tradução

Wladyslaw Szlengel (1912-1943), por Piotr Kilanowski

wide_szlengel_watermark

Wladyslaw Szlengel foi um poeta judeu-polonês nascido em Łódź. Suas canções escritas em polonês eram muito populares no Gueto, expressavam seus pensamento e estados de espírito. Eram recitados em diferentes apresentações de serões de diversões, circulavam em cópias de máquina de escrever ou hectográficas. Apesar de sua pouca qualidade artística, gozavam de popularidade, comoviam até às lágrimas, pois expressavam aqueles tempos, falavam de coisas com as quais o Gueto vivia e que apaixonadamente comentava.

O poema intitulado Coisas, coisas descreve o processo que afetou as posses judias nos tempos da ocupação alemã. O poeta enumera a longa lista de coisas, menciona até utensílios levados pelos judeus na mudança da parte sul de Varsóvia para o bairro norte, saindo das zonas mistas para a zona puramente judaica, o gueto. Do Gueto pequeno ao Gueto grande já levaram poucas coisas. E quando passavam do Gueto para os “szopy” particulares, sobrava muito pouca coisa da riqueza ou das posses: somente um embornal e um cantil com água. Nos apartamentos abandonados pelos judeus, resta apenas um comprimido como corpus delicti:

Ante o tribunal, contudo,
(se acaso veritas victi (!)…)
restará um comprimido
expondo o corpus delicti.

O poema A despedida dos três quepes conta a despedida do jovem poeta com três quepes: de estudante, de militar e de policial judaico. O autor relata sua participação na defesa de Varsóvia e a despedida com o quepe de militar. Mais para o fim do poema, descreve a ação de deportação dos judeus de Varsóvia, da qual teria que participar como policial. O poeta, não querendo ajudar aos alemães na ação do extermínio, despede-se do quepe policial. Poucos foram os judeus policiais que fizeram escolha semelhante. Cito aqui duas estrofes do poema:

Você é o quepe em que te vê a humanidade,
que a avó ariana, ele é mais importante.
Não checam o que tens nas calças ou na identidade,
o quepe teu valor declara antes…

Despedida com o quepe policial:

O mundo é todo fechado para mim,
cada portão é uma cilada sem fim,
se me darei melhor ou pior não sei
meu quepe – chegou a hora do adeus…

Seria difícil superestimar a especificidade de tal perspectiva, considerados o alcance, a minúcia e a nitidez da visão que ela proporciona. Em grande medida, no entanto, o legado criativo de Szlengel continua desconhecido: na Polônia inclusive, sob certos aspectos , e que dizer então fora dela!

* * *

O MONUMENTO

Aos heróis – epopeias e rapsódias!!!
Aos heróis honrará a prole,
os seus nomes em pedestais gravados,
e os seus monumentos em mármore.

Aos soldados valentes – as medalhas!
Uma cruz – à morte do soldado!
As glórias e os sofrimentos em aço,
bronze e granito encantados.

Ficarão dos Grandes as Lendas,
de que eram Enormes, o testamento,
o mito consolidará e restará
o Monumento.

Quem pra vós vai contar, ó Futuros,
a história – nem de mito que resiste,
nem de bronze – que a levaram, mataram…
e que ELA não existe…

Se ela era boa? Nem isso –
brigava e as portas batia,
resmungava, vociferava…
mas – existia.

Bela? Nem antes dos cabelos prateados,
ninguém de uma beldade a chamaria
Sábia? Eh, comum, simplesmente não foi
burra…
E no entanto…existia.

Entendes: Ela estava e agora não está,
em cada canto algo ruim, coisa má,
e dá para ver logo que Ela não está.

Nada de grande palavra: O Lar,
Deus meu, que casa era essa?!
………….(não eram de Varsóvia)
O marido o dia todo na oficina,
o filho – sempre correndo com pressa,
o quarto raramente arrumado,
………….(pois de baixo água trazia),
os móveis de algum jeito ordenados,
o relógio parecia sorrir animado,
pois – Ela existia.
Existia.

E daí? Ser humano? Não importa –
em estatística não vai constar,
para o mundo, a Europa – é um nada,
grandes coisas esta Sua labuta suada,
mas quando se chegava à porta do lar,
mesmo antes de tocar na maçaneta, abrir,
no ar algum cheiro bom havia,
ou sopa quente, ou toalha macia,
um calor familiar te envolvia,
pois…
………….Ela existia.

E a levaram,
Foi do jeito que estava.
Do fogão.
Da sopa não provaram…
carregaram, foi-se, não está,
mataram.

O marido voltará da oficina,
sentará na banqueta chocado,
as mãos fracas cairão pros lados,
olhará com a cabeça meneando.

No fogão não há fogo –
no chão, pano caído,
prato na mesa – sujeira demais.
Não levanta, curva-se, pensa.
Nada a fazer.
………….………….Não está mais.

A sopa rala e estranha da oficina
da fábrica, e o pão – vai pôr na goela,
Come e olha:
………….………….na prateleira em silêncio
fria e morta a Sua panela.

Não retornará à oficina,
o filho vai voltar faminto,
na desfeita cama amarela,
sem tirar o sapato barrento,
deitado, não dormirá.
Vai olhar, não esquecerá um só momento…
………….Ali, da Mãe, a esfriada p a n e l a –
………….O SEU MONUMENTO.

P O M N I K

Bohaterom – poematy, rapsody!!!
Bohaterów uczczą potomni
na cokołach nazwiska ryte
i marmurowy pomnik.

Walecznym żołnierzom – medal!
Śmierci żołnierskiej krzyż!
Zakląć chwałę i mękę
w stal, granit i spiż.

Zostaną po Wielkich Legendy
że tacy byli ogromni.
Mit zakrzepnie i – będzie
POMNIK.

A kto wam opowie, Przyszli,
nie spiż i nie mitu temat –
że Ją zabrali – zabili,
i że jej nie ma…

Czy była dobra? Nawet nie –
często się przecież kłóciła,
stuknęła drzwiami, burknęła…
ale była.

Ładna? nie była nigdy ładna,
nawet nim głowa się posrebrzyła.
Mądra? Ot, zwyczajnie nie głupia…
No, ale… była.
Rozumiesz – była a gdy jej nie ma,
to każdy kąt tu oczy złe ma
i zaraz widać że jej nie ma.

Nie żeby wielkie słowo – DOM –
mój Boże, cóż to za gospodarstwo!
(nie byli z Warszawy)
mąż cały dzień w warsztacie
syn także miał gdzieś swoje sprawy,
pokoik często nie sprzątnięty
(bo wodę z dołu przynosiła)
tak jakoś stały wszystkie sprzęty
tak jakoś zegar uśmiechnięty
no – była.
Była.

I cóż? Człowiek? – Nie – Nieważne –
statystyka żadna jej nie wymieni –
dla świata, Europy, mniej niż pyłek –
ważna to rzecz ten jej wysiłek!
ale gdyś zbliżył się do sieni,
nim klamkę wziąłeś, – nim drzwi pchnąłeś,
jakoś w powietrzu zapachniały
ni ciepła zupa, ni ręcznik biały,
tak jakoś ciepłość cię owiła
no…
była.

I wzięli.
Poszła jak stała.
Od ognia.
Zupy nie zdążyła…
Zabrakli, poszła – nie ma –
zabili.

Wróci z warsztatu mąż,
usiądzie ciężko na stołku –
ręce opadną na podołku,
głową wodzi i patrzy.

