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#nãovaiterlista

snoopdogg

como somos absolutamente fora do tempo, nossa lista de leituras de 2019 sai apenas em 2020. de todo modo, é interessante esse descompasso porque assinala a proposta dessa nossa lista: uma lista de afetos, não dos melhores. a ideia foi passar ao largo daquilo que se propõem as listas mercadológicas ao listarem os melhores do ano. os nossos escolhidos, aqui anônimos na decisão de cada editor, se estabelecem antes graças ao afeto provocado nas leituras. são nossos vinte livros que de algum modo nos foram queridos em 2019. isso inclui primeiras leituras ou releituras. nossa intenção era apenas mapear escolhas que nos guiaram ao longo do ano passado.

cada editor escolheu cinco livros, sujeitos à aprovação coletiva. sem a indicação dos nomes, a lista fica sujeita à interpretação do leitor na atribuição dos títulos a cada um de nós. o caos das leituras, o caos do amor, o caos das palavras, o caos: assim foi 2019, assim pretendemos que seja 2020.

sem mais, a lista.

* * *

Contra um bicho da terra tão pequeno, de Érico Nogueira

adão aparas, de Ismar Tirelli Neto

Confissões, de Santo Agostinho

V, de Toni Harrison

Fia, de Jussara Salazar

Paradiso, de José Lezama Lima

O Mestre e Margarida, de Mikhail Bulgákov, trad. de Irineu Franco Perpetuo

Canção de ninar com fuzis, de Pádua Fernandes

Os nagô e a morte, de Juana Elbein dos Santos

Popol Vuh: o esplendor da palavra antiga dos Maias-Quiché de Quauhtlemallan: aurora sangrenta, história e mito, trad. de Joseph Viana

Ensaios de Possessão (irrespiráveis), de Ana Chiara

Ardis da imagem: exclusão étnica e violência nos discursos da cultura brasileira, de Edimilson de Almeida Pereira e Núbia Pereira de Magalhães Gomes

casamata, de Raïssa de Góes

estirâncio, de Mariano Marovatto

The Undercommons: Fugitive Planning & Black Study, de Fred Moten

Literatura indígena brasileira contemporânea: criação, crítica e recepção, de Julie Dorrico; Leno Francisco Danner; Heloisa Helena Siqueira Correia; Fernando Danner (Orgs.)

Parábola do semeador, de Octávia Butler

Mar, de Ana Miranda

A dolorosa raiz do micondó, de Conceição Lima

eu construía a barricada, de Anna Świrszczyńska, trad. de Piotr Kilanowski

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tradução

John Wieners (1934-2002), por Rafael Mantovani

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John Wieners, New York, Novembro de 1993. Foto: Allen Ginsberg.

John Wieners (1934 – 2002) foi um poeta estadunidense associado à geração Beat. Nascido numa família de classe média-baixa no Massachusetts, partiu muito jovem para a Costa Oeste e teve uma vida errante por vários anos, participando de comunidades experimentais de poetas, dentre as quais o Black Mountain College.

Seu primeiro livro, The Hotel Wentley Poems — escrito aos 24 anos, supostamente em menos de uma semana, logo após o rompimento com um homem que ele ainda amava — foi publicado em 1958 e recebeu atenção já na época, entre outros motivos, por sua franqueza e antimoralismo no trato com a homossexualidade e o uso de drogas. Nos mais de dez livros que publicou desde então, seus poemas dão corpo a um nomadismo corajoso e melancólico, presenciando a vida noturna de San Francisco com seus artistas boêmios, restaurantes chineses e bares queer, as visões conduzidas pela heroína e outros psicoativos, os amantes masculinos como entidades de força e revelação — tanto em paixões duradouras quanto no prazer clandestino e estigmatizado do cruising em ruas, banheiros e cenários escondidos do habitat urbano. Nesses contextos o amor aparece sobretudo como devoção, transporte para o êxtase e também para o sofrimento extremo, abarcados numa linguagem explicitamente religiosa como explicitamente sexual.

Por seus encontros com a loucura e sua pouca aptidão ou interesse por propósitos práticos (como manter empregos que lhe forneciam renda), Wieners passou grandes partes da vida em penúria financeira e instabilidade mental, sendo internado algumas vezes em instituições psiquiátricas e vivendo com o apoio de amigos.

Conviveu com (e era admirado por) poetas como Robert Creeley, Frank O’Hara e Allen Ginsberg, embora não tenha recebido — nem em vida, nem (ainda) na posteridade — a difusão e reconhecimento que sua obra fascinante merece. O único material um pouco mais extenso (que encontrei) sobre sua vida e seu trabalho é uma reportagem de Pamela Petro publicada em 2000 na Boston College Magazine (clique aqui).

Rafael Mantovani

* * *

Cocaína

Porque eu vi o amor
e o rosto dele é Heart of Hearts do mais seleto,
carne de puro fogo, fundindo-se a partir do centro
onde todo Movimento é um.

E conheci
o desespero de que o Rosto parou de olhar
para mim com a Rosa do mundo
mas sim está encolhido

num paraíso artificial onde entrar é um Inferno.
Se eu soubesse que você está aí
cairia de joelhos e imploraria a Deus
para te entregar de novo nos meus braços.

Mas é estupidez tentar.
Só o que se pode é tomar medidas para diminuir a tristeza,
confundir as sensações para que este Rosto,
o que dói no coração e faz cada re-

começo menos perto da fonte do desejo,
se dissipe da carne que incendeia a noite,
com sonhos e vontade infinita.

Cocaine

For I have seen love
and his face is choice Heart of Hearts,
a flesh of pure fire, fusing from the center
where all Motion is one.

