poesia

Alguns inéditos de André Capilé (1978-)

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André Capilé é um poeta brasileiro, nascido em Barra Mansa, Rio de Janeiro, em 1978, e já apareceu aqui na escamandro (clique aqui). É graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Mestre em Letras pela PUC-Rio. Doutor em “Literatura, Cultura & Contemporaneidade”, também pela PUC. Publicou rapace [2012 – Editora TextoTerritório] e balaio [2014 – 7Letras]; traduziu, para a Edições Macondo, “The Love Song of J. Alfred Prufrock” na coleção Herbert Richers. Tem previsão de lançamento e relançamento este ano pela editora TextoTerritório.

* * *

das flores que comemos desde antanho
quando chamou-me irmão em suas linhas

— leitores do desastre e arte mesquinha —
a vida ainda não tinha esse tamanho

do horror batendo à porta nos chamando.

§

 

a inversão dos sinais indiciava
: se a vara é curta, então cutuque a onça.

contavam que a urutu mordesse em brasa

e a baba do tinhoso lá se via
armada em meio ao medo a cada esquina.

§

 

há ceia farta até num galho morto

ao ver na fruta empenhada, futura
a força de seu peso antes da colha.

§

 

e o verde da miséria observava
a trama da anti-história que assobia.

na pressão manifesta dos desejos,
de corpos atritando-se entre beijos,

naquela encruzilhada de onde um sol
detrás da barricada avolumava.

§

a máquina da morte nos chegava
coturna como a besta trincadentes.

(bandeiras vão voar — um viva às bruxas
— feitiço rubro na língua das ruas,

nos vimos horizonte olhos nos olhos,
e o abraço que nos demos fortaleza

foi grão de resistir mas não por medo).

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tradução

Anne Boyer (1973-), por Rafael Mantovani

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Anne Boyer (nascida em 1973) é uma poeta e ensaísta dos EUA. É vencedora de alguns prêmios de poesia e atualmente leciona no Kansas City Art Institute. Entre seus livros publicados, destacam-se “Garments Against Women” (2015) e “A Handbook of Disappointed Fate” (2018). Para 2019 está previsto seu novo livro de poemas, “The Undying”, acerca de sua experiência como paciente de câncer. Sua escrita assume frequentemente a forma de ensaios poéticos e poemas em prosa ou narrativos, demonstrando pouca preocupação com a distinção de gêneros.

O primeiro dos poemas a seguir é, segundo a autora, uma interpretação livre do Encantamento 189 do Livro dos Mortos egípcio. Os Livros dos Mortos (porque havia inúmeras versões) faziam parte de rituais funerários, e eram basicamente compilações de fórmulas mágicas para proteger a pessoa defunta na perigosa jornada pelo mundo dos mortos. O Encantamento 189 especificamente pretende evitar que a pessoa seja virada de cabeça para baixo, assim invertendo o processo digestivo e fazendo-a ingerir urina e fezes.

Conheça mais em
https://www.poetryfoundation.org/poets/anne-boyer
http://www.anneboyer.com/

Rafael Mantovani

* * *

Eu não vou comer bosta

o que eu realmente odeio, eu não vou comer; o que eu odeio é bosta, e eu não vou comer bosta. Não vou consumir bosta. Não vou experimentar bosta. Não vou deixar que a bosta chegue perto dos meus dedos. Não vou relar o braço na bosta, e não vou encostar nela nem com a ponta do pé.
“Você vai viver do quê,” dizem para mim os poderosos, “se não vai comer bosta? O que você vai comer neste lugar para onde desceu?”
“Vou me fartar daquilo que sempre foi nosso.”
“Onde você vai comer essa comida, isso que você afirma que já é seu? Onde vai sequer achar um imóvel para poder comer essa comida, você que na sua outra vida não conseguia pagar nem uma quitinete no centro?” dizem para mim os poderosos.
“Vou comer embaixo da árvore das mulheres mortas, pois ali tem comida para todo mundo que precisa. Elas retomaram os campos e as florestas, lá as plantas verdes estão crescendo, e lá nós vamos viver de pão e cerveja; nesse lugar há pessoas que coordenam a si mesmas e a qualidade dos seus afetos, seus ódios e suas adorações, enquanto coordenam os movimentos e as produções de seus corpos para não precisarem comer bosta, nesse lugar há pessoas que vêm atender à porta.”
Abram para mim; que haja lugar para mim, criem um caminho para mim, para que eu possa ficar aqui como uma alma viva, no lugar onde quero estar.
Eu não serei dominada por estes inimigos. Eu odeio bosta e não vou comer bosta. Descendo para esta terra, não serei contaminada pela bosta que os poderosos querem que eu coma, a bosta que eles dizem que é inevitável. Saiam de perto de mim, todos os que querem que eu coma bosta; eu voei para o céu como uma andorinha, eu gritei como um ganso, então pousei nesta árvore no meio desta ilha no meio desta enchente. Eu voei e pousei, desci para dentro da enchente mas não me afoguei, e não vou deixar que os nossos inimigos me obriguem a comer bosta.
O que eu odeio, eu não vou comer; o que minha alma odeia é bosta, e a bosta não vai entrar no meu corpo. Não vou colocar bosta entre os lábios. Não vou comer bosta no parque empresarial nem perto do mar, num campus universitário, no canteiro de um condomínio. Não vou pegar nada das margens do seu lago. O que eu odeio é bosta, e eu não vou comer bosta. Não vou comer bosta; mesmo depois de morta, não vou descer de ponta-cabeça por causa de vocês.

I Will Not Eat Shit

what I really hate, I will not eat; what I hate is shit, and I will not eat it. I will not consume it. I will not taste it. It will not come near my fingers. I will not brush my arm against shit, and I will not touch it with my toes.
“What will you live on,” say the powerful to me, “if you won’t eat shit? What will you eat in this
place to which you have descended?”
“I will feast on what has always been ours.”
“Where will you eat this food, what you claim is already yours? where will you even find the real estate on which to eat it, who in your other life couldn’t afford half a duplex?” say the powerful to me.
“I will eat under the tree of the dead women, for there is food there for all who need it. They’ve taken back the fields and forests, there the green plants are growing, and there we will live on bread and beer; in this place, there are people who arrange themselves and the quality of their affections, their hatreds and their adorations, along with arranging the motions and productions of their bodies so they do not have to eat shit, in this place there are people to answer the door.”
Open to me; may there be room for me, make a path for me, that I can stay here as a living soul in the place that I want to be.
I will not be subdued by these enemies. I hate shit and I will not eat it. As I descend to this land, I will not be contaminated by the shit the powerful want me to eat, the shit they say is inevitable. Go away from me all who want me to eat shit; I have flown up into the heavens like a swallow, I have cackled like a goose, then I have landed on this tree in the middle of this island in the middle of this flood. I have flown up and landed, I have descended into the flood but I am not drowned, and I won’t be made to eat shit by our enemies.
What I hate, I will not eat; what my soul hates is shit, and it will not enter my body. I will not put it between my lips. I will not eat shit in the office park or near the ocean, on a college campus, on the median of a suburban street. I will not take anything from the banks of your pond. What I hate is shit, and I will not eat shit. I will not eat shit; even in death, I will not descend upside down for you.

