poesia

Louise Furtado (1997-)

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Louise Furtado (1997) é poeta e mestranda em teoria literária pela UFF, em Niterói, RJ. Nasceu em Guarapuava no interior do Paraná, morou em Curitiba, morou no Rio de Janeiro, atualmente mora em Niterói e amanhã não se sabe. Estes 4 poemas fazem parte de um projeto em andamento intitulado “taxidermias”. Gosta quando a ponte Rio-Niterói fica interditada porque um cachorro resolveu atravessar e de escrever quando está com sono.

* * *

memória

se um dia Maria abrisse
alguma fresta na porta do quarto
e a visão não tropeçasse
em animais vinte e seis
espalhados e empalhados
talvez não pensasse todo dia
enquanto almoça em ser
empalada e empalhada
para servir de crucifixo
na cabeceira de alguma cama

§

 

labareda

o ano é
não se sabe mais
o tempo é
não se sabe mais
a vida é
nunca soube
soube pela camisa
de papai da Maria Luiza
que ateou fogo nas mãozinhas dela
dentro da própria casa
agarrada às irmãs
da mesma terra
de cabeça dura e mal criada
com garras desgarradas
e talvez Maria Luiza agora…
a primeira filha
não se sabe mais
um flâneur de escombros
viu tudo
só não viu
papai fechar a porta
e andar na rua
com as mãozinhas dela estampadas
de cinzas

§

 

há sombras sem luz
no canto de prédios
guardados pelo tempo
numa caixa de brinquedos

há tantos joelhos com pus
sem mãos pra falar: venha cá
quando foi a última vez que você viu
um Vaga-lume piscando

vi um Cão morto latindo
tendo talvez convulsões
do outro lado da rua
que não é minha

eu dei meia volta
I’m back
eu não sei mais falar inglês
será que alguém precisa disso
falar inglês
um Cão morto latindo precisa
vai ver ele podia falar
help

será que pode carregar na cauda
esse mundo inchado
de água São Lourenço
que tem gosto de gás
que vêm de São Paulo
às sete da tarde

será que pode responder e-mail
falando sobre o tempo
ou sempre tem que
lamber as botas de alguém
falar sobre o tempo em inglês
um e-mail do tempo:
help
abraços,
Tempo.

alguém diz dias depois
as sombras do prédio
fazem sombras no outro prédio ali

mas se acabar a luz na cidade
talvez botafogo grite
PORRA
mas quando voltar todos gritam

uníssono
que não vai chegar em jacarepaguá

mas alguém pode estar lá
gritando socorro
como o Cão morto latindo em inglês
ou o tempo

mas se uma criança abre
a caixa de brinquedos do mundo
e vê o Cão vivo
talvez nasça um pedacinho
de luz no prédio
de alguém indo ao banheiro
quatro horas da manhã
o vaga-lume
que já não via há tanto tempo.

§

 

boceta antropofágica

Maria tem a boceta repleta
das Onças do Rosa
e mata alguns homens assim
lentamente
seus corpos apodrecem
naquele mesmo quarto
e deixa morar Baratas pelos seus membros
é uma pena que eles nunca descubram
o poder disso

Padrão
tradução

23 tradução para um epigrama de Tibulo, por Matheus Mavericco

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Elogiado por Quintiliano no livro X das Instituições Oratórias e lembrado por Ovídio no nono poema do terceiro livro dos Amores, Tibulo é sem dúvidas um nome de destaque dentro da elegia romana, ao lado do próprio Ovídio ou de Propércio. O gênero elegíaco, que remonta à poesia grega arcaica, surgiu na poesia romana pelas mãos de um certo Cornélio Galo, de quem só restam alguns fragmentos. Os elogios ao poeta cintilam aqui e acolá, por exemplo Diomedes em sua Ars Grammatica, quando, após explicar que a elegia é composta de dois cola (um hexâmetro seguido de um pentâmetro), cita versos de Tibulo e o coloca ao lado de Galo e Propércio. Quintiliano também o punha em posição de destaque e Ovídio, no poema citado, menciona que a própria elegia deveria se lamentar com a morte de Tibulo, “tuiuates operis, tua fama“.

Apesar da alta estima gozada naqueles tempos, não sei até que ponto o leitor de hoje em dia pode vir a tê-lo em alta conta. Francis Cairns, por exemplo, diz: “Tibullus is a good poet but not a great one: in comparison with Propertius and Ovid he seems dull and uninteresting“. Da obra que deixou, compilada em três livros, os dois primeiros são tidos como inegavelmente de sua autoria e o último, por parecer ter dedo de mais gente do círculo literário de Messala, patrono do poeta; o último nos deixa com uma pulguinha atrás da orelha.

Mesmo que a opinião do leitor não seja lá muito favorável diante do conjunto das elegias tibulianas, me parece relativamente simples e cômodo defender a excelência de algumas pièces de resistance, em especial o poema que fecha a obra, que é o que trago pra nos divertirmos hoje. Mathilde Skoie, num artigo onde analisa o corpus textual do autor, elogia a eficiência emocional do poema e o coloca ao lado do poema 14 do terceiro livro dos Amores de Ovídio bem como do quarto poema do quarto livro das elegias de Propércio. Em ambos o rumor é tematizado, mas, enquanto no poema de Ovídio o poeta pede à sua amada que seja mais discreta (“nec te nostra iubet fieri censura pudicam, / sed tamen, ut temptes dissimulare, rogat“) e enquanto no poema de Propércio o rumor possui um papel mais ativo, ganhando até voz (“cras, ut rumor ait, tota potabitur urbe“), o rumor, em Tibulo, pelo simples fato de que existe, aflige, machuca, dói.

