entrevista

Entrevista com Júlia de Carvalho Hansen (parte 2)

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entrevistei, de novo, a poeta júlia de carvalho hansen. dessa vez, o papo foi muito mais pessoal, íntimo. bem estilo ‘revista caras da literatura’.

para conferir todas as outras entrevistas já feitas por mim, aqui no blog, clique aqui.

 

sergio maciel

* * *

SM – Você costuma reler seus livros publicados? Se sim, por quê?

JCH – Releio tudo. Muitas vezes e por motivos diversos. Sou obcecada com meu próprio trabalho, sinto às vezes que isso pode beirar a doença, o vício. Quase sempre releio por gosto e tarefa, coisas que com meus textos, pra mim, são sempre uma mesma coisa. Às vezes releio simplesmente porque vou fazer uma leitura pública e resolvo trazer algo do passado à voz, ou porque me pedem um grupo de poemas pra publicar n’alguma espécie de antologia, site, etc. Às vezes releio pra perceber a distância temporal, gosto de perceber como eu realmente não faria hoje em dia o que fiz antes; às vezes acho isso delicado, mas isto pode beirar o abismo ou uma dor intensa; às vezes me incomoda muito, a vaidade de sentir vergonha às vezes me visita, ou também uma bobagem de me achar ingênua no antes, como se ser ingênua pudesse ser algo ruim!… Mas quase sempre sinto uma satisfação imensa. Gosto do que escrevo. Acho bonito. Se não gostasse, se não achasse bonito e se isso não resistisse com o passar do tempo da minha vida então eu me perguntaria: por quê? E pararia de escrever.

SM – Ismar Tirelli Neto cantou essa pergunta dia desses, refaço-a aqui: O que você espera de um poema?

JCH – Respondo o que respondi no facebook do Ismar: Que eu não o entenda porque não falo a sua língua, e que nisso tenha uma sedução louca que me faça fugir com ele como quem encontrou – finalmente – o seu circo.

SM – O horror está aí, estacado entre nós – sempre esteve, na verdade – vivendo em cada minuto, sob a clareza de um sol ao meio-dia. Todavia, as pessoas não param de escrever, ninguém silencia diante do horror. Por quê?

JCH – Embora me pareça uma questão fundamental, acho essa pergunta (meio que no ar do tempo) irritante, sabe? Acho que se algum poeta titubeia em não fazer o seu ofício quando dá de cara com o horror… acho que isto não é um poeta, isto é um covarde.

Ao meu ver poeta é uma ambulância, é uma enfermaria, uma guerrilheira, um lança-chamas. A meu ver poeta vai entrar sempre no gueto de Varsóvia e vai se compadecer pela dor que sente e não sente, poeta é quem tem peito pra doer a dor do mundo, mesmo que ria dela, poeta é quem se indigna com essa merda toda e diz coisas terríveis, e algumas terríveis de tão belas.

Eu sou muito dessa ideia, né? Vejo o corpo do poeta como uma espécie de rio da história. Quem não mergulha nesse rio, ao meu ver (ou pro meu gosto), tá escrevendo alguma coisa, mas é “alguma coisa”. Acho que pra escrever poesia mesmo, entre outras coisas, tem que se lambuzar na água. E às vezes a água não tá pra peixe. E certamente estamos num tempo em que essa água é ácida.

E aí tem outro problema que é: como nadar nesta água mas não se intoxicar a ponto de não sobreviver? Aí sim, acho que tá uma questão em que tenho pensado muito.

SM – Quero pedir lincença aqui-agora e usar as “perguntas clássicas” que Clarice Lispector costumava fazer sempre a cada entrevista. Qual é a coisa mais importante do mundo? Qual é a coisa mais importante para a pessoa como indivíduo? E o que é amor?

JCH – São as perguntas mais fundamentais mesmo. Acho que a coisa mais importante do mundo é a água, o ar, a luz, o alimento e o descanso. A coisa mais importante pra pessoa como indivíduo é a água, o ar, a luz, o alimento e o descanso. O amor também é a água, o ar, a luz, o alimento e o descanso.

SM – Qual foi a experiência mais importante em toda sua vida? Quero saber, na verdade, se você teve algum momento decisivo na vida, qual foi e como essa experiência influenciou ou se refletiu em sua poética?

JCH – A mais importante de todas não sei se sei dizer. Pensei primeiro em cada uma das vezes que me apaixonei por um homem, coisa que deve ter acontecido verdadeiramente 5 vezes nesses meus 33 anos. Sou da turma que está quase sempre escrevendo para um destinatário imaginário e as paixões sempre são determinantes nas minhas escolhas e caminhos da vida. Depois me lembrei da ocasião em que a casa em que eu morava com meus pais foi assaltada conosco e meu irmão dentro, fomos amarrados, levaram tudo que eu tinha e acho que isso me mostrou uma impotência que é, pra mim, o contrário de escrever. Pensaria também em cada uma da quase centena de vezes que devo ter bebido ayahuasca nesses últimos 10 anos. E, por fim, e talvez o mais forte de tudo: o dia em que minha avó morreu nas minhas mãos e no qual, além de ver a morte, eu vi (e senti nas minhas mãos que estavam nela) o que as religiões dizem: de haver uma separação entre carne e espírito quando se morre. Ver isto me fez perder o medo de quase tudo e coincidentemente isso aconteceu quando eu estava terminando o “Seiva veneno ou fruto”, meu último livro, que já falava tanto da morte. Foi como se o livro esperasse pelo acontecimento antes de mim e que o acontecimento — da morte — me confirmasse (a minha) necessidade de colocar meu livro no mundo.

SM – Você já experimentou sentir-se em solidão, profunda solidão?

JCH – Sim, muitas vezes e de modos muito diversos. Embora eu nunca tenha estado sozinha numa canoa no alto do mar, ou no meio dum deserto à noite, sinto que a solidão é um lugar que eu conheço, exercito e posso até mesmo me viciar em estar nele. Neste sentido de estar sozinha já fiz coisas tão diversas como viajar sozinha por meses, fiz alguns retiros de dez dias de isolamento e silêncio, passei madrugadas a sofrer achando que isto leva a algum lugar, ou dias e dias escrevendo sem vontade de fazer outra coisa. Houve um ano, o ano em que eu estava escrevendo meu primeiro livro, que eu era capaz de passar 5-7 dias sem sair de casa nem falar com ninguém, quando eu falava era com a mulher da caixa do supermercado e me assustava ao ouvir minha própria voz. Mas tenho dezenas de melhores amigos. E seria incapaz de viver sem as pessoas, os outros são pra mim o oxigênio. Me sinto com muita sorte neste sentido, de ter relações baseadas em muito afeto, respeito e cordialidade. E, mesmo sozinha, pra mim o mais difícil é estar mesmo sozinha. Eu me sinto sempre muito acompanhada, estou sempre pensando em alguém, em dizer algo pra alguém, lembrando de algo que alguém me mostrou, me fez sentir, etc. Estou sempre em diálogo, estou sempre no vínculo. Talvez por isso eu precise tanto da solidão, pra respirar um pouco mais comigo mesma.

SM – Qual foi a coisa da qual você mais sentiu medo em toda sua vida?

JCH – Me considero uma pessoa medrosa. Convivo com muitos medos. Existem medos cotidianos que estão presentes todos os dias desde criança como o dia em que meus pais vão morrer; ou, pelo menos desde a adolescência um medo-buraco de, de repente o meu “ele” ter mudado de ideia, desistido de mim, ou esquecido o quanto sou importante na sua vida. Inseguranças. Medo de ladrão, medo de polícia. Muito medo de violência sexual. Mas são medos que talvez sejam ansiedades. Normalmente o medo me congela, mas se algo terrível acontece fico tão calma, imediatamente crio um sentido de estratégia, fico controladíssima e observadora. Tenho medo da loucura, curiosamente nunca tive medo de eu mesma enlouquecer, mas não consigo dialogar com a loucura sem temê-la.