§

 

O que parece a cova mas não é

sempre cair num buraco, depois dizer “ok, essa não é sua cova, saia desse buraco”, sair do buraco que não é a cova, cair num buraco outra vez, dizer “ok, essa também não é sua cova, saia desse buraco”, sair desse buraco, cair em outro; às vezes cair num buraco dentro de um buraco, ou muitos buracos dentro de buracos, sair deles um depois do outro, depois cair de novo, dizer “essa não é sua cova, saia do buraco”; às vezes ser empurrada, dizer “você não pode me empurrar para dentro desse buraco, ele não é minha cova”, e sair com a cabeça erguida, depois cair de novo num buraco sem ninguém empurrar; às vezes cair num conjunto de buracos cujas estruturas são previsíveis, ideológicas e muito antigas, cair frequentemente nesse conjunto de buracos estruturais e impessoais; às vezes cair em buracos junto com outras pessoas, com outras pessoas dizer “essa não é nossa cova coletiva, saiam desse buraco”, todas juntas saírem do buraco juntas, mãos e pernas e braços e escadas humanas umas das outras para sair do buraco que não é a cova coletiva mas que só dá para sair juntas; às vezes cair por vontade própria num buraco que não é a cova porque na verdade é mais fácil do que não cair num buraco, mas depois de estar lá dentro, perceber que não é a cova, acabar saindo do buraco; às vezes cair num buraco e ficar ali definhando por dias, semanas, meses, anos, porque embora não seja a cova, mesmo assim é muito difícil sair e você sabe que depois desse buraco só tem outro e mais outro; às vezes examinar a paisagem de buracos e desejar um buraco final de alta qualidade; às vezes pensar em quem caiu em buracos que não são covas mas talvez seria melhor se fossem; às vezes contemplar com anseio demais o buraco final enquanto tenta evitar os provisórios; às vezes cair e sair obedientemente, com perfeita bravura, dizer “vejam com que maestria e espírito eu me levanto de novo do que parece a cova mas não é!”

What Resembles the Grave but Isn’t

always falling into a hole, then saying “ok, this is not your grave, get out of this hole,” getting out of the hole which is not the grave, falling into a hole again, saying “ok, this is also not your grave, get out of this hole,” getting out of that hole, falling into another one; sometimes falling into a hole within a hole, or many holes within holes, getting out of them one after the other, then falling again, saying “this is not your grave, get out ot the hole”; sometimes being pushed, saying “you can not push me into this hole, it is not my grave,” and getting out defiantly, then falling into a hole again without any pushing; sometimes falling into a set of holes whose structures are predictable, ideological, and long dug, often falling into this set of structural and impersonal holes; sometimes falling into holes with other people, with other people, saying “this is not our mass grave, get out of this hole,” all together getting out of the hole together, hands and legs and arms and human ladders of each other to get out of the hole that is not the mass grave but that will only be gotten out of together; sometimes the willful-falling into a hole which is not the grave because it is easier than not falling into a hole really, but then once in it, realizing it is not the grave, getting out of the hole eventually; sometimes falling into a hole and languishing there for days, weeks, months, years, because while not the grave very difficult, still, to climb out of and you know after this hole there’s just another and another; sometimes surveying the landscape of holes and wishing for a high quality final hole; sometimes thinking of who has fallen into holes which are not graves but might be better if they were; sometimes too ardently contemplating the final hole while trying to avoid the provisional ones; sometimes dutifully falling and getting out, with perfect fortitude, saying “look at the skill and spirit with which I rise from that which resembles the grave but isn’t!”

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tradução

Wladyslaw Szlengel (1912-1943), por Piotr Kilanowski

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Wladyslaw Szlengel foi um poeta judeu-polonês nascido em Łódź. Suas canções escritas em polonês eram muito populares no Gueto, expressavam seus pensamento e estados de espírito. Eram recitados em diferentes apresentações de serões de diversões, circulavam em cópias de máquina de escrever ou hectográficas. Apesar de sua pouca qualidade artística, gozavam de popularidade, comoviam até às lágrimas, pois expressavam aqueles tempos, falavam de coisas com as quais o Gueto vivia e que apaixonadamente comentava.

O poema intitulado Coisas, coisas descreve o processo que afetou as posses judias nos tempos da ocupação alemã. O poeta enumera a longa lista de coisas, menciona até utensílios levados pelos judeus na mudança da parte sul de Varsóvia para o bairro norte, saindo das zonas mistas para a zona puramente judaica, o gueto. Do Gueto pequeno ao Gueto grande já levaram poucas coisas. E quando passavam do Gueto para os “szopy” particulares, sobrava muito pouca coisa da riqueza ou das posses: somente um embornal e um cantil com água. Nos apartamentos abandonados pelos judeus, resta apenas um comprimido como corpus delicti:

Ante o tribunal, contudo,
(se acaso veritas victi (!)…)
restará um comprimido
expondo o corpus delicti.

O poema A despedida dos três quepes conta a despedida do jovem poeta com três quepes: de estudante, de militar e de policial judaico. O autor relata sua participação na defesa de Varsóvia e a despedida com o quepe de militar. Mais para o fim do poema, descreve a ação de deportação dos judeus de Varsóvia, da qual teria que participar como policial. O poeta, não querendo ajudar aos alemães na ação do extermínio, despede-se do quepe policial. Poucos foram os judeus policiais que fizeram escolha semelhante. Cito aqui duas estrofes do poema:

Você é o quepe em que te vê a humanidade,
que a avó ariana, ele é mais importante.
Não checam o que tens nas calças ou na identidade,
o quepe teu valor declara antes…

Despedida com o quepe policial:

O mundo é todo fechado para mim,
cada portão é uma cilada sem fim,
se me darei melhor ou pior não sei
meu quepe – chegou a hora do adeus…

Seria difícil superestimar a especificidade de tal perspectiva, considerados o alcance, a minúcia e a nitidez da visão que ela proporciona. Em grande medida, no entanto, o legado criativo de Szlengel continua desconhecido: na Polônia inclusive, sob certos aspectos , e que dizer então fora dela!

