poesia, tradução

5 ilegibilidades: Paul Celan por Davi Araújo

Paul Celan vocês já conhecem na escamandro, podem rever aqui.

Davi Araújo (São Paulo, 1979) é poeta, ficcionista e tradutor radicado em Sorocaba. Autor do poemário Livro Ruído (Eucleia, 2011), publicado em Portugal, e das prosas em Ficções paralelas e Visões para lê-las (Substânsia, 2016; com desenhos de Yuli Yamagata). Traduziu Natureza, de R.W. Emerson, e Caminhada, de H.D. Thoreau (Dracaena, 2011), e busca editor para suas traduções de poesia reunidas em Do silêncio ao céu e para a dos
poemas completos de André Breton. Em 2018, a editora Urutau publicará seu próximo livro de poemas, O físsil.

* * *

UNLESBARKEIT dieser
Welt. Alles doppelt.
Die starken Uhren
geben der Spaltstunde recht,
heiser.
Du, in dein Tiefstes geklemmt,
entsteigst dir,
für immer.

§

ILEGIBILIDADE deste
Mundo. Tudo em dobro.

Os fortes Relógios
dão corda à hora-ao-meio,
roucos.

Tu, presa de tua Profundeza,
desces de ti,
para sempre.

§

ILEGIBILIDADE deste
Mundo. Dúbio todo.

Os duros Relógios
doam sentido a Físsil-hora,
aridamente.

Tu, encalacrado em teu Âmago
sais de ti,
sempiterno.

§

ILEGIBILIDADE deste
Mundo. Duplo total.

Ríspidos,
os poderosos Relógios
enchem de razão a fensahora.

Tu, em tuas Vísceras encaroçado,
germinas de ti,
sem cessar.

§

ILEGIBILIDADE deste
Mundo. Pandobrado.

Os grãos Horários
concedem ao meioperíodo rácio,
ásperos.

Tu, sujeitado ao teu Imo,
debulhas a ti,
eternamente.

§

ILEGIBILIDADE deste
Mundo. Onidual.

Os ríjidos Horológios
cedem, ao Físsilcurso, vazão,
raucíssonos.

Tu, preso a teu Fundo,
partes de ti,
ao infinito.

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poesia, tradução

Transviscerar Roberto Piva, por Francisco de Matteu

Roberto Piva, 1963, foto de Cláudio Willer

PIVA (1937 – 2010)

Para ele, estar apaixonado era praticamente uma condição necessária para escrever, “a poesia é uma consequência da vida, um epifenômeno dela. É o que sobrou da paixão, é o que sobrou da orgia.” (PIVA, 2009, p.60). Ele certamente teria muito o que conversar com Leminski, que comenta que “Os hindus acreditam que os deuses criam este mundo por um excesso de ser. O que é um bom modelo para nossa humana e terrestre criatividade. Só por excessos se cria. Por uma exuberância.”

Uma experiência muito marcante na vida do escritor, que inclusive permeia toda sua obra e  vai ganhando mais espaço nos livros posteriores, foi o primeiro contato que teve com uma prática de cunho xamanista, a piromancia. Conta ele que, aos 12 anos de idade, por meio de Irineu, um mestiço de índio com negro, experimentou pela primeira vez uma das formas do êxtase ao contemplar fixamente uma fogueira na fazendo do pai em Analândia, perto de Rio Claro, no interior de São Paulo. Estimulado por Irineu, Piva encarava o fogo até enxergar imagens e espectros fugazes. Já aos 24, em 1961, dois anos antes da publicação de Paranoia, Piva adquire o livro O xamanismo e as técnicas arcaicas do êxtase (1951), escrito por Mircea Eliade, e com a sua leitura é “beneficiado pelo inconsciente coletivo que permeia a humanidade. Isso é a origem da poesia xamânica. É a origem da própria poesia na visão de Cortázar, Artaud, Octavio Paz, Mircea Eliade” (Ibid., p.149).

PARANOIA

Paranoia é um livro instilado de paixão transgressora, uma carta de amor virulento cujo destinatário é a cidade de São Paulo, ou seja, um poema do urbano contra o urbano. Falar sobre Paranoia é equacionar amor, êxtase, analogia, ritmo, correspondência. O ritmo da poesia de Piva é, eu acredito, da mesma ordem do movimento conforme descrito em  “O Anus Solar” (1931), ensaio de Bataille, ou seja, existe em função de uma atração implacável, de uma paixão amorosa. Trata-se do ritmo amoroso.Os dois movimentos principais são o rotativo e o sexual, de combinação expressa
numa locomotiva de pistões e rodas.

Dois movimentos que se transformam um no outro, reciprocamente.
Assim notamos que a terra a dar voltas faz coitar animais e homens (e, como
aquilo que resulta também é a causa que o provoca), animais e homens quando
coitam fazem dar voltas à terra.

