poesia

1 poema inédito de Leila Danziger

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LEILA DANZIGER é Artista plástica, poeta e professora do Instituto de Artes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) desde 2006, pesquisadora (CNPq e Faperj).

* * *

 

OZ NA CINELÂNDIA

No dia em que comemorava
vinte e cinco anos
meu pai perdeu
seu pai.

………………………….Na manhã
em que faria noventa
e sete no jornal
a manchete –

Amos Oz, Israeli Literary Giant, Dies at 79

e não
…………….não há nexo algum
apenas relutância
em aceitar
a morte –

ao anoitecer
da sexta-feira
rezo

……………de pé
numa livraria
onde entro ao acaso
e leio um poema
de Yehuda Amichai
sobre seu pai
que rezava
…………….imóvel, obrigando Deus a oscilar
…………….como junco e rezar a meu pai
que tenho certeza
não rezava
como os personagens de Oz
tampouco rezam
ao acordar
às 5 da manhã
vestem-se com a camisa azul dos pioneiros
fazem rondas e rondas
recebem o vento do deserto
abraçam os próprios ombros
…………….como se sentissem sempre frio
cravam as sandálias na terra
e as vezes
se balançam
como o junco

ou
como as palmeiras

transplantadas
ao Brasil onde Oz esteve
três ou quatro vezes –

caminhou no Aterro? na Cinelândia?
sentou-se no Amarelinho?
talvez

próximo à mesa
em que seis monges
almoçavam em julho
ou agosto
o que me recordo
agora
neste último shabat do ano
em que os jornais noticiam –

Amós Oz morreu

sem
a paz.

Rio de janeiro, dezembro de 2018

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poesia

Marcelo Ariel (1968-)

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Marcelo Ariel no evento Literatura e(m) performance, UFPR (novembro/2017). Foto de Rodrigo Tadeu Gonçalves.

Tratado dos Anjos Afogados, livro que reuniu vinte anos de produção poética de Marcelo Ariel, completa, em 2018, dez anos de publicação. Nesse ínterim, o poeta publicou mais de uma dezena de livros de poesia, prosa e textos diversos, por editoras convencionais, artesanais e cartoneras.

Desse volume chama a atenção a seção “Vila Socó: Libertada”, conjunto de poemas que tratam de Cubatão – cidade na qual o poeta viveu grande parte de sua vida – e sua trajetória arruinada: de maior polo industrial do país a uma das cidades mais poluídas do mundo, na década de 80. Há, nesses poemas, um mosaico de imagens do caos ambiental, do descaso do estado e do fracasso do modelo desenvolvimentista, compondo uma das linhas de força da voz poética de Ariel que se faz presente em vários de seus escritos: a necessidade de falar da barbárie, da catástrofe, do horror.

O massacre dos indígenas, Canudos, Carandiru, a destruição ambiental de Cubatão, Auschwitz, a condição do negro nas periferias, Palestina, Hiroshima e Nagasaki. Guardadas as proporções e os contextos históricos, são diferentes situações nas quais pode-se perceber a capacidade destrutiva do homem e que, justamente por isso, interessam a Ariel: é preciso não esquecer e é preciso, para esse poeta, que se entenda o continuum do horror que constitui a experiência de grande parte da população mundial.

Ariel – nome artístico de Marcelo – é um arcanjo importante nas tradições hebraica e cristã, mensageiro da voz divina em alguns momentos dos relatos bíblicos e até mesmo personificação da Terra Santa em outros. Podemos pensar no Ariel de Marcelo como uma espécie de “Anjo da História”, ao modo de Walter Benjamin ao falar do Angelus Novus, de Paul Klee: o poeta, assim como o anjo da imagem, olha para o passado e vê uma única história de catástrofe que “amontoa escombros sobre escombros e os arremessa a seus pés”.

Mas, Ariel em seu gesto contemporâneo é, como nos diria Giorgio Agambem ao pensar sobre Ossip Mandelstam, aquele que mantém “fixo o olhar nos olhos do seu século-fera”, soldando “com seu sangue o dorso quebrado do tempo (…)”. O poeta (Ariel, Mandelstam) é “aquilo que impede o tempo de compor-se e, ao mesmo tempo, o sangue que deve suturar a quebra”.

A sobreposição do tempo do indivíduo e suas experiências ao tempo histórico onde se situam as experiências coletivas, e o trabalho de tentar soldá-los, suturá-los, evoca justamente a ideia de Benjamin em relação ao Anjo da história. Esse anjo olha para o passado a partir do presente e tem o desejo de “juntar os fragmentos” das ruínas que ele observa, diretamente de seu contemporâneo. Ao mesmo tempo ele tenta reagir à rajada de progresso, costurar e colar as vértebras desse tempo que o compõe e é composto por ele, simultaneamente. O poeta impede que o tempo se recomponha sem que haja uma reflexão sobre ele e é isso que vemos na poesia de Mandelstam, assim como na de Ariel, já que este sabe que a promessa do progresso é o prenúncio da miséria: “Houve um vazamento de enxofre anteontem seguido de uma chuva ácida”.

Assim, os inúmeros processos de destruição – materiais e psíquicos – aos quais somos submetidos na era do capital e da tecnologia são matéria essencial da matriz poética de Ariel. Entretanto, é importante registrar: não se trata de uma poesia preocupada em representar o real ou de tentar mimetizá-lo através da linguagem poética. A extensa e profícua obra de Marcelo Ariel é fundada sobre a consciência do quão impossível seria tentar representar e transmitir as imagens do horror.

O poeta sabe que a linguagem é, por excelência, falha. Leitor de Maurice Blanchot, de Stéphane Mallarmé, de Paul Celan, reconhece a impossibilidade efetiva das palavras de dizerem: “a linguagem se confunde com um enorme campo coberto por uma densa névoa”, nos dirão alguns de seus escritos. E nisso funda mais um de seus eixos poéticos: um intenso e profundo embate com a língua e a linguagem. E a poesia surge exatamente daí: como a possibilidade de dilatar os limites e tensionar as impossibilidades do falar. Supostamente, responde Yves Bonnefoy em um dos poemas de Ariel: “Não posso resumi-la, mas a poesia é antes de tudo um modo de lutar contra a linguagem”.

Essa compreensão sobre o não-dizível guardado em tudo que é dito – ou que almeja sê-lo – leva à construção de um universo poético repleto de imagens de sono, sonho, nuvens, vapor, névoa, onde nada é, e onde há a tentativa constante de banir paradigmas, sejam eles os conceituais, os ideais, os ontológicos, inclusive, talvez principalmente, o próprio conceito de “eu”, poético ou não: “…sempre haverá a demanda do não-eu em algum lugar de mundo nenhum”.

Contraditório? Profundamente. O próprio poeta reconhece – em entrevistas – esse aspecto e o afirma como elemento poético, enquanto força de afirmação da própria vida, contraditória por excelência, da qual sempre se pode extrair o sublime. Mesmo quando um menino fumando crack atravessa a rua ou o poema. Aliás, para Ariel, o único “opaciamento” inaceitável é contra o sublime.

Sublime este encontrado na brutalidade do cotidiano e, principalmente, no universo das artes e do pensamento.

Ariel constrói como base poética um intricado complexo de alusões e citações diretas a poetas, músicos, pintores, filósofos, pensadores, utilizando também trechos e traduções de obras, não só como epígrafe, mas como parte integrante de seus poemas.

Procedimento presente em muitos poetas contemporâneos que remonta a tradições poéticas milenares, em Ariel, o intertexto ganha outro tipo de proporção, em um intenso processo de referenciação, no qual há espaço não só para a tradição literária ocidental, como também para filósofos e escritores orientais, em meio à citação de trechos da carta de fundação do Primeiro Comando da Capital.

Forjando entrevistas com nomes importantes dentro de seu panteão pessoal, simulando diálogos impensáveis ou imaginando sonhos sonhados por outros, Marcelo Ariel arquiteta uma rede de sentidos e de não-sentido, sobrepondo sua experiência de leitor e sua voz poética, tecendo algo que ele já não deseja chamar de poesia, mas de uma forma híbrida, que trasborda o próprio verso e se converte em um arquivo labiríntico: “Por absoluta necessidade vou continuar escrevendo dentro dessa filosofia mística torta (Ver Ulpiano e Coltrane), barroco-aracniana (ver Deligny e Lezama), mestiça e infrareal (ver Bolaño e Oswald). A micropolítica da invisibilidade na cachoeira da obscuridade, como ouvi de mim mesmo num sonho”.

Há uma indefinição quanto ao entendimento do lugar ocupado pelo poeta Marcelo Ariel. Ora é possível apresentá-lo como uma voz singular que o torna isolado de seus contemporâneos, ora como um “poeta de seu tempo”, ou seja, alguém que se situa prontamente entre os seus, sem que haja uma determinação ou adesão a nenhum desses supostos extremos, configurando assim sua não-adesão.

Os poemas de Ariel não se encaixam perfeitamente em nenhum rótulo. Alguém que está aqui, hoje, tentando soldar as costelas partidas da memória de nosso processo de modernização precário e negligente, ao mesmo tempo em que transforma em matéria poética o suicídio de alguns de seus poetas preferidos. Constituindo, assim, um tensionamento de nosso discurso sobre a boa poesia brasileira e seus signatários.