Ognia nie ma pod blachą –
ścierka spadła i leży
talerz na stole – brudno.
Nie wstaje. Pochyla się. Myśli.
Trudno.
Nie ma.

Zje chleba i zupy z warsztatu
fabrycznej – obcej i marnej.
Je i patrzy: –
na półce… milczący
zimny i martwy jej garnek.

Nie pójdzie już do warsztatu –
Syn wróci z miasta zgłodzony
w łóżko niezaścielane
rzuci się w butach zbłoconych –
Nie uśnie.
Będzie patrzył (i nie zapomni…)
Tam – Matki wystygły g a r n ek
J E J P O M N I K..

§

 

A JANELA PARA O OUTRO LADO

Minha janela é para o outro lado,
uma janela judia descarada
para o belo parque dos Krasiński
e as folhas outonais molhadas…
No anoitecer cinza-arroxeado
as frondes se curvam, inclinadas
e as árvores arianas espreitam
a janela judia fechada…
Não posso ficar na janela
(resolução mui correta),
aos vermes judeus…toupeiras…
a cegueira melhor se adequa.
Que fiquem nas tocas e covas,
absorto no trabalho o olhar
e pelas janelas judias
sejam proibidos de mirar…
E eu… quando vem a noite…
para tudo apagar e igualar,
no escuro pra janela corro
com a sede enorme de olhar…
e roubo Varsóvia apagada,
os silvos, chiados distantes,
as formas das casas e ruas,
os tocos das torres cortantes…
Eu roubo a silhueta do Teatro,
aos pés tenho o Paço Municipal,
O luar – wachmeister
– permite
o contrabando sentimental…
Os olhos famintos se cravam
no peito da noite – dois gumes,
na noite de Varsóvia calada,
cidade querida em negrume…
E quando já estou suprido
para um dia, talvez mais…
me despeço da cidade calada,
com as mãos faço gestos rituais,
cicio e os olhos cerro:
– Varsóvia…diz algo!…espero

E pianos pela cidade
levantam os tampos calados
levantam sozinhos, ao comando,
pesados, tristonhos, cansados…
e flui da centena de pianos
na noite… a polonaise de Chopin…
Me chamam os clavicordes,
no silêncio sofrido vêm
pela cidade os acordes
das teclas de branco mortal…
Baixo as mãos…é o final…
volta a polonaise pros pianos…
Volto e penso calado
que na verdade é ruim
ter a janela pro outro lado…

Okno na tamtą stronę

Mam okno na tamtą stronę,
bezczelne żydowskie okno
na piękny park Krasińskiego,
gdzie liście jesienne mokną…
Pod wieczór szaroliliowy
składają gałęzie pokłon
i patrzą się drzewa aryjskie
w to moje żydowskie okno…
A mnie w oknie stanąć nie wolno
(bardzo to słuszny przepis),
żydowskie robaki… krety…
powinni i muszą być ślepi.
Niech siedzą w barłogach, norach
w robotę z utkwionym okiem
i wara im od patrzenia
i od żydowskich okien…
A ja… kiedy noc zapada…
by wszystko wyrównać i zatrzeć,
dopadam do okna w ciemności
i patrzę… żarłocznie patrzę…
i kradnę zgaszoną Warszawę,
szumy i gwizdy dalekie,
zarysy domów i ulic,
kikuty wieżyc kalekie…
Kradnę sylwetkę Ratusza,
u stóp mam plac Teatralny,
pozwala księżyc Wachmeister
na szmugiel sentymentalny…
Wbijają się oczy żarłocznie,
jak ostrza w pierś nocy utkwione,
w warszawski wieczór milczący,
w miasto me zaciemnione…
A kiedy mam dosyć zapasu
na jutro, a może i więcej…
żegnam milczące miasto,
magicznie podnoszę ręce…
zamykam oczy i szepcę:
– Warszawo… odezwij się… czekam…

Wnet fortepiany w mieście
podnoszą milczące wieka…
podnoszą się same na rozkaz
ciężkie, smutne, zmęczone…
i płynie ze stu fortepianów
w noc… Szopenowski polonez…
Wzywają mnie klawikordy,
w męką nabrzmiałej ciszy
płyną nad miastem akordy
spod trupio białych klawiszy…
Koniec… opuszczam ręce…
wraca do pudeł polonez…
Wracam i myślę, że źle jest
mieć okno na tamtą stronę…

§

 

As duas mortes

A sua morte e a nossa morte
são duas mortes bem diferentes.
A sua morte é a morte forte
rasga as almas, faz ranger os dentes.
A sua morte é morte por balas,
atirando, entre campos gris
fertilizados com suor e sangue
por algo – …pelo pátrio País.
A nossa morte – é morte estúpida
no sótão ou no porão,
a nossa morte de trás da esquina
chega – uma morte de cão.
A sua morte, a medalha condecora,
menciona-a o comunicado,
a nossa morte – pra terra e adeus –
um depósito de atacado.
A sua morte – é cara a cara,
no meio do caminho saudada.
A nossa morte – é em segredo
na máscara do medo cavada.
A sua morte – é costumeira,
humana e fácil se apresenta,
a nossa morte – é a morte lixeira,
judia e nojenta.
A nossa morte da sua morte
é pobre, longínqua parente.
Quando a sua encontra a nossa
não a cumprimenta, certamente.
Na noite negra entre névoas,
se maldizem as duas mortes,
sobre a cidade – um mar de trevas,
se insultam com verbos fortes.
Sobre a mureta, vendo os dois lados,
espia as brigas escondida,
a mesma esperta, má, gananciosa
e igualzinha Vida.

Dwie Śmierci

Wasza śmierć i nasza śmierć
to dwie inne śmierci.
Wasza śmierć – to mocna śmierć,
szarpiąca na ćwierci.
Wasza śmierć śród szarych pól
od krwi i potu żyznych.
Wasza śmierć – to śmierć od kul
dla czegoś – …dla Ojczyzny.
Nasza śmierć – to głupia śmierć,
na strychu lub w piwnicy,
nasza śmierć przychodzi psia
zza węgła ulicy.
Waszą śmierć odznaczy krzyż,
komunikat ja wymienia,
naszą śmierć – hurtowy skład,
zakopią – do widzenia.
Wasza śmierć – wy twarzą w twarz
witacie się w pół drogi,
nasza śmierć – to skryta śmierć
kopana w masce trwogi.
Wasza śmierć – zwyczajna śmierć,
człowiecza i nietrudna,
nasza śmierć – śmietnicza śmierć,
żydowska i – paskudna.
Nasza śmierć jest waszej śmierci
daleką biedną krewną.
Gdy spotka wasza – naszą śmierć,
nie wita jej na pewno.
I w czarną noc przez smugi mgieł
nad miastem – w mroków piekle,
dwie śmierci przeklinają się,
złorzecząc sobie wściekle.
Na murku – patrząc w strony dwie,
podgląda kłótnię skrycie
to samo chciwe, sprytne, złe
i jednakowe Życie.

 

* * *

Uma coletânea dos poema de Wladyslaw Szlengel foi publicada pela editora Dybbuk (clique aqui) este ano. Os poemas publicados aqui, bem como o texto introdutório, foram retirados de lá.

