tradução

Édipos, no plural: alguma diferença entre Sófocles & Sêneca e a tradução do prólogo romano

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Gao Xingjian, L’Espérance (Hope). 2012.

Charles Segal dedica muito pouco espaço em seu livro Oedipus tyrannus: tragic heroism and the limits of knowledge para tratar da versão senequiana do mito de Édipo, possivelmente pelo fato do classicista norte-americano considerar que a peça romana não se constitua como um drama próprio, senão como mera adaptação de um modelo grego. Essa abordagem fica evidente, sobretudo, devido ao capítulo em que Segal insere seu breve comentário sobre a peça latina, Reception and Influence. O problema desse modelo de leitura é que, ao tentar estabelecer um método comparativo, ele acaba travando o texto de Sêneca a partir do enredo grego de Sófocles e, com isso, passa a estabelecer uma ordem hierárquica entre as peças, na qual a peça romana sempre irá se apresentar como inferior, por uma questão exclusivamente temporal.

Por isso, a leitura de Frederick Ahl (2008) nos parece muito mais frutífera ao considerar que Sêneca, na verdade, longe de tentar traduzir ou adaptar o drama de Sófocles, tenta recontar o mito de Édipo a partir de sua própria noção de drama e de seu próprio contexto dramático. Claro, as noções que tentaremos estabelecer mais adiante sobre tradução nos permitirão, de certo modo, sobretudo a partir das considerações de Haroldo de Campos (2008; 2015), além de Henri Meschonnic (2010) e Guilherme Gontijo Flores (2014), compreender que aquilo que Sêneca opera trata-se, na verdade, de um modelo tradutório – ou, anacronicamente, de um modelo transcriativo – porque embora pareça haver um acordo tácito sobre as especificidades e as diferenças entre cada uma destas áreas, a fragilidade dos critérios de distinção entre essas atividades parecem permear boa parte da bibliografia existente sobre o tema. No caso específico da tradução dos textos da antiguidade clássica para o teatro, os teóricos costumam aproximar as instâncias da tradução e da adaptação como uma necessidade para que a recepção teatral se concretize.

No entanto, importa aqui que nunca se perca da mente a ideia de que esse modelo, qualquer seja o nome que atribuamos a ele, não se funda a partir de uma relação hierárquica de inferioridade, nem mantém laços servis com qualquer modelo grego. Sêneca, como veremos adiante, exerce um trabalho de revisão e consciência crítica do mito em sua peça. Contudo, antes de nos embrenharmos pelas veredas formais de ambos os textos e lidarmos com suas particularidades, convém retomarmos aqui o contexto de suas produções e apontarmos a tradição na qual estão inseridos, ainda que brevemente.

Após o ciclo troiano, o mito da casa dinástica do Labdácidas talvez seja um dos topos mais célebres da mitologia clássica. A figura de Édipo, muito antes de ter sido cristalizado pela tragédia ática, já havia aparecido, por exemplo, na Odisseia de Homero (11, 271-6): “E vi a mãe de Édipo, a bela Epicasta,/ que feito inaudito fizera com mente ignorante/ ao ser desposada pelo filho: ele, após matar o pai,/ a desposou; logo deuses expuseram-nos aos homens./ Mas ele, sofrendo agonias, em Tebas muito amada,/ regia os cadmeus graças a planos ruinosos de deuses”, na tradução de Christian Werner (Cosac Naify, 2014). Ora, a partir desse trecho é possível enxergarmos que já em Homero, portanto muito antes da composição romana de Sêneca, Édipo é descrito um legislador angustiado, em crise – contrariando a leitura que Segal (1993:22) faz ao afirmar que é Sêneca quem o concebe como uma figura atormentada que suporta o sofrimento pelo bem de sua cidade.

Além disso, conforme nos aponta Ricardo Duarte (2012: 71ss.), no posfácio à sua tradução do Édipo de Sêneca, Édipo foi tema de três épicas gregas arcaicas (Edipodia, Tebaida e Epígonos) e de uma lírica coral de Estesíroco. Além disso, referem-se a Édipo o poeta grego arcaico Íbico (frag. S222 Davies) e Hesíodo (Trabalhos e Dias, 162-3; Catálogo das Mulheres, frag. 135 Most). No teatro, Ésquilo compôs uma trilogia sobre a casa dos Labdácidas, apresentada ao público em 467 a.C. – Laio, Édipo e Sete contra Tebas, das quais apenas a última chegou até nós. Do mesmo modo, Eurípides haveria composto também um ciclo dramático em torno deste mito – Suplicantes, Fenícias, Crísipo, Antígona e Édipo, sendo que apenas as duas primeiras sobreviveram. Sófocles, por sua vez, se junta à tradição da composição de peças sobre a casa real de Tebas, contribuindo com quatro peças: Édipo Rei, Antígona, Édipo em Colono e Epígonos, a única que não sobreviveu até nós. Duarte (2012: 74) ainda nos informa que muitos outros autores compuseram peças sobre o mito de Édipo, entre os séculos V e IV a.C. – Aqueu, Nicómaco, Xénocles, Fílocles, Meleto, Diógenes-o-Cínico. Além de nos apresentar esse panorama sobre as construções poéticas em torno da casa de Édipo, o tradutor português nos informa as reformulações que o mito foi sofrendo pelo trato dos autores. Ao que tudo indica, ainda segundo Duarte, é na versão de Ésquilo que Édipo se cega pela primeira vez; em Sófocles, pela primeira vez, que o oráculo de Delfos profetizara o crime de Édipo e a peste que ele causara e Tebas.

Ora, esse corolário reforça o que temos criticado no modo leitura realizado por Charles Segal – isto é, a vontade do crítico em estabelecer a peça de Sófocles como um modelo original do qual a versão latina, precariamente, subtrai ou dissolve, para usar seus termos, as relações sutis de sua poética – ao dissolver a noção de originalidade criativa do mito. As diferentes práticas poéticas, de diferentes escritores clássicos, com seus acréscimos e supressões, indicam uma abordagem palimpsestica do mito, podendo servir a diferentes propósitos, tanto políticos quanto rituais. Na verdade, segundo Ted Hughes (1969), os personagens de Sêneca são gregos por mera convenção. Frederick Ahl (2008) completa o pensamento de Hughes ao afirmar que a “tragédia senequiana é vastamente e curiosamente distinta da tragédia grega”, porque, “apesar de seus nomes gregos, eles falam latim, são romanos e pensam como romanos”. Entre os traços que a definem e reforçam esse estatuto romano está a cena de necromancia, que se enquadra muito mais dentro da cultura romana, mas parece indicar, ao mesmo tempo, a guerra civil futura entre Etéocles e Polinices, sem resolver o enigma do presente-passado. Tirésias deixa de ser um mestre da dialética, como ocorre em Sófocles, para se tornar apenas necromante – notório é que ele acaba por realizar uma profecia do futuro, não uma visão do passado.

Com isso, ao abordarmos o trato dado por Sófocles ao mito, devemos considerá-lo a partir de suas próprias particularidades históricas e formais. A composição sofocliana teria sido encenada em algum momento entre os anos de 429 a 425 a.C., quando a Guerra do Peloponeso (431-404 a.C.) ainda estava em seus inícios e Atenas vivia o auge de seu poderio imperial, a despeito da peste que vitimou boa parte da população em 429 a.C., além do próprio Péricles. A situação de Tebas ao início da peça, desse modo, descrita pela fala do Sacerdote talvez espelhasse algo ainda muito pungente na memória dos concidadãos. Por isso, a imensa maioria dos comentadores relaciona a composição de Sófocles aos eventos desse período. Entre eles, Charles Segal (1993: 9) comenta que

um inesperado, aparentemente sobrenatural desastre destruiu, repentinamente, as esperanças brilhantes; a confiança na razão e no cálculo humano é despedaçada, a grandeza rapidamente se transforma em miséria.

Desse modo, é não é descabido considerar que a população visse no mito de Édipo uma alegoria de Atenas no auge de seu poderio imperial – sobretudo se levarmos em conta que essa peça de foi feita num contexto de apresentação para um público amplo, num festival apoiado pela pólis, ao contrário do Édipo de Sêneca que provavelmente realizou-se num ambiente de apresentações de espaço muito restrito, quase privado, para uma elite romana. Isto é, numa sociedade profundamente tradicional como era a ateniense, por mais que novas formas de pensar, muito mais racionais e que chegavam até mesmo a negar a existência dos deuses, tivessem florescido sob o regime de Péricles, um acontecimento decisivo como foi a ocorrência da famosa praga, que dizimou um quarto da população ateniense e colocou, provavelmente, em jogo a tragédia Édipo Rei, acaba criando um diálogo entre essas novas formas de pensamento e as velhas; legitimando, com isso, um outro modo de leitura possível do mito que quisesse enxergar na figura de Édipo apenas um joguete impotente nas mãos do destino, enredado nas malhas intermináveis da discussão sobre crime e punição. Sófocles, portanto, levanta questões sobre os limites do poder humano, sobre a hýbris (ὕϐρις) e em que medida a vida humana ainda é cercada por forças misteriosas, como a týkhe (τύχη), por exemplo, que junto da ironia dramática, i.e., os momentos nos quais Édipo enuncia, ou ouve, a própria verdade que procura sem se dar conta de tê-lo feito, constituem as bases fundamentais da trama sofocliana.

Ao contrário, Sêneca não compartilha o mesmo contexto de produção de Sófocles. Em primeiro lugar, como dissemos anteriormente, por mais que estivesse inscrito no período conhecido como Pax romana, que decretava o fim das Guerras Civis do período Republicano, o regime do Império Romano (27 a.C. – 96 d.C.) estruturou-se como uma sucessão de governos autoritários e repressivos. Além disso, o modelo poético predominante dessa época sequer era teatral, como fora para Sófocles. Segundo Frederick Ahl (2008: 113),

a tragédia, no tempo de Sêneca, havia deixado de ser o principal veículo de declaração poética e política, e Sêneca geralmente evita referências específicas ao seu cotidiano. Entre as dez peças atribuídas a ele, somente a espúria Otávia trata de assuntos contemporâneos.

Ou seja, diferentemente das composições trágicas da Atenas do século V a.C., Sêneca deveria produzir sua obra teatral, provavelmente, não para um público amplo, mas para uma elite literária. No entanto, apesar de se encontrar temporalmente mais próximas de nós – meio milênio – que Sófocles, sabemos muito menos sobre o contexto específico de produção das tragédias romanas do que aquilo que sabemos sobre o mundo teatral ateniense na época de Péricles. A escassez de alusões históricas contemporâneas torna virtualmente impossível a marcação exata dessas peças, por isso nos voltaremos agora à análise da estrutura dos textos.

O Édipo de Sófocles é um legislador benigno, autoconfiante e determinado que se prostra em meio ao seu povo , a fim de sanar as atribulações que acometem a cidade. Note-se, com isso, que no contexto grego Édipo parece colocar-se à parte do problema da cidade, para fora da possibilidade de ser atingido pela praga e como único agente capaz de vencê-la, novamente. Em contraste completo, a personagem senequiana logo no começo da peça, em sua primeira fala, que nos permite compreender prontamente que não se trata de uma tradução adaptada, apresenta-se isolado e já completamente obcecado pela angústia da culpa, tecendo consigo mesmo um longo solilóquio que parece mais um devaneio que se apresenta como um prolongamento do sofrimento do personagem grego e anuncia todo o enredo: Iam nocte Titan dubius expulsa redit (Já torna agora, expulsa a noite, o dúbio Sol). É possível propor para esse verso uma leitura em que uma nova performance (titan dubius redit) deste mito retira (expulsa) Édipo de sua desgraça trágica (nocte) apenas pra lançá-lo, mais uma vez e agora consciente, na mesma desgraça. Além disso, o próprio Édipo declara, num gesto extremamente performático da linguagem, essa autoconsciência, no verso 35, ao dizer “tornamos nocivo o céu” (fecimus caelum nocens). No limite, se quisermos, podemos enxergar nesse plural majestático – que nessa primeira fala de Édipo não acontece aleatoriamente, como veremos adiante – de fecimus um apontamento autoconsciente para os sujeitos responsáveis pela desgraça trágica, i.e., esse fecimus pode englobar os dois Édipos, tanto o grego quanto o romano, além da Jocasta e do próprio Laio, numa partilha familiar do nefas.

A detenção de um poder supremo, portanto, aliado ao temor do cumprimento da profecia que o sentencia a matar seu pai e esposar sua mãe são as duas fontes de medo que se retroalimentam: o Édipo romano suspeita que ele próprio, como rei, é de algum modo responsável pela praga que assola Tebas, e, relacionando essa responsabilidade com os crimes que era suposto ele cometer, busca dar fim à aflição de seus cidadãos através de sua própria morte, reforçando a ideia de inserção da peça em um contexto estritamente romano, o desejo de morte de Édipo se apresenta semelhante ao conceito da deuotio – isto é, um ritual de autodedicação de um general à morte sacrificial no campo de batalha em prol da vitória do próprio exército. Ou seja, o reinado aparece como um mal para o rei. É nesse ponto que peca a definição que Segal atribui à personagem romana, considerando-a como meramente estoica, porque o universo de Sêneca parece ser estoico e até caminha para uma figuração de sabedoria estoica em Édipo, que se resigna e cumpre o que considera seu destino de acordo com a Providência, porém ao mesmo tempo ele recusa o mundo solar do estoicismo e nos apresenta um cosmo de violência sem providências organizadoras da parte do logos.

Além disso, essa preocupação com o estado mental dos personagens é aquilo que define o teatro de Sêneca. A investigação psicológica, desse modo, torna-se frequentemente tão explícita, semelhante ao que ocorre nos romances modernos (Ahl, 2008: 113), que nos permite ver esses estados emocionais dos personagens, nos quais eles próprios se trancam, operando. Exemplo disso é a megalomania de Atreu que enxerga o cosmos reagindo aos seus crimes, semelhante à crença que Édipo nutre, ao acreditar que o destino reserva algo de grandioso para ele. De acordo com Ahl (2008: 112),

Os protagonistas de Sêneca são mais abertamente introspectivos e auto analíticos que o Édipo de Sófocles. Suas batalhas mais críticas no palco, semelhante às batalhas críticas de muitos personagens shakespearianos, são geralmente aquelas nas quais eles se representam lutando contra si mesmos. O drama senequiano constantemente nos leva além das palavras que os personagens pronunciam publicamente, em direção aos pensamentos dele ou dela, sendo dramaticamente verbalizados para nós através de “apartes” e solilóquios.

