poesia, tradução

Olga Sánchez Guevara

Olga Sánchez Guevara é escritora e tradutora. Licenciada em Língua Alemã pela Universidade da Havana, estudou português na União Latina de Cuba. É autora dos livros Conversación con ángeles (Editorial Ácana, Camagüey, 2005); Ítaca (Fundación Sinsonte, Zamora, España, 2007); Óleo de mujer junto al mar (Ediciones Unión, La Habana, 2007), entre outros. Tem vários ensaios e artigos em publicações periódicas e sítios web de Cuba. “Cartas de la nostalgia”; outros  textos traduzidos ao alemão foram incluídos na antologia Mosaik aus dem Innersten, em Salzburgo, Áustria. Traduziu, entre outros, Else Lasker-Schüler, Friederike Mayröcker, Marie-Thérèse Kerschbaumer, Cecília Meireles y Eugénio de Andrade. Como tradutora recebeu prêmios em Cuba e na Áustria. Foi editora e fez a tradução e o prólogo de Frau in der Landschaft/Mujer ante el paisaje, antologia poética bilingüe (Edition Art Science, St. Wolfgang, Austria, 2014).

Os poemas abaixo são do livro Ítaca, de 2007.

guilherme gontijo flores

* * *

Da série VISIONES/VISÕES

1

no hay tiempo de dormir en camagüey

desperté muy temprano; me he levantado a oscuras

es grato amanecer en esta casa donde todo está siempre como siempre

no temo a sus fantasmas; ellos, que aquí se amaron, velan, son eternos

el perro de pelaje negro está a mis pies: me reconoce cuando vuelvo al cabo de un año

los papeles se cambian, soy penélope y viajo; camagüey es también mi ítaca, y en ítaca no hay tiempo de dormir

me desperté soñando con mi madre y sentí miedo de morirme, y ahora debo enfrentarlo de una vez: me aterra convertirme en una ausencia

quiero tiempo, Dios mío: la eternidad la tengo ya

el sueño con las aguas, dice freud, revela el temor a la muerte; soñaba con mi madre y nos bañábamos en una playa tibia

me he levantado a oscuras, y en esta casa no hay fantasmas: velan, los eternos amantes          

pronto amanecerá

para vivian

1

não há tempo pra dormir em camagüey

acordei muito cedo; levantei no escuro

que bom amanhecer nesta casa onde tudo está sempre como sempre

não temo seus fantasmas; eles, que aqui se amaram, velam, são eternos

o cão de pelo negro está junto a meus pés: me reconhece quando volto ao fim de um ano

o papéis se trocam, sou penélope e viajo; camagüey é também minha ítaca, e em ítaca não há tempo para dormir

eu acordei sonhando com minha mãe e senti medo de morrer, e agora tenho de enfrentá-lo pra valer: tenho pavor de converter-me numa ausência

quero tempo, meu Deus: a eternidade eu já tenho

o sonho com as águas, disse freud, revela o temor da morte; eu sonhava com minha mãe nos nos banhávamos numa praia morna

levantei no escuro, e nesta casa não há fantasmas: velam, os eternos amantes

logo amanhecerá

para vivian

§

8

cada regreso, un renascer; cada partida, un nuevo desarraigo

aquí es la infancia, el infinito parque de juego y maravilla, sueños de adolescencia

una inflexión distinta en el hablar, una cadencia inconfundible

lejos, es la palabra

siempre lejos de algo: ítaca fragmentada en los adioses

para aquellos que parten una y otra vez

8

cada regresso, um renascer; cada partida, um novo desraizamento

aqui é a infância, o infinito parque de diversões e maravilha, sonhos de adolescência

uma entonação diferente na fala, uma cadência inconfundível

longe, eis a palavra

sempre longe de algo: ítaca fragmentada nos adeuses

para aqueles que partem vez por outra

§

Da série SALZBURGO/SALZBURGO

2

La sala iluminada; afuera hay frío, y en el jardín la escarcha marchitó las rosas

Por la ventana, el monte coronado de nieve: al otro lado es Alemania, dicen mis amigos

Yo, criatura de isla, trato de comprender la lógica de las fronteras

2

A sala iluminada; lá fora, o frio; e no jardim a geada ressecou as rosas

Pela janela, o monte coroado de neve: do outro lado é a Alemanha, dizem meus amigos

Eu, criatura de ilha, trato de compreender a lógica das fronteiras

§

Da série ÍTACA/ÍTACA

7

en el planisferio una franja apenas visible cuya exigüidad misma suscita la duda: algunas veces me pregunto si nos hemos pasado siglos, toda la vida, inventando un país inexistente, fabricando esta isla de nostalgias que se fundó desde el exilio y del exilio sigue recibiendo parte de su sustento

pero, ¿y nosotros, los que nos quedamos? ¿somos sombras acaso, o también somos el sostén de un edificio espiritual cuyo alcance está fuera de nuestras medidas?

7

no planisfério, uma parte quase visível, cuja própria existência provoca dúvidas: às vezes me pergunto se passamos séculos, toda a vida, inventando um país inexistente, fabricando esta ilha de nostalgias que se fundou pelo exílio e do exílio continua recebendo parte do seu sustento

mas, e quanto a nós, que ficamos? somos sombras por acaso, ou também somos a base de um edifício espiritual cujo alcance está além de nossas medidas?

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poesia

Fernanda Marra (1981-)

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fernanda marra é mestre em letras e linguística pela ufg e doutoranda em teoria literária pela unb. manteve o blog marés e ressacas, dedicado à publicação de seus poemas, de 2009 a 2015. o livro que reunirá os poemas do blog e a produção mais recente da autora tem previsão para 2018, pela martelo casa editoral.