And I have known
despair that the Face has ceased to stare
at me with the Rose of the world
but lies furled

in an artificial paradise it is Hell to get into.
If I knew you were there
I would fall upon my knees and plead to God
to deliver you in my arms once again.

But it is senseless to try.
One can only take means to reduce misery,
confuse the sensations so that this Face,
what aches in the heart and makes each new

start less close to the source of desire,
fade from the flesh that fires the night,
with dreams and infinite longing.

§

 

As Garbos e Dietrichs

Deslizando feito um sonho por Ibiza
cruzando as cidades noturnas do mundo
comprando os sonhos dos homens/e seus corações
para pendurar nos camarins, quantos enfeites
para vestir no jantar, em suntuosas ceias egoístas —

este pecado não se vê à luz de velas, os filhos delas
não ouvem esse grito na noite, curiosas gravidezes
abortos não contam, rostos despedaçados
corações arrancados abandonados no porto
quando seus navios partem.

Estou falando de suicidas lançados à corrente.
De remédios para dormir que acalmam a dor da mente.
De amantes que elas assassinaram, tão condescendentes.
Tudo para continuarem belas e não verem
Os homens que viraram porcos na sua frente.

The Garbos and Dietrichs

Moving like a dream through Ibiza
through midnight cities of the world
buying dreams of men/and their hearts
to hang at dressing tables, how many ornaments
to wear for dinner, or selfish supper parties —

this sin does not show by candlelight, their children
do not hear that cry in the night, odd pregnancies
abortions are not counted, smashed faces
wrenched hearts left behind at harborside
when their ships pull out.

I speak of suicides, men dropped at tide.
I speak of sleeping pills that still our aching mind.
I speak of lovers they murdered because they are so kind.
Anything to stay beautiful and remain blind
To those men they turn into swine.

§

 

Ato nº 2

para Marlene Dietrich

Levei o amor para casa comigo,
nós picamos noite adentro e
afundamos num clarão ardente.

¼ grão de amor
………………………..que tínhamos,
2 homens numa cama de campanha, uma manta
de seda e um pano verde
cobrindo o abajur.
………………………..A música era perfeita.
Chupei ele que nem uma sinfonia
…………..que flutuava e
………………………..ele desceu
a rua comigo e
………………………..me deixou ali.
3 da manhã. Nenhum sinal.

só uma van subindo
a Van Ness Avenue.

Nunca foi assim na Foster’s.

Vou caminhar para casa, subindo
……………os mesmos morros que
………………………..descemos.
Ele nunca vai voltar,
……………não vai ter cavalo
……………amanhã nem beque
………………………..hoje para fumar até o amanhecer.

Ele foi embora e levou
minha morfina
Oh Johnny. Mulheres na
noite gemem o seu nome

Act #2

for Marlene Dietrich

I took love home with me,
we fixed in the night and
sank into a stinging flash.

¼ grain of love
………………………..we had,
2 men on a cot, a silk
cover and a green cloth
over the lamp.
………………………..The music was just right.
I blew him like a symphony,
……………it floated and
………………………..he took me
down the street and
………………………..left me here.
3 AM. No sign.

only a moving van
up Van Ness Avenue.

Foster’s was never like this.

I’ll walk home, up the
……………same hills we
………………………..came down.
He’ll never come back,
……………there’ll be no horse
……………tomorrow nor pot
………………………..tonight to smoke till dawn.

He’s gone and taken
my morphine with him
Oh Johnny. Women in
the night moan yr. name

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poesia

Caio Augusto Leite (1993-)

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Caio Augusto Leite nasceu em São Paulo em 1993. Mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP). Integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne. Tem dois livros publicados: Samba no escuro (2013, Scortecci) e A repetição dos pães (2017, Editora 7Letras). Além do livro de contos Terra trêmula, no prelo.

* * *

I.
Nesse silêncio de frutas
Ainda sem verão
Sinto a próxima chuva
Pelo cheiro que a terra emana
Pela secura da terra selvagem
Das flores ainda fechadas
Das flores sem flores ainda
A lembrança de outros verões
Mais turbulentos
A nenhuma saudade de um dezembro
Antigo como a fome de querer ter tudo
De ser tudo e como dói pouco não ter
Não ser e não estar chovendo
Para que eu assim mesmo me alegre
Como os melões e as uvas áridas
Pois trazem dentro a água futura
A mesma de sempre e renovada
Em ácidas e doces suculências
Nas sementes secretas
Nos pátios de linóleo manchados
De sumo roxo e o coração em ritmo
Suave e flexível batendo cabendo
No que a vida dá e que colho não depois
Não como antes mas já nessa umidade
Prevista entre os dedos a unidade
Do universo em meu nome e antes dele
No sal do deserto a partilha se faz
Como se nunca não se fizesse
O pra sempre é aqui já nesse momento:
Primitivo, derradeiro
II.

os dias que amanhecem tristes
nada têm de tristes são
os sentidos que pousam
como pássaros na árvore
nada tem de pássaro a árvore
no entanto pensamos neles
quando vemos florestas
e quando crianças desenhamos
pássaros pousados começamos
pela árvore nunca pelo pássaro.