Tal característica, portanto, reforça aquilo que Mario Erasmo (2004: 122 ss.) define como teatralidade dentro do teatro de Sêneca, isto é, a ação que resulta da criação de uma metateatralidade na qual os personagens vão se tornando sua própria plateia e a confusão das convenções e dos artifícios toma conta do público. Se em Sófocles um dos pontos centrais da peça é o contraste entre conhecimento (ou verdade, aletheia, ἀλήθεια) e ignorância, em Sêneca toda a tensão parece repousar entre o que um personagem realiza e o que diz aos outros, e sobre o que o mesmo sujeito enxerga como razão para aquilo que disse ou realizou. O Édipo de Sêneca, por exemplo, lida constantemente com as noções de consciência e inconsciência dos crimes, expressas pelo uso das palavras nocens e innocens; ou seja, ele enfatiza o fato de que ele é, de certo modo, um criminoso ao mesmo tempo em que não é culpado pelo crime, uma vez que ele não tinha consciência sobre a natureza de seus crimes. É precisamente por isso, portanto, que ele busca a todo instante purgar sua culpa através da autoimolação.

Para ir direto à tradução, como pretendemos traduzir também o ritmo musical do metro empregado por Sêneca – o senário iâmbico – é preciso levar em consideração, portanto, os modos possíveis de se performar esse ritmo, tomando-o como uma junção entre um discursivo subjetivo de um sujeito e a materialidade sonora de um padrão rítmico. Em todas suas peças, o metro utilizado por Sêneca na composição das falas dos personagens é o senário iâmbico – que seria, grosso modo, uma versão latina para o trímetro iâmbico – isto é, constaria idealmente da presença de seis pés iâmbicos (u – ), uma sílaba longa seguida de uma sílaba breve.

u – | u – | u – | u – | u – | u –

No entanto, na prática esse metro apresenta uma flexibilidade enorme em relação à alteração dos pés, permitindo a utilização de troques (– u), espondeus (– –), proceleusmáticos (u u u u), que contaria com quatro breves seguidas, e tríbracos (u u u). Dentre essa imensa variação, há a exigência da manutenção do final crético (– | u –). Como é sabido, o português é uma língua que não se constrói sobre o modelo de sílabas longas e breves, ao mesmo não na fala cotidiana. Na transposição desse tipo de metro, portanto, é necessário que estabeleçamos alguns modos de possíveis de realização na performance. A dicotomia das sílabas longas e breves converte-se na utilização de vogais tônicas e átonas. Com isso, a emulação do final crético deve cumprir determinados requisitos; é possível perceber a partir daquilo que Gontijo propõe em sua tese ao mostrar que a estrutura sonora pode ser vertida por uma proparoxítona, como acontece na canção Construção, de Chico Buarque, na qual o pé dátilo e o crético podem ocupar o mesmo lugar no fim de verso,

A mou | da que | la vez | co mo | se fo |ssea úl | ti ma
Bei jou | su a | mu lher | co mo | se fo |sseo úl | ti mo
E ca | da fi | lho seu | co mo | se fo | sseo ú | ni co
Ea tra | ve ssou | a ru | a com | seu pa | sso | mi do
[…]

Além disso, podemos ter a presença de duas oxítonas, como em

[…] po der | ca í

e uma paroxítona seguida de uma oxítona, desde que ocorra elisão, como acontece em

[…]es te | ja cal | mo o mar

Minha tradução, portanto, estrutura-se como um verso de doze sílabas, de tendência iâmbica, pois permite variações entre os primeiros pés, que busca manter rigorosamente o final crético. No entanto, como a realização desse final crético acontece no momento da enunciação performática, é mister que ocorra uma dicção artificial, que fuja da fala comum, realizando determinados procedimentos presentes na gramática da língua portuguesa que a fala cotidiana não cumpre mais. Essa necessidade de se recorrer à artificialidade, porém, não se apresenta como um problema à oralidade na tradução, pois, de acordo com Zumthor (2010: 186),

Cada performance cria assim seu próprio sistema rítmico, ainda que as unidades utilizadas para constituí-lo permaneçam da mesma natureza em todos os casos. Ocorre que tais jogos se sobrepõem a um sistema de versificação regular: daí talvez os e finais não linguísticos (“le cheval-e du roi”), s ou t abusivos harmonizando ligações, que a performance introduz, em forma de variação, em muitas canções folclóricas francesas, bem como no Romancero espanhol e na poesia popular italiana.

Um exemplo da utilização poética dessa artificialidade da pronúncia performática é visível na canção “É preciso saber viver”, uma parceria entre Roberto e Erasmo Carlos, na qual a necessidade métrica musical impõe a inversão da tônica da palavra “saber” no refrão, i.e., no lugar da pronúncia cotidiana

É preciso saber viver

em que a tônica da cai no final da palavra, como em todo verbo no infinitivo, tornando-a, portanto, oxítona, o performer pronuncia invariavelmente de outro modo, isto é, torna-a paroxítona, deslocando a tônica para a penúltima sílaba

É preciso saber viver

No caso dessa tradução, portanto, é necessário que se mantenha variação de proparoxítona e oxítona em fim de verso e a transformação do ditongo em hiato no fim de verso, por exemplo. Para as proparoxítonas, como vimos, deve ocorrer a acentuação também da última sílaba; para as paroxítonas com ditongo no final, deve-se pronunciar de modo idêntico à palavra “pátria” (pá-tri-a), por exemplo, realizando, desse modo, um hiato. Além disso, algumas elisões ocorrem de modo sistemático, entre elas, a elisão entre dos verbos terminados conjugados na terceira pessoa do plural com qualquer palavra que se inicie com uma vogal. O primeiro exemplo da ocorrência desse tipo de elisão aparece logo no verso 7, onde “ocultam o tártaro” deve ser lido, necessariamente, como “oculto tártaro”.

sergio maciel

* * *

EDIPO Já torna agora, expulsa a noite, o dúbio Sol,
e eleva em meio à névoa espessa aflita luz;
trazendo o brilho atroz da chama fúnebre,
verá o horror nos lares, pela peste edaz:
a chacina noturna o dia vem mostrar. 5
Quem regozija com o reino? Ó bem falaz,
se os paços pomposos ocultam o tártaro!
Como os cimos recebem sempre o Áquilo
e o penedo que cinge o vasto pélago
a onda ataca, embora esteja calmo o mar, 10
assim curvam-se à Sorte altos impérios.
Fiz bem fugir ao cetro do pai Pólibo!
Livre de zelo, errante, êxul, intrépido
(dão fé os deuses e o céu) no poder caí.
O infando temo: matar o pai com esta mão; 15
isto me advertem os loureiros Délficos,
e preveem um crime ainda maior pra nós.
Existe mal maior que se imolar o pai?
Triste pietas! Contar o meu fado é vil:
Ao filho Febo ameaça com o tálamo 20
atroz do pai, incesto e tochas ímpias;
Tal medo me expulsou do reino pátrio.
Não deixei meus penates, como prófugo:
inda que pouco crendo em mim, as tuas leis,
Natura, preservei. Quando se teme o mal, 25
mesmo incerto, deve-se recear o horror.
Com tudo me apavoro e não confio em mim.
As Parcas já maquinam algum ardil pra nós.
Como encarar esta peste que só destrói
os Cadmeus, espalha esta catástrofe, 30
mas poupa a mim? Que mal pra nós se reservou?
Em meio aos restos da cidade e às lágrimas
que a morte exige, pilhas de cadáveres,
ileso resto: então, se é certo ser um réu
de Febo, podia esperar um reino são 35
com tantos crimes? Tornamos nocivo o céu.
Nenhuma brisa doce afaga o cor febril
com seu vento fresco, nem sopra o Zéfiro,
só o Sol atiça as chamas da Canícula,
ferindo, assim, o dorso do Leão Nemeu. 40
As plantas perdem cor e a água deixa o rio,
resseca Dirce, um fino fio do Ismeno flui,
com onda fraca banha a custo o seco vau.
Sem brilho a irmã de Febo arrasta-se no céu
e o dia opaco embota assim o triste azul. 45
Astro algum brilha pela noite plácida,
só um fumo denso e negro sobre a terra cai:
cobriu paços etéreos com ar ínfero,
altos tetos. Ceres, madura, opõe-se a dar
seu grão, embora trema a espiga crócea, 50
com seus pés secos morre a roça sáfara.
Nenhuma classe está imune à cólera,
definha igual qualquer idade ou gênero:
o novo e o velho, o pai e o filho a peste atroz
reúne; a mesma tocha queima os tálamos; 55
e faltam aos funerais lamento amargo e dor.
Com tantos males, o revés tenaz secou
os olhos e, como só nos extremos sói,
morreu o pranto. Ao sumo fogo o débil pai
leva um filho, a outro conduz a insana mãe 60
que um outro entrega à mesma pira fúnebre.
E mais: do próprio luto um luto novo sai,
junto ao corpo cai quem faz as exéquias.
Em fogo alheio queimam os mortos próprios;
disputam as chamas; não se vexam os míseros. 65
Não cobrem os ossos santos vários túmulos.
Cremá-los basta! Quantos cinza vão virar?
Falta terra às covas e lenha fúnebre.
Não salva os débeis arte alguma, ou súplicas,
o mal afasta a cura, caem os médicos. 70
Prostrado ante os altares, suplicantes mãos,
o fado justo peço: antes da pátria
em pó, mas não após meus cidadãos, cair,
e no meu reino não morrer por último.
Ó Sorte rude! Ó numes muito tétricos! 75
Tão pronta morte, neste povo, só a mim
se nega? Larga o reino infectado por
tua mão letal, rechaça a morte, as lágrimas,
e a aura corrosiva que advém de ti,
infausto visitante, foge rápido – 80
inda que aos pais!
JOCASTA Pra quê agravar com lástimas
os males, marido? Pois suportar o azar
é régio, embora o status seja dúbio
e titubeie o fardo do poder que cai –
o forte deve, em retidão, restar em pé. 85
Não é viril quem à Fortuna as costas dá.
ED. De mim se afasta o crime e o desprestígio:
nossa virtude desconhece medos vãos.
Se os dardos se armam contra mim, se o ímpeto
brutal de Marte sobre mim se abate, audaz, 90
darei aos maus Gigantes mãos opósitas.
Pois nem à Esfinge indecifrável eu fugi –
o lábio em sangue suportei da vate atroz
e os ossos espalhados clareando o chão –
na pedra, sobre a presa recurvando-se, 95
batendo a asa, a cauda qual um látego,
ameaçando-me feito um feroz leão,
pedi seus versos; sobre mim soou cruel
e impaciente, rangendo a mandíbula,
rasgou rochas querendo minhas vísceras. 100
Solvi da fera alada o intrincado ardil,
o nó de sua fala e os versos lúgubres.
JO. Por que agora tarde e insano por morte orar?
Morrer podias. Este cetro é dado a ti
por prêmio, é a paga pela Esfinge destruir. 105
ED. A cinza atroz da astuta fera contra nós
se insurge e Tebas sofre com a cólera
extinta. Resta-nos só uma salvação,
se Febo alguma rota a ela revelar.

OEDIPVS Iam nocte Titan dubius expulsa redit
et nube maestum squalida exoritur iubar,
lumenque flamma triste luctifica gerens
prospiciet auida peste solatas domos,
stragemque quam nox fecit ostendet dies. 5
Quisquamne regno gaudet? o fallax bonum,
quantum malorum fronte quam blanda tegis!
ut alta uentos semper excipiunt iuga
rupemque saxis uasta dirimentem freta
quamuis quieti uerberat fluctus maris, 10
imperia sic excelsa Fortunae obiacent.
Quam bene parentis sceptra Polybi fugeram!
curis solutus exul, intrepidus uagans
(caelum deosque testor) in regnum incidi;
infanda timeo: ne mea genitor manu 15
perimatur; hoc me Delphicae laurus monent,
aliudque nobis maius indicunt scelus:
est maius aliquod patre mactato nefas!
pro misera pietas (eloqui fatum pudet),
thalamos parentis Phoebus et diros toros 20
gnato minatur impia incestos face.
hic me paternis expulit regnis timor,
hoc ego penates profugus excessi meos:
parum ipse fidens mihimet in tuto tua,
Natura, posui iura. cum magna horreas, 25
quod posse fieri non putes metuas tamen:
cuncta expauesco meque non credo mihi.
Iam iam aliquid in nos fata moliri parant.
nam quid rear quod ista Cadmeae lues
infesta genti strage tam late edita 30
mihi parcit uni? cui reseruamur malo?
inter ruinas urbis et semper nouis
deflenda lacrimis funera ac populi struem
incolumis asto — scilicet Phoebi reus.
sperare poteras sceleribus tantis dari 35
regnum salubre? fecimus caelum nocens.
Non aura gelido lenis afflatu fouet
anhela flammis corda, non Zephyri leues
spirant, sed ignes auget aestiferi canis
Titan, leonis terga Nemeaei premens. 40
deseruit amnes umor atque herbas color
aretque Dirce, tenuis Ismenos fluit
et tinguit inopi nuda uix unda uada.
obscura caelo labitur Phoebi soror,
tristisque mundus nubilo pallet die. 45
nullum serenis noctibus sidus micat,
sed grauis et ater incubat terris uapor:
obtexit arces caelitum ac summas domos
inferna facies. denegat fructum Ceres
adulta, et altis flaua cum spicis tremat, 50
arente culmo sterilis emoritur seges.
Nec ulla pars immunis exitio uacat,
sed omnis aetas pariter et sexus ruit,
iuuenesque senibus iungit et gnatis patres
funesta pestis, una fax thalamos cremat. 55
fletuque acerbo funera et questu carent:
quin ipsa tanti peruicax clades mali
siccauit oculos, quodque in extremis solet,
periere lacrimae. portat hunc aeger parens
supremum ad ignem, mater hunc amens gerit 60
properatque ut alium repetat in eundem rogum.
quin luctu in ipso luctus exoritur nouus,
suaeque circa funus exequiae cadunt.
tum propria flammis corpora alienis cremant;
diripitur ignis: nullus est miseris pudor. 65
non ossa tumuli sancta discreti tegunt:
arsisse satis est — pars quota in cineres abit!
dest terra tumulis, iam rogos siluae negant.
non uota, non ars ulla correptos leuant:
cadunt medentes, morbus auxilium trahit. 70
Adfusus aris supplices tendo manus
matura poscens fata, praecurram ut prior
patriam ruentem neue post omnis cadam
fiamque regni funus extremum mei.
o saeua nimium numina, o fatum graue! 75
negatur uni nempe in hoc populo mihi
mors tam parata? sperne letali manu
contacta regna, linque lacrimas, funera,
tabifica caeli uitia quae tecum inuehis
infaustus hospes, profuge iamdudum ocius — 80
uel ad parentes!
IOCASTA Quid iuuat, coniunx, mala
grauare questu? regium hoc ipsum reor:
aduersa capere, quoque sit dubius magis
status et cadentis imperi moles labet,
hoc stare certo pressius fortem gradu: 85
haud est uirile terga Fortunae dare.
OE. Abest pauoris crimen ac probrum procul,
uirtusque nostra nescit ignauos metus:
si tela contra stricta, si uis horrida
Mauortis in me rueret — aduersus feros 90
audax Gigantas obuias ferrem manus.
nec Sphinga caecis uerba nectentem modis
fugi: cruentos uatis infandae tuli
rictus et albens ossibus sparsis solum;
cumque e superna rupe iam praedae imminens 95
aptaret alas uerbera et caudae mouens
saeui leonis more conciperet minas,
carmen poposci: sonuit horrendum insuper,
crepuere malae, saxaque impatiens morae
reuulsit unguis uiscera expectans mea; 100
nodosa sortis uerba et implexos dolos
ac triste carmen alitis solui ferae.
IO. Quid sera mortis uota nunc demens facis?
licuit perire. laudis hoc pretium tibi
sceptrum et peremptae Sphingis haec merces datur. 105
OE. ille, ille dirus callidi monstri cinis
in nos rebellat, illa nunc Thebas lues
perempta perdit. Vna iam superest salus,
si quam salutis Phoebus ostendat uiam.