 

* * *

escápulas

no bolso posterior embutido
repousam despojos
dunas encruadas
e rangentes em inadiáveis
deslizamentos anunciam
o parto superior inexequível
placas calcificadas de dejetos anorgânicos impalpáveis imprecisos
abrem-se para a passagem
de uma gestação tectônica inter-
rompida

§

 

maulla

ter um método
e me ater a ele
mesmo sabendo que se intro-
mete
na vida diária
tem isso de ver crescer os pelos
arrancá-los
fazer comida lavar os pés
abastecer as tripas
esperar um raio
isso de ver o pelo cair
de depilar o ralo
de descascar os livros
contornar a cama toda santa madrugada
(as insantas também)
transigir
com as aderidas roupas do alho
ter método
– um sonho antigo
de me ter sem barulho
abafados rangidos
no marulho de crânios dentro do aquário
eu sei o mar
tem gemido exclusivo
que aprendi a ouvir sem noite
mesmo morando no seco
mergulhando os sentidos
na água suja do vaso

§

 

sigilo

entrando sem bater
especulando a maçaneta
esbarrando na culpa

de portas trancadas
as letras truncadas
nem sempre retrucam

à mesa, só o silêncio revém
do rosto cerrado em copas
o segredo das portas sem zíper

a mesma lei de madeira das tumbas

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poesia, tradução

Robert Walser (1878-1956)

durante esta estadia na suíça, numa gentilíssima bolsa de tradução oferecida pela übersetzerhaus looren, tenho me debruçado sobre uma parte da obra de robert walser menos conhecida, a poesia. não vou repetir o que já escrevi sobre sua prosa, que vocês podem ler aqui. só gostaria de marcar que a poesia de walser, pelo que pude conversar com suíços mesmo, também não é muito conhecida nem no próprio país. uma pena, porque perdem o ritmo desses versos encantatórios, de melodia fina. uma pena, porque perdem a força absurda dos absurdos que aí aparecem. uma pena, porque perdem o impulso que essa obra gera. uma pena terrível, ainda pior fora da língua alemã, mas que a gente remedia como pode.

faço aqui a minha parte, com quatro poemas.

quem sabe, abertura para mais.

canteiro de obras.

guilherme gontijo flores

* * *

Além

Eu quis ficar parado,
o impulso leva além,
por entre negros ramos,
por sob os negros ramos,
eu quis fincar parado,
o impulso leva além,
por entre verdes campos,
adentro os verdes campos,
só quis ficar parado,
o impulso leva além,
em frente a pobres casas,
nalgumas pobres casas,
quem dera estar parado,
e ver a tal pobreza,
e ver vagar fumaça
acima ao céu, quem dera
um longo estar parado.
Assim falei e ria,
e riu campestre verde,
riu fumo da fumaça,
o impulso leva além.

Weiter

Ich wollte stehen bleiben,
es trieb mich wieder weiter,
vorbei an schwarzen Bäumen
doch unter schwarzen Bäumen
woll’t ich schnell stehen bleiben,
es trieb mich wieder weiter,
vorbei an grünen Wiesen,
doch an den grünen Wiesen
wollt’ ich nur stehen bleiben,
es trieb mich wieder weiter,
vorbei an armen Häuschen,
bei einem dieser Häuschen
möcht’ ich doch stehen bleiben,
betrachtend seine Armut,
und wie sein Rauch gemächlich
zum Himmel steigt, ich möchte
jetzt lange stehen bleiben.
Dies sagte ich und lachte,
das Grün der Wiesen lachte,
der Rauch stieg räuchlich lächelnd,
es trieb mich wieder weiter.

§

E foi

Leve acenou com seu chapéu
e foi, se diz do mercador.
Rasgou as folhas da uma árvore
e foi, se diz do duro outono.
Rindo espalhou suas mercês
e foi, se diz da majestade.
Bateu à noite nesta porta
e foi, se diz da dor no peito.
Mostrou em pranto o coração
e foi, se diz de um homem pobre.

Und ging

Er schwenkte leise seinen Hut
und ging, heisst es vom Wandersmann.
Er riss die Blätter von dem Baum
und ging, heisst es vom rauhen Herbst.
Sie teilte lächelnd Gnaden aus
und ging, heisst es von der Majestät.
Er klopfte nächtlich an die Tür
und ging, heisst es vom Herzeleid.
Er zeigte weinend auf sein Herz
und ging, heisst es vom armen Mann.

§

Ao lado

Eu faço a caminhada;
que passa além do prado
e logo volta; nada
digo; estou ao meu lado.

Beiseit

Ich mache meinen Gang;
der führt ein Stückchen weit
und heim; dann ohne Klang
und Wort bin ich beiseit.

§

Dístico

Assumo que não li nenhuma página de Marcel Proust;
sem conhecer a grande obra, nada sei do que se ajuste.

Vi por acaso as casas Fugger de Augsburg num jornal,
por causa deles na Alemanha sofro da balança comercial.

O banco em que subira a moça, meus queridos, sim, eu vi no viço
brilhando só pelo prazer interno de prestar serviço.

Na igreja vi cantar cantora tão incrivelmente linda: força é que eu confesse
que me senti qual neve pura que de súbito fundida se esvanece.

Mais cedo recebi a carta de um doente triste no abandono.
O forte conteúdo me assolou, até até cair no sono.

O embate deste afã de vida contra a ânsia criadora pouco me molesta;
a natureza, um vinho e um casebre junto ao campo me aliviam cá na testa.

Sem gosto pela vida que ele amara, faleceu Tolstói,
um grande Shakespeare com tragédias claras e comédias secas só lhe dói.

Ah, flórida imortalidade na incompleta vida dada a Heinrich Heine,
Miss Vidagora o censurou pesado e Dama Vidapós deixou-o assim just fine.

Couplet

Ich bin mir schuldig, dass ich nächstdem lese einen Band von Marcel Proust;
bis heut’ ist mir noch nicht das Mindeste von diesem eminenten Mann bewusst.

Vom Fuggerhaus zu Augsburg fand ich kürzlich ein’ge Zeitschfritabbildungen
und bin an Hand derselben in den Handelsblütezustand Deutchlands eingedrungen.

Den Stuhl, von dem ein Fräulein sich erhoben hatte, sah ich euch, o Freunde, glänzen
vor nichts, als vor Vergnügtheit wegen Diensterwiesenheitstendenzen.

In einer Kirche sang ein Sängerinnenexemplar so unbeschreiblich schön, ich will’s gestehn,
dass ich mir erstens rein wie Schnee und andersteils erweicht erschien bis zum Zergehn.

Heut’ früh erhielt ich einen vor Gekränktheit fassungslosen, tiefergriffnen Brief.
Aus Grund des Inhalts, der mich nicht beruhigt lassen sollte, schlief ich tief.

Noch hat der Zwiespalt zwischen Lebenswunsch und Schaffensdrang mich nie gar lang belästigt,
Natur und ein Glas Wein in einem Landgasthaus haben mich jeweils hübsch in mir befestigt.

O, von welch blühender Unsterblichkeit ist wieder dieser doch so unkomplett gewesne Heinrich Heine.
Frau Mitwelt hielt ihm vor, er sei nicht sauber, doch die Dame Nachwelt kam mit ihm ins Reine.