(…)
Um guarda-chuva, uma sexagenária, um seminarista, o cheiro de ovos podres, os
olhos cegos de um juiz, são raízes por onde o amor se alimenta.
Um cão que devora um estômago de pato, uma mulher bêbeda que vomita, um
guarda-livros que soluça, um frasco de mostarda, representa a confusão que veicula
o amor.
(1985, p. 12-13)

Tendo isso em vista, seguiremos com Bachelard “um método que nos parece decisivo na fenomenologia das imagens, e que consiste em designar a imagem como um excesso da imaginação”, onde “acentuamos as dialéticas do grande e do pequeno, do oculto e do manifesto, do plácido e do ofensivo, do fraco e do vigoroso” (1993, p.123). Ou seja, Paranoia, enquanto resíduo e “excesso da imaginação”, está menos para uma sequência de peripécias mirabolantes vividas e testemunhadas poeticamente sob a égide da noite, e mais para um desregramento da própria linguagem em associações inusitadas que explodem vigorosamente a partir do detalhe. Tal abordagem está no centro do programa do livro, a versificação enquanto forma de organização sistematicamente caótica não é nada menos do que o emprego pessoal de Piva da atividade crítico-paranoica de Dali.

Em 1929 Dali pesquisa os mecanismos internos dos fenômenos paranóicos, encarando a possibilidade de um método experimental baseado no poder imediato das associações sistemáticas próprias à paranóia; esse método iria tornar-se, em seguida, a sintese delirante crítica que tem o nome de “atividade crítico-paranóica”. Paranóica: delírio da associação interpretativa, comportando uma estrutura sistemática – Atividade crítico-paranóica: método espontâneo de conhecimento irracional baseado na associação crítico-interpretativa dos fenômenos delirantes. (1974, p.18-19)

Assim, o efeito que se pretende criar na versificação de Paranoia é do desocultamento infinito daquilo que transborda. Por meio do exercício da espontaneidade e das associações desregradas, a ideia obcecante entra em cena sem recorrer à linguagem linear e ao significado racional, fazendo o mundo do delírio passar para o plano da realidade através do processo de ressignificação do mundo e seus objetos.

A TRANSVISCERAÇÃO

A transvisceração é mais um processo do que um método, trata-se de cultivar gradualmente no próprio corpo a poesia, o corpo se torna poético ao se deixar atravessar por um corpo de poemas, neste caso, o livro de Roberto Piva e Wesley Duke Lee, Paranoia (1963). Assim, mergulhei profundamente no devaneio de cada imagem, poema a poema, deixando o punctum barthesiano das fotografias alucinadas de Lee me assombrar também, palavras animadas com meu próprio sangue, reverberando nas minhas entranhas e pulsando no ritmo de minhas vísceras comovidas, imprimindo cada poema no meu inconsciente e povoando meu imaginário com sonhos de andanças desvairadas pela noite; só então, pude recriar os poemas no idioma do meu próprio corpo. A transvisceração trata-se, portanto, de uma abordagem tradutória que privilegia antes de mais nada, o sensorial e o intuitivo em detrimento do racional, que privilegia a continuidade da palavra em relação ao corpo, pensando no poema como uma extensão da vida, uma secreção do corpo produzida por um excesso de vivência, mais especificamente, no caso de Piva, por um êxtase amoroso. Colocando a linguagem como evidência também, enquanto máquina desejante, máquina de estabelecer correspondências e analogias novas, de potencialidade tradutória, de ressignificação de símbolos e da realidade, de transformação da própria vida através do exercício imaginativo da visualização e performance. O poema de que falo é uma meditação que altera e expande a sensibilidade do eu, que faz esse eu sonhar e que faz a própria linguagem sonhar.

Por isso mesmo, a tradução de um poema como esse, também precisa passar invariavelmente por um movimento de êxtase antes de se fazer existente, brotando diretamente das vísceras, do âmago desse eu e tomando forma na medida em que se faz transbordar. A criação dos poemas de Paranoia foi esse transbordamento mental e é assim que deveria ser a sua tradução poética ao meu ver: linguagem viva que brota do corpo e mancha o papel revelando um abismo que se condensa em palavra, em canto, em visão, imagem e analogia. O poema é a ritualização da vida, é a imaginação agindo sobre a realidade, é o ato mágico que tem por finalidade orientar uma força oculta no sentido de uma ação determinada. A força oculta é o poder intuitivo e criativo; e a ação determinada, nesse caso, é o estímulo, a provocação e a comoção das vísceras a partir da própria palavra. É como se o poema tentasse devolver para a vida o que tirou dela para se fazer e se criar,  a partir de sua própria substância: o desejo, o impulso violento, o movimento e o ritmo. Faço das seguintes palavras de Bachelard, as minhas próprias: “Quanto a mim, acolho a imagem do poeta como uma pequena loucura experimental, como um grão de haxixe virtual, sem cuja ajuda não podemos entrar no reino da imaginação” (2001, p.222).

