poesia, tradução

Ilíada de Homero, por Leonardo Antunes

battle-scene-from-a-manuscript-of-homer-iliad-c300-ad-biblioteca-ambrosiana-d969gg

Há muito tempo brinco com a ideia de traduzir a Ilíada. Foi por onde comecei meu trajeto nos Estudos Clássicos, numa longa e extremamente profícua Iniciação Científica sob a orientação do Prof. Christian Werner (de 2002 a 2004).

Àquela época, traduzi metade do Canto II usando um hexâmetro dactílico aos moldes de Carlos Alberto Nunes, cuja tradução sempre foi uma grande inspiração para mim.

Mais recentemente, há uns quatro anos, tentei um verso bárbaro de 14 sílabas, mas sem muito sucesso.

Em seguida, no final de 2017, fiz um experimento com o hexâmetro dactílico conforme Guilherme Gontijo Flores, Rodrigo Gonçalves e Marcelo Tápia o usam, permitindo a permuta de dáctilos por troqueus/espondeus. Apesar de o resultado ser excelente para a performance cantada, notei que a maioria das pessoas não consegue perceber o ritmo do texto ao lê-lo escrito. Com isso, perde-se muito da sonoridade do verso. Como é improvável a performance do texto inteiro, fiquei um pouco desmotivado de seguir por esse caminho (até porque já temos a tradução do Nunes, que serve para a performance).

Por conta disso, decidi que faria uma tradução em algum metro vernáculo canônico, mais propício à leitura. Escolhi o decassílabo por ser, por tradição, o metro mais solene em nossa língua. Para dar conta do conteúdo semântico e estético do hexâmetro grego, muito mais longo, decidi que faria dois decassílabos para cada hexâmetro. Com isso, mantém-se uma equivalência, que permite a fácil consulta entre o texto de partida e o texto de chegada (o que seria mais difícil se eu fosse traduzindo cada hexâmetro por quantos decassílabos julgasse necessários).

Usando essa solução, tenho buscado fazer uma tradução que seja fluente, clara e com boa estruturação formal e sonora dentro do verso. Ainda que já tenhamos excelentes traduções, considero que nenhuma possua sozinha esse conjunto de qualidades. (Penso que a de Haroldo de Campos é a mais bela e inventiva, ainda que à custa de um distanciamento do texto grego; a de Nunes é um pouco mais próxima, bastante sonora, mas cheia de hipérbatos, vocabulário antigo e formulações pouco fluentes para o leitor contemporâneo; a de Odorico Mendes tem as mesmas qualidades e problemas da de Nunes, mas em graus ainda superiores; a de Lourenço é muito fluente e clara, mas tem pouca preocupação formal; a de Werner é a mais atenta ao texto grego, mas tem pouca fluência e preocupação formal; etc.)

Enfim, a convite do gentilíssimo Sergio Maciel, apresento dois trechos de minha tradução.

Primeiro, o proêmio e os versos seguintes (vv. 1-52), até a cena em que Apolo lança suas flechas no exército aqueu, uma passagem que conto entre as mais poeticamente marcantes do poema. Depois, o trecho em que Odisseu chega em Crisa levando Criseida de volta a Crises (vv. 439-474). O churrasco após o sacrifício foi inesperadamente difícil de pôr em verso.

 

Leonardo Antunes

* * *

 

Ira de Aquiles, filho de Peleu,
deusa, concede que eu celebre em canto,
ira fatal que aos acaios impôs
uma miríade de sofrimentos;
muitas almas de força e valentia
fez descender para a casa de Hades;
almas de heróis cujos corpos sem vida
relegou como espólio para os cães
e de banquete às aves de rapina.
Assim cumpria-se o plano de Zeus
desde o primeiro momento em que os dois
por força da discórdia se apartaram,
o Atrida, soberano de varões,
e o filho de Peleu, divino Aquiles.
Quem dentre os deuses incitou os dois,
por meio da discórdia, a contenderem?
Foi o nascido de Leto e de Zeus,
que, movido por raiva contra o rei,
fez com que sobre o exército avançasse
terrível peste – o povo perecia –
por motivo de o sacerdote Crises
ter sido desonrado pelo Atrida.
Isso ocorreu no dia em que ele fora
até as rápidas naves aqueias
a fim de libertar a sua filha,
carregando um resgate imensurável
e tendo em suas mãos sinais divinos,
lauréis de Apolo, flecheiro infalível,
entrelaçados em seu cetro de ouro.
Pedia para todos os aqueus,
mas sobretudo para os dois Atridas,
comandantes de povos e varões:
“Filhos de Atreu e vós outros aquivos,
guerreiros de cnêmides bem-feitas,
que para vós concedam os divinos,
possuidores de olímpicas moradas,
saquear a priâmea cidadela
e ter um bom retorno para casa.
Mas libertai minha filha querida,
aceitando os resgates que vos trago.
Sede tementes ao filho de Zeus,
o arqueiro de infalível mira, Apolo.”
Nisso, os outros acaios aclamaram
com jubilosos gritos o discurso:
que o sacerdote fosse respeitado
e que se recebessem os resgates.
Somente ao filho de Atreu, Agamêmnon,
isso não alegrava o coração.
Terrivelmente rechaça o ancião
e o manda embora com grave discurso:
“Que eu não te encontre novamente, velho,
junto das côncavas naves aqueias,
nem agora tardando em retirar-te
nem mais tarde voltando para cá.
De nada poderão te auxiliar
esse teu cetro e as insígnias do deus,
pois eu não a libertarei jamais
antes de lhe sobrevir a velhice
dentro do meu palácio, lá em Argos,
muito longe da terra de seu pai,
frequentando o tear a cada dia
e me encontrando ao leito a cada noite.
Agora parte! Não me encolerizes,
que assim talvez tu salves tua vida.”
Assim falou. O velho, amedrontado,
obedeceu às ordens recebidas.
Partiu calado, caminhando só
junto das dunas do mar murmurante.
Depois que se afastou do acampamento,
o velho então rezou com grande empenho:
“Apolo, meu senhor, tu que nasceste
de Leto, de belíssimas madeixas,
escuta minha prece, do arco argênteo,
tu que zelas solícito por Crisa
e por Cila, terreno consagrado,
e que em Tênedo reges com poder.
Esminteão, se alguma vez outrora
ergui um belo templo para ti,
ou se acaso eu alguma vez outrora
queimei ossadas de coxas com banha,
ossos de coxas de touro ou de bode,
concede para mim o que desejo:
faz com que os dânaos me paguem todas
as minhas lágrimas com tuas flechas!”
Assim ele falou em sua prece
e Febo Apolo logo o escutou.
Ele baixa dos píncaros do Olimpo,
enraivecido desde o coração,
trazendo junto aos ombros o seu arco
e a aljava de feitura primorosa.
Junto às espáduas do deus furioso,
retiniam agudos os projéteis
à medida que se movimentava
avançando semelho à própria noite.
Logo senta distante dos navios
e então dispara a primeira das flechas.
Um terrível clangor ressoa ao longe
espraiando-se do arco prateado.
Acometeu primeiro contra os mulos
e logo após contra os fúlgidos cães.
Na sequência, contudo, pondo a mira
de seu dardo aguçado contra os homens,
ele atirou. Sem pausa, dia e noite,
as piras de cadáveres queimavam.