 

 

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poesia, tradução

Poesia nórdica| Cinco poemas de amor e desamor de Geir Gulliksen, por Luciano Dutra

Geir Gulliksen (n. 31 de outubro de 1963 em Kongsberg, Noruega) é escritor e editor. Desde sua estreia em 1986, publicou livros de poemas, ensaios, peças, romances e literatura infantil. Foi indicado ao prêmio Ibsen de 2013 por sua peça En kropp (Um corpo) e ao prêmio de literatura do Conselho Nórdico de 2016 pelo romance Historie om et ekteskap (História de um casamento), sua obra mais conhecida, publicada em 2015. Foi o editor na Forlaget Oktober de Min kamp (Minha luta), romance autoficcional em seis volumes de Karl-Ove Knausgård publicado entre 2009 e 2011, sucesso de crítica e público traduzido em mais de trinta idiomas e que só na Noruega vendeu mais de meio milhão de exemplares. O poema ”Alt dette skal begynne en gang til” (”Tudo isso há de começar mais uma vez”), traduzido ao final dessa remessa, foi escolhido pelos ouvintes da estação de rádio pública NRK P2 e por um juri especializado como o melhor poema da Noruega em 2005.

Luciano Dutra (n. 6 de novembro de 1973 em Viamão/RS) é bacharel em língua e literatura islandesa (2007) e mestrando em estudos de tradução pela Universidade da Islândia. Além de literatura islandesa e nórdica contemporânea, traduz as sagas, obras únicas de prosa de ficção compiladas na Idade Média por autores anônimos da Islândia. Em 2014, fundou em Reykjavík a Sagarana forlag, editora multilíngue especializada na publicação de literatura em tradução entre as línguas nórdicas e o português. Mantém desde 2016 a página Um Poema Nórdico ao Dia (http://www.facebook.com/nordrsudr), que traz diariamente poemas de autores de todos os países nórdicos, a maioria deles até agora inéditos em português, sempre em tradução direta dos idiomas originais.

* * *

UM POEMA SOBRE AQUELA QUE ELE JAMAIS ENCONTROU

tens a possibilidade de fazer algo
mas então não o fazes
não sabes por que
não o fazes
apenas deixas de fazer
e bem o sabes
que assim vai ser a tua vida
tua apenas em parte
por tudo que deixou de acontecer
e isso é tão triste
e não apenas para ti
pensas nos bons momentos
e ficas ainda mais triste

ET DIKT OM HENNE HAN ANDRI MØTTE

du kan gjøre noe
og så gjør du det ikke
du vet ikke hvorfor
du ikke gjør det
du gjør det bare ikke
og du vet det selv
slik blir livet ditt
bare delvis ditt
så mye som ikke skjer
og det er trist
og ikke bare for deg
tenker du i lyse stunder
og blir enda tristere

§

O amor não existe
ou é invisível e precisa de seres

vivos como tu e eu
para se deixar enxergar

ou: o amor é práxis
música acanhada que nem sempre se pode ouvir

Kjærlighet finnes ikke
eller er usynlig og trenger levende

vesener som deg og meg
for å komme til syne

eller: kjærlighet er en praksis
en sky musikk den kan ikke alltid høres

§

eu só queria te dizer

que ele chega, que ele existe
que ele chega pra todos, ao menos uma única vez
que ele estava aqui na sala
enquanto as cortinas tremulavam na janela aberta
e enquanto eu procurava um lápis
e que ele desapareceu tão safo
quanto o grande amor que tivemos

ele estava aqui, e como determinado cheiro
de determinado cabelo e determinado vestido
que ficou pendurado lá fora num determinado clima bastante úmido
já não estava mais aqui
quando me sentei para escrever

jeg ville bare si deg

at det kommer, at det finnes
at det kommer til alle, i de minste én enkelt gang
at det var her i rommet
mens gardinene blafret i det åpne vinduet
og mens jeg lette etter blyanten
og at det forsvant like glatt
som den ene store kjærlighet vi har hatt

det var her, og som en bestemt lukt
av et bestemt hår og en bestemt kjole
som hadde hengt ute i et helt bestemt fuktig vær
var det ikke lenger her
da jag satt meg ned for å skrive

§

Eis-nos aqui. É noite.
Chegamos aqui e desaparecemos de novo,
e feito os amantes nos deixamos

todos vamos nos deixar, todos
como o mundo com certeza também vai nos deixar.
Ou seja lá como é que era mesmo.

A geladeira treme amedrontada na cozinha.
As crianças dormem nas suas camas quentes. Os cérebros ardem
como as metrópoles cada qual debaixo de sua abóbada escura.

Her er vi. Det er natt.
Vi kommer hit og forsvinner igjen,
og slik de elskende forlater hverandre

skal vi forlate hverandre alle sammen,
slik verden sikkert også forlater oss til slutt.
Eller hvordan det nå var igjen.

Kjøleskapet dirrer engstelig på kjøkkenet.
Ungene sover i varme senger. Hjernene gløder
som millionbyer under hver sin mørke hvelving.

§

TUDO ISSO HÁ DE COMEÇAR MAIS UMA VEZ

Tudo isso há de começar mais uma vez
o livro que eu levava pra todo lado e lia
vai ser lido por outro alguém. Alguém há de aprender
a contar até dez pela primeira vez, depois até cem
e alguém há de aprender os dias da semana e assim há de saber
que a sexta-feira é o melhor e que o domingo é o pior dia da semana
porque domingo é o dia em que só fazemos esperar pela segunda-feira
e com a segunda-feira até a quinta-feira é impossível contar
se a gente trabalha o dia inteiro e fica sentado numa cadeira de noite
Porém, mesmo assim tudo isso há de começar mais um vez:
alguém há de sentar na escadaria sob essa luz sarapintada
tentando escrever um poeminha num pedaço de papel
e alguém há de aprender a pedalar,
e alguém há de ler que o universo encontra-se em expansão
e sobre sóis que só sabem seguir explodindo
e alguém há de estudar hebraico antigo e ornitologia
e passear à noitinha com as mãos no bolso do casaco
sabendo que há de morrer, mas não já já
antes outro alguém hão de se apaixonar por ele, tomara,
e depois alguém há de deixá-lo, mas não já já
pois tudo isso há de começar mais uma vez: alguém há de ler
Pablo Neruda pela primeira vez, e Osip Mandelstam
e Bertholt Brecht, alguém há de ler Wisława Szymborska
e alguém há de descobrir quantos somos nós todos que vivemos nesse mundo
e de repente há de entender que cada um de nós é um indivíduo
mesmo que não haja individualismo suficiente para todos
e mesmo que não seja verdade que todas as pessoas
têm o mesmo valor, alguém há de aprender isso e crer nisso
até que não seja mais possível seguir crendo nisso
pois isso não parece ser verdade
pois isso não parece possível de se realizar
mesmo que não seja possível crer em mais nada além do fato
de a escuridão escalar os vários andares
e de a escuridão um dia chegar aos teus pés
e de tu um dia vadear nela e de ela chegar até as tuas mãos
e gritar na escuridão e beber a escuridão, não por que tens sede
mas porque não há mais nada senão ela, e porque aquela velha
luz sarapintada que não havia era suficiente para todos
não é mesmo? mas tudo isso há de ser repetido por outro alguém
e a luz dispara sem parar cruzando a escuridão
de 300.000 quilômetros e leva menos tempo para te achar do que um gato esquelético
enquanto estás ali parado tentando achar as chaves no bolso do casaco
e tudo o que te acontece acontece creias ou não creias que seja verdade