Mas acho que nada me bota mais medo do que algumas visões que tenho de tempos em tempos e que não sei da onde vem nem pra onde vão. Têm sempre a ver com a morte. Desde criança me acontece. Por exemplo, no meu retorno de Saturno, em 2013, no final do inverno em Portugal, tive uma gripe fortíssima com uma alucinação intensa de febre, o meu rosto com dor de sinusite estava frio e doía vertiginosamente. A imaginação criou uma visão que a dor daquele jeito significava que meu rosto estava enterrado no chão de todos os antepassados. Eu via meu rosto enterrado num cemitério. Em certa medida eu sinto isso todos os dias: meu rosto: o cemitério dos que vieram antes só que agora pela primeira vez. E aquela visão veio acabar com a minha força de ter um rosto só meu. Foi terrível, durou quase uma hora. Não havia o que eu fizesse que me tirasse daquilo. Me marcou por mese. E, claro, tudo isso pode ser só minha imaginação combinada à febre. Mas a vez que mais senti medo em toda a minha vida é mais difícil de explicar. Foi quando vi num acidente de carro uma pessoa morrendo — era tudo muito veloz, destruidor, embora eu visse o acidente de muitos ângulos eram flashs, que me faziam exclamar pro meu namorado na época: “alguém morreu! ela está morrendo agora!” e desabei em choro até dormir de exaustão. Na manhã seguinte ao acordar vi que meu telefone vibrava: fui acordada com a notícia que uma amiga tinha morrido de madrugada, seu carro tinha sido arrastado por um ônibus, no mesmo momento em que eu tinha a visão de alguém morrendo num acidente de carro. Ela morreu enquanto eu via que ela estava morrendo. Foi muito assustador. Isto deve fazer uns 13 anos e ainda hoje tenho medo de acontecer algo parecido e evito adormecer na posição em que tive essa visão.

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poesia

Ezequiel Zaidenwerg (1981-), por Lubi Prates

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Ezequiel Zaidenwerg nasceu em Buenos Aires, Argentina, em 1981. Como poeta, tem publicado os livros: Doxa (Vox, 2007), La lírica está muerta (Vox, 2011) e Sinsentidos comunes (Bajolaluna, 2015), e também atua como tradutor. Vive em Nova Iorque.

O poema “La revolución no va a ser por internet” dialoga com a canção “The revolution will not be televised”, de Gil Scott-Heron. Na tradução “A revolução não acontecerá pela internet” priorizou-se o uso de expressões que se ajustassem melhor à cultura brasileira.

 

lubi prates

* * *

ps: você pode conferir mais sobre a poesia de ezequiel zaidenwerg clicando aqui.

 

* * *

 

LA REVOLUCIÓN NO VA A SER POR INTERNET (CÓVER DE GIL SCOTT-HERON)

No te vas a poder quedar en casa, amigo.
No vas a poder desactivar el roaming ni colgarte al Wi-Fi del vecino.
No vas a poder colgarte jugando al Candy Crush,
ni mirando las fotos de gatitos en Facebook,
porque la revolución no va a ser por internet.

La revolución no va a ser por internet.

La revolución no se va a ver con filtros de Snapchat o de Instagram,
en blanco y negro vintage o predeciblemente sólo en blanco.
La revolución no va ser por drone, ni se va a organizar en la deep web,
ni va a estallar cuando se filtre el sex tape de Donald Trump, Marine Le Pen y Putin
gozando como chanchos con las manos de Perón restauradas
con nail art colorinche y germicida en gel.

La revolución no va a ser por internet.

La revolución no va a salir en exclusiva en Netflix, producida por Tom Hanks, dirigida por Oliver Stone y protagonizada por Gael García Bernal, porque lo progre no quita lo coqueto.
La revolución no te va a esculpir milimétricamente los abdominales que siempre soñaste,
ni te va a dotar de un portentoso miembro prensil,
ni te va a hacer crecer la barba de leñador más fuerte y más sedosa,
porque la revolución no va a ser por internet, amigo.
La revolución no te va a borrar por dermoabrasión
ese tatuaje del Che que te hiciste en los noventa.
No va aumentar el tráfico de tu página web, no te va a dar miles de likes,
no te va a hacer un tuítstar ni un semental de Tinder.
La revolución, si es, no va a ser cosa de varones.

La revolución no va a ser por internet.

No vas a ver por streaming a la yuta reprimiendo,
meta bala de goma y gases lacrimógenos,
porque dice mi abuela que le dijo un taxista
que lo escuchó en la radio que a esos cabecitas negras
al final no les gusta laburar, y acá necesitamos un país en serio,
una revolución de la alegría.
Ya nadie va a dejar comentarios anónimos
en la web de los diarios, y nadie va a mirar
Bailando por un sueño ni Almorzando con Mirtha
ni Fútbol de primera, y ni hablar de La noche del domingo
y las Gatitas y ratones de Porcel.
Y los pibes, en vez de cazar Pokemones,
van a estar en la calle buscando algo mejor.

La revolución no va a ser por internet.

No va a ser trending topic, ni van a hablar de ella en un documental
coproducido por la UNESCO y Goldman Sacks que mencione al pasar a #NiUnaMenos,
narrado por los hijos importados de Brad Pitt y Angelina.
La banda de sonido no va a ser de U2 ni Manu Chao.
Calle 13 tampoco va a poner su granito de arena, y de Silvio ni hablar:
todavía va a estar buscando su unicornio.

La revolución no va a ser por internet.

La revolución no va a ser monetizable por Adsense, pero si vos querés
vas a poder ponerla en tu perfil de LinkedIn que, como todo el mundo sabe,
es la mentira más piadosa del capitalismo.
La revolución no va a pasar el desafío de la blancura.
La revolución no va a sacar el tigre que hay en vos, ni el empresario.
La revolución no te va a limpiar el inodoro, ni la conciencia biempensante.
La revolución no te va a poner la camiseta, ni los pantalones.
La revolución te va a obligar a ponerte las pilas.

La revolución no va a estar en todos tus dispositivos, amigo.
La revolución va a ser en vivo.

§

 

A REVOLUÇÃO NÃO ACONTECERÁ PELA INTERNET (COVER DE GIL SCOTT-HERON)

Você não vai poder ficar em casa, amigo.
Você não vai poder desativar o roaming ou roubar o wi-fi do vizinho.
Você não vai poder continuar jogando Candy Crush
ou olhando as fotos de gatinhos no Facebook
porque a revolução não acontecerá pela internet.

A revolução não acontecerá pela internet.

A revolução não será vista com filtros do Snapchat ou Instagram,
num p&b vintage ou, previsivelmente, apenas em branco.
A revolução não virá por drone ou se organizará pela deep web
ou estourará quando vazar o sex tape onde Donald Trump, Marine Le Pen e Putin
gozam como porcos com as mãos de Perón restauradas,
com nail art e germicida gel.

A revolução não acontecerá pela internet.

A revolução não sairá, com exclusividade, no Netflix, produzida pelo Tom Hanks, dirigida pelo Oliver Stone e protagonizada pelo Gael García Bernal porque ser progressista não diminui a elegância.
A revolução não esculpirá milimetricamente em você o abdômen com o qual sempre sonhou,
ou te dotará com um milagroso pau com garras,
ou te fará crescer uma barba de lenhador mais forte e mais sedosa,
porque a revolução não acontecerá pela internet, amigo.
A revolução não apagará por dermobrasão
essa tatuagem do Che que você fez nos anos noventa.
Não aumentará o tráfego do seu site, não te dará mil likes,
não te transformará em um Twitterstar ou num garanhão do Tinder.
A revolução, se acontecer, não será coisa de machões.

A revolução não acontecerá pela internet.

Não verá por streaming a polícia reprimindo,
metendo bala de borracha e gás lacrimogênio,
porque minha avó contou que um taxista lhe disse
que escutou no rádio que esses manifestantes
não gostam de trabalhar, mas precisamos de um país sério,
uma revolução de alegria.
Ninguém deixará comentários anônimos
nos sites dos jornais e ninguém assistirá
Dança dos famosos ou Almoço com as estrelas
ou a Primeira Divisão, ninguém falará sobre o Fantástico
ou sobre o Fala que eu escuto.
E as crianças, em vez de caçar Pokémon,
estarão nas ruas buscando algo melhor.

Não será trending topic ou tema de algum documentário
coproduzido pela UNESCO e pela Goldman Sachs, que mencione de passagem o #NiUnaMenos,
e seja narrado pelos filhos importados de Brad Pitt e Angelina.
O soundtrack não será U2 nem Mano Chao.
Calle 13 também não fará seu “grãozinho de areia” pela paz e se falará de Silvio Rodriguez menos ainda:
ele estará procurando seu unicórnio.

A revolução não acontecerá pela internet.

A revolução não será monetizada pelo Adsense, mas se você quiser
poderá inseri-la no seu perfil do Linkedin que, como todo mundo sabe,
é a mentira mais piedosa do capitalismo.
A revolução não passará no desafio da brancura.
A revolução não arrancará o tigre que há em você, nem o empresário.
A revolução não limpará sua privada ou sua mente liberal.
A revolução não te vestirá a camiseta ou a calça.
A revolução vai te pilhar.

A revolução não estará em todos os seus dispositivos, amigo.
A revolução será ao vivo.

 

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tradução

Édipo de Sófocles, por Leonardo Antunes

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Louis Bouwmeester como Édipo numa produção holandesa de Édipo Rei, c. 1896.

