poesia

Camila Assad (1988-)

Camila Assad (1)

Camila Assad nasceu em 1988, em Presidente Prudente (SP). É autora, além de Desterro, dos livros Cumulonimbus (Quintal Edições) e eu não consigo parar de morrer (Editora Urutau).

* * *

precisava escrever sobre flores
porque são metafóricas mas
eu não escrevo sobre a natureza,
apenas sobre o que é natural
como uma tarde de 36 horas
em que o frisbee nos salvou de
uma morte por tédio. causa mortis:
falta de tensão. não cairia bem
no teu obituário tracejado em pele
fina de carneiro. uma loja de lustres turcos
passa por mim. uma franquia de loja de calçados
passa pela avenida atlântida. o soluço interrompe
a risada.
……………………(ou vice-versa)

§

 

construo ruínas pra mostrar que já estive
aqui. mesmo nos dias de feira eu vinha
acampar nos seus quintais sem verde.
mesmo a pé eu vinha, exalando fogo
pelos buracos da narina, expelindo os
órgãos, como se não fossem úteis
assim como saber que o coração de um
peixe tem apenas duas cavidades, e o dos
…………………………………………………anfíbios, três

§

 

as fábricas do leste começam às cinco
a poluir o entorno. Dona Angelina espera
doze minutos pela abertura da padaria
principal. o local não permanece como
palco, mas como memória. eu construí
reinos para ela, e derrubamos como as
cartas de baralho da filha caçula da jornalista
que narra seu segundo divórcio. você tem direito
a três pedidos, a uma kitnet com ventilação
razoável e a um diamante negro vendido na
farmácia que felizmente burla as normas da
vigilância sanitária. seria possível lhe fazer feliz
24 horas por dia,
………………………….mas nem sempre desejável

§

 

tenho interrogado demais, dormido nua
com os seios quentes e firmes. parecem asas
de mariposas. elas não têm hábitos diurnos
e então voaríamos juntas. voaríamos com
tia Guida que foi ao bar e chamou a atendente
pelo nome correto, extraindo um manancial
de sua vagina. me sinto observada, então sorrio.
não sou de mostrar os dentes, não tiro retratos
pessoais. isso vale também para os dias de férias,
quando encaramos o litoral para esfarelar biscoito
……………………….com os dentes caninos da minha gata

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poesia

3 poemas de Alexandre Assine

65424715_2198478710442737_5972019482397245440_nAlexandre Assine (Curitiba, 1988) é formado em Letras na Universidade Federal do Paraná e atua como revisor de textos no serviço público. Mora no distrito de Barão Geraldo, em Campinas-SP.

* * *

manifesto [1]
é preciso renunciar ao poder
é preciso despir-se do poder
é preciso
……………….despir-se
e amar ainda que pouco
……………………mas nu
com a sinceridade visceral das veias
e o limiar de dor e deleite
……………….……………….da pele
……………….……………….……………….…………..pois nus somos
……………….……………….……………….…………..apenas …………...e terra
……………….……………….……………….…………..onde habitem sementes
……………….……………….……………….…………..e se derrame o céu

§

manifesto [2]

negar o poder
negar o poder
……………………até o limite:
as raízes úmidas na dor
o chumbo dos sonhos no sangue

até ser livre como adão
……………………………..num jardim possível
ervas esparsas ……flores miúdas
entre areais e cinzas

§

Propriedade
temos o tamanho de nosso ossos
e a carne em combustão
de esclerose
……………………e sonho

temos as cores da aurora
nos olhos refletidas
no romper de uma manhã
…………………………………………alguma
e outras cores, também findas
das mesmas manhãs finitas
em estilhaços de memória

e temos armas de palavras
a armadura dos conceitos
na luta de todos
……………………e sozinha
contra o vazio
……………………….e o silêncio

temos a forma da busca
e do que a busca em si encerra
o encaixe de um corpo
………………………………..no outro
o encaixe de um corpo na terra

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Tatiana Pequeno (1979-)

Tatiana Pequeno

Tatiana Pequeno nasceu em 1979, no Rio de Janeiro. Tem dois livros publicados: réplica das urtigas (2009) e Aceno (2014), ambos pela Oficina Raquel. Trabalha como professora de literatura na Universidade Federal Fluminense, onde coordena grupo de pesquisa sobre a relação entre corpo, gênero, sexualidades e as literaturas de língua portuguesa.

* * *

BREVE ENSAIO CONTRA A MINHA INDIFERENÇA À CRACOLÂNDIA DO JACARÉ
avanço protegida por uma película
de vidro — esta janela — por onde
filtro cegada pelo sol o bebê caído
de uma teta mirrada de mãe verde
entrando pelo coletivo e assumindo
seu desejo de transbordar tudo o
que for falta. queria escutá-la mas
havia uma transparência imanente
eu a trouxe para cá, todavia
queria que ela falasse no meu poema
ela pede centavos para não morrer
e diz a cerveja poderia me ajudar a parar
a cerveja no entanto é muito lenta
abro a bolsa constrangida porque
aqui sou eu que tenho pele demais
aqui sei que estou retornando à casa
aqui gaguejo e murmuro ainda constrangida
pela visão do bebê absorto pendurado
no semelhante peito caído
posso te fazer algo a mais e
ela diz me dá dinheiro e depois me esqueça
muitos dizem sentimos muito e é ver
dade que não há nada que possamos fazer
ressono de culpa, acordo, ela permanece atrás, sentada com
seu bebê atravessado pelo contágio
é uma criança hipotônica recém-saída
da faixa dos conflitos onde se espera a gratuidade dos extermínios
nunca vou esquecer o seu corpo tampouco sua voz de fantasmas e
ausências graves de fumo.
me esqueça — relembro — essa frase
que guardo há meses doendo os dedos
quando conto as moedas quando
retomo o mesmo caminho para os
sonhos ou para casa para a espinha
que fica a me botar de pé entre sorrisos,
salários ou cabelos novos.
vamos te esquecer certamente
eu vou tanto que te guardo aqui neste
poema para lembrar que não podemos
te esquecer porque nós te levamos
às pedras nós transformamos você
também em cinza eu finjo que não
a conheço quando prossigo depois
do sinal fechado e me esforço para
saber onde foi que nos separamos
e em que espelho empobrecido ficou
a tua verdadeira face que diz aqui
é o que me restou dos acidentes.
me esqueça, sei, compreendi mas
é que não posso é que não sei e é
exatamente o que faço todos os dias
não sei e não saber relembra o fim
desta civilização genocida
eles não sabem
os especialistas não sabem
estou e estamos sonâmbulos à nossa revelia.
olho-te inteira e queria que me olhasses
de volta para que tua criança ameaçasse um choro um
escândalo uma antipatia enquanto
tento te esquecer através da minha
poesia já que te dei um nome secreto
e gravito entre o teu silêncio e a minha falta de economia neste longo
poema solitário
perdoa-nos a pele, perdoa a indiferença dos poetas,
as notas nos bolsos,