ALLT DETTE SKAL BEGYNNE EN GANG TIL

Alt dette skal begynne en gang til
den boken jeg gikk rundt med og leste i
skal bli lest av en annen. For første gang
skal noen lære å telle til ti, og så til hundre
og noen skal lære seg dagene og dermed lære seg at
fredag er den beste dagen og søndag den verste
fordi søndagen er den dagen du bare venter på mandag
og mandag til torsdag kan ingen regne ordentlig med
som jobber hele dagen og sitter i en stol om kvelden
Men alt dette skal likevel begynne på nytt:
noen skal sitte på trappa i det skvetne lyset
og prøve å skrive et lite dikt på en lapp
og noen skal lære seg å sykle,
og noen skal lese at universet utvider seg
og om soler som bare fortsetter å eksplodere
og noen skal lese gammelhebraisk og ornitologi
og gå ute om kveldene med hendene i jakkelomma
og vite at de skal dø, men ikke ennå
først skal en annen bli forelsket i dem, forhåpentligvis,
og så skal noen gå fra dem, men ikke ennå
fordi alt dette skal begynne en gang til: noen skal lese
Pablo Neruda for første gang, og Osip Mandelstam
og Bertholt Brecht, noen skal lese Wisława Szymborska
og noen skal oppdage hvor mange vi er som lever i verden
og plutselig vite at hver eneste av oss er et individ
selv om det ikke er individualisme nok til alle
og selv om det ikke er sant at alle mennesker
er like mye verdt skal noen lære det og tro på det
helt til det ikke er mulig å tro på det lenger
fordi det ikke ser ut til å være sant
fordi det ikke ser ut til å la seg gjøre
selv om ingenting annet er mulig å tro uten at mørket
strømmer oppover i etasjene
og at mørket en dag når opp til føttene dine
og at du en dag vasser i det og får det på hendene
og brøler i mørke og drikker mørke, ikke fordi du er tørst
men fordi det ikke finnes noe annet, og fordi det gamle
flekkete lyset som fantes ikke var tilstrekkelig til alle
var det ikke sånn? men alt dette skal bli gjentatt av en annen
og lyset skyter uopphørlig gjennom 300.000 kilometers
mørke og bruker kortere tid enn en mager katt på å finne deg
der du står og prøver å finne nøklene i lommene på jakka
og alt som skjer deg skjer enten du tror det er sant eller ikke

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poesia

5 poemas inéditos de Leandro Jardim

leandro jardim perfil pb

Leandro Jardim escreve poesia, prosa e letra de canção. Publicou, dentre outros, a novela A Angústia da Relevância (Oito e Meio, 2016) e as coletâneas de poesia Peomas (Oito e Meio, 2014) e Todas as vozes cantam (7Letras, 2008). Em parceria com Rafael Gryner, lançou os discos O Sonhador (2014) e Sementes musicais para um mundo cibernético (2011). Também possui canções com artistas como Diogo Cadaval (banda Mocambo), Clara Valente e Matheus VK. Reúne suas demais publicações em antologias e coletâneas no link: leandrojardim.blogspot.com.br . Os poemas abaixo são da série inédita Timeline.

***

Sempre tem uma besta que diz

sempre tem uma besta que diz
eu sei do que estou falando
porque leio os jornais
sempre tem uma besta que diz
eu sei do que digo justo
porque não os leio, sempre
tem uma que diz e repete e insiste
a mídia é uma orquestra manipulada
e manipuladora dizem duas bestas
que não sabem se discordam ou não
tais argumentos não tem bandeira
são de direita e são de esquerda
diz a besta diz a besta
maravilhas de uma imprensa alternativa
se olhando no espelho olhando-se
e outra besta se refastela
de algum erro gramatical
(sic) (sic) (sic) sempre tem
uma e outra besta engasgadas
com o que não sabem mas sabem dizer
que sempre tem uma besta que diz
porque não sabe não saber

§

 

Posts

As pessoas são mais frágeis que seus posts
São mais belas que suas fotos
Mais frágeis que seus posts

Seus gestos hesitam: é o belo balé
Presenças fraquejam falas, cambaleamos
O ritmo é a verdade

Todo movimento é um improviso, arte
Porque há o outro, há o espaço contido
E um desconforto que interdita o olhar

A irrefletida beleza, a improvável
Concretude da carne cheiro alcance
Vedada ao melhor dos mais frágeis posts

§

 

GIF_Estação_terminal

Um trem descarrilha,
Desgovernado.

Estrondo e hesitação
Se entreolham no terminal.

– É só, e sempre, o relógio na parede! –
Grita um.

– É a televisão que não desligam! –
Aponta outro, dedo em riste .

– Nada disso, é o coração
Que não cala, e o trabalho

Que não acaba –
Sussurra alguém.

Silêncio e movimento
Se atropelam na estação.

Desgovernado
Um homem descarrilha.

§

 

Oficina papa-prêmio

Aula 1 – Se inscreva
em todos
os concursos. Tenha sempre
inéditos à mão. Não escolha
o porte da prefeitura
ou o tamanho em dinheiro
do prêmio. Prêmio é prêmio. Aceite
até a participação em coletâneas
pagas, se esse for
o caso (geralmente é, dizem).

Aula 2 – Trabalhe
focado. Não desperdice
sua inspiração, especialmente
se ela for rara. Entenda
todos os prêmios, analise
o tipo de obra que costumam
prestigiar. Não leia clássicos,
leia os vencedores
das edições anteriores. Escreva
unicamente material aplicável,
só comece quando souber
onde vai inscrever. Inscrever é mais
importante do que escrever.