μῆνιν ἄειδε θεὰ Πηληϊάδεω Ἀχιλῆος
οὐλομένην, ἣ μυρί᾽ Ἀχαιοῖς ἄλγε᾽ ἔθηκε,
πολλὰς δ᾽ ἰφθίμους ψυχὰς Ἄϊδι προΐαψεν
ἡρώων, αὐτοὺς δὲ ἑλώρια τεῦχε κύνεσσιν
οἰωνοῖσί τε πᾶσι, Διὸς δ᾽ ἐτελείετο βουλή,
ἐξ οὗ δὴ τὰ πρῶτα διαστήτην ἐρίσαντε
Ἀτρεΐδης τε ἄναξ ἀνδρῶν καὶ δῖος Ἀχιλλεύς.
τίς τ᾽ ἄρ σφωε θεῶν ἔριδι ξυνέηκε μάχεσθαι;
Λητοῦς καὶ Διὸς υἱός: ὃ γὰρ βασιλῆϊ χολωθεὶς
νοῦσον ἀνὰ στρατὸν ὄρσε κακήν, ὀλέκοντο δὲ λαοί,
οὕνεκα τὸν Χρύσην ἠτίμασεν ἀρητῆρα
Ἀτρεΐδης: ὃ γὰρ ἦλθε θοὰς ἐπὶ νῆας Ἀχαιῶν
λυσόμενός τε θύγατρα φέρων τ᾽ ἀπερείσι᾽ ἄποινα,
στέμματ᾽ ἔχων ἐν χερσὶν ἑκηβόλου Ἀπόλλωνος
χρυσέῳ ἀνὰ σκήπτρῳ, καὶ λίσσετο πάντας Ἀχαιούς,
Ἀτρεΐδα δὲ μάλιστα δύω, κοσμήτορε λαῶν:
Ἀτρεΐδαι τε καὶ ἄλλοι ἐϋκνήμιδες Ἀχαιοί,
ὑμῖν μὲν θεοὶ δοῖεν Ὀλύμπια δώματ᾽ ἔχοντες
ἐκπέρσαι Πριάμοιο πόλιν, εὖ δ᾽ οἴκαδ᾽ ἱκέσθαι:
παῖδα δ᾽ ἐμοὶ λύσαιτε φίλην, τὰ δ᾽ ἄποινα δέχεσθαι,
ἁζόμενοι Διὸς υἱὸν ἑκηβόλον Ἀπόλλωνα.
ἔνθ᾽ ἄλλοι μὲν πάντες ἐπευφήμησαν Ἀχαιοὶ
αἰδεῖσθαί θ᾽ ἱερῆα καὶ ἀγλαὰ δέχθαι ἄποινα:
ἀλλ᾽ οὐκ Ἀτρεΐδῃ Ἀγαμέμνονι ἥνδανε θυμῷ,
ἀλλὰ κακῶς ἀφίει, κρατερὸν δ᾽ ἐπὶ μῦθον ἔτελλε:
μή σε γέρον κοίλῃσιν ἐγὼ παρὰ νηυσὶ κιχείω
ἢ νῦν δηθύνοντ᾽ ἢ ὕστερον αὖτις ἰόντα,
μή νύ τοι οὐ χραίσμῃ σκῆπτρον καὶ στέμμα θεοῖο:
τὴν δ᾽ ἐγὼ οὐ λύσω: πρίν μιν καὶ γῆρας ἔπεισιν
ἡμετέρῳ ἐνὶ οἴκῳ ἐν Ἄργεϊ τηλόθι πάτρης
ἱστὸν ἐποιχομένην καὶ ἐμὸν λέχος ἀντιόωσαν:
ἀλλ᾽ ἴθι μή μ᾽ ἐρέθιζε σαώτερος ὥς κε νέηαι.
ὣς ἔφατ᾽, ἔδεισεν δ᾽ ὃ γέρων καὶ ἐπείθετο μύθῳ:
βῆ δ᾽ ἀκέων παρὰ θῖνα πολυφλοίσβοιο θαλάσσης:
πολλὰ δ᾽ ἔπειτ᾽ ἀπάνευθε κιὼν ἠρᾶθ᾽ ὃ γεραιὸς
Ἀπόλλωνι ἄνακτι, τὸν ἠΰκομος τέκε Λητώ:
κλῦθί μευ ἀργυρότοξ᾽, ὃς Χρύσην ἀμφιβέβηκας
Κίλλάν τε ζαθέην Τενέδοιό τε ἶφι ἀνάσσεις,
Σμινθεῦ εἴ ποτέ τοι χαρίεντ᾽ ἐπὶ νηὸν ἔρεψα,
40ἢ εἰ δή ποτέ τοι κατὰ πίονα μηρί᾽ ἔκηα
ταύρων ἠδ᾽ αἰγῶν, τὸ δέ μοι κρήηνον ἐέλδωρ:
τίσειαν Δαναοὶ ἐμὰ δάκρυα σοῖσι βέλεσσιν.
ὣς ἔφατ᾽ εὐχόμενος, τοῦ δ᾽ ἔκλυε Φοῖβος Ἀπόλλων,
βῆ δὲ κατ᾽ Οὐλύμποιο καρήνων χωόμενος κῆρ,
τόξ᾽ ὤμοισιν ἔχων ἀμφηρεφέα τε φαρέτρην:
ἔκλαγξαν δ᾽ ἄρ᾽ ὀϊστοὶ ἐπ᾽ ὤμων χωομένοιο,
αὐτοῦ κινηθέντος: ὃ δ᾽ ἤϊε νυκτὶ ἐοικώς.
ἕζετ᾽ ἔπειτ᾽ ἀπάνευθε νεῶν, μετὰ δ᾽ ἰὸν ἕηκε:
δεινὴ δὲ κλαγγὴ γένετ᾽ ἀργυρέοιο βιοῖο:
50οὐρῆας μὲν πρῶτον ἐπῴχετο καὶ κύνας ἀργούς,
αὐτὰρ ἔπειτ᾽ αὐτοῖσι βέλος ἐχεπευκὲς ἐφιεὶς
βάλλ᾽: αἰεὶ δὲ πυραὶ νεκύων καίοντο θαμειαί.

§

 

Por fim, da nau singradora de mares,
desce a garota nascida de Crises.
Ela é levada em seguida ao altar
por Odisseu de muitíssima astúcia,
que a põe nos braços do querido pai
e a ele se dirige desta forma:
“Crises, eu venho enviado até ti
por Agamêmnon, senhor de varões,
no intuito de trazer-te tua filha
e para Febo a hecatombe sagrada
que eu irei perfazer em prol dos dânaos
a fim de que alegremos o senhor
que agora sobre os guerreiros argivos
envia dardos muitíssimo amargos.”
Assim falou enquanto a colocava
nos braços dele, que recebe alegre
sua filha querida. De imediato
a sagrada hecatombe para o deus
eles dispõem de maneira ordenada
em todo o entorno do altar bem-lavrado.
Depois lavam as mãos com água limpa
e polvilham cevada sobre o altar.
No meio deles, com as mãos erguidas,
Crises então entoa grande prece:
“Escuta minha prece, do arco argênteo,
tu que zelas solícito por Crisa
e por Cila, terreno consagrado,
e que em Tênedo reges com poder.
Há poucos dias no passado ouviste
a prece que te fiz em súplica
e tu me honraste, causando uma enorme
destruição ao exército acaio.
Da mesma forma, novamente agora
concede para mim o que desejo:
afasta agora dos guerreiros dânaos
o fado impróprio da destruição.”
Assim ele falou em sua prece
e Febo Apolo logo o escutou.
Quando todos haviam feito preces
e polvilhado cevada no altar,
pondo as vítimas prontas para o abate
degolaram-nas e esfolaram todas.
Desmembraram depois as suas coxas,
que recobriram então com gordura
perfazendo uma dúplice camada,
e em cima delas puseram mais cortes.
O velho assou as carnes sobre espetos
e espargiu vinho rútilo por cima.
Os jovens se juntaram perto dele,
tendo em mãos garfos de quíntuplas pontas.
Quando as coxas estavam bem assadas
e as vísceras provadas já por todos,
eles cortaram o resto das carnes
e as espetaram então nos espetos.
Assaram tudo com calma e cuidado
e depois removeram dos espetos.
Quando findaram os preparativos
e terminaram de armar o banquete,
banquetearam-se. Não houve nada
que ficasse faltando ao coração.
Depois, quando já tinham saciado
a gana por bebida e por comida,
os mais jovens encheram as crateras
até que as coroassem com bebida.
Então distribuíram cálices
a todos com primeiras libações.
Diuturnos, o dia todo os jovens
apaziguam o deus com o seu canto.
Entoando belíssimos peãs,
os guerreiros mais jovens dos aqueus
louvam o deus que trabalha de longe.
Seu coração se alegra por ouvi-los.

