poesia

Viviane Nogueira (1995-)

VivianeNogueira

Viviane Nogueira tem 24 anos, paulistana crescida no interior. É poeta e graduanda em Psicologia no Instituto de Psicologia da USP. É mediadora do clube de leitura Leia Mulheres Osasco. Em 2018, participou do Curso Livre de Preparação do Escritor (CLIPE), na Casa das Rosas. É autora da plaquete Onde estão os holofotes da tragédia (2018, ilustrações de Steffano Lucchini) e do livro Uma casa se amarra pelo teto (Edições Macondo, 2019).

* * *

[A ORDEM DA QUAL FALAM OS MONGES OU A
ORGANICIDADE DOS MOVIMENTOS NO TAI CHI]

a cabeça recai no vidro da janela
as pálpebras do ônibus derrubadas
a palma da mão afundada na face do poema
a folha em branco no caderno
os livros fechados na mochila úmida
a mão afundada nos olhos bem abertos
…………você não sabe onde esteve
…………você não sabe onde está
o ronco do motor os passageiros calados
um homem se levanta no ponto errado do percurso
…………você não diz nada
o céu noturno em luto e a lua a esconder os olhos também
ouvem-se gritos os cães latem sem parar
um gato repousa na cama do quarto de visitas
você pôde ouvir os freios mas
…………o silêncio não era bem uma escolha

§

 

os dedos vacilantes na inércia
estar vivo ou
……………………estar aqui
um quadro negro elétrico pisca e
os números ficam inacessíveis no portão de entrada
os caminhos todos em
vida que segue
……………………nothing changes
os carros continuam a dar partida e
os corpos não se prostram a nenhuma cena
as faces miram à espera de
e a água torna a escorrer da torneira na lavanderia
tudo corre em câmera lenta
as páginas do jornal de ontem sendo viradas
notícias lado a lado à crème brûlée
o sempre um ininterrupto entre os passos
uma paisagem que não nos diz nada
e ainda
um silêncio não se produz

§

 

[UM GALHO BROTA DA GARGANTA DE UM
HOMEM OU UMA LANÇA ARREMATA-ME O PEITO]

todas a horas são horas de viver
e todos os cantos são cantos de
uma sala vazia
não existe parede onde
samambaias possam se apoiar
o sol repousa atrás de um vento
e na estrada que sobe a cuesta
todos os carros correm
……………………………..bem devagar
………………just do it
………………don’t let your dreams
………………be dreams
na boca a eloquência é o silêncio
e o percurso é o do caos
uma mão se enrosca em novelo
enquanto busca o caminho nas
ondas breves da voz
que promete
olhe as vigas no céu
e a estrutura das tartarugas
feitas de nuvem
no em cima de mim tudo é feito de aço
e concreto
as formas geométricas do amor ou
a matemática do um mais um
igual a zero

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poesia

5 poemas de Alexandre Guarnieri (1974-)

1

Alexandre Guarnieri (carioca de 1974) é poeta e historiador da arte. Integra o corpo editorial da revista eletrônica Mallarmargens. Casa das máquinas (Editora da Palavra, 2011) é seu livro de estreia. Em 2016, co-organizou pela Patuá a antologia Escriptonita (poemas tematizando super-heróis). Também lançou Corpo de festim [livro ganhador do 57o Jabuti/ 2a Edição pela Penalux], Gravidade zero (2017) e O sal do leviatã (2018). Seus três primeiros livros estão disponíveis online gratuitamente na plataforma ISSUU (clique aqui).

* * *

dínamo marino

“[…] aonde anda a onda?
a onda ainda/ ainda onda ainda anda/ aonde? […]”

Manuel Bandeira

vaga enquanto arma a água toda
em que se esvai levando a soma aquosa
ao sonoro devir da arrebentação
~ ergue o quanto anda: carga aonde leva
e traz na água algas agora, sobre cardumes
que alardeiam ~ e se uma gravidade a atrai
à praia, sem freios ( um dínamo marino agindo ),
na areia outra, contrária, quer devolvê-la
ao oceano doutro lado, ( vira e revira
no ir e vir de seus espasmos ) ~ longa, ondula
~ a água alarga e salga — e segue
como se sangrasse : sangria do signo cíano ~
e singra para que siga ainda a água,
que ao ímã de cada maré adere ou repele
~ logra a onda longa aonde aguarda lá, largar-se
( inunda o fundo onde inúmeras ondas
se ajuntam ) à outras ondas, longínquo banho,
em moto-contínuo; bainha junto à linha da baía
~ para quebrar com ímpeto ~ ad infinitum

§

 