Creio que podemos ir até um pouco além, afinal de contas o rumor diz que a amada do poeta peca com frequência, ou, trocando em miúdos, trai. O simples fato de que o poeta tenha usado o verbo peccare já parece denotar um modo de não olhar pra situação de forma direta, de andar em círculos e não, como dito por Otelo, “give thy worst of thoughts / The worst of words“. Seu comentário de que ser surdo lhe cairia bem parece um modo de confirmar a leitura, afinal de contas o poema versa sobre a situação de quem não quer enfrentar ou mesmo encarar a realidade dos rumores. Que, em contraponto ao certo eufemismo de peccare, o poeta fale de crimen dois versos depois, é uma maneira curiosa de mapear sua postura emocional, haja vista que embora ele se afaste da real intenção dos rumores, por outro ele os trata de maneira como que enfática, dizendo que são recriminações, que são acusações que recaem sobre ele e que lhe causam dor.

Não estou querendo, é claro, bater o martelo e afirmar que a amada da voz poética realmente o traía. Os rumores dizem que ela anda pecando; mas os rumores também dizem que o fim da prisão em segunda instância soltará Barrabás. No entanto, se por um lado é fato notório que os rumores envolvendo traição quase nunca são enunciados de forma direta, valendo-se, antes, de rodeios e rodeios que a um só tempo sugiram a verdade e aliviem o amante da dor, ou, pelo contrário, zombem dele às escondidas (ou seja, é quando alguém numa roda de amigos faz sinal de chifre quando o coleguinha atrasado finalmente chega), por outro não se pode negar que a acusação é séria o suficiente e demanda por parte de quem a recebe uma, se é que me entendem, investigação. Se o camarada, ao invés de buscar saber a verdade, pede pra que os rumores parem, então, no imaginário popular, ele passa a ser o que chamamos de “corno manso” ― não necessariamente no sentido de que sabe das traições e as aceita ou não lhes dá a devida importância, e sim no de que põe o rumor pra escanteio. Com uma atitude assim, o poema mapeia não apenas o drama pessoal do eu lírico como, ainda, o drama de sua imagem pública, afinal de contas embora a verdade dos fatos possa vir a ser muito doída, os rumores, lesivos à honra e à imagem pública do cornífero, podem ser até mais doídos.

A par deste quadro ricamente sugestivo, Tibulo dota seus versos de uma sonoridade magnífica. O dístico elegíaco foi muitíssimo bem recortado, com o pentâmetro respondendo o hexâmetro e demarcando as unidades de sentido. Se nos hexâmetros ele foca no rumor, dizendo do teor de seus murmúrios ou do fato de que machuca a voz lírica, nos pentâmetros ele passa a falar de si, desejando ser surdo ou questionando de forma doída (miserum, miserum!…) o motivo do rumor o assolar. O pedido enfático de Tace no final do poema parece adicionar aquela eficácia emocional a que Mathilde Skoie se refere, afinal de contas a atitude esboçada no pentâmetro anterior havia sido elusiva: querer ser surdo pra que não escutasse os rumores. Agora, pelo contrário, são os rumores que devem calar. Adicione-se a tal quadro a belíssima cadeia sonora dos hexâmetros, com aliterações sobressalentes, e temos, eu repito, uma legítima pièce de resistance.

Ora: poema bom assim não passa incólume pelo olhar afoito dos tradutores. E realmente. A elegia de Tibulo foi alvo de interessantíssimos experimentos tradutórios saídos da pena de Guilherme Gontijo Flores e de João Paulo Mateldi Alves. O primeiro, num artigo de 2011, realizou nove traduções para a elegia de Tibulo, o que foi seguido pelo segundo em sua tese de doutorado em 2014, onde, ao traduzir algumas elegias do corpus tibuliano, chega a um total de dez versões. E veja o leitor que o trabalho da dupla dinâmica, mais do que contemplar aspectos variados do original, contempla-os de variadas maneiras, criando uma espécie de leque de abordagens possíveis. Com isto demonstram, de maneira virtuosística, que a tradução não lança seus mil e um tentáculos apenas nas múltiplas interpretações que todo poema é passível de receber ou nas múltiplas tentativas que os tradutores fazem de abarcar as várias características do original: demonstram, mais ainda, que todo tradutor parte, utiliza e modela um horizonte linguístico e artístico. Veja, neste sentido, o que Guilherme faz ao besuntar de sabor árcade duas de suas versões: mais do que simples roupagens distintas, elas encarnam um horizonte vocabular e técnico diverso.

Bastante deslumbrado com o espetáculo que realizaram, cometi duas traduções, a segunda já entrando no espírito com o intuito de sugerir qualquer coisa de toscamente classicizante onde o dístico elegíaco se transmuta num par de decassílabos heroico e sáfico, respectivamente (a mesma proposta feita por Rafael Falcón anos atrás ao traduzir uma elegia de Propércio). Não sei se fui feliz em alguma delas, muito embora tenha tentado, na primeira, manter alguns dos intrincados procedimentos textuais da elegia, por exemplo suas aliterações ou o fato de que se dispõe segundo uma composição em anel (ringkomposition), isto é, começa com a barulheira do Rumor e termina com um basta: Tace. De todo modo, remeto o leitor ao trabalho dos dois, aqui (também incluso no Algo Infiel, onde o Guilherme exclui os comentários para cada uma das versões e muda o nome de algumas, mudanças essas que incluí em colchetes) e aqui.