ἐκ δὲ Χρυσηῒς νηὸς βῆ ποντοπόροιο.
τὴν μὲν ἔπειτ᾽ ἐπὶ βωμὸν ἄγων πολύμητις Ὀδυσσεὺς
πατρὶ φίλῳ ἐν χερσὶ τίθει καί μιν προσέειπεν:
ὦ Χρύση, πρό μ᾽ ἔπεμψεν ἄναξ ἀνδρῶν Ἀγαμέμνων
παῖδά τε σοὶ ἀγέμεν, Φοίβῳ θ᾽ ἱερὴν ἑκατόμβην
ῥέξαι ὑπὲρ Δαναῶν ὄφρ᾽ ἱλασόμεσθα ἄνακτα,
ὃς νῦν Ἀργείοισι πολύστονα κήδε᾽ ἐφῆκεν.
ὣς εἰπὼν ἐν χερσὶ τίθει, ὃ δὲ δέξατο χαίρων
παῖδα φίλην: τοὶ δ᾽ ὦκα θεῷ ἱερὴν ἑκατόμβην
ἑξείης ἔστησαν ἐΰδμητον περὶ βωμόν,
χερνίψαντο δ᾽ ἔπειτα καὶ οὐλοχύτας ἀνέλοντο.
τοῖσιν δὲ Χρύσης μεγάλ᾽ εὔχετο χεῖρας ἀνασχών:
κλῦθί μευ ἀργυρότοξ᾽, ὃς Χρύσην ἀμφιβέβηκας
Κίλλαν τε ζαθέην Τενέδοιό τε ἶφι ἀνάσσεις:
ἦ μὲν δή ποτ᾽ ἐμεῦ πάρος ἔκλυες εὐξαμένοιο,
τίμησας μὲν ἐμέ, μέγα δ᾽ ἴψαο λαὸν Ἀχαιῶν:
ἠδ᾽ ἔτι καὶ νῦν μοι τόδ᾽ ἐπικρήηνον ἐέλδωρ:
ἤδη νῦν Δαναοῖσιν ἀεικέα λοιγὸν ἄμυνον.
ὣς ἔφατ᾽ εὐχόμενος, τοῦ δ᾽ ἔκλυε Φοῖβος Ἀπόλλων.
‘‘ αὐτὰρ ἐπεί ῥ᾽ εὔξαντο καὶ οὐλοχύτας προβάλοντο,
αὐέρυσαν μὲν πρῶτα καὶ ἔσφαξαν καὶ ἔδειραν,
μηρούς τ᾽ ἐξέταμον κατά τε κνίσῃ ἐκάλυψαν
δίπτυχα ποιήσαντες, ἐπ᾽ αὐτῶν δ᾽ ὠμοθέτησαν:
καῖε δ᾽ ἐπὶ σχίζῃς ὁ γέρων, ἐπὶ δ᾽ αἴθοπα οἶνον
λεῖβε: νέοι δὲ παρ᾽ αὐτὸν ἔχον πεμπώβολα χερσίν.
αὐτὰρ ἐπεὶ κατὰ μῆρε κάη καὶ σπλάγχνα πάσαντο,
μίστυλλόν τ᾽ ἄρα τἆλλα καὶ ἀμφ᾽ ὀβελοῖσιν ἔπειραν,
ὤπτησάν τε περιφραδέως, ἐρύσαντό τε πάντα.
αὐτὰρ ἐπεὶ παύσαντο πόνου τετύκοντό τε δαῖτα
δαίνυντ᾽, οὐδέ τι θυμὸς ἐδεύετο δαιτὸς ἐΐσης.
αὐτὰρ ἐπεὶ πόσιος καὶ ἐδητύος ἐξ ἔρον ἕντο,
κοῦροι μὲν κρητῆρας ἐπεστέψαντο ποτοῖο,
νώμησαν δ᾽ ἄρα πᾶσιν ἐπαρξάμενοι δεπάεσσιν:
οἳ δὲ πανημέριοι μολπῇ θεὸν ἱλάσκοντο
καλὸν ἀείδοντες παιήονα κοῦροι Ἀχαιῶν
μέλποντες ἑκάεργον: ὃ δὲ φρένα τέρπετ᾽ ἀκούων.

Anúncios
Padrão
crítica, xanto

XANTO | Deslocamento e estranheza em ‘Ao jeito dos bichos caçados’, de Otávio Campos, por Sergio Maciel

31958145_1707391835973095_5535107530415407104_n

O livro Ao jeito dos bichos caçados, de Otávio Campos, é um livro muito particular. Comecemos pelo título. Comecemos por aquilo que o poeta Ismar Tirelli Neto diz na introdução à coletânea:

O título do presente apanhado nos remete a um aparte do autor americano Robert Glück constante da narrativa “Sanchez and Day”, que abre seu Elements of a Coffee Service, publicado em 1981, a saber, a pergunta: “when aren’t we being chased?”.

Ora, é precisamente como animalidade perseguida – animalidade que a dogmática judaico-cristã recomenda subjugar sem nenhuma ambiguidade – que o poeta textualmente homossexual se coloca no cerne da especificidade brasileira. Ele opera atualmente diante de uma dupla ameaça: a “boa e velha” violência patriarcal e também o perigoso descanso prometido por vertentes mais assimilacionistas do pensamento queer.

Esse título, então, retirado do poema Tarde de Maio, de Carlos Drummond de Andrade, e que se referia lá ao amor, assim amplo, vago e abstrato, pois ele dizia que “o próprio amor se desconhece e maltrata / o próprio amor se esconde ao jeito dos bichos caçados”, vem denotar aqui um amor e transfere o papel de caça para o sujeito que ama. Afinal, agora, quem nunca deixou de ser caçado, quem está na mira do jugo, é o homem amando outro homem, semelhante a um bicho caçado em sua “dissidência afetiva-sexual”, para ainda citar Ismar.