(::: tempestas ad aeternum :::(
( ::: ( à anatomia da frente fria ( alturas nublam no acúmulo esta rígida camisa de granizo com que o medo copula ::: de tão leve o veludo ::: névoas evolam e renovam nuvens lúgubres que evoluem seus plúmbeos volumes ::: o inverno ou o verão ( se revelam ( ou se rebelam ( ante o impacto de duas massas de ar que estão em guerra ::: cumulus ( nimbus ::: são vapor puro seus sísmicos mecanismos de pingos ( movidos às vísceras cíclicas da hidrologia ::: toda a blindagem lacrada aos fenômenos da meteorologia ::: as gotas como sistêmicas agulhas da acupuntura úmida e lúcida que o alívio de um dilúvio inicial salpica sobre os poros do solo ::: porque depois virá a água pulverizada às toneladas ( largada do radioso hangar da atmosfera da Terra ( onde os vários níveis do velame reverberam ::: brancos como membranas nascidas de braços climáticos ::: ventos abertos as criam no céu ( mordaças aladas ( debruçando açúcares do novelo diáfano e solúvel das chuvas ::: por vezes assíduas no verão do sul ( severas na invernada do norte ::: espécies de seda inflada fremindo módulos vaporosos ::: a tamanha fumaça fria que dança desprovida de vértebras ::: as engrenagens da tempestade agem engravidando absurdos ventres pluviométricos ::: um gélido gigante modelando o inverno interfere no áspero sintoma do desalojado planisfério ( sob as extremidades de ventos severos ( intensos ( nervosos ( venéreos como no inferno ( são ventos por dentro ( tremendos ::: em alto mar as mais baixas temperaturas se amarram a uma larga e unitária mordaça ::: o clima declina em crise física ( toda altura é esta estranha úlcera convulsa como se fosse ininterrupta a pintura de William Turner ::: “por quanto tempo tufão tão nefasto estará afastado da costa?” ::: os metereólogos não logram resposta ::: na pura fúria do Caramuru ( todas as danças da chuva juntas ( em belicoso conjunto proposto por tribos ocultas ( avultam e nublam o horizonte profundo ( para o absoluto assombro de reinados navais ( barqueiros nômades e navegadores autônomos ( e nunca ( jamais ( saberemos para onde ( ou até quando ::: e agora, Joze (Pereira)? se Calicute não te escuta ( se o pombo-correio jaz sepulto em sua miniatura de tumba ( se resta anêmico o único anemômetro ( se está louco o lôbrego pluviômetro ::: e agora, Vasco, Pero Vaz de Caminha? a quantas anda nosso Caminho das Índias? ( para que te presta ( tempestade eterna ( senão para frustrar nossa conquista marítima mais íntima? senão para derrubar sobre nós ( além da maresia carnívora que penetra pela fresta todo o dia ( sua voz ressoada na foz dos trovões e iracundas colunas d’água ligando o mar à mais aérea nódoa,

senão para nada? ( ::: (

§

o barco na garrafa

 

que vento, tormenta, qual
embargo causado pelo caos
atravessou o aço deste barco?
qual a história de seu rapto,
de sua carcaça aprisionada
ao arrecife, pelo casco?

terá afundado em álcool
— em rum, a nau afogada -,
no premente e estrepitoso
jorro da única talagada?
terá sido enfeitiçado
o capitão embriagado
pelo canto da sereia
ou pela água envenenada?

pois saibam, sujos marujos,
que até assim se naufraga,
e onde esperaríamos o gênio
realizando desejos, resta a
miniatura delicada da fragata
prensada através do gargalo,
presa ao interior da garrafa;

haverá outra escolha ( brinquedo
camuflando o medo – mero modelo )
senão estilhaçá-la ao peso
do arremesso ( pequena parcela
do mar ou a própria alma
sequestrada ) a singela peça
do artesanato naval, minuciosamente
trabalhada ou frágil granada
lançada contra a parede da sala?

§

viagem fantástica

para Julio Verne e Harry Kleiner

toda profundeza concebida pelo homem
– conquistada ou ainda inexplorada –
sombria, ameaçadora ou prodigiosa,
toda mais longínqua profundidade,
recriada imaginativamente por séculos,
jazendo a apenas alguns centímetros
da superfície da pele, sob a trama de
nervos que segue a construir os sonhos,
da medula ao cérebro humano, esse
antro chiaroscuro – esponjosa massa
cinza sob o osso do crânio duro;

puséssemos numa seringa hipodérmica
a miniatura de um submarino nuclear
mergulhado em solução fisiológica e
injetássemos corpo adentro a peça
a sangue frio, navegaria submerso
com energia suficientemente gerada
para zelar sempre, sem erro, sem medo,
pelo mais perfeito funcionamento?