 
fica.

 

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poesia, tradução

As Folhas Mortas em diálogos e ecos, por Lilian Escorel

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“O quebra-cabeças do amor com todos os seus pedaços”

Os textos a seguir formam um círculo de vozes em diálogo, cujo epicentro, “Les Feuilles Mortes”, esconde-se no título “La Chanson de Prévert” e se insinua no primeiro verso “Oh, je voudrais tant que tu te souviennes”.

Quem conhece Jacques Prévert identifica de imediato o diálogo. Quem não conhece, descobre-o no corpo desta canção de Serge Gainsbourg, que incorpora o título “Les Feuilles Mortes” à letra da música.

As folhas mortas são, de fato, o leitmotiv dos textos, duas canções francesas, por mim traduzidas, e um poema, releitura das canções, que se embalam, e se embaralham, na melodia preferida da amada. Com seu poder encantatório, a música enleva e evoca os dias felizes do idílio. As folhas do outono recordam a separação, a tristeza e a frieza do esquecimento, contra o qual o amante combate com o verso: “Ah! eu queria tanto que você se lembrasse.”

A canção é composta primeiro, sem letra, por Joseph Kosma para “Le Rendez-vous”, balé do coreógrafo francês Roland Petit, em 1945, que contou também com a participação de importantes artistas modernos, como Picasso na cortina, o fotógrafo George Brassaï no cenário e Prévert no argumento. A letra da música veio depois. Foi Jacques Prévert quem a escreveu por encomenda de Marcel Carné para que figurasse como a canção-tema da trilha sonora de Les Portes de la Nuit, filme desse cineasta francês em 1946 e para o qual o poeta também escrevera os diálogos. A parceria Carné-Prévert estendeu-se a uma série de filmes, que contribuiu para a estética do realismo poético, em que ganhou lugar de destaque Les Enfants du Paradis.

Mas “Les Feuilles Mortes” não teve uma carreira de sucesso na França. A canção só repercutiu quatro anos depois de seu lançamento no filme, cuja história transcorria na Paris pós-ocupação, num quadro noturno e sombrio, interpretado, em trechos, pela dupla romântica Yves Montand e Nathalie Nattier, protagonistas que substituíram os atores chamados inicialmente: Marlene Dietrich e Jean Gabin. A atriz alemã declinara do papel por questões políticas.

A primeira gravação de “Les Feuilles Mortes” data de 1947, em registro de voz da francesa Cora Vaucaire. Yves Montand só a gravou em 1949. O sucesso da canção francesa, porém, não viria da voz dos intérpretes franceses. Chegou em nova roupagem: “Autumn Leaves”.

Conta-se que a carreira norte-americana de “Les Feuilles Mortes” deve-se a Janine e Jacques Enoch, editores de Kosma, que a negociaram com Joseph Goldstein, então em busca de uma canção de amor para a ruptura de Sinatra e Ava Gardner. Jonhy Mercer, letrista do intérprete de My way, foi quem escreveu em 1949 o texto em inglês, uma adaptação do original.

Apesar de gravada por destacados músicos do jazz como Stan Kenton e Artie Shaw, foi só em 1955 que “Autumn Leaves” ganhou projeção internacional. A versão inglesa alcançou a primeira posição na Billboard Top 100, durante quatro semanas, com um arranjo feito para piano por Roger Williams – conforme se lê em C’est une chanson – biographie de Joseph Kosma, de Françoise Miran.

Perto de 700 interpretações dessa música foram gravadas. Muitas delas ganharam fama e multiplicaram-se em filmes. “Autumn Leaves”, dirigido por Robert Aldrich e estrelado por Joan Crawford em 1956, foi o primeiro de uma série a assimilar a canção.

“Les Feuilles Mortes”, conforme a história mostra, eternizou-se em diferentes arranjos musicais e línguas. No inglês, ficaram célebres as versões na voz de Nat King Cole e Frank Sinatra. Mas depois deles, seguiu-se uma fila: Eric Clapton, o dueto Chick Corea/Bob MacFerrin, Joan Baez e Bob Dylan, que a apresentou recentemente em recepção do prêmio Nobel de literatura em Estocolmo. Na língua francesa, destacaram-se as gravações de Yves Montand, da musa do existencialismo Juliette Greco, de Edith Piaf, que incluiu também a versão em inglês na sua interpretação, e do tenor italiano Andrea Bocelli. Marlene Dietrich tentou vocalizar sua versão, mas Prévert não a autorizou. Não pôde perdoá-la pela recusa do papel no filme que desencadeara sua canção.