* * *

O MONUMENTO

Aos heróis – epopeias e rapsódias!!!
Aos heróis honrará a prole,
os seus nomes em pedestais gravados,
e os seus monumentos em mármore.

Aos soldados valentes – as medalhas!
Uma cruz – à morte do soldado!
As glórias e os sofrimentos em aço,
bronze e granito encantados.

Ficarão dos Grandes as Lendas,
de que eram Enormes, o testamento,
o mito consolidará e restará
o Monumento.

Quem pra vós vai contar, ó Futuros,
a história – nem de mito que resiste,
nem de bronze – que a levaram, mataram…
e que ELA não existe…

Se ela era boa? Nem isso –
brigava e as portas batia,
resmungava, vociferava…
mas – existia.

Bela? Nem antes dos cabelos prateados,
ninguém de uma beldade a chamaria
Sábia? Eh, comum, simplesmente não foi
burra…
E no entanto…existia.

Entendes: Ela estava e agora não está,
em cada canto algo ruim, coisa má,
e dá para ver logo que Ela não está.

Nada de grande palavra: O Lar,
Deus meu, que casa era essa?!
………….(não eram de Varsóvia)
O marido o dia todo na oficina,
o filho – sempre correndo com pressa,
o quarto raramente arrumado,
………….(pois de baixo água trazia),
os móveis de algum jeito ordenados,
o relógio parecia sorrir animado,
pois – Ela existia.
Existia.

E daí? Ser humano? Não importa –
em estatística não vai constar,
para o mundo, a Europa – é um nada,
grandes coisas esta Sua labuta suada,
mas quando se chegava à porta do lar,
mesmo antes de tocar na maçaneta, abrir,
no ar algum cheiro bom havia,
ou sopa quente, ou toalha macia,
um calor familiar te envolvia,
pois…
………….Ela existia.

E a levaram,
Foi do jeito que estava.
Do fogão.
Da sopa não provaram…
carregaram, foi-se, não está,
mataram.

O marido voltará da oficina,
sentará na banqueta chocado,
as mãos fracas cairão pros lados,
olhará com a cabeça meneando.

No fogão não há fogo –
no chão, pano caído,
prato na mesa – sujeira demais.
Não levanta, curva-se, pensa.
Nada a fazer.
………….………….Não está mais.

A sopa rala e estranha da oficina
da fábrica, e o pão – vai pôr na goela,
Come e olha:
………….………….na prateleira em silêncio
fria e morta a Sua panela.

Não retornará à oficina,
o filho vai voltar faminto,
na desfeita cama amarela,
sem tirar o sapato barrento,
deitado, não dormirá.
Vai olhar, não esquecerá um só momento…
………….Ali, da Mãe, a esfriada p a n e l a –
………….O SEU MONUMENTO.

P O M N I K

Bohaterom – poematy, rapsody!!!
Bohaterów uczczą potomni
na cokołach nazwiska ryte
i marmurowy pomnik.

Walecznym żołnierzom – medal!
Śmierci żołnierskiej krzyż!
Zakląć chwałę i mękę
w stal, granit i spiż.

Zostaną po Wielkich Legendy
że tacy byli ogromni.
Mit zakrzepnie i – będzie
POMNIK.

A kto wam opowie, Przyszli,
nie spiż i nie mitu temat –
że Ją zabrali – zabili,
i że jej nie ma…

Czy była dobra? Nawet nie –
często się przecież kłóciła,
stuknęła drzwiami, burknęła…
ale była.

Ładna? nie była nigdy ładna,
nawet nim głowa się posrebrzyła.
Mądra? Ot, zwyczajnie nie głupia…
No, ale… była.
Rozumiesz – była a gdy jej nie ma,
to każdy kąt tu oczy złe ma
i zaraz widać że jej nie ma.

Nie żeby wielkie słowo – DOM –
mój Boże, cóż to za gospodarstwo!
(nie byli z Warszawy)
mąż cały dzień w warsztacie
syn także miał gdzieś swoje sprawy,
pokoik często nie sprzątnięty
(bo wodę z dołu przynosiła)
tak jakoś stały wszystkie sprzęty
tak jakoś zegar uśmiechnięty
no – była.
Była.

I cóż? Człowiek? – Nie – Nieważne –
statystyka żadna jej nie wymieni –
dla świata, Europy, mniej niż pyłek –
ważna to rzecz ten jej wysiłek!
ale gdyś zbliżył się do sieni,
nim klamkę wziąłeś, – nim drzwi pchnąłeś,
jakoś w powietrzu zapachniały
ni ciepła zupa, ni ręcznik biały,
tak jakoś ciepłość cię owiła
no…
była.

I wzięli.
Poszła jak stała.
Od ognia.
Zupy nie zdążyła…
Zabrakli, poszła – nie ma –
zabili.

Wróci z warsztatu mąż,
usiądzie ciężko na stołku –
ręce opadną na podołku,
głową wodzi i patrzy.

Ognia nie ma pod blachą –
ścierka spadła i leży
talerz na stole – brudno.
Nie wstaje. Pochyla się. Myśli.
Trudno.
Nie ma.

Zje chleba i zupy z warsztatu
fabrycznej – obcej i marnej.
Je i patrzy: –
na półce… milczący
zimny i martwy jej garnek.

Nie pójdzie już do warsztatu –
Syn wróci z miasta zgłodzony
w łóżko niezaścielane
rzuci się w butach zbłoconych –
Nie uśnie.
Będzie patrzył (i nie zapomni…)
Tam – Matki wystygły g a r n ek
J E J P O M N I K..