III.
as mãos se relacionam
e se amam ou se odeiam
quanto mais ou menos
se enxergam

quanto mais ou menos
se entregam ao mistério
além das próprias semelhanças
além das unhas e dos dedos

quanto mais ou menos
inauguram gestos concretos
entre si amenos e pacíficos
cheios de alegria

se odeiam ou se amam
quanto mais ou menos
se unem para a falácia
das sombras projetadas na parede
sob uma luz triste e fraca
uma imagem fixa e falsa

as mãos se amam ou se odeiam
quanto mais ou menos
se procuram no escuro
e se iluminam de dentro pra fora

se amam ou se odeiam
quanto mais ou menos
deixam de caçar passados
e tatear futuros

quanto mais ou menos
perfuram o agora

as mãos se odeiam
quanto mais se odeiam
em vício, tristeza
e servidão

as mãos se amam
quanto mais se amam
e alegres dançam
leves aves libertas

IV.
os poetas trapaceiam
passeiam entre trapos
inventam tramas e vendem
livros cheios de arabescos
fingem que são outros
mas lá dentro onde um homem
se olha no lago e se afoga
ali na linha de uma costura
que antes de longe nem parecia
pendurados na paredes
se ocultam óbvios na tapeçaria

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xanto

XANTO|Poesia brasileira, livros da década: partes III e IV

uma casa para conter o caos
dez anos de poesia brasileira
[2008 – 2018]

Partes III & IV

Como anunciado e começado ontem, seguimos hoje com a série de livros escolhidos pelo professor Gustavo Silveira Ribeiro. A quem não tenha visto o post anterior, vale reforçar o anúncio: os livros não estão aqui numa numeração qualitativa de lista; o projeto aqui não é esgotar o interesse da poesia brasileira, por isso mesmo os livros foram aqui escolhidos por múltiplos critérios.

* * *

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III. saber contido em seu ser-de-céu
Roça Barroca
2011 – CosacNaify
Josely Vianna Baptista
[Curitiba – 1957]

Composto por poemas que flutuam entre a dicção popular e a experimentação de vanguarda, e também por traduções de cantos sagrados indígenas, pequenos ensaios e notas explicativas, Roça barroca é um livro múltiplo e inclassificável, verdadeiro amálgama de tradições e linguagens que vai, em oscilação permanente, da ciência à arte, do discurso antropológico moderno à imaginação poética arcaica, do mundo social agrário e interiorano (a roça) ao universo estético – ibero-americano, fundamentalmente – dos volteios e dos excessos (o Barroco). Sua natureza compósita revela o que há no projeto de estranhamento e desejo de travessia. No livro, a tradição ocidental, descentrada, convive com outros entendimentos sobre a linguagem e a poesia, colocando em suspenso, continuamente, o sentido da escrita e da atividade poética, que ora é registro de palavras, sons e mitos ameaçados (pelo extermínio, pelo esquecimento, pela invisibilidade), em dimensão etnográfica imediata, ora é construção de uma nova língua e de novas formas expressivas – contaminadas por certo sopro épico e coletivo, que deixa ver ainda a busca por modos outros de inscrição poética da subjetividade, assentada agora na deslocamento do olhar individual e na renúncia ao passado pessoal como fonte privilegiada de conhecimento e emoção lírica. A presença da língua e dos mitos Mbyá-Guarani dá ao volume um caráter de “viagem sem rumo/e sem fim” em direção ao passado e às origens, ao abrir uma dobra na História e inserir nela a perspectiva dos povos nômades e sem escrita, cuja visão de mundo convive, desse modo, em pé de igualdade com os valores e mitos dos inícios do Ocidente. Esse processo de hibridação cancela certezas metafísicas e instala o leitor num campo de especulação aberto, que se prolonga para várias direções possíveis. Em todos os poemas que compõem Roça barroca, mesmo nos que não se alimentam diretamente dos ritos e falas ameríndias, há como que um ponto de fuga, um modo dissolvente de composição que estranha as formas poéticas e o próprio uso convencional da língua portuguesa, tocadas ambas por um saber transcultural e babélico, próprio das “l i n h a s o b l í q u a s” tão caras ao imaginário geral que atravessa o livro, marcado pela espontaneidade de contornos das plantas, pela sinuosidade dos rios, pela matéria amorfa do barro e pelos ziguezagues de bichos e homens através do campo aberto, sem pouso ou destino certo – distantes, nesse sentido, da racionalidade, do passo objetivo, dos ordenamentos funcionais do mundo urbano e industrial (e seus correlatos literários). Se a poesia de Josely Vianna Baptista sempre ocupou posição singular na lírica brasileira, seja pelo diálogo bastante original que teceu com o legado da Poesia Concreta desde o seu primeiro livro, Ar (1991), seja pelo seu convívio prolongado com tradições latino-americanas pouco comuns no país, a partir do projeto levado a cabo nessa Roça Barroca (e que não se sabe que desdobramentos terá, pois a autora ainda não deu ao público outro livro de poemas) a poeta inventa para si uma trilha particular, percurso muito próprio por caminhos pouco ou nada conhecidos pela poesia de língua portuguesa.

*

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IV. estrela de contrabando no bolso
Trans
2011 – CosacNaify
Age de Carvalho
[Belém – 1958]