Em português, guardamos raridades desta música, que parece ter chegado ao Brasil pela versão do italiano Teddy Reno, registrada em 1950. Ao que se reporta, o primeiro brasileiro a gravá-la, no original francês e em um vozeirão clássico à época, 1952, foi o cantor, compositor e ator brasileiro Ivon Cury. Depois dele, sucederam-se mais de uma dezena de versões, variando entre a canção francesa e a adaptação inglesa e incluindo também a elaboração de duas versões, nelas baseadas, para a língua portuguesa do Brasil. “Folhas Mortas”, redigida por Clímaco César e gravada por Zezé Gonzaga em 1955, deriva de “Les Feuilles Mortes”. “Folhas de Outono”, escrita por Juvenal Fernandes, e interpretada por Carlos Galhardo em 1956, revela “Autumn Leaves” na sua base (possível conferir clicando aqui).

Contamos, por fim, com uma pérola inédita e duas preciosas gravações instrumentais: Hector Costita no sax em 1962 e Dick Farney ao piano em 1975. A pérola é a voz de Maysa que deixa sua marca registrada dessa canção no álbum Maysa sings songs before dawn, gravado nos Estados Unidos em 1961 e depois, registrado na Espanha, na língua desse país, para difusão na América Latina. Maysa sings songs before dawn não foi publicado aqui. Tornou-se um mito no Brasil.

No mesmo ano de 1961, o músico francês Serge Gainsbourg lança seu terceiro álbum L’étonnant Serge Gainsbourg, que expõe seu amor à poesia francesa. Nele, ao lado de “La Chanson de Maglia”, a evocar e citar o poeta romântico Victor Hugo, está “La Chanson de Prévert”.

Serge Gainsbourg, intérprete e músico, multiartista inconformado e inquieto, que inicia a carreira na pintura e depois a renega, é herdeiro das propostas das vanguardas artísticas. Gainsbourg não gravou mais uma versão de “Les Feuilles Mortes” em tributo à sua admiração por Joseph Kosma, músico caído no limbo, e pelo poeta que se popularizou na França. Usou de procedimento moderno, fazendo uma releitura da criação de Prévert. Bebeu, assimilou e recriou a canção do poeta popular francês que se valera de igual procedimento em sua obra poética, indo mesmo além, como bem ilustra o poema “Bibliofolie”, em Imaginaires (1970). “Bibliofolie” expressa a ideia de um livro feito de todos os livros, aberto e sem ponto final, sempre a se recriar. No lugar de bibliophilie, culto ou idolatria pelos livros, Prévert prefere o neologismo bibliofolie, em que se destaca a palavra folie. É, de fato, na ordem da loucura, aliada à liberdade, que Prévert propõe sua construção poética. A remissão a obras de escritores ou artistas com os quais sua poesia dialoga e a referência à própria obra constituem seu processo criativo.

Uma das maiores contribuições das vanguardas modernas foi promover o diálogo e a colaboração entre as artes e trazer para o primeiro plano a reflexão e o debate sobre o fazer artístico. Rompem-se as fronteiras entre os gêneros literários e as diversas artes, que passam a se intercomunicar. Na literatura, na música, nas artes plásticas, os artistas tornam-se críticos de si mesmos e expõem os bastidores da criação, publicando seus manuscritos, suas cartas e outros documentos de ordem privada, ligados ao processo criativo.

A noção de originalidade é posta em xeque: quem terá sido o autor da ideia plasmada naquela forma? Os artistas passam, assim, a revelar suas fontes, leituras e apropriações. Um poeta, um músico ou um pintor não se fazem sozinhos. O conceito de obra única e definitiva, tão caro ao período romântico, é desestabilizado. As diferentes versões de um original quebram a hierarquia do valor estético do primeiro. A obra original não é necessariamente a melhor. A citação, a paródia, a imitação, o pastiche, a colagem são procedimentos naturalizados, e mesmo valorizados, no fazer artístico.

Jacques Prévert, poeta no rol dos autores seletos de Gainsbourg, foi um artista de talento igualmente múltiplo: iniciou-se na dramaturgia, passou à redação de roteiros de cinema, enveredou para a poesia e a letra de canções, foi autor infantil, pintou colagens e retratos. Escreveu livros em parceria com diversos artistas. Picasso, de quem era amigo, brincava que Prévert era um grande pintor, mesmo sem saber pintar.

O surrealismo orientou suas ideias estéticas. Foi, segundo ele, a escola onde fez seu curso de humanidades (“Ce fut au surrèalisme où j’ai fait mes humanités“) . O primeiro contato com o movimento aconteceu no fim de 1924, quando conhece a revista La Révolution Surréaliste e se impacta com uma literatura surrealista avant la lettre. No início de 1925, encontra André Breton, passando então a frequentar o grupo surrealista e a participar de suas atividades, como a escrita automática, o sono hipnótico, a narrativa de sonhos e jogos que envolviam a linguagem. O célebre jogo surrealista Cadavre exquis teve no título a coautoria de Prévert. Durante esse período, porém, que vai até 1930, quando rompe com o líder do movimento, o poeta em formação publicou seus textos poéticos apenas em periódicos. Foi só em 1945 que saiu Paroles, livro de estreia marcado pela experiência e pelas matrizes surrealistas. Depois dele, suas experimentações poéticas e com outras linguagens artísticas ampliaram-se em Histoires (1946), Grand bal du printemps (1951), La pluie et le beau temps (1955), Fatras (1966), livro marcado pela presença de graffiti e colagens, Imaginaires (1970), Choses et autres (1972).

Um Vinícius de Moraes francês, como já se disse por aqui, Prévert é, porém, pouco conhecido no Brasil. Sua poesia, vertida para o português, saiu apenas, salvo engano, em Poemas, seleção e tradução de Silviano Santiago, em edição bilíngue pela Editora Nova Fronteira (2000) e Dia de folga, dezesseis poemas selecionados pelo ilustrador Wim Hoffman e traduzidos por Carlito Azevedo, em edição da Cosac Naify (2004).