Matheus Mavericco

* * *

III. 20

Rumor ait crebro nostram peccare puellam:
…….nunc ego me surdis auribus esse uelim.
crimina non haec sunt nostro sine facta dolore:
…….quid miserum torques, rumor acerbe? tace.

§

traduções de
GUILHERME GONTIJO FLORES

tradução semântica prosaica

O rumor diz que com freqüência a minha amada me trai:
…….agora eu gostaria de ser surdo.
Estas acusações não são feitas sem que eu sinta a dor:
…….por que perturbas um miserável, ó rumor acerbo? Cala-te

*

quadras populares

Muitas vezes um rumor
afirma que a minha amada
andou perdendo o pudor,
que andou perdida e bem dada:

nessas horas eu queria
perder toda a audição.
Cada coisa que eu ouvia
me doía o coração:

mas por que, rumor cruel
você não volta pra toca,
deixa o velho menestrel
e cala a maldita boca?

*

à moda do século XVII

Sempre o rumor acusa a minha amada
de pecar noutros braços, descarada:
quisera ser um surdo neste luto;
pois confesso que a cada vez que escuto
as tais acusações a dor me toca:
ah, rumor desgraçado, cala a boca!

*
terceto quebrado [terceto árcade]

O rumor diz que peca a minha amada
Neste momento, o que eu mais queria
Era não mais ouvir.

Não é sem dor que escuto tantos crimes.
Por que perturbas este miserável,
Rumor maldito? Cala-te!

*

versos núnicos e um pentâmetro aproximado

Sempre o rumor me sussurra que a minha querida me trai:
…….hoje eu queria ficar surdo p’ra tudo que dizem.
Eu não recebo sem dor as notícias das acusações:
…….cruel rumor, o que quer deste coitado? Então cale-se!

*

dístico elegíaco alemão

Sempre o rumor sussurra os pecados da minha menina:
…….hoje eu queria ser surdo de todo esse mal.
Não é sem dor que escuto várias acusações.
…….Tu, que queres de mim? Cala-te, rude rumor!

*

mescla entre tradução francesa e lusa [mescla franco-lusitana]

Rumor me diz que a minha amada sempre peca:
hoje eu queria me fazer de surdo.
Não escuto sem dor as tais acusações:
que queres, ó rumor maldito? Cala!

*

recriação marginal [transcriação marginal]

fofoca espalha
…….o quanto
…….…….trepa
…….minha menina
– ela se faz de louca, cai de boca, abrindo as pernas
…….é uma nova Messalina –
…….e eu poderia dar uma de surdo
…….…….ou puxar a navalha
…….…….…….e arrancar umas tripas
…….mas calúnias me caem doídas

pra que me entortar,
…….fofoca sem fundo?
pois cala essa boca!

*

desleituras em série [tradução sonora, método Zukofsky]

A – Rumor, ai!, como peca a nossa puella:
Nunca meu ego surdo haure esse velo!
e crimes não desfazem minha dor.
B – O que retorce o mísero? um rumor de acerto?
A – Cale-se!

§

traduções de
JOÃO PAULO MATELDI ALVES

Voz vezeira os pecados diz de minha amada:
…….agora, quem me dera ouvidos surdos.
Ofensas tais não são senão meu sofrimento:
…….por que o infeliz afliges, voz acerba? Cala!

*

Um rumor incessante diz que minha
menina mente: quem me dera agora
ser surdo. Tais ofensas não me fazem
senão enorme dor: rumor acerbo,
por que torturas um maldito? Cala-te!

*

Minha garota, diz a voz, me engana:
agora, quem me dera ouvidos surdos.
Ofensas tais provocam minha dor:
por que, atroz voz, me crucificas? Cala-te!
*

Voz vivaz injuria os meus amores:
quem dera ter ouvido surdo agora.
Tais calúnias provocam minhas dores:
por que (basta!) torturas sem demora?

*

Voz sem fim diz que meu amor me engana:
quem dera ouvidos surdos a tal fama.
As ofensas provocam dor feroz.
Por que a tortura? Cala!, voz atroz.

*

Rumor contínuo diz que mente a minha amante:
quem dera eu ter de injúrias uma audição casta.
Essas calúnias me provocam dor constante.
Por que, cruel rumor, crucificas-me? Basta!

*

Voz vezeira de minha amada as faltas fala.
Quisera eu ter ouvidos surdos nesse instante,
para de dores tais não ter um tal montante.
Por que torturas um maldito, atroz voz? Cala!

*

Rumor constante diz que minha amada mente:
…….quem dera ouvidos surdos a tal fel.
Essas ofensas me provocam dor frequente.
…….Por que a tortura? Cala!, voz cruel.

*

Falácia
sem cessar fala
que mente a minha amada.
Agora
quisera eu ter ouvidos surdos:
de calúnias são feitos sofrimentos.
Por que torturas um maldito, voz vivaz?
Cala-te.