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entrevista

Entrevista com Rafael Zacca

Montagem_Sergio

Neymar em entrevista ao Le Monde | Montagem de Ari Felipe Miaciro.

SM – O que é a crítica?

RZ – A crítica talvez não exista. Seria injusto de minha parte querer definir o que é a crítica. Ela não é um gênero, não tem quaisquer características “essenciais” que ligue todos os textos que costumamos chamar de “críticos”, nem se restringe a qualquer assunto. Pode falar de um poema contemporâneo como pode falar da economia política (como em Marx) ou das nossas faculdades (como em Kant). Pode se manifestar como um ensaio, como um artigo, como uma carta, como um fragmento. E não se restringe a uma escritura nesses moldes. Pode se manifestar como uma revista (é o caso, por exemplo, da revista Modo de Usar, ou desta escamandro, e não me refiro aqui aos escritos críticos que porventura figurem nessas páginas), como coletivo, como uma aula. Pode acontecer em um grupo de estudos e em uma mesa de bar. O que não é o mesmo, veja bem, que afirmar que a todo o momento se faça crítica. Dizer isso seria um absurdo. A crítica, na verdade, acontece muito raramente, mesmo entre os críticos. De qualquer modo, acho que a crítica não existe: ela é, somente, possível. Um momento feliz dessas possibilidades aconteceu, inclusive, com uma revista contemporânea da Revolução Francesa, a Athenaeum. Isso foi com o romantismo alemão, quando um grupo inventou de fazer crítica como carta, ensaio, fragmento, escrita coletiva, diálogo e até mesmo como obra de arte.

Agora, existem, certamente, textos que me interessam mais, nessa gama de possibilidades. Não escondo que todas as minhas referências se ligam ao projeto crítico de Walter Benjamin – ainda que com alguma reserva. E não somente por qualquer preferência pessoal; somado a isso, acho que certos críticos multiplicam a crítica como possibilidade. É o caso do próprio romantismo alemão, de que falei. É importante recuperar o significado histórico do romantismo no seio da crítica literária. Porque eles se insurgiram contra duas posturas bastante perniciosas tanto lá como aqui. Em primeiro lugar, eles tentaram demolir o tribunal das artes, aquela crítica normativa que quer fazer papel de juiz da arte e, com poucas provas e muita convicção, separa os bons livros dos livros ruins. Em segundo lugar, combateram também aquele olhar paralisante sobre as obras de arte, daqueles que consideram, quando estão diante de uma, que estão vendo qualquer manifestação do outro mundo, diante da qual se deve permanecer calado. Como os românticos alemães, penso que a crítica pode ser outra coisa. Nem juiz, nem espectador, a crítica tem essa oportunidade de desdobrar as obras, de ser uma espécie de co-autora. Uma máquina de possíveis da própria obra. Diante da crítica, pode ser que um poema não seja só um poema, mas todos os poemas que ele poderia ter sido. É exatamente por isso que uma forma que não tomamos como crítica pode sê-lo. É o caso do apêndice de Nay Rather de Anne Carson, em que a tradução obsessiva de um único poema de Estesícoro funciona como a sua crítica.

É claro que com isso a crítica tem a ver com uma reorientação da leitura e do debate sobre as obras. Porque a crítica, para desdobrar as obras, precisa também desmontá-las, destruí-las, para reuni-las em outra configuração. Em outras palavras, a crítica, se quiser desdobrar as obras, precisa também matá-las. Essa foi uma intuição de Walter Benjamin, quando quis superar certos impasses dos românticos. Dessa forma, a crítica é também um modo de ler, ou uma multiplicação das formas de leitura. Isso é de extremo interesse para um tempo como o nosso, que diante da aceleração do mundo e da aceleração dos modos de ler e fazer tem na crítica a possibilidade de freio: como é em Marx, em Kant, como é com os movimentos sociais. A crítica tem essa oportunidade maravilhosa de frear a leitura, impedir que ela siga em linha reta, multiplicando, assim, tanto obra quanto leitor. Essa multiplicação das possibilidades é a pré-condição da política. Se se quiser uma definição, talvez se possa dizer isso: a crítica é a política das coisas. No caso da crítica literária, em que a pólis, a cidade, são os textos literários, a crítica é a instauração da ágora que paralisa o tempo, no lugar do fluxo ininterrupto do nosso desejo consumista com arte.

SM – Resolvi começar com essa pergunta um tanto ampla e vaga porque parti de um comentário – o qual você reformula nessa resposta – recente seu, em que você dizia que “é preciso, pra ontem, recuperar a ideia da crítica como desdobramento das obras, contra essas duas ideias perniciosas da crítica como tribunal e da crítica como vitrine. A crítica não deve querer canonizar, não deve querer qualificar, não deve querer vender. A crítica precisa desdobrar e tomar (e assumir) a sua posição”. Me parece, portanto, que você concebe a crítica também como uma forma de poiesis, i.e., de criação, de fabricação – ainda que pela via da remontagem dos objetos após seu desmonte. Como encaramos, então, se a “crítica é a política das coisas”, essa relação imbricada entre criação artística, produção crítica e posição política do sujeito – como é o seu caso?

RZ – É uma coisa confusa e mal resolvida, como qualquer relação. Porque se tiver qualquer aparência de bem resolvida, não é relação. Um coletivo, uma relação amorosa, a imbricação de posições (criativa, crítica e política): em tudo isso ou o ruído aparece, ou ele é abafado.

Do ponto de vista dos meus trabalhos, nem sempre fica claro onde começa uma coisa ou onde termina outra. Por exemplo, com relação às minhas traduções experimentais, que publiquei aqui na escamandro, de I am Vertical (clique aqui), da Sylvia Plath, eu não sei se elas são traduções, poemas, crítica ou posicionamento político. Dizer que são tudo isso é dizer pouco. Agora, o que eu sei é que uma visada crítica paralisa essas coisas e nos aponta caminhos de leitura possíveis, obstruindo os caminhos de leitura usuais.

Do ponto de vista dos meus interesses, é claro que ele está mais fortemente com quem produz esse tipo de ruído. Em filosofia, em arte, em política. Essa força produtiva de inclassificáveis. Guilherme Gontijo Flores e Marília Garcia têm uma produção (positivamente) confusa nesse sentido, só para ficar com dois exemplos de poetas contemporâneos. No caso de um livro como Troiades (clique aqui), você fica sem saber se aquelas coisas são traduções, se são poemas do Guilherme, se são comentários à história da humanidade, se são tratados sobre a escrita da história ou se são um desdobramento dos fragmentos de Benjamin sobre o conceito de história. No caso de Marília, a leitura de Um teste de resistores radicaliza um procedimento que os românticos alemães tentaram explorar: a inserção da crítica da obra na própria obra. Não é novidade nem mesmo no Brasil esse procedimento, conhecemos a sua força em Machado de Assis. Mas a radicalização desse procedimento no Teste, ou em poemas como é uma lovestory e é sobre um acidente, leva o leitor a desacelerar a sua leitura até os limites de sua impaciência.

Talvez seja essa impaciência, essa agitação interna, algo que antecede as obsessões ou as desistências (porque ou você joga o jornal pra longe ou você entra numa), que eu procure com isso tudo. Não é política ainda, mas desaceleração e impaciência são uma espécie de dupla dinâmica na preparação para a política. Mas é mais fácil falar disso nos outros.

SM – Bem, você é uma das pessoas à frente do projeto da Oficina Experimental de Poesia, que parece buscar possibilidades de reinventar os espaços políticos da poesia e de suas formas de construção, bem como, através da proposição de novas práticas e saberes, colocar os corpos em ocupação, nas ruas – penso isso, sobretudo, a partir do texto de Luiz Guilherme Barbosa (clique aqui), companheiro seu na OEP, a respeito das ocupações secundaristas. Para você, portanto, o que há de político na poesia?

RZ – Não há nada de político na poesia. Ou há tudo, o que é dizer o mesmo. O que quero dizer é que nada distingue a atividade de fazer e ler poemas ou outras obras da de fazer e usar sapatos. Mas como toda atividade, a poesia possui um sistema produtivo, modos de circulação, fluxo de capitais, transmissões de herança, isto é, toda uma economia: uma economia que pressupõe apagamentos, repressões, e tudo o mais de que se compõe a nossa barbárie social. Como toda atividade, também, ela possui uma chance de politização, no sentido não de possuir ou não uma política, mas de interferir na política. Se “tudo é político”, conforme afirmam, somente algumas atividades podem realizar alterações, de fato, no sistema produtivo. Agora, essa politização é um pouco misteriosa: porque ela pode acontecer consciente ou inconscientemente, e pode ser feita nos lugares mais insuspeitos. Pois não se restringe aos conteúdos revolucionários, nem às formas revolucionárias.

Por exemplo, é mais importante que haja mais proletários fazendo poesia do que exista uma poesia que tematize a revolução ou o proletariado e suas condições. É mais importante o projeto de democratização dos meios produtivos, e da transformação dos consumidores em produtores, do que qualquer conscientização política. É mais importante que os grupos minoritários ocupem os lugares-chave no sistema produtivo, do que a sua mera inclusão como tema nos “produtos” desse sistema. É o que aconteceu com as universidades, ainda que de maneira limitada e com contradições absurdas, na era Lula.

E ingressar no sistema produtivo não significa o seu ingresso como mão-de-obra. Mas no processo produtivo completo. Nesse sentido, Hélio Oiticica é um modelo perfeito. Quando levou à frente o seu projeto “Éden”, por exemplo, tentando criar bolhas criativas para os participantes, ou quando projetou e materializou o parangolé como arte-movimento em processo no corpo do participador (nunca o espectador), Hélio encarnava a sua máxima “só tem razão de existir os inventores”. É também o que o Luiz Guilherme Barbosa faz como professor-artista-crítico-propositor. Não apenas escrevendo sobre as ocupações, mas transformando as suas aulas na Oficina Ato Zero, em que os estudantes aprendem a história do soneto enquanto fabricam sonetos com seus smartphones. Nesse sentido, Luiz Guilherme desacelera a própria história dos sonetos em colaboração com os secundaristas, muitos deles os mesmos que ocuparam as suas escolas e visibilizaram o trabalho produtivo que sustenta uma escola de pé.

É por isso que apostamos muito na Oficina Experimental de Poesia como um lugar que é experimental não tanto com relação à poesia (embora haja poetas experimentais na oficina), e mais como um lugar experimental em si. É a oficina que é experimental. Tentamos ter alguma imaginação política, nesse sentido. E seguir, de alguma forma, o ensinamento de Benjamin: um escritor deve formar não tanto leitores quanto outros escritores. E é claro que o ruído aparece, acontecem rupturas, climões, discussões públicas, e todo tipo de tensão. Quando todos produzem, os desejos estão em cena. Como no amor.

SM – Eu tenho perguntado isso a todos os entrevistados, de modo que não posso me furtar a também lhe infligir esta pergunta. Portanto, Zacca, você tem alguma consideração própria acerca do que seja poesia?

RZ – A gente não tem como responder isso sem ser de duas maneiras: ou a gente é leviano, ou a gente é cético. Como um cético, isto é, como alguém que se formou em história e tende a acreditar que as coisas são o que as pessoas convencionam histórica e socialmente a chamar de tal ou qual forma, e como eu acho que a gente não deve fazer papel de juiz sabichão e dizer pras pessoas o que é isto ou aquilo, pode-se dizer que tudo o que se convenciona chamar de poesia é poesia. Não existe nenhum critério objetivo, além do discurso sobre poesia, que garanta a categorização de algo como poesia ou não.

Agora, me permitindo ser um pouco mais leviano, que é o que geralmente a gente tem mesmo de melhor, essa nossa leviandade, eu acho que a poesia é um tipo de defeito. Toda vez que acontece algum defeito – no discurso, na pessoa, nos usos dos eletrodomésticos, no diálogo, na aula, na revista, na coletiva de imprensa, no drible, no exercício de casa da criança – é possível que estejamos diante de poesia. A poesia não nos torna melhores, nessa concepção leviana que estou imaginando agora, ela expõe o que há em nós de mais defeituoso. E é por isso que a poesia acontece mais quando um poeta erra do que quando um poeta domina todo o seu aparato técnico (embora eu tenda a aconselhar que se estude muito o aparato técnico que nos legaram diferentes tradições poéticas). Uma coisa sem defeitos raramente me interessa.

SM – O Leminski fala algo parecido com isso num vídeo que circula pela internet – para ele, poeta é o sujeito que nasce com algum defeito que lhe confere a disposição de achar graça e beleza onde ninguém percebe. Enxergar o erro como possibilidade, como potência, talvez. Mas me parece ainda uma mirada um tanto preciosista e angelical da figura do poeta. Bem, eu também tenho pedido geralmente aos entrevistados que tracem um breve panorama da poesia contemporânea. Peço aqui, no entanto, que você faça esse “panorama” através das leituras vem movendo seu desejo, i.e., das coisas com defeitos têm lhe interessado.