Aula 3 – Conheça
o perfil de cada jurado. Os perfis
de jurados. Onde encontrá-los. Como
se aproximar. Tenha lido
suas obras, se possível
faça citações pouco explícitas

Aula 4 – Autopromoção
até na derrota. Toda vez
que perder, escreva um texto
criticando a lisura do prêmio. Arrogue-se
um injustiçado. Outros
perdedores o apoiarão. Vire
seu porta voz e angarie
assim alguns leitores
como prêmio de consolação.
Prêmio é prêmio, aceite.

§

 

Quando incomoda

frisar quando incomoda
acomoda o que cala
e num tiro dispara
incontida escolha

e se explode à bala
o que era só bolha
quando não mais se poda
o que estava na cara

chega, pensa, sai, para
porra, cara, tá foda
ou melhora o que fala
ou te enfio uma rolha

*

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poesia, tradução

Alfonsina Storni (1892—1938), por Victor Hugo Turezo

Alfonsina Storni nasceu na Suíça em 1892 e estabeleceu-se na Argentina ainda criança. Poeta e escritora, também foi professora e jornalista. Sua obra, de cunho introspectivo e naturalista, ficou marcada pelo modernismo empregado à época. Aqui, apresento a tradução de três poemas contidos nos livros El dulce daño, de 1918 e Languidez, de 1920. No primeiro poema Cuadrados y Ángulos, pode-se observa o comprometimento da poeta com palavras ópticas, realistas e naturalistas. Em Sábado, a escritora constrói uma progressão imagética cheia de composições estruturalmente realistas. No último escrito, Miedo, Alfonsina nos mostra sua complexidade aliterada e costura, meio que ensimesmada, sua objetificação enclausura. Alfonsina Storni se suicidou em 1938, na cidade de Mar del Plata.

Victor Hugo Turezo

* * *

De EL DULCE DAÑO (1918) ALFONSINA STORNI
De O DOCE DANO (1918)

CUADRADOS Y ÁNGULOS
Casas enfiladas, casas enfiladas,
Casas enfiladas.
Cuadrados, cuadrados, cuadrados,
Casa enfiladas
Las gentes ya tienen el alma cuadrada,
Ideas en fila
Y ángulo en la espalda.
Yo misma he vertido ayer una lágrima,
Dios mío, cuadrada.

QUADRADOS E ANGULAÇÕES
Casas enfileiradas, casas enfileiradas,
Casas enfileiradas.
Quadrados, quadrados, quadrados,
Casas enfileiradas
O povo tem a alma quadrada
Ideias em fila
E costas anguladas.
Eu mesma verti ontem uma lágrima,
Meu Deus, quadrada.

§

SÁBADO
Levanté temprano y anduve descalza
Por los corredores; bajé a los jardines
Y besé las plantas;
Absorbí los vahos limpios de la tierra,
Tirada en la grama;
Me bañé en la fuente que verdes achiras
Circundan. Más tarde, mojados de agua
Peiné mis cabelos. Perfumé las manos
Con zumo oloroso de diamelas. Garzas
Quisquillosas, finas,
De mi falda hurtaron doradas migajas.

Luego puse traje de clarín más leve
Que la misma gasa.
Mi sillón de paja.
De un salto ligero llegué hasta el vestíbulo.
Fijos en la verja mis ojos quedaron,
Fijos en la verja.
El reloj me dijo: diez de la mañana.
Adentro un sonido de loza y cristales.
Comedor en sombras; manos que aprestaban
Manteles.
Afuera, sol como no he visto
Sobre el mármol blanco de la escalinata.
Fijos em la verja siguiron mis ojos
Fijos. Te esperaba.

SÁBADO
Levantei cedo e andei descalça
Pelos corredores; desci aos jardins
E beijei as plantas;
Absorvi os aromas limpos da terra,
Atirada sobre a grama;
Me banhei na fonte em que verdes achiras*
cingiam. Mais tarde, molhados de água
Penteei meus cabelos. Perfumei as mãos
com sumo cheiroso de jasmim. Garças
Ariscas, finas,
De minha saia roubaram douradas migalhas.

Logo coloquei um traje de gala mais leve
Que a própria malha.
Minha poltrona de palha.
De sobressalto cheguei até o vestíbulo.
Fixos na grade meus olhos ficaram,
Fixos na grade.
O relógio me disse: dez da manhã.
Dentro um barulho de louça e cristais.
Sala de jantar em sombras; mãos que alinhavam
Toalhas de mesa.
Fora, sol como jamais vi.
Sobre o mármore branco da escadaria.
Fixos na grade seguiram meus olhos
Fixos. Te esperava.

* Planta peruana, da família das cannáceas, de raiz comestível.

De LANGUIDEZ (1920)

MIEDO

El niño se ha alejado de la casa un momento
Y se vuelve de pronto hasta más ligero que el viento.

El niño en el camino se paró de repente
Porque dormida estaba al sol una serpiente.

Con el juguete nuevo en las manos deshecho
El niño se recuesta tembloroso en mi pecho.

Y en la pequeña caja del cuerpo estremecido
Repercute sin tregua un violento latido.

Así cuando en las manos aunque sean muy suaves
Temblorosas de miedo se acurran las aves,

Sobre el pecho del niño mis dos manos coloco
Y siento que la entraña se aquieta poco a poco.

Luego el niño levanta la cabeza, me mira
Con sus ojos azules, y muy quedo suspira.

MEDO

O menino se distanciou de casa um momento
E voltou rápido; mais veloz que o vento.

O menino no caminho parou de repente
porque sonolenta ao sol estava uma serpente.

Com um brinquedo nas mãos despedaçado
O menino se aninha irrequieto em meu peito.

E na pequena caixa do corpo estremecido
Repercute sem trégua um violento latido.

Assim, quando nas mãos, mesmo que sejam muito suaves
tremendo de medo se debandam as aves,

Sobre o peito do menino minhas mãos coloco
E sinto que a entranha se aquieta pouco a pouco.

Logo o menino levanta a cabeça, me olha
Com seus olhos azuis, e muito sereno suspira.

Os originais dos poemas traduzidos foram retirados do livro Antología poética (Editora Espasa Calpe S.A., Buenos Aires – México), impresso no ano de 1947.

* * *

Victor Hugo Turezo é poeta. Nasceu em Curitiba, em 1993. Publicou minha massa encefálica despenca como se de um desfiladeiro (Editora Patuá, 2017). Cursa Letras Português/Espanhol na UFPR.

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poesia, tradução

Primeira Ode Olímpica de Píndaro, por Mário Faustino (1930-1962)

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Zeus flanqueado por Enomau e Pélops.