Entrelaçados, então, nessa rede de leituras e no diálogo entre as artes, as traduções e o poema acima decorrem de canções que se correspondem e se repetem numa relação amorosa de tributo e de reinvenção. De mãos dadas com a poesia e a música, apresentam-se feito amantes. No espelho destes, a imagem que se reflete é o reverso de Narciso: Eco. Eco de amor, eco de dor, eco de vida, eco de morte. Eco da memória do idílio numa roda de canções que tange a corda do coração ad infinitum, movida por uma tensão própria à linguagem dos amantes.

Aquela que Gainsbourg plasmou também em outra canção, esta, sim, famosa em francês e que provocou forte abalo à época de seu lançamento. Eram então tempos de revolução no amor, na política e na vida social. “Je t’aime, moi non plus” (1967). Minha canção.

Ou aquela outra, por fim, que Jacques Prévert fixou nas areias movediças do belo poema de amor Sables Mouvants, em tradução de Adriano Scandolara:

Demônios, maravilhas
Ventos e vazantes
As marés se retiram, distantes
Demônios, maravilhas
Ventos e vazantes
E você
Como uma alga no lento afago do
vento
Sonha na areia do teu leito em movimento
Demônios, maravilhas
Ventos e vazantes
As marés se retiram, distantes
Mas ao ver de perto os teus olhos entreabertos
Duas ondinhas ficam entre os amantes
Demônios, maravilhas
Ventos e vazantes
Duas ondinhas para me afogar em instantes.

Imagem, entre tantas outras, desencadeada por esse assunto que teve um papel fundamental na filosofia dos surrealistas. A de resgatar no adulto a imaginação criadora, livre e desimpedida, da infância. Porque, conforme apontou um crítico francês, para os poetas desse movimento as palavras devem “fazer amor”:

E rolando como bola de fogo os lençóis ao pé da cama
Sorrindo pro mundo todo descobre
O quebra-cabeças do amor com todos os seus pedaços
Por Picasso escolhidos escolhidos todos os pedaços
Um amante e a amada e umas pernas em um pescoço
E os olhos nas bundas as mãos por todo lado
Pés levantados pro céu e os seios de cabeça pra baixo
Dois corpos enlaçados trocados acariciados
O amor decapitado liberto na cama extasiado

(tradução minha)

* * *

 

AS FOLHAS MORTAS
Jacques Prévert
Ah! eu queria tanto que você se lembrasse
dos dias felizes em que éramos amigos
Naqueles dias a vida era mais bela
e o sol mais ardente do que hoje
As folhas mortas recolhem-se com a pá
As lembranças e os lamentos também
E o vento do norte os leva ainda além
na noite fria do esquecimento
Ah! você está vendo, eu não esqueci
a canção que você cantava pra mim

É uma canção que se parece com a gente
Você me amava e eu te amava
e nós vivíamos juntos os dois
você que me amava e eu que te amava
mas a vida separa aqueles que se amam
assim bem de mansinho, sem fazer ruído
e o mar apaga na areia
os passos dos amantes desunidos

As folhas mortas recolhem-se com a pá
As lembranças e os lamentos também
Mas meu amor silencioso e fiel
à vida agradece e sempre sorri
Eu te amava tanto e você era tão linda
Como pode querer que eu te esqueça?
Naqueles dias a vida era mais bela
e o sol mais ardente do que hoje
você era a minha doce amiga
mas nada posso fazer senão lamentar
e a canção que você cantava
eu sempre sempre vou escutar

Oh! je voudrais tant que tu te souviennes
Des jours heureux ou nous étions amis
En ce temps-la la vie était plus belle,
Et le soleil plus brulant qu’aujourd’hui
Les feuilles mortes se ramassent a la pelle
Tu vois, je n’ai pas oublié…
Les feuilles mortes se ramassent a la pelle,
Les souvenirs et les regrets aussi
Et le vent du nord les emporte
Dans la nuit froide de l’oubli.
Tu vois, je n’ai pas oublié
La chanson que tu me chantais.

C’est une chanson qui nous ressemble
Toi, tu m’aimais et je t’aimais
Et nous vivions tous deux ensemble
Toi qui m’aimais, moi qui t’aimais
Mais la vie sépare ceux qui s’aiment
Tout doucement, sans faire de bruit
Et la mer efface sur le sable
Les pas des amants désunis.

Les feuilles mortes se ramassent a la pelle,
Les souvenirs et les regrets aussi
Mais mon amour silencieux et fidèle
Sourit toujours et remercie la vie
Je t’aimais tant, tu étais si jolie,
Comment veux-tu que je t’oublie?
En ce temps-la, la vie était plus belle
Et le soleil plus brulant qu’aujourd’hui
Tu étais ma plus douce amie
Mais je n’ai que faire des regrets
Et la chanson que tu chantais
Toujours, toujours je l’entendrai!

§

 

A CANÇÃO DE PRÉVERT
Serge Gainsbourg

Ah ! eu queria tanto que você se lembrasse
esta era a sua canção
era a sua preferida
a do Prévert e Kosma

E toda vez “As Folhas Mortas”
me fazem lembrar de você
todo dia os amores mortos
não acabam nunca de morrer
Eu também fico com outras
a elas me entrego sim
mas é monótona a canção delas
e pouco a pouco eu vou ficando indiferente
contra isso não tem o que fazer

Porque toda vez “As Folhas Mortas”
me fazem lembrar de você
todo dia os amores mortos
não acabam nunca de morrer

Será que um dia saberemos onde começa
e quando termina a indiferença?
Ah! que o outono passe e o inverno chegue
e a canção de Prévert “As Folhas Mortas”
esta canção se apague de vez da minha lembrança
Nesse dia, nesse dia enfim, meus amores mortos
terão morrido em mim

Oh je voudrais tant que tu te souviennes
Cette chanson était la tienne
C’était ta préférée, je crois
Qu’elle est de Prévert et Kosma