§

 

A JANELA PARA O OUTRO LADO

Minha janela é para o outro lado,
uma janela judia descarada
para o belo parque dos Krasiński
e as folhas outonais molhadas…
No anoitecer cinza-arroxeado
as frondes se curvam, inclinadas
e as árvores arianas espreitam
a janela judia fechada…
Não posso ficar na janela
(resolução mui correta),
aos vermes judeus…toupeiras…
a cegueira melhor se adequa.
Que fiquem nas tocas e covas,
absorto no trabalho o olhar
e pelas janelas judias
sejam proibidos de mirar…
E eu… quando vem a noite…
para tudo apagar e igualar,
no escuro pra janela corro
com a sede enorme de olhar…
e roubo Varsóvia apagada,
os silvos, chiados distantes,
as formas das casas e ruas,
os tocos das torres cortantes…
Eu roubo a silhueta do Teatro,
aos pés tenho o Paço Municipal,
O luar – wachmeister
– permite
o contrabando sentimental…
Os olhos famintos se cravam
no peito da noite – dois gumes,
na noite de Varsóvia calada,
cidade querida em negrume…
E quando já estou suprido
para um dia, talvez mais…
me despeço da cidade calada,
com as mãos faço gestos rituais,
cicio e os olhos cerro:
– Varsóvia…diz algo!…espero

E pianos pela cidade
levantam os tampos calados
levantam sozinhos, ao comando,
pesados, tristonhos, cansados…
e flui da centena de pianos
na noite… a polonaise de Chopin…
Me chamam os clavicordes,
no silêncio sofrido vêm
pela cidade os acordes
das teclas de branco mortal…
Baixo as mãos…é o final…
volta a polonaise pros pianos…
Volto e penso calado
que na verdade é ruim
ter a janela pro outro lado…

Okno na tamtą stronę

Mam okno na tamtą stronę,
bezczelne żydowskie okno
na piękny park Krasińskiego,
gdzie liście jesienne mokną…
Pod wieczór szaroliliowy
składają gałęzie pokłon
i patrzą się drzewa aryjskie
w to moje żydowskie okno…
A mnie w oknie stanąć nie wolno
(bardzo to słuszny przepis),
żydowskie robaki… krety…
powinni i muszą być ślepi.
Niech siedzą w barłogach, norach
w robotę z utkwionym okiem
i wara im od patrzenia
i od żydowskich okien…
A ja… kiedy noc zapada…
by wszystko wyrównać i zatrzeć,
dopadam do okna w ciemności
i patrzę… żarłocznie patrzę…
i kradnę zgaszoną Warszawę,
szumy i gwizdy dalekie,
zarysy domów i ulic,
kikuty wieżyc kalekie…
Kradnę sylwetkę Ratusza,
u stóp mam plac Teatralny,
pozwala księżyc Wachmeister
na szmugiel sentymentalny…
Wbijają się oczy żarłocznie,
jak ostrza w pierś nocy utkwione,
w warszawski wieczór milczący,
w miasto me zaciemnione…
A kiedy mam dosyć zapasu
na jutro, a może i więcej…
żegnam milczące miasto,
magicznie podnoszę ręce…
zamykam oczy i szepcę:
– Warszawo… odezwij się… czekam…

Wnet fortepiany w mieście
podnoszą milczące wieka…
podnoszą się same na rozkaz
ciężkie, smutne, zmęczone…
i płynie ze stu fortepianów
w noc… Szopenowski polonez…
Wzywają mnie klawikordy,
w męką nabrzmiałej ciszy
płyną nad miastem akordy
spod trupio białych klawiszy…
Koniec… opuszczam ręce…
wraca do pudeł polonez…
Wracam i myślę, że źle jest
mieć okno na tamtą stronę…

§

 

As duas mortes

A sua morte e a nossa morte
são duas mortes bem diferentes.
A sua morte é a morte forte
rasga as almas, faz ranger os dentes.
A sua morte é morte por balas,
atirando, entre campos gris
fertilizados com suor e sangue
por algo – …pelo pátrio País.
A nossa morte – é morte estúpida
no sótão ou no porão,
a nossa morte de trás da esquina
chega – uma morte de cão.
A sua morte, a medalha condecora,
menciona-a o comunicado,
a nossa morte – pra terra e adeus –
um depósito de atacado.
A sua morte – é cara a cara,
no meio do caminho saudada.
A nossa morte – é em segredo
na máscara do medo cavada.
A sua morte – é costumeira,
humana e fácil se apresenta,
a nossa morte – é a morte lixeira,
judia e nojenta.
A nossa morte da sua morte
é pobre, longínqua parente.
Quando a sua encontra a nossa
não a cumprimenta, certamente.
Na noite negra entre névoas,
se maldizem as duas mortes,
sobre a cidade – um mar de trevas,
se insultam com verbos fortes.
Sobre a mureta, vendo os dois lados,
espia as brigas escondida,
a mesma esperta, má, gananciosa
e igualzinha Vida.

Dwie Śmierci

Wasza śmierć i nasza śmierć
to dwie inne śmierci.
Wasza śmierć – to mocna śmierć,
szarpiąca na ćwierci.
Wasza śmierć śród szarych pól
od krwi i potu żyznych.
Wasza śmierć – to śmierć od kul
dla czegoś – …dla Ojczyzny.
Nasza śmierć – to głupia śmierć,
na strychu lub w piwnicy,
nasza śmierć przychodzi psia
zza węgła ulicy.
Waszą śmierć odznaczy krzyż,
komunikat ja wymienia,
naszą śmierć – hurtowy skład,
zakopią – do widzenia.
Wasza śmierć – wy twarzą w twarz
witacie się w pół drogi,
nasza śmierć – to skryta śmierć
kopana w masce trwogi.
Wasza śmierć – zwyczajna śmierć,
człowiecza i nietrudna,
nasza śmierć – śmietnicza śmierć,
żydowska i – paskudna.
Nasza śmierć jest waszej śmierci
daleką biedną krewną.
Gdy spotka wasza – naszą śmierć,
nie wita jej na pewno.
I w czarną noc przez smugi mgieł
nad miastem – w mroków piekle,
dwie śmierci przeklinają się,
złorzecząc sobie wściekle.
Na murku – patrząc w strony dwie,
podgląda kłótnię skrycie
to samo chciwe, sprytne, złe
i jednakowe Życie.

 

* * *

Uma coletânea dos poema de Wladyslaw Szlengel foi publicada pela editora Dybbuk (clique aqui) este ano. Os poemas publicados aqui, bem como o texto introdutório, foram retirados de lá.