PARA REPARO DE VÍSCERAS

A tradução de Paranoia deve engendrar, na minha opinião, uma espécie de inciação, a busca delirante por “aquilo que de fato sou”, busca que o livro de Piva representa de maneira tão singular. Nas palavras de Davi Arrigucci:

O delírio que acompanha o êxtase é a tentativa de ver mais claro, no cerne da noite, aquilo que de fato sou e quem sabe possa vir à luz. No fundo da sua própria obscuridade, o poeta, “incorrigível demônio”, caminha sem rumo pela cidade imaginária em busca de revelar o segredo que traz consigo mesmo. (2009, p.29)

Cabe aqui justificar e apontar a origem da minha proposta de tradução como reparo de vísceras: na minha analogia, a ossada, sendo o símbolo da fonte última da vida, a porção mais resiliente tanto do homem quanto do animal, seria a matéria a partir da qual a vida, ou seja, as vísceras, poderiam se reconstituir. A poesia é palavra encantatória que excita a carne pois roça o cerne do ser e é na medula óssea que são produzidas e renovadas as células do sangue, ou seja, o DNA, que contém nossa assinatura genética. O sangue, líquido quintessencial da vida que circula pelas vísceras, se produz e renova graças a medula óssea. Assim como os poemas se renovam com as traduções, e as línguas em estado elevado nos deixam vislumbrar a “língua pura”. Haroldo de Campos resgata o que Walter Benjamin havia dito sobre a tarefa do tradutor, ela consiste em “libertar na sua própria aquela língua pura, que está desterrada na língua estranha; libertar através da transpoetização, aquela língua que está cativa na obra” (2013, p.98). Em outras palavras, enquanto tradutor, devo libertar da língua que está contida no poema de partida, o esqueleto, a armação do ser do poema que delimita sua existência e justifica sua razão de ser.

Ora, a tarefa iniciatória do xamã é justamente se despir das vísceras, órgãos e toda carne, é preciso desnudar o esqueleto para que a partir da visualização extática da estrutura óssea seja possível, graças ao conhecimento adquirido pela sua contemplação, a reconstrução de um corpo novo e revigorado. Por trás de todo poema há um modo de intencionar, uma forma significante (Ibid., p.99) que suporta a informação estética: essa forma significante funciona exatamente como o esqueleto no ritual xamânico, a partir da nomeação mágica de cada osso na linguagem ritual (língua pura), é possível obter a visão  plena do esqueleto, que é a chave para a manutenção da vida e da cura. As vísceras e os demais materiais orgânicos (palavras) se cristalizam ao redor dessa estrutura óssea (modo de intencionar) praticamente invisível para o não iniciado, porém ainda assim detectável.

A tradução nessa analogia é um reparo de vísceras nos dois sentidos do verbo reparar, o primeiro abrange a reconstrução e a recriação do poema por meio da mesma matriz (esqueleto/forma significante) a partir da qual as mentes que “ficaram sonhando” (em êxtase/intuição da língua pura) vão consumar o seu amor delirante na forma de uma “flor de saliva”, por exemplo; o segundo sentido do verbo “reparar”  (notar, observar, perceber) está ligado à contemplação e nomeação do esqueleto em si, que é a investigação da forma significante que compõe o poema. Reparar o poema quer dizer significar e perceber seus mecanismos, desvendar sua linguagem, seus artifícios e funcionamentos, não é nada menos do que um exercício de crítica, de se enveredar pelos seus meandros e abrir no poema um caminho próprio, se equilibrando entre a materialidade do texto e a subjetividade daquele que se propõe a decifrá-lo. Foi do “Poema da Eternidade sem Vísceras” que retirei cirurgicamente o título da dissertação: “PARA REPARO DE VÍSCERAS”; pois a metáfora que ilustra meu processo tradutório é essa da transferência da dicção produzida pela persona de Piva que caminha pela noite paulista em Paranoia.

POEM OF ETERNITY WITHOUT VISCERA/POEMA DA ETERNIDADE SEM VÍSCERAS

PRAÇA DA REPÚBLICA OF MY DREAMS/PRAÇA DA REPÚBLICA DOS MEUS SONHOS

 

Francisco De Matteu entrou na UFPR em 2009. Na  monografia estudo a “Canção de Mim Mesmo” (1855), de Walt Whitman com um traço chamado “merge”, que nada mais é do que o estado meditativo de transe induzido no eu-lírico através dessa canção que provoca o êxtase cósmico, assimilando toda uma nação e um continente  e gerando as imagens do poema que são a jornada de expansão e fusão do eu lírico.

BIBLIOGRAFIA

BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. Tradução de Antonio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

BATAILLE, Georges. O ânus solar. Tradução de Anibal Fernandes. Lisboa: Hiena Editora, 1985.

CAMPOS, Haroldo de. Transcriação. Organização Marcelo Tápia, Thelma Médici Nóbrega. São Paulo: Perspectiva, 2015.

DALI, Salvador. Sim ou a paranóia: método crítico-paranóico e outros textos. Tradução de Denise Vreuls. Rio de Janeiro: Editora Artenova S. A., 1974.

