poesia

Vinícius Mahier (1994—)

Vinícius Mahier nasceu em Campo Belo, Minas Gerais, em novembro de 1994. É mestrando em Letras pela Universidade Federal de São João del-Rei. Publica seus poemas no blog ridiculus sum.

ULTRASSONOGRAFIA

que você trepe comigo como se eu fosse uma mulher
eu não sou uma mulher como se eu fosse ou fosse
uma mulher que você ama como se fosse uma mulher
que você nunca como se eu fosse uma buceta inteira
dentro deste esperma como se eu fosse o teu olhar
inteiro seminal prostático como se eu fosse a tua boca
inteira dentro desta língua como se eu fosse eu a tua língua
inteira como se eu fosse uma mulher ou duas
ou duas metades serradas ao meio
como se eu fosse uma mulher de quatro
como se eu fosse uma mulher de pé
uma mulher sintaxe lexical dos teus joelhos
à garganta no teu cu nos teus buracos
como se eu fosse essa mulher imprópria essa mulher
que cresce você é essa mulher que cresce como se eu fosse
uma mulher do mundo no fundo do fundo da falta
de nome do teu específico fosso o que fosse
fundo fundo vasto fundo se eu me chamasse vinícius
eu seria mulher não seria você fosse eu que fosso
tua virilha é alta como uma torre a minha torre
uma buceta russa dentro da tua virilha que você
me coma como se eu fosse uma mulher que você
me chupe como se eu fosse uma mulher que você
menstrue como se eu fosse uma mulher que você
me dá como se eu fosse uma mulher que dá falando-se
da fêmea vivípara quando expele do útero o ser que gerou
que você trepe comigo como se eu fosse essa mulher
não outra não essa como se eu fosse eu fosse
uma mulher que você não ama como se eu fosse
uma mulher que você enxerga como se eu fosse
uma mulher que você tateia como se eu fosse
uma mulher que você liquida como se eu fosse
uma mulher que eu nunca fui a não ser na última quarta
quando eu te disse eu te amo longe da minha boca
que você me quebra como se eu fosse o osso a cadela
que você não larga o tutano que você não vaza cria
como se eu fosse a tua imagem e semelhança
afastada exilada arrancada amputada adorada de mim
no membro que eu já perdi a dor do membro fantasma
como se eu dissesse que ela mesma iria comprar as flores
ao invés de ganir diante do nada e eu fodo contigo
como se eu fosse a mulher que você devora homens como ar
como se eu fosse outra corpo a corpo comigo mesma
como se eu fosse quase imaginária concreta ereta indivisível
e eu tivesse acordado com coceira no hímen
como se eu fosse a esfinge a teus pés mutáveis
a autobiografia de todo mundo em uma única manhã
como se eu fosse a jocasta do nosso incesto deliberado
como se eu fosse a antígona do que se ergue a céu aberto
como se eu fosse a medeia do que permito vivo
como se eu fosse a lisístrata na tua guerra do peloponeso
como se eu fosse a mulher da mulher de lot
como se eu fosse a virgem do teu cristo redentor
braços abertos sobre a guanabara como se eu fosse
o rio o terceiro rio na tua margem de erros
como se eu fosse nascer como se eu fosse mulher
como se eu fosse um homem.

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poesia, tradução

“A traição da moendeira”, de Goethe, por Mauricio Mendonça Cardozo

Este poema, também conhecido como “A traição da moleira” [Der Müllerin Verrat], é parte do conto “La folle en pèlerinage“, publicado anonimamente em 1789 nos Cahiers de lecture, revista alemã que veiculava apenas textos em língua francesa. Sua autoria até hoje permanece desconhecida. Tomando algumas liberdades poéticas, Goethe traduz para o alemão o conto e o poema, inserindo o conjunto, sob o título de “A disparatada peregrina” [Die pilgernde Törin], no quinto capítulo do primeiro livro de sua obra Os anos de peregrinação de Wilhelm Meister (1821-1829). Nesse contexto, Goethe não atribui ao poema um título próprio.

Segundo anota uma das edições críticas da obra de Goethe (Hamburger AusgabeRomane und Novellen III, volume 8, p.569), o autor alemão não traduz a novela a partir da versão publicada em 1789, mas, sim, a partir de uma cópia manuscrita, com pequenas variações, até hoje disponível no Goethe- und Schiller-Archiv, em Weimar. Uma versão dita mais “literal”, traduzida para o alemão por seu secretário Riemer, pode também ter servido de base para a versão final de Goethe.

Seguindo a tradição das baladas populares e dos dramas musicais, o poema, em alemão, é uma canção formada por 10 oitavas, em tetrâmetros (octossilábicos) de pés jâmbicos. As estrofes, o padrão rímico e a predominância estrutural de células jâmbicas são reproduzidos nesta versão em português, que, no entanto, acomoda essa romança burlesca em versos dodecassílabos.

Mauricio Mendonça Cardozo (Curitiba, 1971) é professor de teoria da tradução e tradução literária na Universidade Federal do Paraná, em Curitiba (Brasil). É tradutor de autores como E. E. Cummings, Rainer Maria Rilke, Paul Celan, Heinrich Heine, Theodor Storm, entre outros, com destaque à tradução da autobiografia Poesia e Verdade, de Goethe, contemplada com o Prêmio Paulo Rónai de Tradução, em 2018. É autor do livro de poemas quarentaequatro (Circuito, 2016).

* * *

A traição da moendeira

D’onde ele vem com seu mantô e tão ligeiro,
Nem bem o dia alvoreceu no oriente?
Será que o vento frio o fez de passageiro
E edificou o nosso amigo penitente?
Quem foi, me digam: quem roubou o seu chapéu?
Será que anda a pés descalços por que gosta?
Por que caminhos, revirando terra e céu,
Chegou à mata regelada da alta encosta?

Estranhamente abandonou o seu chatô,
Onde ele sempre diversão pôde encontrar,
E se ele não tivesse em mãos o seu mantô,
Mas que vergonha que ele então iria passar!
Pois foi assim que alguém, pregando-lhe uma peça,
Pegou-lhe a roupa, pegou trouxa, pegou tudo:
O pobre amigo desvestido até a cabeça,
Por pouco não virou um Adão de tão desnudo.