RZ – A diferença, talvez, entre essa posição do Leminski e a minha, é que eu não localizo isso no sujeito. Inclusive, ministrando oficinas a gente percebe isso muito bem: trabalhadores estão muito mais sujeitos à abertura para o defeito do que sujeitos que se consideram poetas, seja essa autoconsideração a de um poeta profissional, marginal ou ermitão. Nesse sentido, procurei mais falar de poesia do que de poetas ou de poemas. Há diferenças.

Quanto a um panorama, nesse sentido, acho algumas coisas incontornáveis. Mas como não acredito em listas extensas, vou fazer um corte bem preciso, me permitindo o esquecimento. Angélica Freitas e Lucas Matos produzem defeitos discursivos partindo de convenções sociais que precisam mesmo ser desmontadas. Heyk Pimenta e Marcelo Reis de Mello ostentam o fracasso como condição de coragem, como eu sempre quis ver. Josely Vianna Baptista me deixou de cara com o seu Roça barroca. Valeska Torres, entre a geração mais nova, tem chegado com força pra nos desestabilizar. E Leila Danziger é uma artista e poeta insuperável quando se trata de arquivo, memória e a relação da palavra com a imagem. Aliás, os poetas precisam voltar a conviver com outras formas. Estão um pouco autocentrados. A poeta mais viva que eu conheci ano passado foi Eleonora Fabião. Onde está Eleonora que não conosco?

SM – Quero encerrar nossa entrevista com as “perguntas clássicas” que Clarice Lispector costumava fazer sempre a cada entrevista – e que agora parecem estar se tornando as minhas perguntas clássicas também. Qual é a coisa mais importante do mundo? Qual é a coisa mais importante para a pessoa como indivíduo? E o que é amor?

RZ – Para as duas perguntas, a mesma resposta: é estar com a moçada. Viva a moçada! É poder tomar uma coca-cola com a Ana. Ficar de cara com a poesia do Edimilson de Almeida Pereira e querer contar pro Guto. Entupir-me de pão francês na casa do Edu enquanto o Grajaú anoitece conosco. Dormir na casa do Gustavo e ver a sua mesa empilhada de livros de poetas vivos enquanto ele mesmo está empilhado de vida. Tocar de madrugada num podrão que tenha cerveja com o Luiz Gui e com o Gui. Ter crescido com o Vini e sua voz macia. Contar pra Duda o que ando comendo e saber dela também. Almoçar com minha mãe. Ouvir a Jessica arrastando o “r” quando fala merrrda. Cantar até de manhã com a Mari. Rir com a Julya das mesmas piadas todos os dias. Rir da Bianca Madruga tentando fazer passinho, e comemorar isso com ela. Achar bonito demais o Thiago Gallego. Gostar de Ana Martins com o Dani. Ver crescer o Zoé. Dançar com o Marcelo. Ganhar 7belo do Fred e fingir que não gosto de cinema para irritá-lo. Me tornar amigo de minha irmã Ana. Ver o Heyk sorrir como o diabo. Fazer macarrão com a Ju. Ver os olhos da Jo se encherem de água por tudo. Concordar com o boato de que o Flávio é mesmo o maior gato. Rir de tudo que minha irmã Carol faz. Ouvir o Lucas cantando luna luna llena. Ser repreendido pelo Marona por ter feito um poema malcriado para o Recife. Trocar figurinha de comida com a Estela. Ver as mãos do Ítalo tremerem. Conspirar com a Iza. Discutir funk carioca e paulista com a Natasha Felix. Fabular que o Thadeu Santos e o Vini Melo são meus mozões conceituais. Comer uma tapioca com meu pai na feira. Ter saudades do Khalil. Brincar com os moleques do Méier. Gostar de Olodum e Timbalada com os Lucas. Redescobrir o Revelação como a banda do amor e da moçada. Sentar no Codorna do Feio com o pessoal do Nise. No Favo de Mel com a Oficina. Para as duas perguntas. É estar com a moçada. Nem que a moçada seja bichos e plantas. Viva a moçada!

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Ericson Pires (1971-2012)

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Ericson Pires (1971-2012) era poeta, performer, ator, músico, produtor e agitador cultural, além de mestre e doutor em Literatura pela PUC-RJ e um dos fundadores do CEP 20.000, ao lado de Guilherme Zarvos e Ricardo Chacal. Foi também faixa preta e professor de jiu-jitsu, além de professor adjunto do Instituto de Arte da UERJ. Criou o coletivo musical HAPAX, o RRRadical et alii. Publicou, como poeta, os livros Cinema de garganta (Azougue, 2002) e Pele tecido (7Letras, 2010). Como ativista, publicou o livro Cidade ocupada (Aeroplano, 2007), um manifesto que defendia a ocupação urbana pela arte. Como acadêmico, publicou Zé Celso Oficina-Uzyna de corpos (Annablume, 2004), que é um desdobramento de sua dissertação de mestrado. Morreu em 2012 devido a problemas decorrentes de uma pancreatite aguda.

 

sergio maciel

* * *

 

CANTO III
(MISTÉRIO DA NECESSIDADE)

– aquele que escreve é
também aquele que
é escrito –
…………………………………………a potência
…………………………………………de nadar no tempo
…………………………………………a insistência
…………………………………………de sentir o fio
…………………………………………a querência
…………………………………………de brotar acaso

…………………………..continuo a inventar o instante
…………………………..contínuo
…………………………..mantenho meus sentidos alertas
…………………………..desperto
…………………………..imagino um mundo que não acaba
…………………………..destaco

e não acontecerá mais coisa alguma que não se possa inventar
e não esqueceremos absolutamente que se pode esquecer
e não poderemos ficar parados diante do imenso centro sol

as mudanças são encontros de mundos que se movem

– tudo pulsa –

é necessário fazer listas intermináveis
…………………….cruzar linhas infindáveis
…………………….tecer sonhos inimagináveis

é necessário cozer a roupa que parte o dia da noite
…………………….a luva que colhe o prato do sol
…………………….a calça que cobre o rubro do céu

é necessário criar no peito o grito que alinhava os fios

……………………………………………..o grito frio do calor que queima

o grito de todos os gritos de todas as paixões
…………..de todos os anseios de todas as medidas

o grito de todos os cantores de todas as desditas
…………..de todos os que mentem de todos os que gritam

…………..de todos
……………………………………….os que traem
……………………………………….os que sujam
……………………………………….os que mudam
……………………………………….os que lutam
……………………………………….os que sacam
……………………………………….os que escapam
……………………………………….os que traçam
……………………………………….os que podem
…………..de todos
……………………………………….os que partem
……………………………………….os que primam
……………………………………….os que saem
……………………………………….os que vibram
……………………………………….os que lascam
……………………………………….os que lambem
……………………………………….os que sentem
……………………………………….os que gozam

é necessário devorar leão ser leão ter a juba leão
…………………….correr na pata leão rugir leão quando ruge leão
…………………….cheirar como cheira leão
………………………………………………………………………….atacar leão

é necessário levar o dia a rodar o cu da boca
…………………….a boca a gemer gozo lua
…………………….a luz a beijar o útero sol

é necessário manter o corpo aberto
………………………………….o topo aberto
………………………………….o toque aberto
………………………………….o foco aberto

………………………………………………….manter aberto tudo que escoa
……………………………………………………………………………tudo que esvai
– pensar:
necessidade –

………………………………………………….trazer as linhas
………………………………………………….novo novilho
………………………………………………….fazer as linhas
………………………………………………….movo moinho
………………………………………………….perder as linhas

………………gritar uma super nova a cada minuto

……………………………….– o amor brilha –

§

 

CANTO I
(ROMANCE DE PERDER)

– a hora do que é
poderá ser a obra do que
SERÁ

neste momento

tudo pode

SERÁ
SOL

neste momento
(ser agora novamente)

noite perdida
pequena

noite perdida
tornada

de novo sol
de novo –

serei aquele que imaginou o não agora?
serei só o número ímpar no destacamento?
serei o instante instável reforçando o mínimo?
serei o que não poderá o que não retornará?

o que será aquilo que simplesmente é
o que simplesmente foge
o que simplesmente
simples escorre?

Lista lisa de tecido solto

– não ser no sou só:
encontrar fios –

serão os traços que esconderão?
as bordas que transportarão?
os acasos que multiplicarão?

(nenhuma verdade existirá ou restará)

imagens se sucedem:

anúncios estabelecendo possibilidades amargas do possível
taperas tentando esconder aquilo que é comum ao comum
serpentes escapando do jardim fechado pela madrugada

ser aquilo que será sendo
(o ser não existe
existe o é
é o é que será)

– sendo senderos –

será real não escapar do que pode ser?
será alguém escapando ao dito?
será você escutando o que não deveria?
será meu irmão cantando por não saber o que poderá ser?

Fios seguem
Rumos sedem
Trapos rompem

Você é o que não poderá ser sem poder
Você esqueceu que qualquer um que só quer poder
não será
Você pediu para dizer que qualquer um é um que poderá
não ser
você acha que é
simplesmente é

você brilhará no espelho que eu quebro

imagens tecem:

falhas moverão folhas de um álbum que jamais irá perdurar
fontes capturam bicas que secarão solitárias trabalhando secando
flâmulas estarão completamente ríspidas seguindo o refugo
faixas não sinalizarão o Sol surgindo desesperadamente só

solitude é uma canção
– chamarei o Sol para conversar –

remédio é sentar ao sol

SOB O SOL
SALVE SOL
SANGUE SOL

Às vezes dói

– chão se rasga céu sem nunca parar chão –

dói sem dor

quero curar da cura que cura

SOL

voltar ao resto que repete outro

o que retorna é aquilo que sempre esteve de novo
– teia circular: querer perder –

§

 

FALA TECIDA

Tecer-se
Catar em cada parte o fio que se perde
Tecer-se
Trair cada fim que se pretende
Tecer-se
Criar cada outro que cria outros

Não há equidistância possível entre o dito e o imaginado
Nenhuma palavra resume em si o sentido que lhe cabe
A fatalidade inesperada do som abrevia a fala novamente falada

Tecer-se
Em cada linha que cruza
Em cada ponto que surge
Em cada salto que escapa

Esquecer o silêncio.
Esquecer todos os silêncios que nos calam. Esquecer que os
silêncios nos calam.
Esquecer que somos calados. Esquecer que estamos calados.
Esquecer silêncio.
Todo o imenso som do silêncio. Todo o silêncio que brota
da fala. Todo o silêncio que fala alto na fala. Todo silêncio
estagnado em todo som,
em todo silêncio.
Esquecer que meu cio é silêncio, que morro no silêncio, que
só vivo em silêncio, que falo em silêncio.

……Esquecer silêncio.
……Tecer-se.

É preciso inventar aquilo que já existe sem nunca esperar
que aquilo termine um dia.
É preciso aventurar-se naquilo que é teu silêncio redivivo a
aventura de inventar o dia.
É preciso não descansar enquanto a fala não terminar. É
preciso não terminar a fala.

……Esquivar do silêncio é perceber-se como silêncio inventado
……Falar é inventar o silêncio novo

……Tecer-se na fala os silêncios
…………no silêncio as falas

……Tecer-se fio de fala som
…………silêncio de fala tecida

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Um poema inédito de Luciano Ramos Mendes (1986-)

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Foto de Natália Faustino Marques.

Luciano Ramos Mendes é um idichista, poeta, tradutor e editor que nasceu em Curitiba, em 1986. É a mente por trás da Editora Dybbuk – pela qual publicou seu primeiro livro de poemas, O Livro do Yom Kippur. Nasceu em Curitiba mas hoje vive debaixo do Sol, em Fortaleza. No momento pesquisa e traduz a obra do poeta iídiche Abraham Sutskever.

O poema aqui-agora publicado integra seu segundo volume de poesia, intitulado autotanatografia, e me parece que segue um pouco da tradição de “poema para vozes”, algo ao modo de Os três mal-amados, de João Cabral de Melo Neto, algo ao modo de antigonick, de Anne Carson. Um tipo de poética que se concentra no limiar entre o gênero dramático e o literário-poético, criando um irresolução que funda um novo sentido, talvez, na performance.

 

sergio maciel

* * *

 

DISSOLUÇÃO

Personagens:
Shaul: um homem envelhecido, magro, cabeça raspada – com várias falhas. Costelas salientes, olheiras profundas. Chagas lhe cobrem as mãos e o tórax.
Shulamite: um mulher que já foi bela. Está devastada. Cabelos cor de cinza.
Itstok: um jovem forte, vigoroso, porém extremamente pálido. Está nú.

 

Um não-lugar, de cor vermelho-escuro, que lembre sangue. Uma espécie de fundo infinito. No início não há ninguém em cena. Das trevas, faz-se Shaul.