ARRIGUCCI, Davi. O cavaleiro do mundo delirante. In: PIVA, Roberto. Paranoia. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2009.

PIVA, Roberto. Paranóia. Fotografado e desenhado por Wesley Duke Lee. São Paulo: Instituto Moreira Salles e Jacarandá, 2000.

____________. Roberto Piva: encontros. Organização Sergio Cohn. Rio de Janeiro: Beco do Azogue, 2009.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                         

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Lucio Carvalho (1971—)

Lucio Carvalho nasceu em Bagé, Rio Grande do Sul, em 1971.  Tradutor bissexto, publicou a coletânea de contos A aposta, o livro de artigos e ensaios Inclusão em pauta e o livro de poemas Falso alarde. Há uma década, é redator e co-editor da revista Inclusive – Inclusão e Cidadania. Escreve ficção, poesia, crítica e artigos jornalísticos para diversas publicações.

* * *

Antílope

andei muito por aqui
mas hoje esqueço
se há marcas para encontrar
como em João e Maria
ou se houve, de repente,
nova devastação
de tanto em tanto
os cometas invadem o espaço
e suas caudas de luz e detrito
espalham terror e espanto
mas elas não fazem por si sós
dependem dos outros portanto
com meus cabelos nas árvores é diferente
são marcas de mim mesmo
e o chão fez brotar
de uma forma indecente
tudo o que derreti
no seu calor
são plantas loucas as que alimentam
o cultivo da floresta
desordenada e íngreme
que me faz subir e subir
e nunca parar de subir –
que modo estranho elas têm
elas todas são tão igualmente
compenetradas e objetivas
na devoração das pedras
e no consumo da água
e vão extrair até a última gota
sem sacrifício
mas eu não sei para o que sirvo
nem o que vim fazer aqui
deve ser um sonho que não tive
e que me sonhou, de onde acordei
e deparei com a selva intacta
e o carinho feroz de seus animais
esse que tem a cara de antílope
é brando e quer tocar meu coração
com seus dedos desumanos
e aquela dríade que nasceu dentro de mim
vai a varrer minhas pegadas
e a engolir meu caminho
aqui não é como nas savanas
onde os rugidos prenunciam o óbvio
mas tudo é sorrateiro como as sombras
que ocultam o dia da noite
e vice-versa
é mais ou menos o caos completo
ninguém passa gritando ou buzinando
a regra é dita em rumores e o ramo de rosas
que se guarda sob a pele
só pode abrir-se por invocação
ao transformar-se em vapor
e nos perfumes do alimento
quando acabamos não há muito o que ver
nem entender nem acalmar
o tempo parou para eu tocar
nos poros e na seiva dos seres
e tudo o que existe lá fora
é apenas tédio e aborreceres
dizem por aí que viver é pouco
mais que haver comida e bebida
o bastante e coisas elementares
que se devem ter por direito
um dia desses posso dizer – quando sair daqui
a salvo e a sós, como deve ser o sujeito –
viver só vale a pena para provar seu efeito

§

À natureza

empenho aos seus olhos
como notas promissórias
duas dúzias de palavras
nas quais o silêncio envergonha-se
e começo a dizer outra vez
como tudo pode acontecer
é assim, espetado de ponta a ponta,
que atravesso meus dias
e as noites por sua vez atravessam-me
criando hiatos e prenúncios de véspera
(a criação é uma bandeira
trêmula e lunar nestes lugares)
eu sei que em breve
no vento que vem do oriente
nos sinais de um livro entre as estantes
nos versos que nunca fizeram sentido
eu nascerei na forma de palavras
que nunca esgrimiram, afora estas vinte
(fosse um lutador versátil
como um puma distante de casa
cuja fome especula a vítima
até que ela possa defender-se
enorme e inacessível
como uma montanha
teria gasto as unhas nas pedras
até que me convencesse por elas
do que deveria ou não fazer –
meu maior temor é temer
o sobejo soterramento
e eu vir abaixo)
estou à direita, no corredor ao lado
há um arbusto falso
que nunca me oferece certeza
se o que estou a ver
ou a fazer
pertence mesmo à natureza

§

Provisória

não espero fazer nada
e que tudo esteja cumprido
nem entender o que seja
mas estar desde já entendido
que quando abra meus olhos de dia
é que a noite foi esconder-se
o pouco que sei aprendi
sem lastro nem alicerce
como o acaso desenha nas nuvens
ou um algoz o machado afia
olhando bem em meus olhos
sou quem ele nem desconfia
ao juntar meus pedaços do chão
sossego a alma que grita
depois que tudo acabar-se
talvez eu a ela demita
a minha parte estará feita
não que isso melhore a história
querendo-a pouco ou demais
a vida é solução provisória