*

Um rumor corre em Roma: que nostram puellam
que Tibullus
amou mais que a si e todos os seus,
agora nos becos e encruzilhadas
descasca os filhos de Remo magnânimo.

Quem dera nunc estar ouvidos surdis:

Crimina non haec sunt nostro sine facta dolore:
por que torturas um miserum, acerbe rumor?

“Há que amar e calar.
Ela tece, dobrando-lhe o amargor,
outra forma de amar no acerbo amor.”

Tace!

§

traduções de
SERGIO MACIEL

À boca miúda corre que minha mina dá
…….pra outro: tem como ser surdo? Queria.
Calúnia assim é dor mais que doída:
…….quer me foder, fofoca? Vá pra porra.

*

Diz o boato que minha menina me trai:
…….eu queria ser surdo que nem uma porta.
Porque me dói demais e tanto esta perfídia:
…….que coitado torturas, rumor atroz? Para.

§

traduções minhas

Um murmúrio há muito diz que ela anda pecando:
…….agora era bom ter ouvidos surdos.
Não se incrimina assim sem que me inflijam dor:
…….por que, murmúrio, assola um reles? Cale-se!

*

Rumores há que minha Dama é enganos:
Ensurdecer-me era melhor ajuda.
Censuras, nada não sendo que danos,
Por que a um ninguém amofinar? Caluda!

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tradução

Badminton, de Luis Eduardo García, por Rodrigo Milan

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Luis Eduardo García (Guadalajara, México, 1984) é autor de “Dos estudios a partir de la descomposición de Marcus Rothkowitz” (Tierra Adentro, México, 2012; Libros Tadeys, Chile, 2015), “Una máquina que drena lo celeste (Zindo & Gafuri, Argentina, 2014), “Armenia” (filodecaballos, México, 2016), “Mis poemas Alt Lit” (Libros del Pez Espiral, Chile, 2017), “Dhigavostov” (Luzzeta Editores, México, 2018) e “Bádminton” (Libros Tadeys, Chile; Electrodependiente, Bolivia, 2018), onde foram publicados originalmente esses poemas. É um dos organizadores do arquivo virtual de poesia mexicana contemporânea “Poesía Mexa”. Foi vencedor do Premio Nacional de Poesia Joven Elías Nandino (Secretaria de Cultura do México, 2012) e do Premio Hispanoamericano de Poesia para Niños (Fundación para las Letras Mexicanas – Fondo de Cultura Económica, 2017).

Badmínton é um livro que avança por caminhos estranhos. É naturalista, é surrealista, às vezes é uma crônica, outras é um relato biográfico. Esse acumulo de formas flexíveis é possível em grande parte porque ninguém sabe bem o quê é o badmínton: ele é uma quadra, é uma raquete, é um volante.Mas também é um portal para transitar em outros campos da vida, tal como Luis Eduardo García tenta ao longo dos seus poemas.

————

Rodrigo Millan (Santiago, 1985) é sociólogo e doutor em arquitetura e urbanismo, pela Universidade de São Paulo. Também é tradutor de trabalhos de ciências humanas e arquitetura. Nos últimos meses participou da edição uruguaio-brasileira de “Fascismo: definição e história”, de Luce Fabbri (Tenda de Livros – Publication Studio São Paulo – Microutopias), e traduz “A utopia urbana”, do antropólogo Gilberto Velho, para a editorial chilena Bifurcaciones.

* * *

 

O badminton é parecido
à música
mas não é música.
É parecido aos cavalos
mas não é um cavalo.

Às vezes, nos seus retângulos
cai algo parecido
à chuva
mas
claro

não é chuva.

El bádminton se parece
a la música
pero no es música.
Se parece a los caballos
pero no es un caballo.

A veces, en sus rectángulos
cae algo parecido
a la lluvia
pero
por supuesto

no es lluvia.

§

 

3. Pontuação (simples)

3.1. O jogador A deve bater o volante com todas suas forças. Se consegue atingir o olho esquerdo do jogador B, ganha dois pontos; se não o faz, perde três.

3.2. A partida continua até que algum dos jogadores consiga os 21 pontos.

3.3. O perdedor é sepultado até o pescoço na floresta mais próxima e deixado ali durante dois dias.

3. Puntuación (individuales)

3.1 El jugador A debe golpear el volante con todas sus fuerzas. Si logra atinar al ojo izquierdo del jugador B, logra dos puntos; si no lo hace, pierde tres.

3.2 El partido continúa hasta que alguno de los jugadores alcance los 21 puntos.

3.3 El perdedor es enterrado hasta el cuello en la zona boscosa más cercana y abandonado ahí por dos días.

§

 

Tem algo na natureza
do badminton
que impede ele se transformar em mercadoria?

ou tudo tem relação
com que é mais chato que um idoso
cortando a grama de um campo de golfe
com um alicate de corte?

Essa limitação
é irremediável

ou as coisas mudarão
quando os designers
por fim descubram a embalagem certa?

¿Hay algo en la naturaleza
del bádminton
que le impide volverse mercancía

o todo se debe
a que es más aburrido que un anciano
podando una cancha de golf
con unas pinzas de corte?

¿Esta limitación
es insalvable

o las cosas cambiarán
cuando los diseñadores
al fin encuentren el empaque adecuado?

§

 

Talvez
seus movimentos
ativam algo
que resiste ser trocado.

Uma rachadura
que podemos só
observar.