 

Shaul

sem direção nem
foco
como a fumaça
do cigarro que
se espalha
eu me
perco
e não sei
mais quem sou
eu sinto meu coração
batendo forte
batendo fora de compasso
prestes a explodir
não vai explodir
pois
é como a fumaça
e se espalha
sem ruído algum
apenas
desaparece
o desejo murcho
o desejo morto
o desejo nulo
que me resta
é incapaz de
manter as forças de atração
entre os átomos
que me formam
carbono
hidrogênio
enxofre e nem sei
mais o quê
me desagrego
sem forças
o começo do
fim
encarcerado
em mim
não sei mais onde ir
acendo esse
cigarro – e nem quero
fumar
sem direção nem
foco não sei mais
aonde ir a
fumaça que se espalha e se dissolve e se perde
se torna
invisível como parte do ar
me espalho e me dissolvo e
me perco
me torno
invisível
como parte da morte
como parte dos
dias

Shulamite (surge, gritando)

o que você pensa
que vai conseguir?
que eu tenha pena
que eu te despreze
que eu te ame
não
se sente não se faz
nada
a respeito dos dias
ou da morte ou do ar ou da fumaça
eu não me importo
com sua tristeza
não
me importo com
seus sentimentos confusos
suas desesperanças
ou os poemas idiotas
que você
escreve com sangue

Shaul

não esqueça
que todas
e cada uma
das vezes
fui eu quem
te desprezei
não quero
que se
importe
eu
simplesmente
não quero
coisa
alguma

Me’ahevet

por que
por que
por que então você não
morre e me deixa
em paz
sem que
essa sua dor
estrague a lembrança
da felicidade

Shaul

sem rumo
sem direção
como
a fumaça de
um cigarro
que
eu acendo sem
ao menos querer
fumar
desapareço
me dissolvo
no ar
como se fosse parte
dos dias como se
fosse
parte da morte

Me’ahevet

eu segui
com a vida
eu até esqueci
que você
existia
você
e sua falta
de desejo
seu desejo morto seu desejo murcho
seus cigarros sem vontade e seu uísque anestésico
os comprimidos de felicidade
que sempre acabavam no ralo
porque com eles
dizia você
não se pode escrever porque
com eles não
sou eu
dizia você
mas eu esqueci tudo
isso como
se fosse parte
dos dias
como se fosse parte
da morte
e continuei
com a vida
só que a mancha da
sua miséria
me maculou para sempre

Shaul

por outro lado
nunca esqueci
e nunca vou esquecer
de nada
que disse
de nada que fiz
cada palavra
cada lágrima ou gota
de sangue
cada fio de baba
de tudo me recordo
menos
de mim
me recordo de tudo e não esqueço de nada
mesmo daquilo
que fingi
nunca saber
e de tudo
que nunca acreditei

Shulamite

por acaso algum
dia acreditou
em algo
não no amor nem
na liberdade até mesmo
seus esforços
para crer em
algo maior que
tudo foi em vão
nem mesmo em si
acreditou
por acaso algum
dia

Shaul

minha única verdade
sempre foi a
descrença
meu único sentimento
sempre foi a dor
ensimesmado
preso acorrentado
mesmerizado
dentro
da caixa de pandora
da minha alma
se é que
um dia tive uma
por acaso
algum dia

Shulamite

você não faz ideia
depois que
se foi
o que passei
sofri chorei tentei
esquecer
porque amei você
porque aceitei
você dentro de mim
e quis ser parte
do seu mundo
podre
onde tudo é
parte dos dias
parte da morte
por acaso
seu egoísmo
sem filhos sem liberdade
sem amor sem vida
apenas acreditava em
não acreditar
apenas vivia para
um gesto derradeiro
que nunca cometeu
não era fácil
a corda ou a lâmina do bisturi
os pulsos ou mesmo a jugular
quem sabe um tiro
e você prometeu
que não me amava
porque só sabia
disso
porque era parte dos dias
parte
da morte

Shaul

seria fácil
seria muito fácil
eu poderia
fingir amar
eu poderia fingir acreditar
e mentir sobre
ser feliz
e um dia
por acaso
não mais acordar
mas o que
então
aconteceria
sofri
depois que você se foi
como se fosse parte dos
dias parte da morte
sem filhos sem vida
sem amor sem
nada
sem um único
sentimento sequer
apenas o desejo
murcho
morto
vazio
um dia por
acaso

Shulamite

e agora
que nos reencontramos
não existe mais
nós
pois esqueci
de você de mim
amei e amei e amei
várias vezes
vários dias
e nunca foi por acaso
tive filhos
fui livre
e esqueci
de você
mas nunca
da sua dor
como se fosse parte
dos dias
como se fosse parte
da morte

Shaul

eu nunca esqueci
de nada
mesmo que por acaso
algum dia
tenha fingido esquecer
como se fosse parte dos dias
como se fosse
parte da morte
eu nunca esqueci
e eu nunca acreditei

Shulamite

você quem
nunca
esqueceu eu
que nunca lembrei
apesar
de tudo apesar
do tempo
apesar dos dias e da morte eu
penso em algo que não
foi
algo que nunca lembrei

Shaul

um dia
uma semana
nós dois quase um
ano depois
você ainda sangrava
você ainda
tinha dores mas ninguém
se dava conta
apesar
de tudo eu
vi

Shulamite (coloca uma das mãos na vagina, a tira suja de sangue)

um dia
uma semana
nós dois quase um
ano depois
eu ainda sangrava
eu ainda
tenho dores mas ninguém
se dá conta
apesar de tudo
você
viu
apenas você

Itstok (surgindo do escuro)

e eu
estive lá
o tempo todo
em que nunca
existi
eu estive lá
o tempo todo
em que deveria
ter sido algo

Shaul

e ele
que nunca
existiu nós não
permitimos
e assim
entre nós
mais um
fantasma
mais uma
dor

Shulamite

foi você
que não existiu
foi você
que se negou
eu sempre quis
a vida mas
desisti
em seu nome
eu sempre quis
um filho
mas desisti
em seu
nome
o nome do pai

Itstok

vocês dizem cor
mas eu digo sangue vocês dizem
fantasma mas eu digo
eu
vocês dizem desistir
e eu não
quebro o silêncio

Shaul

como se fosse parte
dos dias como se
fosse parte
da morte
nunca escapei
nunca desejei
pois tudo era
morto tudo era nada
como a fumaça do cigarro eu
me espalho eu me separo eu me
dissolvo
como os mortos
que eu enterrei eu
lamento mais
de uma vez
por todas
eu ainda vejo seu sangue

Shulamite

meu sangue não
meu sangue não é meu sangue
meu sangue não é
minha cor
minha voz
tudo isso foi você
quem fez foi
você quem
tirou foi
você
sempre

Itstok

meu sangue não
é meu
sangue é
minha cor
de vocês
tudo isso é
nada
vocês dizem cor
eu digo sangue
vocês dizem o mundo
eu digo um altar
vocês dizem nada eu
digo morte
eu digo tudo
e os vejo
separados por uma distância
infinita
de meu tamanho

Shaul

de todos os vazios entre
os tempos de todas as distâncias entre as
filas de
soldados das brechas
de tapume das portas
que fechamos mal
das mãos
que separamos do vazio
entre os corpos
nasce uma planície um
deserto
para onde
eu vou sempre
onde eu sempre
estive

Itstok

nesse vazio nessa
solidão
um deserto a fumaça
onde você diz que
está eu
sou

Shulamite

de todos os vazios o
que mais me dói
é o que vocês
deixaram dois
fantasmas
sempre como seres dormentes
e palpitantes
que saltam de
meu corpo
sempre

Itstok

ouço meu sangue e tua
voz numa única
pulsação
vejo teus olhos e minha
miséria num único
clarão
sempre

Shaul

acendo um cigarro e
nem ao menos quero
aceno um adeus e nem
ao menos
sei
porque
mas é o que faço
como se fosse parte
dos dias como se
fosse
parte da morte
nem ao menos
quero

Shulamite

dois fantasmas
como seres dormentes e palpitantes
que saltam
de meu corpo

(Lentamente, todos desaparecem.)

FIM.

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crítica, xanto

XANTO | Sem juízo nenhum: dívidas, vidas culpadas e a poesia de Lucas Matos, por Rafael Zacca

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Texto com pequenas modificações,
apresentado no simpósio
“Poesia contra polícia”,
organizado por Gustavo Silveira Riberiro
e Tiago Guilherme pinheiro,
na XV ABRALIC, em 2017.

 

A literatura se depara frequentemente com o problema da produção ou da exposição de uma vida. Isso diz respeito, inclusive, às artes verbais clássicas, entre as quais a épica se perguntava pelo valor de uma vida, a tragédia pelo destino de uma vida e a lírica pelo sentido de uma vida. Na indecisão entre produção e exposição, fica implícito o problema da relação da literatura com a vida mesma: escrever produz um corpo (isto é, presentifica uma vida) ou re-apresenta o seu valor, o seu destino, o seu sentido (isto é, aponta para a sua distância)?

É curioso notar como as práticas detetivescas, as artes verbais policiais, apostam na união das duas atitudes. A atitude investigativa aponta a distância de uma vida ao procurar e apresentar seus indícios (os do criminoso ou os da vítima) ao mesmo tempo que produz, com o mesmo gesto, essa vida: de forma suave, com a prática do retrato falado, por exemplo (cada vez mais realista e mais precisa com a ajuda das ferramentas de reconhecimento facial), e que tem no relato a distância e a produção de um rosto; ou violenta, com a prática do interrogatório e da tortura. O que é o mesmo que dizer que a polícia opera perseguindo indícios, uma operação que produz uma vida culpada.

De volta ao problema fundamental da exposição ou da produção de uma vida na literatura, o fato é que ele remete ao problema mais amplo da aparência e da essência, ou ainda, do corpo e da alma. Na poética da presença, a produção de um corpo, de uma materialidade qualquer, é valorizada, enquanto na poética dos indícios, a distância do mundo material aponta para a sua ausência na língua, e para a presença, nela, de seus valores. O seguinte poema, de Lucas Matos, atesta uma revolta contra o valor:

 

Depois de ler um livro sobre aprender a se amar e a se dar valor

me odeio às segundas
porque não sou magra
e me odeio às quartas
porque nunca tem
dinheiro para o aluguel
aos domingos me odeio
porque tenho preguiça
posso me odiar
nas noites de sábado
por muitos motivos

me odeio dormindo
me odeio desperta
me odeio tomando café
me odeio enquanto escovo
dentes cabelos pelos
da minha gata

me odeio muito
quando tenho cólica
me odeio na sala
na cozinha no quarto
já me odiei na cama
no sofá em cima da mesa
no lustre eu já me odiei
em todos os cantos da casa

às vezes me odeio por ler
livros sobre aprender
a se amar e se dar
valor se eu soubesse
me amar e me dar
valor eu não lia
eu me amava
eu me dava valor

 

O poema integra “A história de Marianne K.”, a primeira de três séries do livro Três semblantes. Trata-se da vida de Marianne K., uma mulher endividada, dividida entre momentos de estupefação e extrema lucidez, e que tem a sua história narrada a partir de poemas que misturam os registros épico, dramático e lírico. No entanto, Marianne K. mesma, seu corpo ou sua alma, sua aparência ou sua essência, não se apresentam. No poema “Perguntas que podem ser feitas por para ou sobre Marianne K.”, o leitor que procurar o caráter da personagem sairá de mãos vazias. Encontrará apenas perguntas como: “marianne k. nasceu no brasil? se sim que língua ela fala? ela fala? / marianne k. sabe distinguir as frases: ‘vou te mandar a real’ e ‘vou te mandar uns reais’? você pode explicar a distinção entre elas? / o rei pelé reina onde? o rei roberto? marianne é a rainha dos baixinhos? / mairanne k. se chama marianne k. porque antes dela vieram: marianne a., marianne b., marianne c., assim por diante?” O jogo cômico de chistes, como a brincadeira entre “o real” e “a real”, estabelece um espaço virtual entre o dinheiro e o juízo em que um defeito comunicativo se insurge contra a condição devedora ou culpada. Um jogo de semelhanças dos significantes aponta para a farsa dos significados.

O leitor não tem sorte, portanto, ao procurar o caráter de Marianne K.; também não encontrará qualquer coisa como um corpo. Na “Breve descrição de Marianne K.”, verá sentenças como: “se fosse um lugar no rio de janeiro se entrava em marianne / dobrando à esquerda no final do rio comprido / quando encontrar marianne diga oi piscando o olho esquerdo / aos sábados prefira o direito / marianne estudou direito dois meses na federal / se fosse uma droga diriam que marianne leva a outras mais pesadas”, etc. Marianne K., assim como as outras personagens do livro de Lucas, não nos é apresentada, não se aproxima do texto, nem é apontada por ele, de longe. O que se produz nesses poemas são “semblantes”, vagas e vazias fisionomias, cujos traços não podiam se distanciar mais do que chamamos de retrato falado; são, antes, falas retratadas, formas verbais em estado de enunciação.

Marianne K. não é uma personagem, é um semblante. Ela não nasce de uma caracterização, da construção, mais ou menos harmoniosa, de indícios que se comunicam em uma unidade. Ela se origina de um descontrole dos mecanismos de dívida e de culpa, que se comunicam na diversidade que produzem por meio do deslizamento dos significados nos significantes, por meio dos chistes, das piadas e das analogias. Não poderíamos inventar uma biografia de Marianne K., descobrir pai e mãe. Quando muito, podemos apontar qualquer parentesco com Kafka, não apenas pela cifra de seu sobrenome, mas também em sua condição de réu e em sua situação de fracasso.

 

Os correios

olha eu não sei te dizer como
olha eu não sei como te dizer
nos últimos meses eu recebi cartas
não eram postais não vinham
escritas a mão com dizeres como
aqui no porto a vida real
não é bonita
cartas não muito sucintas
cartas não muito extensas
os meses passando
nos últimos meses eu recebi cartas
uma atrás da outra
todas as cartas eu guardei

todas as quartas antes do café
acordo e digo
dia de botar ordem na vida
dia de botar essas cartas em dia (…)

eu e eu e não devia te dizer
os bancos não me amam mais
os bancos não me amam mais
eles não têm mais sorrisos
palavras polidas pra mim
se você visse o jeito
como os gerentes me olham

eu tenho quatro cartões
de crédito também
de plástico duro os cartões
com chips modernos
eu gosto de cartões de plástico
duro com chips modernos
eles são fáceis de usar
para comprar roupas
eles são fáceis de usar
para comprar comida e cigarros (…)

 

Em seus ensaios sobre Charles Baudelaire, Walter Benjamin expôs a relação entre punitivismo e a fixação dos traços que a fotografia proporcionou: “Para a ciência criminal, a invenção da fotografia foi um passo tão importante como a invenção da imprensa para a literatura. A fotografia permite, pela primeira vez, fixar os vestígios de uma pessoa de forma inequívoca e definitiva. O romance policial nasce no momento em que essa conquista acaba com o estatuto incógnito do ser humano. Desde então, não se sabe até onde poderão ir os esforços de prendê-lo às suas ações e palavras.” Podemos dizer que Lucas Matos produz uma antifotografia, que desprende os vestígios de um semblante, produzindo equívoco e sentenças contestáveis.