Age de Carvalho é poeta da forma mínima, da palavra revirada ao avesso, plurissignificante, da língua fraturada e babélica, da consciência poética levada quase às últimas consequências, para quem qualquer letra, traço, sinal diminuto no papel (ou ainda a mancha gráfica do poema, vista como dado significativo da composição) importam tanto quanto uma estrofe inteira, uma frase completa e grandiloquente, todo um aparato retórico. Seu verso curto e preciso abriga, o mais das vezes, uma sintaxe que se torce, um esforço de voltas e negaceios que nos instala num território que se poderia chamar, ao mesmo tempo, neobarroco e minimalista, se admitimos o evidente paradoxo. Dentre os poetas brasileiros do presente, Age talvez seja aquele que melhor deglutiu e meditou dois autores decisivos do século: Paul Celan, quase sempre à beira do silêncio, e Haroldo de Campos, em especial a porção final de sua obra, a poesia pós-utópica que se espalha entre A educação dos cinco sentidos [1985] e Entremilênios [2009, póstumo], construindo, em diálogo com essas duas referências tão distintas, poemas graves e reflexivos, poemas-prece nos quais a visualidade ocupa ainda lugar decisivo, sem no entanto deixar-se fixar na forma estandartizada da poesia concreta, preferindo a fragmentação atomizada da palavra, que se escande na página letra a letra, ponto a ponto. Poeta do exílio e da passagem (cujos poemas flutuam tensamente entre países, tempos, línguas e culturas), Age de Carvalho consolida em Trans a dimensão anfíbia que sua poesia buscava há muito, desde, pelo menos, Areia, arena (1986), livro no qual se aproximavam, ainda de modo incipiente, a pedra e o céu, o chão e o espírito, elementos fundamentais para o poeta nos volumes que virão – Pedra-Um (1990), Caveira 41 (2003), Ainda: em viagem (2015) e, pelo que indicam os inéditos já divulgados, o livro por vir De-estar – entrestrelas. Profundamente assentados na matéria do mundo (povoam os seus versos, essenciais a eles, plantas, paisagens, ossos e outras formas minerais, além de inúmeros corpos humanos), os poema de Trans apontam também para o transcendente, para tudo aquilo que, na vida, é fresta para o sublime e o sagrado: a perscrutação das origens, o sexo, a morte, a persistência da vida na sucessão das gerações, a arte. Imagem muito frequente no livro e em seus trabalhos mais recentes, as estrelas indicam o desejo expansivo dessa poesia, que parece recordar aos homens a sua dimensão cósmica e elevada – atenta às coisas da terra, incontornavelmente, mas jamais desligada do mistério insondável que nos cerca, cobre e constitui.

* * *

O que ainda virá:

nenhum poema é mais difícil do que sua época
Monodrama
2009 – 7Letras
Carlito Azevedo
[Rio de Janeiro/RJ – 1961]

§

o que quer que o meu corpo escreva
Modelos vivos
2010 – Editora Crisálida
Ricardo Aleixo
[Belo Horizonte – 1960]

§

lamber o mundo com a própria língua
Ciclo do amante substituível
2012 – 7Letras
Ricardo Domeneck
[Bebedouro – 1977]

§

aqui a luz faz o contrário de iluminar
Um teste de resistores
2014 – 7Letras
Marília Garcia
[Rio de Janeiro – 1979]

§

um acordo tácito com as coisas vivas
O livro das semelhanças
2015 – Companhia das Letras
Ana Martins Marques
[Belo Horizonte – 1977]

§

pedra angular dos sem palavra
Qvasi
2017 – 34
Edimilson de Almeida Pereira
[Juiz de Fora – 1963]

§

nesta ausência de distinção entre nós
Trilha
2015 – Azougue Editorial
Leonardo Fróes
[Itaperuna – 1941]

§

a noite explode nas cidades
Vinagre: uma antologia de poetas neobarracos
2013 – Os vândalos
Fabiano Calixto & Pedro Tostes (org.)
[Garanhuns – 1972
Rio de Janeiro – 1981]

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tradução

1 poema de Anne Boyer por Isabella Martino

Anne Boyer

Anne Boyer (nascida em 1973) já apareceu aqui antes na escamandro, em tradução de Rafael Mantovani (clique aqui). O poema abaixo pertence a um de seus principais livros: “Garments Against Women” (2015), uma obra híbrida que passa pelo ensaio poético, poemas em prosa e narrativos. Uma poeta que encara o problema filosófico e material de escrever e, em extensão, de sobreviver nesse mundo contemporâneo, em uma entrevista para a Poetry Foundation, ela declara: “Eu gostaria de descobrir algum jeito de viver que fosse mais do que só informação. Eu gostaria de descobrir algum jeito de escrever aquilo que necessitamos sem que se transformasse em pornografia ou algo muito particular. Gostaria de escrever que estamos alienados, inseguros, que o nosso próximo mês é tão regularmente pior do mês vigente. Há muitas coisas em comum para muitos de nós, são essas coisas difíceis e comuns da vida que nenhuma exibição algorítmica de afeto pode suavizar.”

Isabella Martino nasceu em São Paulo, 1988, é poeta, pesquisadora e tradutora.

* * *

Não estou escrevendo
Quando não estou escrevendo eu não estou escrevendo um romance chamado 1994 sobre uma jovem
mulher de uma cidade provinciana que tem um emprego em um centro empresarial recortando e
colando o tempo. Não estou escrevendo um romance chamado Nero sobre a
artista-estrela no espaço. Não estou escrevendo um livro chamado A Melancolia de Kansas City. Não estou escrevendo a continuação de A Melancolia de Kansas City chamada Maldoror das Putas. Não estou
escrevendo um livro de filosofia política chamado Questões para Poetas. Não estou
escrevendo memórias escandalosas. Não estou escrevendo um livro de memórias patético. Não estou
escrevendo memórias sobre poesia ou amor. Não estou escrevendo memórias de
pobreza, cobrança de dívidas ou bancarrota. Não estou escrevendo sobre a vara
de família. Eu não estou escrevendo memórias porque memórias são para os proprietários
e nem estou escrevendo memórias sobre proibições de memórias.

Quando não estou escrevendo memórias eu também não estou escrevendo poesia de qualquer tipo
nem poemas contemporâneos em prosa ou de outra forma, nem poemas em fragmentos,
nem poemas apertados ou compactos, nem afrouxados ou conversacionais,
nem poemas conceituais, nem poemas virtuosísticos empregando muitos tipos diferentes
de dispositivos eufônicos, nem poemas com epifanias e nem
poemas sem epifanias, nem poemas documentais sobre os últimos momentos políticos,
nem poemas carregados de alusões à teoria crítica e música popular.