Quizá
sus movimientos
activan algo
que se resiste a ser intercambiado.

Una grieta
que sólo podemos
observar.

§

 

Meu sonho
é demolir o badminton
e construir um supermercado sobre suas ruínas.

Meu sonho
é destruir o supermercado
e construir de novo o badminton.

Mi sueño
es demoler el bádminton
y construir sobre sus ruinas un supermercado.

Mi sueño
es destruir el supermercado
y volver a edificar el bádminton.

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xanto

XANTO | Jogo perigoso: aumentar as ideias no coração dos alegres, por Ana Luiza Rigueto

“Qual é o perigo?”, foi a pergunta dirigida a Adília Lopes durante uma entrevista em 2005, em referência ao título de seu primeiro livro, “Um jogo bastante perigoso”, publicado em Portugal vinte anos antes (com primeira edição no Brasil pela Editora Moinhos, 2018). Adília responde que “viver é perigoso”. O jornalista Carlos Vaz Marques insiste, “e a poesia?”. Então ela assente, pois “custou a cabeça de muita gente”.

Adília Lopes já mencionou que é “gasosa” a sua parte poeta, a persona que escreve. Algo volátil, expansiva, alegre. Não o alegre do “Sorriso Maravilhado Parvo”, como escreve Gonçalo M. Tavares no poema Sobre a alegria, em seu “O livro da dança”, mas o alegre alegre, cujo “coração bate no meio do jogo, aumenta as/ Ideias dos alegres, as ideias dos alegres são o coração.”

Em “Use um alicate agora”, livro de estreia da poeta santista Natasha Felix, publicado em 2018 pelas Edições Macondo, há um poema intitulado “Um jogo perigoso”. No poema, lídia opera o gesto de espremer espinhas/degolar cabeças, “é rainha de copas”.

UM JOGO PERIGOGO
Natasha Felix (íntegra)

1.
lídia espreme espinhas no elevador
é rainha de copas degola cabeças
inclina 45 graus à esquerda isso facilita
aproxima o corpo violenta o corpo isso facilita

2.
j. olha para lídia como não olha para mim
lídia olha para j. como olha o gato empalado na
avenida. j. pensa lídia até que bonita.
esforçadamente bonita. lídia deixa de olhar
j. e passa a olhar os calos das próprias mãos.
eu olho j. como j. não olha lídia. não posso
olhar lídia como olho j. jamais. olho j. como
crescem os calos como morrem os gatos
como os pés se perdem no chão.

3.
não há maneiras de j. existir além da pele

Em “As aventuras de Alice no país das Maravilhas”, de Lewis Carroll, publicado em 1865, no Reino Unido, o capítulo O campo de croqué da Rainha começa assim: “Uma grande roseira branca crescia junto à entrada do jardim; suas flores eram brancas, mas três jardineiros estavam à sua volta, pintando-a de vermelho.” É que as rosas brancas foram plantadas por engano, e se a Rainha descobrisse, eles teriam as cabeças cortadas. A Rainha chega e Alice é convidada, então, para o jogo de croqué. Recebe um flamingo, que usará de bastão para acertas as bolas, que são ostras. Logo o jogo lhe parece muito difícil, pois tudo nele é vivo e ninguém respeita as regras. Além disso, de minuto em minuto, a Rainha ordena “cortem a cabeça dele!”, ou “cortem a cabeça dela!”

É engraçado pensar que o poema de Natasha Felix se refira simultaneamente a “Um jogo bastante perigoso” e a “Alice no país das maravilhas”. Como quem, vendo a maravilha no perigo do jogo, assume o risco – deixar a lâmina conhecer a pele implica no corte.

“Jogo” pode querer dizer uma atividade de divertimento, uma prática esportiva, um conjunto de peças e instrumentos ou mesmo uma aposta. Pelo conjunto de ações, tempos e afetos envolvidos nessas práticas é que talvez os sentidos de “jogar” sejam comumente aproximados ao de “relacionar-se” com alguém.

No poema de Natasha, lídia “inclina 45 graus à esquerda isso facilita/ aproxima o corpo violenta o corpo isso facilita”. Como rainha de copas ela está de algum modo acima das regras, detém o poder da execução. A ação imposta ao corpo e a ênfase no método remetem ao jogo de poder, dominação e violência a que são submetidas as mulheres e seus corpos – dados do dossiê do Instituto Patrícia Galvão, organização feminista de comunicação, indicam que uma mulher é vítima de estupro a cada 9 minutos. No poema, a violação da pele na degola da espinha desdobra, pela linguagem, o que pode afetar um corpo de mulher.

Na segunda parte do poema, j. é um homem mas também a letra que abrevia a palavra “jogo”. lídia deixa de olhar j. para olhar calos em suas mãos. A trivialidade de lídia transitando entre violência e tédio torna-se um procedimento banal. j. chega a lembrar-lhe um gato na avenida atravessado por uma estaca de aço. É com indiferença que, dessa imagem, lídia se volta pros seus calos – formados nas mãos pela mecânica violenta do atrito.

Para j., “lídia até que bonita./ esforçadamente bonita”. Ainda que lídia o encare (ou o deixe de encarar) com violenta indiferença, ele a fita com espécie de “simulacro de prazer”, como escreve Adília em outro poema de seu “Um jogo bastante perigoso”. Como se j. (o homem ou o jogo) fosse esvaziado de ideias, coração sem batimentos ou alegria real, um homem parvo.