Com isso, rompe-se a condição de possibilidade das “evidências sensíveis”, isto é, a possibilidade de percepção homogênea do real. Os sentidos ficam livres para novas ficções: não é por acaso que todo o mundo de Marianne K. é construído sob o signo da dívida. Marianne chega mesmo a produzir teses, no livro, sobre a relação entre dívida e vida social, literatura, linguagem e mesmo cinema. Um acontecimento que é mero evento entre outros em uma vida ordinária – uma dívida com o banco, por exemplo – torna-se, na poética do semblante, o traço único de sua existência. Com isso, toda a vida passa a ser significada por um evento singular. Na história de Marianne K., o maior dos amores é construído a partir de relações de crédito:

 

Une chanson (Alô? Está me ouvindo?)

ninguém vai te amar
tanto quanto o seu credor
nem o pai nem a mãe
e os filhos se você tiver
vão te amar menos
vão amar sempre menos
ninguém vai te amar
tanto quanto o seu credor

a mãe está no hospital
e é para você que ele
liga no sábado de manhã
ninguém vai te amar
tanto quanto a esposa
mandou uma carta
para a amante tudo
parece ir para as
cucuias e é o teu
email que ele procura

ninguém vai te amar
tanto quanto o seu credor (…)

 

Trata-se de uma poesia política? A pergunta é insuficiente. Se por poesia política quisermos designar recursos de linguagem que denunciam uma injustiça social evidente, chegaremos à conclusão de que a poesia de Lucas Matos não é política. Suas enunciações não partem de qualquer evidência, mesmo que a propósito de injustiças. Trata-se, antes, de uma poesia que interfere diretamente em nosso sistema de evidências – e aí se encontra o seu coeficiente político. Sua ação não aponta para um mundo que os leitores não enxergam, mas desarticulam as estruturas de visibilidade e invisibilidade social, propondo uma interferência no que Jacques Rancière chamou de partilha do sensível.

Para Rancière, o estado policial se constrói juntamente com o consenso: polícia não é apenas a repressão armada, mas também a ficção de que existe uma continuidade entre os diferentes modos de percepção de um conjunto de pessoas. A ficção que prepara o consenso precisa homogeneizar a percepção coletiva, inventar a sua unidade, ignorar a descontinuidade entre os diferentes corpos que percebem os eventos, e, com isso, apontar para a evidência de determinados dados irrefutáveis do real. Uma poesia que quisesse, portanto, opor a essa ficção a evidência de injustiças “ignoradas” pelo leitor, apostaria na mesma lógica consensual da polícia – para Rancière, uma anti-política por excelência. A política acontece no rompimento do consenso, quer dizer, na instauração de um espaço de dis-senso, em que novas percepções interferem na ficção do real. É no dissenso que sensibilidades antes ignoradas podem trazer à visibilidade o que socialmente é ignorado pelo consenso.

A poesia de Três semblantes não apenas evita, como fura o “bom senso”, e é essa a função de seus delírios. Lucas não denuncia a injustiça do sistema de dívidas que afunda Marianne K., mas produz, a partir de um descontrole ficcional desse sistema, uma esfera de sensibilidade variada. É o que sugerem as diversas técnicas de equívoco produzidas pelo poema:

 

Delírio branco de Marianne K. (quando o mundo acabar só sobrarão as dívidas e as baratas)

galopo a dívida galopante
devo como se deve e cada vez mais
de modo devido em dívida
já não posso pagar
imposto
já não posso pagar
centavo
já não posso pagar
peitinho
todo meu corpo alguém emprestou
e peço mais e devo mais
mais como se deve dever mais
eles me emprestam mas eles não prestam
me prendem em juros
ninguém aceita juras
ninguém quer amor
em trocas não pago
cigarro – fiados
galopo a dívida galopante
juro a juros de todos por cento
dez mil anos não dava
para saldar
o país mais rico do mundo não bastava
para saldar
as dívidas bonitas
bichinhos que aumentam
de número sem que você perceba
encoste em uma são duas
tente beijar três são dez
as dívidas mais rápidas que meus olhos
tão mais velozes
que minha cabeça
galopo as dívidas galopantes
somos milhões milhões de mil
animais em dívida (…)

 

Se, em Rancière, o dissenso é produzido “por meio da intervenção de uma instância de enunciação coletiva que redesenha o espaço das coisas comuns”, na poética do semblante de Lucas Matos, o dissenso surge pela multiplicação do fracasso. Marianne K. está endividada, e mostra um mundo fracassado porque imerso em um sistema de credores e devedores. O fracasso figura como arquitetura do semblante, na mesma medida em que o sucesso é arquiteta do sujeito moderno.

Três semblantes tem dois outros títulos: “no meio da piada você percebe: ninguém vai achar graça” e “para cada sentença clara há um engano”; os títulos alternativos sinalizam não tanto para uma imagem, quanto para sentenças, cômicas ou sérias, enunciadas. Isso significa que os poemas não se propõem a desenhar retratos falados, mas mostrar falas retratadas, isto é, situações de fala suspensas, na mesma medida em que o semblante é menos um rosto que a situação de um rosto, e é muito mais o movimento das feições suspenso que os traços definitivos de alguém (diz-se, por exemplo, que alguém trazia um semblante severo, ou triste, ou amargo). Dizer isso, no entanto, ainda é dizer pouco: trata-se de falas estranhas, com uma dicção confusa, em outras palavras, um conjunto de enunciações desajuizadas. Trata-se, efetivamente, de uma rebeldia contra o sistema de valoração, e, por isso, uma espécie de crise da faculdade do juízo, que não só tenta atribuir valor como reconhecer distinções (mesmo que se trate de um jogo infinito das faculdades da imaginação e do entendimento, como propõe Kant). Dessa falha, ou mesmo falta, de juízo, nasce uma atitude infantil, na desarticulação sintática, na irrupção de perguntas primárias e no conjunto de pequenas piadas que fazem com que o texto se distraia, de certa forma, dos assuntos propostos pelos próprios poemas.

Todo o livro de Lucas é, de alguma maneira, uma preparação para o seu último poema, que, apesar de longo, vale a citação integral. Ele apresenta a doença do esquecimento personificada em rabino. No Rabi Al’zheimer todas as faculdades do entendimento e da imaginação estão escangalhadas, quebradas. Sem juízo nenhum, o distintivo policial se parte, e já não se pode dizer qual é o lugar de quem, nem apelar para a carteirada do “sabe com quem você está falando?” Sem juízo nenhum, a poesia se torna, mais uma vez, o sonho de uma suspensão do juízo, dos tribunais, da culpa e das dívidas.

 

O discurso do Rabi Al’zheimer a favor da distinção entre meninos e velhos

peço que os loucos se sentem à esquerda e os sãos se sentem à direita de quem sofre de depressão quem é bipolar peço a você caro sol meu bom e velho amigo se deite para que os que têm saúde pisem e mantenham pés secos sapatos limpos peço que os jovens e magros se façam macios para os joelhos gigantes dos velhos obesos pois é preciso separar o joio do trigo o canhoto do destro e se o sobrinho da noiva sentar no mesmo banco da máfia da família do noivo ou se um velho descansar ao lado dos jovens eles o levarão abaixo o mesmo se diz do contrário o menino que brinca entre adultos mais tarde escuta o avô a avó sussurrar no ouvido: você está tão bonito ah se eu fosse dez anos mais nova ah se eu fosse dois dias mais são uma vez deixaram um doido andar entre os de mente saudável e eis que ele logo se foi e se dispersou na multidão duas semanas passadas já não se notava de cara quem ele era estava com um jeito de andar comum as ideias bem postas o olhar poucas vezes mudava e o discurso era sensato exceto que no meio de uma conversa podia perguntar: por que você não me ama? por que você não me olha com os olhos que deita no pôr do sol nos dias de verão? você se lembra da época em que não se achava feio nas fotos? se lembra da época em que não se achava burro? se lembra da época em que não sabia de cor seus defeitos? duas semanas passadas qualquer um podia soltar no meio da conversa: e se eu te pedisse agora um beijo? por isso separar é preciso os loucos se vistam de verde os sãos de pelos de camelo os que desejam ser amados por favor à esquerda à direita os que perderam a razão à esquerda os que babam dormindo ou após arrancar o dente do juízo à direita à esquerda os que não lembram dos filhos à direita os que vão morrer sozinhos os que se sentem sozinhos à direita os tristes de coração à esquerda pois é preciso separar para que a mão esquerda não esteja no braço direito nem o pé direito no meio da coxa no peito da perna errada quando chegar a velhice cada coisa esteja em seu lugar e cada lugar em seu tempo certo como as peças de um grande mosaico em que um pedaço completa o outro e o que está em cima não se confunde com o que está no século quarto e o que está de viés não se confunde com o que está anil e o que está usando um anel não se confunde com o que está aqui vivo bem como as abelhas na colmeia ou as formigas sobre o cadáver de um boi ou um burro morto três tempos depois da morte uma cor dá luz à próxima por isso separar é preciso

Padrão
tradução

Ingeborg Bachmann (1926-1973), por Matheus Guménin Barreto

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Ingeborg Bachmann nasceu em 1926, na Áustria. Poeta, romancista, tradutora, libretista, ensaísta e dramaturga, recebeu em 1964 o Prêmio Georg Büchner. Ainda em vida foi reconhecida como uma das mais potentes vozes da literatura em língua alemã e no panorama literário europeu foi posta ao lado de nomes como Virginia Woolf e Samuel Beckett, enquanto leitores brasileiros veem semelhanças entre sua obra e a de Clarice Lispector. Trabalhou intensamente com diversos artistas de sua geração, dentre outros o poeta Paul Celan e o compositor vanguardista Hans Werner Henze. Bachmann morreu em 1973, em Roma, devido a um incêndio em seu quarto de hotel, supostamente causado por um cigarro. Em 1976 foi instituído na Áustria o Prêmio Ingeborg Bachmann, que cumpre hoje como poucos o papel de laurear autores significativos no contexto da literatura em língua alemã. Outras traduções da poeta, feitas por Adelaide Ivánova, foram publicadas ano passado na revista (clique aqui).

Matheus Guménin Barreto (1992) é um poeta e tradutor brasileiro. Nascido em Cuiabá – Mato Grosso, é pós-graduando da Universidade de São Paulo (USP), onde traduz a poesia de Ingeborg Bachmann. Barreto estudou também na Universidade de Heidelberg (Alemanha). Publicou traduções de Ingeborg Bachmann em Dito ao anoitecer (2017) e Lira argenta (2017), de Bertolt Brecht em Cântico de Orge (2017) – parcerias entre Selo Demônio Negro, Editora Hedra e a editora portuguesa Douda Correria. Também disponíveis no Brasil e em Portugal estão alguns de seus poemas, publicados em: Enfermaria 6, Revista Lavoura, Revista Escriva – PUC-RS, Diário de Cuiabá e Ruído Manifesto; entre outras. É editor do site cultural mato-grossense Ruído Manifesto e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Paris-Sorbonne. Matheus Guménin Barreto é autor dos livros de poemas A máquina de carregar nadas (2017, Editora 7Letras) e Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (2018, no prelo).

* * *

Iguaria nenhuma
Nada mais me agrada.

Devo
enfeitar uma metáfora
com uma amendoeira em flor?
Crucificar a sintaxe
num efeito de luzes?
Quem vai quebrar a cabeça
com coisas tão supérfluas –

Aprendi a ter piedade
das palavras
que estão aí
(para a classe mais baixa)

fome
………..humilhação
……………………………..lágrimas
e
……………………………………………escuridão.

Com o soluço ainda por limpar
e o desespero
(e desespero-me ainda do desespero)
em relação às muitas misérias,
às taxas de doença, aos custos de vida,
sobreviverei.

Não negligencio a escrita,
e sim a mim.
Sabe Deus que os outros
sabem
se virar com as palavras.
Não sou meu assistente.

Devo
aprisionar um pensamento,
conduzi-lo a uma frase-cela iluminada?
Alimentar olho e ouvido
com palavra-petiscos de primeira?
pesquisar a libido d’uma vogal,
determinar os valores de amantes de nossas consoantes?

Preciso,
com a cabeça em granizo desfeita,
com o espasmo da escrita nesta mão,
sob o peso de trezentas noites
rasgar o papel,
varrer pra longe as óperas linguísticas planejadas,
exterminando assim: eu tu e ele ela

nós vós?

(Que seja. Que façam os outros.)

Quanto à minha parte, que se perca.

Keine Delikatessen

Nichts mehr gefällt mir.

Soll ich
eine Metapher ausstaffieren
mit einer Mandelblüte?
die Syntax kreuzigen
auf einen Lichteffekt?
Wer wird sich den Schädel zerbrechen
über so überflüssige Dinge –

Ich habe ein Einsehen gelernt
mit den Worten,
die da sind
(für die unterste Klasse)

Hunger
………….Schande
………………………..Tränen
und
……………………………………Finsternis.

Mit dem ungereinigten Schluchzen,
mit der Verzweiflung
(und ich verzweifle noch vor Verzweiflung)
über das viele Elend,
den Krankenstand, die Lebenskosten,
werde ich auskommen.

Ich vernachlässige nicht die Schrift,
sondern mich.
Die anderen wissen sich
weißgott
mit den Worten zu helfen.
Ich bin nicht mein Assistent.

Soll ich
einen Gedanken gefangennehmen,
abführen in eine erleuchtete Satzzelle?
Aug und Ohr verköstigen
mit Worthappen erster Güte?
erforschen die Libido eines Vokals,
ermitteln die Liebhaberwerte unserer Konsonanten?

Muß ich
mit dem verhagelten Kopf,
mit dem Schreibkrampf in dieser Hand,
unter dreihundertnächtigem Druck
einreißen das Papier,
wegfegen die angezettelten Wortopern,
vernichtend so: ich du und er sie es

wir ihr?

(Soll doch. Sollen die andern.)

Mein Teil, es soll verloren gehen.

§

 

Um tipo de perda
Usados a dois: estações, livros e uma música.
As chaves, a porcelana do chá, o cesto de pão, lençóis
e uma cama.
Um enxoval de palavras, de gestos: trazidos,
usados, gastos.
Uma ordem doméstica mantida. Dita. Feita. E sempre
a mão estendida.

Por invernos, por um septeto vienense e por verões eu
me apaixonei.
Por mapas, por um vilarejo, por uma praia e por
uma cama.
Fiz um culto movido a datas, declarei promessas
irrevogáveis,
idolatrei um algo e fui devota de um
nada,

( – do jornal amarrotado, da cinza fria, da folha
com uma anotação)
sem temor na religião, pois a igreja era esta cama.

Saída da vista para o lago surgiu minha inesgotável
pintura.
Da sacada tinha de cumprimentar os povos lá embaixo,
vizinhos meus.
Junto ao fogo da lareira, em segurança, tinha meu cabelo sua
mais extrema cor.
A campainha junto à porta era o alarme para minha alegria.

Não foi a ti que eu perdi,
perdi o mundo.

Eine Art Verlust

Gemeinsam benutzt: Jahreszeiten, Bücher und eine Musik.
Die Schlüssel, die Teeschalen, den Brotkorb, Leintücher
und ein Bett.
Eine Aussteuer von Worten, von Gesten, mitgebracht,
verwendet, verbraucht.
Eine Hausordnung beachtet. Gesagt. Getan. Und immer
die Hand gereicht.