Et chaque fois les feuilles mortes
Te rappellent à mon souvenir
Jour après jour, les amours mortes
N’en finissent pas de mourir

Avec d’autres bien sûr je m’abandonne
Mais leur chanson est monotone
Et peu à peu je m’indiffère
À cela il n’est rien à faire

Car chaque fois les feuilles mortes
Te rappellent à mon souvenir
Jour après jour, les amours mortes
N’en finissent pas de mourir

Peut-on jamais savoir par où commence
Et quand finit l’indifférence
Passe l’automne, vienne l’hiver
Et que la chanson de Prévert

Cette chanson, les feuilles mortes
S’efface de mon souvenir
Et ce jour là, mes amours mortes
En auront fini de mourir

Et ce jour là, mes amours mortes
En auront fini de mourir

§

 

TE AMO, EU TAMBÉM NÃO
Lilian Escorel

Ah! eu queria tanto que você se lembrasse
essa era a nossa canção
não a do Prévert
a nossa era a do Gainsbourg

Naqueles dias nós éramos tão felizes
brincávamos naquela praia
nas noites quentes de verão
você era a minha onda
eu era a sua ilha nua
você ia e vinha no meu ventre
e eu te acolhia
você ia e vinha
e a onda crescia
você ia e vinha
e eu me retinha
você ia e vinha

até que exaustos
quebrávamos
na areia
fazendo muita espuma

os corpos
estendidos
juntos
bem unidos

Mas pouco a pouco
o tempo da dor chegou
e assim bem de mansinho
sem fazer ruído
o mar levou
nossos passos

Foi numa tarde fria de outono
que o nosso amor acabou

As folhas mortas recolhem-se com a pá
as lembranças e os lamentos também
foi assim que Jacques Prévert cantou

Sim, é certo,
as folhas mortas recolhem-se com a pá
mas nossa canção não
“Je t’aime, moi non plus”
sussurro dos amantes delirantes
irresolutos
essa canção de Gainsbourg
vai sempre ecoar
tocar a corda do meu coração

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tradução

Arquíloco de Paros (fr. 128 West), por Matheus Mavericco

archilochus1A poesia antiga nos encanta com quitutes tais como as peripécias homéricas ou os fragmentos de Safo, mas, se querem saber, nem sempre é fácil degustá-los da maneira devida. Precisamos despir praticamente toda a nossa indumentária conceitual antes de perambularmos pelas veredas da Hélade. O que hoje, por exemplo, nos apetece encontrar em poemas líricos, toda aquela de paz de espírito em saber que para além das fronteiras geográficas existem homens e mulheres que também padecem de um amor não correspondido, se num primeiro momento parece ser encontrável em restolhos poéticos antigos, numa análise mais detida revela-se como um verdadeiro baile de máscaras e personas regido pelo compasso do que a tradição e as convenções retóricas do tempo ditavam.

Com Arquíloco a armadilha permanece. Não são poucos os estudiosos que louvam em sua figura uma individualidade muito próxima da nossa, uma coisa pelo jeito mais aberta e franca do que a literatura grega até então tinha pra mostrar. Se a primeira impressão causada por sua poesia pode e deve ser debatida e contestada até que sintonizemos nossas antenas na frequência dos gregos, por outro lado, de maneira análoga ao que sentimos quando lemos o nosso árcade Tomás Antônio Gonzaga, no qual, como notou o Antonio Candido num texto certeiro sobre sua poesia, conseguimos ver, por trás de todas as convenções e lugares-comuns que acinzelavam a poesia do período, uma coisa mais palpável, mais direta, a figura de Marília recostada na janela e cruzando olhares ao acaso com os do poeta; de maneira análoga, eu diria, ao que parecemos sentir quando lemos o nosso Gonzaga, eu penso que podemos sentir lendo Arquíloco, este soldado nascido em Paros que conseguia mesclar o cotidiano militar a requintes de sensibilidade no mínimo desconcertantes. Vejam o caso de seu fragmento 13 W, de tonalidade muito próxima do 128 W, para o qual tomo a liberdade de fornecer ao leitor duas traduções:

fr. 13 W
κήδεα μὲν στονόεντα, Περίκλεες, οὔτε τις ἀστῶν
μεμφόμενος θαλίῃς τέρψεται οὐδὲ πόλις·
τοίους γὰρ κατὰ κῦμα πολυφλοίσβοιο θαλάσσης
ἔκλυσεν, οἰδαλέους δ᾿ ἀμφ᾿ ὀδύνῃς ἔχομεν
πνεύμονας. ἀλλὰ θεοὶ γὰρ ἀνηκέστοισι κακοῖσιν,
ὦ φίλ᾿, ἐπὶ κρατερὴν τλημοσύνην ἔθεσαν
φάρμακον. ἄλλοτε ἄλλος ἔχει τόδε· νῦν μὲν ἐς ἡμέας
ἐτράπεθ᾿, αἱματόεν δ᾿ ἕλκος ἀναστένομεν,
ἐξαῦτις δ᾿ ἑτέρους ἐπαμείψεται. ἀλλὰ τάχιστα
τλῆτε, γυναικεῖον πένθος ἀπωσάμενοι.

Hoje aos festins não vai folgar, ó Péricles,
Nem a cidade ou cidadão: prantos sem fim
Vertemos pelos náufragos que o cavo pélago
Tragou, e inchados os pulmões temos de dor.
Mas por consolo os deuses põem um fim ao mal
Que agora impõem a nós, depois aos outros.
Vai amanhã sentir alguém o mal que agora sentes,
Abandonemos fêmeo pranto, olhando em frente.

(trad. Antonio Medina Rodrigues)

Nosso pranto, Péricles, não será malvisto,
pois nas festas ninguém terá prazer:
bravos homens a onda do mar polissonante
levou, e a dor inflou-nos os pulmões.
Mas os deuses, meu amigo, aos males sem cura
deram por remédio a firme paciência.
O mal vem ora a uns, ora a outros: a nós
voltou-se, e a sangrenta chaga choramos;
mas logo cairá noutra parte. Vamos, deixe
o feminino choro e seja forte.