Por que arriscar-se pela vida tão faceiro
Por uma fruta, fruto ensejo do dessiso,
Que de tão bela, no quintal do moendeiro,
Iguala àquela nos jardins do paraíso?
Não vai fazer mais uma destas outra vez;
Saiu correndo, ali não volta mais tão cedo!
Na noite fria, remoendo o seu revés,
Vai lamentando amargamente o desenredo:

– Não pude ler em seu olhar de fogo ardente
Uma só sílaba que fosse de traição!
Quando comigo, parecia tão contente,
Mas já tramava o negro intento de sua ação.
Pod’ria eu já ter sonhado nos seus braços
Quão traiçoeiro o coração dela batia?
Até o Cupido ela mandou deter o passo,
Que, demorando-se, brindou-nos com alegria.

– Aproveitou-se da paixão que me inebriava,
E aquela noite se estendeu sem mais ter fim,
Mas de manhã, raiando o dia, toda brava,
Saiu gritando por sua mãe, sem dó de mim!
Aí surgiu de uma só vez a parentada.
Foi tanta gente, mal cabiam num só quarto!
E veio irmão, irmã e a tia adoentada,
E veio primo, prima e um tio já tendo infarto!

– A gritaria furibunda estava feita!
Cada parente virou um bicho diferente.
“Flor e grinalda, só assim é que se ajeita!”,
É o que exigia ali de mim toda essa gente.
“Mas o que é isso? Vocês todos estão loucos?
Por que a pressão sobre esse moço tão ingênuo?
Não é nada fácil conquistar esses tesouros,
Isso demanda certo tato e algum engenho.

Saibam vocês que se o Cupido faz seus jogos,
Ele só joga quando chega o tempo certo:
Se no moinho a floração começa logo,
O fim dos anos em botão já está bem perto” –.
Roubaram então a trouxa e as roupas do rapaz
E até o mantô já estavam prestes a pegar.
Como é que toda aquela gente tão falaz
Foi se encovar numa casinha tão vulgar.

– Pois eu saltei e disparei trovões e raios,
Abri passagem pela turba alvoroçada;
E ainda pude olhar p’ra ela de soslaio,
Mas, ai de mim, como era bela a desgraçada!
O povo todo se rendeu à minha ira,
Mas sem deixar de desfiar o xingatório;
Dizendo coisas que é melhor que eu não refira,
Eu finalmente me livrei daquela escória.

– Dessas mocinhas do interior e da cidade,
Eu delas fujo como um gato rescaldado!
Que tal deixarem às damas d’alta sociedade
Esse prazer de desvestir os seus criados!?
Mas se vocês também são hábeis nessas artes
E não se atêm às sempiternas ligações,
Ao menos lembrem de variar o seu comparte,
E não me venham com essas suas delações –.

Cantava assim na noite fria o tremebundo,
Nem um só ramo em pleno inverno enverdecia.
Mas eu me rio de suas mágoas mais profundas,
Já que no fundo elas são mais que merecidas;
É o que acontece a qualquer um que, à luz do dia,
Engana a amada que o acompanha a vida inteira,
E à noite sem temer Cupido, em quem se fia,
Vai rastejando para os braços da moendeira.

Der Müllerin Verrat

Woher im Mantel so geschwinde,
Da kaum der Tag in Osten graut?
Hat wohl der Freund beim scharfen Winde
Auf einer Wallfahrt sich erbaut?
Wer hat ihm seinen Hut genommen?
Mag er mit Willen barfuß gehn?
Wie ist er in den Wald gekommen
Auf den beschneiten, wilden Höhn?

Gar wunderlich von warmer Stätte,
Wo er sich bessern Spaß versprach,
Und wenn er nicht den Mantel hätte,
Wie gräßlich wäre seine Schmach!
So hat ihn jener Schalk betrogen
Und ihm das Bündel abgepackt:
Der arme Freund ist ausgezogen,
Beinah wie Adam bloß und nackt.

Warum auch ging er solche Wege
Nach jenem Apfel voll Gefahr,
Der freilich schön im Mühlgehege
Wie sonst im Paradiese war!
Er wird den Scherz nicht leicht erneuen;
Er drückte schnell sich aus dem Haus,
Und bricht auf einmal nun im Freien
In bittre, laute Klagen aus:

»Ich las in ihren Feuerblicken
Doch keine Silbe von Verrat!
Sie schien mit mir sich zu entzücken
Und sann auf solche schwarze Tat!
Konnt ich in ihren Armen träumen,
Wie meuchlerisch der Busen schlug?
Sie hieß den raschen Amor säumen,
Und günstig war er uns genug.

Sich meiner Liebe zu erfreuen,
Der Nacht, die nie ein Ende nahm,
Und erst die Mutter anzuschreien
Jetzt eben, als der Morgen kam!
Da drang ein Dutzend Anverwandten
Herein, ein wahrer Menschenstrom!
Da kamen Brüder, guckten Tanten,
Da stand ein Vetter und ein Ohm!

Das war ein Toben, war ein Wüten!
Ein jeder schien ein andres Tier.
Da forderten sie Kranz und Blüten
Mit gräßlichem Geschrei von mir.
›Was dringt ihr alle wie von Sinnen
Auf den unschuld’gen Jüngling ein!
Denn solche Schätze zu gewinnen,
Da muß man viel behender sein.

Weiß Amor seinem schönen Spiele
Doch immer zeitig nachzugehn:
Er läßt fürwahr nicht in der Mühle
Die Blumen sechzehn Jahre stehn.‹ –
Da raubten sie das Kleiderbündel
Und wollten auch den Mantel noch.
Wie nur so viel verflucht Gesindel
Im engen Hause sich verkroch!

Da sprang ich auf und tobt’ und fluchte,
Gewiß, durch alle durchzugehn.
Ich sah noch einmal die Verruchte,
Und ach! sie war noch immer schön.
Sie alle wichen meinem Grimme,
Doch flog noch manches wilde Wort;
So macht’ ich mich mit Donnerstimme
Noch endlich aus der Höhle fort.