Anúncios
Padrão
tradução

Goliarda Sapienza (1924-1996), por Valentina Cantori

goliarda

Goliarda Sapienza (1924-1996) foi poeta, prosadora e atriz italiana. Desobediente, incômoda e revolucionária, só quase um século após seu nascimento se tornou umas das maiores vozes da literatura italiana do Novecento.

Nascida na Catania dos anos 20, Goliarda passa a vida inteira imersa em arte e política. Filha de Maria Giudice, importante figura da política italiana, e de Giuseppe Sapienza, advogado socialista, é criada num ambiente intelectual refinado e comprometido, que apoia medidas progressistas e aprecia as tradições regionais de uma Sicília modesta e vibrante.

Muda-se para Roma para estudar na Academia de Arte Dramática; é no teatro e no cinema que inicia sua carreira. A morte da mãe no começo dos anos 50 marca o surgir da atividade poética de Goliarda, que reverte na poesia a própria necessidade de expressão. Nessa época é concebida a coletânea Ancestrale, revelando uma poesia escrita para resgatar a memória e investigar seus dilemas – I luoghi ancestrali della memoria é uma das primeiras propostas de título. O livro, no entanto, foi publicado sessenta anos depois.

Desejo de vida e pulsão de morte se amarram nos versos e na vida da autora, que sofre longos períodos de depressão e tenta o suicídio duas vezes, sendo também internada em manicômio. No começo dos anos 70 ocorre outro fato marcante para sua escrita: denunciada por um furto de jóias, é presa e detida na prisão de Rebibbia, experiência que dá origem a L’Università di Rebibbia, romance no qual relata juntamente a brutalidade do sistema carcerário e o desejo de vida das presidiárias.

Em 1976 termina o romance considerado sua obra-prima: L’arte della gioia, rejeitado pelas editoras durante quase vinte anos, publicado em forma parcial apenas em 1994.

Goliarda – seu nome já é senhal – possui uma escrita autêntica e vigorosa, sem enfeites ou tendências moralizantes, em que persiste o desejo de testemunhar a realidade tangível, bela e áspera conjuntamente. Numa entrevista de 1984, contando sobre a própria vivência no cárcere romano, a poeta lembra que em sua casa se costumava dizer “il proprio Paese si conosce conoscendo il carcere, l’ospedale e il manicomio”. De lucidez apaixonada e pungente, Sapienza é na vida como na arte.

 

Valentina Cantori é formada em Literatura Italiana e Linguística pela Universidade de Roma La Sapienza, possui doutorado em Filologia e Linguística românica pela Universidade Hebraica de Jerusalém e pela Universidade de Macerata. Atualmente leciona língua e literatura italianas em São Paulo.

* * *

 

Cumpriu-se. Concluiu-se. Terminou-se.
Consumiu-se o incêndio. Findou-se.
Fechou-se o círculo petrificado.
Findou-se o tempo. Consumiu-se
o delito. Queimou-se
a lembrança. Cessou a angústia.
Um manto de lava interditou
todo crânio toda órbita esvaziada.
Toda boca no grito interditou.

Fechou-se o círculo. Nada atreve-se a singrar
o silêncio de lava. As formigas
rodeiam o fogo gasto enlouquecidas.

È compiuto. È concluso. È terminato.
È consumato l’incendio. S’è fermato.
S’è chiuso il cerchio pietrificato.
Il tempo s’è fermato. È consumato
il delitto. S’è bruciato
il ricordo. L’ansia è cessata.
Una coltre di lava ha sigillato
ogni cranio ogni orbita svuotata.
Ogni bocca nel grido ha sigillato.

S’è chiuso il cerchio. Niente osa varcare
il silenzio di lava. Le formiche
girano intorno al rogo spento impazzite.

§

 

Para minha mãe

Quando eu voltar
será noite fechada
Quando eu voltar
as coisas estarão quietas
Ninguém vai me esperar
naquele leito de terra
Ninguém vai me acolher
naquele silêncio de terra

Ninguém vai me consolar
por todas as partes já mortas
que carrego em mim
com resignada impotência
Ninguém vai me consolar
pelos instantes perdidos
pelos sons esquecidos
que há tempo
viajam ao meu lado e tornam denso
o respiro, lamacenta a língua

Quando eu chegar
apenas uma fenda
vai conseguir me segurar e mão nenhuma
vai aplanar a terra
sob as faces gélidas e mão
nenhuma vai se opor à pressa
da pá ao seu ritmo indiferente
para aquele fim estranho, repugnante

Pudesse eu naquela noite
vazia pôr a minha testa
no teu grande seio de sempre
Pudesse eu me envolver
com o teu braço e segurando
nas mãos o teu pulso delgado
por pensares agudos
por terrores cortantes
pudesse eu naquela noite
sentir de novo
o meu corpo ao lado do teu vigoroso
materno
gasto de partos tremendos
arrebentado de longas uniões

Mas tão tardia
a minha noite e já
não podes esperar mais
E ninguém vai aplanar a terra
sob o meu flanco
ninguém vai se opor à pressa
que agarra os homens
perante um caixão

A mia madre

Quando tornerò
sarà notte fonda
Quando tornerò
saranno mute le cose
Nessuno m’aspetterà
in quel letto di terra
Nessuno m’accoglierà
in quel silenzio di terra

Nessuno mi consolerà
per tutte le parti già morte
che porto in me
con rassegnata impotenza
Nessuno mi consolerà
per quegli attimi perduti
per quei suoni scordati
che da tempo
viaggiano al mio fianco e fanno denso
il respiro, melmosa la lingua

Quando verrò
solo una fessura
basterà a contenermi e nessuna mano
spianerà la terra
sotto le guance gelide e nessuna
mano si opporrà alla fretta
della vanga al suo ritmo indifferente
per quella fine estranea, ripugnante

Potessi in quella notte
vuota posare la mia fronte
sul tuo seno grande di sempre
Potessi rivestirmi
del tuo braccio e tenendo
nelle mani il tuo polso affilato
da pensieri acuminati
da terrori taglienti
potessi in quella notte
risentire
il mio corpo lungo il tuo possente
materno
spossato da parti tremendi
schiantato da lunghi congiungimenti

Ma troppo tarda
la mia notte e tu
non puoi aspettare oltre
E nessuno spianerà la terra

sotto il mio fianco
nessuno si opporrà alla fretta
che prende gli uomini
davanti a una bara

§

 

Peroração

Não gastes a quentura do teu púbis
não prendas o teu passo em saias justas
de seda turva, mas deixa por favor
teu cabelo acender-se pelo sol
que foge virando atrás do muro.

Não te quero surpreendida pela lua
descobrindo-te forçada numa noite
a gritar arrependida num tal rosto
de senhora ressecada sobre o teu.

Perorazione

Non sprecare il tepore del tuo pube
non serrare il tuo passo in gonne strette
di tetra seta, ma lascia
per favore accenderti i capelli
dal sole che scantona dietro il muro.

Non vorrei che sorpresa dalla luna
ti trovassi costretta in una notte
a gridare pentita con quel viso
di donna dissecata sopra il tuo.

§

 

Separar confluir
espargir no ar
apertar no punho
reter
entre os lábios o sabor
dividir
os segundos dos minutos
diferenciar no cair
da noite
esta noite de ontem
de amanhã

Separare congiungere
spargere all’aria
racchiudere nel pugno
trattenere
fra le labbra il sapore
dividere
i secondi dai minuti
discernere nel cadere
della sera
questa sera da ieri
da domani

§

 

Um voo e o quarto de repente
encheu-se do aroma acre de verão.
A tua voz apagou-se com a luz
que morria no escuro da folhagem.
Um sopro quente alentava nos cingia
e deitadas ficamos a esperar.

