticas

no fim você já não conseguia escrever nenhuma mensagem

(há uma seita secreta do luto, eu li sobre isso em harry potter)

perder é o contrário de uma arte e tant mieux tant mieux saber desaperecer saber não ser conhecido saber ser esquecido saber esquecer

então começo fazendo uma moussaka porque eu esqueci que era isso o que você fazia pra mim nas manhãs de sábado em que você não estava morto

esquecer tão inutil quanto lembrar tão inutil quanto

com batatas e molho de tomate e grão de bico faltou a berinjela é isso, é a berinjela eu esqueci da berinjela como eu esqueci bah voilà c’est raté eu continuo a lembrar de você

minhas mãos descascadas como as batatas eu não quero escrever porque escrever é resistir ao esquecimento e por isso é inutil; como você, quatro livros sobre minha cabeceira são inuteis e como sofrer e batatas são inuteis sempre uma coisa tao intuil quanto a outra sempre uma coisa em frente a outra sempre o impossivel tão estupido quanto o real

existem boas e más razões pra amar alguém?

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