“Qual é o propósito de traduzir de novo essa obra? Já não há traduções o bastante? Você acha que as outras traduções não são boas o bastante? Você acha que a sua é tão melhor assim?”

Essas são algumas coisas que todos ouvimos ao retraduzir um texto clássico. Tentarei oferecer algumas respostas mais ou menos objetivas para essas questões, mas a razão mais honesta e sincera para se traduzir um texto é simplesmente porque se ama.

Deixando de lado as paixões e tentando ser um pouco mais racional, o principal motivo pelo qual quis traduzir o Édipo Rei é de caráter musical. Temos excelentes traduções já, tanto em prosa quanto em verso, para a obra de Sófocles, mas desconheço, em Português, uma tradução que tenha se preocupado em recriar a musicalidade do texto grego nos trechos corais a partir de uma aproximação rítmica. A equivalência métrica já foi tentada amiúde para as falas das personagens, mas os trechos corais são comumente tratados de modo mais livre, pela dificuldade de reproduzir, em Português, a essência variegada dos ritmos gregos.

A partir de uma abordagem musical, em que se espera que uma melodia criada para o texto grego possa ser aplicada também à tradução, é possível, como tem se visto de modo admirável no trabalho do Pecora Loca (clique aqui, aqui & aqui. ufa!), fazer com que o texto português adquira um andamento novo.

Esta tradução ainda é um trabalho em andamento e pode sofrer algumas mudanças até sua versão final. Por ora, não irei apresentar o trecho coral em música pois estou usando melodias provisórias para a tradução. Para o trabalho acabado e visando uma performance encenada, com canto coral e dança, espero contar com a ajuda de mentes mais habilidosas para essas outras artes.

Leonardo B. Antunes é poeta, tradutor e professor de Língua e Literatura Grega na UFRGS. Seu trabalho de reconstrução musical da poesia grega pode ser ouvido aqui.

 

* * *

CORO

Doce mensagem de Zeus, quem és tu que da pluridourada
Pitó vieste à esplêndida
Tebas? Tremo em temor: coração pelo medo agitado.
Iéio Délio Peã!
Pasmo diante de ti, sem saber se me é
nova ou de mais estações que enfim tu me cobras a dívida.
Diz-me, ambrosíaca voz que nasceste à dourada Esperança!

Chamo-te, filha de Zeus, por primeiro, ambrosíaca Atena
com tua irmã, a sísmica
Ártemis sobre seu cíclico trono na praça
e Febo certeiro também. Oh!
Tríplice abrigo da morte, revinde-me!
Caso num dia anterior em prol da cidade, solícitos,
vós afastastes o fogo da peste, de novo mostrai-vos!

Ai! Incontáveis são os males que eu
trago. A cidade toda enferma está. Nem na mente eu encontro uma arma
para a defesa; nem vejo crescerem mais
os frutos da terra famosa; nem filhos
da dor do parto, gritante, às mulheres resultam.
Tu podes ver vida após vida, qual pássaro alado,
mais do que fogo invencível ir rápido
pro cais do deus ocidental.

É incontável na cidade a dor.
Jazem seus filhos sem lamento ao chão, exalando insepultos a morte.
Jovens esposas e mães já grisalhas se
dispersam com gritos em torno aos altares
gemendo em súplica à custa de lúgubres penas.
Lampeja o peã junto à voz dolorífera.
Nisso a áurea filha de Zeus encaminha-nos
a bela face do vigor.

Ares furibundo, que sem seu brônzeo escudo agora vem
queimar-me envolvido em gritos, te suplico
de novo longe desta pátria rápido
partires ou para o grande leito de Anfitrite
ou para as inóspitas ondas
lá dos mares trácios,
pois, se algo a noite não findar,
logo o dia vem e o faz.
Ó tu, que tens poder
sobre os raios rútilos,
Zeus pai, sob o teu relâmpago o aniquila!

Senhor Liceu, das auritrançadas cordas do arco teu
quero ver voarem as indomáveis flechas,
dispostas para a ajuda junto às rútilas
chamas que Ártemis lança sobre as montanhas lícias.
Invoco o de áureas láureas,
que dá nome à terra,
purpúreo Baco de evoé,
misto às suas mênades,
para aliar-se a nós
com brilhante tocha a arder
na luta ao deus sem honra dentre deuses!

(vv. 151-215)

Χορός

ὦ Διὸς ἁδυεπὲς φάτι, τίς ποτε τᾶς πολυχρύσου
Πυθῶνος ἀγλαὰς ἔβας
Θήβας; ἐκτέταμαι φοβερὰν φρένα, δείματι πάλλων,
ἰήιε Δάλιε Παιάν,
ἀμφὶ σοὶ ἁζόμενος τί μοι ἢ νέον
ἢ περιτελλομέναις ὥραις πάλιν ἐξανύσεις χρέος.
εἰπέ μοι, ὦ χρυσέας τέκνον Ἐλπίδος, ἄμβροτε Φάμα.
πρῶτα σὲ κεκλόμενος, θύγατερ Διός, ἄμβροτ᾽ Ἀθάνα
γαιάοχόν τ᾽ ἀδελφεὰν
Ἄρτεμιν, ἃ κυκλόεντ᾽ ἀγορᾶς θρόνον εὐκλέα
θάσσει,
καὶ Φοῖβον ἑκαβόλον, ἰὼ
τρισσοὶ ἀλεξίμοροι προφάνητέ μοι,
εἴ ποτε καὶ προτέρας ἄτας ὕπερ ὀρνυμένας πόλει
ἠνύσατ᾽ ἐκτοπίαν φλόγα πήματος, ἔλθετε καὶ νῦν.
ὦ πόποι, ἀνάριθμα γὰρ φέρω
πήματα: νοσεῖ δέ μοι πρόπας στόλος, οὐδ᾽ ἔνι φροντίδος ἔγχος
ᾧ τις ἀλέξεται. οὔτε γὰρ ἔκγονα
κλυτᾶς χθονὸς αὔξεται οὔτε τόκοισιν
ἰηίων καμάτων ἀνέχουσι γυναῖκες:
ἄλλον δ᾽ ἂν ἄλλῳ προσίδοις ἅπερ εὔπτερον ὄρνιν
κρεῖσσον ἀμαιμακέτου πυρὸς ὄρμενον
ἀκτὰν πρὸς ἑσπέρου θεοῦ.
ὧν πόλις ἀνάριθμος ὄλλυται:
νηλέα δὲ γένεθλα πρὸς πέδῳ θαναταφόρα κεῖται ἀνοίκτως:
ἐν δ᾽ ἄλοχοι πολιαί τ᾽ ἔπι ματέρες
ἀχὰν παραβώμιον ἄλλοθεν ἄλλαν
λυγρῶν πόνων ἱκετῆρες ἐπιστενάχουσιν.
παιὰν δὲ λάμπει στονόεσσά τε γῆρυς ὅμαυλος
ὧν ὕπερ, ὦ χρυσέα θύγατερ Διός,
εὐῶπα πέμψον ἀλκάν.
Ἄρεά τε τὸν μαλερόν, ὃς νῦν ἄχαλκος ἀσπίδων
φλέγει με περιβόατον, ἀντιάζω
παλίσσυτον δράμημα νωτίσαι πάτρας
ἔπουρον, εἴτ᾽ ἐς μέγαν θάλαμον Ἀμφιτρίτας
εἴτ᾽ ἐς τὸν ἀπόξενον ὅρμων
Θρῄκιον κλύδωνα:
τελεῖν γὰρ εἴ τι νὺξ ἀφῇ,
τοῦτ᾽ ἐπ᾽ ἦμαρ ἔρχεται:
τόν, ὦ τᾶν πυρφόρων
ἀστραπᾶν κράτη νέμων,
ὦ Ζεῦ πάτερ, ὑπὸ σῷ φθίσον κεραυνῷ,
Λύκει᾽ ἄναξ, τά τε σὰ χρυσοστρόφων ἀπ᾽ ἀγκυλᾶν
βέλεα θέλοιμ᾽ ἂν ἀδάματ᾽ ἐνδατεῖσθαι
ἀρωγὰ προσταχθέντα τάς τε πυρφόρους
Ἀρτέμιδος αἴγλας, ξὺν αἷς Λύκι᾽ ὄρεα διᾴσσει:
τὸν χρυσομίτραν τε κικλήσκω,
τᾶσδ᾽ ἐπώνυμον γᾶς,
οἰνῶπα Βάκχον εὔιον,
Μαινάδων ὁμόστολον,
πελασθῆναι φλέγοντ᾽
ἀγλαῶπι ¯ ˘ ¯
πεύκᾳ ‘πὶ τὸν ἀπότιμον ἐν θεοῖς θεόν.