A “brutalidade jardim”, resultado do embate do poeta com o horror do mundo, também compõe o olhar que se preocupa em escrever sobre a morte de grandes poetas e de traficantes; o silêncio de Paul Celan guarda semelhanças com o do menino que invade o poema enquanto fuma crack; o real das bibliotecas é tão potente quanto a realidade brutal da cidade na qual se vive.

Em Ariel, todos esses acontecimentos, cenários e “personagens” merecem um comentário através de um poema, mas sem que ele seja uma voz inflamada pela dor, pela cólera ou mesmo pelo amor, pela compaixão. Quase não há possibilidade de perceber o que sente essa voz poética em razão de sua dessubjetivação. Nós sabemos que o poeta é tocado por tudo isso pelo óbvio: a escolha em trazer como componentes de seus poemas esses temas, e dessa forma. Ou seja, pela opção de tocar com sua palavra e com sua linguagem cada um desses termos que o rodeiam através não de um relato, de um texto narrativo, mas através do texto poético, lugar onde a palavra tem a supremacia. Ariel entende essa idiossincrasia e se alinha junto de seus mestres na tentativa de empreender, ele também, uma reflexão sobre o que permite o seu trabalho: a linguagem.

Embora não seja ingênuo, a literatura é sua profissão de fé e a poesia uma promessa de mudança, devido ao fato de que entre ela e o real da vida não existe separação: “(…) há uma nítida apartação entre os poetas e a realidade suja do ‘em torno’, que é no máximo citada como cenário dos poemas e não como centro de onde eles se irradiam, que é o que tento fazer nos meus, apesar da guinada maldita para a névoa metafísica (…). A poesia entra nesse contexto como um enfrentamento do vazio proposto por estes dois projetos de seqüestro, estupro e esquartejamento do espírito. O que encontrei no exercício da poesia foi, em poucas palavras, um sentido maior para o meu egoísmo. No fundo, o maior poeta de todos os tempos, o Qoélet, autor do Eclesiastes, estava certo: Tudo é vaidade, mas a poesia, quando é realmente vivida como uma verdade da existência do indivíduo, é capaz de dar um sentido elevado para o egoísmo e para a vaidade, um sentido que transcenda o mercado. Mas não só a poesia, a arte em geral, quando é autêntica e leva em conta a realidade exterior a partir de um centro interior, é capaz disso. Van Gogh não é um banco, Picasso não é uma marca de automóvel”. (Ariel em entrevista para o escritor Nicodemos Sena).

A poesia é, assim, uma possibilidade de enfrentamento diante da barbárie, do vazio, da morte, ao mesmo tempo que se estabelece como o espaço no qual o poeta pode comentar, livremente, as fontes que compuseram e compõem continuamente seu percurso como leitor. O discurso poético é o lugar do qual Marcelo Ariel dispara sua scherzo-rajada.

apresentação de Diamila Medeiros
(para ler a dissertação de Diamila sobre a poesia de Marcelo Ariel clique aqui)

Marcelo Ariel é prosador, poeta, ensaísta e performer. Nasceu em Santos-SP (1968) e é autor dos livros Me enterrem com a minha AR 15 (Dulcinéia Catadora, 2007-Esgotado), Tratado dos anjos afogados (LetraSelvagem, 2008), O céu no fundo do mar (Dulcinéia Catadora, 2009-esgotado), Conversas com Emily Dickinson (Selo Orpheu/Multifoco, 2010-esgotado), Samba Coltrane (Yi Yi Jambo Cartonera, 2011-esgotado) , A morte de Herberto Helder (Sereia Cantadora Cartonera, 2012), A segunda morte de Herberto Helder (21 Gramas-esgotado), Diário Ontológico I e II (Pharmakon, 2014), Retornaremos das cinzas para sonhar com o silêncio (Editora Patuá, 2013), Urchatz Gaza (Lumme, 2014), Para sempre (Lumme, 2014), Gilberto Mendes –Encontros (Azougue Editorial, 2015, Org. ), O rei das vozes enterradas (Córrego, 2015 ) e Com o Daimon no contrafluxo (Editora Patuá, 2016). Além disso, participou de diversas antologias aqui e no exterior, tais como: Mehr alls bucher, org. Timor Berger (PapperLapPapp\Berlin, 2010), Poesia para el fim del mundo, org. por Estela Mendonza (Kodama cartonera\México, 2013), Poètes du Brésil aujourd’hui, préparé par Ines Oseki-Dépré (Action Poétique\Paris\France, 2011) entre outras. Coordena o Laboratório de Equizoanálise Literária em Santos-SP. Lançou, neste ano, A névoa dentro da nuvem Prosa Reunida – 2012 -2016, pela Lumme Editora, e A Rainha do fogo invisível seguido de A morte de David Bowie, pela Rubra Cartoneira.

* * *

Uma delicada tessitura

se constrói na memória, onde a linguagem se confunde com um enorme campo coberto por uma densa névoa.
Talvez não exista um ‘Sol da palavra ‘ mas certamente há um’ Sol de silêncios ‘ que devagar e decididamente, queimará a névoa e o que veremos desfeito o etéreo opaciamento de tudo serão pequenas gotas de orvalho e iridescências capazes de revelar estas tessituras.
Este pequeno e precioso momento é como um pequeno bordado feito com pontos na névoa, costurado cuidadosamente com os raios de silêncio de uma manhã que apenas pressentimos.

§

Carta para João Gilberto Noll

há um calafrio na fé do meu corpo. ter de suportar mais um dia e o meu olhar certeiro, traduzindo minhas partes mais imundas, andando a prumo retraído, carcomido pela fé quase esvaziada, mas eu caminho, mas eu pulo. ah, eu também grito , aprendi a movimentar os meus gozos mais sutis, aqueles que consigo atuar na mossoroca que meu esqueleto com pele e carne e pelo está girando e girando, olhando pro céu e se mexendo, andando entre escombros e encenando a cena final do que seria uma salvação, e de tempo em tempo deposito um sutil gozo amarelo-quero-mais. é a fé ainda, é a agonia desvirada da lucidez transfigurada pela circunstância.

Uma fé parecida com o pó flutuando na luz, procurando o esvaziamento de uma paz vegetal, uma síntese dessa impossível transfiguração, e continuo girando debaixo deste abismo azul-do-nunca-mais, os estilhaços de um cansaço sem começo nem fim, esvoaçam por dentro, mesmo parada estou correndo como uma corça no escuro, na direção da cama-barco-savana, na direção de um campo de silêncios, sem jamais ouvir alguém chamar meu nome

os átimos de meus cílios pesados pressentem o peso a acrescentar-se em minhas pálpebras, e reverberar-se em meus ombros, e despojar-se do restante do corpo, conhecendo célula por célula como o banho de mar-pesado deitado sobre meu corpo-objeto deixa micro-objetos no fim da tarde. espumas de passagem, acredito que meus ombros também já carregam o quase acontecimento e começam a transmitir para os meus pés o sinal de reações adversas que eu traduzo em estranhamento-entranhamento, congelando no tempo , sinto meu estômago gargalhando do desafio de estar encoberta pelo manto do som do que ainda não existe

esse triunfo de não se reconhecer no próprio nome, exatamente o oposto do que acontece com as outras sombras, que não se reconhecem no próprio corpo, neste momento que separa o existir e o viver do estar sendo a chuva para e um improvável raio de Sol cai e entra no mar

Rudá Abaé!

§

O Menino orquídea

Para Gil Veloso e Caio F.

que o corpo é uma floresta
por dentro

há corpos jardim ?

sim, como uma canção
O seu é uma orquídea
Descobri isso
quase no fim
do não entendimento

Descobriu o quê?

vamos voltar
para o começo
do poema
É para isso
que servem
as flores
que nascem
pelos caminhos

Para que?

Voltar
E no instante
fora do tempo

tudo ficou nítido?

o verdadeiro corpo
não nos abandona
jamais
Vocês estavam certas
Gertrude, Clarice, Hilda

era a orquídea
me dizendo
que só existe
uma alma
para tudo o que existe

está vendo agora?

Sim

§

Dois ônibus se cruzam em sonho, numa dimensão paralela

1+1=1 como ir ao cinema e depois ver o mar
o discurso das ondas,o fim das fronteiras
nossa vida secreta
‘ A Ilha perdida ‘ , foi graças a ela que te conheci
Chet Baker sorri para Elis Regina
Uma tartaruga gigante
e um cavalo-marinho
Van Gogh sem o suicídio
Rimbaud sem a ida para Abissínia
A carne desce à lama, A chama some.
A Seiva se derrama. A terra chama
naturalmente livre
como uma borboleta
atravessando o ônibus lotado
como os silêncios intersiderais
depois descemos
parcialmente derrotados
para toda parte e todo lugar.

§

Infelizmente, o plataforma do wordpress não aceitou a formatação do poema COMO SER O NEGRO, porém, como julgamos ser um poema fundamental dentro da obra de Marcelo Ariel, deixamos aqui um link para que o leitor possa conhecê-lo (clique aqui).

 

 

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tradução

As Geórgicas de Virgílio (I, vv. 1-70), por Arthur Rodrigues Santos

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Entre as duas obras mais famosas de Virgílio, as Bucólicas e a Eneida, temos esta que já foi referida, talvez com alguma extravagância, como the best poem by the best poet. Não cabe a mim discutir se as Geórgicas são verdadeiramente a grande obra do poeta mantuano. Gosto não se discute e eu sou suspeito.