Talvez para tratarmos dessa animalidade perseguida, portanto, seja necessário remetermos àquilo que Rafael Zacca fala sobre o livro de Marília Floôr Kosby (clique aqui), i.e., da apresentação poética de um movimento de deslocamento (lá ele chama ‘êxodo’, mas aqui vou dizer só de ‘movimento de deslocamento’ mesmo). Essa condição de deslocamento, que pode ser considerada sine qua non para toda produção artística, ainda que seja um clichê, no livro de Campos vai se moldando através de uma melancolia que perpassa seus textos. Melancolia porque esse deslocamento concede ao sujeito a condição (e a consciência dessa condição) de estrangeiro, de estranho, e, com isso, obriga-o a lidar com as diferenças de direitos, de acesso aos prazeres. Exemplo dessa relação com o jugo se faz claro no poema “A última experiência dos nossos tempos” (p. 67), em que lemos o seguinte:

é próprio da violência
que sigamos calados
o corpo limite
o que te atravessa

Silêncio, aliás, ou espécie de silêncio cúmplice, que a poesia por si só não cumpre e nem cabe cumprir. Torno a dizer: chega dessa balela de poesia = silêncio. Todo poema pra mim é um discurso em chamas, incendiário e nada tem que ver com silêncio nenhum. Para conferir mais sobre essa relação poesia versus silêncio, favor ler a página 69 do livro L’azur blasé, de Guilherme Gontijo Flores.

Agora, se partirmos para uma análise mais formal do livro, o negócio fica mais interessante. Pelo título, temos que o eu-lírico se apresentava semelhante/”ao jeito dos bichos caçados”. A epígrafe de abertura, retirada de um poema de Edimilson de Almeida Pereira, adverte: “Chamem o amador de blues/ vou bater nele como um boxeur”, anunciado que dali pra frente um embate (alguma espécie de embate) será travado. O primeiro poema do livro, inserido na seção “O bicho que come dentro da gente”, tem por título “Os corpos fraturados”. i.e., se antes mesmo da proposição poética temos um duelo anunciado, o livro logo se abre com uma espécie de apresentação dos espólios desse embate, num poema que remete ao poema “Graveyard”, de Marianne Moore (que Adriano Scandolara traduziu e pode ser lido aqui) e subverte, ironicamente, os versos iniciais do poema inglês. Aparte disso e do belíssimo poema intitulado “Mommy” (que o poeta André Capilé leu e pode ser visto aqui), não vejo grande importância nessa primeira seção.

Me interessa mais as duas seções finais, i.e., “O desejo e outras armas de corte” & “A última experiência dos nossos tempos”. Ora, se no prefácio Ismar nos aponta a importância de uma poética queer brasileira e, no final do livro, Campos nos traz um verso de Allen Ginsberg que diz “i’m putting my queer shoulder to the wheel”, não há como deixar passar a apresentação desse desejo como uma arma de corte, desse “duro tão duro” (p. 44) que vem vindo como uma pororoca desde Piva. Trata-se, creio, de ansiar ver “o desejo imenso do rito” (p.45), que aqui se dá poeticamente, ocorrer “no mundo real agora” (p. 48). Esse terceiro capítulo, intitulado “O desejo e outras armas de corte”, encerra-se com o poema “Como utilizar uma arma de corte” (p. 64), que reproduzo abaixo:

oc

O último capítulo vai colocar muito em evidência a condição do corpo enquanto agente mediador das “últimas experiências dos nossos tempos” e também daquela “animalidade perseguida” a que se referiu Ismar logo no prefácio. Vide:

Cálculo 4:

Quando sobrevivermos ao século e ao massacre
da fera sobre o corpo, da fera em rompante sobre
as instituições e por fim restar apenas o rastro
da língua do animal da fera e suas instituições

Mãmãmã-mãmãmãmã Mãmãmã-mãmãmãmã
mãmãmãmã Mã-mã-mã-mãmãmãmã Uhmmm
Mãmãmã-mãmãmãmã Mãmãmã-mãmã-mamá
Uhm-uhm-uhm Mãmãmã-mãmãmãmã –Mahm!
Uhm… Uhm.. UGH! Mamãmã mamãmã fera.

Áli áli alá! Uhm… [Alá! Alá!] Uhm… Uhm…
desejo da representação: Uma cartografia absurda

O curioso é que boa parte de toda a estranheza que o livro de Campos proporciona decorre ou sintaxe ou do uso inusitado dos enjambements, numa espécie de recusa do verso lapidar (em linguagem popular: àquele verso de tatuagem), numa quase construção do antiverso, que vai de encontro às poéticas, também queer, de Ricardo Domeneck e Ismar Tirelli Neto. Claro que qualquer um que leia o livro verá que há outros direcionamentos, no sentido de dicções que se aproximem daquela de Frank O’Hara ou até mesmo a de Roverto Piva; mas me interessam menos que essa dicção deslocada, estranhada, quase portuguesa, quase brasileira, quase qualquer coisa que Otávio Campos reclama pra si. Dentre os poemas constantes nessa coletânea, são esses, ao estilo de “Mommy” que me interessam, que me pegam, que me prendem. Que moldam esse sujeito caçado por todos os lados.

* * *

post-scriptum: A primeira edição deste livro foi lançada em Portugal, pela editora da Enfermaria6 (clique aqui). Agora, uma edição brasileira será lançada através da parceria entre as Edições Macondo e a Editora Moinhos, a sair dia 15/05, no ciclo de conferências Poesia e Experiência – a delicadeza e a fúria,  evento organizado pelos professores Gustavo Silveira Ribeiro e Prisca Agustoni, na UFMG.

32152276_10156335117950270_209616347032715264_n

Padrão
tradução

De Rerum Natura (vv. 824-1023, III), de Lucrécio, por Rodrigo Gonçalves

lucretius_drawn_by_michael_burghers

há quase um ano eu trouxe aqui um trecho do canto terceiro do poema épico “de rerum natura” (da natureza das coisas), do poeta romano lucrécio, na tradução de rodrigo tadeu gonçalves (clique aqui). hoje, vem à luz o trecho final deste canto e o desejo de ver logo a tradução publicada na íntegra.

sergio maciel

* * *

 