 

Padrão
poesia

Flávio Morgado (1989-)

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Flávio Morgado é poeta nascido no Rio de Janeiro em 1989. Lançou seu primeiro livro “um caderno de capa verde” (7Letras) em 2012 e o segundo, “uma nesga de sol a mais” (7Letras), em 2016.

* * *

litígio à bandeira

 

Luis Gonzaga das Virgens, conjurado negro,
entregou a si, nascido cabeça a prêmio.
Luis Gama letrou-se em liberdade
e escreveu em costas brancas
a palavra justiça.
Liberata, escrava, alegou humanidade
aos bichos da lei.
Zumbi tem rosto.
Barbosa não tem culpa.
175 mil africanos
a contragosto, em kalunga,
sob o descaso da compaixão e da língua
cristã aportavam na capital em 1736.
54% da população deste país
é declaradamente negra
(à primeira carta republicana
vinha o apêndice sintático-racial
“forro”)

 

[minha cara
não encobre
minha culpa mas
não extingue
essa inquieta sensação de carregar
o que condeno.]

 

somos irmãos vis
do continente. Infanticidas notáveis
de nossas origens. Exímios
engenheiros de silêncios irrevogáveis.

injuriados à beleza.

se não o vermelho,
cobiça cabaço dos portugueses,
ou sobre brasis
(melhores inquilinos da terra),
ou ao resultado trágico desta equação.
que não seja
já que até os tons
a tacanhez contextualiza,
por que então a manutenção?
das cores, das vozes, das práticas,
da eterna vez, do quinto, do dízimo,
do cinismo e até do modo de foder
– ibericamente culpado. institucional.

 

mãe mais que gentil,
dos lázaros que sustenta em estrelado:
senna, escória de orleans&bregança, dória, ainda-sarney;
a bem sucedida sonegação
da família marinho;
o tricentenário de propriedade
e embranquecimento social
do clube piraquê
e a sonsa cegueira do leblon.

agora alguém morre, negligenciado, no hospital
salgado filho
todo dia alguém nasce, negligenciado, de antemão,
ao didático livro do capital.
e salve a santa constituição!
salve a pálida cara do constrangimento,
o iluminismo engabelado
e a esteira de produção!

(o mundo nos descabe esteticamente)

 

 

pensa,
oficialmente solitário,
jovem professor de história,
na zona sul do rio de janeiro,
em uma sala só de brancos,
ao explicar por quem
tremulam as nacionais
cores de uma bandeira
sem preto.

§

 

body art

 

pintar com a língua.
compreender o espaço
pelo tato, deixar o cheiro-
alvo cumprir seu domínio
pela boca,
começar pelas coxas –
quase moldura –
deixando pingar
saliva em relevo
(metalingua
agem porque ninguém a esta hora é ingênuo)
repetir o faro.
ouvir ofegar o quadro
que com a mão deve
saber de cor.

pincel-língua
tinta
sobre a
tinta
recupero o gesto adâmico

a língua funda o sentido
que nos admite orgíacos

começo a caber no seu delírio
quando a tela me pinta.

com o que ainda me escorre
de gozo,

espero
o corpo
reconduzir ao
corpo.

 

para recomeçarmos.

§

 

cena mãe

 

há um livro dentro de mim.
meu rancor tem a aspereza de um fato
e você não sabe disso.

não sabe
que enquanto à pia
teu filho sentava para catar os feijões
os caroços não se separavam dos calos.
não sabe
que depois que meus olhos
aprenderam a fazer,
não podem mais apenas ver
e foi por isso que
tua mão desistida
foi se dar a todas as mulheres que desamei (a mim)
e me puseram sobre seu colo –

medeia, sou teu filho pródigo
que correu a jasão

sou teu aborto interrompido,
tua juventude abortada,
teu caminho e atalho
ao parto – primeiro pacto de não-comunhão.

e se a narrativa se impôs ao perdão,
o que faço eu com os gestos
meus que se assemelham à mão
que te estapeou? o filho da culpa
se compadece
sobre a estética do não-pai
que não teve.
e se você soubesse, amava.

amava os livros que trago em mim,
úteros de si aos quais teria me
encontrado
e me permanecido teu filho apenas,
mesmo sob o silêncio de seu seio
negado
que ainda assim
armamenta este poema.

você armaria os livros que tenho em mim.

§

 

delírio castrada

 

delírio, a miss FEBEM dos gatos,
foi castrada.

ao redor de sua (agora) eterna castidade
o silêncio
do faro macho
dos noturnos pretendentes
e de sua instintiva ideia de amar

talvez doa em algum lugar
de sua consciência felina
de caça (e ensaio
de concentração)

já que, menos eufórica,
não come, não mia,
não me fita os olhos, não gateia.

caminha viúva
prefere a sombra aos pássaros
e honesta,
enluta o próprio tesão.

§

 

ministro do supremo

 

agulhas de oblíqua amolação
linhas de infâmia
e sujas articulações
cacos institucionais
caviar, gotas de dom perigon,
sobras de excessos ,
veleidades de um estômago gordo
empáfia audaz
uma constituição, uma toga e um trono
promessa, perjúrio e parcialidade
um senador, escravos e bons hectares da amazônia
doses de capanguismo
(nenhum remorso até o esôfago)
a idoneidade de uma democracia ruminada
e parafusos de uma velha engrenagem
a preto e pobre
foram encontrados,
junto aos miúdos,
e o corpo,
enganchado pelas nádegas,
exposto e fedendo
da vossa excelência
o ministro do supremo
gilmar mendes

(ainda de óculos)

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tradução

3 traduções pro ‘The Raven’ do Poe

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Mesmo que Edgar Allan Poe de fato seja, ao menos para um leitor de língua portuguesa, mais contista do que poeta, ainda assim é difícil que seu corvo não tenha alguma vez esvoaçado para dentro dos aposentos de leitores mais entusiastas e encontrado ali um local no mínimo propício à influência de seus feitiços. E nem me refiro especificamente ao poema original: seja em tradução, todo o lirismo exaltado desse romantismo tenebroso que flerta com o fantástico ainda é motivo de atração comum. Se não isso, ao menos a peculiaridade formal do poema é reconhecida pelos menos afetados. Um pouco além, existe ainda a questão das inúmeras referências ao poema na cultura popular: na literatura, por exemplo, com Neil Gaiman (American Gods, Sandman), Lemony Snicket (pseudônimo de Daniel Handler, em A Series of Unfortunate Events, The Vile Village), Stephen King (Insomnia); no cinema, em The Crow (1994), Batman (1989, de Tim Burton), numa breve citação pelo Coringa de Jack Nicholson (“take thy beak from out my heart!”); na televisão, com a série The Following (2013-2015), ou a paródia em The Simpsons; na música, com Lou Reed e seu álbum The Raven; etc. etc. O poema ainda é rentável para estampas de camisetas e canecas, e não me surpreenderia se “the raven” estivesse no cardápio de alguma hamburgueria temática. Seja dito que sim, Poe é pop, e seu corvo não menos. Das variadas traduções para o português, duas são as mais conhecidas: a de Machado de Assis e a de Fernando Pessoa. A primeira apresenta uma composição que não segue a estrutura original: os versos são quebrados e dispostos de maneira nova, variando entre oito, dez e doze sílabas, com ritmo diverso e rimas reorganizadas (esquema AABBCCDEDE). Essa bela tradução de Machado de Assis seria fruto indireto da versão francesa de Baudelaire. Fernando Pessoa, por sua vez, apresenta uma tradução com o mesmo número de versos e estrofes do poema original, e parece ainda ter a intenção de preservar os componentes rítmicos. Também na disposição das rimas se mantém fiel – ou seja, incluídas as rimas internas, reproduz o esquema AA, B, CC, CB, B, B. Um pouco à parte, é interessante notar que enquanto Machado de Assis traduz Lenore por “Lenora”, a versão de Pessoa em nenhum momento dá nome à amada perdida, já que se presta a preservar o padrão do esquema com suas rimas em ais (isso, obviamente, considerando que “nunca mais” fosse a única solução cabível para nevermore em sua proposta de tradução). Finalmente, no que refere à minha própria tradução, admito que se trata de um quase servilismo velado no encanto, ou vice-versa. De todo modo, minha proposta se assemelha à de Pessoa: tentei reproduzir também a forma do original, atentando não somente para a disposição das rimas (o esquema foi mencionado acima) como também para a estrutura rítmica dos versos (com o perdão do pedantismo, octâmetros acataléticos, heptâmetros cataléticos e tetrâmetros cataléticos combinados em ritmo trocaico, ou seja, sílaba forte seguida de fraca – tudo isso como bem especifica o próprio Poe em sua Filosofia da composição). Acresce a preocupação em preservar, pela proximidade de efeitos, imagens e referentes que não necessariamente se dão da mesma forma na versão de Pessoa, assim como ritmo e dicção mais fluentes. A ideia geral é suscitar no leitor uma sensação mais próxima ao feitiço original. Algumas questiúnculas para finalizar: não me preocupei com a oscilação na cesura de uns poucos versos, resultante de um heptâmetro catalético traduzido no lugar de um octâmetro acatalético. A segunda estrofe é um exemplo disso, com as rimas em -er. Também nas duas primeiras estrofes chamo atenção para as rimas praticamente iguais às da tradução de Milton Amado – recomendo-a, inclusive, como a minha preferida –, o que vai acabar num verso inteiro emprestado (“nome aqui já não tem mais”). Talvez tenha sido o martelar da versão de Milton em minha cabeça que me levou a entender isso como melhor solução para minha proposta. Por fim dos fins, convencido da significância de rimar Lenore com nevermore, optei por traduzir o nome da amada como nada menos que “Lenais”. Estou certo de que a ideia não é minha, mas totalmente incerto de sua fonte. As pesquisas me direcionam a uma tradução de Odair Cerazzo Jr., que me era de todo desconhecida até pouco tempo.