(trad. Marcelo Tápia)

O leitor encontrará uma reflexão ótima sobre a poesia de Arquíloco lendo o ensaio que o Guilherme dedicou ao poeta, publicado ano passado pela Zazie (clique aqui), no qual o ensaísta se vê diante do incômodo ético de traduzir, dentre outros, um fragmento recém-descoberto de Arquíloco que narra um estupro. No fragmento que trago abaixo pra vocês, de uma beleza e sabedoria aptas a serem destiladas em palestras motivacionais, existe uma construção curiosa que faz de um poema armado até os dentes de espírito bélico em uma conclamação suave dirigida ao coração, essa parte do corpo que corriqueiramente nos coloca para fora do prumo e que, para Arquíloco, é o nosso guerreirinho (<3).

Agradeço a Rafael Brunhara por, além de gentilmente ter transcrito as traduções de Aluízio Coimbra e Paula Corrêa (esta última dona, ao que me consta, de um finíssimo ensaio sobre Arquíloco), ceder sua primeira versão para o fragmento.

ARQUÍLOCO, fr. 128 West

θυμέ, θύμ’, ἀμηχάνοισι κήδεσιν κυκώμενε,
†ἀναδευ δυσμενῶν† δ’ ἀλέξεο προσβαλὼν ἐναντίον
στέρνον †ἐνδοκοισιν ἐχθρῶν πλησίον κατασταθεὶς
ἀσφαλέως· καὶ μήτε νικέων ἀμφάδην ἀγάλλεο,
μηδὲ νικηθεὶς ἐν οἴκωι καταπεσὼν ὀδύρεο,
ἀλλὰ χαρτοῖσίν τε χαῖρε καὶ κακοῖσιν ἀσχάλα
μὴ λίην, γίνωσκε δ’ οἷος ῥυσμὸς ἀνθρώπους ἔχει.

*

trad. Aluízio Coimbra [1941]

Coração, que insanáveis males cercam,
teus inimigos, peito a peito, enfrenta,
de perto e firme contra os seus embustes.
Vencedor, não blasones; nem, vencido,
no lar te prostres; mas desfruta, alegre,
o que é bom, sem que as penas te consumam,
e aprende que tal é da vida o ritmo.

*

trad. José Cavalcante de Souza [1978]
Coração, coração de imediatos nojos agitado,
levanta, às aflições resiste lançado em contrário
peito, a embustes de inimigos de perto contraposto
cim firmeza; e nem vencendo abertamente exultes
nem derrotado em casa abatido te lamentes,
mas com alegrias te alegra e com reveses te aflige
sem excesso; e conhece qual ritmo regra os homens.

*

trad. Paula Corrêa [1998 e 2009]

Coração, coração, por inelutáveis males conturbado,
ergue-te e, sendo hostil, defende-te lançando um peito
adverso, perto de inimigos emboscados permanecendo
firme, nem vencendo, abertamente exultes,
ou vencido, em casa caído lamentes,
mas com alegrias alegra-te e os males lastima
sem excesso, pois reconhece qual ritmo regra os homens.

*

trad. Maria Helena da Rocha Pereira [2003]
Coração, meu coração, que afligem penas sem remédio,
eia! Afasta os inimigos, opondo-lhes um peito
adverso. Mantém-te firme ao pé das ciladas
dos contrários. Se venceres, não exultes abertamente.
Vencido, não te deites em casa a gemer.
Mas goza as alegrias, dói-te com as desgraças,
sem exagero. Aprende a conhecer o ritmo que governa os homens.

*

trad. Carlos A. Martins de Jesus [2008]

Coração, ó coração, por males sem remédio derrubado,
ergue-te! Defende-te dos inimigos, opondo-lhes um peito
adverso, firme suportando as ciladas dos que te são hostis!
Se venceres, em demasia não rejubiles,
nem, vencido, em casa te deites em pranto.
Alegra-te antes com as alegrias, dói-te com as tristezas,
sem exagero. Aprende bem o ritmo que domina os homens.

*

trad. Rafael Brunhara [2008; 1ª versão]
Ânimo, ânimo, convulso por aflições sem cura,
Levanta, protege-te dos inimigos volvendo adverso
peito em infensas traições próximo postado
firme; E vencendo não exultes abertamente
nem vencido em casa caído lamentes,
Mas com alegrias alegra-te e deplora males
Sem excesso: conhece qual ritmo rege os homens.

*

trad. Glória Onelley e Shirley Peçanha [2013]

Coração, coração, perturbado por dores irremediáveis, levanta com coragem,
defende-te, lançando teu peito contra os inimigos,
colocando-te firmemente perto deles em emboscada!
Se venceres, não te enalteças publicamente,
nem, se vencido, te lamentes, deixando-te abater em casa.
Vamos, alegra-te com os prazeres e não te irrites em demasia com as infelicidades!
Reconhece que tal ritmo governa os homens.

*

trad. Leonardo Antunes [2014]
Alma minha, perturbada por tristezas incuráveis,
Põe-te em pé, defende-te dos que se lançam contra ti;
Peito firme frente as emboscadas dos teus inimigos.
Na vitória, não exultes em triunfo abertamente,
Nem te deixes abater em casa, sendo derrotada;
Mas alegra-te nas alegrias e lamenta os males
Sem excesso, conhecendo o ritmo que rege os homens.

Gravação: https://www.youtube.com/watch?v=cqqfGzvwVks

*

trad. Trajano Vieira [2017]

Coração, coração, turbado pela dor
incontornável, reage! Arroja o peito contra
o inimigo: estático, na expectativa
do ataque. Se venceres, nada de exultar
aos quatro ventos. Nada de gemer em casa,
se perdes. Goza do que apraz, modera a dor
no revés! Sabe o ritmo que domina os vivos!