Píndaro (522 a.C. — 443 a.C.) costuma ser o terror de todo tradutor, inclusive pra quem nem é da área de clássica. Não é difícil ouvir um maluco do grego falar que é impossível traduzir Píndaro, porque a sonoridade de Píndaro, porque a sintaxe de Píndaro, porque, porque, porque…. Questão é: o rapaz era, realmente, virtuose. Sua questão musical resultou até mesmo num trabalho de Abby Williams que tentou jogar a melodia do poeta grego em alguns trabalhos de Beethoven, Bach e Wagner. Vejam só quanto refinamento. Para ler mais sobre a questão musical de Píndaro, recomenda-se a tese de doutorado de Leonardo Antunes (clique aqui).

Mas esse post não é bem pra falar da virtuose ou do quão incrível era o Píndaro. É pra falar de quão incrível era Mário Faustino, cabra arretado.

Estava eu ano passado num encontro de classicistas (que mais parecia uma guerra de foice no escuro), quando um sujeito veio com essa coisa da impossibilidade de se traduzir Píndaro e apresentou a tentativa “bonitinha, engraçadinha, graciosa, mas diletante” de Mário Faustino – para depois ler a dele, que, em termos de poesia, dava um sono danado. Filólogos: poetas de final de semana.

Mário Faustino, que não sabia grego, fez a tradução abaixo a partir de duas traduções: da francesa de Aimé Pucch (em prosa) e da de Richmond Lattimore (em verso livre) para o inglês. Fico pensando como o amadorismo, às vezes, pode ser algo muito mais bonito. Penso no Cathay do Pound. Nas traduções, ainda inéditas, que o Guilherme Gontijo vem fazendo dos poemas amorosos egípcios. Penso que aquilo que Faustino opera é justamente um turvamento da noção identitária do original. Sua tradução é um cavalo de Tróia (cf. as páginas 85-86 do livro Algo infiel: corpo performance tradução). Recuperando, talvez, um imaginário poético clássico no qual as noções de original não importavam, Faustino assinala que as relações entre “imitação” e “original” são bem mais complicadas do que supõe nossa mente crítica moderna.

Não vou me alongar. Deixo aqui algumas traduções para o mesmo poema, caso o leitor queira comparar as versões. Tradução de Antônio Medina Rodrigues (clique aqui). Dissertação de mestrado de Sérgio Luiz Gusmão (clique aqui). Raphael Pappa Lautenschlager traduz alguns versos e comenta brevemente esta Ode de Píndaro em sua dissertação de mestrado (clique aqui). Por fim, uma tradução em prosa que consta no site Perseus (clique aqui). A tradução de Mário Faustino para esta ode de Píndaro foi publicada no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, no dia 3 de novembro de 1957.

ps: a versão original da tradução pode ser acessada aqui. Mas este não é link direto para a tradução. Portanto, para facilitar sua vida, leitor, busque pela edição 00256 do ano de 1957. A tradução consta na página 69.

* * *

I

Água: primeiro dos bens.
………………………………………..Mas Ouro
(chama acesa na noite) ofusca os tesouros inteiros
da altiva opulência: queres,
alma minha, cantar os Jogos?
…………………………………………….De dia não busques
Além do sol no ar deserto estrêla
mais ardente nem liça mais gloriosa,
mais cantável que Olímpia:
de lá vem a canção que estica as cordas
nos corações peritos
em celebrar-te, filho de Cronos: e êles vêm
por todos os caminhos rumo à mesa
(repleta) de Hierão.

manejador do cetro da justiça
na Sicília fecunda
e ceifeiro de todas as virtudes
em seus caules mais altos
e que sabe crescer com sua fama
pelo esplendor da música
enquanto nos deleita em mesa amiga.
……………………………………………………………..Anda!
tira do gancho a lira dórica
se ainda tens o coração domado
pela Cáris de Pisa – glória de Ferênicos,
quando êste disparou (sem chicote!) nas margens
do Alfeu, rumo à vitória
do rei de Siracusa, amador de cavalos;
………………………………………………………seu renome
esplende nessa terra de homens fortes
onde Pélops, o Lídio, foi morar,
Pélops,
………….por quem se apaixonou Posêidon (o
que cinge, firme, a terra) quando Clôto
o retirou do vaso puro, o ombro
marfim luzindo.
…………………………Grandes maravilhas
(e verdadeiras) estas, porém quantas
Fábulas enfeitadas de mentira
encantam nossas mentes
…………………………………para lá da verdade…

II

Cáris,
Cáris o gênio a graça a quem devemos
Tudo o que nos encanta
devolvendo-lhe as honras, quantas vêzes
transforma em verdadeiro o que é incrível
O futuro é a melhor testemunha – e mais seguro
é dizer bem dos deuses. Pois direi
assim, filho de Tântalo (ao contrário
do que dizem os velhos) direi que
quando teu pai retribuindo aos deuses
os convidou para impecável festa
sôbre o Sipilo – monte que êles amam –
nesse dia o senhor do luminoso
tridente arrebatou-te

o coração partido de paixão. Cavalos, carros de ouro,
levou-te ao céu de Zeus aonde mais
tarde iria Ganimedes
prestar ao próprio Zeus igual serviço.
Ao desapareceres, procurando-te
os homens de tua mãe sem descobrir-te
e voltando sem ti, alguém, vizinhos
inventaram – despeito – que, cortados
a faca, tuas pernas, braços (em
água fervendo) foram já no fim
do banquete servidos e comidos.

Chamar um deus de canibal? Eu nunca!
Quem escapa ao castigo da blasfêmia?
Se mortal houve honrado pelos donos
do Olimpo, êsse foi Tântalo; só que
lambuzou-se de mel, com tanta sorte; insaciável,
provocou monstruosa punição: a pedra
enorme que lhe ergueu o pai dos deuses
sobre a cabeça, êle esperando a queda
que nunca vem e o deixa um tanto triste …

III

Quarto suplício, junto a mais três, é acima
de suas fôrças: só por ter roubado
o nétar, a ambrosia (com que os deuses
o fizeram imortal) para dar aos amigos!

Como se engana aquêle que procura
esconder algo aos deuses…
…………………………………………Foi por isso
que resolveram devolver-lhe o filho
à desgraçada sorte humana. E quando
à flor da idade descobriu que o buço
o queixo começava a escurecer-lhe,
sonhou ganhar a noiva mais à mão,

Hipodaméia (filha ilustre de um
soberano de Pisa): a sós à noite ao pé
do mar grisalho o deus chamou que faz
rugir o abismo, o do tridente: e face
a face êste surgiu-lhe
…………………………………E disse Pélops:
“Escuta aqui, Posêidon, se tiveste
algum prazer com meu amor (presentes
deleitosos de Cípris), prende a lança
de bronze de Oinomáos, e cinge-me de fôrça
e leva-me à terra do Élis em teu carro mais rápido.
O homem já matou treze heróis, treze
pretendentes, para adiar o casamento

da filha! Quem é fraco nunca enfrenta
grande perigo: mas, se a morte é certa,
por que ficar sentado à sombra, à espera
duma velhice inglória? A mim correr
o risco; a ti dar-me o triunfo”.
Falou e não perdeu seu tempo: o deus
por sua glória deu-lhe um carro de ouro
e cavalos alados incansáveis.