bruno palavro

* * *

 

ante-scriptum: como o poema é longo (e famoso) e 3 traduções + o original dariam muito trabalho pra barra de rolagem dos vossos computadores, quem quiser conferir o original clique aqui. passemos direto às traduções. ah, pra quem perdeu e quiser conferir a tradução-exu feita por guilherme gontijo flores e rodrigo gonçalves, clique aqui.

* * *

 

O CORVO

Era noite alta e sombria, fraco e farto eu refletia
Sobre muitos e curiosos esquecidos manuais.
Cabeceando, adormecido, escuto um súbito ruído
Como algum gentil batido, um batido em meus umbrais.
“É visita”, murmurei, “que está batendo em meus umbrais:
É só isso e nada mais”.

Ah, distintamente lembro, foi no gélido dezembro,
Cada flama já morrendo criava sombras fantasmais.
Desejava o amanhecer – tentara em vão nos livros ter
Um amparo e não sofrer, sofrer com a perda de Lenais –
A radiante e rara moça que anjos chamam de Lenais –
Nome aqui já não tem mais.

E o sedoso, triste, incerto rubro véu soando perto
Me abalava com fantásticos terrores sem iguais;
Já meu peito reprimindo fui tão logo repetindo:
“É visita me pedindo entrada aqui nos meus umbrais –
Vem tardia, me pedindo entrada aqui nos meus umbrais –
É só isso e nada mais”.

Forte a alma num instante, e eu então não hesitante,
“Senhor”, disse, “ou madame, penso se me perdoais;
Estava quase adormecido e tão gentil foi o ruído,
Foi tão débil o batido que batia em meus umbrais,
Que mal pude vos ouvir…” – então abri os meus umbrais –
Só o escuro e nada mais.

Fundo as trevas espreitando, lá fiquei desconfiando,
Dúbio em sonhos que mortal nenhum ousou sonhar jamais;
O silêncio era infinito – no sossego incompreendido
Só um vocábulo foi dito, um sussurro assim: “Lenais?”
Isso eu disse, e algum eco murmurou assim: “Lenais!” –
Isso apenas, nada mais.

Ao meu quarto regressando, toda a alma em mim queimando,
Novamente eu ouço tapas ressoarem inda mais.
“Certo”, eu disse, “essa mazela é qualquer coisa na janela;
Resta ver o que tem nela, no mistério dos sinais –
Que meu coração se aquiete, que eu explore estes sinais –
É só o vento e nada mais!”

Tendo aberto já a vidraça, turbulento me esvoaça
E entra ali um nobre corvo de eras santas e ancestrais;
Cumprimentos não prestou, nem um minuto ali ficou:
Com ar de lorde ou lady voou até pousar nos meus umbrais –
Sobre um busto, no de Palas, logo acima dos umbrais –
Lá pousou e nada mais.

A ave de ébano deteve meu pesar num riso leve
Com o decoro grave e austero de seus ares tão formais.
“Sem penacho volumoso, mesmo assim não és medroso,
Corvo ancião e pavoroso vindo lá do escuro cais –
Diz qual é teu nome lá nas trevas do plutôneo cais!”
Disse o corvo: “Nunca mais”.

Admirei que a ave rara discursasse assim tão clara,
Salvo a pouca relevância das palavras, bem banais;
Mas que seja mencionado: não há humano agraciado
Que antes tenha contemplado alguma ave em seus umbrais –
Ave ou besta no esculpido busto sobre seus umbrais –
Com tal nome, Nuncamais.

Mas o corvo, solitário, não variou o vocabulário,
Como se sua própria alma derramasse em termos tais.
Nada mais ele falou, nem uma pena farfalhou;
Mas minha alma murmurou: “Perdi amigos tempo atrás –
De manhã me deixará como a esperança um tempo atrás”.
E a ave disse: “Nunca mais”.

Pasmo com a mudez quebrada na resposta assim falada,
“Certo”, eu disse, “o que profere são só falas usuais
Que pegou de um mestre aflito, por desastre desmedido
E imparável perseguido até um refrão marcado em ais –
‘Té canções sem esperança, melancólicas com ais
De ‘nunca – nunca mais’”.

A ave ainda assim deteve meu pesar num riso leve:
Ajustei minha poltrona frente ao corvo, busto e umbrais.
No veludo então sentando me peguei associando
Devaneios e pensando na ave de eras ancestrais –
No motivo da ominosa, horrenda ave de ancestrais
Crocitar seu “Nunca mais”.

Isso eu quis adivinhar, sem uma sílaba expressar
À ave de olhos que queimavam meus alentos mais fulcrais;
Estive assim ensimesmado com o crânio reclinado
No recosto aveludado sob a luz dos castiçais,
No veludo violeta sob a luz dos castiçais –
Leito dela ah, nunca mais!

O ar então ficou mais denso, num perfume como incenso
Solto pelos serafins com suas passadas musicais.
“Infeliz,” gritei, “Deus deu-te – pelos anjos concedeu-te
Trégua – trégua e o nepente pras memórias de Lenais;
Bebe, bebe o bom nepente e esquece a perda de Lenais!”
Disse o corvo: “Nunca mais”.

“Ó profeta, ser malvado – és profeta, se ave ou diabo! –
Pelo Tentador trazido ou pelos rudes temporais;
Desolado mas ousado neste deserto encantado –
Lar de horrores, assombrado – imploro: franco, fala mais –
Há bálsamo em Gileade? – diz, imploro, fala mais!”
Disse o corvo: “Nunca mais”.

“Ó profeta, ser malvado – és profeta, se ave ou diabo!
Pelo Deus que nós louvamos – pelos arcos celestiais –
Assegura essa alma insossa caso lá no Éden possa
Abraçar a santa moça que anjos chamam de Lenais –
A radiante e rara moça que anjos chamam de Lenais”.
Disse o corvo: “Nunca mais”.

“Tal resposta nos desuna, ave ou diabo!”, grito, em suma –
“Vai de volta à tempestade e às trevas do plutôneo cais!
Que nenhuma pluma ateste tais mentiras que disseste!
Vai, que a solidão me reste! – sai do busto nos umbrais!
Tira o bico da minha alma e tua figura dos umbrais!”
Disse o corvo: “Nunca mais”.

E esse corvo está parado, lá sentado, lá sentado,
No alvo busto, no de Palas, logo sobre meus umbrais;
Com seus olhos figurando os de um demônio assim sonhando
Sob a luz que, tremulando, lança sombras sepulcrais;
E minha alma dessas sombras que flutuam sepulcrais
Há de erguer-se – nunca mais!

(tradução de Bruno Palavro)

§

 

O CORVO

Numa noite assim tão prava, quando, fraco, a mim cansava
Cum tratado mui singelo dum folclore além do inglês
Quando, ao ir e vir, na noite, veio aqui do nada o açoite
Feito alguém que em meu pernoite bate à porta e sem rudez
“É visita”, falei baixo, “cá na porta e sem rudez
É visita e sem porquês”

Ah, e assim a mim consterno vendo estou no pleno inverno
Toda vã poeira morta finca o pé em mim qual fez
Tal querer que enfim viesse tal manhã, e a sua messe
Qual nos livros eu fizesse meu reduto dessa Inês
Pois a rara e lhana moça dita pelo céu Inês.
Tem que nome aqui, que vez?