Un volo e in un attimo la stanza
fu colma d’un sentore acre d’estate.
La tua voce si spense con la luce
che moriva nel nero del fogliame.
Un fiato caldo alitava ci cingeva
e restammo supine ad aspettare.

Padrão
poesia

Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007)

fiama023

fiama hasse pais brandão (lisboa 1938 – lisboa 2007) foi uma poeta, dramaturga, ensaísta e tradutora portuguesa. estudou letras germânicas na faculdade de letras da universidade de coimbra. faz seu debute literário em 1957, com o livro Em cada pedra um voo imóvel, que lhe rendeu o prêmio adolfo casais monteiro, mas ganha espaço mesmo em 1961, quando junto com outros cinco poetas (gastão cruz, maria teresa horta, casimiro de brito e luiza jorge neto), lança uma revista chamada poesia 61, em que cada poeta contribuiu com uma plaquette. em 1965, ainda o mesmo grupo funda o grupo de teatro de letras. em 1974, fundou outro grupo de teatro, o grupo teatro hoje, algo que revela sua intensa atividade teatral. como tradutora, verteu para o português john updike, brecht, artaud, novalis, tchekov &alii. faleceu em 2007.

sua obra, vasta, ainda não é lá propriamente a coisa mais divulgada aqui no brasil, vide a dificuldade em se achar algum livro, ou até mesmo pdf, da autora; mas sua obra é sem dúvida uma das coisas mais potentes da poesia portuguesa. sem mais, passemos aos poemas.

 

sergio maciel

* * *

Modo Histórico da Cidra

Numa lápide, afinal, num puro tampo
(de mesa), um ente nasce:
o fruto (diáfano); cidra, em si a sua origem;
vem do tempo, celta ou da ibéria, já
me transcende? Ó reino pressuposto de um
vegetal; essa paragem – cidra – no percurso.
Num tempo celebrado, o aniversário.
É um suco mortífero, ou o de um real
aberto porque o vêem muitos modos ou o dizem.

Meus anos expostos (a frutos) que formas
confirmaram: ou, mais longínquo,
houve o soalho: no espaço a hora ocorre.
A omissão de cidra ou mármore ágrio é um dom
do luto: meu exercício e o mundo.

E que urna ou ornamento (essa mesa)? É
um sentido vário; não que pareça,
mas, quando imóvel, muda. A emoção de ser
corpo (um fruto) decomposto que hoje
recrio ou lego: a minha existência
(entre os iberos) urge.

15 Agosto 69

 

§

DESDE QUANDO?

Os dois vultos encaminham-se hoje
para o pinhal. Entram
na cancela delineada. Será possível
saber qual a parte do Todo ou sinédoque
verdadeira. Transposta a caocela
o primeiro desejo de ambos
é escolher a clareira. Vêem pedras
espelhadas, várias flores miríficas
como as candeias rasteiras
com a sua coifa arroxeada e o pavio branco
estranho. Olham toda a periferia
para recompilar as árvores que os rodeiam.
Num manso pinheiro próximo
podem arrancar o córtex
já seco e solto.

Entalhadeiras
de pequenos artefactos, vasilhas e baixela
miniatural, cor castanho poroso e de leveza
surpreendente. O ofício diário industrioso
torná-las-á figuras móveis
do microcosmos. Cada uma traz uma navalha,
e a mais experiente entalhadeira ensina
a indústria matinal
à mais nova praticante da metafísica.

Depois, todas essas manhãs se juntam
numa cadeia de elos semelhantes.

§

Nunca manhã suave

Nunca manhã suave me havia interrompido noites com hipérboles
em que ao abrigo do sonho germinara uma imagem. Mas os vultos
linhas de tracção para a terra estado sólido adquirido
pela flutuação demonstravam um termo. As cores oníricas
matizavam o nascente que não se espelha no olhar mas transborda.

Podia a força da madrugada perturbar os impulsos. O orvalho embebera
a medula e assim o pólo das imagens se aglutinou.
Mesmo que este bafo exausto sufocasse o corpo nocturno
a sintonia no limiar do nascente é expressa com os versos
sobre o nexo entre as cabeças unidas situadas na luz.
O alvor matinal confuso entre a atenção ao sonho
e a distracção. A espiral cintilante do conjunto das frases
que oscilam sob o poder da noite e se levantam pela seta do sol.

 

§

Nada tão silencioso como o tempo
no interior do corpo. Porque ele passa
com um rumor nas pedras que nos cobrem,
e pelo sonoro desalinho de algumas árvores
que são os nossos cabelos imaginários.
Até nas íris dos olhos o tempo
faz estalar faíscas de luz breve.

Só no interior sem nome do nosso corpo
ou esfera húmida de algum astro
ignoto, numa órbita apartada,
o tempo caladamente persegue
o sangue que se esvai sem som.
Entre o princípio e o fim vem corroer
as vísceras, que ocultamos como a Terra.

Trilam os lábios nossos, à semelhança
das musicais manhãs dos pássaros.
Mesmo os ouvidos cantam até à noite
ouvindo o amor de cada dia.
A pele escorre pelo corpo, com o seu correr
de água, e as lágrimas da angústia
são estridentes quando buscam o eco.

Mas não sentimos dentro do coração que somos
filhos dilectos do tempo e que, se hoje amamos,
foi depois de termos amado ontem.
O tempo é silencioso e enigmático
imerso no denso calor do ventre.
Guardado no silêncio mais espesso,
o tempo faz e desfaz a vida.

 

§

Considero à vista o poema
uma gota de lodo, pois é possível
pintá-lo com o bico superior alto
e o bojo rotundo cheio
de esquírolas e de depósitos.
Escuro e medonho foi como
os renascentes me indicaram
o abismo do mar. Os hipostáticos,
os frenéticos românticos
ao sentir brotar o terror existencial,
viram que o elemento água
ensopava a alma e os olhos
sem diferença, e que o estrépito
das situações extremas no mar
traduzia o pânico de morrer.

Considero o poema o mar,
com uma pasta arroxeada
no lugar mais adequado à água.
Também tem um fundo
de desperdícios, uma dimensão
espaçosa cheio de cavername
solto, que me obriga
a ranger como uma arte
os meus ossos de poeta,
sem nenhuma crença herética,
senão a de que a morte teve noções
diversas e que a noção mais cruel
foi a que a assemelhou tanto
à vida, que os meus contemporâneos
a sentem como a ser assistida
imediatamente pela sua consciência.

Para quem como eu viu
o próprio corpo do poema
tomar uma configuração mole,
semelhante a um licor
em gotículas ou à de coágulos,
estando longe de mim neste caso
uma associação de ideias
com a morte ou a agonia,
esta hora é já
a imagem de púrpura
de um ocaso impessoal.
Olhado como uma abóbada
de pele plástica estendida
e repuxada pelos querubins,
que não quero esquecer
como anjos necessários,
que os bizantinos confundiram
em demasiados pormenores
com aves nítidas, tantas vezes
azuis enquanto o céu se dourava.