Só queria dizer apenas o que me fascina nesse poema de assunto banal, um poema que (como seu próprio nome sugere) se dirige aos agricultores romanos para ensiná-los o cultivo da terra, como amparar as videiras ou criar o gado e trazer as abelhas de volta para colmeia. Um manual de agricultura, portanto. Mas um manual apenas na superfície, apenas um pretexto para fazer a grande poesia que nos comove tanto com seus exuberantes hinos à natureza quanto com a simples árvore que, surpreendida, não reconhece mais os seus frutos, visto que nela se enxertou outra espécie. Como disse Sêneca, o Jovem (Epist. 86.15), o nosso poeta, mais do que ensinar os homens do campo, queria mesmo era encantar os seus leitores: nec agricolas docere uoluit, sed legentes delectare.

O trecho traduzido é o início das Geórgicas e nele já se podem ver aqueles dois tipos de painéis: o primeiro é grandioso: após um breve proêmio, vem uma longa invocação aos deuses campestres (e a um futuro deus, pelo menos para o exagero virgiliano); o segundo, mais singelo, é o começo da lida no campo, a hora em que os touros puxam o arado fincado na terra sob o sol da primavera.

Para emular os hexâmetros originais, me servi de um verso variante ao de Carlos Alberto Nunes, que já vem sendo usado pelo Rodrigo Gonçalves e Guilherme Flores. Ele consiste de quatro células métricas (cada uma podendo ser ternária ou binária) seguidas de uma cláusula com terminação grave. Além disso, não há anacruse no início do verso e me permito no máximo iniciá-lo com uma tônica secundária seguida de duas átonas.

Por fim, quero agradecer ao Sergio Maciel pelo convite.

Arthur Rodrigues Santos (1983), fluminense e mestre em Letras Clássicas pela UFRJ. Começou a traduzir um trecho da segunda bucólica de Virgílio no começo da graduação e, a partir daí, não parou mais. Atualmente é doutorando pela mesma instituição, com passagem pela Universidade de Bolonha no ano passado. Seu principal projeto é traduzir as Geórgicas de Virgílio em versos hexamétricos.

* * *

O que dá viço às searas alegres, sob qual astro
deve-se a terra, Mecenas, volver e casar as videiras
com os olmeiros, quais cuidados ao boi e ao rebanho
são dispensados, quanta perícia às parcas abelhas:
eis o que agora celebro. Vós, ó luzeiros brilhantes 5
deste mundo, guiando no céu o ano que escoa;
Líber e Ceres nutriz, a terra, com a vossa anuência,
pôde trocar Caônias bolotas por trigo graúdo
e misturar o copo Aqueloio às uvas achadas;
vós também, propícios aos lavradores, ó Faunos, 10
vinde dançando, Faunos, ao lado das Dríades ninfas:
vossos dons eu celebro; e tu, que a terra fendeste
com teu tridente, donde surgiu o fogoso cavalo,
ó deus Netuno; e tu boscarejo, a quem uns trezentos
níveos vitelos pastam de Cea fecunda os arbustos; 15
tu, que abandonas o bosque natal e as Liceias clareiras,
Pã, guardião das ovelhas, se o Mênalo inda te agrada,
vem até mim, ó Tegeu, me apoia; e Minerva, dadora
das oliveiras, e o jovem inventor do arado recurvo,
tu também, ó Silvano, trazendo extirpado cipreste: 20
todos, deuses e deusas, vós que zelais pelos campos,
ora nutrindo os novos rebentos não semeados,
ora enviando do céu a forte chuva às sementes.
E, finalmente, tu, de quem não sabemos qual posto
vais ocupar entre os deuses: se queres, César, o zelo 25
pelas cidades e campos, e o vasto universo te acolha
como o pai dos frutos e das estações o regente,
já coroando a tua fronte com murta de Vênus materna;
ou te tornes o deus do imenso mar e os marujos
só o teu nume cultuem e a extrema Tule te sirva, 30
Tétis te quer como genro a preço de todas as ondas;
ou, novo astro, te somes aos meses mais vagarosos,
onde um espaço entre Erígone e as Quelas vizinhas
ora se abre: vê, já contrai suas garras o ardente
Escorpião e deixou-te no céu uma parte folgada; 35
Seja quem fores (não és esperado no mundo Tartáreo
nem te acometa o terrível desejo deste reinado,
mesmo que a Grécia tanto admire os Campos Elíseos
e Proserpina se furte a voltar com a mãe para cima),
fácil percurso me dá, consente o propósito ousado 40
e, compassivo comigo dos lavradores sem rumo,
vem até mim e já te acostuma a ouvir nossas preces.
A primavera revém, dos cândidos montes escorre
frio regato e o Zéfiro quebra o torrão ao seu sopro:
já me comece o touro a gemer no arado tanchado 45
e recupere seu brilho a relha atrita com sulcos.
Só corresponde aos votos do lavrador ansioso
campo que duas vezes sentiu o sol e a friagem;
sua imensa colheita acabou de romper os celeiros.
Antes, porém, de cortarmos com ferro um solo ignoto, 50
cumpre primeiro estudar o vento e o clima mutável,
a qualidade das terras e a prática antiga legada,
o que produz um lugar e também o que ele nos nega.
Trigo vai bem por aqui, por ali, as uvas vigoram,
mais além enverdecem o novo arvoredo e a selvagem 55
erva. Não vês que o Tmolo exporta açafrão perfumado,
Índia marfim, os Sabeus delicados seu típico incenso,
ferro das minas os Cálibes nus, o Ponto castóreo
nauseabundo e o Epiro vitórias das éguas em Élis?
A natureza impôs essas leis e contratos eternos 60
para lugares determinados assim que no mundo,
antes vazio, Deucalião lançou as suas pedras,
delas os homens nasceram, dura progênie. Ao trabalho!
Já no começo do ano, revolvam o gordo terreno
touros fortes, dessa forma as leivas expostas 65
sejam cozidas ao sol maturado do estio pulvéreo;
mas, sendo a terra pouco fecunda, basta somente
leve amanho de sulco no despontar do Arcturo:
lá, as ervas daninhas não tolhem messes alegres,
cá, não deserta a pouca umidade do seco terreno. 70

Quid faciat laetas segetes, quo sidere terram
uertere, Maecenas, ulmisque adiungere uites
conueniat, quae cura boum, qui cultus habendo
sit pecori, apibus quanta experientia parcis,
hinc canere incipiam. uos, o clarissima mundi 5
lumina, labentem caelo quae ducitis annum;
Liber et alma Ceres, uestro si munere tellus
Chaoniam pingui glandem mutauit arista
poculaque inuentis Acheloia miscuit uuis;
et uos, agrestum praesentia numina, Fauni, 10
ferte simul Faunique pedem Dryadesque puellae:
munera uestra cano; tuque o, cui prima frementem
fudit equum magno tellus percussa tridenti,
Neptune; et cultor nemorum, cui pinguia Ceae
ter centum niuei tondent dumeta iuuenci; 15
ipse nemus linquens patrium saltusque Lycaei
Pan, ouium custos, tua si tibi Maenala curae,
adsis, o Tegeaee, fauens, oleaeque Minerua
inuentrix, uncique puer monstrator aratri,
et teneram ab radice ferens, Siluane, cupressum: 20
dique deaeque omnes, studium quibus arua tueri
quique nouas alitis non ullo semine fruges
quique satis largum caelo demittitis imbrem.
tuque adeo, quem mox quae sint habitura deorum
concilia incertum est, urbisne inuisere, Caesar, 25
terrarumque uelis curam, et te maximus orbis
auctorem frugum tempestatumque potentem
accipiat cingens materna tempora myrto;
an deus immensi uenias maris ac tua nautae
numina sola colant, tibi seruiat ultima Thule, 30
teque sibi generum Tethys emat omnibus undis;
anne nouum tardis sidus te mensibus addas,
qua locus Erigonen inter Chelasque sequentis
panditur: ipse tibi iam bracchia contrahit ardens
Scorpios et caeli iusta plus parte reliquit; 35
quidquid eris (nam te nec sperant Tartara regem,
nec tibi regnandi ueniat tam dira cupido,
quamuis Elysios miretur Graecia campos
nec repetita sequi curet Proserpina matrem),
da facilem cursum atque audacibus adnue coeptis 40
ignarosque uiae mecum miseratus agrestis
ingredere et uotis iam nunc adsuesce uocari.
Vere nouo, gelidus canis cum montibus umor
liquitur et Zephyro putris se glaeba resoluit,
depresso incipiat iam tum mihi taurus aratro 45
ingemere et sulco attritus splendescere uomer.
illa seges demum uotis respondet auari
agricolae, bis quae solem, bis frigora sensit;
illius immensae ruperunt horrea messes.
ac prius ignotum ferro quam scindimus aequor, 50
uentos et uarium caeli praediscere morem
cura sit ac patrios cultusque habitusque locorum,
et quid quaeque ferat regio et quid quaeque recuset.
hic segetes, illic ueniunt felicius uuae,
arborei fetus alibi atque iniussa uirescunt 55
gramina. nonne uides croceos ut Tmolus odores,
India mittit ebur, molles sua tura Sabaei,
at Chalybes nudi ferrum uirosaque Pontus
castorea, Eliadum palmas Epiros equarum?
continuo has leges aeternaque foedera certis 60
imposuit natura locis, quo tempore primum
Deucalion uacuum lapides iactauit in orbem,
unde homines nati, durum genus. ergo age, terrae
pingue solum primis extemplo a mensibus anni
fortes inuertant tauri, glaebasque iacentis 65
puluerulenta coquat maturis solibus aestas;
at si non fuerit tellus fecunda, sub ipsum
Arcturum tenui sat erit suspendere sulco:
illic, officiant laetis ne frugibus herbae,
hic, sterilem exiguus ne deserat umor harenam. 70

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poesia

Mafalda Sofia Gomes (1992-)

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Mafalda Sofia Gomes nasceu em Matosinhos, Portugal, em 1992. Faz trabalho de investigação no âmbito da germanística medieval. É co-fundadora e co-editora da plataforma “A Bacana”.