E esse lento, e triste, e incerto, negro desse véu aberto
Pelo vento que a mim toma qual de mim ninguém o fez
Tal que, a seu calor manter-me, faço atrito à velha derme
“É visita que a mim quer-me vir pra dentro e sem rudez
Vem-me tarde como os vermes vêm à porta e sem rudez
É não mais e sem porquês”

Pois então cresci mais firme, como a moça fosse vir-me
“Moça ou moço, eu peço logo, por favor, conte até três
Pois você na meia-noite foi não mais que aquele açoite
Foi não mais que o seu açoite no meu sono e sem rudez
Que eu, inferno, achei ouvi-la”, te abro a porta, e com rudez
Só o escuro teve vez

E há, com tal dama-da-noite, quem não ceda ou, bem, se afoite
Nesse sonho tão confuso que ninguém jamais o fez?
Meu silêncio não tocado, sem indícios de um passado
Que esse verbo mal chorado, tão sozinho, o nome “Inês?”
Que eu chorei, e o tal vazio deu de volta assim “Inês!”
Só teu nome teve vez

Já no quarto, revirou-se minha mente e assim pensou-se
Quando ouvi sem mais demora, o mais sonoro que se fez
“Deve ser”, me disse, “deve, coisa à qual, pois, vejo breve
Na janela a quem se atreve, tal mistério, aqui nos eis
Deixa o peito dar mornada , pra, ao mistério, aqui nos eis
Só o vento vai ter vez!”

Cá aberto dou pra trás, quando, sem porquês ou mas
Lá pairava então um Corvo de idos dias, anos, mês
Sem fazer nenhuma sala, nada o para ou mesmo abala
Com tal ar de quem tem ala, vem pra dentro e sem rudez
Olha pela imagem Dela, sobre a porta e “sem” rudez
Olha e senta e sem porquês.

E a ave sem mais cor ficou-se; cada ruga, então, bem foi-se,
Ri-me dessa compostura, tal decoro em tão chã tez
“Mesmo sem a pena, o pejo, tu bem foste qual almejo
Corvo velho a que ora alvejo: diz a estirpe e sem mudez
Vens da noite, é claro, diz-me, pois, o nome e sem mudez”
Disse o Corvo “Foi-se a vez”

Tanto pasmo então me veio, vendo um bicho achando um meio
De uma fala e sem enleio, mesmo à guisa de um burguês
Como? Sem sentido. Pôs-se, nisso, creio, concordou-se
Pois é raro (ou só mostrou-se) gente com ou sem rudez,
C’ave ou besta sobre a porta, com ou sem maior rudez,
Cum tal nome: “Foi-se a vez”

Mas o Corvo, só, sentando, nessa queda imagem quando
Tais palavras repetia qual se a mente ali talvez
Fosse pôr, não mais falava, não sem pena ou não mostrava,
Nada disso a mente brava “outros meus se foram, vês?
Vindo o dia, irás partir-te, qual m’a fé partiu, não vês?”
E ele disse “Foi-se a vez”

Perco o tino, a calma morta por resposta tal que importa
Nessa fala “com certeza só responde uns bê-a-bês
Ditos sem mais dó ou penas por um dono seu apenas
Nada menos, nada amenas, dá seu fardo em tal gaguez
Duma Fé a tal Desgraça, dá seu fardo em tal gaguez:
Foi-foi-foi-foi-foi-se a vez?”

Mas co Corvo a facha foi-se, cada ruga em mim passou-se,
Hirto vou pra frente à ave, e porta, e foto, e sem rudez
Já no tão tenro veludo, penso e penso sobre tudo
Que esse bicho de ar sisudo diz há dia ou ano ou mês
Diz terrível, vil, cruento, diz há dia ou ano ou mês
Diz em grasno “Foi-se a vez”.

Em pensar, sem ver se foi, se, lá no Corvo, algo ficou-se
Qual ficou por cá no peito, nesse Corvo tão soez
Isso e mais em mim passou-se, sem mais fé, corpo froxou-se
Pois no tal veludo doce, que essa luz tocou cortês
Nesse tal veludo doce que essa luz tocou cortês
Ela ali, bem, foi-se a vez

Pois bem vi meu ar mais denso qual queimasse eu nele incenso
Qual piano os céus me deitam cada pé, e eu só “vocês,
Anjos por Deus cá mandados para dar-me a tais bocados,
Pra dar folga dos passados, tais lembranças dessa Inês
Folga, esquece, e sente alívio, dá remédio à minha Inês”
Diz o Corvo “foi-se a vez”

“Mau agouro, bicho ou sanha, desse agouro que abocanha
Seja o fim do meu mormaço, seja o próprio seis seis seis
Sem ninguém, mas com fantasmas, terras vis, cê, vê, refaz-mas
Nessa casa o Horror das asmas – diga logo e sem surdez
Há no mundo algum remédio – diga logo e sem surdez
Diz-me o Corvo “foi-se a vez”

“Mau agouro, bicho ou sanha, desse agouro que abocanha
Pelos céus que nós fitamos, pelo Deus no qual bem crês
Pr’essa vida tão sentida, dantes da maçã comida
Tem retorno, ou mais saída, tem de volta a moça Inês?
Tem a rara e lhana moça dita pelo céu Inês”
Diz-me o Corvo “foi-se a vez”

“Que esse dito seja o açoite para o bicho ou sanha, foi-te?
Vai de volta para a Noite negra como a tua tez
Vai sem pena, a tal mentira que contaste não revira!
Meu silêncio sem mais ira dá de volta sem rudez
Meu vazio peito sem ira dá de volta sem rudez”
Diz-me o Corvo “foi-se a vez”

E esse Corvo não nos foi-se, fica ali qual pronta foice
Sobre a imagem de quem foi-se por tal porta sem rudez
Cum olhar tão como a Noite, desse inferno que ninou-te
E essa luz que a ti tocou-te faz-lhe u’a sombra não cortês
E essa mente pela sombra paira sem mais ar cortês
Vai ser livre? “Foi-se a vez”

(tradução de Wilton Bastos)

 

§

O ESTORVO

Certa vez, de madrugada, com a cabeça debruçada
Sobre uma apostila usada, dessas que ninguém lê mais —
Bocejando, já caduco, de repente um vuco-vuco
Escutei, como um maluco que batesse à minha porta.
“É um maluco… Quem se importa? Isso é o que a bebida faz:
Está bebo. Nadimais.”

Desse lance eu bem me lembro: era um porre de um dezembro,
E das velas, num vaivém, brotavam chamas viscerais.
Eu ansiava pelo dia e cada folha em vão treslia,
Besta que era, a ver se ali a dor calmava ou ia embora —
Dor da falta de Leonora, que partiu tempos atrás
E não voltou nunca mais.

E o balanço lento e chocho da cortina em tons de roxo
Infundia-me uns tremores que ninguém sentira iguais;
Pra que eu não tivesse um infarto, bem baixinho no meu quarto
Repetia-me “Estou farto: é só um maluco sem relógio
A rezar pra que eu aloje-o. Vou mostrar como se faz,
Que o safado não vem mais.”

Me senti viril pra burro; prenunciando um belo murro,
“Cara”, eu disse, “Ou dona, escuta… Eu nem sei o que te traz;
Tava quieto, e essa batida me deixou tão p. da vida
Que eu não vou te dar guarida. ‘Té tentei deixar passar,
Mas não dá pra te aguentar” — E eis que a porta abri, voraz;
Era a noite; nadimais.

Retornando ao meu quartinho, novamente o burburinho
Que me fez tremer na base — dessa vez bem mais tenaz.
“Eita nós”, gritei, “Cautela… Foi de fora da janela…
Vamos ver o que tem nela, e acabar com esse tormento —
Com certeza é só o vento… Saberemos num zás-trás
Que é só vento… Nadimais…”

Destranquei-a, abri o batente, e num revés, tão de repente,
Veio o vento, e uma esquisita Mariposa veio atrás.
Ignorou-me por completo, e, como um vulto irrequieto,
Voou até pousar no teto, chacoalhando a negra saia
Sobre um pôster do Tim Maia, na parede lá de trás;
Foi, pousou e nada mais.

A bichinha velha e escura me fez rir da minha agrura
Pelas pompas que vestia, pelo jeito perspicaz;
“Apesar da asa rasgada”, puxei papo com ela, “nada
Transparece de espantada, entrando assim, e assim enorme.
Qual teu nome? Pois me informe, se é que um nome você traz.”
E ela disse: “Tanto faz.”

Não pensava que esse verme fosse mesmo responder-me.
Se o que disse fez sentido, pouco importa, pois, rapaz,
Combinemos uma coisa: cê já viu uma mariposa
Que entra no teu quarto e inda ousa conversar de igual contigo?
Eu duvido, meu amigo: não existem animais
Que se chamam “Tanto Faz”…

Mas a mariposa queda sobre o Tim que se empareda
Parecia desdobrada nessas sílabas fatais.
Nem tentou falar mais nada, nem saiu em revoada,
‘Té que, em voz bem moderada, resmunguei: “O dia avança;
Como os bondes e a esperança que eu perdi, também te vais”
E ela disse: “Tanto faz.”