 

§

POEMA PARA A PADEIRA QUE ESTAVA A FAZER PÃO
ENQUANTO SE TRAVAVA A BATALHA DE ALJUBARROTA

Está sobre a mesa e repousa
o pão
como uma arma de amor
em repouso

As armas guardam no campo
todo o campo
Já os mortos não aguardam
e repousam

Dentro de casa ela aguarda
abrir o forno
Ela em mão que prepara
o amor

Pelos campos todos armas
não repousam
mais os mortos
ter amor

Sobre a mesa põe as mãos
pôs o pão
Fora de casa o rumor
sem repouso

Ela agora abre o fogo
para o pão
em repouso ela ouve os mortos
lá de fora

Lá de fora entram armas
os homens
As mãos dela não repousam
acolhem

Sobre a mesa pôs o pão
arma de paz
Contra as armas da batalha
arma de mão

Contra a batalha das armas
não repousa
Caem contra a mesa os mortos
contra o forno

Outra paz não defende ela
que a do pão
Defende a paz que é da casa
e das mãos

Padrão
poesia

3 poemas inéditos de Lucas Perito (1985-)

0

Lucas Perito (São Paulo, 1985) é graduado em Comunicação em Multimeios pela PUC-SP. Escreveu livros ligados a história e fotografia, fazendo os textos de acompanhamento para o livro fotográfico “Caminhos da Mantiqueira” (2011) de Galileu Garcia Junior. Publicou seu primeiro livro de poemas, 38 Movimentos, pela Lumme Editor (2018). Tem poemas publicados em algumas revistas brasileiras, além de algumas revistas de Portugal, Espanha, Galícia, Colômbia e Peru. Tem traduzido Charles Cros, David Diop, James Wright, Amparo Osorio, Abdellatif Laâbi, María Emilia Cornejo, Jacques Prevel, Hector de Saint-Denys Garneau, entre outros.

* * *

 

Degredo

Indexado entre a língua e a pele
exilado no corpo
como massa informe
dispersa o eco e a matéria.
Nomeio dentre os selvagens
…………………………………………………..[os mais modernos
do outro lado da noite.
Fraturado frente às costelas
manchado entre uma cidade
desenha-se um acidente biográfico.
Sem rumo, vagam vagas,
………………………………………………[sem rumo
despenca atado a um gosto na boca.

§

 

Figuras de Manejo da Memória

Busco um rosto retirado de duas mãos
Se completam e desfazem
São cavalos sobre o sal da terra
– Silenciam.
Persigo um rosto e pertence à noite
Em ruínas que só as raposas conhecem.

Uma lanterna aponta, em um quarto – unidas –
Vozes úmidas conjuram os nomes de origem
Em algum lugar do espaço
Correspondem-se, sem razão,
Duas feridas e um fruto mordido.

§

 

Agiografo

Para René

Contempla a si mesmo como um fruto estéril
À pele, o que há de mais profundo,
A solidão dos objetos e a forma de algo cru
Se mantém entre a vigília e o sono
Por trás da boca, a face extinta

 

Padrão
crítica, xanto

XANTO | Estudando a voz de Edimilson de Almeida Pereira, por André Capilé

w1siziisimvkawnvzxntywnvbmrvl3byb2r1y3rzl2q0ntvjntg3otuyngjkndeyywe4ntdlmtiynmu0mthloda4mmywztkvaw1hz2vzlzu5mzc1y2flltuynwitndblmi1hntq2lwizyjg5ogfindk4ysjdxq

Contenda: palavra que interessa, muito e de perto, dada a tensa operação entre os circuitos pelos quais transita Edimilson. A justa disposição para o jogo, nem sempre evidente em seu regramento, de arregimentar cenas da memória vivida, junto da infensa tarefa de levantar os documentos do escorbuto e dos escombros, mais a experiência de campo na escavação de si mesmo na voz de outros, encampam o universo de contensão do poeta. O invariável do choque, quando fios de oposição entram em contato e fazem vibrar, desde sua peculiar sintaxe de revel, atravessada, ainda, por um infestado mundo substantivo, descortina a obra de contenção do poeta, quase, sem adjetivos.

Afeito aos nós do sentido, trançado nas fendas do estranhamento e das tensões dissonantes, parte considerável dos poemas de Edimilson imprimem, em um primeiro contato, uma presente sensação de desconforto que, mesmo após outras investidas, vai se tornando constante — o que não compromete a fruição do texto, seja bem dito.

Ora, é inegável que a prática do poema atuando em função de sua obscuridade foi um dos legados da “estrutura da lírica moderna”. Contudo, tal intenção era manifesta — o que acabou por transformar o plano da estranheza e da dissonância em cartilha, de modo tão veloz quanto cresceram as cidades e as máquinas foram cantadas no correr do século passado. Tal hábito faz, ainda hoje, com que o leitor educado nas raias dos modernismos saia como quem lava as mãos, sem grandes ruídos ou resíduos.

Do repertório de formas que Edimilson lança mão, assiste-se a uma variada gama de modalidades de verso livre. Mesmo quando lida com o recurso da prosa, quase que invariavelmente soa, e se endereça, como versificação convencional. Embora não utilize, de modo sistemático, um preceito de modos e medidas, eventualmente alguns de seus poemas esbarram nos limites de certas tradições métricas. Estudando esse modo de fala, ainda que arbitrário por consequência da escolha pela leitura de um poema apenas, observe-se o flerte com a fatura do canto, logo abaixo:

 

Mulher estudando a voz

não para ganhar dinheiro.
Talvez fale do trabalho
entre rixas no mercado.

Estuda a voz porque olha
afora do mercado. Na
vida deslinda negócios

frutos de vário estrago.
Estuda a voz no tango
pelas mulheres que chora.

Sua voz quando sua ouve
outras como recado.
Conversam as filhas avós

pelo correio do sangue.
Mulher estudando a voz
é uma escola e tanto.

Sua cabeça em grisalhos
calcula dentro do canto.
E o canto é como gesta

de mãe antiga moderna.

 

Em “mulher estudando a voz” flagra-se a captura de uma cena cotidiana. Tal elemento, que figura entre algumas das preferências temáticas de Edimilson, comparece no balanço dos compassos de seu Veludo Azul, livro republicado agora pela Edições Macondo.

Embora tenhamos uma indicação de cenário — o mercado — a ação é construída sem que haja ampliação de informações exteriores no espaço. É dentro da vida, no comércio da existência “afora do mercado” — cuja a ação cede lugar para o desenvolvimento do sujeito como paisagem —, que se estabelecem as zonas de resolução e conflito [na vida deslinda negócios // frutos de vário estrago].

A demanda da preparação, “estudar a voz”, implica sair de si [estuda a voz no tango / pelas mulheres que chora] e, quando do uso de seu instrumento, apontar um movimento de escuta [sua voz quando sua ouve / outras como recado] encampando, no exercício, uma espécie de entrelaçamento de um outro em si mesmo.

EAP joga, de modo constante, com a criação e quebras de expectativas, utilizando a justa associação de motivos corriqueiros [sua cabeça em grisalhos] com flagrante senso de ordenação poética [calcula dentro do canto], administrando tensões que, em suas bordas, quase sempre apontam para a reflexão sobre a linguagem [e o canto é como gesta] e suas relações com a malha social [de mãe antiga moderna]. O que permite, em feliz expressão de Fábio Lucas, “[a] abertura do inacabado, da estrutura em andamento”.