* * *

 

Bolo de aniversário

Dia haverá
e será de festa
em que me farás
um bolo

duas camadas
separadas
com cobertura
doce
celebradas
com recheio muito
amargo

no topo
as velas o fogo aceso
dado de presente
à maneira antiga
de humanizar

a alegria e o brio
da vida obnubilada na cozinha
as horas ensimesmadas
o fermento

perdido
na serpentina
das festas
que fazemos
para os outros

§

 

Reprodução I

I

Subimos aos montes
como quem vai pra se encontrar com Deus

debaixo do braço
levamos as tábuas
vernaculares
esperamos a lei
escrevemos o governo
umas para as outras e todas para o mundo inteiro

II

um bolo bate-se
sempre para o mesmo lado
brincadeiras de homens
são beijos de burro
mais vale cair em graça
que ser engraçada
não faças maionese
se estás com a menstruação
não vás à fonte
com a sede toda
nunca te arrependas
de estar calada
a melhor laranja
é do teu marido
faz-te farta como
um espigueiro no meio da eira
o reino do céu
é de quem se senta no fim da ceia
cresce que crescer
é castigo

III

Descemos os montes
grávidas como um legislador

§

 

Reprodução II

I

O abismo da saia afunilada
não nos deixa subir às árvores
e se quisermos visitar o nosso amante
é bom que alcemos a perna com desenvoltura
porque as escadas que dão acesso aos aviões
foram pensados por engenheiros
que pensavam em mulheres de minissaia
e nós não somos concubinas nenhumas
O abismo da stabat mater
não nos deixa comer laranjas à noite
e se quisermos dançar sem espaço para Jesus
é bom que seja com o nosso amante
afinal ele saberá que em princípio
não somos concubinas nenhumas
somos melancólicas não temos minissaias gozos
temos bolores e preguiça não subimos às árvores
estamos sempre potencialmente grávidas
choramos nos aviões nas escadas nos bailes
não somos concubinas nenhumas
temos milhões de abismos
para contar

II

se quisermos sair
vamos constipar-nos
porque somos esburacadas
e tudo nos engravida
por todos os lados

o ar dos aviões
os engenheiros
o espírito santo

geramos com leite
amantes filhos pais
que choramos loucas
porque somos vacas

civilizamos com leite
temos com fartura
não se preocupem

afinal não queremos sair
porque estamos sempre
potencialmente grávidas
III

“A minha mulher não me é nada
a minha mulher não é da minha família
o meu filho é da minha família
ela não me é nada”

“A minha mulher não come pão fresco
quando há pão seco em casa
a minha filha também não
se eu como pão seco
em quê que elas são mais do que eu?”

“A minha mulher não usa decotes
porque tenho os decotes das minhas primas
o calendário da cozinha onde não cozinho
porque ela cozinha tudo para mim”

§

 

Recreio

I

Os rapazes afugentam os gatos
quando lhes atiram pedras
em frente às raparigas
que delicadas choram

fingem ser maus
como maus são os homens
e fingem ser porcos
como porcos são os homens
porque é cedo que as coisas importantes se definem
como cultivar a vergonha
a culpa na cama desfeita
dos nossos pais

As raparigas gostam de gatos
e as pedras que não lhes atiram
guardam para as atirarem aos rapazes
que nunca acertam
porque os rapazes fogem depressa
como se montados num cavalo
e as nossas mãos como ratos
são as mãos que aos rapazes
ferozes estendemos
que nos dão estalos no recreio
que mostram o pénis
que não sabemos se temos
coragem de ver

fugimos como se dissemos
que queremos
que nos apanhem
que nos atirem pedras
iguais às que atiramos
e que falham o alvo
porque estávamos entretidas
com uma ideia de amor
e outra de expiação

II

Os rapazes não sonham
ainda o segredo
que deusas nos entretemos
a bulir

só mais tarde
quando te beijei a palma da mão da masturbação
compreendi que não havia tipos de rapazes
proporcionais ao único tipo de rapariga
que eu conhecia

§

 

Tirania

A arte de expulsar
os botões de suas casas
não se aprende
no meu país

Os rapazes existem para glória
de suas mães
As raparigas limpam a merda
dos rituais

Padrão
poesia, tradução

George Mario Angel Quintero (1964-), por Thiago Ponce de Moraes

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George Mario Angel Quintero (1964-), nasceu de pais colombianos em São Francisco, Califórnia, onde viveu por 30 anos. Publica ficção, poesia e ensaios em inglês como George Angel. Desde 1995 vive em Medelín, Colômbia, onde, sob o nome Mario Angel Quintero, publicou seis coletâneas de poesia em espanhol, bem como três livros de peças teatrais.

Seu trabalho tem sido publicado ao redor do mundo, em países como Índia, Austrália, Croácia, Marrocos, Bulgária e Peru. Desde 2003 trabalha como diretor e dramaturgo da companhia Párpado Teatro, tendo sido ainda um dos fundadores dos grupos musicais Underflavour e Sell the Elephant.

 

Thiago Ponce de Moraes

* * *

 

OBRA

Remendar es una obsesión.
Por mucho que nos edifiquen
Los pasados no se construyen.
Se derrumban.
La rumba de los martillos,
El tango de taladros,
El cincel entrometido
Como una tilde.
Énfasis nos hace absolutos.

Amamos derruyentes.
Después del primer mazo contundente,
Tumbamos todo
En nombre de la mejora.

Una vez al piso
Sobamos.
Es lo más cercano
A compasión
Que podemos
Gesticular.
Seductores de sanar,
Palustres.

Nuestros murmullos
Arenosos,
De mezclas y lechadas,
Arrullan hacia un sueño,
Cada vez más nuevo,
Más útil.
Algo hecho de vacíos.

OBRA

Remendar é uma obsessão.
Por mais que nos edifiquem
Os passados não se constroem.
Desmoronam.
A rumba dos martelos,
O tango das furadeiras,
O cinzel intrometido
Como um til.
A ênfase nos torna absolutos.

Amamos desmoronantes.
Depois da primeira marretada contundente,
Derrubamos tudo
Em nome da melhora.

Uma vez ao chão
Afagamos.
É o mais perto
Da compaixão
Que podemos
Gesticular.
Sedutores de curar,
Pantanosos.

Nossos murmúrios
Arenosos,
De mistura e argamassa,
Embalam para um sonho,
Cada vez mais novo,
Mais útil.
Algo feito de vazios.

§

7.

Un pañuelo es una garza.
Un abrelatas es un rinoceronte.
Un cocodrilo es unas tijeras.

La casa es como una selva.
Tenemos que respetar a las cosas
Puntudas y filudas,
Como si fueran animales peligrosos.

Eso que se mete.
Duele por donde entra.
Cosas grandes andando por ahí
Mordiendo a la gente.

7.

Um lenço é uma garça.
Um abridor é um rinoceronte.
Um crocodilo é uma tesoura.

A casa é como uma selva.
Temos que respeitar as coisas
Pontudas e cortantes,
Como se fossem animais perigosos.

Isso que se insere.
Dói por onde entra.
Coisas grandes andando por aí
Mordendo a gente.

§

 

LA NOCHE,
…….un reguero florecido,
siembra
…….tan tambre,
apachurra
sus puchos,
se recuesta
…….sobre su alfombra
………de dardos,
y se cubre
……la cara,
……derrama
…………su ronquido,
alumbra…… abierta,
……..sus pétalos
………………polvorientos
traspasados
……………de tallos
que brotan
trenzados
….aquí abajo.

A NOITE,
…….um córrego florido,
semeia
…….tão sina,
esmaga
suas guimbas,
se recosta
…….sobre seu tapete
……….de dardos
e cobre
…….o rosto,
…….derrama
…….…….seu ronco,
acende….. aberta,
…….suas pétalas
…….…….empoeiradas
atravessadas
…….………por caules
que brotam
trançados
….aqui embaixo.

§

 

THE WORD BLOOD IS DEAD. THE WORD KNIFE, the word angels, the word stone, the word bones. All these words are dead. Word angels like monkey dying. The theory of trees and stones must crawl inside them and crack them open forever. Those words are the corpses of what we know. They are as useless as the word maggots that will come along and eat them. Say land again and you too are dead. Land is a dead word. The theory of trees and stones humbly submits that it is tired of the words light and strong. These words must be assassinated so that we may all see that they have been dead for ages. Every sayable word is a dead word. Run faster, killing as you go. Every explanation is a beautiful vulture. We have made it beautiful. The colors are all dead and we have fed them to the vulture.