§

calypso
ígneas enguias bicéfalas
se entreolham, tresloucadas

com guinchos finíssimos, unís
sonas, ensaiam o silvo coletivo
e quase enguiçam no líquido re
buliço, agarradas em algazarra

parecem aparvalhadas na água
como certas larvas aneladas
recém-saídas dos ovos;

ascendem olhos de fósforo,
ardendo aos milhares, em pares
contra o breu inóspito

faróis cujas luzes
lançam fachos quase sólidos
para o horizonte subaquático;

orquídeas submergidas
eletrificam a língua sibilina
das enguias que se esquivam
das lanternas ou dos esguichos
de alguns exímios escafandristas
e fogem
…………..para o raio que as partam

nota:

mas pouquíssimo antes disso
tiveram suas almas
registradas em vídeo,
para Cousteau, por seu
melhor cinegrafista
em seu milésimo mergulho
de scuba ( o Aqualung ),
sob uma falésia da Catalunha

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tradução

Hans Magnus Enzensberger (1929-), por Adelaide Ivánova

hans-magnus

hans magnus é um escritor alemão de esquerda. esses poemas são do livro “blindenschrift” (braille, em português), publicado em 1967. coisas que estavam acontecendo na época: guerra do vietnã, guerra fria e corrida nuclear, muro de berlim, civil rights, panteras negras, assassinato de lideranças negras, anti-comunismo, obsessão com a lua, beatles anuncia que não fariam mais shows (haha).

marxista e apoiador dos movimentos estudantis e revolucionários dos anos 1960, enzensberger ganhou inúmeros prêmios, morou na rússia e em cuba, produziu ensaios sobre teoria socialista da mídia e segue escrevendo até hoje. em novembro de 2019 ele completará 90 anos de escorpianismo.

para ler nossa outra postagem sobre o poeta, clique aqui.

* * *

middle class blues

wir können nicht klagen.
wir haben zu tun.
wir sind satt.
wir essen.

das gras wächst,
das sozialprodukt,
der fingernagel,
die vergangenheit.

die strßen sind leer.
die abschlüsse sind perfekt.
die sirene verschweigen.
das geht vorüber.

die toten haben ihr testament gemacht.
der regen hat nachgelassen.
der krieg ist noch nicht erklärt.
das hat keine eile.

wir essen das grass.
wir essen das sozialprodukt.
wir essen die fingernägel.
wir essen die vergangenheit.

wir haben nichts zu verheimlichen.
wir haben nichts zu versäumen.
wir haben nichts zu sagen.
wir haben.

die uhr ist aufgezogen.
die verhältnisse sind geordnet.
die teller sind abgespült.
der letzte autobus fährt vorbei.

er ist leer.

wir können nicht klagen.

worauf warten wir noch?

classe média blues

não podemos nos queixar.
estamos ocupados.
estamos saciados.
comemos.

a grama cresce,
o PIB,
a unha,
o passado.

as ruas estão vazias.
as conclusões estão perfeitas.
as sirenes estão caladas.
isso é coisa do passado.

os mortos escreveram seu testamento.
a chuva parou.
a guerra continua sem explicação.
mas não há pressa.

roemos a grama.
roemos o PIB.
roemos as unhas.
roemos o passado.

não temos nada a esconder.
não temos nada a perder.
os pratos estão lavados.
o último ônibus passa.

vazio.

não podemos nos queixar.

ainda estamos esperamos o quê?

§

 

bildnis eines spitzels

im supermarkt lehnt er
unter der plastiksonne,
die weißen flecken in seinem gesicht
sind wut, nicht schwindsucht,
hundert schachteln knuspi-knackers
(weil sie so herzhaft sind)
zündet er mit den augen an,
ein stück margarine
(die gleiche marke wie ich:
goldlux, weil sie so lecker ist)
nimmt er in seine feuchte hand
und zerdrückt sie zu saft.

er ist neunundzwanzig,
hat sinn für das höhere,
schläft schlecht und allein
mit broschüren und mittessern,
haßt den chef und den supermarkt,
die kommunisten, die weiber,
die hausbesitzer, sich selbst
und seine zerbissenen fingernägel
voll margarine (weil sie
so lecker ist), brabbelt
unter der künstlerfrisur
vor sich hin wie ein greis.

der
wird es nie zu was bringen.
schnittler, glaube ich, heißt er,
schnittler, hittler, oder so ähnlich.

retrato de um espião

no supermercado ele se curva
sob o sol de plástico,
as manchas brancas na sua cara
não são de tísica, são de ódio,
com os olhos ele fuzila
cem caixinhas de bolacha
(porque são tão saborosas),
o pacote de margarina
(da mesma marca que eu pego:
doriana, porque é uma delícia)
ele esmaga com sua mão úmida
até ela derreter.

ele tem vinte e nove anos,
é intuitivo,
dorme mal e sozinho
com cartilhas e cravos pretos,
odeia o chefe, o supermercado,
os comunistas, as mulheres,
o senhorio, ele mesmo
e sua unha roída
cheias de margarina (porque
é uma delícia), ele balbucia
sob o penteado de artista
como um velho, sem parar.

ele
nunca vai concluir nada.
acho que sobrenome dele era schnittler,
schnittler, hittler, ou algo parecido.