Eu não estou escrevendo “Estação Atocha” por Anne Boyer e certamente
não estou escrevendo “Nadja” por Anne Boyer, no entanto, gostaria de escrever “Dívida”
por Anne Boyer, no entanto, eu também não estou escrevendo “A Ideologia Alemã” por
Anne Boyer e nem escrevendo um roteiro chamado “Espartaquistas”.

Não estou escrevendo considerações a meu respeito mais miseráveis que as de Rousseau.
Não estou escrevendo considerações mais inocentes que as de Blake.

Não estou escrevendo poesia épica apesar de gostar do que Milton disse sobre poetas líricos
beberem vinho enquanto poetas épicos devessem beber água em uma tigela de madeira.
Eu gostaria de beber vinho em uma tigela de madeira, ou beber água
direto de uma garrafa vazia de vinho.

Eu não estou escrevendo um livro sobre compras, o que é uma mulher fazendo compras.
Eu não estou escrevendo relatos de sonhos meus ou de qualquer outra pessoa.
Eu não estou escrevendo reconstituições históricas de nenhuma literatura duracional.

Eu não estou escrevendo coisa alguma que alguém me tenha pedido ou que esteja esperando,
nem um ensaio poético ou qualquer tipo de ensaio, nem uma resposta de mesa redonda,
nem respostas de entrevistas, nem escrevendo motes para que escritores mais jovens desenvolvam,
nem meus pensamentos sobre crítica literária ou canções populares.

Eu não estou escrevendo uma nova constituição para a república de nenhuma história.
Eu não estou escrevendo um testamento ou um boletim médico.

Não estou escrevendo posts no Facebook. Não estou escrevendo notas de agradecimento ou de desculpas.
Não estou escrevendo anais de conferência. Não estou escrevendo
resenhas de livros. Não estou escrevendo sinopses.

Eu não estou escrevendo sobre arte contemporânea. Eu não estou escrevendo relatos das
minhas viagens. Eu não estou escrevendo resenhas para a “The New Inquiry” e nem
artigos para a “Triple Canopy” e nem escrevendo para a “Fence”. Não estou
escrevendo anotações diárias das minhas leituras, atividades e ideias. Não estou
escrevendo ficções científicas sobre o problema da ideia de autonomia
na arte e nem ficções científicas problematizando uma sociedade
com apenas uma lei que é o consentimento. Eu não estou escrevendo histórias baseadas

nas ideias de histórias não escritas por Nathaniel Hawthorne. Não estou escrevendo perfis
para sites de relacionamento. Não estou escrevendo comunicados anônimos. Não estou escrevendo
livros didáticos.

Eu não estou escrevendo a história desses tempos ou dos tempos passados ou de tempo futuro algum
e nem mesmo a história dessas visões que estão comigo os dias todos
e as noites todas.

§

 

Not Writing

When I am not writing I am not writing a novel called 1994 about a young
woman in an office park in a provincial town who has a job cutting and
pasting time. I am not writing a novel called Nero about the world’s richest
art star in space. I am not writing a book called Kansas City Spleen. I am
not writing a sequel to Kansas City Spleen called Bitch’s Maldoror. I am not
writing a book of political philosophy called Questions for Poets. I am not
writing a scandalous memoir. I am not writing a pathetic memoir. I am not
writing a memoir about poetry or love. I am not writing a memoir about
poverty, debt collection, or bankruptcy. I am not writing about family
court. I am not writing a memoir because memoirs are for property owners
and not writing a memoir about prohibitions of memoirs.

When I am not writing a memoir I am also not writing any kind of poetry,
not prose poems contemporary or otherwise, not poems made of frag-
ments, not tightened and compressed poems, not loosened and conversa-
tional poems, not conceptual poems, not virtuosic poems employing many
different types of euphonious devices, not poems with epiphanies and not
poems without, not documentary poems about recent political moments,
not poems heavy with allusions to critical theory and popular song.

I am not writing “Leaving the Atocha Station” by Anne Boyer and certain-
ly not writing “Nadja” by Anne Boyer though would like to write “Debt”
by Anne Boyer though am not writing also “The German Ideology” by
Anne Boyer and not writing a screenplay called “Sparticists.”

I am not writing an account of myself more miserable than Rousseau.
I am not writing an account of myself more innocent than Blake.

I am not writing epic poetry although I like what Milton said about lyric
poets drinking wine while epic poets should drink water from a wooden
bowl. I would like to drink wine from a wooden bowl or to drink water
from an emptied bottle of wine.

I am not writing a book about shopping, which is a woman shopping.
I am not writing accounts of dreams, not my own or anyone else’s.
I am not writing historical re-enactments of any durational literature.

I am not writing anything that anyone has requested of me or is waiting
on, not a poetics essay or any other sort of essay, not a roundtable re-
sponse, not interview responses, not writing prompts for younger writers,
not my thoughts about critical theory or popular songs.

I am not writing a new constitution for the republic of no history.
I am not writing a will or a medical report.

I am not writing Facebook status updates. I am not writing thank-you
notes or apologies. I am not writing conference papers. I am not writing
book reviews. I am not writing blurbs.

I am not writing about contemporary art. I am not writing accounts of
my travels. I am not writing reviews for The New Inquiry and not writ-
ing pieces for Triple Canopy and not writing anything for Fence. I am not
writing a daily accounting of my reading, activities, and ideas. I am not
writing science fiction novels about the problem of the idea of the au-
tonomy of art and science fiction novels about the problem of a society
with only one law which is consent. I am not writing stories based on

Nathaniel Hawthorne’s unwritten story ideas. I am not writing online dat-
ing profiles. I am not writing anonymous communiqués. I am not writing
textbooks.

I am not writing a history of these times or of past times or of any future
times and not even the history of these visions which are with me all day
and all of the night.