Há um terceiro elemento neste poema, o “eu” que toma parte da cena – jogo de olhar e não ser olhado, ou não ser correspondido. Esse eu olha j. “como/ crescem os calos como morrem os gatos/ como os pés se perdem no chão.” Ou seja, olha para ele com a mesma violência com que são feitos os calos, empalados os gatos e derrubado o corpo que por um momento perde o chão. Sem corresponder o olhar que j. lhe dirige, lídia recusa o movimento erótico: j. fixa nela, objeto a ser consumido, seu narcisismo. Evidencia-se, então, a ausência do desejo. Na terceira parte do poema, com o verso “não há maneiras de j. existir além da pele”, j. sustenta uma satisfação sem mediação ou interlocução, voltada a si mesmo, nos limites de si, sobre a própria pele.

Voltemos ao livro de Adília, para o poema chamado A rosa com bolores. Nele, Adília fala de um ramo de rosas, natureza morta, que tem sempre perto de si. Em momentos raros, acontece de um bolor pousar nas pétalas das rosas. O gesto parece evocar a questão de eros – ou a agonia de eros, como descreve o filósofo alemão nascido na Coréia do Sul, Byung-Chul Han, no livro “Agonia do Eros”, publicado pela Editora Vozes em 2017. O que aparentemente seria o início de uma paixão converte-se em desaparecimento do outro.

AS ROSAS COM BOLORES
Adília Lopes (trecho)

é muito raro
mas eu gosto de coisas preciosas
e sou paciente
deixo de dormir
para observar o crescimento
desigual e lento do bolor
a pouco e pouco o bolor
vai cobrindo a pele da rosa
ou antes
alimentando-se da pele da rosa
adquire o feitio da rosa
não está por baixo do bolor
desapareceu
é preciso estar sempre atenta
porque no instante em que
o bolor não pode alastrar mais
a não ser alastrando-se sobre
si próprio
e alimentando-se de si próprio
ou seja suicidando-se
naquele acto de infinito amor
por si próprio
que é afinal todo o suicídio

Não se trata de uma relação com a radical singularidade do outro. Mas uma busca de satisfação narcisista que se esgota pelo desdobramento a partir de si, para si. O excesso de proximidade que culmina no desaparecimento da pele da rosa, prevalecendo a “pele” do bolor, essa eliminação absoluta da distância entre um “eu” e um “outro”, também está presente no poema de Natasha Felix: a existência de j. só é possível pela pele – a sua própria. Para Byun Chul Han, “não se pode amar o outro a quem se privou de sua alteridade; só se poderá consumi-lo.”

Depois de observar a rosa ser consumida pelo bolor e beijá-la a boca antes que desaparecesse para sempre, Adília encerra o poema como quem assistiu a tediosa reprise de um programa na TV, avisando que vai dormir: “porque estou muito cansada/ as rosas com bolores cansam-se”.

Adília e Natasha parecem tomar parte da mesma circunstância – aquilo que seria uma crise de eros – mas de modo distinto. Adília detecta e assiste aos jogos com certo enfado, e oscila entre encanto e renúncia momentânea. Natasha participa dos jogos, entra na cena e através da experiência supõe sua lógica. Há, em ambas as poetas – poetisas, como prefere Adília – uma erótica que se performa através da linguagem, seja pela afirmação do corpo adentrando a cena seja por alusão de sentido às relações travadas.

Parecem convocar a pensar o lugar do corpo entre coisas e em que medida é preciso proteger-se, um pouco reverberando os versos do “Poema sujo”, de Gullar, em que ele diz: “-Que faço entre coisas?/De que me defendo?”. Adília e Natasha não ditam a melhor maneira de “jogar”. Tampouco parece uma opção evitar os riscos que esse movimento implica. Ser “gasosa” e arriscar a própria pele seriam, necessariamente, topar com o outro e, nisso, aumentar os batimentos e as ideias no meio do coração dos alegres. Eis um perigo.

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#nãovaiterlista

snoopdogg

como somos absolutamente fora do tempo, nossa lista de leituras de 2019 sai apenas em 2020. de todo modo, é interessante esse descompasso porque assinala a proposta dessa nossa lista: uma lista de afetos, não dos melhores. a ideia foi passar ao largo daquilo que se propõem as listas mercadológicas ao listarem os melhores do ano. os nossos escolhidos, aqui anônimos na decisão de cada editor, se estabelecem antes graças ao afeto provocado nas leituras. são nossos vinte livros que de algum modo nos foram queridos em 2019. isso inclui primeiras leituras ou releituras. nossa intenção era apenas mapear escolhas que nos guiaram ao longo do ano passado.

cada editor escolheu cinco livros, sujeitos à aprovação coletiva. sem a indicação dos nomes, a lista fica sujeita à interpretação do leitor na atribuição dos títulos a cada um de nós. o caos das leituras, o caos do amor, o caos das palavras, o caos: assim foi 2019, assim pretendemos que seja 2020.

sem mais, a lista.