§

 

gerücht

ein altes gerücht kommt auf,
ein altes gerücht geht und sagt:
dies alles sei längst zu ende.
ach wenn es sonst nichts ist!

das wissen wir schon.

aber woher denn dann
erscheint am morgen
in ihrem braunen glas
auf der türschwelle frisch
und pünktlich die buttermilch?

es fällt frisches wasser
auf uns von himmel herunter,
es taucht etwas schreiendes
frisch aus den frauen auf
mit zartem wildem gehirn,
es nimmt der ihn gestern nahm
auch heute den achtuhrzug.

wie ist das zu erklären?

die kühe kalben und albern
kalbern die kälber. sogar
ihren geburtstag feiern
manche noch, schamlos.

als wäre nichts geschehen
erscheint täglich neu
unser rührender schmutziger
knallharter frommer roman.
fortsetzung folgt, und kein ende.

aber woher denn!

aber woher denn dann
erscheint am morgen
auf der türschwelle frisch
und pünktlich das alte gerücht?

fofoca

uma fofoca velha vai,
uma fofoca velha vem e diz:
isso tudo se acabou faz é tempo.
ah mas não deve ser nada!

disso a gente já sabe.

mas então como será que
de manhã aparece
num copo marrom
ao pé da porta
fresco e pontual o leite desnatado?

água fresquinha cai do céu
em cima da gente,
sai uma coisa fresquinha, gritando,
de dentro de uma mulher
com um cérebro mole e selvagem,
quem ontem pegou o trem das oito
hoje pegará também.

como se explica isso?

as vacas pariram e gracejam
engraçados os bezerros. até
seus aniversários são festejados
por alguns, ainda, sem o menor pudor.

como se nada tivesse acontecido
aparece todo dia e novamente
nosso romance puritano
comovente, impuro, cruel.
e continua, não tem fim.

mas de onde?

mas então de onde
aparece de manhã
ao pé da porta
fresca e pontual
a velha fofoca?

§

 

karl heinrich marx
riesiger großvater
jahvebärtig
auf braunen daguerreotypien
ich seh dein gesicht
in der schlohweißen aura
selbstherrlich streitbar
und die papiere im vertiko:
metzgersrechnungen
inauguraladressen
steckbriefe

deinen massigen leib
seh ich im fahndungsbuch
riesiger hochverräter
displaced person
in bratenrock und plastron
schwindsüchtig schlaflos
die galle verbrannt
von schweren zigarren
salzgurken laudanum
und likör

ich seh dein haus
in der rue d’alliance
dean street grafton terrace
riesiger bourgeois
haustyrann
in zerschlissnen pantoffeln:
ruß und »ökonomische scheiße«
pfandleihen »wie gewöhnlich«
kindersärge
hintertreppengeschichten

keine mitrailleuse
in deiner prophetenhand:
ich seh sie ruhig
im british museum
unter der grünen lampe
mit fürchterlicher geduld
dein eigenes haus zerbrechen
riesiger gründer
andern häusern zuliebe
in denen du nimmer erwacht bist

riesiger zaddik
ich seh dich verraten
von deinen anhängern:
nur deine feinde sind dir geblieben:
ich seh dein gesicht
auf dem letzten bild
vom april zweiundachtzig:
eine eiserne maske:
die eiserne maske der freiheit

karl heinrich marx

vovô grandão
com a barba de jah
em daguerreótipos marrons
vejo teu rosto
na aura branca como a neve
despótico briguento
e no birô os seguintes papeis:
boletos do açougue
discursos inaugurais
intimações

vejo teu barrigão
na lista de foragidos
grande traidor
sin papeles
de casaca e gravata de seda
tísico insone
a bile pegando fogo
pelos charutos fortes
picles láudano
e licor

eu vejo tua casa
na rue d’alliance
na dean street grafton terrace
burguesão
tirano doméstico
de pantufas velhas:
fuligem e “carai de economia”
agiotagem “como o de costume”
caixões de criança
fofocas

não há canhões
nas tuas mãos de profeta:
eu as vejo tranquilas
no museu britânico
embaixo do abajur verde
com tremenda paciência
arrombar tua própria casa
grande fundador
em nome de outras casas
nas quais tu nunca acordas

grande tsadic
eu te vejo traído
pelos teus seguidores:
apenas teus inimigos
se mantêm fieis:
eu vejo tua cara
na última foto
de abril de oitenta e dois:
uma máscara de ferro:
a máscara de ferro da liberdade

Padrão
poesia

Bruno M. Silva (1990-)

1

Bruno M. Silva nasceu em 1990, no Porto. Estudou Línguas, Literaturas e Culturas na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Venceu a 17ª edição do concurso Aveiro Jovem Criador 2018 com o conto O Que São os Mortos?. Tem poemas publicados na revista Ler, na Enfermaria 6, na Tlön, na Gazeta de Poesia Inédita e no Jornal Universitário do Porto. Três dos seus poemas foram traduzidos para espanhol de forma a integrarem a antologia Lluvia oblicua. Poesía portuguesa actual, pela Valparaíso Ediciones.