Matutando em que rolava sem dizer uma palavra
Para os aurinegros olhos que me ardiam mais e mais,
Reclinei-me no banquinho e, contemplando o negro linho,
Me esqueci de estar sozinho: “Lê, meu bem, pega a vassoura.”
Foi então que vi: Leonora me deixou pra nunca mais…
“Ai, que falta ela me faz…”

O climão ficou tamanho, mas do nada um cheiro estranho
Inundou meus aposentos como um banho de erva e sais.
“Céus”, chorei, “que doce esmola ao desespero que me assola!
Sente, sente essa marola — esquece a outra de uma vez;
Há no mundo tantas Lês — esquece! Esquece! Engole os ais!”
De repente: “Tanto faz.”

“Coisa ruim de borboleta”, eu disse, “cria do capeta,
Se o calor é o que te trouxe, ou se foi mesmo Satanás —
Temerosa, mas arauto — nesta rua sem asfalto,
Neste quarto — na moral, tô de joelhos, me responde:
Onde é o fim do túnel? Onde? Me responde, e um bem me faz!”
Mariposa: “Tanto faz.”

“Coisa ruim de borboleta, serva ou cria do capeta,
Pelo teto que nos cobre, pelo amor de nossos pais —
Tira o peso do meu peito e diz pra mim se ainda há jeito:
Quando enfim reencontrarei todo esse amor que hoje me fere,
Que tem nome de mulher e que partiu pra nunca mais?”
Mariposa: “Tanto faz.”

“Quer saber? Tu que se dane, ô coisa ruim!” Lancei-me, inane —
“Vai pro inferno que é tua casa dar um beijo em Satanás!”
Pra expiar de vez minha alma, dei um pulo e, abrindo a palma,
Soquei-a — não menos calma — sobre o pôster do Tim Maia,
E na boca do Tim Maia seus fluídos corporais
Escreveram “Tanto faz”.

E o que foi a mariposa agora pousa, agora pousa
Sobre a boca do Tim Maia na parede lá de trás;
E o seu olho ardendo aceso com irônico desprezo
Sob a luz projeta o peso de um silêncio no recinto;
E esse peso que ora sinto me enche de uma estranha paz,
Ou remorso, tanto faz…

(tradução de Pedro Mohallem)

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poesia

João Bosco da Silva (1985-)

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João Bosco da Silva nasceu em Bragança (1985). Passou a maior parte da sua infância e adolescência em Torre de Dona Chama. Estudou no Porto. Vive na Finlândia.

Livros de poesia: Os Poemas de Ninguém (Atelier, 2009), Disse-me António Montes (Mosaico de Palavras, 2010), Bater Palmas E Sete Palmos De Terra Nos Olhos (Mosaico de Palavras, 2011), Saber Esperar Pelo Vazio (Mosaico de Palavras, 2012), Destilações (não edições, 2014), Trepanação de Jerónimo Bosch (Mariposa Azual, 2015), Roncos (Enfermaria 6 , 2017) ed.digital, Teoria da Perdição Unificada (Enfermaria 6, 2017).

Algumas participações em antologias e revistas: Revista “Inútil” n.2, “Meditações Sobre O Fim”, HARIEMUJ, “Voo Rasante”, Mariposa Azual, “Caderno 3”, Enfermaria 6, “Flanzine 8 – Lol&Pop”, Flan de Tal, “Bukakke”, Copus Dei, “Persona”, do lado esquerdo, “102ª Leva”, Diversos Afins (Brasil), “Submarino 1”, IPSAR, 2016 (Itália), “Flanzine 13 – EUROPA”, Flan de Tal.

 

sergio maciel

* * *

Ronco
– the poem oughta be worth some beer
al purdy

Enquanto continuarem a dar ouro pela merda dos dentes branqueados
Pela ignorância, enquanto endeusarem a arte de ter sempre razão
Sem saberem nada além de rapar os pêlos entre os olhos,
Enquanto se deixarem hipnotizar por letras de canções que
Podiam ter sido escritas por miúdos da quarta classe que já tocam punhetas,
Enquanto os olhos estupidificarem tudo em que tocam
Por culpa da ligação directa da região occipital aos tomates e à ganância,
Enquanto usarem só o espelho para ignorar a passagem dos anos,
Acreditando que a imortalidade está nos balões que insuflam com agulhas,
Enquanto se achar que a cor da camisola melhor porque minha,
A cor da pele melhor porque minha, o sotaque melhor porque meu,
Enquanto se usar deus como o papão, quando se quer e convém,
Como quem está sempre doente quando têm que se tirar as mãos dos bolsos,
Enquanto houver os que apesar de não terem televisão,
Aparecem mais do que o que escrevem e vendem-se ao holofote mais forte,
Enquanto houver os que estão tão fartos de toda esta merda
Que se deixam afogar em goles intermináveis e rasgam-se pelos dedos,
Enquanto houver os críticos que criticam só porque não sabem
Fazer mais nada e querem sempre ficar por cima, mesmo que capados,
Enquanto houver cegos por opção, porque dentro deles o mundo melhor
E mais vale ficar enterrado numa avalanche que ser coberto de merda,
Enquanto houver os que fodem para se encontrarem dentro, fora deles,
Ou na submissão dos outros e os que são pagos por isso,
Enquanto houver espaço na página e a pastelaria ou o café
Estiverem abertos, enquanto houver tinta, enquanto o sangue não arrefecer,
Enquanto o mundo for mundo, será tudo uma valente merda,
Ao menos não escondam o focinho nem a piça em espiral, ronquemos irmãos.

Turku

§

Ronco IV

Que foi, nunca viste as redes pelas costuras, o teu avô no cemitério, as tuas mãos
Vazias e as costas nuas penetradas pelo futuro que os passos vão formando,
Que foi, esqueceste-te do sabor do sangue nos pulmões arrancados à geada,
Já não te lembras dos amigos que sustentaram as tuas punhetas com baralhos
De cartas da loja dos trezentos e os vídeos resgatados dos píncaros dos guarda-fatos,
Que foi agora, os anos tornaram-te ingrato, hipócrita, senil, a idade não te desculpa,
Faltou-te foder alguém famoso para teres seiva suficiente no ego, murchaste precocemente,
Que foi, faltam-te os tomates agora, depois de teres fodido a recepcionista
Num quarto do seu próprio hotel aos vinte e um anos de idade e latitude ártica,
Não há um poema que te valha, nem um copo que seja suficientemente cheio,
Que foi, vais gritar agora o desespero todo, vais engolir tudo o que a avalanche
Te guardou, deixa os sorrisos e as esperas desencontradas, já te passou a hora,
Valete fratres, nem um valete de paus, tu, que nunca aprendeste a jogar
Ao chincalhão nos intervalos, quando ainda tinhas espaço nas mãos para ser alguém,
Que foi, agora, alguns têm-te medo, não sabem que sacrificas a fome pelo ócio,
E que os versos são consequências da vida, da dor, da morte, reflexos do prazer,
No tempo dos assassinos, que engoliam, cuspiam, passavam lenços de papel,
Tomavam comprimidos comprados logo de manhã ao senhor da farmácia,
Que foi, o elevador não te afastou da senhora arquitecta, que planeava fazer
De ti um renascimento glorioso de uma ruína imperial qualquer que ninguém lembra,
Foi o vinho do porto, naquela noite de São João, que foi agora, tiveste a inveja de
Professores na cidade berço, tiveste a miúda do café na ressaca, a olhar para ti
Como se esperasse não haver papel para secar as mãos na casa de banho,
Que foi, já viveste demasiado em menos de três décadas, nunca pensaste chegar
A desfrutar de um whisky de dez anos sem o consentimento dos que valorizam
Tudo pelos números, se eles soubessem que na Skye céu de tenra idade,
Que foi, não esperes que nos impérios arruinados se assuma a ignorância,
Chega, vai mijar versos a outro lado, ou ejacula com a janela do carro aberta
Numa geada leve, com o harmonioso aroma de fundo da pocilga, enquanto
Os alunos esperam, a oportunidade de recusar, aprender ao menos, mais uma merda.