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tradução

Goliarda Sapienza (1924-1996), por Valentina Cantori

goliarda

Goliarda Sapienza (1924-1996) foi poeta, prosadora e atriz italiana. Desobediente, incômoda e revolucionária, só quase um século após seu nascimento se tornou umas das maiores vozes da literatura italiana do Novecento.

Nascida na Catania dos anos 20, Goliarda passa a vida inteira imersa em arte e política. Filha de Maria Giudice, importante figura da política italiana, e de Giuseppe Sapienza, advogado socialista, é criada num ambiente intelectual refinado e comprometido, que apoia medidas progressistas e aprecia as tradições regionais de uma Sicília modesta e vibrante.

Muda-se para Roma para estudar na Academia de Arte Dramática; é no teatro e no cinema que inicia sua carreira. A morte da mãe no começo dos anos 50 marca o surgir da atividade poética de Goliarda, que reverte na poesia a própria necessidade de expressão. Nessa época é concebida a coletânea Ancestrale, revelando uma poesia escrita para resgatar a memória e investigar seus dilemas – I luoghi ancestrali della memoria é uma das primeiras propostas de título. O livro, no entanto, foi publicado sessenta anos depois.

Desejo de vida e pulsão de morte se amarram nos versos e na vida da autora, que sofre longos períodos de depressão e tenta o suicídio duas vezes, sendo também internada em manicômio. No começo dos anos 70 ocorre outro fato marcante para sua escrita: denunciada por um furto de jóias, é presa e detida na prisão de Rebibbia, experiência que dá origem a L’Università di Rebibbia, romance no qual relata juntamente a brutalidade do sistema carcerário e o desejo de vida das presidiárias.

Em 1976 termina o romance considerado sua obra-prima: L’arte della gioia, rejeitado pelas editoras durante quase vinte anos, publicado em forma parcial apenas em 1994.

Goliarda – seu nome já é senhal – possui uma escrita autêntica e vigorosa, sem enfeites ou tendências moralizantes, em que persiste o desejo de testemunhar a realidade tangível, bela e áspera conjuntamente. Numa entrevista de 1984, contando sobre a própria vivência no cárcere romano, a poeta lembra que em sua casa se costumava dizer “il proprio Paese si conosce conoscendo il carcere, l’ospedale e il manicomio”. De lucidez apaixonada e pungente, Sapienza é na vida como na arte.

 

Valentina Cantori é formada em Literatura Italiana e Linguística pela Universidade de Roma La Sapienza, possui doutorado em Filologia e Linguística românica pela Universidade Hebraica de Jerusalém e pela Universidade de Macerata. Atualmente leciona língua e literatura italianas em São Paulo.

* * *

 

Cumpriu-se. Concluiu-se. Terminou-se.
Consumiu-se o incêndio. Findou-se.
Fechou-se o círculo petrificado.
Findou-se o tempo. Consumiu-se
o delito. Queimou-se
a lembrança. Cessou a angústia.
Um manto de lava interditou
todo crânio toda órbita esvaziada.
Toda boca no grito interditou.

Fechou-se o círculo. Nada atreve-se a singrar
o silêncio de lava. As formigas
rodeiam o fogo gasto enlouquecidas.

È compiuto. È concluso. È terminato.
È consumato l’incendio. S’è fermato.
S’è chiuso il cerchio pietrificato.
Il tempo s’è fermato. È consumato
il delitto. S’è bruciato
il ricordo. L’ansia è cessata.
Una coltre di lava ha sigillato
ogni cranio ogni orbita svuotata.
Ogni bocca nel grido ha sigillato.

S’è chiuso il cerchio. Niente osa varcare
il silenzio di lava. Le formiche
girano intorno al rogo spento impazzite.

§

 

Para minha mãe

Quando eu voltar
será noite fechada
Quando eu voltar
as coisas estarão quietas
Ninguém vai me esperar
naquele leito de terra
Ninguém vai me acolher
naquele silêncio de terra

Ninguém vai me consolar
por todas as partes já mortas
que carrego em mim
com resignada impotência
Ninguém vai me consolar
pelos instantes perdidos
pelos sons esquecidos
que há tempo
viajam ao meu lado e tornam denso
o respiro, lamacenta a língua

Quando eu chegar
apenas uma fenda
vai conseguir me segurar e mão nenhuma
vai aplanar a terra
sob as faces gélidas e mão
nenhuma vai se opor à pressa
da pá ao seu ritmo indiferente
para aquele fim estranho, repugnante

Pudesse eu naquela noite
vazia pôr a minha testa
no teu grande seio de sempre
Pudesse eu me envolver
com o teu braço e segurando
nas mãos o teu pulso delgado
por pensares agudos
por terrores cortantes
pudesse eu naquela noite
sentir de novo
o meu corpo ao lado do teu vigoroso
materno
gasto de partos tremendos
arrebentado de longas uniões

Mas tão tardia
a minha noite e já
não podes esperar mais
E ninguém vai aplanar a terra
sob o meu flanco
ninguém vai se opor à pressa
que agarra os homens
perante um caixão

A mia madre

Quando tornerò
sarà notte fonda
Quando tornerò
saranno mute le cose
Nessuno m’aspetterà
in quel letto di terra
Nessuno m’accoglierà
in quel silenzio di terra

Nessuno mi consolerà
per tutte le parti già morte
che porto in me
con rassegnata impotenza
Nessuno mi consolerà
per quegli attimi perduti
per quei suoni scordati
che da tempo
viaggiano al mio fianco e fanno denso
il respiro, melmosa la lingua

Quando verrò
solo una fessura
basterà a contenermi e nessuna mano
spianerà la terra
sotto le guance gelide e nessuna
mano si opporrà alla fretta
della vanga al suo ritmo indifferente
per quella fine estranea, ripugnante

Potessi in quella notte
vuota posare la mia fronte
sul tuo seno grande di sempre
Potessi rivestirmi
del tuo braccio e tenendo
nelle mani il tuo polso affilato
da pensieri acuminati
da terrori taglienti
potessi in quella notte
risentire
il mio corpo lungo il tuo possente
materno
spossato da parti tremendi
schiantato da lunghi congiungimenti

Ma troppo tarda
la mia notte e tu
non puoi aspettare oltre
E nessuno spianerà la terra

sotto il mio fianco
nessuno si opporrà alla fretta
che prende gli uomini
davanti a una bara

§

 

Peroração

Não gastes a quentura do teu púbis
não prendas o teu passo em saias justas
de seda turva, mas deixa por favor
teu cabelo acender-se pelo sol
que foge virando atrás do muro.