Man soll euch Mädchen auf dem Lande
Wie Mädchen aus den Städten fliehn!
So lasset doch den Fraun von Stande
Die Lust, die Diener auszuziehn!
Doch seid ihr auch von den Geübten
Und kennt ihr keine zarte Pflicht,
So ändert immer die Geliebten,
Doch sie verraten müßt ihr nicht.«

So singt er in der Winterstunde,
Wo nicht ein armes Hälmchen grünt.
Ich lache seiner tiefen Wunde,
Denn wirklich ist sie wohlverdient;
So geh’ es jedem, der am Tage
Sein edles Liebchen frech belügt
Und nachts, mit allzu kühner Wage,
Zu Amors falscher Mühle kriecht.

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poesia, tradução

Cecilia Pavón (1973—), por Danilo Diógenes

Cecilia Pavón é uma poeta argentina, nascida em Mendoza, em 1973. Vive em Buenos Aires, onde licenciou-se em Letras pela Universidade de Buenos Aires. Em 1999 fundou, junto com Fernanda Laguna, a editora e galeria Belleza y Felicidad, espaço que serviu de plataforma para a difusão de novos artistas e escritores.

Danilo Diógenes nasceu no Espírito Santo, em 1990. Vive no Rio de Janeiro. Licenciou-se em Letras (Português-Literaturas) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde cursa o mestrado em Ciência da Literatura e atua como coordenador adjunto do Núcleo Poesia do Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC).

* * *

Gonçalo

Nem em um milhão de anos

Volto a escrever entre drogados, mas
sem me drogar.
Junto a Gonçalo, vestido de jeans
ele tomou droga para cavalos, me pede
que o acompanhe para falar ao telefone
(com o hospital?) está atordoado, coitadinho
parece um pobre anjo ferido,
um pobre animal indefeso.
Por que você usou isso, Gonçalo?

Para provar, só para provar.

Estamos num shopping,
somos amigos do dono,
está fechado porque já é de madrugada
e há uma festa.

Caminhamos por este lugar tão grande
cheio de glamour, luxo, sofisticação.
O piso de parquet brilha.
Quando chegamos em sua casa ele se deita
como um peso morto
Deixa-se cair e tira a roupa.
Pare de escrever mentalmente,
ele me diz,
e me mostra
uma revista pornô que um amigo lhe deu de presente.
Não é uma revista vulgar,
é pornografia estetizada,
e agradeço aos céus por ter um
amante tão sutil esta noite

Uma mulher com oito picas na cara,
nunca tinha visto
algo parecido,
mas ela é bonita,
verdadeiramente bonita,
e parece muito segura do que está fazendo.

Fazemos amor e conversamos.
Estou cansada de tanto falar,
as letras misturam-se com qualquer coisa,
Minha mente e minha garganta se perdem.
Gonçalo me fala sobre a praia.
A praia é seu lugar favorito,
quer morrer na praia,
quer deixar tudo e ir para uma ilha deserta.
Eu,
não posso parar de olhar
as portas do armário,
vai de uma parede a outra,
não tem nada dentro.
Lindo armário,
lhe digo,
e como está bem decorada
a tua casa.
E ao escutar isso ele me abraça
com tanta paixão
e me dá milhões de beijos
os melhores beijos que recebi
os beijos que eu estava esperando

milhões de anos.

Gonzalo

No en un millón de años

Vuelvo a escribir entre drogados, pero
sin drogarme.
Junto a Gonzalo, vestido de jeans
tomó drogas para caballos, me pide que
lo acompañe a hablar por teléfono
(al hospital?) está mareado, pobrecito
parece un pobre ángel herido,
un pobre animal desamparado.
¿Por qué tomaste eso, Gonzalo?

Para probar, sólo para probar.

Estamos en un shopping,
somos amigos del dueño,
está cerrado porque ya es la madrugada
y hay una fiesta.

Caminamos por este lugar tan grande
lleno de glamour, lujo, sofisticación.
El piso de parquet brilla.
Cuando llegamos a su casa se acuesta
como un peso muerto
Se deja caer y se desviste.
Dejá de escribir con la mente
me dice,
y me muestra
una revista porno que le regaló un amigo
No es una revista vulgar,
es pornografía estetizada,
y le agradezco al cielo tener un
amante tan sutil esta noche

Una mujer con ocho pijas en la cara,
nunca había visto
algo parecido,
pero ella es hermosa,
verdaderamente hermosa,
y parece muy segura de lo que hace.

Hacemos el amor y conversamos.
Estoy exhausta de tanto hablar,
las letras se mezclan con cualquier cosa,
se me pierde la mente y la garganta.
Gonzalo habla sobre la playa.
La playa es su lugar preferido,
quiere morir en la playa,
quiere dejar todo e irse a una isla desierta.
Yo,
no puedo parar de mirar
las puertas del placard.
Va de pared a pared,
Adentro no hay nada.
Qué lindo placard,
le digo,
y qué bien decorada
está tu casa.
Y al escuchar esto me abraza
con tanta pasión
y me da millones de besos
los mejores besos que he recibido
los besos que estaba esperando
hace
millones de años.

[De Un hotel con mi nombre, 2012]

§ 

Balas de anis

Fecharam os shoppings, os bancos, os cinemas
você só pensa em se deixar levar como
essa vagabunda do filme
vanguardista, sem argumento, de que te falou
um amigo numa festa
Nunca foi a lugar nenhum
e quando pôde sair
só chegou a um país em que te roubaram
a imaginação.
E de volta
no aeroporto
os empregados da linha aérea tiveram que amarrar
com uma corda a sua mala
que explodiu por estar cheia de coisas.
Você ama as bicicletas ou a dança:
pensa que só elas poderiam te dar
um sentimento de mudança concreto
sai para buscar amigos
volta sozinha
os dias passam e você não liga para os telefones
anotados com letra tão pequena
em pedaços de papel
deixa-os na sacada
e o sol apaga os números.