* * *

toda a noite, o fogo

daqui à morte será apenas um clamor
e homens à procura de um nome
entre clarões e cavalos doentes
a febre de um deus feroz

mil anos
e chove em Tróia

e daqui à morte serão as mulheres
a inchar como palmeiras
em frente aos espelhos
as crianças a engolir o nome
os barcos presos no sal

fizemos tudo
trouxemos a palavra, o incêndio
para que nos vissem um rosto saturado de beleza
ainda assim um deus feriu-nos
……………………………………ainda assim a morte

Tróia, meu deus, toda a noite, o fogo
de manhã, a luz nos meus olhos doentes
e um rosto que das águas emerge puro

§

 

é já longe de onde me falas

nada nos dirá
que foi daqui que vimos o mundo
ou aprendemos a dor de subir
a última manhã feita
sobre os nossos cabelos

o que disserem de nós estará certo
e será como uma luz junto aos olhos
para o lugar de onde me falas

e no entanto nada nos espera

apenas
o amor feito na escuridão das tendas
o lamber das borras do vinho
e uma garganta que se doira
ao despedir-se de ti

§

 

as flores de hopper

felizmente não te posso ver
se o teu rosto caísse sobre o mundo
teria a futilidade das flores
seria o campo de camélias e o dilúvio

é melhor imaginar-te assim terrível
espantando as aves nos Aliados
assustando os bêbados que descem o Carvalhido
com a serpente revolvendo no intestino

é sempre melhor imaginar que és tu que os aterras
que eles cambaleiam pelas ruas
porque juram que te entreviram
entre os urinóis do café

é sempre melhor não te ver
porque só a tua voz
transparente como os tigres de Borges
nos pode dilacerar de tanta beleza

Padrão
poesia

1 poema de Isabella Martino (1988-)

I. Martino

Isabella Martino nasceu em São Paulo, 1988, é poeta e pesquisadora, formada em Comunicação (ESPM-SP) e Artes Cênicas (Escola Superior de Artes Célia Helena – SP), atualmente cursa mestrado em Literatura e Teoria Literária na PUC-SP. Organiza e faz a mediação do Clube de Poesia Contemporânea na Biblioteca Mário de Andrade (SP). Trabalha ao redor de temas como memória, silêncio, morte, testemunho e fotografia.

* * *

Aquela que venta

para Ismar Tirelli Neto

I.

e no entanto a grande janela imóvel

ela a encara
corpo como pêndulo
um preparo para o vento
ela sabe como se navega

ela domina
cada um dos pontos
os mínimos desvios
tornam-se cada vez maiores

ela encara a janela imóvel

ela encara a cortina intacta de organza branca
um véu de mármore sobre seus olhos

toda espera venta

e no entanto apenas a abelha
o bater violento contra a vidraça
estrondos a zumbir

a saída
se dará pelos cabelos

um movimento
o sutil balançar de um dos fios
a comprovação

uma brisa que se abre
fresta nos olhos
II.

a face diante o espelho
os olhos treinados no escuro
os ângulos agudos esfumaçam
todo pesar une silêncios
de uma cor só

pensa nos que virão

alguém ainda sentirá
alguém ainda sentirá
duas almas partiram-se ali

é preciso um testemunho
um pássaro qualquer
os pedaços que restam da estante
os descascos da parede
os estilhaços da última xícara azul
tudo apontará

ela existiu
ela esteve aqui
III.

o café se alastra sobre a mesa
basta o início de uma treva
para que outras se derramem

o turvo se faz aos olhos
seria apenas o caso de uma espera?
soletra os bafejos que esquentam a demora
tudo tão próximo e desconhecido
cada silhueta
se suficiente interrogada
delata uma ausência

cada feito no mundo
arrebenta uma sombra muda

a saída se dará pela espera
não
a saída se dará pelos olhos de um animal noturno
a saída se dará pelos olhos de um animal noturno
enquanto espera reconhecer o dia

algo faz fresta na janela
um feixo atravessa seco a sua garganta

é pela luz que se dará a voz:

olá
eu estava mesmo
a sua espera.

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entrevista

Entrevista com Daniel Francoy

keanu

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* * *

SM – Daniel, o que é poesia, para você?