* * *

Contra um bicho da terra tão pequeno, de Érico Nogueira

adão aparas, de Ismar Tirelli Neto

Confissões, de Santo Agostinho

V, de Toni Harrison

Fia, de Jussara Salazar

Paradiso, de José Lezama Lima

O Mestre e Margarida, de Mikhail Bulgákov, trad. de Irineu Franco Perpetuo

Canção de ninar com fuzis, de Pádua Fernandes

Os nagô e a morte, de Juana Elbein dos Santos

Popol Vuh: o esplendor da palavra antiga dos Maias-Quiché de Quauhtlemallan: aurora sangrenta, história e mito, trad. de Joseph Viana

Ensaios de Possessão (irrespiráveis), de Ana Chiara

Ardis da imagem: exclusão étnica e violência nos discursos da cultura brasileira, de Edimilson de Almeida Pereira e Núbia Pereira de Magalhães Gomes

casamata, de Raïssa de Góes

estirâncio, de Mariano Marovatto

The Undercommons: Fugitive Planning & Black Study, de Fred Moten

Literatura indígena brasileira contemporânea: criação, crítica e recepção, de Julie Dorrico; Leno Francisco Danner; Heloisa Helena Siqueira Correia; Fernando Danner (Orgs.)

Parábola do semeador, de Octávia Butler

Mar, de Ana Miranda

A dolorosa raiz do micondó, de Conceição Lima

eu construía a barricada, de Anna Świrszczyńska, trad. de Piotr Kilanowski

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tradução

John Wieners (1934-2002), por Rafael Mantovani

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John Wieners, New York, Novembro de 1993. Foto: Allen Ginsberg.

John Wieners (1934 – 2002) foi um poeta estadunidense associado à geração Beat. Nascido numa família de classe média-baixa no Massachusetts, partiu muito jovem para a Costa Oeste e teve uma vida errante por vários anos, participando de comunidades experimentais de poetas, dentre as quais o Black Mountain College.

Seu primeiro livro, The Hotel Wentley Poems — escrito aos 24 anos, supostamente em menos de uma semana, logo após o rompimento com um homem que ele ainda amava — foi publicado em 1958 e recebeu atenção já na época, entre outros motivos, por sua franqueza e antimoralismo no trato com a homossexualidade e o uso de drogas. Nos mais de dez livros que publicou desde então, seus poemas dão corpo a um nomadismo corajoso e melancólico, presenciando a vida noturna de San Francisco com seus artistas boêmios, restaurantes chineses e bares queer, as visões conduzidas pela heroína e outros psicoativos, os amantes masculinos como entidades de força e revelação — tanto em paixões duradouras quanto no prazer clandestino e estigmatizado do cruising em ruas, banheiros e cenários escondidos do habitat urbano. Nesses contextos o amor aparece sobretudo como devoção, transporte para o êxtase e também para o sofrimento extremo, abarcados numa linguagem explicitamente religiosa como explicitamente sexual.

Por seus encontros com a loucura e sua pouca aptidão ou interesse por propósitos práticos (como manter empregos que lhe forneciam renda), Wieners passou grandes partes da vida em penúria financeira e instabilidade mental, sendo internado algumas vezes em instituições psiquiátricas e vivendo com o apoio de amigos.

Conviveu com (e era admirado por) poetas como Robert Creeley, Frank O’Hara e Allen Ginsberg, embora não tenha recebido — nem em vida, nem (ainda) na posteridade — a difusão e reconhecimento que sua obra fascinante merece. O único material um pouco mais extenso (que encontrei) sobre sua vida e seu trabalho é uma reportagem de Pamela Petro publicada em 2000 na Boston College Magazine (clique aqui).

Rafael Mantovani

* * *

Cocaína

Porque eu vi o amor
e o rosto dele é Heart of Hearts do mais seleto,
carne de puro fogo, fundindo-se a partir do centro
onde todo Movimento é um.

E conheci
o desespero de que o Rosto parou de olhar
para mim com a Rosa do mundo
mas sim está encolhido

num paraíso artificial onde entrar é um Inferno.
Se eu soubesse que você está aí
cairia de joelhos e imploraria a Deus
para te entregar de novo nos meus braços.

Mas é estupidez tentar.
Só o que se pode é tomar medidas para diminuir a tristeza,
confundir as sensações para que este Rosto,
o que dói no coração e faz cada re-

começo menos perto da fonte do desejo,
se dissipe da carne que incendeia a noite,
com sonhos e vontade infinita.

Cocaine

For I have seen love
and his face is choice Heart of Hearts,
a flesh of pure fire, fusing from the center
where all Motion is one.

And I have known
despair that the Face has ceased to stare
at me with the Rose of the world
but lies furled

in an artificial paradise it is Hell to get into.
If I knew you were there
I would fall upon my knees and plead to God
to deliver you in my arms once again.

But it is senseless to try.
One can only take means to reduce misery,
confuse the sensations so that this Face,
what aches in the heart and makes each new

start less close to the source of desire,
fade from the flesh that fires the night,
with dreams and infinite longing.

§

 

As Garbos e Dietrichs

Deslizando feito um sonho por Ibiza
cruzando as cidades noturnas do mundo
comprando os sonhos dos homens/e seus corações
para pendurar nos camarins, quantos enfeites
para vestir no jantar, em suntuosas ceias egoístas —

este pecado não se vê à luz de velas, os filhos delas
não ouvem esse grito na noite, curiosas gravidezes
abortos não contam, rostos despedaçados
corações arrancados abandonados no porto
quando seus navios partem.