Mas ainda há outro interesse, nesse passo de análise, que é demonstrar como EAP utiliza suas ferramentas de versificação para, então, extrair novos componentes na fatura de sua obra ainda, e sempre, em progresso. Vejamos:

eap

A contar do título, que está amarrado ao correr do texto, têm-se um total de vinte versos. Doze deles marcam o registro rítmico do setissílabo, seis são hexassílabos e, finalmente, dois são oitissílabos. O regime, embora polimétrico, registra a marcante incidência da redondilha maior.

Todavia, como somar sílabas é muito pouco, avancemos a análise — mas antes uma nota de perfumaria: note-se que a maioria dos versos, exceto dois deles, se apresentam regularmente como trímetros e, como dito mais acima, de vez que há um flerte com o canto, a música que se endereça aqui toma dos tons da vida comum o aspecto estratégico, e estrutural, da associação do blues com os cantopoemas do congado, objeto de estudo do autor enquanto poeta-antropólogo — o que não será possível discutir aqui, mas fica dada a nota.

O primeiro andamento estrófico apresenta um contrato em redondilha. Não se forma nenhum tipo de unidade rítmica, embora os dois primeiros versos, inclusive o título, afirmem o tema de saída em um desenho acentual que se repete entre eles, possivelmente como preparação e/ou marcação de um possível pacto de medida.

Ainda, tomando como análise a partida do poema, são apresentadas duas vogais temáticas que serão recorrentes: /á/ e /ó/. A primeira, a meu ver, ligada ao “mercado” — termo que reincide, trançando os planos de dentro e de fora [no mercado / afora do mercado] — e a segunda, ligada à presença da “voz”, que vai criando permutas sonoras até a estrofe 5.

Se no instante inicial o corpo sonoro se dá entre /á/ e /ó/, enquanto a “voz” se imbrica no conflito do comércio, é justo na saída do “mercado”, quando comparece a assonância /i/ marcando a passagem, “(..) na / vida deslinda negócios”, que se assiste a marca vocálica /á/ em corrosão: “vário estrago”.

Estando o contrato métrico aparentemente resolvido em arte menor, ao menos em sua primeira metade, o poema, quando apresenta de modo mais afirmativo a presença do outro, começa então a modelar constâncias rítmicas mais marcadas. Contudo, na posição média do poema, estrofes 3 e 4, observa-se uma maior irregularidade, como se ali se instalasse uma preparação antes de retomar a cena rítmica.

Embora exista uma breve regulação nos versos 8 e 9 — compostos em hexassílabos, mais as aliterações em /t/ e /v/, além da modulação entre [ó] e [ou] — é possível que o desvio, dito um pouco antes, esteja assim colocado para chamar a atenção para uma sutil mudança de registro: a passagem do estudo para o uso da voz que, em seguida, na conformação do ritmo e na retomada do contrato estipulado, vai dar curso à passagem da voz ao canto. Cabe, para registro, observar o requinte da transição das aliterações /v/ para /c/ e das assonâncias /ó/ para /ã/, além do uso marcante do hexassílabo jâmbico, nos versos 9, 16 e 19, que acentua, ainda que discretamente, a gradação dessas mudanças.

Em se tratando da cadeia de ritmos, uma vez que não há utilização fechada de sistemas métricos definidos, faz-se necessário trabalhar de modo um pouco mais elástico as noções do verso como unidade de som e sentido. Desconcerto, desvio e ruptura. Deslocamento, transição e quebra. Ambivalência, evasão, mobilidade e intervalo. Enfim, a peleja das entrelinhas, entre rasgo e dobra, simulacro e dissimulação que, fora do curso de sinopse que ora é exposto na tentativa de leitura desse poema, são termos e motivos recorrentes na voz de Edimilson de Almeida Pereira que, nas últimas três décadas, tem proposto em sua extensa obra e comparecem de modo vigoroso em Veludo Azul.

Padrão
poesia

1 poema inédito de Leila Danziger

10857208_1136894756327403_1115146407768535745_o

LEILA DANZIGER é Artista plástica, poeta e professora do Instituto de Artes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) desde 2006, pesquisadora (CNPq e Faperj).

* * *

 

OZ NA CINELÂNDIA

No dia em que comemorava
vinte e cinco anos
meu pai perdeu
seu pai.

………………………….Na manhã
em que faria noventa
e sete no jornal
a manchete –

Amos Oz, Israeli Literary Giant, Dies at 79

e não
…………….não há nexo algum
apenas relutância
em aceitar
a morte –

ao anoitecer
da sexta-feira
rezo

……………de pé
numa livraria
onde entro ao acaso
e leio um poema
de Yehuda Amichai
sobre seu pai
que rezava
…………….imóvel, obrigando Deus a oscilar
…………….como junco e rezar a meu pai
que tenho certeza
não rezava
como os personagens de Oz
tampouco rezam
ao acordar
às 5 da manhã
vestem-se com a camisa azul dos pioneiros
fazem rondas e rondas
recebem o vento do deserto
abraçam os próprios ombros
…………….como se sentissem sempre frio
cravam as sandálias na terra
e as vezes
se balançam
como o junco

ou
como as palmeiras

transplantadas
ao Brasil onde Oz esteve
três ou quatro vezes –

caminhou no Aterro? na Cinelândia?
sentou-se no Amarelinho?
talvez

próximo à mesa
em que seis monges
almoçavam em julho
ou agosto
o que me recordo
agora
neste último shabat do ano
em que os jornais noticiam –

Amós Oz morreu

sem
a paz.

Rio de janeiro, dezembro de 2018

Padrão
poesia

Marcelo Ariel (1968-)

marceloariel

Marcelo Ariel no evento Literatura e(m) performance, UFPR (novembro/2017). Foto de Rodrigo Tadeu Gonçalves.

Tratado dos Anjos Afogados, livro que reuniu vinte anos de produção poética de Marcelo Ariel, completa, em 2018, dez anos de publicação. Nesse ínterim, o poeta publicou mais de uma dezena de livros de poesia, prosa e textos diversos, por editoras convencionais, artesanais e cartoneras.

Desse volume chama a atenção a seção “Vila Socó: Libertada”, conjunto de poemas que tratam de Cubatão – cidade na qual o poeta viveu grande parte de sua vida – e sua trajetória arruinada: de maior polo industrial do país a uma das cidades mais poluídas do mundo, na década de 80. Há, nesses poemas, um mosaico de imagens do caos ambiental, do descaso do estado e do fracasso do modelo desenvolvimentista, compondo uma das linhas de força da voz poética de Ariel que se faz presente em vários de seus escritos: a necessidade de falar da barbárie, da catástrofe, do horror.

O massacre dos indígenas, Canudos, Carandiru, a destruição ambiental de Cubatão, Auschwitz, a condição do negro nas periferias, Palestina, Hiroshima e Nagasaki. Guardadas as proporções e os contextos históricos, são diferentes situações nas quais pode-se perceber a capacidade destrutiva do homem e que, justamente por isso, interessam a Ariel: é preciso não esquecer e é preciso, para esse poeta, que se entenda o continuum do horror que constitui a experiência de grande parte da população mundial.

Ariel – nome artístico de Marcelo – é um arcanjo importante nas tradições hebraica e cristã, mensageiro da voz divina em alguns momentos dos relatos bíblicos e até mesmo personificação da Terra Santa em outros. Podemos pensar no Ariel de Marcelo como uma espécie de “Anjo da História”, ao modo de Walter Benjamin ao falar do Angelus Novus, de Paul Klee: o poeta, assim como o anjo da imagem, olha para o passado e vê uma única história de catástrofe que “amontoa escombros sobre escombros e os arremessa a seus pés”.