DF – O meu conceito de poesia acaba se confundindo com o modo como a poesia surgiu para mim, quando eu tinha em torno de 17 anos, e procurava um modo de me expressar – de dar vazão à leitura que fazia da realidade e ao modo como essa realidade reverberava em mim. Penso que é um anseio comum a quase todo adolescente. E eu fui tentando às cegas. Cinema e música são interesses que sempre tive, e que são anteriores ao meu envolvimento com a poesia. Via muitos filmes, ouvia muitas músicas, e ficava alimentando este sonho meio besta de me ter uma grande banda ou de me tornar um cineasta. Quando lia, era invariavelmente em prosa. A poesia surgiu quando tudo isso começou a desmoronar, a tornar-se impossível. Percebi que nunca seria o cineasta ou o músico que pretendia ser. Mas essa consciência gerou um efeito rebote: um desejo ainda maior de expressão. E o que podia fazer além de escrever? Tentei a prosa, mas não conseguia o distanciamento certo, tudo soava muito autobiográfico, muito confessional. E aos poucos, como que seguindo um instinto que não sei nomear, fui migrando para a poesia, e senti que ali estava a minha expressão. Senti que ali eu conseguia falar de mim e da realidade de uma maneira contundente, mas velada, através de imagens, símbolos, aproximações. E segui esse caminho. Em pouco tempo, deixei de ser um leitor de prosa para me tornar um leitor de poesia, e tudo o que escrevia era em versos. Começou assim. Ainda é assim hoje, a maior parte do tempo. E o meu conceito de poesia não mudou muito, pois, de certo modo, o que me trouxe até a poesia não mudou: o desejo de expressão, de pensar a realidade, de estabelecer reflexões sobre o que vejo, penso, sinto – e tudo isso tenho feito com os instrumentos mais comuns à poesia: o ritmo, a sonoridade, a busca de um sentido através de construção de imagens etc.

SM – É curioso você comentar que seu contato com a poesia surgiu de uma necessidade de pensar a realidade. Pelos seus poemas, pelo seu autoassumido cargo de suburbano e pelo modo como você costuma descrever, poeticamente, em suas redes sociais, algumas de suas tarefas diárias como tirar o lixo, por exemplo, eu fico pensando: como você pensa a sua realidade hoje? E que realidade é essa?

DF -Eu penso a realidade enquanto limite, e é em face desse limite que escrevo e existo.

A questão é que não existe um único limite, então, repensando a resposta, eu diria que penso a realidade enquanto a conjugação entre a consciência e uma multiplicidade de limites em constante intercâmbio.

Penso agora na vibração de uma corda esticada até a tensão máxima: a corda vai vibrar com tamanha velocidade que vai parecer estar em diversos lugares ao mesmo tempo. É mais ou menos assim que penso a realidade e o lugar que ocupo nela. A corda distendida sou eu, a minha consciência, o meu estar no mundo. A realidade, vamos dizer assim, é aquilo que faz a corda vibrar. E os meus limites são os diversos lugares que a corda vibrando parece ocupar ao mesmo tempo. Não sei se isso faz muito sentido. Mas aqui estou, todos os dias, com a minha consciência, tensionado, alternando entre diversos limites. Em termos políticos, o limite que não consigo transpor, e ao qual reajo, é o que acontece no Brasil e mundo afora, e que me conduz a um estado de contínuo espanto. Na vida doméstica, o limite é a casa, a sua falsa proteção, a minha impotência perante a proliferação das ervas daninhas nos jardins, a minha insônia diante de uma rachadura que cresce na parede, e também o colapso da cidade, o embate contra as contingências cotidianas, que me obrigam a sucessivos exercícios de mesquinhez e covardia. Diante do tempo, o limite é a sua passagem cada vez mais acelerada, e por aí vai. É assim que a realidade se apresenta perante mim. Quando escrevo, algumas vezes a minha literatura é pura reação, e a reação pode ser mais crispada, ou reflexiva, depende muito do tema. E muitas vezes, principalmente em anotações em redes sociais e também nos apontamentos de A Invenção dos Subúrbios, eu faço a escolha estética de focar aquilo que mais parece mais banal, para os arranjos mais precários da vida íntima e da vida na cidade. Eu não acredito muito em transcendência. Eu realmente acredito que sou uma corda esticada até uma tensão quase insuportável, da qual nunca conseguirei escapar. A corda irá se romper um dia, é claro, e então não estarei mais aqui. Estar vivo é estar tensionado.

SM – Qual é a coisa mais importante do mundo? Qual é a coisa mais importante para a pessoa enquanto indivíduo?

DF – A resposta que vou dar leva em conta a minha experiência pessoal. Então o que estou respondendo, na verdade, é uma pergunta um pouquinho diferente: o que mais é importante para mim enquanto indivíduo? E é o estar inteiro, e sentir que não cometo traições contra mim ou contra o outro. Estar inteiro no mudo com o meu corpo e com o meu pensamento; e não trair o meu corpo, não trair o meu pensamento, e não trair o corpo e o pensamento do outro. Esta é a liberdade em que acredito, penso, é nesta liberdade que habitam a literatura e os afetos. Se esta liberdade é, efetivamente, a coisa mais importante do mundo ou o mais importante do mundo para outras pessoas enquanto indivíduos, não posso dizer, mas é a resposta que me vem à cabeça agora, falando de mim, que é de quem posso falar.