Padrão
tradução

Luís Omar Cáceres (1904-1943)

Omar_Caceres_(1926)

Luis Omar Cáceres foi uma figura excêntrica na literatura de vanguarda chilena. “Tinha uma maneira estranha de recitar, de pronunciar as palavras, quase que as saboreando, degustando-as”, diz Miguel Serrano, “E a aura angustiosa que o rodeava era tão impenetrável e irrespirável como os espaços gélidos do cosmos. Estava envolto em uma atmosfera de morte e solidão total. Seu drama se podia adivinhar em seus poemas; porque havia alcançado ali onde a vida humana já não encontra seu oxigênio habitual e presencia outros universos, arrebatando a alma e a destruindo, congelando-a e a desabilitando de toda convivência humana.”

Nascido na comuna de Cauquenes, no dia 5 de julho de 1904, Omar Cáceres foi um poeta chileno e uma das referências do vanguardismo latino-americano no Chile. Seu modo de vida e sua morte misteriosa pincelaram sobre ele um retrato de “poeta maldito”. Filho de pais professores, estudou direito em 1922, mas não chegou a concluir o curso. De aspecto taciturno e distante, começou, já nos anos 1920, a se aproximar do ambiente artístico que lhe era contemporâneo, dedicando-se, inicialmente, à crítica literária. Na época, chegou a perder seu emprego como secretário de um juiz por ter se vinculado ao Partido Comunista, chegando a se pré-candidatar como deputado.

Em 1931, teve três poemas seus incluídos na famosa antologia “La poesía chilena moderna”, de Rubén Azócar. Publicou somente um livro em vida, Defensa del ídolo, em 1934, que causou grande rebuliço. Tem um prólogo escrito por Vicente Huidobro, o único prólogo escrito por ele. O livro continha diversos erros, e enfurecido pela extensa errata, Omar Cáceres reuniu todos que conseguiu e os queimou. Os exemplares sobreviventes foram poucos, mas serviram para as reedições posteriores da obra. Nesse mesmo ano funda, junto a Vicente Huidobro e Eduardo Anguita, a revista Vital/Ombligo.

No ano seguinte, foi incluído na “Antología de poesía chilena nueva”, na qual teve uma pequena prosa publicada, intitulada “Eu, velhas e novas palavras” (“yo, viejas e nuevas palavras”; no original), sendo este seu único texto de prosa conhecido, mesmo que ainda houvesse notícias de que havia trabalhado em um livro de contos e numa biografia do seu antigo patrão, o juiz Eliodoro Astorquiza.

Em seus últimos anos de vida, Cáceres deixou de conviver com a maioria dos escritores que havia conhecido. Uns chegaram a pensar que havia sucumbido à loucura, outros que havia ido viver em alguns lugares subdesenvolvidos e abandonados.

Seu corpo foi encontrado numa vala, na primeira semana de setembro de 1943, na comuna de Renca, com a cabeça podre e os bolsos vazios. Pensaram que se tratava de um assassinato ou suicídio, mas até hoje não se sabe de que forma ele veio a falecer.

Abaixo, 4 poemas seus presentes na plaquete “Âncoras Opostas”, publicada pela munganga edições.

Victor H. Azevedo

* * *

 

YO, VIEJAS Y NUEVAS PALABRAS
“No debiera escribir esto, desde que todo queda dicho, o no, en cada uno de los poemas, y en cada una de sus palabras.
Se trata de una selección de mis primeros trabajos, selección que el tiempo y una mayor conciencia literaria han ido restringien-do; y que, demasiado solo para oponerme a la impura diversidad del mundo, no pude publicar con la acentuada y natural distribución de su orden cronológico.
Así he vivido.
Mi actitud no es, sin embargo, la de un nihilista, la de un ególatra o la de un deshumanizante…
No.
Es la de aquel que fue demasiado lejos en el corazón de los hombres y en su propio corazón; la de aquel orgulloso de las soberbias esperanzas que, de súbito, creyendo disponer del universo en una enumeración insólita, tropieza, en cambio, con la omnipresencia lacerada de su yo, mientras un índice de revelación señala esa fijeza con su fuego individual.
He ahí mi pavoroso problema.
Aquellos que han amado mucho, y que han meditado en el PORQUE de su sufrir al perder para siempre lo que amaron, esos tendrán que comprenderme.
No he escrito, pues, como se lo dije un día a un poeta, “llevad del afán de HACER LITERATURA, achaque tan común en nuestra tierra, sino obedeciendo a irresistibles impulsos; a la necesidad, más bien, de definir por medio de la expresión de mis estados interiores la VERDADERA situación de mi yo en el espacio y en el tiempo”…
Una nueva modalidad ético-estética debe alcanzar, necesariamente, aquel que parte en línea extrema de si mismo.
No pretendo haber alcanzado ni alcanzar tan soberano éxito.
Hay, lo sé, en estos poemas, influencias que aun los condicionan a aquello que tan arbitrariamente han dado en llamar “el fondo y la forma”.
Las hay, sobre todo, de estas últimas. Dos o tres poemas.
No obstante, a través de su presencia excepcional, el espíritu se recupera en cada página.
Y eso es lo que me interesa.
Sé, por fin, que lo que digo ya está dicho; mis palabras sólo me pertenecen.
Pero, después de todo, mi grande emoción, la trágica experiencia de mi espíritu, son auténticas.
Y ése es el punto de partida desde el cual y a través de esfuerzos mejores, los jóvenes que verdaderamente odiamos, el pasado y el presente, a fuerza de amar el porvenir, lograremos, si no alcanzar, por lo menos preparar, aquel vasto equilibrio que habrá de liberar a la humanidad, haciéndola revelarse a si misma en su esencia más íntima.”