Pois, além de adoecer com doenças do corpo,
acontece de a atormentarem as coisas futuras,
e que sofra com preocupações, com o medo, ansiedade;
e, já passados os feitos e os males, os erros remordem.
Some-se a isso o furor, a loucura, o esquecer-se das coisas,
some-se a letargia que a imerge nas ondas escuras.
Nada, portanto, é a morte pra nós, nem a nós diz respeito……….830
uma vez que é mortal o ânimo por natureza.
Como nos tempos pregressos nada sofremos dos males
dos avanços guerreiros púnicos de todo lado,
todos sofrendo com trépido estrondo causado da guerra,
horrificados, tremendo sob o éter sublime,
sem saber a qual lado viria a vitória e o império
sobre todos humanos e sobre os mares e terras,
dessa maneira, quando não existirmos e quando
o discídio de ânimo e corpo nos obliterarem,
nós, que então não mais seremos, não mais sofreremos,……….840
nada, também, poderá comover sensações em nós mesmos,
mesmo se terra e mar, ou mar e céu se fundirem.
Mas, se, acaso, depois de afastada do nosso corpo
a natureza do ânimo e a ânima ainda tiverem
sensação, isso não nos importa, pois nós consistimos
da conjunção da ânima e corpo que o ser unifica.
Nem se as eras trouxessem de volta a nossa matéria
muito tempo depois de morrermos, criando de novo
como é agora e a nós novamente as luzes da vida
se restaurassem, a nós nada disso faria sentido……….850
já que as lembranças passadas a nós estariam perdidas.
E agora nada daquilo que fomos importa
nem nos afeta a angústia sofrida de outrora.
Quando contemplas o imenso espaço de tempo passado
e os inúmeros modos e conformações da matéria
fácil será acreditar que as sementes das coisas, outrora,
estas que formam agora aquilo que somos, já foram
colocadas em ordem idêntica à forma que temos.…………….[865]
Nem isso tudo podemos, porém, trazer à memória:………….[858]
entre se rompe uma pausa de vida e erraram vagando……[859] 860
os movimentos dos sentidos por toda parte.………………………[860]
E se acaso houver no futuro dor ou tristeza……………………….[861]
deve também haver alguém nesse mesmo período…………..[862]
para sofrê-los. Como a morte o proíbe, eximindo………………[863]
da existência o que concentraria os incômodos, dores,…….[864]
nós já podemos saber que nada é temível na morte
e que não pode ser mísero quem já não é, e até mesmo
nada difere se ainda não tivesse nascido
pois a vida mortal pela morte imortal foi tolhida.
Por conseguinte se vires um homem sofrer indignado……….870
por no pós morte apodrecer-lhe o cadáver deixado
ou consumir-se nas chamas, ou pelos dentes das feras,
podes saber que ele não é sincero e que estímulo cego
pende por sobre seu peito, ainda que negue que creia
que haverá qualquer sensação para si no pós morte.
Pois, como eu penso, não garante o que foi prometido
nem as razões: não se arranca da vida pelas raízes
mas, sem saber, supõe que algo de si ainda sobra.
Quando, contudo, cada ser vivo antepõe sua morte
já prevendo que as aves e feras laceram seu corpo,………880
ele de si se apieda; mas sem separar-se do morto
nem afastar-se o bastante do cadáver prostrado,
como se estivesse a seu lado e ainda sentisse.
O ter sido criado mortal o faz indignado
e ele não vê que na morte real não terá outro ele
que poderá, ainda vivo, de pé, ao seu lado, de luto,
condoer-se de si a queimar ou ser dilacerado.
Pois se é um mal que na morte a mordida ou molares das feras
nos estraçalhe, não sei como pode não ser-nos terrível
sermos cremados com o corpo lançado em tórridas chamas,……..890
ou sufocados imersos em mel ou no frio congelados
quando nos deitam no plano topo da gélida rocha,
ou esmagados pelo grave peso da terra.
“Já não mais casa alegre te acolherá, nem esposa
ótima, nem verás os teus filhos correndo a roubar-te
beijos, ternura tácita, doce, que toca teu peito.
Não verás mais florescerem com prósperos feitos
os cuidados com os teus. Ó, pobre,” dirão, “um nefasto e
único dia arrancou-te os frutos todos da vida.”
Isto, contudo, não acrescentam: “nem dessas coisas………….900
tu sentirás jamais nenhuma saudade ou desejo.”
Se isso bem entendessem e a cabeça seguisse as palavras,
afastariam do ânimo todo medo e angústia.
“Tu, de fato, assim como dormes o sono da morte,
sempre estarás, privado de toda dor e doença.
Nós, ao redor do terrífico busto pulverizado
te velamos insaciáveis, e nosso eterno
sofrimento dia algum tirará destes peitos.”
Deve-se lhe perguntar para que tanto amargor se
toda a questão se reduz ao sono e à quietude perene:………..910
quem poderia, assim, em luto eterno agastar-se?
Isto dizem também alguns, quando, deitados,
segurando copos, coroas umbrando suas faces,
ditos do ânimo: “breve é tal fruição para os pobres
homens: logo se vai, jamais a teremos de novo”.
Como se na morte tal fosse o pior de seus males:
sede queimando-os, e árida carestia os secando,
ou que os assaltaria o desejo de alguma outra coisa.
Nem a si nem à vida ninguém reclama, de fato,
quando igualmente o corpo e a mente repousam no sono.……….920
Quanto a nós, poderá o sono, assim, ser eterno
pois nenhum desejo a nós nos afeta na morte.
Mas, durante o sono, os primórdios de forma nenhuma
vagam pra longe demais dos sensíferos motos nos membros,
pois, arrancado do sono, o homem recobra a si mesmo.
Deve-se considerar que, pra nós, a morte é ainda menos
se é que pode existir algo a menos daquilo que é nada,
pois maior dispersão de matéria se segue na morte
do que no sono e ninguém desperta e levanta
uma vez que o tocou a gélida pausa da vida.…………….930
Se, de repente, a natureza das coisas lançasse
sua voz e ela mesma a qualquer um de nós censurasse:
“Ó, mortal, por que sofres tanto com a morte e indulges
tanto em lamentos e lutos, por que tanta lágrima e grito?
Pois, se a vida que levaste te foi agradável
se as alegrias não se te escaparam tal como num vaso
cheio de furos e pereceram não aproveitadas,
como um conviva feliz, satisfeito, por que não te vais da
vida e, tranquilo, abraças a calma segura, idiota?
Mas, se as coisas de que desfrutaste se desperdiçaram,…………940
se a vida é uma ofensa, pra que querer mais um pouco,
já que tudo acaba mal e se vai, e perece,
não é melhor pores fim aos labores, às penas, à vida?
Pois o que mais eu possa inventar, maquinar, que te agrade
não existe: tudo é agora tal como foi sempre.
Se teu corpo ainda não pesa dos anos, se os membros
inda não minguam exaustos, tudo está como era antes,
mesmo se vivesses mais tempo que todas as vidas,
tudo daria no mesmo, até mesmo se nunca morresses.”
Que responder, senão que o processo é justo e a causa…………….950
da natureza é exposta com veras e fortes palavras?
Se, por acaso, alguém já muito mais velho deplora……………..[955]
e, miserável, lamenta sua morte bem mais que devia……………..[952]
não terá mais direito de censurar com voz acre?”……………………[953]
Leva daqui as tuas lágrimas, frouxo, e deixa de queixas,………..[954]
tendo fruído de todos prazeres da vida definhas,
mas como sempre desejas o ausente, e o presente desprezas,
imperfeita gastou-se pra ti, e ingrata, tua vida,
e sem que queiras, a morte se põe a teu lado e te afaga
antes que saias da vida feliz, satisfeito com as coisas.…………….960
Vai, abandona todas as coisas alheias à idade
tua, e concede, com ânimo calmo, o lugar aos que ficam.”
Com justiça, penso, agiria, justas censuras.
Pois a velhice sempre cede, assolada do novo,
sempre, e uma coisa se reconstrói a partir de uma outra.
Não se desce ao profundo do tártaro atroz, aos infernos.
Pois é preciso matéria para que os pósteros cresçam;
estes, também, a ti seguirão, ao fim de suas vidas,
Logo cairão, não menos que os de antes de ti já caíram:
algo nunca deixará de nascer de outra coisa…………….970
Nunca ninguém tem posse da vida, somente usufruto.
Veja, também, como as eras passadas do tempo infindável
de antes de nós foram nada – de antes de termos nascido,
essas também a natura nos mostra tal como um espelho
que nos revela o tempo vindouro depois de morrermos.
Mas o que tem de horrível nisso, o que de tão triste,
não é mais calmo morrer do que todo tipo de sono?
Não nos admiremos: tudo que é dito que habita
o Aqueronte profundo estão todos, de fato, conosco.
Nem a enorme pedra teme pendente nos ares…………….980
mísero Tântalo, paralisado de medo, tal dizem:
mas é na vida que o medo dos deuses aos homens fulmina,
esses que temem da fortuna sua queda, seus golpes.
Nem no Aqueronte os abutres achegam-se a Títio jazendo
nem o que encontrar por sobre o peito tão vasto
podem achar por todos os tempos com que se alimentem;
não importa qual seja a extensão enorme do corpo
mesmo que com os membros cubra não só nove jeiras
mas até mesmo cubrisse o orbe inteiro da terra,
nem assim dor eterna ele poderia sofrer, nem…………….990
oferecer para sempre alimento de seu próprio corpo.
Títio, porém, para nós é aquele jazente de amores
que dilaceram abutres, ou seja, a angústia ansiosa,
ou qualquer coisa que rasgue com dores, desejos perenes.
Sísifo, em vida, diante dos olhos também é aquele
que do povo procura beber os cetros selvagens
mas amiúde retira-se sempre triste e vencido.
Pois a busca do império inane que nunca se mostra
a nenhuma pessoa e por isso sofrer os labores
incessantes é o mesmo que o monte escalar com a rocha……….1000
que, quando quase chegando no vértice, mais uma vez se
precipita rolando de volta até o plano terreno.
E nutrir a ingrata natura do ânimo sempre,
para preenchê-la com bens mas sem nunca alcançar saciedade
tal como as estações do ano fazem conosco
quando sempre retornam e trazem os frutos e agrados,
sem que jamais satisfaçam-nos com as benesses da vida,
isto, tal penso, é o que fazem as moças de idade florente
que, dizem, tentam encher um vaso furado com água
o que, contudo, de modo nenhum jamais realizam.…………….1010
Cérbero e Fúrias, bem como a carência completa das luzes,
Tártaro em erupção, com suas fauces horríveis, de chamas,
estes não há, nem jamais, de modo nenhum, são possíveis.
Mas na vida os medos imensos de imensos castigos
por nossas faltas, para expiar nossos crimes e males:
cárcere, horrível queda forçada do alto da rocha,
vergas, algozes, tronco, piche, tochas, fogueira;
mesmo se ausentes, a mente, contudo, ciente dos feitos,
terrificada se exibe os estímulos: fogo, flagelos,
sem perceber qual seria o possível termo pros males…………….1020
nem qual seria por fim o limite das penas, e ainda
mais angustia-se achando que agravam depois de sua morte.
Tal é a vida infernal que se plasmam pra si os idiotas.