In Winter, in ein Wiener Septett und in Sommer habe ich
mich verliebt.
In Landkarten, in ein Bergnest, in einen Strand und in
ein Bett.
Einen Kult getrieben mit Daten, Versprechen für
unkündbar erklärt,
angehimmelt ein Etwas und fromm gewesen vor einem
Nichts,

( – der gefalteten Zeitung, der kalten Asche, dem Zettel
mit einer Notiz)
furchtlos in der Religion, denn die Kirche war dieses Bett.

Aus dem Seeblick hervor ging meine unerschöpfliche
Malerei.
Von dem Balkon herab waren die Völker, meine Nachbarn,
zu grüßen.
Am Kaminfeuer, in der Sicherheit, hatte mein Haar seine
äußerste Farbe.
Das Klingeln an der Tür war der Alarm für meine Freude.

Nicht dich habe ich verloren,
sondern die Welt.

§

 

Propaganda

Mas aonde vamos
tranquilo fique tranquilo
quando houver breu e quando houver frio
fique tranquilo
mas
com música
o que faremos
alegre e com música
pensaremos
alegre
frente a um fim
com música
e aonde carregaremos
melhor
nossas dúvidas e o terror dos tempos
à lavanderia dos sonhos tranquilo fique tranquilo
mas o que acontece
melhor
quando a mudez da morte

vem

Reklame

Wohin aber gehen wir
ohne sorge sei ohne sorge
wenn es dunkel und wenn es kalt wird
sei ohne sorge
aber
mit musik
was sollen wir tun
heiter und mit musik
und denken
heiter
angesichts eines Endes
mit musik
und wohin tragen wir
am besten
unsre Fragen und den Schauer aller Jahre
in die Traumwäscherei ohne sorge sei ohne sorge
was aber geschieht
am besten
wenn Totenstille

eintritt

§

 

Verdade

Verdade não te lança areia aos olhos;
verdade pedem-te o sono e a morte,
àquele que é por dores instruído;
a pedra da tua tumba ela remove.

Verdade fugidia e já tão gasta
no ramo e no botão, na improdutiva
língua, deitada enquanto o tempo passa.
Verdade perde tempo e o reabilita.

Verdade estende uma mecha da Terra,
desembaraça sonho, láurea, arado,
prepara o pente e, entre frutos colhidos,
golpeia e bebe-te de cima a baixo.

Verdade não se esconde até o assalto
que poderia ser tua ruína.
Ela arrebenta-te a ferida: és presa;
nada que não te trai te invadiria.

A lua vem com bile nos seus vasos.
Bebe o que é teu. A noite desce, amarga.
A escuma mancha a plumagem das pombas,
e agora em segurança já não há nada.

Ficaste preso ao mundo, acorrentado,
mas a verdade faz fendas nos muros.
Tu velas e procuras entre o breu
o Certo; e a saída lá no escuro.

Was wahr ist

Was wahr ist, streut nicht Sand in deine Augen,
was wahr ist, bitten Schlaf und Tod dir ab
als eingefleischt, von jedem Schmerz beraten,
was wahr ist, rückt den Stein von deinem Grab.

Was wahr ist, so entsunken, so verwaschen
in Keim und Blatt, im faulen Zungenbett
ein Jahr und noch ein Jahr und alle Jahre –
was wahr ist, schafft nicht Zeit, es macht sie wett.

Was wahr ist, zieht der Erde einen Scheitel,
kämmt Traum und Kranz und die Bestellung aus,
es schwillt sein Kamm und voll gerauften Früchten
schlägt es in dich und trinkt dich gänzlich aus

Was wahr ist, unterbleibt nicht bis zum Raubzug,
bei dem es dir vielleicht ums Ganze geht.
Du bist sein Raub beim Aufbruch deiner Wunden;
nichts überfällt dich, was dich nicht verrät.

Es kommt der Mond mit den vergällten Krügen.
So trink dein Maß. Es sinkt die bittre Nacht.
Der Abschaum flockt den Tauben ins Gefieder,
wird nicht ein Zweig in Sicherheit gebracht.

Du haftest in der Welt, beschwert von Ketten,
doch treibt, was wahr ist, Sprünge in die Wand.
Du wachst und siehst im Dunkeln nach dem Rechten,
dem unbekannten Ausgang zugewandt.

§

 

Um monólogo do príncipe Míchkin para o balé-pantomima ‘O Idiota’
[um excerto]
Com um andar que faz lembrar bonecos, os personagens da peça – Parfion Rogójin, Nastácia Filíppovna, Tótski, Gánia Ívolguin, General Epantchin e Aglaia – surgem. A pantomima termina com o compasso final da Intrada, e então dirige-se o príncipe Míchkin ao meio do palco. Ele fala o monólogo inteiro sem música.

Tenho a palavra, a tomei
da mão da tristeza;
indigno, pois como seria eu
mais digno que qualquer outro –
eu mesmo um cântaro à nuvem, àquela
que do céu caiu e em nós mergulhou,
terrível e alheia
e partilhada pela beleza
e por tudo o que é vil neste mundo.

(Oh tormento da luz, tormento
da febre próximo às febres outras,
dor comum de nossa
justa doença!)

Que passe o cortejo mudo sobre meu peito
até ao escurecer
e até que o que me ilumina
seja outra vez devolvido
à escuridão.

Em verdade – já que esta dor
está em vós – vós fazeis
o que por vossas vidas fazeis
não por vossas vidas,
e o que fazeis por vossa honra
não toca vossa honra.

Cunhadas nos risos de demônios,
sem fundo são as taças
desta infeliz vida
que nos provê até aos extremos.
Se uma esbarra n’outra não
fazem som algum, já que
não se oferece descanso algum
às lágrimas; mudas despencam
de abismo em abismo, e o último
chão no qual elas se acabam
nega-se ainda à audição nossa.
Oh mudez do amor!

Agora ele pega pela mão cada pessoa que nomeia.

Parfion Rogójin, o filho de mercadores,
para ele um milhão não é nada.
Nas noites de inverno ele para a carruagem
frente às ruas comerciais mundanas,
não pode cruzá-las.
Lança seu ouro à neve,
pois a neve é a medida

de tuas faces, Nastácia Filíppovna:
teu nome é uma curva perigosa
em cada boca, dizem que da neve
tiraste a medida de tuas faces,
que em teu cabelo moram os ventos
(não digo que sejam caprichosos),
teu olho o desfiladeiro
nos quais as carruagens despencam;
a neve as conta e da neve
tiras a medida
de tuas faces.

Tótski – ah, isso é quase demais
antes do descanso final: o passado foi
como um átimo de uma criança nos braços; e
agora, agora se abateu sobre vós dois
o tempo de olhares, o tempo de lábios.

Gánia Ívolguin, quando um laço for esticado
entre todos,
serão tuas mãos os nós
que o atam,
pois não sabes rir.
Exigiste muito para ti
e pouco de ti.
Impera em ti apenas uma exigência:
ver despencarem as carruagens
nas quais vão os outros
antes que tu mesmo acabes debaixo das rodas.

General Epantchin – não são acasos
o que nos guia para perto daqueles que evitamos.
Assim como nos perdemos dos filhos,
deslizamos em direção a inconfessáveis anseios
e tornamo-nos guardas de alheias portas
que nem de nós mesmos podemos guardar.

O que se perde? O branco,
frio sonho de uma juventude
que não pede indulgência?

A perfeição, talvez? E a beleza
numa tal forma que nos
contentemos com seus enigmas? Aglaia,
assim não verei em ti mais que
a mensagem de um mundo
no qual não posso entrar,
uma promessa que não posso manter,
e uma posse que não posso sustentar.

Ele se vira e fica em pé de frente para o público.

Despertada à vida entre aparências,
desviada dos planetas
que nos exigem vir à tona,
vejo-os moverem-se, mudos,
à música infinita.

Aqui suas palavras desembocam numa rígida dança que faz lembrar marionetes.

Os passos nossos são apenas o soar
não muito claro de umas poucas notas
que até nós chegam.

Míchkin também é puxado para a dança – que deve trazer à tona a expressão de solidão de cada um.
[…]

 

Ein Monolog des Fürsten Myschkin zu der Balletpantomime ‘Der Idiot’
Mit puppenhaften Schritten treten die Personen des Spiels – Parfion Rogoschin, Nastassia Filipowna, Totzki, Ganja Iwolgin, General Epantschin und Aglaja – auf. Die Pantomime endet mit dem Schlußtakt der Intrada, und Fürst Myschkin tritt in die Mitte der Szene. Er spricht den ganzen Monolog ohne Musik.

Ich habe das Wort, ich nahm’s
aus der Hand der Trauer,
unwürdig, denn wie sollte ich
würdiger sein als einer der andern –
selbst ein Gefäß für jene Wolke,
die vom Himmel fiel und in uns tauchte,
schrecklich und fremd
und teilhaft der Schönheit
und jeder Verächtlichkeit dieser Welt.

(O Qual der Helle, Qual
des Fiebers, nah an anderen Fiebern,
unsrer gerechten Krankheit
gemeinsamer Schmerz!)

Laß den stummen Zug durch mein Herz gehen,
bis es dunkel wird
und, was mich erleuchtet,
wieder zurückgegeben ist
an das Dunkel.

Wahrhaftig, weil dieser Schmerz
in euch ist, tut ihr,
was ihr für euer Leben tut,
nicht für euer Leben,
und was ihr zu eurer Ehre tut,
geschieht nicht zu eurer Ehre.

In der Dämonen Gelächter gebrannt,
bodenlos, sind die Schalen
dieses glücklosen Lebens,
das bis zum Rand uns bedenkt.
Trifft eine die andre, so klingen
sie nicht, denn kein Einhalt
ist den Tränen geboten, sprachlos
stürzen sie ab, von Grund
zu Grund, und es verweigert
der letzte, in den sie vergehn,
sich immer unsrem Gehör.
O Stummheit der Liebe!

Jetzt nimmt er jede Person, die er nennt, an der Hand.

Parfion Rogoschin, der Kaufmannssohn,
weiß nichts von einer Million.
In den Winternächten hält sein Gespann
vor den käuflichen Straßen der Welt
und kann sie nicht fahren.
Er schüttet sein Geld in den Schnee,
denn der Schnee ist das Maß

deiner Wangen, Nastassia Filipowna,
dein Name ist eine gefährliche Kurve
in jedem Mund, sie sagen, am Schnee
nähmst du das Maß für deine Wangen,
in deinem Haar wohnten die Winde,
(ich sage nicht: sie sind launisch),
dein Aug sei ein Hohlweg,
in dem ihre Wagen stürzen,
es zählt sie der Schnee, und vom Schnee
erhältst du das Maß
für deine Wangen.

Totzki – dies ist wohl zuviel,
eh man zur Ruhe geht: eines Kindes Augenblick
in den Armen war die Vergangenheit, und jetzt
ist die Zeit von Blicken, die Zeit
von Lippen über euch beide gekommen.

Ganja Iwolgin, wenn ein Band zwischen allen
gesponnen ist,
werden deine Hände die Knoten sein,
die es spannen,
denn du lächelst nicht gut.
Du forderst zu viel für dich
und verlangst zu wenig von dir.
Dich gängelt nur ein Verlangen:
die Wagen stürzen zu sehn,
in denen die anderen fahren,
eh du selbst unter Rädern verendest.

General Epantschin – es sind nicht Zufälle,
die uns in die Nähe derer führen, die wir meiden.
Wie wir uns in den Kindern entgleiten,
gleiten wir uneingestandenen Wünschen nach
und halten vor fremden Türen als Hüter,
die wir uns selbst so wenig zu hüten vermögen.

Was aber entglitt? Der weiße,
erkaltete Traum einer Jugend,
die nicht Nachsicht verlangt?

Vollkommenes also? Und Schönheit
in solcher Gestalt, daß wir uns
mit ihrem Rätsel begnügen? Aglaja,
so werde ich in dir nichts sehen
als die Botschaft einer Welt,
in die ich nicht eintreten,
ein Versprechen, das ich nicht halten,
und ein Besitz, den ich nicht wahren kann.

Er wendet sich um und steht mir dem Gesicht zum Publikum.

Erwacht zum Leben im Schein,
von Planeten verführt,
die von uns Ausdruck verlangen,
seh ich zur grenzenlosen Musik
die Bewegung der Stummen.

Hier münden seine Worte in einen marionettenhaft starren Tanz.

Unsere Schritte sind nur die wenig
genauen Anschläge weniger Töne,
die uns erreichen.

In den Tanz, der die Einsamkeit jedes einzelnen zum Ausdruck bringen soll, wird auch Myschkin hineingezogen.
[…]

§

 

Me explica, Amor

Teu chapéu ala-se suave, acena, paira ao vento,
tua cabeça desnuda galanteia às nuvens,
teu peito tem mais o que fazer,
tua boca devora novas línguas,
floresce a briza abundante, o
verão inspira e expira as estrelitas,
cego de pólen ergues tua face,
tu ris e choras, sucumbes em ti mesmo,
que mais te ocorrerá –

Me explica, Amor!

O pavão em solene maravilha abre o seu leque,
a pomba ergue o colarinho em penas,
de pios saturado o vento avulta,
o pato grasna, a terra inteira toma
do mel selvagem, e também no parque
tranquilo, o pó dourado envolve as hortas.

O peixe ruboriza, ultrapassa o
cardume, em grutas, lança-se aos corais.
À música prateada das areias dança, arisco, o escorpião.
De longe, o escaravelho nota O Esplêndido;
tivesse eu seu senso e sentiria
também que sob Sua armadura
cintilam asas, rumo a distantes morangueiros.

Me explica, Amor!

Sabe falar a água,
onda toma outra onda pela mão,
na vinha a uva incha, salta e cai.
Tão manso o caracol larga o seu lar!

Consegue uma pedra amansar a outra!

Me explica, Amor, o que explicar não sei:
devo eu o tempo curto, o tempo atroz
gastar com pensamentos só e, de todos,
só eu não receber nem dar amor?
É preciso pensar? Não falta aos outros?

Me dizes: outro espírito conta com ele…
Não mais me expliques. Vejo a salamandra
correr por todo fogo.
Não teme nada e nada nela dói.

Erklär mir, Liebe

Dein Hut lüftet sich leis, grüßt, schwebt im Wind,
dein unbedeckter Kopf hat’s Wolken angetan,
dein Herz hat anderswo zu tun,
dein Mund verleibt sich neue Sprachen ein,
das Zittergras im Land nimmt überhand,
Sternblumen bläst der Sommer an und aus,
von Flocken blind erhebst du dein Gesicht,
du lachst und weinst und gehst an dir zugrund,
was soll dir noch geschehen –

Erklär mir, Liebe!