Caramelos de anís

Cerraron los shoppings, los bancos, los cines
sólo pensás en dejarte llevar como
esa vagabunda de la película
vanguardista, sin argumento, de la que te habló
un amigo en un baile
Nunca fuiste ninguna parte
y cuando pudiste salir
sólo llegaste a un país en el que te robaron
la imaginación.
Y de vuelta
en el aeropuerto
los empleados de la aerolínea tuvieron que rodear
con una cuerda tu valija
que explotó por estar llena de cosas.
Amás las bicicletas o la danza:
pensás que sólo ellas podrían darte
un sentimiento de cambio concreto
salís a buscar amigos
volvés sola
pasan los días y no llamás a los teléfonos
anotados con letra tan pequeña
en papelitos
los dejás en el balcón
y el sol le borra los números.

[De Un hotel con mi nombre, 2012]

§

Desejo

Quantas formas de desejo existem? é possível haver tantas?
Não poderia haver um milagre, através do qual eu fechasse
os olhos e simplesmente te encontrasse me beijando e isso
trouxesse sobre si a marca da eternidade ou o infinito?

Mas deve haver tantos desejos quanto formas: quadrado,
com forma de flecha, redondo, triangular, com pontas,
com arestas, vertical, desfeito, inanimado.

Ainda lembro o momento em que o amor parecia
possível: mês de novembro, ar luminoso, um cara
dormia comigo,
conversávamos na cama enquanto fumávamos maconha
misturada com tabaco, ele segurava minha mão
por debaixo dos lençóis.

Faz seis meses que não beijo ninguém.
Seis meses sem fazer amor. Tenho 27 anos,
desde os 18 isso nunca tinha me acontecido.

Meu corpo em estado de alerta, poderia usar muitos verbos
para descrevê-los paredes que se levantam
e que são povoadas por espécies de hidras mentais.

É outono, lamento que o inverno se aproxime.
Sinto que me devem um verão.

Deseo

¿Cuántas formas de deseo existen? ¿puede ser que tantas?
¿No podría llegar un milagro, a través del cual yo cerrara
los ojos y simplemente te encontrara besándome y eso
cargara sobre sí la marca de la eternidad o el infinito?

Pero debe haber tantos deseos como formas: cuadrado,
con forma de flecha, redondo, triangular, con puntas,
con aristas, vertical, deshecho, inanimado.

Todavía recuerdo el momento en que el amor parecía
posible: mes de noviembre, aire luminoso, un muchacho
dormía conmigo,
hablábamos en la cama mientras fumábamos marihuana
y tabaco mezclados, él me tomaba la mano
bajo las sábanas.

Hace seis meses que no he besado a nadie.
Seis meses sin hacer el amor. Tengo 27 años,
desde los 18, nunca antes me había pasado.

Mi cuerpo en estado de alerta, podría usar muchos verbos
para describirlo paredes que se levantan
y que vienen a poblar especies de hiedras mentales.

Es otoño, lamento que se acerque el invierno.
Siento que me deben un verano.

[De Un hotel con mi nombre, 2012]

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poesia, tradução

Reinaldo Arenas (1943-1990), por Gilberto Clementino Neto

Reinaldo Arenas (Holguín, Cuba, 1943-1990), foi um poeta, dramaturgo e romancista cubano. É mais conhecido no Brasil por sua obra ficcional, embora apenas uma pequena parcela desta já tenha sido traduzida para o português. Seus poemas, entretanto, ainda não receberam a mesma atenção.

Usualmente referido por sua trajetória confundida com o movimento revolucionário cubano, do qual inicialmente fez parte, é de fato em relação ao regime castrista que sua obra oferece feições interpretativas mais evidentes.

De 1963 a 1968, Arenas esteve integrado aos esforços de formular um quadro independente de intelectuais em Cuba; trabalhou como pesquisador na Biblioteca Nacional José Martí, como editor no Instituto Cubano do Livro (Instituto Cubano del Libro) e na revista literária A Gazeta de Cuba (La gaceta de Cuba). Abertamente homossexual, Arenas foi por isso – e pela oposição à censura oficial que sua obra sofria – perseguido e finalmente preso. Foi um dos que, em 1980, conseguiu deixar Cuba e ir para os EUA, no famoso “Êxodo de Mariel”. Nos Estados Unidos, porém, conviveu com o vírus da Aids, até que no ano de 1990 cometeu suicídio em seu apartamento em Nova Iorque. Em uma nota de despedida, declarou-se afinal livre.

A obra poética de Reinaldo Arenas reflete com frequência essa condição insular permanente. Da experiência da pobreza extrema nos anos do regime de Fulgêncio Batista, à posição de dissidente político durante os anos de Castro e, por fim, à de imigrante pobre no coração do capitalismo, Arenas nomeia sua constante inadequação. Mesmo nessa posição, aliás bastante característica em toda poesia moderna, o autor encontrou, no entanto, sua voz na “vontade de viver manifestando-se”.

Os poemas aqui selecionados são oriundos de diversas fases da vida do autor, desde Cuba até os EUA, mas o que há de comum a todos eles é um estado de dramaticidade representado ora pela brevidade coerente do soneto ora pela liberdade do derramamento formal. Sempre cônscio de uma interioridade negada, os poemas de Arenas carregam a agitação vital de um espírito transportado da morte figurada socialmente à morte enfim contemplada.

Todos os seus poemas foram reunidos, em 2001, no volume (ainda inédito no Brasil) Inferno: poesía completa, com prólogo de Juan Abreu.                                                                        

Gilberto Clementino Neto (Olinda, 1988) é poeta e doutorando em Teoria da Literatura pela UFPE.

* * *

Vontade de viver manifestando-se

Agora me comem.
Agora sinto como sobem e me puxam das unhas.
Ouço seu roer chegar-me até os testículos.
Terra, me lançam terra.
Dançam, dançam sobre este monte de terra
E pedra
Que me cobre.
Me esmagam e insultam.
Repetindo não sei que aberrante solução que me atinja.
Me sepultaram.
Dançaram sobre mim.
Aplanaram bem o solo.
Foram, foram deixando-me bem morto e enterrado.
Este é meu momento.