Estou falando de suicidas lançados à corrente.
De remédios para dormir que acalmam a dor da mente.
De amantes que elas assassinaram, tão condescendentes.
Tudo para continuarem belas e não verem
Os homens que viraram porcos na sua frente.

The Garbos and Dietrichs

Moving like a dream through Ibiza
through midnight cities of the world
buying dreams of men/and their hearts
to hang at dressing tables, how many ornaments
to wear for dinner, or selfish supper parties —

this sin does not show by candlelight, their children
do not hear that cry in the night, odd pregnancies
abortions are not counted, smashed faces
wrenched hearts left behind at harborside
when their ships pull out.

I speak of suicides, men dropped at tide.
I speak of sleeping pills that still our aching mind.
I speak of lovers they murdered because they are so kind.
Anything to stay beautiful and remain blind
To those men they turn into swine.

§

 

Ato nº 2

para Marlene Dietrich

Levei o amor para casa comigo,
nós picamos noite adentro e
afundamos num clarão ardente.

¼ grão de amor
………………………..que tínhamos,
2 homens numa cama de campanha, uma manta
de seda e um pano verde
cobrindo o abajur.
………………………..A música era perfeita.
Chupei ele que nem uma sinfonia
…………..que flutuava e
………………………..ele desceu
a rua comigo e
………………………..me deixou ali.
3 da manhã. Nenhum sinal.

só uma van subindo
a Van Ness Avenue.

Nunca foi assim na Foster’s.

Vou caminhar para casa, subindo
……………os mesmos morros que
………………………..descemos.
Ele nunca vai voltar,
……………não vai ter cavalo
……………amanhã nem beque
………………………..hoje para fumar até o amanhecer.

Ele foi embora e levou
minha morfina
Oh Johnny. Mulheres na
noite gemem o seu nome

Act #2

for Marlene Dietrich

I took love home with me,
we fixed in the night and
sank into a stinging flash.

¼ grain of love
………………………..we had,
2 men on a cot, a silk
cover and a green cloth
over the lamp.
………………………..The music was just right.
I blew him like a symphony,
……………it floated and
………………………..he took me
down the street and
………………………..left me here.
3 AM. No sign.

only a moving van
up Van Ness Avenue.

Foster’s was never like this.

I’ll walk home, up the
……………same hills we
………………………..came down.
He’ll never come back,
……………there’ll be no horse
……………tomorrow nor pot
………………………..tonight to smoke till dawn.

He’s gone and taken
my morphine with him
Oh Johnny. Women in
the night moan yr. name

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poesia

Caio Augusto Leite (1993-)

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Caio Augusto Leite nasceu em São Paulo em 1993. Mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP). Integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne. Tem dois livros publicados: Samba no escuro (2013, Scortecci) e A repetição dos pães (2017, Editora 7Letras). Além do livro de contos Terra trêmula, no prelo.

* * *

I.
Nesse silêncio de frutas
Ainda sem verão
Sinto a próxima chuva
Pelo cheiro que a terra emana
Pela secura da terra selvagem
Das flores ainda fechadas
Das flores sem flores ainda
A lembrança de outros verões
Mais turbulentos
A nenhuma saudade de um dezembro
Antigo como a fome de querer ter tudo
De ser tudo e como dói pouco não ter
Não ser e não estar chovendo
Para que eu assim mesmo me alegre
Como os melões e as uvas áridas
Pois trazem dentro a água futura
A mesma de sempre e renovada
Em ácidas e doces suculências
Nas sementes secretas
Nos pátios de linóleo manchados
De sumo roxo e o coração em ritmo
Suave e flexível batendo cabendo
No que a vida dá e que colho não depois
Não como antes mas já nessa umidade
Prevista entre os dedos a unidade
Do universo em meu nome e antes dele
No sal do deserto a partilha se faz
Como se nunca não se fizesse
O pra sempre é aqui já nesse momento:
Primitivo, derradeiro
II.

os dias que amanhecem tristes
nada têm de tristes são
os sentidos que pousam
como pássaros na árvore
nada tem de pássaro a árvore
no entanto pensamos neles
quando vemos florestas
e quando crianças desenhamos
pássaros pousados começamos
pela árvore nunca pelo pássaro.

III.
as mãos se relacionam
e se amam ou se odeiam
quanto mais ou menos
se enxergam

quanto mais ou menos
se entregam ao mistério
além das próprias semelhanças
além das unhas e dos dedos

quanto mais ou menos
inauguram gestos concretos
entre si amenos e pacíficos
cheios de alegria

se odeiam ou se amam
quanto mais ou menos
se unem para a falácia
das sombras projetadas na parede
sob uma luz triste e fraca
uma imagem fixa e falsa

as mãos se amam ou se odeiam
quanto mais ou menos
se procuram no escuro
e se iluminam de dentro pra fora

se amam ou se odeiam
quanto mais ou menos
deixam de caçar passados
e tatear futuros

quanto mais ou menos
perfuram o agora

as mãos se odeiam
quanto mais se odeiam
em vício, tristeza
e servidão

as mãos se amam
quanto mais se amam
e alegres dançam
leves aves libertas

IV.
os poetas trapaceiam
passeiam entre trapos
inventam tramas e vendem
livros cheios de arabescos
fingem que são outros
mas lá dentro onde um homem
se olha no lago e se afoga
ali na linha de uma costura
que antes de longe nem parecia
pendurados na paredes
se ocultam óbvios na tapeçaria

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