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uma poema de nina rizzi

fredy alexandrakis

arte: fredy alexandrakis

‘nossa pele água toda
carne ossos pele
como coisa única

tenho um mapa nas pernas
poros que se coçam nas axilas e virilhas

e ainda mais um mapa linhas transparentes
verdes que me sobem da barriga até os braços

disseram que eu ame o meu corpo

era o bom quando o conhecia
o sangue espesso e quente que me escorria

cada dorzinha absurda
em seu devido lugar

as festinhas que me fazia em êxtase
cantando um tanto louca o bliss o amor

agora cá dentro um bicho que me come
dizem mulher
digo Coralina

nome destino
sereia petrificada
água e coral

Coralina é toda mole
de tão mole chega a ser dura
como negação de seu ser toda água

toda água
cheia d’água Coralina

abraço-a
mas então é toda bicho
selvagem e rígida dói-me toda

até que sou também
esse imenso recife de corais
espelho d´água toda síndrome

cabelos e pelos caem
caem    caem    caem

penso numa deusa do milho
num verso que diga
“bonecas de milho afogadas
…………………………………. adeus”

enquanto uma agulha me vara a barriga
de fora adentro mordo as mãos da mulher
que me recita documentos e valores

e o essa é a vontade de deus
um deus de leis e vontades
que em mim se vinga

por uma eva e sua maçã
que jamais existiram

Coralina cresce
a água toda

eu espero
eu espero

a barreira de coral
se alarga
ela é uma sereia

feia?
bonita?

implacável com seu coração
de florezinhas petrificadas

meu corpo um mar desconhecido
furioso de nostalgias e quebrantos

es
go ta
men to
……………………………………. água-forte

o que é esta mulher?
o que é uma mulher?

me dissolvo lentamente
11 semanas
17 semanas

um homem diz
não mais que 20
já se vão 28

sou um experimento genético

um corpo que pertence ao estado
ao deus
à ciência
………………………………………… ao além

eu sei de cor
o esperar
o esperar

essa vontade que não é minha
e todo homem com seu eu te amo
e a cartinha contravenção

o eu te amo habeas-corpus
vindo assim da boca-
-documento sem tamanho

{eu te prendo
}eu me rendo

olha
Coralina
eu te amo

eu sei o bicho que me come dentro
eu sei eu sou uma mulher

[nina rizzi]

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Dez imagens da vaquejada, de K’uo-an Shih-Yuan, por Guilherme Gontijo Flores

all creation
endless
interpenetration
(John Cage)

Não me sinto à vontade para apresentar a história, o contexto e as interpretações filosóficas desta série de poemas atribuídos ao mestre K’uo-an Shih-Yuan (séc. XII, também conhecido como Kuoan Shiyuan, ou em japonês como Kakuan Shion), com as conhecidas pinturas de Tensho Shubun (1414-1463). Há uma série de comentários, paráfrases e traduções neste site, https://terebess.hu/english/oxindex.html, além de outras versões das pinturas.

Para não dizer que não disse nada, me parece importante que

Dito isso, vai abaixo uma relação poética com essa série.

guilherme gontijo flores

* * *

Dez imagens da vaquejada
Por Kuoan Shiyuan (séc. XII), com pinturas de Tenso Shubun (séc. XV)
A partir das traduções de Suzuki Daisetsu Teitarō, de Stanley Lombardo e de Catherine Despeux

1. Buscar o boi

numa busca por tudo entre capins
rios montes extravios infindos
sem força e ânimo onde encontrar
entre bordos cantares de cigarras

2. Achar o rastro

ribeira e árvore com tanto rastro
plantas de cheiro espesso adocicado
junto a montanhas vales e ninhos
nem mesmo céu esconde seu focinho

3. Olhar o boi

em ramos papa-figo entoa entoa
sol morno salgueiral e vento brota
ali sozinho boi encurralado
cabeça chifres quem os põe num quadro?

4. Pegar o boi

com todo empenho capturá-lo boi
incontrolável e forte e feroz
porém prossegue ainda monte acima
evanescência entre vale e bruma

5. Domar o boi

está na mão está o laço a corda
não vai se desprender em meio a pó
bem vaquejado já retorna manso
e segue do lado sem contenção

6. Montar o boi

suave monta o boi e ruma ao lar
e por neblina some som de flauta
solta cantiga trina de alegria
inexprimível que só se adivinha

7. Largar o boi

alcançar nesse dorso a choupana
o boi não há agora se descansa
em sol vermelho a pino sobre sonho
com corda e laço largados ao chão

8. Além do boi

corda laço homem boi tudo nada
ideia não penetra azul de abóbada
neve jamais suporta forno em brasa
ali unir-se a mestres patriarcas

9. Tornar à fonte

tornar à fonte origem sem afã
no lar e só sentado na cabana
surdo cego pro mundo exterior
rio corrente enrubescer de flor

10. Entrar na aldeia

descalço e desnudo entrar pela aldeia
sorrindo imundo em meio a lama e terra
sem poder imortal e sem feitiço
ensina árvores secas a florir

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Yasmin Nigri, 1 + 1

yasmin

Yasmin Nigri (1990), nasceu no Rio de Janeiro, é poeta, artista visual e mestre em Filosofia (UFF). Integra o coletivo Disk Musa. Participou da antologia 50 Poemas de Revolta (Cia da Letras, 2017) e é colaboradora da Revista Caliban. Seu livro de estreia, Bigornas, saiu em julho pela Editora 34. Mantém o canal Alokadostutoriais, onde, além de tutoriais divertidos, encontramos os textos aqui apresentados [aqui e aqui]; já apareceu aqui na escamandro com outros poemas.