Voluntad de vivir manifestándose

Ahora me comen.
Ahora siento cómo suben y me tiran de las uñas.
Oigo su roer llegarme hasta los testículos.
Tierra, me echan tierra.
Bailan, bailan sobre este montón de tierra
Y piedra
Que me cubre.
Me aplastan y vituperan.
Repitiendo no sé qué aberrante resolución que me atañe.
Me han sepultado.
Han danzado sobre mí.
Han apisonado bien el suelo.
Se han ido, se han ido dejándome bien muerto y enterrado.
Este es mi momento.

§

Não é o morto quem provoca o estupor

Não é o morto quem provoca o estupor
é a surpresa de ver como olvidamos
sua própria morte, nossa grande dor.
Fica o morto, nós embora vamos.

Não é o morto, não, quem se retira.
Somos nós que vamos debatendo,
sobre o cadáver que, mudo, nos mira,
a possibilidade de seguir sobrevivendo.

Quando na memória ao morto divisamos
(jogos do tempo, macabro despejador)
não é pois ao morto a quem estamos vendo:

Somos nós que, tétricos, ficamos
ao ver como olhamos sem horror
ao que no grande horror vai apodrecendo.

No es el muerto quien provoca el estupor

No es el muerto quien provoca el estupor
es la sorpresa de ver cómo olvidamos
su propia muerte, nuestro gran dolor.
Queda el muerto, nosotros nos marchamos.

No es el muerto, no, quien se retira.
Somos nosotros que vamos discutiendo,
sobre el cadáver que mudo nos mira,
la posibilidad de seguir sobreviviendo.

Cuando en la memoria al muerto divisamos
(juegos del tiempo, macabro escanciador)
no es pues al muerto a quien estamos viendo:

Somos nosotros que tétricos quedamos
al ver cómo miramos sin horror
al que en el gran horror se va pudriendo.

(La Habana, 1970)

§ 

De modo que Cervantes era manco

De modo que Cervantes era manco;
surdo, Beethoven, Villon, ladrão;
Góngora de tão louco andava de tamanco.
E Proust? Desde já, viadão.

Negreiro, sim, foi Don Nicolás Tanco,
e Virgínia suprimiu-se de um mergulhão,
Lautréamont morreu paralisado em algum banco.
Ai de mim, também Shakespeare era viadão.

Também Leonardo e Federico García,
Whitman, Michelangelo e Petrônio,
Gide, Genet e Visconti, as fatais.

Esta é, senhores, a breve biografia
(puxa, esqueci de mencionar Santo Antônio!)
de quem são da arte sólidos pontuais.

De modo que Cervantes era manco

De modo que Cervantes era manco;
sordo, Beethoven; Villon, ladrón;
Góngora de tan loco andaba en zanco.
¿Y Proust? Desde luego, maricón.

Negrero, sí, fue Don Nicolás Tanco,
y Virginia se suprimió de un zambullón,
Lautréamont murió aterido en algún banco.
Ay de mí, también Shakespeare era maricón.

También Leonardo y Federico García,
Whitman, Miguel Ángel y Petronio,
Gide, Genet y Visconti, las fatales.

Ésta es, señores, la breve biografía
(¡vaya, olvidé mencionar a san Antonio!)
de quienes son del arte sólidos puntuales.

(La Habana, 1971)

§

Tu e eu estamos condenados

Tu e eu estamos condenados
pela ira de um senhor que não mostra o rosto
a dançar sobre um território calcinado
ou a nos esconder no cu de algum monstro

Tu e eu sempre prisioneiros
daquela maldição desconhecida.
Sem viver, lutando pela vida.
Sem cabeça, pondo-nos sombreiro.

Vagabundos sem tempo e sem espaço,
uma noite incessante nos envolve,
nos enreda os pés, nos entorpece.

Caminhamos sonhando um grande palácio
e o sol sua imagem quebrada nos devolve
transformada em prisão que nos guarnece.

Tu y yo estamos condenados

Tú y yo estamos condenados
por la ira de un señor que no da el rostro
a danzar sobre un paraje calcinado
o a escondernos en el culo de algún monstruo.

Tú y yo siempre prisioneros
de aquella maldición desconocida.
Sin vivir, luchando por la vida.
Sin cabeza, poniéndonos sombrero.

Vagabundos sin tiempo y sin espacio,
una noche incesante nos envuelve,
nos enreda los pies, nos entorpece.

Caminamos soñando un gran palacio
y el sol su imagen rota nos devuelve
transformada en prisión que nos guarece.

(La Habana, 1971)

§

Menino velho

Eu sou esse menino de cara redonda e suja
que em cada esquina os incomoda com seu
“can you spend another quarter”

Eu sou esse menino de cara suja
-sem dúvida inoportuno-
que de longe contempla as carruagens
de onde outros meninos emitem risos e saltos consideráveis

Eu sou esse menino desagradável
-sem dúvida inoportuno-
de cara redonda e suja que ante os grandes faróis
ou sob as grandes damas também iluminadas
ou ante as meninas que parecem levitar
projeta o insulto de sua cara redonda e suja.

Eu sou esse menino tosco, melhor dizendo cinza,
que envolto em lamentáveis combinações
põe uma nota escura sobre a neve
ou sobre o gramado tão cuidadosamente cortado
que ninguém senão eu, porque não pago multas, se atreve a pisotear.

Eu sou esse distraído e sozinho menino de sempre
que os lança o insulto do menino sozinho de sempre
e os adverte: se hipocritamente me acariciares a cabeça
aproveitarei a ocasião para afanar-lhes a carteira.

Eu sou esse menino de sempre
ante o panorama do iminente espanto.
Esse menino, esse menino,
esse menino que corrompe o poema com sua nota naturalista.
Esse menino, esse menino,
esse menino que impõe árduos e chatos ensaios,
e até romances, ainda mais chatos, sobre “os bairros malfalados”.
Esse menino, esse menino,
esse menino de cara distraída e suja que impõe árduas
e sinistras revoluções
para logo continuar com sua cara ainda mais distraída e suja
Esse menino, esse menino,
esse menino ante o panorama sempre iminente
(só iminente)
do iminente espanto, da iminente lepra, do iminente
piolho,
do delito ou do crime iminentes.
Eu sou esse menino repulsivo que improvisa uma cama
com papelões velhos e espera, seguro, que você venha a
lhe fazer companhia.