EU, VELHAS E NOVAS PALAVRAS

“Não deveria escrever isto, desde que tudo fica dito, ou não, em cada um dos poemas, e em cada uma de suas palavras.
Trata-se de uma seleção dos meus primeiros trabalhos, seleção que o tempo e uma maior consciência literária foram restringindo; e que, demasiado só para me opor à impura diversidade do mundo, não posso publicar com a acentuada e natural distribuição de sua ordem cronológica.
Assim vivi.
Minha atitude não é, entretanto, a de um niilista, a de um ególatra ou a de um desumanizante…
Não.
É daquele que foi demasiado longe no coração dos homens e em seu próprio coração; daquele orgulhoso das esperanças soberbas que, de súbito, crendo dispor do universo em uma insólita enumeração, tropeça, em troca, com a onipresença lacerada do seu eu, enquanto um índice de revelações sinaliza essa firmeza com seu fogo individual.
Aí está meu pavoroso problema.
Aqueles que amaram muito, e que meditaram sobre o PORQUÊ de sofrer ao perder para sempre o que amaram, esses terão que me compreender.
Não escrevi, então, como foi dito um dia a um poeta, “levado pelo afã de FAZER LITERATURA, moléstia tão comum na nossa terra, mas obedecendo a irresistíveis impulsos; à necessidade de definir, por meio da expressão dos meus estados interiores, a VERDADEIRA situação do meu eu no espaço e no tempo” …
Uma nova modalidade ético-estética deve alcançar, necessariamente, aquele que parte na linha extrema de si mesmo.
Não pretendo ter alcançado nem tentar tão soberano êxito.
Há, eu sei, nestes poemas, influências que ainda os condicionam àquele que tão arbitrariamente é dado a ser chamado de “o fundo e a forma”.
Existem, sobretudo, por meio destas últimas. Dois ou três poemas.
Não obstante, através da sua presença excepcional, o espírito se recupera em cada página.
E isso é o que me interessa.
Sei, por fim, o que eu disse está dito; minhas palavras só a mim pertencem.
Mas, depois de tudo, a minha grande emoção e a trágica experiência do meu espírito são autênticas.
E esse é o ponto de partida desde o qual, e por meio de esforços melhores, os jovens que verdadeiramente odiamos, o passado e o presente, a força de amar o porvir, lograremos, se não alcançar, pelo menos preparar aquele vasto equilíbrio que haverá de libertar a humanidade, fazendo-a revelar-se a si em sua essência mais íntima.”

§

ANCLAS OPUESTAS
Ahora que el camino ha muerto,
y que nuestro automóvil reflejo lame su fantasma,
con su lengua atónita,
arrancando bruscamente la venda del sueño
de las súbitas, esdrújulas moradas,
hollando el helado camino de las ánimas,
enderezando el tiempo y las colinas, igualándolo todo,
con su paso acostado;
como si girásemos vertiginosamente en la espiral de nosotros mismos,
cada uno de nosotros se siente solo, estrechamente solo,
oh, amigos infinitos.

(100, 200, 300,
miles de kilómetros, tal vez).
El motor se aísla.
La vida pasa.
La eternidad se agacha, se prepara,
recoge el abanico que del nuevo aire le regala nuestra marcha;
en tanto que enterrado su osamenta de kilómetros y kilómetros,
los cilindros de nuestro auto depáranse a la zona de nuestros propios muertos;
he ahí los antiguos héroes dirigiéndonos sus sonrisas de altivos y próximos espejos;
mas, junto a ellos, también resiéntense,
los rostros de nuestros amigos,
los de nuestros enemigos,
y los de todos los hombres desaparecidos;
nuestro automóvil les limpia el olvido con el roce delirante de sus hálitos.

Como esas manos de mármol que se saludan a la entrada de las tumbas,
nuestro automóvil seráfico ratifica el gran pacto,
que a ambos lados de la ruta, conjuradas,
atestiguan las súbitas, esdrújulas viviendas golpeándose entre sí…

Ahora que el camino ha muerto,
y que nuestro automóvil reflejo lame su fantasma,
con su lengua atónita,
como si girásemos vertiginosamente en la espiral de nosotros mismos,
cada uno de nosotros se siente solo, indescriptiblemente solo,
oh amigos infinitos!

ÂNCORAS OPOSTAS

Agora que o caminho está morto,
e que o reflexo do nosso automóvel lambe seu fantasma,
com sua língua atônita,
arrancando bruscamente a venda do sono
das súbitas, esdrúxulas moradas,
pisando sobre o gelado caminho dos ânimos,
endereçando o tempo e as colinas, igualando tudo,
com seu passo acamado;
como se girássemos vertiginosamente na espiral de nós mesmos,
cada um de nós se sente só, estreitamente só,
ó, amigos infinitos.

(100, 200, 300,
milhares de quilômetros, talvez.)
O motor se isola.
A vida passa.
A eternidade se agacha, se prepara,
recolhe o leque que do novo ar dá nossa marcha;
como se estivesse enterrada sua ossada de quilômetros e quilômetros,
os cilindros do nosso carro deparam-se com a zona dos nossos próprios mortos;
aqui estão os antigos heróis nos dirigindo seus sorrisos de altivos e próximos espelhos;
mas, junto a eles, também resistem,
os rostos dos nossos amigos,
os dos nossos inimigos,
e os de todos os homens desaparecidos;
nosso automóvel os limpa do esquecimento com o roçar delirante dos seus hálitos.

Como essas mãos de mármore que se saúdam na entrada das tumbas,
nosso automóvel seráfico ratifica o grande pacto,
que ambos os lados da rota, conjurados,
testemunham as súbitas, esdrúxulas vivendas golpeando-se entre si…

Agora que o caminho está morto,
e que o reflexo do nosso automóvel lambe seu fantasma,
com sua língua atônita,
como se girássemos vertiginosamente na espiral de nós mesmos,
cada um de nós se sente só, indescritivelmente só,
ó, amigos infinitos!