Saying is killing. Laughter is mockery where a massive bright bird stands pecking the sinew out of the arms and legs of light. The theory of trees and stones is someone remembering something to himself. God is not the word for God.

A PALAVRA SANGUE ESTÁ MORTA. A PALAVRA FACA, a palavra anjos, a palavra pedra, a palavra ossos. Todas essas palavras estão mortas. Anjos de palavras como macacos agonizantes. A teoria das árvores e das pedras deve rastejar dentro delas e abri-las para sempre. Essas palavras são os cadáveres do que sabemos. Elas são tão inúteis quanto a palavra larvas que virá comê-las. Diga terra outra vez e você também estará morto. Terra é uma palavra morta. A teoria das árvores e das pedras humildemente alega que está cansada das palavras luz e forte. Essas palavras devem ser assassinadas para que possamos todos ver que estiveram mortas por tempos. Toda palavra dizível é uma palavra morta. Fuja mais rápido, matando pelo caminho. Toda explicação é um abutre lindo. Nós o tornamos lindo. As cores estão todas mortas e com elas alimentamos o abutre.

Dizer é matar. O riso é escárnio onde um pássaro enorme e brilhante fica bicando os tendões dos braços e pernas da luz. A teoria das árvores e das pedras é alguém lembrando alguma coisa a si mesmo. Deus não é a palavra para Deus.

§

 

MY FUNNIEST MISTAKE
is that I took
life personally.

It opens transformed now
from fluted water
to a forest
of indignity.

It waits for me,
like the sunlight
that ran on ahead,
waiting for this soft oaf,
who has fallen onto
his own paved past
and scuffed his knees.

But the world
is not virtuous long enough
to vindicate anyone’s shame.

All we can be sure of
is the gallop.

It has become
too easy to say.
It has become
too easy to tell.

It must be obvious
to someone, by now,
that we hardly ever
get there, to it,
that a dash is,
after all,
a pause, a change
of direction.

Our only forward
is to trip and fall.
Everything else is passing—

And yet the impulse
is an infant,
full of noise
but without a hint
of how almost
it all was.

Pretense vanished
without a bow.

Nowadays,
that I would
live to know
when they were then,
the time of the big lie.
When sorrow
knew no limits
and victory and death
were the same word.

Would you believe
she wove sandals
from her own hair
so he might continue walking.

Though I suffer
delusions of being
nourished, I am
just a conduit,
an elaborate hose,
a falling, a means
to a gravitational necessity.

And too there is the death
in bitterness, the death
in sick and tired.

Enough. Enough.
Enough many steps ago.
Just shut up a minute,
long enough to miss a fall,
long enough for the loss of fuck off!
to dissipate in the silence.

And still humiliation
insists I dance with her.

I am sure somehow.
I am sure
like a chord sounding out
and that is all.

I was made
for song.
That I didn’t
make it, though,
seems more obvious
than irrelevant.

I was not made
for battles,
for definitive endings.

When my body dies
it may well take my spirit
with it.

But it will go, my spirit,
like a laughing boy
atop a tumbling pachyderm.

MEU ERRO MAIS ENGRAÇADO
é que eu levei
a vida pro lado pessoal.

Ela se abre agora, mudando
de água ondulada
para floresta
de indignidade.

Ela espera por mim,
como a luz do sol
antecipada,
esperando este ser desajeitado
que caiu sobre
seu próprio passado asfaltado
e ralou os joelhos.

Mas o mundo
não é virtuoso o bastante
para reivindicar a vergonha de qualquer um.

Só podemos ter certeza
do galope.

Passou a ser
muito fácil dizer.
Passou a ser
muito fácil contar.

Deve ser óbvio
para alguém, agora,
que nós quase nunca
chegamos lá, a isso,
que um travessão é,
afinal,
uma pausa, uma mudança
de direção.

Nosso único adiante
é tropeçar e cair.
Todo o resto está passando—

E além do mais o impulso
é uma criança,
cheia de barulho
mas sem qualquer ideia
de como quase
isso tudo era.

O fingimento desapareceu
sem uma reverência.

Hoje,
que eu
viveria pra saber
quando eles eram então,
o tempo da grande mentira.
Quando a tristeza
não conhecia limites
e vitória e morte
eram uma só palavra.

Você não acreditaria
que ela teceu sandálias
com seus fios de cabelo
para que ele continuasse andando.

Embora eu sofra
ilusões de ser
nutrido, sou
apenas um tubo,
uma mangueira elaborada,
uma queda, um meio
para uma necessidade gravitacional.

E há também a morte
na amargura, a morte
em estar farto.

Basta. Basta.
Basta a muitos passos atrás.
Só cale a boca um minuto,
o bastante para perder a queda,
o bastante para a perda do foda-se!
se dissipar no silêncio.

E ainda a humilhação
insiste para que eu dance com ela.

Tenho certeza, de algum jeito.
Tenho certeza
como um acorde soando
e isso é tudo.

Fui feito
para canção.
Que eu não tenha
conseguido, no entanto,
parece mais óbvio
que irrelevante.

Não fui feito
para batalhas,
para fins definitivos.

Quando meu corpo morrer
pode muito bem levar meu espírito
com ele.

Mas eu vou, meu espírito,
como um menino risonho
em cima de um paquiderme caindo.

§

 

10.

Birds sometimes fall,
and this hardly sounds.

A tired woman
adjusts her collar
on the platform
of a train station.

An example’s
manifestation
is always more
than its meager use.

A blue feather
dances in night’s depths.

10.

Pássaros às vezes caem,
e isso quase não faz barulho.

Uma mulher cansada
ajeita sua gola
na plataforma
da estação de trem.

A manifestação
de um exemplo
é sempre mais
que seu mero uso.

Uma pluma azul
Dança nas profundezas da noite.

Padrão
poesia, tradução

Eileen Myles (1949-), por Cesare Rodrigues e Camila Assad

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Eileen Myles é uma poeta e escritora americana, nascida em Cambridge, Massachusetts em 1949. Frequentou escolas católicas em Arlington, Massachusetts e se formou na Universidade de Massachusetts (Boston), em 1971. Foi para Nova York em 1974 com a intenção de se tornar poeta. Sua educação poética ocorreu principalmente no St. Mark’s Poetry Project, de 1975 a 1977, através de leituras e participação em workshops liderados por Alice Notley, Ted Berrigan, Bill Zavatsky e Paul Violi. Em 1977, Eileen co-editou a antologia feminista Ladies Museum, e em 1979 trabalhou como assistente do poeta James Schuyler. No mesmo ano, Eileen foi um dos membros fundadores do Los Texans Collective (junto com Elinor Nauen e Barbara McKay). De 1984 a 1986, Eileen foi diretora artística do St. Mark’s Poetry Project. Os outros livros de Myles incluem Snowflake / different streets (2012), Inferno: A Poet’s Novel (2010), The importance of being Iceland: Essays in Art (2009), Sorry, Tree (2007), Tow (2005, com Larry R Collins), Skies (2001), on my way (2001), Cool for You (2000), School of Fish (1997), Maxfield Parrish (1995), Not Me (1991) e Chelsea Girls (1994). Em 1995, editou, juntamente com Liz Kotz, The New Fuck You: Adventures of Lesbian Reading. Como poeta e jornalista de arte, Eileen contribuiu para um grande número de publicações, incluindo Art Forum, The New Yorker, Harpers, Parkett, The Believer, Vice, Cabinet, The Nation, TimeOut, The New York Times, Paris Review, AnOther Magazine e The Poetry Project Newsletter. É ativista radical e militante dos direitos das mulheres e LGBT+, tendo inclusive conduzido uma campanha “abertamente feminina” à presidência da República americana em 1991-1992. É professora emérita na UC San Diego, onde lecionou por cinco anos. Eileen Myles acumula uma grande variedade de premiações e nomeações, incluindo Guggenheim Fellowship (2012), The Clark Prize for Excellence in Arts Writing (2015) e o Creative Capital Award, (2016). Atualmente vive em Marfa, no Texas e em Nova York onde lançou, no dia 11 de setembro, seu vigésimo quarto livro, denominado evolution. Seu trabalho ainda é inédito no Brasil.