praeter enim quam quod morbis cum corporis aegret,
advenit id quod eam de rebus saepe futuris
macerat inque metu male habet curisque fatigat,
praeteritisque male admissis peccata remordent.
adde furorem animi proprium atque oblivia rerum,
adde quod in nigras lethargi mergitur undas.
Nil igitur mors est ad nos neque pertinet hilum,
quandoquidem natura animi mortalis habetur.
et vel ut ante acto nihil tempore sensimus aegri,
ad confligendum venientibus undique Poenis,
omnia cum belli trepido concussa tumultu
horrida contremuere sub altis aetheris auris,
in dubioque fuere utrorum ad regna cadendum
omnibus humanis esset terraque marique,
sic, ubi non erimus, cum corporis atque animai
discidium fuerit, quibus e sumus uniter apti,
scilicet haud nobis quicquam, qui non erimus tum,
accidere omnino poterit sensumque movere,
non si terra mari miscebitur et mare caelo.
et si iam nostro sentit de corpore postquam
distractast animi natura animaeque potestas,
nil tamen est ad nos, qui comptu coniugioque
corporis atque animae consistimus uniter apti.
nec, si materiem nostram collegerit aetas
post obitum rursumque redegerit ut sita nunc est,
atque iterum nobis fuerint data lumina vitae,
pertineat quicquam tamen ad nos id quoque factum,
interrupta semel cum sit repetentia nostri.
et nunc nil ad nos de nobis attinet, ante
qui fuimus, [neque] iam de illis nos adficit angor.
nam cum respicias inmensi temporis omne
praeteritum spatium, tum motus materiai
multimodi quam sint, facile hoc adcredere possis,
semina saepe in eodem, ut nunc sunt, ordine posta
haec eadem, quibus e nunc nos sumus, ante fuisse.
nec memori tamen id quimus reprehendere mente;
inter enim iectast vitai pausa vageque
deerrarunt passim motus ab sensibus omnes.
debet enim, misere si forte aegreque futurumst;
ipse quoque esse in eo tum tempore, cui male possit
accidere. id quoniam mors eximit, esseque prohibet
illum cui possint incommoda conciliari,
scire licet nobis nihil esse in morte timendum
nec miserum fieri qui non est posse, neque hilum
differre an nullo fuerit iam tempore natus,
mortalem vitam mors cum inmortalis ademit.
Proinde ubi se videas hominem indignarier ipsum,
post mortem fore ut aut putescat corpore posto
aut flammis interfiat malisve ferarum,
scire licet non sincerum sonere atque subesse
caecum aliquem cordi stimulum, quamvis neget ipse
credere se quemquam sibi sensum in morte futurum;
non, ut opinor, enim dat quod promittit et unde
nec radicitus e vita se tollit et eicit,
sed facit esse sui quiddam super inscius ipse.
vivus enim sibi cum proponit quisque futurum,
corpus uti volucres lacerent in morte feraeque,
ipse sui miseret; neque enim se dividit illim
nec removet satis a proiecto corpore et illum
se fingit sensuque suo contaminat astans.
hinc indignatur se mortalem esse creatum
nec videt in vera nullum fore morte alium se,
qui possit vivus sibi se lugere peremptum
stansque iacentem [se] lacerari urive dolere.
nam si in morte malumst malis morsuque ferarum
tractari, non invenio qui non sit acerbum
ignibus inpositum calidis torrescere flammis
aut in melle situm suffocari atque rigere
frigore, cum summo gelidi cubat aequore saxi,
urgerive superne obrutum pondere terrae.
‘Iam iam non domus accipiet te laeta neque uxor
optima, nec dulces occurrent oscula nati
praeripere et tacita pectus dulcedine tangent.
non poteris factis florentibus esse tuisque
praesidium. misero misere’ aiunt ‘omnia ademit
una dies infesta tibi tot praemia vitae.’
illud in his rebus non addunt ‘nec tibi earum
iam desiderium rerum super insidet una.’
quod bene si videant animo dictisque sequantur,
dissoluant animi magno se angore metuque.
‘tu quidem ut es leto sopitus, sic eris aevi
quod super est cunctis privatus doloribus aegris;
at nos horrifico cinefactum te prope busto
insatiabiliter deflevimus, aeternumque
nulla dies nobis maerorem e pectore demet.’
illud ab hoc igitur quaerendum est, quid sit amari
tanto opere, ad somnum si res redit atque quietem,
cur quisquam aeterno possit tabescere luctu.
Hoc etiam faciunt ubi discubuere tenentque
pocula saepe homines et inumbrant ora coronis,
ex animo ut dicant: ‘brevis hic est fructus homullis;
iam fuerit neque post umquam revocare licebit.’
tam quam in morte mali cum primis hoc sit eorum,
quod sitis exurat miseros atque arida torrat,
aut aliae cuius desiderium insideat rei.
nec sibi enim quisquam tum se vitamque requiret,
cum pariter mens et corpus sopita quiescunt;
nam licet aeternum per nos sic esse soporem,
nec desiderium nostri nos adficit ullum,
et tamen haud quaquam nostros tunc illa per artus
longe ab sensiferis primordia motibus errant,
cum correptus homo ex somno se colligit ipse.
multo igitur mortem minus ad nos esse putandumst,
si minus esse potest quam quod nihil esse videmus;
maior enim turbae disiectus materiai
consequitur leto nec quisquam expergitus extat,
frigida quem semel est vitai pausa secuta.
Denique si vocem rerum natura repente.
mittat et hoc alicui nostrum sic increpet ipsa:
‘quid tibi tanto operest, mortalis, quod nimis aegris
luctibus indulges? quid mortem congemis ac fles?
nam [si] grata fuit tibi vita ante acta priorque
et non omnia pertusum congesta quasi in vas
commoda perfluxere atque ingrata interiere;
cur non ut plenus vitae conviva recedis
aequo animoque capis securam, stulte, quietem?
sin ea quae fructus cumque es periere profusa
vitaque in offensost, cur amplius addere quaeris,
rursum quod pereat male et ingratum occidat omne,
non potius vitae finem facis atque laboris?
nam tibi praeterea quod machiner inveniamque,
quod placeat, nihil est; eadem sunt omnia semper.
si tibi non annis corpus iam marcet et artus
confecti languent, eadem tamen omnia restant,
omnia si perges vivendo vincere saecla,
atque etiam potius, si numquam sis moriturus’,
quid respondemus, nisi iustam intendere litem
naturam et veram verbis exponere causam?
grandior hic vero si iam seniorque queratur
atque obitum lamentetur miser amplius aequo,
non merito inclamet magis et voce increpet acri:
‘aufer abhinc lacrimas, baratre, et compesce querellas.
omnia perfunctus vitai praemia marces;
sed quia semper aves quod abest, praesentia temnis,
inperfecta tibi elapsast ingrataque vita,
et nec opinanti mors ad caput adstitit ante
quam satur ac plenus possis discedere rerum.
nunc aliena tua tamen aetate omnia mitte
aequo animoque, age dum, magnis concede necessis?’
iure, ut opinor, agat, iure increpet inciletque;
cedit enim rerum novitate extrusa vetustas
semper, et ex aliis aliud reparare necessest.
Nec quisquam in baratrum nec Tartara deditur atra;
materies opus est, ut crescant postera saecla;
quae tamen omnia te vita perfuncta sequentur;
nec minus ergo ante haec quam tu cecidere cadentque.
sic alid ex alio numquam desistet oriri
vitaque mancipio nulli datur, omnibus usu.
respice item quam nil ad nos ante acta vetustas
temporis aeterni fuerit, quam nascimur ante.
hoc igitur speculum nobis natura futuri
temporis exponit post mortem denique nostram.
numquid ibi horribile apparet, num triste videtur
quicquam, non omni somno securius exstat?
Atque ea ni mirum quae cumque Acherunte profundo
prodita sunt esse, in vita sunt omnia nobis.
nec miser inpendens magnum timet aëre saxum
Tantalus, ut famast, cassa formidine torpens;
sed magis in vita divom metus urget inanis
mortalis casumque timent quem cuique ferat fors.
nec Tityon volucres ineunt Acherunte iacentem
nec quod sub magno scrutentur pectore quicquam
perpetuam aetatem possunt reperire profecto.
quam libet immani proiectu corporis exstet,
qui non sola novem dispessis iugera membris
optineat, sed qui terrai totius orbem,
non tamen aeternum poterit perferre dolorem
nec praebere cibum proprio de corpore semper.
sed Tityos nobis hic est, in amore iacentem
quem volucres lacerant atque exest anxius angor
aut alia quavis scindunt cuppedine curae.
Sisyphus in vita quoque nobis ante oculos est,
qui petere a populo fasces saevasque secures
imbibit et semper victus tristisque recedit.
nam petere imperium, quod inanest nec datur umquam,
atque in eo semper durum sufferre laborem,
hoc est adverso nixantem trudere monte
saxum, quod tamen [e] summo iam vertice rusum
volvitur et plani raptim petit aequora campi.
deinde animi ingratam naturam pascere semper
atque explere bonis rebus satiareque numquam,
quod faciunt nobis annorum tempora, circum
cum redeunt fetusque ferunt variosque lepores,
nec tamen explemur vitai fructibus umquam,
hoc, ut opinor, id est, aevo florente puellas
quod memorant laticem pertusum congerere in vas,
quod tamen expleri nulla ratione potestur.
Cerberus et Furiae iam vero et lucis egestas,
Tartarus horriferos eructans faucibus aestus!
qui neque sunt usquam nec possunt esse profecto;
sed metus in vita poenarum pro male factis
est insignibus insignis scelerisque luela,
carcer et horribilis de saxo iactus deorsum,
verbera carnifices robur pix lammina taedae;
quae tamen etsi absunt, at mens sibi conscia factis
praemetuens adhibet stimulos torretque flagellis,
nec videt interea qui terminus esse malorum
possit nec quae sit poenarum denique finis,
atque eadem metuit magis haec ne in morte gravescant.
hic Acherusia fit stultorum denique vita.