*

trad. Guilherme Gontijo Flores [2018]
Peito, peito, combalido de imbatíveis aflições,
anda, avança, enfrenta frente a frente a força hostil e traz
todo o seio contra a horrenda multidão feroz de ardis,
firme, força! E não exultes caso acabes por vencer,
nem vencido vás tombar gemendo no teu próprio lar,
mas em teus deleites goza e em teus revezes chora, sim,
sem excessos, saibas: cada ritmo age em cada ser.

*

trad. Rafael Brunhara [2019; 2ª versão]

Coração, coração, por lutos inelutáveis agitado,
levanta, protege-te dos oponentes, volvendo adverso
peito, nas emboscadas inimigas próximo postado
firme; e vencendo, não exultes abertamente,
nem vencido, em casa caído lamentes,
mas com alegrias alegra-te e deplora males,
sem excesso: aprende que ritmo rege a humanidade.

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poesia

Alguns inéditos de André Capilé (1978-)

capile

André Capilé é um poeta brasileiro, nascido em Barra Mansa, Rio de Janeiro, em 1978, e já apareceu aqui na escamandro (clique aqui). É graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Mestre em Letras pela PUC-Rio. Doutor em “Literatura, Cultura & Contemporaneidade”, também pela PUC. Publicou rapace [2012 – Editora TextoTerritório] e balaio [2014 – 7Letras]; traduziu, para a Edições Macondo, “The Love Song of J. Alfred Prufrock” na coleção Herbert Richers. Tem previsão de lançamento e relançamento este ano pela editora TextoTerritório.

* * *

das flores que comemos desde antanho
quando chamou-me irmão em suas linhas

— leitores do desastre e arte mesquinha —
a vida ainda não tinha esse tamanho

do horror batendo à porta nos chamando.

§

 

a inversão dos sinais indiciava
: se a vara é curta, então cutuque a onça.

contavam que a urutu mordesse em brasa

e a baba do tinhoso lá se via
armada em meio ao medo a cada esquina.

§

 

há ceia farta até num galho morto

ao ver na fruta empenhada, futura
a força de seu peso antes da colha.

§

 

e o verde da miséria observava
a trama da anti-história que assobia.

na pressão manifesta dos desejos,
de corpos atritando-se entre beijos,

naquela encruzilhada de onde um sol
detrás da barricada avolumava.

§

a máquina da morte nos chegava
coturna como a besta trincadentes.

(bandeiras vão voar — um viva às bruxas
— feitiço rubro na língua das ruas,

nos vimos horizonte olhos nos olhos,
e o abraço que nos demos fortaleza

foi grão de resistir mas não por medo).

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tradução

Anne Boyer (1973-), por Rafael Mantovani

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Anne Boyer (nascida em 1973) é uma poeta e ensaísta dos EUA. É vencedora de alguns prêmios de poesia e atualmente leciona no Kansas City Art Institute. Entre seus livros publicados, destacam-se “Garments Against Women” (2015) e “A Handbook of Disappointed Fate” (2018). Para 2019 está previsto seu novo livro de poemas, “The Undying”, acerca de sua experiência como paciente de câncer. Sua escrita assume frequentemente a forma de ensaios poéticos e poemas em prosa ou narrativos, demonstrando pouca preocupação com a distinção de gêneros.

O primeiro dos poemas a seguir é, segundo a autora, uma interpretação livre do Encantamento 189 do Livro dos Mortos egípcio. Os Livros dos Mortos (porque havia inúmeras versões) faziam parte de rituais funerários, e eram basicamente compilações de fórmulas mágicas para proteger a pessoa defunta na perigosa jornada pelo mundo dos mortos. O Encantamento 189 especificamente pretende evitar que a pessoa seja virada de cabeça para baixo, assim invertendo o processo digestivo e fazendo-a ingerir urina e fezes.

Conheça mais em
https://www.poetryfoundation.org/poets/anne-boyer
http://www.anneboyer.com/

Rafael Mantovani

* * *

Eu não vou comer bosta

o que eu realmente odeio, eu não vou comer; o que eu odeio é bosta, e eu não vou comer bosta. Não vou consumir bosta. Não vou experimentar bosta. Não vou deixar que a bosta chegue perto dos meus dedos. Não vou relar o braço na bosta, e não vou encostar nela nem com a ponta do pé.
“Você vai viver do quê,” dizem para mim os poderosos, “se não vai comer bosta? O que você vai comer neste lugar para onde desceu?”
“Vou me fartar daquilo que sempre foi nosso.”
“Onde você vai comer essa comida, isso que você afirma que já é seu? Onde vai sequer achar um imóvel para poder comer essa comida, você que na sua outra vida não conseguia pagar nem uma quitinete no centro?” dizem para mim os poderosos.
“Vou comer embaixo da árvore das mulheres mortas, pois ali tem comida para todo mundo que precisa. Elas retomaram os campos e as florestas, lá as plantas verdes estão crescendo, e lá nós vamos viver de pão e cerveja; nesse lugar há pessoas que coordenam a si mesmas e a qualidade dos seus afetos, seus ódios e suas adorações, enquanto coordenam os movimentos e as produções de seus corpos para não precisarem comer bosta, nesse lugar há pessoas que vêm atender à porta.”
Abram para mim; que haja lugar para mim, criem um caminho para mim, para que eu possa ficar aqui como uma alma viva, no lugar onde quero estar.
Eu não serei dominada por estes inimigos. Eu odeio bosta e não vou comer bosta. Descendo para esta terra, não serei contaminada pela bosta que os poderosos querem que eu coma, a bosta que eles dizem que é inevitável. Saiam de perto de mim, todos os que querem que eu coma bosta; eu voei para o céu como uma andorinha, eu gritei como um ganso, então pousei nesta árvore no meio desta ilha no meio desta enchente. Eu voei e pousei, desci para dentro da enchente mas não me afoguei, e não vou deixar que os nossos inimigos me obriguem a comer bosta.
O que eu odeio, eu não vou comer; o que minha alma odeia é bosta, e a bosta não vai entrar no meu corpo. Não vou colocar bosta entre os lábios. Não vou comer bosta no parque empresarial nem perto do mar, num campus universitário, no canteiro de um condomínio. Não vou pegar nada das margens do seu lago. O que eu odeio é bosta, e eu não vou comer bosta. Não vou comer bosta; mesmo depois de morta, não vou descer de ponta-cabeça por causa de vocês.