Cesare Rodrigues e Camila Assad

* * *

 

PROFECIA

Estou brincando com o pau do diabo
é como um giz de cera
é como um gordo giz de cera queimado
estou escrevendo um poema com ele
estou escrevendo isso sob
todo aquele calor barulhento neste quarto
estou usando isto
estou usando aquele chocalho formigante
aquela luz no meio do quarto
é minha anfitriã
eu sempre tive medo de você
apavorada de que você fosse deus ou algo do tipo
eu tenho medo quando você está amarelo
acastanhado
branco tudo bem. Transparente é legal,
você não me parece familiar
minha barriga está desabrigada
desabando sobre a cintura do meu jeans como uma omelete
é bom haver algo a respeito de se sentir gorda
o que existe mesmo é a falta de vazio
estou almejando aquela sensação de vazio
indo buscar um pouco dela
e depois eu volto

PROPHESY

I’m playing with the devil’s cock
it’s like a crayon
it’s like a fat burnt crayon
I’m writing a poem with it
I’m writing that down
all that rattling heat in this room
I’m using that
I’m using that tingling rattle
that light in the middle of the room
it’s my host
I’ve always been afraid of you
scared you’re god and something else
I’m afraid when you’re yellow
tawny
white it’s okay. Transparent cool
you don’t look like home
my belly is homeless
flopping over the waist of my jeans like an omelette
there better be something about feeling fat
what there really is is a lack of emptiness
I’m aiming for that empty feeling
going to get some of that
and then I’ll be back

[de Evolution, 2018]

§

 

UM POEMA AMERICANO

Nasci em Boston em
1949. Nunca quis que
soubessem, de
fato, passei a melhor
parte da minha vida adulta
tentando varrer a infância
pra debaixo do tapete
e ter uma vida que
fosse claramente só minha,
independente do
destino histórico da
minha família. Vocês podem
imaginar como é
ser um deles,
ter sido criada como um deles,
falar como um deles,
ter as vantagens
de ter nascido naquela
rica e poderosa
família americana. Estudei
nas melhores escolas,
tive todos os tipos de tutores
e treinadores, viajei
pra todo canto, conheci os famosos,
os controversos e
os não tão admiráveis
e sabia desde
muito nova que
se houvesse alguma
possibilidade de escapar
do destino coletivo dessa famosa
família de Boston, eu
tomaria esse caminho e
assim fiz. Peguei
o Amtrak para Nova
York no início dos
anos 70 e acho que
poderia dizer que
meus anos disfarçada
começaram. Pensei,
Bem, vou ser poeta.
O que poderia ser mais
tolo e obscuro.
Virei lésbica.
Todas as mulheres da minha
família parecem
sapatão, mas é realmente
atentar contra a pátria
quando você assume.
Carregando essa ignominiosa
pose eu vi e
aprendi e
estou começando a acreditar que
não há como escapar da
história. Uma mulher
com quem estou tendo
um caso ultimamente disse
sabe você parece
uma Kennedy. Senti
o sangue subir nas
bochechas. As pessoas
sempre riem do
meu sotaque de Boston
confundindo “large” com
“lodge”, “party”
com “potty”. Mas
quando essa mulher
desavisada invocou pela
primeira vez meu
sobrenome
eu percebi que a minha máscara
tinha caído. Sim, eu sou,
eu sou uma Kennedy.
Minhas tentativas de permanecer
disfarçada não funcionaram
tão bem. Começando como
uma humilde poeta
rapidamente cheguei ao
topo da profissão,
assumindo uma posição de
liderança e honra.
É certo que uma
mulher me chame
pra sair agora. Sim,
sou uma Kennedy.
E estou
às suas ordens.
Vocês são os Novos Americanos.
Os sem-teto estão vagando
pelas ruas das maiores cidades
da nossa nação. Homens
desabrigados com AIDS entre
eles. Isso está certo?
Que não haja casas
para os desabrigados, que
não haja assistência médica
gratuita para esses homens. E mulheres.
Que recebam
– enquanto morrem –
a mensagem de que este não é o lar deles?
E como estão seus
dentes hoje? Você
tem recursos para consertá-los?
Quanto custa o seu aluguel?
Se a arte é a mais alta
e honesta forma
de comunicação de
nossos tempos e a jovem
artista não está mais apta
a vir até aqui falar
para a sua época… Sim, eu poderia,
mas isso foi há 15 anos
e lembre-se — como designado,
sou uma Kennedy.
Não deveríamos todos ser Kennedys?
As maiores cidades desta nação
são o lar dos homens de
negócios e a casa dos
artistas ricos. Pessoas com
dentes bonitos, que não estão
nas ruas. O que faremos
quanto a este dilema?
Ouçam, eu fui educada.
Aprendi sobre a Civilização
Ocidental. Vocês sabem
qual é a mensagem da Civilização
Ocidental? Estou sozinha.
Estou sozinha esta noite?
Acho que não. Sou
a única com gengivas sangrando
esta noite. Sou a única
homossexual nesta sala
esta noite. Sou a única
cujos amigos morreram,
e estão morrendo agora.
E minha arte não pode
ser apoiada até que seja
gigantesca, maior do que a de
todos os outros, confirmando
o sentimento da audiência de que estão
sozinhos. De que sozinhos são
bons, aptos a
comprar os convites
para ver esta Arte.
Estão trabalhando,
são saudáveis, devem
sobreviver e são
normais. Vocês estão
normais esta noite? Todos
aqui, estamos todos normais.
Não é normal para
mim ser uma Kennedy.
Mas não tenho mais
vergonha, não estou mais
sozinha. Não estou
sozinha esta noite porque
somos todos Kennedys.
E eu sou sua Presidenta.

AN AMERICAN POEM

I was born in Boston in
1949. I never wanted
this fact to be known, in
fact I’ve spent the better
half of my adult life
trying to sweep my early
years under the carpet
and have a life that
was clearly just mine
and independent of
the historic fate of
my family. Can you
imagine what it was
like to be one of them,
to be built like them,
to talk like them
to have the benefits
of being born into such
a wealthy and powerful
American family. I went
to the best schools,
had all kinds of tutors
and trainers, traveled
widely, met the famous,
the controversial, and
the not-so-admirable
and I knew from
a very early age that
if there were ever any
possibility of escaping
the collective fate of this famous
Boston family I would
take that route and
I have. I hopped
on an Amtrak to New
York in the early
‘70s and I guess
you could say
my hidden years
began. I thought
Well I’ll be a poet.
What could be more
foolish and obscure.
I became a lesbian.
Every woman in my
family looks like
a dyke but it’s really
stepping off the flag
when you become one.
While holding this ignominious
pose I have seen and
I have learned and
I am beginning to think
there is no escaping
history. A woman I
am currently having
an affair with said
you know you look
like a Kennedy. I felt
the blood rising in my
cheeks. People have
always laughed at
my Boston accent
confusing “large” for
“lodge,” “party”
for “potty.” But
when this unsuspecting
woman invoked for
the first time my
family name
I knew the jig
was up. Yes, I am,
I am a Kennedy.
My attempts to remain
obscure have not served
me well. Starting as
a humble poet I
quickly climbed to the
top of my profession
assuming a position of
leadership and honor.
It is right that a
woman should call
me out now. Yes,
I am a Kennedy.
And I await
your orders.
You are the New Americans.
The homeless are wandering
the streets of our nation’s
greatest city. Homeless
men with AIDS are among
them. Is that right?
That there are no homes
for the homeless, that
there is no free medical
help for these men. And women.
That they get the message
—as they are dying—
that this is not their home?
And how are your
teeth today? Can
you afford to fix them?
How high is your rent?
If art is the highest
and most honest form
of communication of
our times and the young
artist is no longer able
to move here to speak
to her time…Yes, I could,
but that was 15 years ago
and remember—as I must
I am a Kennedy.
Shouldn’t we all be Kennedys?
This nation’s greatest city
is home of the business-
man and home of the
rich artist. People with
beautiful teeth who are not
on the streets. What shall
we do about this dilemma?
Listen, I have been educated.
I have learned about Western
Civilization. Do you know
what the message of Western
Civilization is? I am alone.
Am I alone tonight?
I don’t think so. Am I
the only one with bleeding gums
tonight. Am I the only
homosexual in this room
tonight. Am I the only
one whose friends have
died, are dying now.
And my art can’t
be supported until it is
gigantic, bigger than
everyone else’s, confirming
the audience’s feeling that they are
alone. That they alone
are good, deserved
to buy the tickets
to see this Art.
Are working,
are healthy, should
survive, and are
normal. Are you
normal tonight? Everyone
here, are we all normal.
It is not normal for
me to be a Kennedy.
But I am no longer
ashamed, no longer
alone. I am not
alone tonight because
we are all Kennedys.
And I am your President.

[de Not Me, 1991]

§

 

CORAÇÕES SANGRANDO

Sabe do que
eu tenho ciúmes?
Da noite passada.
Ela segurou
nós duas
em seus
grandes braços
negros
& hoje
eu seguro
entre
minhas pernas
uma boceta
trêmula.
Sangrando &
tremendo
molhada com
memórias
de pesar e alívio.
Eu não sei
por que o universo
me escolheu
para ser fêmea
tanta beleza
& dor,
tanta coisa
acontecendo
por dentro
de toda essa
mudança
em todo lugar
moedas caindo
por toda
a cama
& a morte
é um sonho.
No meio
da noite
com milhares
de amantes,
o chupão
estalando
cambaleando
a carne
profundamente na
cavidade
da noite
infinita através de
montes
de corpos
eu observo
se isso é
amor ou
guerra. A oca
bochecha
rastejante
onde
eu
nasci.

BLEEDING HEARTS

Know what
I’m jealous of?
Last night.
It held
us both
in its
big black
arms
& today
I hold
between
my legs
a shivering
pussy.
Bleeding &
shaking
wet with
memory
grief & relief.
I don’t know
why the universe
chose me
to be female
so much beauty
& pain,
so much
going on
inside
all this
change
everywhere
coins falling
all over
the bed
& death
is a dream.
Deep in
the night
with thousands
of lovers
the sucking
snapping
reeling
flesh
deep in
the cavity
of endless
night across
mounds
of bodies
I peer over
is it
Love or
war. The hollow
creeping
cheek
where
I was
born.