Não te quero surpreendida pela lua
descobrindo-te forçada numa noite
a gritar arrependida num tal rosto
de senhora ressecada sobre o teu.

Perorazione

Non sprecare il tepore del tuo pube
non serrare il tuo passo in gonne strette
di tetra seta, ma lascia
per favore accenderti i capelli
dal sole che scantona dietro il muro.

Non vorrei che sorpresa dalla luna
ti trovassi costretta in una notte
a gridare pentita con quel viso
di donna dissecata sopra il tuo.

§

 

Separar confluir
espargir no ar
apertar no punho
reter
entre os lábios o sabor
dividir
os segundos dos minutos
diferenciar no cair
da noite
esta noite de ontem
de amanhã

Separare congiungere
spargere all’aria
racchiudere nel pugno
trattenere
fra le labbra il sapore
dividere
i secondi dai minuti
discernere nel cadere
della sera
questa sera da ieri
da domani

§

 

Um voo e o quarto de repente
encheu-se do aroma acre de verão.
A tua voz apagou-se com a luz
que morria no escuro da folhagem.
Um sopro quente alentava nos cingia
e deitadas ficamos a esperar.

Un volo e in un attimo la stanza
fu colma d’un sentore acre d’estate.
La tua voce si spense con la luce
che moriva nel nero del fogliame.
Un fiato caldo alitava ci cingeva
e restammo supine ad aspettare.

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poesia

Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007)

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fiama hasse pais brandão (lisboa 1938 – lisboa 2007) foi uma poeta, dramaturga, ensaísta e tradutora portuguesa. estudou letras germânicas na faculdade de letras da universidade de coimbra. faz seu debute literário em 1957, com o livro Em cada pedra um voo imóvel, que lhe rendeu o prêmio adolfo casais monteiro, mas ganha espaço mesmo em 1961, quando junto com outros cinco poetas (gastão cruz, maria teresa horta, casimiro de brito e luiza jorge neto), lança uma revista chamada poesia 61, em que cada poeta contribuiu com uma plaquette. em 1965, ainda o mesmo grupo funda o grupo de teatro de letras. em 1974, fundou outro grupo de teatro, o grupo teatro hoje, algo que revela sua intensa atividade teatral. como tradutora, verteu para o português john updike, brecht, artaud, novalis, tchekov &alii. faleceu em 2007.

sua obra, vasta, ainda não é lá propriamente a coisa mais divulgada aqui no brasil, vide a dificuldade em se achar algum livro, ou até mesmo pdf, da autora; mas sua obra é sem dúvida uma das coisas mais potentes da poesia portuguesa. sem mais, passemos aos poemas.

 

sergio maciel

* * *

Modo Histórico da Cidra

Numa lápide, afinal, num puro tampo
(de mesa), um ente nasce:
o fruto (diáfano); cidra, em si a sua origem;
vem do tempo, celta ou da ibéria, já
me transcende? Ó reino pressuposto de um
vegetal; essa paragem – cidra – no percurso.
Num tempo celebrado, o aniversário.
É um suco mortífero, ou o de um real
aberto porque o vêem muitos modos ou o dizem.

Meus anos expostos (a frutos) que formas
confirmaram: ou, mais longínquo,
houve o soalho: no espaço a hora ocorre.
A omissão de cidra ou mármore ágrio é um dom
do luto: meu exercício e o mundo.

E que urna ou ornamento (essa mesa)? É
um sentido vário; não que pareça,
mas, quando imóvel, muda. A emoção de ser
corpo (um fruto) decomposto que hoje
recrio ou lego: a minha existência
(entre os iberos) urge.

15 Agosto 69

 

§

DESDE QUANDO?

Os dois vultos encaminham-se hoje
para o pinhal. Entram
na cancela delineada. Será possível
saber qual a parte do Todo ou sinédoque
verdadeira. Transposta a caocela
o primeiro desejo de ambos
é escolher a clareira. Vêem pedras
espelhadas, várias flores miríficas
como as candeias rasteiras
com a sua coifa arroxeada e o pavio branco
estranho. Olham toda a periferia
para recompilar as árvores que os rodeiam.
Num manso pinheiro próximo
podem arrancar o córtex
já seco e solto.

Entalhadeiras
de pequenos artefactos, vasilhas e baixela
miniatural, cor castanho poroso e de leveza
surpreendente. O ofício diário industrioso
torná-las-á figuras móveis
do microcosmos. Cada uma traz uma navalha,
e a mais experiente entalhadeira ensina
a indústria matinal
à mais nova praticante da metafísica.

Depois, todas essas manhãs se juntam
numa cadeia de elos semelhantes.

§

Nunca manhã suave

Nunca manhã suave me havia interrompido noites com hipérboles
em que ao abrigo do sonho germinara uma imagem. Mas os vultos
linhas de tracção para a terra estado sólido adquirido
pela flutuação demonstravam um termo. As cores oníricas
matizavam o nascente que não se espelha no olhar mas transborda.

Podia a força da madrugada perturbar os impulsos. O orvalho embebera
a medula e assim o pólo das imagens se aglutinou.
Mesmo que este bafo exausto sufocasse o corpo nocturno
a sintonia no limiar do nascente é expressa com os versos
sobre o nexo entre as cabeças unidas situadas na luz.
O alvor matinal confuso entre a atenção ao sonho
e a distracção. A espiral cintilante do conjunto das frases
que oscilam sob o poder da noite e se levantam pela seta do sol.

 

§

Nada tão silencioso como o tempo
no interior do corpo. Porque ele passa
com um rumor nas pedras que nos cobrem,
e pelo sonoro desalinho de algumas árvores
que são os nossos cabelos imaginários.
Até nas íris dos olhos o tempo
faz estalar faíscas de luz breve.

Só no interior sem nome do nosso corpo
ou esfera húmida de algum astro
ignoto, numa órbita apartada,
o tempo caladamente persegue
o sangue que se esvai sem som.
Entre o princípio e o fim vem corroer
as vísceras, que ocultamos como a Terra.

Trilam os lábios nossos, à semelhança
das musicais manhãs dos pássaros.
Mesmo os ouvidos cantam até à noite
ouvindo o amor de cada dia.
A pele escorre pelo corpo, com o seu correr
de água, e as lágrimas da angústia
são estridentes quando buscam o eco.