Turku

§

Ronco V

Enquanto a minha cara incha pelo tédio, pela derrota dos anos, pelas submissão
Ao álcool por nunca ter conseguido ter a vida que me ensinaram a viver
Na televisão e nos livros, relembro a glória que foram os anos em que
Supostamente ainda não era tempo de ser, fosse o que fosse, naquele aniversário
Do primo dela, no carro da minha mãe, com o cabelo a acumular humidade
E ondas proporcionais às penetrações, o meu aniversário também,
No rio onde afogaram gerações de cães e de sonhos, onde lançámos
Mais tarde a cinza dos cigarros dos avôs, resgatados da ditadura e das colónias,
A caminho da posta mal passada e do vinho tinto capaz de aguentar geadas
Nos pipos das adegas eternas, hajam brasas e um amigo dos que nos viram
De luvas nas primeiras aulas da manhã, porque ao menos luvas,
Dos que nos viram plantar uma miopia que foi crescendo para
A vergonha da líbido dos dezoito anos e daqueles dedos esfomeados
Por carnavais e máscaras em sofás nos futuros postos da GNR que ainda hoje
Promessas de presidentes da junta de esquerda e direita, ping-pong
De países vestidos de democracia para o carnaval que têm sido as últimas décadas,
E é isto, que mais se espera de um indivíduo que trocou a missa de Domingo
Pela ressaca das manhãs indiscriminadas, deixou os acólitos porque a fórmula um, afinal,
Algo aborrecidíssimo, coisa de nórdicos ou alemães e padres que pelas
Línguas estéreis foram fodidos de lá para fora antes das voltas terem sido todas dadas.

Turku

§

Heavy Machine Gun (Ronco VI)

Ó pá, lembras-te de quando o destino do mundo estava nas nossas mãos,
Nos nossos dedos, e entretanto, fazíamos uma pausa para arrancar um pouco
De musgo às fragas, lembras-te quão leve era a responsabilidade,
E que fácil era fugir dos caixotes do lixo em chamas e dos balões de água
Lançados pelas chaminés abaixo, não fossem os amigos traidores,
Sempre os amigos traidores, os amigos traidores, os amigos traidores,
Esses cabões, perdoámos todas as mulheres, todos os beijos perdidos
Onde não estávamos, quase os filhos que não tivemos, nunca os amigos
Traidores, que nos sujam os versos com explicações, aqui ele estava
A falar duma vez em que foi com uma namorada para o rio da terra
E não lhe tocou, nem um pentelho, e é uma afronta tão grande a verdade,
Nem um pentelho, não como o da terra vizinha, que aproveitou bem o Verão,
Verão, verão que foi muita frustração acumulada, depois nem sei,
Houve demolição de castelos, degelos, guerras santas, terrorismo biológico,
Overdoses de serotonina, não podes competir com um gajo feliz,
Ó pá, nem sei, isto é uma explicação, uma confissão ou mais um ronco.

Turku

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tradução

Aleyda Quevedo (1972–), por Thiago Ponce de Moraes

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Foto de Anaís Madrid.

Aleyda Quevedo (Quito, 1972–) é uma poeta, jornalista, ensaísta literária e gestora cultural equatoriana. Publicou diversos livros, entre os quais se destacam Jardín de dagas (2014, México, 2016, Toulon, edição em castelhano e francês, 2017, La Habana) e Soy mi cuerpo (2006, Quito y 2016, Quito). Ao longo dos anos, tem participado de inúmeros encontros, feiras de livro e festivais internacionais de escritores. Sua poesia está traduzida a diversas línguas, como francês, inglês, hebraico e sueco. Na atividade de curadora literária, organizou antologias importantes, como 13 poetas ecuatorianos nacidos en los 70, 2008, Venezuela e De la ligereza o velocidad que también es perfume, 2012, Cuba. É colaboradora da revista de artes e literatura Vallejo&CO e coordena o selo independente Ediciones de la Línea Imaginaria.

 

thiago ponce de moraes

* * *

Corales

No importa la profundidad del descenso
o la imposible maleza derramada en el camino.
Es largo y frío el viaje sobre oscuros caballos.
Ejercicio de inmersión y belleza piadosa
hasta pisar altos jardines de coral negro.
Entre mi dolor –que conozco tanto desde el lodo-
y el universo poco explorado por la falta de tus palabras,
me queda flotando la impenetrabilidad de la música y la sal.
Las medusas atrapadas entre mis pestañas me jalan rápido.
Más no importa el precio del descenso.
Es necesario volver al camino consciente del miedo
y el aliento del océano golpeándome en la nuca. 

Corais

Não importa a profundidade da descida
ou a impossível mata espalhada no caminho.
É longa e fria a viagem sobre escuros cavalos.
Exercício de imersão e beleza piedosa
até pisar altos jardins de coral negro.
Entre minha dor – que conheço tanto desde a lama –
e o universo pouco explorado pela falta de tuas palavras,
me deixa flutuando a impenetrabilidade da música e do sal.
As medusas presas entre meus cílios me puxam rápido.
Mas não importa o preço da descida.
É necessário voltar ao caminho consciente do medo
e do alento do oceano a me bater na nuca.

§

Ámbar
a E. M.

Enjambre de agua, eterna en su no huella. Duda líquida y abierta al fluir. Profunda inmersión del goce. Arriba o abajo, el lugar de los dos, aunque nada de eso importe ahora que tomamos el baño perfumándonos con esta resina. Entrar en tu cuerpo y encontrar el ámbar, un ejercicio de buceo sin el equipo adecuado. Da igual si estás arriba y yo abajo, o los dos suspendidos en el agua tibia y azulada de la tina pulida. Lisura de mi piel. Relieves en tu cuerpo. Flemas transparentes de un árbol sin nombre. Espuma que torna sinuosos dos cuerpos que no saben de dónde vinieron para encontrarse. Romero y pétalos perfumando el agua ya casi fría del vidrio molido que lo torna todo de un verde que erecta. Norte en tus pulmones y el sur queda debajo de mis axilas. Porcelana y fibra de vidrio, líquenes blancos y algo de aire alcalino que llega desde otra profundidad. Dos cuerpos secan al sol incalculables gotas. Los dos se miran sabiendo del fulgor del ámbar. Teoría y práctica furiosa de un hallazgo sobre la piel que saca humores gélidos del corazón.

Âmbar
a E. M.

Enxame d’água, eterno em não ter rastro. Dúvida líquida e aberta ao fluir. Profunda imersão do gozo. Em cima ou embaixo, o lugar dos dois, ainda que nada disso importe agora que tomamos banho nos perfumando com esta resina. Entrar em teu corpo e encontrar o âmbar, um exercício de mergulho sem equipamento adequado. Dá no mesmo se estás em cima e eu embaixo, ou os dois suspensos na água quente e azulada da banheira polida. Lisura da minha pele. Relevos em teu corpo. Fleumas transparentes de uma árvore sem nome. Espuma que torna sinuosos dois corpos que não sabem de onde vieram para se encontrar. Alecrim e pétalas perfumando a água já quase fria de vidro moído que o torna todo de um verde que erige. Norte em teus pulmões e o sul fica embaixo das minhas axilas. Porcelana e fibra de vidro, líquens brancos e algo de ar alcalino que chega de outra profundidade. Dois corpos secam ao sol incalculáveis gotas. Os dois se olham sabendo do fulgor do âmbar. Teoria e prática furiosa de um achado sobre a pele que tira humores gélidos do coração.

§

Brazada

Curtida la piel, gastados los ojos, aprendí a bucear desnuda entre corales y piedras cortantes. Brazada abriendo el lenguaje: mantener el codo más alto que el brazo, las imágenes más brillantes son música.

Braçada

Curtida a pele, gastos os olhos, aprendi a mergulhar nua entre corais e pedras cortantes. Braçada abrindo a linguagem: manter o cotovelo mais alto que o braço, as imagens mais brilhantes são música.

§

Escribo de tu cuerpo para que no llegue el olvido
No sé otra manera de retenerte si no es escribiéndote
Desde luego, con cierta angustia de que se me escapen detalles.

Escrevo de teu corpo para que não chegue o esquecimento
Não sei outra maneira de prender-te que não seja te escrevendo
Desde já, com certa angústia de que se me escapem detalhes.

§

El granizo ha comenzado a disolverse
Hilos helados corren entre las piedras y las ramas amargas
Parecería que nada se quemó
Que nada fue despojado de su belleza
Tan solo las flores del arupo lucen crispadas
Cristalizadas por tanta pasión del agua
que ha comenzado a disolverse.

O granizo começou a se dissolver
Fios gelados correm entre as pedras e ramas amargas
Pode parecer que nada foi queimado
Que nada foi despojado de sua beleza
Tão só as flores de arupo luzem crispadas
Cristalizadas por tanta paixão d’água
Que começou a se dissolver.

§

Volutas de humo brotan de las piedras porosas
Volutas de humo salen del corazón esponja que ha sabido amarte
Humo transfigurado en dolor como si fuera escrito en agua.

Espirais de fumo brotam das pedras porosas
Espirais de fumo saem do coração-esponja que soube te amar
Fumo transfigurado em dor como se fosse escrito em água.

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