Padrão
poesia

Ana Paula Tavares (1952-)

ana_paula6

Ana Paula Tavares nasceu em 1952 em Lubango, Angola. Depois de estudar história em Luanda, trabalhou como professora em 1973, mas foi para Portugal alguns anos depois para continuar os seus estudos de história em Lisboa. Ao mesmo tempo, começou a estudar literatura africana de língua portuguesa e obteve um doutorado em história africana. Esteve envolvida com o meio ambiente em várias instituições em São Paulo e Nova Iorque, é membro da Associação dos Escritores Angolanos e da secção angolana da UNESCO. Atualmente, trabalha como historiadora em Lisboa. Seu extenso estudo científico A Apropriação do Escrito pelos Africanos recebeu amplo reconhecimento nos círculos profissionais. Além disso, Tavares recebeu recentemente o premio Mário António, o principal prêmio para autores de língua portuguesa da África. Ana Paula Tavares é uma das mais importantes vozes femininas da poesia angolana contemporânea. Seu trabalho é influenciado pelas obras de três poetas angolanos: David Mestre, Arlindo Barbeitos e Rui Duarte de Carvalho, e pelos poetas brasileiros Bandeira e Drummond. Sua poesia lida com tradições e línguas angolanas, amor e guerra e, especialmente, o papel das mulheres.

sergio maciel

* * *

 

A ANONA

Tem mil e quarenta e cinco
Caroços
Cada um com uma circunferência
À volta

Agrupam-se todos
(arrumadinha)
No pequeno útero verde
Da casca

§

 

MUKAI III

(Mulher à noite)

Um soluço quieto
desce
a lentíssima garganta
(rói-lhe as entranhas
um novo pedaço de vida)
os cordões do tempo
atravessam-lhe as pernas
e fazem a ligação terra.

Estranha árvore de filhos
uns mortos e tantos por morrer
que de corpo ao alto
navega de tristeza
as horas.

§

 

MUKAI VI

P’ra não morrer nos teus lábios de prata
era preciso ser pássaro e serpente

p’ra não sentir os teus lábios de prata
era preciso ser mulher e gente

p’ra não sofrer nos teus lábios de prata
era preciso ser sonho
uma cabaça fechada

P’ra não morrer dos teus lábios de prata
era preciso não ser mulher, pássaro e gente
pintada de cicatrizes

§

 

CANTO DE NASCIMENTO

Aceso está o fogo
prontas as mãos

o dia parou a sua lenta marcha
de mergulhar na noite.