Mas não sentimos dentro do coração que somos
filhos dilectos do tempo e que, se hoje amamos,
foi depois de termos amado ontem.
O tempo é silencioso e enigmático
imerso no denso calor do ventre.
Guardado no silêncio mais espesso,
o tempo faz e desfaz a vida.

 

§

Considero à vista o poema
uma gota de lodo, pois é possível
pintá-lo com o bico superior alto
e o bojo rotundo cheio
de esquírolas e de depósitos.
Escuro e medonho foi como
os renascentes me indicaram
o abismo do mar. Os hipostáticos,
os frenéticos românticos
ao sentir brotar o terror existencial,
viram que o elemento água
ensopava a alma e os olhos
sem diferença, e que o estrépito
das situações extremas no mar
traduzia o pânico de morrer.

Considero o poema o mar,
com uma pasta arroxeada
no lugar mais adequado à água.
Também tem um fundo
de desperdícios, uma dimensão
espaçosa cheio de cavername
solto, que me obriga
a ranger como uma arte
os meus ossos de poeta,
sem nenhuma crença herética,
senão a de que a morte teve noções
diversas e que a noção mais cruel
foi a que a assemelhou tanto
à vida, que os meus contemporâneos
a sentem como a ser assistida
imediatamente pela sua consciência.

Para quem como eu viu
o próprio corpo do poema
tomar uma configuração mole,
semelhante a um licor
em gotículas ou à de coágulos,
estando longe de mim neste caso
uma associação de ideias
com a morte ou a agonia,
esta hora é já
a imagem de púrpura
de um ocaso impessoal.
Olhado como uma abóbada
de pele plástica estendida
e repuxada pelos querubins,
que não quero esquecer
como anjos necessários,
que os bizantinos confundiram
em demasiados pormenores
com aves nítidas, tantas vezes
azuis enquanto o céu se dourava.

 

§

POEMA PARA A PADEIRA QUE ESTAVA A FAZER PÃO
ENQUANTO SE TRAVAVA A BATALHA DE ALJUBARROTA

Está sobre a mesa e repousa
o pão
como uma arma de amor
em repouso

As armas guardam no campo
todo o campo
Já os mortos não aguardam
e repousam

Dentro de casa ela aguarda
abrir o forno
Ela em mão que prepara
o amor

Pelos campos todos armas
não repousam
mais os mortos
ter amor

Sobre a mesa põe as mãos
pôs o pão
Fora de casa o rumor
sem repouso

Ela agora abre o fogo
para o pão
em repouso ela ouve os mortos
lá de fora

Lá de fora entram armas
os homens
As mãos dela não repousam
acolhem

Sobre a mesa pôs o pão
arma de paz
Contra as armas da batalha
arma de mão

Contra a batalha das armas
não repousa
Caem contra a mesa os mortos
contra o forno

Outra paz não defende ela
que a do pão
Defende a paz que é da casa
e das mãos

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poesia

3 poemas inéditos de Lucas Perito (1985-)

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Lucas Perito (São Paulo, 1985) é graduado em Comunicação em Multimeios pela PUC-SP. Escreveu livros ligados a história e fotografia, fazendo os textos de acompanhamento para o livro fotográfico “Caminhos da Mantiqueira” (2011) de Galileu Garcia Junior. Publicou seu primeiro livro de poemas, 38 Movimentos, pela Lumme Editor (2018). Tem poemas publicados em algumas revistas brasileiras, além de algumas revistas de Portugal, Espanha, Galícia, Colômbia e Peru. Tem traduzido Charles Cros, David Diop, James Wright, Amparo Osorio, Abdellatif Laâbi, María Emilia Cornejo, Jacques Prevel, Hector de Saint-Denys Garneau, entre outros.

* * *

 

Degredo

Indexado entre a língua e a pele
exilado no corpo
como massa informe
dispersa o eco e a matéria.
Nomeio dentre os selvagens
…………………………………………………..[os mais modernos
do outro lado da noite.
Fraturado frente às costelas
manchado entre uma cidade
desenha-se um acidente biográfico.
Sem rumo, vagam vagas,
………………………………………………[sem rumo
despenca atado a um gosto na boca.

§

 

Figuras de Manejo da Memória

Busco um rosto retirado de duas mãos
Se completam e desfazem
São cavalos sobre o sal da terra
– Silenciam.
Persigo um rosto e pertence à noite
Em ruínas que só as raposas conhecem.

Uma lanterna aponta, em um quarto – unidas –
Vozes úmidas conjuram os nomes de origem
Em algum lugar do espaço
Correspondem-se, sem razão,
Duas feridas e um fruto mordido.

§

 

Agiografo

Para René

Contempla a si mesmo como um fruto estéril
À pele, o que há de mais profundo,
A solidão dos objetos e a forma de algo cru
Se mantém entre a vigília e o sono
Por trás da boca, a face extinta

 

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crítica, xanto

XANTO | Estudando a voz de Edimilson de Almeida Pereira, por André Capilé

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Contenda: palavra que interessa, muito e de perto, dada a tensa operação entre os circuitos pelos quais transita Edimilson. A justa disposição para o jogo, nem sempre evidente em seu regramento, de arregimentar cenas da memória vivida, junto da infensa tarefa de levantar os documentos do escorbuto e dos escombros, mais a experiência de campo na escavação de si mesmo na voz de outros, encampam o universo de contensão do poeta. O invariável do choque, quando fios de oposição entram em contato e fazem vibrar, desde sua peculiar sintaxe de revel, atravessada, ainda, por um infestado mundo substantivo, descortina a obra de contenção do poeta, quase, sem adjetivos.

Afeito aos nós do sentido, trançado nas fendas do estranhamento e das tensões dissonantes, parte considerável dos poemas de Edimilson imprimem, em um primeiro contato, uma presente sensação de desconforto que, mesmo após outras investidas, vai se tornando constante — o que não compromete a fruição do texto, seja bem dito.

Ora, é inegável que a prática do poema atuando em função de sua obscuridade foi um dos legados da “estrutura da lírica moderna”. Contudo, tal intenção era manifesta — o que acabou por transformar o plano da estranheza e da dissonância em cartilha, de modo tão veloz quanto cresceram as cidades e as máquinas foram cantadas no correr do século passado. Tal hábito faz, ainda hoje, com que o leitor educado nas raias dos modernismos saia como quem lava as mãos, sem grandes ruídos ou resíduos.