I Will Not Eat Shit

what I really hate, I will not eat; what I hate is shit, and I will not eat it. I will not consume it. I will not taste it. It will not come near my fingers. I will not brush my arm against shit, and I will not touch it with my toes.
“What will you live on,” say the powerful to me, “if you won’t eat shit? What will you eat in this
place to which you have descended?”
“I will feast on what has always been ours.”
“Where will you eat this food, what you claim is already yours? where will you even find the real estate on which to eat it, who in your other life couldn’t afford half a duplex?” say the powerful to me.
“I will eat under the tree of the dead women, for there is food there for all who need it. They’ve taken back the fields and forests, there the green plants are growing, and there we will live on bread and beer; in this place, there are people who arrange themselves and the quality of their affections, their hatreds and their adorations, along with arranging the motions and productions of their bodies so they do not have to eat shit, in this place there are people to answer the door.”
Open to me; may there be room for me, make a path for me, that I can stay here as a living soul in the place that I want to be.
I will not be subdued by these enemies. I hate shit and I will not eat it. As I descend to this land, I will not be contaminated by the shit the powerful want me to eat, the shit they say is inevitable. Go away from me all who want me to eat shit; I have flown up into the heavens like a swallow, I have cackled like a goose, then I have landed on this tree in the middle of this island in the middle of this flood. I have flown up and landed, I have descended into the flood but I am not drowned, and I won’t be made to eat shit by our enemies.
What I hate, I will not eat; what my soul hates is shit, and it will not enter my body. I will not put it between my lips. I will not eat shit in the office park or near the ocean, on a college campus, on the median of a suburban street. I will not take anything from the banks of your pond. What I hate is shit, and I will not eat shit. I will not eat shit; even in death, I will not descend upside down for you.

§

 

O que parece a cova mas não é

sempre cair num buraco, depois dizer “ok, essa não é sua cova, saia desse buraco”, sair do buraco que não é a cova, cair num buraco outra vez, dizer “ok, essa também não é sua cova, saia desse buraco”, sair desse buraco, cair em outro; às vezes cair num buraco dentro de um buraco, ou muitos buracos dentro de buracos, sair deles um depois do outro, depois cair de novo, dizer “essa não é sua cova, saia do buraco”; às vezes ser empurrada, dizer “você não pode me empurrar para dentro desse buraco, ele não é minha cova”, e sair com a cabeça erguida, depois cair de novo num buraco sem ninguém empurrar; às vezes cair num conjunto de buracos cujas estruturas são previsíveis, ideológicas e muito antigas, cair frequentemente nesse conjunto de buracos estruturais e impessoais; às vezes cair em buracos junto com outras pessoas, com outras pessoas dizer “essa não é nossa cova coletiva, saiam desse buraco”, todas juntas saírem do buraco juntas, mãos e pernas e braços e escadas humanas umas das outras para sair do buraco que não é a cova coletiva mas que só dá para sair juntas; às vezes cair por vontade própria num buraco que não é a cova porque na verdade é mais fácil do que não cair num buraco, mas depois de estar lá dentro, perceber que não é a cova, acabar saindo do buraco; às vezes cair num buraco e ficar ali definhando por dias, semanas, meses, anos, porque embora não seja a cova, mesmo assim é muito difícil sair e você sabe que depois desse buraco só tem outro e mais outro; às vezes examinar a paisagem de buracos e desejar um buraco final de alta qualidade; às vezes pensar em quem caiu em buracos que não são covas mas talvez seria melhor se fossem; às vezes contemplar com anseio demais o buraco final enquanto tenta evitar os provisórios; às vezes cair e sair obedientemente, com perfeita bravura, dizer “vejam com que maestria e espírito eu me levanto de novo do que parece a cova mas não é!”

What Resembles the Grave but Isn’t

always falling into a hole, then saying “ok, this is not your grave, get out of this hole,” getting out of the hole which is not the grave, falling into a hole again, saying “ok, this is also not your grave, get out of this hole,” getting out of that hole, falling into another one; sometimes falling into a hole within a hole, or many holes within holes, getting out of them one after the other, then falling again, saying “this is not your grave, get out ot the hole”; sometimes being pushed, saying “you can not push me into this hole, it is not my grave,” and getting out defiantly, then falling into a hole again without any pushing; sometimes falling into a set of holes whose structures are predictable, ideological, and long dug, often falling into this set of structural and impersonal holes; sometimes falling into holes with other people, with other people, saying “this is not our mass grave, get out of this hole,” all together getting out of the hole together, hands and legs and arms and human ladders of each other to get out of the hole that is not the mass grave but that will only be gotten out of together; sometimes the willful-falling into a hole which is not the grave because it is easier than not falling into a hole really, but then once in it, realizing it is not the grave, getting out of the hole eventually; sometimes falling into a hole and languishing there for days, weeks, months, years, because while not the grave very difficult, still, to climb out of and you know after this hole there’s just another and another; sometimes surveying the landscape of holes and wishing for a high quality final hole; sometimes thinking of who has fallen into holes which are not graves but might be better if they were; sometimes too ardently contemplating the final hole while trying to avoid the provisional ones; sometimes dutifully falling and getting out, with perfect fortitude, saying “look at the skill and spirit with which I rise from that which resembles the grave but isn’t!”

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