*

Qual aviso

Alguns textos nós achamos difíceis de falar. Por isso nos tocamos tanto. Antes, em todo abraço, me sentia semelhante à árvore. Nos seus não penso em nada. Fora a infância e seus braços – limiares – é que penso infinitamente. Como hoje pensei no prazer dos inícios e reinícios. Você me disse, no carro onde nos olhamos verdadeiramente pela primeira vez: você não me assusta. Perdi o ônibus. Na rodoviária, uma da manhã, enrodilhado em mim, você esteve feliz, pois constatou que não abro mão do desejo. Apesar de amarga. Apesar de ferida. Reclamei do gosto que tem os seus excessos. Aprendi que para você os excessos são a afirmação da vida. Eu não gosto quando você assopra meus seios. Eu gosto quando você me acende uma ideia. Você não gosta da maestria. Você pensa o prazer enquanto experiência festiva. Eu penso em você quando penso em reinícios. Eu finjo sono para escapar da sua festa. Você diz que o amor é o local onde a felicidade se realiza. Que prazer e dor são indissociáveis. Eu prefiro dormir. Enquanto você acolhe fossas, ressacas, paixões… eu tento não pensar exageradamente na morte. Quando penso em você penso em inícios. Porque entre nós, mesmo que de natureza inexprimível, se abriu um lugar vazio onde sentimentos e palavras podem acontecer. Os encontros casuais são a matéria da vida. O amor é fácil como sentir culpa. É difícil como sentir culpa. Em qualquer parte do globo.

§

paranoica

que palavras foram essas
que trocamos
na nossa caminhada
e não se ligaram a nós
e não as ligamos a nada
alma frouxa cobra alada
cheiro seu silêncio
vou pra cama antes do tempo
é muito penoso estar acompanhada
de mim de coisa alguma assim
nisso vejo mal yasmin yasmin
e acordo à noite
em miséria metafísica
quando deus me tira a poesia
olho a dor, sinto a dor mesma
e fico farta da beleza
e fico péssima poeta
e me contenho de um jeito horrível
vigio o celular
posto stories
vigio os meus vigias
paranoica e no cio
embaixo da tela o nome dele
bajulo meu clitoris
o sono me vence e desmaio
no edredon fofinho
durmo sem medo
faca dentro da fronha
acordo forçada por uma lembrança
penso penso penso enquanto basta
mato as ideias até o café
me arrasto até o almoço
me escavo até a jantar
por falta dele ou do acerto de contas
penso
que resina
penso
que resina se apoderou daquela cabeça
penso
dedos mudos
penso
mente criminosa
concluo
agora mesmo ele se esconde
num meio-sorriso atávico
enquanto me espera

*

 

 

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poesia

Leonel D. Jr.

Leonel D. Jr é formado em Letras e vive em São Paulo num fazimento constante do vir-a-ser. Estes poemas fazem parte do livro (inédito) “botânicos e genesíacos”. Para contato: ldelalana@yahoo.com.br.
* * *

botânica

raízes fincadas em passado recente, rente ao horizonte do tempo da seiva,
por debaixo das portas, pelo vão mínimo das portas, às escondidas
rugosos dedos entrelaçados em nós, da floresta que ainda respira
raízes alongadas onde lunetas vislumbram musculaturas rijas
tão rijas quanto gosto de mãe e a severidade do pai
o tronco e as pernas do pai atribuídos ao encantamento
embrião para a vida toda – ganhando a vida desejando a morte:
amputação do rabo da lagartixa, a fruta cortada ao meio num lance de faca
do alto da sua frondosa cabeleira, dos seus raios e trovões
a impotência em frutos mirrados
sua pele rude e seus intermináveis dedos penetram a terra
minha filha tem intermináveis dedos, meu neto tem intermináveis dedos
a força do pai, sua ausência:
raízes