Mas, Ariel em seu gesto contemporâneo é, como nos diria Giorgio Agambem ao pensar sobre Ossip Mandelstam, aquele que mantém “fixo o olhar nos olhos do seu século-fera”, soldando “com seu sangue o dorso quebrado do tempo (…)”. O poeta (Ariel, Mandelstam) é “aquilo que impede o tempo de compor-se e, ao mesmo tempo, o sangue que deve suturar a quebra”.

A sobreposição do tempo do indivíduo e suas experiências ao tempo histórico onde se situam as experiências coletivas, e o trabalho de tentar soldá-los, suturá-los, evoca justamente a ideia de Benjamin em relação ao Anjo da história. Esse anjo olha para o passado a partir do presente e tem o desejo de “juntar os fragmentos” das ruínas que ele observa, diretamente de seu contemporâneo. Ao mesmo tempo ele tenta reagir à rajada de progresso, costurar e colar as vértebras desse tempo que o compõe e é composto por ele, simultaneamente. O poeta impede que o tempo se recomponha sem que haja uma reflexão sobre ele e é isso que vemos na poesia de Mandelstam, assim como na de Ariel, já que este sabe que a promessa do progresso é o prenúncio da miséria: “Houve um vazamento de enxofre anteontem seguido de uma chuva ácida”.

Assim, os inúmeros processos de destruição – materiais e psíquicos – aos quais somos submetidos na era do capital e da tecnologia são matéria essencial da matriz poética de Ariel. Entretanto, é importante registrar: não se trata de uma poesia preocupada em representar o real ou de tentar mimetizá-lo através da linguagem poética. A extensa e profícua obra de Marcelo Ariel é fundada sobre a consciência do quão impossível seria tentar representar e transmitir as imagens do horror.

O poeta sabe que a linguagem é, por excelência, falha. Leitor de Maurice Blanchot, de Stéphane Mallarmé, de Paul Celan, reconhece a impossibilidade efetiva das palavras de dizerem: “a linguagem se confunde com um enorme campo coberto por uma densa névoa”, nos dirão alguns de seus escritos. E nisso funda mais um de seus eixos poéticos: um intenso e profundo embate com a língua e a linguagem. E a poesia surge exatamente daí: como a possibilidade de dilatar os limites e tensionar as impossibilidades do falar. Supostamente, responde Yves Bonnefoy em um dos poemas de Ariel: “Não posso resumi-la, mas a poesia é antes de tudo um modo de lutar contra a linguagem”.

Essa compreensão sobre o não-dizível guardado em tudo que é dito – ou que almeja sê-lo – leva à construção de um universo poético repleto de imagens de sono, sonho, nuvens, vapor, névoa, onde nada é, e onde há a tentativa constante de banir paradigmas, sejam eles os conceituais, os ideais, os ontológicos, inclusive, talvez principalmente, o próprio conceito de “eu”, poético ou não: “…sempre haverá a demanda do não-eu em algum lugar de mundo nenhum”.

Contraditório? Profundamente. O próprio poeta reconhece – em entrevistas – esse aspecto e o afirma como elemento poético, enquanto força de afirmação da própria vida, contraditória por excelência, da qual sempre se pode extrair o sublime. Mesmo quando um menino fumando crack atravessa a rua ou o poema. Aliás, para Ariel, o único “opaciamento” inaceitável é contra o sublime.

Sublime este encontrado na brutalidade do cotidiano e, principalmente, no universo das artes e do pensamento.

Ariel constrói como base poética um intricado complexo de alusões e citações diretas a poetas, músicos, pintores, filósofos, pensadores, utilizando também trechos e traduções de obras, não só como epígrafe, mas como parte integrante de seus poemas.

Procedimento presente em muitos poetas contemporâneos que remonta a tradições poéticas milenares, em Ariel, o intertexto ganha outro tipo de proporção, em um intenso processo de referenciação, no qual há espaço não só para a tradição literária ocidental, como também para filósofos e escritores orientais, em meio à citação de trechos da carta de fundação do Primeiro Comando da Capital.

Forjando entrevistas com nomes importantes dentro de seu panteão pessoal, simulando diálogos impensáveis ou imaginando sonhos sonhados por outros, Marcelo Ariel arquiteta uma rede de sentidos e de não-sentido, sobrepondo sua experiência de leitor e sua voz poética, tecendo algo que ele já não deseja chamar de poesia, mas de uma forma híbrida, que trasborda o próprio verso e se converte em um arquivo labiríntico: “Por absoluta necessidade vou continuar escrevendo dentro dessa filosofia mística torta (Ver Ulpiano e Coltrane), barroco-aracniana (ver Deligny e Lezama), mestiça e infrareal (ver Bolaño e Oswald). A micropolítica da invisibilidade na cachoeira da obscuridade, como ouvi de mim mesmo num sonho”.

Há uma indefinição quanto ao entendimento do lugar ocupado pelo poeta Marcelo Ariel. Ora é possível apresentá-lo como uma voz singular que o torna isolado de seus contemporâneos, ora como um “poeta de seu tempo”, ou seja, alguém que se situa prontamente entre os seus, sem que haja uma determinação ou adesão a nenhum desses supostos extremos, configurando assim sua não-adesão.

Os poemas de Ariel não se encaixam perfeitamente em nenhum rótulo. Alguém que está aqui, hoje, tentando soldar as costelas partidas da memória de nosso processo de modernização precário e negligente, ao mesmo tempo em que transforma em matéria poética o suicídio de alguns de seus poetas preferidos. Constituindo, assim, um tensionamento de nosso discurso sobre a boa poesia brasileira e seus signatários.

A “brutalidade jardim”, resultado do embate do poeta com o horror do mundo, também compõe o olhar que se preocupa em escrever sobre a morte de grandes poetas e de traficantes; o silêncio de Paul Celan guarda semelhanças com o do menino que invade o poema enquanto fuma crack; o real das bibliotecas é tão potente quanto a realidade brutal da cidade na qual se vive.

Em Ariel, todos esses acontecimentos, cenários e “personagens” merecem um comentário através de um poema, mas sem que ele seja uma voz inflamada pela dor, pela cólera ou mesmo pelo amor, pela compaixão. Quase não há possibilidade de perceber o que sente essa voz poética em razão de sua dessubjetivação. Nós sabemos que o poeta é tocado por tudo isso pelo óbvio: a escolha em trazer como componentes de seus poemas esses temas, e dessa forma. Ou seja, pela opção de tocar com sua palavra e com sua linguagem cada um desses termos que o rodeiam através não de um relato, de um texto narrativo, mas através do texto poético, lugar onde a palavra tem a supremacia. Ariel entende essa idiossincrasia e se alinha junto de seus mestres na tentativa de empreender, ele também, uma reflexão sobre o que permite o seu trabalho: a linguagem.