Niño viejo

Yo soy ese niño de cara redonda y sucia
que en cada esquina os molesta con su
“can you spend one quarter”

Yo soy ese niño de cara sucia
–sin duda inoportuno–
que de lejos contempla los carruajes
donde otros niños emiten risas y saltos considerables.

Yo soy ese niño desagradable
–sin duda inoportuno–
de cara redonda y sucia que ante los grandes faroles
o bajo las grandes damas también iluminadas
o ante las niñas que parecen levitar
proyecta el insulto de su cara redonda y sucia

Yo soy ese niño hosco, más bien gris,
que envuelto en lamentables combinaciones
pone una nota oscura sobre la nieve
o sobre el césped tan cuidadosamente recortado
que nadie sino yo, porque no pago multas se atreve a pisotear.

Yo soy ese airado y solo niño de siempre
que os lanza el insulto del solo niño de siempre
y os advierte: si hipócritamente me acariciáis la cabeza
aprovecharé la ocasión para levantarles la cartera.

Yo soy ese niño de siempre
ante el panorama del inminente espanto.
Ese niño, ese niño,
ese niño que corrompe el poema con su nota naturalista.
Ese niño, ese niño,
ese niño que impone arduos y aburridos ensayos
y hasta novelas, aún más aburridas, sobre “los bajos fondos”.
Ese niño, ese niño,
ese niño de cara airada y sucia que impone arduas
y siniestras revoluciones
para luego seguir con su cara aún más airada y sucia.
Ese niño, ese niño
ese niño ante el panorama siempre inminente
(sólo inminente)
del inminente espanto, de la inminente lepra, del inminente
piojo,
del delito o del crimen inminentes.
Yo soy ese niño repulsivo que improvisa una cama
con cartones viejos y espera, seguro, que venga usted a
hacerle compañía.

§

Antes que anoiteça

Ó lua! Sempre estiveste ao meu lado, alumbrando-me nos momentos mais terríveis; desde minha infância foste o mistério que velaste pelo meu terror, foste o consolo nas noites mais desesperadas, foste minha própria mãe, banhando-me em um calor que ela talvez nunca soube brindar-me; em meio ao bosque, nos lugares mais tenebrosos, no mar; ali estavas tu acompanhando-me; eras meu consolo, sempre foste a que me orientaste nos momentos mais difíceis. Minha grande deusa, minha verdadeira deusa, que me tem protegido de tantas calamidades; para você no meio do mar; para você junto à costa; para você entre as costas da minha ilha desolada. Elevava o olhar e te via; sempre a mesma; no teu rosto via uma expressão de dor, de amargura, de compaixão para mim; teu filho. E agora, subitamente, lua, estouras em pedaços diante da minha cama. Já estou sozinho. É de noite.

Antes que anochezca

¡Oh Luna! Siempre estuviste a mi lado, alumbrándome en los momentos más terribles; desde mi infancia fuiste el misterio que velaste por mi terror, fuiste el consuelo en las noches mas desesperadas, fuiste mi propia madre, bañándome en un calor que ella tal vez nunca supo brindarme; en medio del bosque, en los lugares más tenebrosos, en el mar; allí estabas tu acompañándome; eras mi consuelo, siempre fuiste la que me orientaste en los momentos más difíciles. Mi gran diosa, mi verdadera diosa, que me has protegido de tantas calamidades; hacia ti en medio del mar; hacia ti junto a la costa; hacia ti entre las costas de mi isla desolada. Elevaba la mirada y te miraba; siempre la misma; en tu rostro veía una expresión de dolor, de amargura, de compasión hacia mí; tu hijo. Y ahora, súbitamente, luna, estallas en pedazos delante de mi cama. Ya estoy solo. Es de noche.

§

Autoepitáfio

 Mau poeta apaixonado pela lua,
não teve mais destino que o espanto;
e foi suficiente pois como não era um santo
sabia que a vida é risco ou abstinência,
que toda grande ambição é grande demência
e que o mais sórdido horror tem seu encanto.
Viveu para viver o que é ver a morte
como algo cotidiano a que apostamos
um corpo esplêndido ou toda nossa sorte.
Soube que o melhor é aquilo que deixamos
-precisamente porque nos vamos-.
Todo o cotidiano resulta aborrecível,
há somente um lugar para viver, o impossível.
Conheceu a prisão, o ostracismo,
o exílio, as múltiplas ofensas
típicas da vileza humana;
mas sempre o escoltou certo estoicismo
que o ajudou a caminhar por cordas tensas
ou a desfrutar da manhã esplendente.
E, quando já se bamboleava, uma janela insurgente
pela qual se lançava ao infinito.
Não quis cerimônia, discurso, duelo ou grito,
nem um túmulo de arena onde repousasse o esqueleto
(nem depois de morto quis viver quieto).
Ordenou que suas cinzas fossem lançadas ao mar
onde haverão de fluir constantemente.
Não perdeu o costume de sonhar:
espera que em suas águas mergulhe algum adolescente.

Autoepitafio

Mal poeta enamorado de la luna,
no tuvo más fortuna que el espanto;
y fue suficiente pues como no era un santo
sabía que la vida es riesgo o abstinencia,
que toda gran ambición es gran demencia
y que el más sórdido horror tiene su encanto.
Vivió para vivir que es ver la muerte
como algo cotidiano a la que apostamos
un cuerpo espléndido o toda nuestra suerte.
Supo que lo mejor es aquello que dejamos
-precisamente porque nos marchamos-.
Todo lo cotidiano resulta aborrecible,
sólo hay un lugar para vivir, el imposible.
Conoció la prisión, el ostracismo,
el exilio, las múltiples ofensas
típicas de la vileza humana;
pero siempre lo escoltí cierto estoicismo
que le ayudó a caminar por cuerdas tensas
o a disfrutar del esplendor de la mañana.
Y cuando ya se bamboleaba surgía una ventana
por la cual se lanzaba al infinito.
No quiso ceremonia, discurso, duelo o grito,
ni un túmulo de arena donde reposase el esqueleto
(ni después de muerto quiso vivir quieto).
Ordenó que sus cenizas fueran lanzadas al mar
donde habrán de fluir constantemente.
No ha perdido la costumbre de soñar:
espera que en sus aguas se zambulla algún adolescente.