§

descoberta

o subsolo desliza por rugosas raízes (de um riacho, ainda há pouco, raro)
de um mundo impermeável reprimindo a busca não exatamente do pai
nem da mãe de preto rezando – ralhando?
da janela, o canavial interminável de dedos longos e digitais apagadas, da nona
retirando a tinta calcinada do batente, o atrito da lâmina deformando as falanges
e desenhando ranhuras na madeira
no arrebol, a usina carcomida e demarcada pelo sexo peludo da descoberta do outro
pelo vão da janela os seios murchos da nona
fotografias velhas esquecidas no fundo da gaveta
algo corrói, mas tudo corrói – o que não?
o vermelho-alaranjado minando… minando… como uma fonte inesgotável
lendários heróis que nunca tive:
no canavial das terras vermelhas revolvidas, desembestados, passando por entre
minhas pernas com a clara intenção de me derrubar: um pastor e um vira-lata
meu canavial não é o de joão, não é engenho, é um horizonte
vila sob eucaliptos, caravana que some na poeira, romaria, cavalo que dispara,
entorpecimento
tudo cercava a casa da vila, eu mesmo era (sou) “o da vila” – desde o soco
no estômago, na cara, do abuso da força alheia
do cheiro, dos beijos, do milharal apinhado, dos dedos que lavram o dia a dia do
passado
a descoberta de que não precisa pedir desculpas sempre

§

labirinto

extirpo raízes com seus minérios e mucosas, revolvo todas as substâncias
de éteres a cascalhos, dos espelhos aos oxalatos
(as pernas bambas da mesa andam cheias de cupim, disse o pai)
de visibilidades duvidosas, rentes e verticais, ao dente
ritualizo, me apego e desapego,
exausto vago sem rumo, quase sólido – glóbulo, granizo, grãos, compacto
como se sob fosse abismo, sem raízes,
solto ao vento, uma rasteira de possibilidades que vai aparando toda a grama
o corte, a seiva na parede raiz: odores, fotossínteses não conclusas, e,
o contentamento do eterno retorno – insiste, resiste:
da semente dentro da macieira, da chuva dentro da gota d’água,
de têmporas e tempéries, de uma estrutura latente, incubada, vulcânica
asas de cera, telhados de vidro, atados dos pés ao chifre
o que querem de nós, pensamentos prontos, delivery of thoughts?
palavras codificadas, labirintos, simulacros, túmulos, tumores, lixos mediáticos
a todo volume
uma vida de inverossimilhanças reais sob nebulosas difusas e absorventes
espiraladas difrações sonoras e imaginamos um mundo, de pronto
feito imagem e semelhança das imagens
um novo homem, sempre velho e inacabado
a verdade da criança morta, anestesia geral e irrestrita
o regozijo em concreto gozo
se os arqueólogos não sabem dos seus labirintos como se livrarão dos seus
minotauros?

§

visão

talvez, os dedos encurtem e fiquem as unhas no pulso
os pulsos sumam para dentro dos cotovelos e os cotovelos:
cata-ventos
no eixo dos ombros, girando em falso com um sorriso verdadeiro
que a garganta engoliu a seco,
o cérebro saudável de bondades
as bolas de ferro persas presas aos calcanhares protegendo as asas do sol
difícil pensar que somos personagens fora do comum
– anomalias, dádivas, dívidas já pagas
nas mesmas mãos, nos mesmos olhos:
no espelho da lâmina da faca, seu olhar, um céu sem nuvens e sol:
paraquedas despencam sem sobreviventes, um mundo sensível
e um clown em meus pés, quem sabe eu dance, cante, fique feliz
talvez um repouso, um pouso aos destroços dos meus voos
uma pausa que não seja tão assim,
aniquilamento

§

a doença das plantas

as raízes se afundam em pedregosos calcários, em ramificações de cores
extensões variáveis protegidas do vento
que insiste em todas as direções
adoecem impregnadas e submergidas em terras revoltas
uma árvore enraizada em todos os tempos e espaços – sem limites
tradições e contradições arquetípicas
as chagas estão abertas e não há mandrágoras que as curem:
envenenam as comidas, massacram a cultura e tudo
os estilhaços flutuam ao nosso redor e perfuram todo nosso corpo
e nossos mirrados filhos correm soltos por aí
repetindo… repetindo… o refrão da nossa existência
seus dedos rudes apertam gatilhos, assinam contratos, acariciam doentes
espelham a terra
caem de boca no abismo, se perdem no vácuo impreciso da materialidade
das coisas inúteis que deixam suas marcas, o saldo dilacerado de telúricas origens
das dores autóctones, das vozes adormecidas
ou nunca nascidas

§

dos argonautas e dos olhos azuis tristes do pai

as fronteiras demarcam os países, as cercas confinam os bois
mas o que demarca nossa existência?
terras ásperas de raízes expostas às cegueiras detestáveis de ostras cerradas
no fundo da escuridão das pérolas
o que são as pérolas em sua negridão de fundo de mar se
não-pérolas e nada mais?
o que sabemos do oco dos sonhos e das ovelhas que saltam de lá?
ah, terra incógnita, suas pérolas brilham em sua face e sabe o quão tristes são os
olhares opacos de seus filhos
o quão triste e cheio de medo eram os olhos azuis do pai
o quão triste foi o enfisema pulmonar do pai, o quão triste foi o pai
teus ombros fortes arquejam – o mundo está escasso de heróis, deuses e humanos
a fúria da descoberta do desespero de se descobrir em terras estrangeiras no meio da própria
casa,
às vezes, precisa-se pedir licença aos próprios pés
a adaga, a machadinha, a pedra e a vida lascada
os mitógrafos do primeiro decênio do século XXI expõem em seus facebooks
as mitologias da china comunista e da américa pós-apple
o mundo esférico ideal em um só clique, por onde argonautas e odisseus navegam
ocultos, impávidos, anônimos, implacáveis…