Embora não seja ingênuo, a literatura é sua profissão de fé e a poesia uma promessa de mudança, devido ao fato de que entre ela e o real da vida não existe separação: “(…) há uma nítida apartação entre os poetas e a realidade suja do ‘em torno’, que é no máximo citada como cenário dos poemas e não como centro de onde eles se irradiam, que é o que tento fazer nos meus, apesar da guinada maldita para a névoa metafísica (…). A poesia entra nesse contexto como um enfrentamento do vazio proposto por estes dois projetos de seqüestro, estupro e esquartejamento do espírito. O que encontrei no exercício da poesia foi, em poucas palavras, um sentido maior para o meu egoísmo. No fundo, o maior poeta de todos os tempos, o Qoélet, autor do Eclesiastes, estava certo: Tudo é vaidade, mas a poesia, quando é realmente vivida como uma verdade da existência do indivíduo, é capaz de dar um sentido elevado para o egoísmo e para a vaidade, um sentido que transcenda o mercado. Mas não só a poesia, a arte em geral, quando é autêntica e leva em conta a realidade exterior a partir de um centro interior, é capaz disso. Van Gogh não é um banco, Picasso não é uma marca de automóvel”. (Ariel em entrevista para o escritor Nicodemos Sena).

A poesia é, assim, uma possibilidade de enfrentamento diante da barbárie, do vazio, da morte, ao mesmo tempo que se estabelece como o espaço no qual o poeta pode comentar, livremente, as fontes que compuseram e compõem continuamente seu percurso como leitor. O discurso poético é o lugar do qual Marcelo Ariel dispara sua scherzo-rajada.

apresentação de Diamila Medeiros
(para ler a dissertação de Diamila sobre a poesia de Marcelo Ariel clique aqui)

Marcelo Ariel é prosador, poeta, ensaísta e performer. Nasceu em Santos-SP (1968) e é autor dos livros Me enterrem com a minha AR 15 (Dulcinéia Catadora, 2007-Esgotado), Tratado dos anjos afogados (LetraSelvagem, 2008), O céu no fundo do mar (Dulcinéia Catadora, 2009-esgotado), Conversas com Emily Dickinson (Selo Orpheu/Multifoco, 2010-esgotado), Samba Coltrane (Yi Yi Jambo Cartonera, 2011-esgotado) , A morte de Herberto Helder (Sereia Cantadora Cartonera, 2012), A segunda morte de Herberto Helder (21 Gramas-esgotado), Diário Ontológico I e II (Pharmakon, 2014), Retornaremos das cinzas para sonhar com o silêncio (Editora Patuá, 2013), Urchatz Gaza (Lumme, 2014), Para sempre (Lumme, 2014), Gilberto Mendes –Encontros (Azougue Editorial, 2015, Org. ), O rei das vozes enterradas (Córrego, 2015 ) e Com o Daimon no contrafluxo (Editora Patuá, 2016). Além disso, participou de diversas antologias aqui e no exterior, tais como: Mehr alls bucher, org. Timor Berger (PapperLapPapp\Berlin, 2010), Poesia para el fim del mundo, org. por Estela Mendonza (Kodama cartonera\México, 2013), Poètes du Brésil aujourd’hui, préparé par Ines Oseki-Dépré (Action Poétique\Paris\France, 2011) entre outras. Coordena o Laboratório de Equizoanálise Literária em Santos-SP. Lançou, neste ano, A névoa dentro da nuvem Prosa Reunida – 2012 -2016, pela Lumme Editora, e A Rainha do fogo invisível seguido de A morte de David Bowie, pela Rubra Cartoneira.

* * *

Uma delicada tessitura

se constrói na memória, onde a linguagem se confunde com um enorme campo coberto por uma densa névoa.
Talvez não exista um ‘Sol da palavra ‘ mas certamente há um’ Sol de silêncios ‘ que devagar e decididamente, queimará a névoa e o que veremos desfeito o etéreo opaciamento de tudo serão pequenas gotas de orvalho e iridescências capazes de revelar estas tessituras.
Este pequeno e precioso momento é como um pequeno bordado feito com pontos na névoa, costurado cuidadosamente com os raios de silêncio de uma manhã que apenas pressentimos.

§

Carta para João Gilberto Noll

há um calafrio na fé do meu corpo. ter de suportar mais um dia e o meu olhar certeiro, traduzindo minhas partes mais imundas, andando a prumo retraído, carcomido pela fé quase esvaziada, mas eu caminho, mas eu pulo. ah, eu também grito , aprendi a movimentar os meus gozos mais sutis, aqueles que consigo atuar na mossoroca que meu esqueleto com pele e carne e pelo está girando e girando, olhando pro céu e se mexendo, andando entre escombros e encenando a cena final do que seria uma salvação, e de tempo em tempo deposito um sutil gozo amarelo-quero-mais. é a fé ainda, é a agonia desvirada da lucidez transfigurada pela circunstância.

Uma fé parecida com o pó flutuando na luz, procurando o esvaziamento de uma paz vegetal, uma síntese dessa impossível transfiguração, e continuo girando debaixo deste abismo azul-do-nunca-mais, os estilhaços de um cansaço sem começo nem fim, esvoaçam por dentro, mesmo parada estou correndo como uma corça no escuro, na direção da cama-barco-savana, na direção de um campo de silêncios, sem jamais ouvir alguém chamar meu nome

os átimos de meus cílios pesados pressentem o peso a acrescentar-se em minhas pálpebras, e reverberar-se em meus ombros, e despojar-se do restante do corpo, conhecendo célula por célula como o banho de mar-pesado deitado sobre meu corpo-objeto deixa micro-objetos no fim da tarde. espumas de passagem, acredito que meus ombros também já carregam o quase acontecimento e começam a transmitir para os meus pés o sinal de reações adversas que eu traduzo em estranhamento-entranhamento, congelando no tempo , sinto meu estômago gargalhando do desafio de estar encoberta pelo manto do som do que ainda não existe

esse triunfo de não se reconhecer no próprio nome, exatamente o oposto do que acontece com as outras sombras, que não se reconhecem no próprio corpo, neste momento que separa o existir e o viver do estar sendo a chuva para e um improvável raio de Sol cai e entra no mar

Rudá Abaé!

§

O Menino orquídea

Para Gil Veloso e Caio F.

que o corpo é uma floresta
por dentro

há corpos jardim ?

sim, como uma canção
O seu é uma orquídea
Descobri isso
quase no fim
do não entendimento

Descobriu o quê?

vamos voltar
para o começo
do poema
É para isso
que servem
as flores
que nascem
pelos caminhos

Para que?

Voltar
E no instante
fora do tempo

tudo ficou nítido?

o verdadeiro corpo
não nos abandona
jamais
Vocês estavam certas
Gertrude, Clarice, Hilda

era a orquídea
me dizendo
que só existe
uma alma
para tudo o que existe

está vendo agora?

Sim

§

Dois ônibus se cruzam em sonho, numa dimensão paralela

1+1=1 como ir ao cinema e depois ver o mar
o discurso das ondas,o fim das fronteiras
nossa vida secreta
‘ A Ilha perdida ‘ , foi graças a ela que te conheci
Chet Baker sorri para Elis Regina
Uma tartaruga gigante
e um cavalo-marinho
Van Gogh sem o suicídio
Rimbaud sem a ida para Abissínia
A carne desce à lama, A chama some.
A Seiva se derrama. A terra chama
naturalmente livre
como uma borboleta
atravessando o ônibus lotado
como os silêncios intersiderais
depois descemos
parcialmente derrotados
para toda parte e todo lugar.

§

Infelizmente, o plataforma do wordpress não aceitou a formatação do poema COMO SER O NEGRO, porém, como julgamos ser um poema fundamental dentro da obra de Marcelo Ariel, deixamos aqui um link para que o leitor possa conhecê-lo (clique aqui).

 

 

Padrão