(Nueva York, 1989)

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poesia

Raphael Sassaki

foto sassaki

Raphael Sassaki nasceu em 1988 e edita PDFs na Shiva Press (shivapress.tumblr.com). Os poemas publicados aqui são do livro A Destruição do Mundo, a ser lançado pela Douda Correria.

*

babel

desculpa a demora
esqueci de novo de enviar seu i-ching

acho que eu estou me especializando
em pegar caminhos errados

os correios aqui já fecharam
mas achei esse livro que fala
da beleza das estruturas que
emanam de um mesmo ponto
fixo

entre as coisas que gostei de fazer hoje estão: 1-
perder tempo em pontos de ônibus
2- passar aflição por não achar livros de 7 reais

e meu deus como é bonito
o desenho mágico daquela avenida

é estranho dizer assim, mas eu e você
sempre soubemos, instintivamente
onde havia beleza
(e havia beleza em tudo)

quem nunca atravessou a rua errado
que jogue a primeira pedra

ontem o padre me contou a história
do menino de rua que cruzou o atlântico
só para renascer na cracolândia

e eu sei lá quantas músicas já ouvi hoje
enquanto via as fotos do seu rosto
pintado feito um príncipe yanomami

dizem que os deuses dos índios são todos canibais e
que as almas são feitas de ossos queimados

mas o certo é que hoje é de novo outro dia e
o verão acabou de começar

§

astrologs

sinais de leite no degrau de estrelas
passos predestinados

seu bazar beneficente
de corações amorfos

escaladas de mãos dadas
com espíritos na aclimação

dorme debaixo de astros grávidos

barulho de chuva em pesadas
enteléquias no rolê

sua boca selvagem forma
sortilégios primitivos

há desastres abertos
nas costelas rachadas
da catedral da sé

e a rua fecha os olhos como nosso amor

§

crowley

somos só
tribos estivais
buscando antídoto
a qualquer alegria
filantrópica

bisnetos de guaranis
e holocaustos
colhendo flashbacks
em darknets
ao sul do mundo

speakers fluentes
da barbárie
espalhando
novas vibrações

§

kiss me deadly

você diz: da mente rachada jorra o arco-íris
amor, palavras não vão salvar sua alma

(mas seus olhos são os relâmpagos
mais bonitos no céu apocalíptico
de são paulo)

ei, você não sabia
que estamos nadando no abismo?
que estamos fabricando mortes?
que estamos escondidos em teatros
de sonho elétrico?

que somos só bichos hipnotizados por
palavras
cometendo todos os dias os mesmos crimes

hoje choveu e lembrei que temos fogo por dentro

a vida não volta
e isso se chama liberdade

você diz: a dor da diferença
(é a felicidade das coisas
aí é quando sinto que vou acordar

meu cérebro é um monstro de 100 milhões de anos
deitado na cama

é uma língua mais velha que a gramática
e todas as palavras só formam constelações de loucuras
que chamamos mentiras

mas agora é quase meia noite
e as luzes da cidade já se enfiam
no silêncio do mundo

você diz: nós somos vida após a morte

você diz: foi um soco no escuro que te fez cair aqui
você diz: há um ruído pesado nestes sonhos
foi quando

§

o movimento giratório dos peixes

nosso papo é um círculo
que não para de crescer
em volta da praça roosevelt

sobretudo quando você fala
das três canções perdidas de lady dylan

ou diz que nem as ruas
nem os corpos
já nos pertencem mais

agora eu conto
todos os guarda-chuvas
no bar dos atores

e registro quase 69 ângulos
diferentes do seu rosto

enquanto você fala
dos teus sete flertes
e faz nossos planos
para os próximos
duzentos anos

e então ouvimos a
voz dos mortos
da Vila Munhoz
e vemos a vida perdida
de dona Zilda
e sabemos que
entre essas duas coisas
deveria haver todas
as chances do mundo
mas não há

e que nem por isso
você deixa de juntar
moléculas e gases
e qualquer outro
elemento interestelar
bem perto de si
e segue batendo seus
olhos castanhos em
todos os cantos da
cidade

acho que nenhum deus
sabe exatamente
onde vai dar o mundo
mas que o amor existe
isso não há quem duvide

a verdade está
alguns decibéis acima
do ouvido humano
e por cima passam
todos os bichos

***

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poesia, tradução

Um salmo de John Milton, por Cesar Veneziani

BEM AVENTURADA TRADUÇÃO

Traduzir poesia obriga o tradutor a enfrentar uma incontável quantidade de problemas. Traduzir poesia que se baseia num texto canônico e sensível a uma gama ainda maior de intenções e significados é um desafio multiplicado. Essa multiplicação de dificuldades é o que se apresenta ao se traduzir o “Psalm II” de John Milton (“The Poetical Works of John Milton”, Oxford, Clarendon Press, 1900). O Salmo II, texto bíblico traduzido em poema por Milton em 1653 a partir do hebraico e cotejando com a vulgata, a tradução latina e ainda, certamente, também cotejando com a recém-publicada King James Version – KJV de 1611, tida hoje em dia como uma tradução exemplar da bíblia em língua inglesa, exige para sua tradução poética para o português o mesmo procedimento, uma vez tratar-se de texto doutrinário e sagrado para milhões de leitores.

Antes de qualquer coisa, analisemos o poema. O Salmo II de Milton é apresentado em terça rima e os versos são pentâmetros iâmbicos. A reprodução desta forma adotando-se o decassílabo como correspondente do pentâmetro iâmbico é uma opção imediata.

Com a devida atenção ao cuidado que o texto exige, buscamos traduzi-lo tendo à mão o correspondente bíblico em português que mais se identifica com a KJV, a tradução de João Ferreira de Almeida feita também ao final do século XVII (Almeida Revista e Atualizada – ARA, consultada em 11/07/2018 no site http://biblia.com.br/joaoferreiraalmeidarevistaatualizada/salmos/sl-capitulo-2/).