§

AZUL DESHABITADO
Y, ahora, recordando mi antiguo ser, los lugares que yo he habitado,
y que aún ostentan mis sagrados pensamientos,
comprendo que el sentido, el ruego con que toda soledad extraña nos sorprende
no es más que la evidencia que de la tristeza humana queda.

O, también, la luz de aquél que rompe su seguridad, su consecutiv’atmósfera,
para sentir cómo, al retornar, todo su ser estalla dentro de un gran número,
y saber que “aún” existe, que “aún” alienta y empobrece pasos en la tierra,
Pero quién está ahí absorto, igual sin dirección,
solitario como una montaña, diciendo la palabra entonces:
de modo que ningún hombre puede consolar al que así sufre:
lo que’ él busca, aquéllos por quienes él ahora llora,
lo que ama, se ha ido también lejos, alcanzándose.

AZUL DESABITADO

E, agora, recordando meu antigo ser, os lugares que habitei,
e que ainda ostentam meus sagrados pensamentos,
compreendo que o sentido, a prece com que toda solidão estranha nos surpreende
não é mais do que a evidência de que a tristeza humana permanece.

Ou, também, a luz daquele que rompe sua segurança, sua consecutiva’ tmosfera,
para sentir como, ao retornar, todo seu ser estoura dentro de um grande número,
e saber que “ainda” existe, que “ainda” alenta e empobrece passos na terra,
mas quem está ali absorto, igual, sem direção,
solitário como uma montanha dizendo a palavra então:
de modo que nenhum homem pode consolar o que assim sofre:
o qu’ele busca, aqueles por quem ele agora chora,
o que ama, partiu também para longe, alcançando-se!

§

CANCIÓN AL PRÓFUGO
Golpeando l’aguda meta con su escudo monótono, hay,
desde que te fuiste, diez almas en tu porte;
rompe ese cielo inmediato, lineal, para que se junte tu vida
y dame, oh prófugo, el último oasis de ese viaje, tus pasos
desnudos por el camino único y el sol cerrado
que lava la pena de esa tierra sabia, tu frente ácida, dame
el solo sentido que ahí existe para hablar
y estaremos juntos SIEM-
pre!

CANÇÃO AO FUGITIVO

Golpeando a aguda meta com seu escudo monótono, há,
desde que foste, dez almas em teu porte;
rompe este céu imediato, linear, para que se junte tua vida
e dai-me, ó fugitivo, o último oásis dessa viagem, teus passos
descalços pelo caminho único e o sol fechado
que lava a pena dessa terra sábia, tua fronte ácida, dai-me
o sentido sozinho que aqui existe para falar
e estaremos juntos SEM-
pre!

Padrão
poesia

Viviane Nogueira (1995-)

VivianeNogueira

Viviane Nogueira tem 24 anos, paulistana crescida no interior. É poeta e graduanda em Psicologia no Instituto de Psicologia da USP. É mediadora do clube de leitura Leia Mulheres Osasco. Em 2018, participou do Curso Livre de Preparação do Escritor (CLIPE), na Casa das Rosas. É autora da plaquete Onde estão os holofotes da tragédia (2018, ilustrações de Steffano Lucchini) e do livro Uma casa se amarra pelo teto (Edições Macondo, 2019).

* * *

[A ORDEM DA QUAL FALAM OS MONGES OU A
ORGANICIDADE DOS MOVIMENTOS NO TAI CHI]

a cabeça recai no vidro da janela
as pálpebras do ônibus derrubadas
a palma da mão afundada na face do poema
a folha em branco no caderno
os livros fechados na mochila úmida
a mão afundada nos olhos bem abertos
…………você não sabe onde esteve
…………você não sabe onde está
o ronco do motor os passageiros calados
um homem se levanta no ponto errado do percurso
…………você não diz nada
o céu noturno em luto e a lua a esconder os olhos também
ouvem-se gritos os cães latem sem parar
um gato repousa na cama do quarto de visitas
você pôde ouvir os freios mas
…………o silêncio não era bem uma escolha

§

 

os dedos vacilantes na inércia
estar vivo ou
……………………estar aqui
um quadro negro elétrico pisca e
os números ficam inacessíveis no portão de entrada
os caminhos todos em
vida que segue
……………………nothing changes
os carros continuam a dar partida e
os corpos não se prostram a nenhuma cena
as faces miram à espera de
e a água torna a escorrer da torneira na lavanderia
tudo corre em câmera lenta
as páginas do jornal de ontem sendo viradas
notícias lado a lado à crème brûlée
o sempre um ininterrupto entre os passos
uma paisagem que não nos diz nada
e ainda
um silêncio não se produz

§

 

[UM GALHO BROTA DA GARGANTA DE UM
HOMEM OU UMA LANÇA ARREMATA-ME O PEITO]

todas a horas são horas de viver
e todos os cantos são cantos de
uma sala vazia
não existe parede onde
samambaias possam se apoiar
o sol repousa atrás de um vento
e na estrada que sobe a cuesta
todos os carros correm
……………………………..bem devagar
………………just do it
………………don’t let your dreams
………………be dreams
na boca a eloquência é o silêncio
e o percurso é o do caos
uma mão se enrosca em novelo
enquanto busca o caminho nas
ondas breves da voz
que promete
olhe as vigas no céu
e a estrutura das tartarugas
feitas de nuvem
no em cima de mim tudo é feito de aço
e concreto
as formas geométricas do amor ou
a matemática do um mais um
igual a zero

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