SM – E o que é o amor?

DF – Esta é mais uma pergunta bem difícil. A verdade é que não costumo pensar muito no amor enquanto ideia, pois não acredito que ele se manifeste de maneira tão pura e nítida no dia a dia. É mais como um borrão, um sentimento difuso. Algo que transportamos todos os dias, junto com as obrigações mais mundanas. Enquanto lavamos a louça, colocamos o lixo para fora, esperamos na sala de espera do dentista, pagamos uma conta, entramos no cheque especial etc. – enquanto tudo isso acontece, o amor está junto com a gente: como algo que nos oferecemos para dar ou falhamos em dar, como algo que esperamos receber ou falhamos em receber ou simplesmente como algo que não recebemos, tudo de maneira extremamente precária. E não falo apenas do amor romântico, mas de todo e qualquer amor: o amor por um trabalho, por uma arte, por um país, por nós mesmos. Então, se o amor está presente o tempo todo, ele está o tempo todo sujo pela matéria do dia: nos oferecendo algo com uma redenção que nunca vem porque nunca é pura, porque está sempre contaminada. Uma rosa quebra o asfalto na mesma medida que é quebrada por ele. É claro que há momentos em que o amor é mais nítido, em que ressoa como um sino, seja de dor ou de alegria. Eu penso que isso acontece naqueles momentos em que a nossa orfandade é revelada ou apaziguada.

SM – O seu livro A invenção dos subúrbios está “o tempo todo sujo pela matéria do dia” e me parece muito similar ao Livro do desassossego de Bernardo Soares, funcionando como uma espécie de meditação poética sobre os afazeres diários. Suas respostas aqui, além disso, têm me lembrado algo de um Drummond bem cotidiano, que trata de uma miudezas, como andar de avião, de um modo muito longe do banal. Dito isto, me interessa saber quais são suas influências poéticas, tanto da tradição quanto dos seus pares contemporâneos.

DF – Nos meus anos de formação, entre os 20 e 25 anos, eu era obcecado pelo Faulkner. E há um detalhe de sua obra, algo que ele conseguiu fazer, que está por trás de muito do que escrevo: é a transformação de um lugar real (no caso o Mississippi, com as suas questões raciais, com a sua violência e loucura inatas, com a sua geografia, com o seu passado de desintegração) num lugar fictício, e, por lugar fictício, quero dizer um lugar onde a literatura acontece. Ele chegou a inventar um território dentro do Mississipi real onde se passam diversos dos seus livros. As minhas questões são outras, naturalmente, mas a preocupação é a mesma: como transformar Ribeirão Preto – esta cidade árida, quente, habitada por uma classe média violenta, em que tudo é limite, onde nasci e fui criado, de onde nunca conseguir escapar –, como transformar esta cidade em literatura? Como escrever aqui? A relação com o lugar é muito importante para mim, sempre foi, e ainda ocupa uma posição de destaque no que escrevo. Em A Invenção dos Subúrbios estou tentando inventar a minha Ribeirão Preto literária, e ela passa por mapear os meus gestos, a minha rotina, e também a rotina da cidade. É como se eu estivesse tentando responder: o que é estar aqui, nesse lugar, e o que é escrever aqui?

No tocante à forma do que escrevo, ao modo como escrevo, as influências são inumeráveis, e talvez seja justo dizer que tudo é influência. Tenho alguns autores favoritos, mas que são uma influência difusa, subterrânea. É o caso, por exemplo, do cummings. A beleza dos seus poemas me tira o fôlego, mas até que ponto cummings é visível no que escrevo? Acho que muito pouco. E há autores que mudaram o meu jeito de escrever. Eliot é um deles. Eu o li muito jovem, com 19 anos, entendia metade do que ele escrevia, talvez menos, mas o modo como ele desenvolvia o seu pensamento através de imagens é algo que absorvi imediatamente. Depois veio o Kaváfis, eu tinha vinte e um anos, e que me apresentou a limpidez em poesia – o verso claro, justo, limpo, o poema breve. Mais ou menos nessa idade, comecei a ler Manuel Bandeira com mais atenção, e nele descobri algo que já existia em mim, mas que não conseguia expressar: o elogio do mínimo, a ternura pelo precário, a compaixão pelo que é tão pequeno que se torna invisível; um porquinho da índia, um vendedor ambulante, um balão que cai, uma aranha que tece a sua teia, e sobre tudo a consciência de que a glória do mundo é pálida, que se comunica com a nossa melancolia e provoca algo como um sorriso triste. Depois, Drummond, que me apresenta um sentimento absolutamente contemporâneo, limítrofe entre o espanto e a raiva, entre o desejo de aniquilamento e o estar trespassado de amor, entre o transporte de um medo surdo e a incontornável necessidade de prosseguir junto aos homens da praça, entre a consciência do tempo presente e os mortos que continuam sentados junto à mesa da sala de jantar.