[de Maxfield Parrish, 1995]

§

 

SEM NOME

não ensaie
faça
de primeira

de repente
uma nuvem
azul
está no
céu

e depois
ela é o
céu

NAMELESS

don’t be rehearsing
be doing it
the first time

suddenly
a blue
cloud is
in the
sky

and then
it’s the
sky

[de Skies, 2001]

§

 

CARO ADAM

Eu disse bolo
eu disse cartola
eu disse microfone
quatro cabecinhas douradas de bebê
espera eu disse pirata fantasma
espera espera eu disse gato de olhos fechados sorrindo
ele está respondendo ai meu deus
eu pensei foda-se consigo ler isso numa maratona
ele disse Eileen smiles
ahhh posso usar isso
o sino do meu computador tocou
mesma mensagem
espera o gato está chorando aliviado
o gato é um demônio agora
o gato não está doido
o gato fazendo um jazz racializado
uh ou não minhas mãos brancas
estou falando com todo mundo agora.
e estou usando um filtro. Não, eu não estou
Reconheço que há uma
imagem minha duplicada. Só recentemente

aprendi o termo mãos de jazz
se fodemos a Pensilvânia, qual a nossa
esperança em viver em um país roubado que sempre foi roubado
e construído em grande parte por pessoas roubadas. De uma diáspora
conservadora vim poeta mestiça de Massachusetts
para deixar minha marca

amor & essas coisas e oportunidades

de falar. Não podemos desistir, estamos cheios de novas oportunidades
de descobrir o significado de resistência

nosso tempo & explodindo o interior do meu computador
estudos de veados
o telefone diz entregue
o que é.
Adam diz você viu minha barba.
Falamos de dinheiro por algum tempo
Ando em minha bicicleta. Sai fora o telefone faz ding.
É a barba dele chamando. Eu digo ah.

você tem o que eu quero.
ele diz lol
então caveira
então foguete
então peru
pistola verde
e uma chama. Eu
não sei o que responder para isso
digo bicicleta e vou.

DEAR ADAM

I said cake

I said top hat

I said microphone

four little golden baby heads

wait I said pirate ghost

wait wait I said closed eye smiling cat

he scrawled back oh my god

I thought fuck yeah I can read this at the marathon

he said Eileen smiles

ehhh I can use it

the bell of my computer rang

same message

wait the cat is crying with relief

the cat is a devil now

the cat is not mad

the cat making racialized jazz

uh or not my white hands

I’m talking to everyone now.

and I’m using a filter. No I’m not

I acknowledge that there is an
image of me twice. I only recently

learned the term jazz hands

if we fucked Pennsylvania up what is our

hope to live in a stolen country that was always stolen

and worked largely by stolen people. Out of a conservative

diaspora came I mongrel poet from Massachusetts

to make my mark

love & these things and opportunities

to speak. We can’t fall down we teem in the new opportunity
we discover what resistance means

our time & blowing up the inside of my computer

buck studies

the phone says delivered

what is.

Adam says did you see my beard.

We talk about money awhile

I ride my bike. Get off the phone goes
ding. It’s his beard calling. I go oh.

you have what I want.

he says lol

then skull

then rocket

then turkey

green pistol

and a flame. I

don’t know what to say back to that

I say bike and go.

[publicado na revista Poetry, está no livro Evolution, lançado em setembro de 2018]

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xanto

XANTO| Daniel Faria e o complexo de Sísifo: o processo cíclico da poesia a partir da palavra e do silêncio, por Patrícia Lino

Tentativas 1-3 seguidas da morte: transportar a enorme pedra até ao cume da montanha/ deixá-la rolar encosta abaixo/ procurar um lugar entre o sopé e o cume da montanha

daniel_faria_gf

καὶ μὴν Σίσυφον εἰσεῖδον κρατέρ ̓ ἄλγε ̓ ἔχοντα
λᾶαν βαστάζοντα πελώριον ἀμφοτέρηισιν.

E vi Sísifo a suportar grandes sofrimentos,
ao tentar, com as mãos, erguer uma enorme pedra.

Od. XI, 593-594

Inque tuo sedisti, Sisyphe, saxo.

E também tu, Sísifo, te sentaste sobre a tua pedra.

Ov., Met., X, 44

 

A visão e a escuta precedem o gesto poético e existem, num espaço extratemporal, a par uma da outra. Como nota Carlos Azevedo[1], Daniel Faria mantém-se fiel a esta ideia quando a 14 de Julho de 1993 escreve: “Poeta é o que descobre. Isto é, o que vê primeiro”[2]. Insiste, aliás, na mesma premissa cinco anos mais tarde, ao parafrasear Joyce, “quem começa pela escuta pode ver”[3]. Escutar e ver, resultados do mais pleno silêncio, são, além disso, sinônimos da revelação: há um enorme poder em estar calado.

Podem responder-me que não tenho poder para tanto. Mas tenho, entretanto, poder para calar-me, e é estranho que haja homens que não se assustem com um poder assim.[4]

Se o propósito de Daniel é ascender ao lugar do “verbo absoluto”[5], o silêncio sustenta os alicerces do seu universo poético, essa “epifania, lugar de revelação ou de aparição”[6]: “Precisava de falar-te ao ouvido/ De manter sobre a rodilha do silêncio/ A escrita”[7]. A “rodilha do silêncio” ou o suporte da escrita parte, de resto, da própria impotência — ser capaz de ser rigorosamente nada. À impotência opõe-se a potência — ser capaz de escrever. Logo, não há potência sem impotência; à exceção de Deus, porque não-ser se diz dos mortais, e Deus é imortal. Assim, quando Daniel escreve “rodilha do silêncio”, lembra, ao mesmo tempo, o que Giorgio Agamben aponta como requisito ao poeta[8] e o que sugeria já Górgias no “Tratado do Não-ser”:

Na verdade, é com a palavra que identificamos algo, mas a palavra não é nem aquilo que está à vista nem o ser; logo, aos que nos rodeiam, não comunicamos o ser mas sim a palavra, que é diferente das coisas visíveis.[9]

O propósito poético é não dizer. A potência pertence ao que a possui sem a pôr em prática. O indizível nega, porém, a linguagem; o que significa que o propósito poético se nega e reafirma toda a vez que o poeta tenta apreendê-lo pela palavra. O silêncio e a palavra são dois veículos comunicativos válidos e coexistentes[10].

Por isso, embora José Ricardo Nunes note que a poesia de Daniel Faria vive de “uma constante dialéctica, cujos polos, para além da proximidade e da distância, são ainda a presença e a ausência, o pleno e o vazio, a errância e o regresso”[11], o polo palavra/silêncio parece sustentar, mais do que qualquer outro, a referida estrutura dialética:

Pousa devagar a enxada sobre o ombro
Já cavou muito silêncio

Como punhal brilha em suas costas
A lâmina contra o cansaço[12]

A “Explicação do Poeta”, incluído em Explicação das Árvores e de Outros Animais (1998) e transcrito acima, vem, por exemplo e à semelhança de várias outras passagens, demonstrá-lo: o poeta cava o silêncio em direção a Deus e fá-lo através da palavra; o que é aparentemente contraditório. O próprio ato de cavar, avesso aos céus, adensa a contradição: a enxada transforma-se num “punhal” e brilha como uma “lâmina”.

A palavra despe-se
O silêncio despe-se

Nus
Os sexos ardem

[…]

O silêncio
E a palavra

O poeta
E o poema[13]

A interpretação do projeto poético de Daniel Faria faz-se, portanto, neste sentido: o silêncio não nega a escrita e a escrita deriva do não-silêncio. O silêncio (a escuta, a visão) e a palavra — como o gesto físico do poeta —, são elementos discursivos; dizem-se e não-dizem-se. O movimento é, além do mais, paradoxal: o silêncio questiona as limitações da palavra e a palavra questiona as limitações do silêncio; que, perante Deus, são e serão insuficientes.

Como resultado da insuficiência do polo palavra/silêncio, o projeto de Daniel assenta de modo consistente no jogo intertextual: desde Homero, Apolodoro, Dante, São João da Cruz, Santa Teresa de Jesus — estes dois últimos com maior destaque —, até passagens de poetas modernos como Herberto Helder, Luiza Neto Jorge, Carlos Drummond de Andrade, Maria Gabriela Llansol, Sophia de Mello Breyner ou Ruy Belo. O fenômeno intertextual ou a repetição, porque “o poeta não tem para a poesia mais do que as palavras dos outros ou as palavras de outrem[14], tanto interrompe como corrobora a insuficiência que a motivou em primeiro lugar.

Sei que estou em viagem na palavra que se move.[15]

*

Busquemos apenas
As palavras repetidas.[16]

Escrever com os outros ou a partir deles não basta. Mais: o gesto poético, primo e privilegiado, corresponde evidentemente ao gesto voluntário do autossacrifício. Qualquer ideia de privilégio anula-se, de resto, a si mesma: “a minha poesia é um punhal contra si mesma”[17]; independentemente, aliás, de quem a pense: “eles [os gênios] não são assim tão amparados apesar de estarem tão mais próximos de Deus”[18]. O poeta sacrifica-se em nome de uma distância a que jamais poderá ganhar e, pela mesma razão, o “verbo absoluto” é tão desejado quanto temido.