IV

Tendo quebrado a fôrça de Oinomáos, levou a virgem
para o leito e houve dela seis
príncipes ardorosos.
……………………………….Ao pé do Alfeu, agora
com os mortos potentes se mistura
lá onde as multidões cercam seu túmulo
perto do altar acima
de todos venerado; mas a glória
de Pélops olha de longe lá de Olímpia
sôbre as arenas onde a ligeireza
disputa a ligeireza, a fòrça a fôrça.
(E o vencedor a vida inteira saboreia
alegria mais doce do que o mel

– pelo menos os jogos não traíram seus votos –
alegria que o dia passa ao dia
bem supremo de um homem…)

……………………………………………Quero eu
coroar esse rei no tom eqüestre
e no compasso eólio. Pois meu canto
em seu panejamento glorioso
jamais vestirá outro que reúna
o gôsto pelo belo
e a fôrça irresistível.
Hierão, algum deus por teus desígnios
vela: fique sempre a teu lado, que mais doce
a vitória te seja em carro agílimo.
Na colina de Cronos luminosa
irei buscar o veio de louvores
dignos de celebrá-la:
………………………………….pois a musa
para mim forja o dardo mais potente
Há grandezas de várias excelências,
a mais alta é dos reis. Não busques mais.
Pisem teus pés os cimos sempre, enquanto
a teu lado farei brilhar meu gênio
por toda parte, na vanguarda helênica.

 