Quanto aos contemporâneos, aos meus pares, confesso que fui forjado no cânone. Em parte porque, durante muito tempo, li sozinho e escrevi sozinho, sem o intercâmbio que hoje ocorre, antes das redes sociais, de sites como escamandro, de pequenas editoras. É algo novo para mim, a consciência de integrar algo maior, tendo como companhias um grupo muito heterogêneo de poetas e integrando algo que beira a cacofonia. É algo que tem atravessado o que escrevo, mas de maneira ainda oblíqua, indireta. Dos autores contemporâneos, fico com receio de citar nomes e esquecer alguém. Agora me vem à memória o Guilherme Gontijo, o Fabiano Calixto, a Ana Martins Marques, a Mônica de Aquino, a Lívia Natália, o Tarso de Melo, o André Luiz Pinto, o Ricardo Aleixo.

SM – Bem, fica evidente que a relação da poesia com o real, com cotidiano é um ponto importante dentro da sua poética. Por isso. você vê alguma função ou tarefa a ser cumprida por quem se arrisca a escrever nestes tempos. Trocando em miúdos, qual é, pra você, a tarefa que recai sobre o poeta escrevendo hoje?

DF – Não acho que, hoje, a tarefa de um poeta seja diferente da que ele teve antes, em outro momento e contexto histórico. O que talvez mude seja o lugar que essa tarefa ocupe na ordem do dia. Enfim, eu penso que a tarefa do poeta é bem simples: é ser uma voz, e fazer tudo o que é inerente a uma voz: falar, refletir, expor, acusar, defender, resistir. E a voz que é o poeta precisa olhar para o que está fora e está dentro, para aquilo que é rejeitado e massacrado, para o rei e para o carrasco, para o que está aqui e para o que está ausente, para o corpo e para aquilo que o atravessa, para o que é diáfano e para o que é impuro, para o que é mínimo e para o que transcende. Sei que é uma ideia ampla, um conceito vasto, mas é porque amplo e vasto é o trabalho de um poeta. Não é algo que se mensura tão facilmente, que se pesa como algo que está morto. É identificar o que está difuso no dia – com toda a sua sujeira, todo o seu horror, todo o seu desamparo, toda a sua raiva, toda a sua ternura etc – e dar uma voz a isso. E para isso o poeta preciso estar livre e vivo. É a sua tarefa, ou o que julgo ser a sua tarefa.

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Camila Assad (1988-)

Camila Assad (1)

Camila Assad nasceu em 1988, em Presidente Prudente (SP). É autora, além de Desterro, dos livros Cumulonimbus (Quintal Edições) e eu não consigo parar de morrer (Editora Urutau).

* * *

precisava escrever sobre flores
porque são metafóricas mas
eu não escrevo sobre a natureza,
apenas sobre o que é natural
como uma tarde de 36 horas
em que o frisbee nos salvou de
uma morte por tédio. causa mortis:
falta de tensão. não cairia bem
no teu obituário tracejado em pele
fina de carneiro. uma loja de lustres turcos
passa por mim. uma franquia de loja de calçados
passa pela avenida atlântida. o soluço interrompe
a risada.
……………………(ou vice-versa)

§

 

construo ruínas pra mostrar que já estive
aqui. mesmo nos dias de feira eu vinha
acampar nos seus quintais sem verde.
mesmo a pé eu vinha, exalando fogo
pelos buracos da narina, expelindo os
órgãos, como se não fossem úteis
assim como saber que o coração de um
peixe tem apenas duas cavidades, e o dos
…………………………………………………anfíbios, três

§

 

as fábricas do leste começam às cinco
a poluir o entorno. Dona Angelina espera
doze minutos pela abertura da padaria
principal. o local não permanece como
palco, mas como memória. eu construí
reinos para ela, e derrubamos como as
cartas de baralho da filha caçula da jornalista
que narra seu segundo divórcio. você tem direito
a três pedidos, a uma kitnet com ventilação
razoável e a um diamante negro vendido na
farmácia que felizmente burla as normas da
vigilância sanitária. seria possível lhe fazer feliz
24 horas por dia,
………………………….mas nem sempre desejável

§

 

tenho interrogado demais, dormido nua
com os seios quentes e firmes. parecem asas
de mariposas. elas não têm hábitos diurnos
e então voaríamos juntas. voaríamos com
tia Guida que foi ao bar e chamou a atendente
pelo nome correto, extraindo um manancial
de sua vagina. me sinto observada, então sorrio.
não sou de mostrar os dentes, não tiro retratos
pessoais. isso vale também para os dias de férias,
quando encaramos o litoral para esfarelar biscoito
……………………….com os dentes caninos da minha gata

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