A expressão ou verbo absoluto cruza obviamente os dois tempos do poema: o abstrato, porque escutado ou visto em silêncio — o momento anterior à poiese, onde, segundo Derrida, o poema verdadeiramente existe[19] —, e o físico, falado e escrito. Por isso, quando Daniel escreve, segundo “a proclamada harmonia do espírito do desprendimento”[20], existe antes de qualquer palavra a escuta:

O que escrevo é a fonte
Transformada.[21]

A vertigem da unidade absoluta, em que ἔκστασις (ekstasis) e αἴσθησῐς (aisthesis) coincidem, pesa ao poeta como a enorme pedra pesa a Sísifo. A falta de um lugar ou a disposição do corpo num lugar permanentemente mal situado compõem o cenário onde se caminha, sem sucesso, para o alto (“Da minha casa subirei sem palavras/ Em silêncio”[22]). Mal situado, o poeta é um ponto na circunferência, semelhante a todos os outros, distando apenas do centro — onde está Deus. Explicar por que razão se caminha para o alto, inacessível e indecifrável, acaba por ser tão inútil como a própria caminhada. As explicações de Daniel não são, por isso, explicações:

Ando um pouco acima do chão
Nesse lugar onde costumam ser atingidos
Os pássaros
Um pouco acima dos pássaros
[…]
Estou ligeiramente acima do que morre
[…]
Ando ligeiro acima do que digo
[…]
Ando um pouco acima da transfusão do poema

Ando humildemente nos arredores do verbo
[…]
Estou um pouco no interior do que arde
Apagando-me devagar e tendo sede[23]

Além do mais, as explicações que não são explicações carregam perguntas labirínticas: onde estão as coisas que ficam entre o céu e a terra? Se o gesto de escrever, de recorrer ao verbo para falar com Deus, está reservado aos mortais, o uso da palavra — terrena ou dessituada — nada mais é do que a preparação para a morte?

O meu projecto de morrer é o meu ofício[24]

Não se encara a morte apenas como um “projecto pessoal, mas como ofício, isto é como o trabalho a desempenhar, em execução firme do projecto central da vida”[25]. E o amor a Deus não se estende só ao silêncio (“porque o amor será sempre do silêncio”[26]), mas sustenta a caminhada silenciosa até à morte; o único sentido, parece-me, do labirinto cíclico de Daniel — morrer sem acabar: “Esta nau não me levará a casa/ E seguir-te não será morrer”[27]. Daniel repete, de resto, o gesto monástico dos que, sobre o chão, procuravam irmanar-se com a terra[28]:

Se eu um dia me suicidar, não há-se ser pela infelicidade da minha vida, mas pela felicidade da morte. Nada, como a morte às vezes, me é tão sedutor. Não é dor, nem medo, nem ausência, nem peso. É apenas essa estranha leveza de não-ser.[29]

Se a potência da escrita corresponder à potência do que pode não ser escrito, a vida plena passa a ser a que pode não ser vivida (“entrei em morte sucessiva no que vive”[30]). E é precisamente até aqui que o processo cíclico de Daniel Faria nos traz, a um lugar cheio de luz: “Soubesse eu soldar o silêncio/ […]/ Soubesse eu morrer iluminando”[31]. A φῶς (phôs) ou a luz dá lugar, como diz Carneiro Leão a propósito dos antigos, “[a]o princípio de tudo (arché panton)”[32]. O mesmo acontece no pensamento monástico: a luz, parte de Deus e deificadora (theosis), mencionada em praticamente todas as páginas de São Simeão e Gregório Palamas, foi a luz que os discípulos de Cristo viram no Monte Tabor. A tal realidade supratemporal, consagradora do silêncio, corresponde o segundo processo labiríntico: entender a morte luminosa. Com efeito, a relação imperfeita entre a palavra e o silêncio existe a par da relação entre a morte e a luz e, como nota Carlos Azevedo, é a dureza da luz que prepara o caminho para a morte[33]:

Amo-te com a constância do moribundo que respira
Já sem saber de que lado o visita a morte
Procuro a ligação entre ti e a luz muito miudinha depois dos temporais[34]

Ao mesmo tempo, a luz parece definir o que vem depois da morte e, ao mesmo tempo, aclarar o tom crescente, porém frágil, da sequência: uma vida cheia de luz, uma morte luminosa e um mundo feito de luz. Nenhuma das três partes garante a existência ou o funcionamento das outras duas. No entanto, cada uma delas confirma o óbvio: o projeto poético de Daniel parte da construção, desconstrução e consequente reconstrução do(s) labirinto(s). Sopé, subida, cume — descida, sopé, subida, cume.

De enrolares a pedra é redonda
A vida[35]

 

* * *

NOTAS:

[1] “Daniel Faria, Operário do Silêncio”, E Agora Sei que Oiço As Coisas Devagar, org.: Francisco Topa e Marco de Oliveira Marques, Porto, Sombra pela Cintura, 2010, p. 29: “Ao definir o exercício poético como resultante dessa busca do silêncio, de um abrir do terreno da vida para descobrir o caminho primeiro da realidade, Daniel Faria é fiel ao que escrevera já no Livro do Joaquim”.

[2] Livro do Joaquim, Vila Nova de Famalicão, Quasi, 2007, p.72.

[3] O texto a que fazemos referência, “Auto-retrato do artista enquanto jovem”, pode ser encontrado nos anexos ao estudo “Para o Instrumento Difícil do Silêncio” de Francisco Saraiva Fino, publicado na Revista da Faculdade de Letras – Línguas e Literaturas, II Série, vol. XXIII, Porto, 2008 [2006], pp. 428-429.

[4] Idem, p.429.

[5] Expressão de Rosa Maria Martelo, “Anos Noventa: Breve Roteiro da Novíssima Poesia Portuguesa”, Via Atlântica, no. 3, São Paulo, Universidade de São Paulo, 1999, p. 228: “A poesia de Daniel Faria apresenta-se como via para um conhecimento unitivo e totalizante, onde a palavra ganha a consistência de verbo absoluto.”

[6] Ibidem.

[7] Daniel Faria, Poesia, Vila Nova de Famalicão, Quasi, 2006, p. 20.

[8] Bartleby, Escrita da Potência, ed.: Giorgio Agamben e Pedro A. H. Paixão, Lisboa, Assírio & Alvim, 2007, p. 24: “Apenas no ponto em que nos conseguimos calar neste Tártaro e fazer experiência da nossa própria impotência nos tornamos capazes de criar, nos tornamos poetas.”

[9] “Tratado do Não-ser ou da Natureza”, Testemunhos e Fragmentos, trad.: Manuel Barbosa e Inês de Ornellas e Castro, Lisboa, Colibri, 1993, p. 34.

[10] Recordo Modesto Carone, quando, com base nas leituras de João Cabral de Melo Neto e Paul Celan, reflete sobre a poética do silêncio: “Essa é, no entanto, a própria condição de surgimento do indizível, o filtro que o revela: malogro inevitável e necessário de toda linguagem que tenta dizê-lo”, A Poética do Silêncio, São Paulo, Editora Perspectiva, 1979, p. 89.

[11] José Ricardo Nunes. “Daniel Faria”, 9 Poetas para o Século XXI, Coimbra, Angelus Novus, 2002, p. 23.

[12] Op. cit., 2006, p. 101. Ainda sobre esta passagem, Raquel Ribeiro escreve: “Ser poeta é, por isso, ser homem de enxada na mão, trabalhar a terra, colher os frutos, amar as plantas e os animais, procurar gritos novos para que o poema não morra”, Jovens Ensaístas Lêem Jovens Poetas, org.: Pedro Eiras, Porto, Deriva Editores, 2008, p. 82.

[13] Op. cit., 2006, p. 386.

[14] Manuel Gusmão, Tatuagem e Palimpsesto, Lisboa, Assírio & Alvim, 2010, p. 13.

[15] Op. cit., 2006, p. 132.

[16] Idem, p. 341.

[17] Livro do Joaquim, 2007, p. 67.

[18] Ibidem.

[19] “Nunca há senão poema, antes de toda a poiese”, Che cos’è la poesia?, trad.: Osvaldo Manuel Silvestre, Coimbra, Angelus Novus, 2003, p. 9.

[20] Martin Heidegger, A Caminho da Linguagem, trad.: Marcia Sá Cavalcante Schuback, São Paulo, Editora Vozes, 2003, p. 59: “Poetizar significa: dizer seguindo a proclamada harmonia do espírito do desprendimento. Antes de tornar-se um dizer, ou seja, um pronunciamento, poesia é na maior parte de seu tempo escuta.”

[21] Op. cit., 2006, p. 264.

[22] Idem, p. 214.

[23] Idem, p. 39.

[24] Idem, p. 85.

[25] Carlos Azevedo, “Soubesse Eu Morrer Iluminando”: O Sentido da Morte em Daniel Faria”, Revista Interdisciplinar sobre o Desenvolvimento Humano, no. 1, Outubro 2010, p. 54.

[26] Livro do Joaquim, p. 71.

[27] Op. cit., 2006, p. 65.

[28] Recordo David Le Breton, quando, a partir da ideia do silêncio, escreve: “La vie monastique se recoupe en bien des endroits malgré les différences de sensibilité et d’organisation. Elle est un renoncement aux passions et aux biens de la vie profane pour accéder à une communion plus parfaite à Dieu”, Du Silence, Paris, Métailié, 1997, p. 193.

[29] Livro do Joaquim, 2007, p. 73.

[30] Op. cit., 2006, p. 175.

[31] Idem, p. 302.

[32] Filosofia grega — Uma Introdução, Teresópolis, Daimon, 2010, p. 89.

[33] Op. cit., p. 56: “São os momentos de dureza da luz a preparar o mártir na oração para morrer”.

[34] Op. cit., 2006, p. 246.

[35] Idem, p. 69.

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