ΙΕΡΩΝΙ ΣΥΡΑΚΟΥΣΙΩι ΚΕΛΗΤΙ

ἄριστον μὲν ὕδωρ, ὁ δὲ χρυσὸς αἰθόμενον πῦρ
ἅτε διαπρέπει νυκτὶ μεγάνορος ἔξοχα πλούτου:
εἰ δ᾽ ἄεθλα γαρύεν
ἔλδεαι, φίλον ἦτορ,
5μηκέθ᾽ ἁλίου σκόπει
[10] ἄλλο θαλπνότερον ἐν ἁμέρᾳ φαεννὸν ἄστρον ἐρήμας δι᾽ αἰθέρος,
μηδ᾽ Ὀλυμπίας ἀγῶνα φέρτερον αὐδάσομεν:
ὅθεν ὁ πολύφατος ὕμνος ἀμφιβάλλεται
σοφῶν μητίεσσι, κελαδεῖν
10Κρόνου παῖδ᾽ ἐς ἀφνεὰν ἱκομένους
μάκαιραν Ἱέρωνος ἑστίαν,
θεμιστεῖον ὃς ἀμφέπει σκᾶπτον ἐν πολυμάλῳ
[20] Σικελίᾳ, δρέπων μὲν κορυφὰς ἀρετᾶν ἄπο πασᾶν,
ἀγλαΐζεται δὲ καὶ
15μουσικᾶς ἐν ἀώτῳ,
οἷα παίζομεν φίλαν
ἄνδρες ἀμφὶ θαμὰ τράπεζαν. ἀλλὰ Δωρίαν ἀπὸ φόρμιγγα πασσάλου
λάμβαν᾽, εἴ τί τοι Πίσας τε καὶ Φερενίκου χάρις
[30] νόον ὑπὸ γλυκυτάταις ἔθηκε φροντίσιν,
20ὅτε παρ᾽ Ἀλφεῷ σύτο, δέμας
ἀκέντητον ἐν δρόμοισι παρέχων,
κράτει δὲ προσέμιξε δεσπόταν,
Συρακόσιον ἱπποχάρμαν βασιλῆα. λάμπει δέ οἱ κλέος
ἐν εὐάνορι Λυδοῦ Πέλοπος ἀποικίᾳ:
25τοῦ μεγασθενὴς ἐράσσατο γαιάοχος
[40] Ποσειδᾶν, ἐπεί νιν καθαροῦ λέβητος ἔξελε Κλωθὼ
ἐλέφαντι φαίδιμον ὦμον κεκαδμένον.
ἦ θαυματὰ πολλά, καί πού τι καὶ βροτῶν φάτις ὑπὲρ τὸν ἀλαθῆ λόγον
δεδαιδαλμένοι ψεύδεσι ποικίλοις ἐξαπατῶντι μῦθοι
30Χάρις δ᾽, ἅπερ ἅπαντα τεύχει τὰ μείλιχα θνατοῖς,
[50] ἐπιφέροισα τιμὰν καὶ ἄπιστον ἐμήσατο πιστὸν
ἔμμεναι τὸ πολλάκις:
ἁμέραι δ᾽ ἐπίλοιποι
μάρτυρες σοφώτατοι.
35ἔστι δ᾽ ἀνδρὶ φάμεν ἐοικὸς ἀμφὶ δαιμόνων καλά: μείων γὰρ αἰτία.
υἱὲ Ταντάλου, σὲ δ᾽, ἀντία προτέρων, φθέγξομαι,
[60] ὁπότ᾽ ἐκάλεσε πατὴρ τὸν εὐνομώτατον
ἐς ἔρανον φίλαν τε Σίπυλον,
ἀμοιβαῖα θεοῖσι δεῖπνα παρέχων,
40τότ᾽ Ἀγλαοτρίαιναν ἁρπάσαι
δαμέντα φρένας ἱμέρῳ χρυσέαισί τ᾽ ἀν᾽ ἵπποις
ὕπατον εὐρυτίμου ποτὶ δῶμα Διὸς μεταβᾶσαι,
ἔνθα δευτέρῳ χρόνῳ
[70] ἦλθε καὶ Γανυμήδης
45Ζηνὶ τωὔτ᾽ ἐπὶ χρέος.
ὡς δ᾽ ἄφαντος ἔπελες, οὐδὲ ματρὶ πολλὰ μαιόμενοι φῶτες ἄγαγον,
ἔννεπε κρυφᾶ τις αὐτίκα φθονερῶν γειτόνων,
ὕδατος ὅτι σε πυρὶ ζέοισαν εἰς ἀκμὰν
μαχαίρᾳ τάμον κάτα μέλη,
50[80] τραπέζαισί τ᾽, ἀμφὶ δεύτατα, κρεῶν
σέθεν διεδάσαντο καὶ φάγον.
ἐμοὶ δ᾽ ἄπορα γαστρίμαργον μακάρων τιν᾽ εἰπεῖν. ἀφίσταμαι.
ἀκέρδεια λέλογχεν θαμινὰ κακαγόρους.
εἰ δὲ δή τιν᾽ ἄνδρα θνατὸν Ὀλύμπου σκοποὶ
55ἐτίμασαν, ἦν Τάνταλος οὗτος: ἀλλὰ γὰρ καταπέψαι
μέγαν ὄλβον οὐκ ἐδυνάσθη, κόρῳ δ᾽ ἕλεν
[90] ἄταν ὑπέροπλον, ἅν οἱ πατὴρ ὑπερκρέμασε καρτερὸν αὐτῷ λίθον,
τὸν αἰεὶ μενοινῶν κεφαλᾶς βαλεῖν εὐφροσύνας ἀλᾶται.
ἔχει δ᾽ ἀπάλαμον βίον τοῦτον ἐμπεδόμοχθον,
60μετὰ τριῶν τέταρτον πόνον, ἀθανάτων ὅτι κλέψαις
ἁλίκεσσι συμπόταις
[100] νέκταρ ἀμβροσίαν τε
δῶκεν, οἷσιν ἄφθιτον
θῆκαν. εἰ δὲ θεὸν ἀνήρ τις ἔλπεταί τι λαθέμεν ἔρδων, ἁμαρτάνει.
65τοὔνεκα προῆκαν υἱὸν ἀθάνατοί οἱ πάλιν
μετὰ τὸ ταχύποτμον αὖτις ἀνέρων ἔθνος.
πρὸς εὐάνθεμον δ᾽ ὅτε φυὰν
[110] λάχναι νιν μέλαν γένειον ἔρεφον.
ἑτοῖμον ἀνεφρόντισεν γάμον
70Πισάτα παρὰ πατρὸς εὔδοξον Ἱπποδάμειαν
σχεθέμεν. ἐγγὺς ἐλθὼν πολιᾶς ἁλὸς οἶος ἐν ὄρφνᾳ
ἄπυεν βαρύκτυπον
Εὐτρίαιναν: ὁ δ᾽ αὐτῷ
πὰρ ποδὶ σχεδὸν φάνη.
75[120] τῷ μὲν εἶπε: ‘φίλια δῶρα Κυπρίας ἄγ᾽ εἴ τι, Ποσείδαον, ἐς χάριν
τέλλεται, πέδασον ἔγχος Οἰνομάου χάλκεον,
ἐμὲ δ᾽ ἐπὶ ταχυτάτων πόρευσον ἁρμάτων
ἐς Ἆλιν, κράτει δὲ πέλασον.
ἐπεὶ τρεῖς τε καὶ δέκ᾽ ἄνδρας ὀλέσαις
80ἐρῶντας ἀναβάλλεται γάμον
[130] θυγατρός. ὁ μέγας δὲ κίνδυνος ἄναλκιν οὐ φῶτα λαμβάνει.
θανεῖν δ᾽ οἷσιν ἀνάγκα, τί κέ τις ἀνώνυμον
γῆρας ἐν σκότῳ καθήμενος ἕψοι μάταν,
ἁπάντων καλῶν ἄμμορος; ἀλλ᾽ ἐμοὶ μὲν οὗτος ἄεθλος
85ὑποκείσεται: τὺ δὲ πρᾶξιν φίλαν δίδοι.’
ὣς ἔννεπεν: οὐδ᾽ ἀκράντοις ἐφάψατ᾽ ὦν ἔπεσι. τὸν μὲν ἀγάλλων θεὸς
[140] ἔδωκεν δίφρον τε χρύσεον πτεροῖσίν τ᾽ ἀκάμαντας ἵππους.
ἕλεν δ᾽ Οἰνομάου βίαν παρθένον τε σύνευνον:
τέκε τε λαγέτας ἓξ ἀρεταῖσι μεμαότας υἱούς.
90νῦν δ᾽ ἐν αἱμακουρίαις
ἀγλααῖσι μέμικται,
Ἀλφεοῦ πόρῳ κλιθείς,
[150] τύμβον ἀμφίπολον ἔχων πολυξενωτάτῳ παρὰ βωμῷ. τὸ δὲ κλέος
τηλόθεν δέδορκε τᾶν Ὀλυμπιάδων ἐν δρόμοις
95Πέλοπος, ἵνα ταχυτὰς ποδῶν ἐρίζεται
ἀκμαί τ᾽ ἰσχύος θρασύπονοι:
ὁ νικῶν δὲ λοιπὸν ἀμφὶ βίοτον
ἔχει μελιτόεσσαν εὐδίαν
[160] ἀέθλων γ᾽ ἕνεκεν. τὸ δ᾽ αἰεὶ παράμερον ἐσλὸν
100ὕπατον ἔρχεται παντὶ βροτῶν. ἐμὲ δὲ στεφανῶσαι
κεῖνον ἱππίῳ νόμῳ
Αἰοληΐδι μολπᾷ
χρή: πέποιθα δὲ ξένον
μή τιν᾽, ἀμφότερα καλῶν τε ἴδριν ἁμᾷ καὶ δύναμιν κυριώτερον,
105τῶν γε νῦν κλυταῖσι δαιδαλωσέμεν ὕμνων πτυχαῖς.
[170] θεὸς ἐπίτροπος ἐὼν τεαῖσι μήδεται
ἔχων τοῦτο κᾶδος, Ἱέρων,
μερίμναισιν: εἰ δὲ μὴ ταχὺ λίποι,
ἔτι γλυκυτέραν κεν ἔλπομαι
110σὺν ἅρματι θοῷ κλεΐξειν, ἐπίκουρον εὑρὼν ὁδὸν λόγων
[180] παρ᾽ εὐδείελον ἐλθὼν Κρόνιον. ἐμοὶ μὲν ὦν
Μοῖσα καρτερώτατον βέλος ἀλκᾷ τρέφει:
ἐπ᾽ ἄλλοισι δ᾽ ἄλλοι μεγάλοι. τὸ δ᾽ ἔσχατον
κορυφοῦται βασιλεῦσι. μηκέτι πάπταινε πόρσιον.
115εἴη σέ τε τοῦτον ὑψοῦ χρόνον πατεῖν, ἐμέ τε τοσσάδε νικαφόροις
ὁμιλεῖν, πρόφαντον σοφίᾳ καθ᾽ Ἕλλανας ἐόντα παντᾷ.

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