Apresentamos a seguir o poema de Milton, a tradução de Almeida e a nossa tradução do poema de Milton apoiada no texto de Almeida.

Cesar Veneziani

* * *

PSAL. II. Done Aug. 8. 1653. Terzetti. – John Milton

Why do the Gentiles tumult, and the Nations
      Muse a vain thing, the Kings of th’earth upstand
      With power, and Princes in their Congregations
Lay deep their plots together through each Land,
      Against the Lord and his Messiah dear.
      Let us break off, say they, by strength of hand
Their bonds, and cast from us, no more to wear,
      Their twisted cords: he who in Heaven doth dwell
      Shall laugh, the Lord shall scoff them, then severe
Speak to them in his wrath, and in his fell
      And fierce ire trouble them; but I saith hee
      Anointed have my King (though ye rebell)
On Sion my holi’ hill. A firm decree
      I will declare; the Lord to me hath say’d
      Thou art my Son I have begotten thee
This day; ask of me, and the grant is made;
      As thy possession I on thee bestow
      Th’Heathen, and as thy conquest to be sway’d
Earths utmost bounds: them shalt thou bring full low
      With Iron Scepter bruis’d, and them disperse
      Like to a potters vessel shiver’d so.
And now be wise at length ye Kings averse
      Be taught ye Judges of the earth; with fear
      Jehovah serve, and let your joy converse
With trembling; kiss the Son least he appear
      In anger and ye perish in the way
      If once his wrath take fire like fuel sere.
Happy all those who have in him their stay.

Salmos – Capítulo 2 – Almeida

  1. Por que se enfurecem os gentios e os povos imaginam coisas vãs?
  2. Os reis da terra se levantam, e os príncipes conspiram contra o SENHOR e contra o seu Ungido, dizendo:
  3. Rompamos os seus laços e sacudamos de nós as suas algemas.
  4. Ri-se aquele que habita nos céus; o Senhor zomba deles.
  5. Na sua ira, a seu tempo, lhes há de falar e no seu furor os confundirá.
  6. Eu, porém, constituí o meu Rei sobre o meu santo monte Sião.
  7. Proclamarei o decreto do SENHOR: Ele me disse: Tu és meu Filho, eu, hoje, te gerei.
  8. Pede-me, e eu te darei as nações por herança e as extremidades da terra por tua possessão.
  9. Com vara de ferro as regerás e as despedaçarás como um vaso de oleiro.
  10. Agora, pois, ó reis, sede prudentes; deixai-vos advertir, juízes da terra.
  11. Servi ao SENHOR com temor e alegrai-vos nele com tremor.
  12. Beijai o Filho para que se não irrite, e não pereçais no caminho; porque dentro em pouco se lhe inflamará a ira. Bem-aventurados todos os que nele se refugiam.

Salmo II – Feito Fev 10. 2018. Tradução em tercetos.

Porque será que os pobres se enfurecem
      E os povos coisas vãs tenham sentido?
      E se erguem reis e príncipes que tecem
Traições contra o Senhor e seu Ungido
      Dizendo: “Laços rotos, sem correntes”!
      Por todo o céu um riso então é ouvido.
Quem mora nas alturas, sorridente,
      Senhor que deles zomba, em tom irado
      No tempo certo irá até o descrente
Para deixá-lo assim desconcertado.
      Mas eu, porém, constituí meu Rei
      Ali por sobre o monte Sião sagrado
As leis do meu Senhor eu proclamei.
      E dele, emocionado, ouvi as lições:
      Tu és meu filho, eu hoje te gerei
Pede-me e te darei estas nações
      De herança e até as terras mais distantes
      Farei que sejam tuas possessões.
De ferro o teu cajado em mãos vibrantes
      Que guiam ou que quebram qual uns pratos,
      Quem se insurgir com ar desafiante.
Agora, pois, ó reis, sede sensatos,
      Deixai-vos ser levados ao Senhor
      Terrenos juízes, não sedes ingratos,
Servi com fé e com todo o seu fervor
      Beijai o Filho, em sua aparição
      E nele siga alegre com temor.
Não pereçais em tua direção
      Pois chega o tempo em que serás julgado
      E quem nele refúgio busca então
Será de todo bem aventurado.

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Alguns inéditos de André Capilé (1978-)

capile

André Capilé é um poeta brasileiro, nascido em Barra Mansa, Rio de Janeiro, em 1978, e já apareceu aqui na escamandro (clique aqui). É graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Mestre em Letras pela PUC-Rio. Doutor em “Literatura, Cultura & Contemporaneidade”, também pela PUC. Publicou rapace [2012 – Editora TextoTerritório] e balaio [2014 – 7Letras]; traduziu, para a Edições Macondo, “The Love Song of J. Alfred Prufrock” na coleção Herbert Richers. Tem previsão de lançamento e relançamento este ano pela editora TextoTerritório.

* * *

das flores que comemos desde antanho
quando chamou-me irmão em suas linhas

— leitores do desastre e arte mesquinha —
a vida ainda não tinha esse tamanho

do horror batendo à porta nos chamando.

§

 

a inversão dos sinais indiciava
: se a vara é curta, então cutuque a onça.

contavam que a urutu mordesse em brasa

e a baba do tinhoso lá se via
armada em meio ao medo a cada esquina.

§

 

há ceia farta até num galho morto

ao ver na fruta empenhada, futura
a força de seu peso antes da colha.

§

 

e o verde da miséria observava
a trama da anti-história que assobia.

na pressão manifesta dos desejos,
de corpos atritando-se entre beijos,

naquela encruzilhada de onde um sol
detrás da barricada avolumava.

§

a máquina da morte nos chegava
coturna como a besta trincadentes.

(bandeiras vão voar — um viva às bruxas
— feitiço rubro na língua das ruas,

nos vimos horizonte olhos nos olhos,
e o abraço que nos demos fortaleza

foi grão de resistir mas não por medo).

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