Der Pfau, in feierlichem Staunen, schlägt sein Rad,
die Taube schlägt den Federkragen hoch,
vom Gurren überfüllt, dehnt sich die Luft,
der Entrich schreit, vom wilden Honig nimmt
das ganze Land, auch im gesetzten Park
hat jedes Beet ein goldner Staub umsäumt.

Der Fisch errötet, überholt den Schwarm
und stürzt durch Grotten ins Korallenbett.
Zur Silbersandmusik tanzt scheu der Skorpion.
Der Käfer riecht die Herrlichste von weit;
hätt ich nur seinen Sinn, ich fühlte auch,
daß Flügel unter ihrem Panzer schimmern,
und nähm den Weg zum fernen Erdbeerstrauch!

Erklär mir, Liebe!

Wasser weiß zu reden,
die Welle nimmt die Welle an der Hand,
im Weinberg schwillt die Traube, springt und fällt.
So arglos tritt die Schnecke aus dem Haus!

Ein Stein weiß einen andern zu erweichen!

Erklär mir, Liebe, was ich nicht erklären kann:
sollt ich die kurze schauerliche Zeit
nur mit Gedanken Umgang haben und allein
nichts Liebes kennen und nichts Liebes tun?
Muß einer denken? Wird er nicht vermißt?

Du sagst: es zählt ein andrer Geist auf ihn …
Erklär mir nichts. Ich seh den Salamander
durch jedes Feuer gehen.
Kein Schauer jagt ihn, und es schmerzt ihn nichts.

Padrão
entrevista

Entrevista com Pádua Fernandes

 

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Dwayne “The Rock” Johnson no programa The Tonight Show Starring Jimmy Fallon. | Montagem de Ari Felipe Miaciro.

para ler as outras entrevistas do site clique aqui.

* * *

 

SM – Quando do meu primeiro contato com a sua obra, através de Código negro, um professor-amigo me disse que sua obra era uma obra política. Em primeiro lugar, quero saber se você concorda com isso: você acha sua obra política? Se sim, o que há de político, para você, em escrever e ler poesia?

PF – É possível que sempre se possa ver uma obra literária a partir de um ponto de vista político; ademais, há tantos desses pontos de vista, e tantos referenciais teóricos diferentes sobre a política. Mas você perguntou algo diferente, se eu considero minha obra política; raramente penso em termos de “minha obra” (na verdade, até esqueço o que já fiz). Já que você perguntou a partir do Código negro, que foi um livro que consegui publicar há poucos anos, uma década depois de escrito, tento pensar a partir dele. Trata-se, evidentemente, de um livro de amor. Porém, há livros com essa temática em que se nota que o poeta não tem consciência do espaço público e das relações de poder nesse espaço e na família. Essas coisas estão nesse livro, e lembro que um daqueles poemas de amor tem como título “Reforma urbana”, um assunto que é importante para mim também no campo do direito urbano. Nesse sentido, creio que talvez mais do que nos outros livros, que tem temáticas mais comuns para o que se chama de poesia política, o Código negro demonstre que eu tendo a compreender politicamente o mundo e a literatura. A poesia pode trazer um projeto de reformar a cidade? Creio que sim, e a leitura que faço de outros poetas em geral passa pelas questões de criação, debate e decisão sobre o que é comum, ou seja, o político.

SM – Eu tenho feito essa pergunta a todos os entrevistados. Portanto, Pádua, o que é poesia pra você?

PF – Esta forma de conhecimento a que Murilo Mendes se referiu no Poliedro:

A Górgone apresentou-me a tripleface. “Conheço-a de vista e de ouvido”, respondi rangendo os dentes.

SM – O Ismar Tirelli Neto fez, recentemente, uma pergunta que me parece fundamental: O que você espera de um poema? Pensando nesses modos de leitura da poesia que você acabou de nomear, algo que poderia criar(-se) a partir do caos, a partir do horror, repito a pergunta aqui a você e ainda a faço, novamente, com uma leve modificação: O que você espera de um poema escrito agora?

PF – Talvez seja, de fato, uma questão fundamental, mas acho que nunca me pergunto sobre isso. Em geral, creio que vou bem desarmado para uma leitura, no sentido de que não espero que um poema adote um certo programa ético ou estético, tampouco exijo determinada forma, já que há tantos diferentes mundos dentro da poesia, e esperar algo determinado bem pode configurar uma recusa daquilo que não se espera e que talvez seja o mais interessante que a poesia possa fazer. Por isso, em respeito ao inesperado, posso responder que espero que um poema faça diferença. É o que espero de poemas de qualquer tempo. Dizendo isso, acabei por me lembrar do Pound, da referência à literatura como “news that stays news”.

SM – Eu tenho pedido aos poetas que tenho entrevistado para falarem um pouco sobre a produção da poesia que lhes é contemporânea, ou seja, para que eles digam como veem a produção de seus pares. Como você vê, portanto, a atual produção da poesia no Brasil?

PF – Em uma enquete como esta sobre poesia contemporânea brasileira, creio que a pergunta deveria realmente aparecer. Prefiro imaginar que leio uma produção de ímpares. Talvez a forma como eu veja (creio que sua pergunta inflaciona o que fiz, pois penso que nunca cheguei a configurar uma forma própria) a produção daquela poesia apareça nos textos que escrevi sobre, entre outros (tento listar os últimos sobre que escrevi), Adriano Scandolara, Alberto Pucheu, Alexandre Rodrigues da Costa, André Dahmer, Angélica Freitas, Annita Costa Malufe, Dennis Radünz, Dimitri BR, Donizete Galvão (prematura e recentemente falecido), Eduardo Jorge, Eduardo Sterzi, Fabio Weintraub, Francisco Maciel, Guilherme Gontijo Flores, Josoaldo Lima Rêgo, Leandro Rafael Perez, Leonardo Gandolfi, Marcelo Ariel, Marília Garcia, Nuno Ramos, Paloma Vidal, Paulo Ferraz, Renan Nuernberger, Reuben da Rocha, Ricardo Domeneck, Ricardo Rizzo, Zeh Gustavo, Zulmira Ribeiro Tavares e até de Sergio Maciel, bem como os poetastros Garotinho e José Sarney. Também entrevistei Sérgio Alcides. Escrevi uma nota sobre poesia e golpe para a Cão celeste em que aparecerão mais dois autores, além de mais uma mirada sobre a poesia de Alberto Pucheu, que acho muito marcante com seus desguarnecimentos de fronteira entre verso e prosa, poesia e ensaio, palavra e inarticulado, o individual e o comunitário. No entanto, o poeta contemporâneo do continente que acho mais interessante é um argentino, Julián Axat, e, quanto aos da língua portuguesa, creio que o mais notável é o português Alberto Pimenta. Creio realmente que se trata de ímpares entre si. No entanto, nesse recorte tão parcial (ainda não consegui sentar para escrever, por exemplo, algumas ideias sobre Sérgio Medeiros, Bruna Beber e Ricardo Aleixo), é possível ver algumas linhas de força que perpassam alguns deles. Em 2016, escrevi um artigo sobre a poesia contemporânea brasileira e a perda da terra, e que saiu na Cão celeste número 10, sobre nove dos poetas que mencionei, e, depois, ampliado, com onze deles, para uma coletânea de ensaios ainda inédita a que Gustavo Silveira Ribeiro me convidou. Quis ver como o tópos da perda da terra aparece naqueles autores, seja na figura dos sem-teto, dos sem-cidade, sem-aldeia, sem-floresta e sem-planeta, o que acho muito importante neste momento em que estamos cada vez mais sem-país. No entanto, há também autores, muitos deles jovens, que estão jogando do outro lado, isto é, o dos saqueadores, que roubam teto, cidade, aldeia, floresta e planeta, e se comportam como subjetividades de rede social, isto é, como mercadorias que anunciam a si mesmas incessantemente, seguindo fielmente o modo de produção da devastação. Ouvi, recentemente, alguém naquela cidade onde foi plenamente exitoso o projeto de país gestado pelo neoescravismoteologicoliberal, o Rio de Janeiro, perguntar sobre poesia: “mas o que não é marketing?” Eu respondo que, se é marketing, não é poesia. Daí surge uma produção poetizante sem nenhum interesse formal, em geral informe, em que uma subjetividade plena apenas de seu valor de troca expõe-se para ganhar likes, gerando textos que chamam emojis para si, mais nada. Nada disso resistirá como literatura, pois esse pessoal não critica o modo de produção dessas subjetividades, mas é interessante registrar essa moda que aconteceu neste momento histórico.

SM – Curioso que você, não sei se sem querer, acabou fornecendo múltiplas respostas para a segunda pergunta que lhe fiz, aquela sobre o que é poesia. Assinalou, retomando Pound, que ela mantém o novo sempre novo e que é também uma forma de crítica da subjetividade. Quero focar, entretanto, num trecho da sua resposta, quando você diz que “daí surge uma produção poetizante sem nenhum interesse formal, em geral informe”. Num ensaio publicado na revista Germina (clique aqui), o Adriano Scandolara repensa toda uma relação entre “poesia”, “mito”, “modernidade”, “poetas” &c. Ele fecha o ensaio, aliás, dizendo o seguinte: “E refletir sobre isso, mais do que repetir automaticamente os velhos clichês sobre a herança xamânica da poesia – do poeta como o legislador não-reconhecido do mundo, antena da raça, aquele que purifica as palavras da tribo, etc., etc. – é a tarefa que, mais do que nunca, recai sobre o poeta escrevendo hoje”. Dito isto, e pensando nessa produção que você menciona, me interessa saber como você vê a posição e o espaço do poeta (e da poesia) hoje; se você acha que há alguma “tarefa/função” a ser cumprida por quem se arrisca a escrever nestes tempos. Trocando em miúdos, qual é, pra você, “a tarefa que, mais do que nunca, recai sobre o poeta escrevendo hoje”?

PF – Não vou ocupar o lugar mítico do profeta que aponta aos outros o que devem fazer, que é o que certos críticos fazem, irrefletidamente, a partir de uma reprodução automática dos clichês do seu papel no sistema literário, ou, simplesmente, de uma vontade de prestígio. Cada poeta deve dar sua resposta, até porque uma resposta única seria fatalmente etnocêntrica, tendo em vista os papéis diferentes que as várias categorias de poetas exercem em sociedades diversas, e em algumas ele terá um papel social muito importante de animar os símbolos da comunidade.Talvez sua pergunta parta de uma certa mistificação do risco de escrever poesia, pois ele não é geral: nem todo mundo está na posição de Mandelstam. Eu não estou nessa posição, mas sei que muitos escritores no mundo estejam sob o risco da censura, processos judiciais, tortura e execuções sumárias. Desde sempre, aliás, veja-se Ovídio. O número de poetas exilados na atualidade ainda não foi calculado, creio, seja dos que continuam banidos, seja dos que conseguiram voltar após uma revolução, como Alberto Pimenta. E há também o chamado exílio interno. Ademais, relativizando o “risco de escrever poesia”, tanta coisa é arriscada; para certos grupos sociais, até dormir é perigoso: para os sem-teto em cidades como São Paulo, é mais seguro dormir de dia, a noite é mais propícia aos ataques. Outros diriam: a noite é propícia para a poesia… Em relação à minha resposta sobre a “tarefa”, cabe aos críticos tentar descobri-la; eu apenas procuro. E leio o que outros tentaram responder. Lispector aconselhou o silêncio, bem sei, mas a poesia toda hora envolve como dizê-lo, assim como a música. Eu gosto da resposta de Nâzim Hikmet em “Meus irmãos”: “É preciso atrelar nossos poemas/ à charrua do boi magro/ É preciso que este se enterre até aos joelhos/ Na vasa dos arrozais/ […]/ É preciso que os nossos poemas como marcos quilométricos/ Balizem as estradas/ É preciso que sejam o sinal a anunciar a aproximação do adversário/ É preciso que batam tambor na selva” (tradução de Rui Caeiro, na edição da &etc de Poemas da prisão e do exílio). Não considero, porém, que todo poeta tenha que adotar esse tipo de compromisso, explicitamente político. Respeito a grande poesia lírica, o que não é o caso das anotações poetizantes a que me referi na outra questão da enquete.

SM – Quero pedir licença aqui-agora e usar as “perguntas clássicas” que Clarice Lispector costumava fazer sempre a cada entrevista. Qual é a coisa mais importante do mundo? Qual é a coisa mais importante para a pessoa como indivíduo? E o que é amor?

PF – Qual é a coisa mais importante do mundo? Terminar bem. Como o fim do Moses und Aron, de Schönberg. O compositor tinha escrito o libreto do terceiro ato, mas nunca logrou escrever-lhe a música. A obra forçou-o a terminar após a frase “Tu, palavra, que me falta”. Sempre faltará, mas devemos terminar mesmo assim. Em uma transmissão ao vivo em cinemas de uma apresentação da Lucia di Lammermoor, de Donizetti, Renée Fleming, que era a entrevistadora naquele dia, perguntou à protagonista, Natalie Dessay, por que ela tinha mudado a cadência na cena de loucura, em relação a uma outra apresentação. Dessay respondeu que nem queria se lembrar do que havia feito em outra récita, o que é uma ética artística, e disse que cantava sempre como se estivesse interpretando o papel pela última vez, “porque nunca se sabe realmente”. Também concordo com isso. Mas, para terminar bem, é necessário saber começar. Meu fim está em meu começo. E vice-versa.

Qual é a coisa mais importante para a pessoa como indivíduo? Depende da pessoa. Mas desconfiar do indivíduo é uma boa sugestão. Afinal, somos feitos por tantos e de tantos.

E o que é amor? Permito-me citar um poema de O palco e o mundo, que aborda o assunto:

– explique-me as duas overdoses, os três assaltos, as chantagens dos policiais, os setenta garotos de programa por mês, a cicatriz no umbigo; as seringas descartáveis reutilizadas e o sêmen idem; todo o pandemônio de metais através da língua, do nariz, dos mamilos e genitais (são armas em que guerra?); as inscrições e imagens no peito, na bunda, no dorso e nos membros (imagens de que deus?); os vinte quilos de calda de chocolate e as pernas de sapo; por que as luvas cirúrgicas e os anéis denteados (que corpo deseja extirpar-se de si mesmo?)
– porque tenho direito ao amor
– solte-me das correntes, qual o porquê
– porque o amor liberta

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