Do repertório de formas que Edimilson lança mão, assiste-se a uma variada gama de modalidades de verso livre. Mesmo quando lida com o recurso da prosa, quase que invariavelmente soa, e se endereça, como versificação convencional. Embora não utilize, de modo sistemático, um preceito de modos e medidas, eventualmente alguns de seus poemas esbarram nos limites de certas tradições métricas. Estudando esse modo de fala, ainda que arbitrário por consequência da escolha pela leitura de um poema apenas, observe-se o flerte com a fatura do canto, logo abaixo:

 

Mulher estudando a voz

não para ganhar dinheiro.
Talvez fale do trabalho
entre rixas no mercado.

Estuda a voz porque olha
afora do mercado. Na
vida deslinda negócios

frutos de vário estrago.
Estuda a voz no tango
pelas mulheres que chora.

Sua voz quando sua ouve
outras como recado.
Conversam as filhas avós

pelo correio do sangue.
Mulher estudando a voz
é uma escola e tanto.

Sua cabeça em grisalhos
calcula dentro do canto.
E o canto é como gesta

de mãe antiga moderna.

 

Em “mulher estudando a voz” flagra-se a captura de uma cena cotidiana. Tal elemento, que figura entre algumas das preferências temáticas de Edimilson, comparece no balanço dos compassos de seu Veludo Azul, livro republicado agora pela Edições Macondo.

Embora tenhamos uma indicação de cenário — o mercado — a ação é construída sem que haja ampliação de informações exteriores no espaço. É dentro da vida, no comércio da existência “afora do mercado” — cuja a ação cede lugar para o desenvolvimento do sujeito como paisagem —, que se estabelecem as zonas de resolução e conflito [na vida deslinda negócios // frutos de vário estrago].

A demanda da preparação, “estudar a voz”, implica sair de si [estuda a voz no tango / pelas mulheres que chora] e, quando do uso de seu instrumento, apontar um movimento de escuta [sua voz quando sua ouve / outras como recado] encampando, no exercício, uma espécie de entrelaçamento de um outro em si mesmo.

EAP joga, de modo constante, com a criação e quebras de expectativas, utilizando a justa associação de motivos corriqueiros [sua cabeça em grisalhos] com flagrante senso de ordenação poética [calcula dentro do canto], administrando tensões que, em suas bordas, quase sempre apontam para a reflexão sobre a linguagem [e o canto é como gesta] e suas relações com a malha social [de mãe antiga moderna]. O que permite, em feliz expressão de Fábio Lucas, “[a] abertura do inacabado, da estrutura em andamento”.

Mas ainda há outro interesse, nesse passo de análise, que é demonstrar como EAP utiliza suas ferramentas de versificação para, então, extrair novos componentes na fatura de sua obra ainda, e sempre, em progresso. Vejamos:

eap

A contar do título, que está amarrado ao correr do texto, têm-se um total de vinte versos. Doze deles marcam o registro rítmico do setissílabo, seis são hexassílabos e, finalmente, dois são oitissílabos. O regime, embora polimétrico, registra a marcante incidência da redondilha maior.

Todavia, como somar sílabas é muito pouco, avancemos a análise — mas antes uma nota de perfumaria: note-se que a maioria dos versos, exceto dois deles, se apresentam regularmente como trímetros e, como dito mais acima, de vez que há um flerte com o canto, a música que se endereça aqui toma dos tons da vida comum o aspecto estratégico, e estrutural, da associação do blues com os cantopoemas do congado, objeto de estudo do autor enquanto poeta-antropólogo — o que não será possível discutir aqui, mas fica dada a nota.

O primeiro andamento estrófico apresenta um contrato em redondilha. Não se forma nenhum tipo de unidade rítmica, embora os dois primeiros versos, inclusive o título, afirmem o tema de saída em um desenho acentual que se repete entre eles, possivelmente como preparação e/ou marcação de um possível pacto de medida.

Ainda, tomando como análise a partida do poema, são apresentadas duas vogais temáticas que serão recorrentes: /á/ e /ó/. A primeira, a meu ver, ligada ao “mercado” — termo que reincide, trançando os planos de dentro e de fora [no mercado / afora do mercado] — e a segunda, ligada à presença da “voz”, que vai criando permutas sonoras até a estrofe 5.

Se no instante inicial o corpo sonoro se dá entre /á/ e /ó/, enquanto a “voz” se imbrica no conflito do comércio, é justo na saída do “mercado”, quando comparece a assonância /i/ marcando a passagem, “(..) na / vida deslinda negócios”, que se assiste a marca vocálica /á/ em corrosão: “vário estrago”.

Estando o contrato métrico aparentemente resolvido em arte menor, ao menos em sua primeira metade, o poema, quando apresenta de modo mais afirmativo a presença do outro, começa então a modelar constâncias rítmicas mais marcadas. Contudo, na posição média do poema, estrofes 3 e 4, observa-se uma maior irregularidade, como se ali se instalasse uma preparação antes de retomar a cena rítmica.

Embora exista uma breve regulação nos versos 8 e 9 — compostos em hexassílabos, mais as aliterações em /t/ e /v/, além da modulação entre [ó] e [ou] — é possível que o desvio, dito um pouco antes, esteja assim colocado para chamar a atenção para uma sutil mudança de registro: a passagem do estudo para o uso da voz que, em seguida, na conformação do ritmo e na retomada do contrato estipulado, vai dar curso à passagem da voz ao canto. Cabe, para registro, observar o requinte da transição das aliterações /v/ para /c/ e das assonâncias /ó/ para /ã/, além do uso marcante do hexassílabo jâmbico, nos versos 9, 16 e 19, que acentua, ainda que discretamente, a gradação dessas mudanças.

Em se tratando da cadeia de ritmos, uma vez que não há utilização fechada de sistemas métricos definidos, faz-se necessário trabalhar de modo um pouco mais elástico as noções do verso como unidade de som e sentido. Desconcerto, desvio e ruptura. Deslocamento, transição e quebra. Ambivalência, evasão, mobilidade e intervalo. Enfim, a peleja das entrelinhas, entre rasgo e dobra, simulacro e dissimulação que, fora do curso de sinopse que ora é exposto na tentativa de leitura desse poema, são termos e motivos recorrentes na voz de Edimilson de Almeida Pereira que, nas últimas três décadas, tem proposto em sua extensa obra e comparecem de modo vigoroso em Veludo Azul.

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