§

partículas de deus

cá estamos de sopro e supetão nesse vazio
primatas dentro do umbigo, solidificados, virtualizados, liquidificados
à virulência da vida (que vai ao ralo, ao rabo, ao rato,
liquidada, adiada, antecipada)
adâmico, busco o lado que me falta da costela
que sei desde sempre, balsâmica
em rota de peregrinação às histórias de cada um – a beleza salvará o mundo (?)
não sei não saberei
me responda você, que merda fizemos dele se tudo se contabiliza?
se não existe espaço para a arte como existe espaço às oito horas trabalhadas
e outras maldades mais
na vila izaura, acreditava, no azul do céu que a menina da rua de cima trazia,
acreditava
tudo começou ali, na expulsão do paraíso, a partícula maldita:
talvez isso explique nossa busca desenfreada do que nem sabemos, construindo
a felicidade eterna num graveto, afoito no prazer da dor do outro
– o sangue do capítulo IV do livro de gênesis –
queremos limpar nossas mãos do que nem cristo foi capaz
tateando o indizível quando a possibilidade do interruptor nos cega
estúpidos senhores e senhoras de dedos longos e raízes desesperadas observam
o nada o naufrágio o delírio,
um grito

§

raízes viris de sementes fecundas

onde se encontram duas coisas e o mundo acontece:
teatro de marionetes, epifanias, carrancas nas embarcações ou qualquer coisa
que detone movimento – difração
a cólera do não, a desmedida do quero garante o gozo
a beleza dos afetos pede razão: a eloquência dos corpos nus
pedras, ventos, riachos, insetos, cascas, mucosas se agitam, conta-gotas em
golfadas lancinantes, as rachas se abrem…
o movimento estabelece a continuidade do que não se estanca
o mundo se organizou de tal forma que não percebe sua extraordinária beleza
para a alegria da misoginia abundam seios e bundas siliconados a granel
não importa, onde se encontram as coisas o mundo acontece:
as soluções são numerosas e a preguiça tamanha
todo esse embaçamento ao alívio da dor
não ímpar, multíplice
talvez a gente queira demais dos nossos quereres
esquecendo da nossa condição quase anelídea

§

travessia dos mares

o canto das sereias televisivas edificando a visão
um mar de manto verde com suas folhas de digitais cortantes e reminiscências
lançados ao desconhecido de um inconsciente coletivo e bravio
onde imagens copulam e não há terra à vista
um engodo, uma isca para peixe, uma tira de pano vedando o desejo da busca
do outro, para tomar pose, não importa o fundo do mundo
merleau-ponty ou maurício de nassau ou mary poppins?
quem você levaria para sua ilha
– eu levaria minha mãe, pois ninguém deixa uma mãe judia assim… a ver navios
mefistófeles no meio do redemoinho, nonada:
viver é um troço impreciso e desnecessário nesse sertão de estrelas perdigueiras
raízes que se apequenam na imensidão de tudo
raiz do dente, do cabelo, quadrada ou da mandioca que é a própria mandioca
tudo envolta do umbigo e no umbigo não há descoberta, janelas fechadas, casas assépticas –
entristece
encantado pelo canto mágico se deixa na poltrona
não sabe da beleza da imensidão das águas

§

labirintos artificiais

geoffrey rush e fran lebowitz (separados no berço) ou fausto fawcett?
exausto, estático, em descarrego, caio em rito, em ritmo – calcário
vago compacto, quase gasoso, anidrido e dióxido de carbono na veia,
uma carreira de ácido acético testando minha plasticidade em alongar-me nos túneis da cidade
outra de ácido ftálico tingindo meus sonhos de azul-violeta
prumo em linha reta
com sebo na canela
vago em uma biblioteca onde os livros criam raízes e dão frutos, a bibliotecária
com a fúria e o som de uma serra elétrica vai colocando os livros prateleiras abaixo
para o deleite dos capitalistas das indústrias de papel – vou salvando o que é possível:
do meio do redemoinho
[de folhas, caules, frutos
cascas, seivas, formigas, flores, penas e maçãs]
um fausto cai em minha cabeça
zonzo já não sei se é outono europeu, inverno americano, primavera árabe ou verão abaixo da linha do equador
sob o sol que amolece os miolos e atiça o balacobaco-do-baixo-baco com suas belezas
excepcionais
espelhos e espinhos em abstrato gozo
[e os muros cinzas se erguem
e bonecas são queimada]
cinco disparos na garota afegã e o frenesi dos guardiões do alcorão
o gozo obsceno do ocidente no falo de suas prepotentes torres brochas
dão o tom da disfonia do terceiro milênio que está apenas começando

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