As mãos criam na água
uma pele nova

panos brancos
uma panela a ferver
mais a faca de cortar

Uma dor fina
a marcar os intervalos de tempo
vinte cabaças deleite
que o vento trabalha manteiga

a lua pousada na pedra de afiar

Uma mulher oferece à noite
o silêncio aberto
de um grito
sem som nem gesto
apenas o silêncio aberto assim ao grito
solto ao intervalo das lágrimas

As velhas desfiam uma lenta memória
que acende a noite de palavras
depois aquecem as mãos de semear fogueiras

Uma mulher arde
no fogo de uma dor fria
igual a todas as dores
maior que todas as dores.

Esta mulher arde
no meio da noite perdida
colhendo o rio
enquanto as crianças dormem
seus pequenos sonhos de leite.

§

 

VIERAM MUITOS

“A massambala cresce a olhos nus”

Vieram muitos
à procura de pasto
traziam olhos rasos da poeira e da sede
e o gado perdido.

Vieram muitos
à promessa de pasto
de capim gordo
das tranqüilas águas do lago.
Vieram de mãos vazias
mas olhos de sede
e sandálias gastas
da procura de pasto.

Ficaram pouco tempo
mas todo o pasto se gastou na sede
enquanto a massambala crescia
a olhos nus.

Partiram com olhos rasos de pasto
limpos de poeira
levaram o gado gordo e as raparigas.

§

 

O MAMÃO

Frágil vagina semeada
pronta, útil, semanal
Nela se alargam as sedes

no meio
cresce
insondável

o vazio…

§

 

A ABÓBORA MENINA

Tão gentil de distante, tão macia aos olhos
vacuda, gordinha,
……………..de segredos bem escondidos
estende-se à distância
…………….procurando ser terra
quem sabe possa
…………..acontecer o milagre:
……………………………..folhinhas verdes
……………………………..flor amarela
……………………………….ventre redondo
depois é só esperar
…………….nela desaguam todos os rapazes.

Padrão
poesia, tradução

Frank O’Hara (1926-1966), por Lucas Túlio

ohara

Frank O’Hara (1926 – 1966) foi, entre outras coisas, um poeta norte-americano fundador do grupo Escola de Poetas de Nova Iorque (New York School of Poets) junto a John Ashbery, Kenneth Koch, James Schuyler e Barbara Guest. Nasceu em Baltimore, embora os anos mais produtivos de sua vida terem acontecido em Nova Iorque, onde a literatura, a música, a pintura e cinema convergiam em único ponto nos poemas de O’Hara. Por ser muito ativo na área das artes, na década de 60 Frank passou a ser um dos curadores do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque. Para ele o poema deveria divertir. Dos poemas abaixo, dois são do livro Lunch Poems (1964) – o poeta usava o horário de almoço para caminhar pela cidade em busca de situações e temas para seus poemas. Apenas “Manhã” é de The Collected Poems of Frank O’Hara (1971). Morreu prematuramente, em decorrência de um atropelamento por um buggy em Fire Island. Foi levado ao hospital, mas morreu devido aos ferimentos.

Lucas Túlio

* * *

 

Ontem lá pra baixo no canal

Você diz que tudo é bem simples e interessante
isso me faz sentir muito melancólico, como ler um bom romance russo faz
estou terrivelmente entediado
às vezes é como ver um filme ruim
outros dias, com frequência, é como ter uma doença aguda nos rins
deus sabe que não tem nada a ver com o coração
nada a ver com pessoas mais interessantes que eu
blá blá
é um pensamento divertido
como uma pessoa pode ser mais divertida que si mesma
como alguém falha em ser
posso pegar emprestado sua quarenta e cinco
só preciso de uma bala de preferência prata
se não dá pra ser interessante ao menos dá pra ser uma lenda
(mas eu odeio toda essa merda)

Yesterday down at the canal

You say that everything is very simple and interesting
it makes me feel very wistful, like reading a great Russian novel does
i am terribly bored
sometimes it is like seeing a bad movie
other days, more often, it’s like having an acute disease of the kidney
god knows it has nothing to do with the heart
nothing to do with people more interesting than myself
yak yak
that’s an amusing thought
how can anyone be more amusing than oneself
how can anyone fail to be
can i borrow your forty-five
i only need one bullet preferably silver
if you can’t be interesting at least you can be a legend
(but i hate all that crap)

§

 

Manhã

Eu tenho que te dizer
como eu te amo sempre
penso nisso em manhãs
cinzas com a morte

em minha boca o chá
nunca está quente
o bastante nessa hora
o cigarro seco o roupão bordô

arrepia-me preciso de você
e olho para fora da janela
vendo a neve silenciosa

À noite na doca
os ônibus brilham como
nuvens e estou sozinho
pensando em flautas

sinto sua falta sempre
quando vou à praia
a areia molhada com
lágrimas que parecem minhas

embora eu nunca chore
e guarde você no meu
coração com um ânimo
tão sincero que te faria orgulhoso

o estacionamento está
lotado e eu estou parado
chacoalhando as chaves o carro
está vazio como uma bicicleta

o que você está fazendo
agora onde você comeu
no almoçou e tinham
muitas anchovas é

difícil pensar em você
sem mim na frase
você me deprime
quando está sozinho
noite passada as estrelas
eram numerosas e hoje
a neve é o cartão de visita
delas não serei cordial

não há nada que me
distraia a música é só
palavras cruzadas
você sabe como é
quando se é o único
passageiro se há algum
lugar mais distante de mim
imploro que não vá

Morning

I’ve got to tell you
how I love you always
I think of it on grey
mornings with death

in my mouth the tea
is never hot enough
then and the cigarette
dry the maroon robe

chills me I need you
and look out the window
at the noiseless snow

At night on the dock
the buses glow like
clouds and I am lonely
thinking of flutes

I miss you always
when I go to the beach
the sand is wet with
tears that seem mine

although I never weep
and hold you in my
heart with a very real
humor you’d be proud of

the parking lot is
crowded and I stand
rattling my keys the car
is empty as a bicycle

what are you doing now
where did you eat your
lunch and were there
lots of anchovies it

is difficult to think
of you without me in
the sentence you depress
me when you are alone

Last night the stars
were numerous and today
snow is their calling
card I’ll not be cordial

there is nothing that
distracts me music is
only a crossword puzzle
do you know how it is

when you are the only
passenger if there is a
place further from me
I beg you do not go

§

 

ohara1

ohara2

Padrão
poesia

Guilherme Bernardes (1993-)

 

28584493_939534792866119_570211147_o

Guilherme Bernardes nasceu em Curitiba (1993). Terminou o curso de Letras Português/Latim com ênfase em estudos da tradução em 2017. Em 2018 começa seu mestrado sobre a obra do poeta norte-irlandês Paul Muldoon, em que também organizará uma seleção de poemas traduzidos. Faz parte do grupo de tradução e(m) performance Pecora Loca. Seu primeiro livro, de contos, O óbvio nosso de cada dia nos trai hoje, foi lançado pela editora Dybbuk em 2016. Publica esporadicamente no blog reconceber.wordpress.com.

* * *

 

damien hirst: a impossibilidade física da morte na mente de alguém que vive

mas e se pelo menos por enquanto
fosse possível que considerássemos
o fim. fizéssemos dele o poder
pra que pudéssemos dar novo início.
ou mesmo imaginássemos o sempre
eterno e ínfimo mundo sem volta

e que, pra cada um a nossa volta,
será o mesmo nada. porém, quanto
êxito. precisaríamos sempre
estar prontos pra que considerássemos
a possibilidade de outro início.
mas pena que querer não é poder.

ainda acreditamos que o poder
inevitavelmente está de volta
se repetindo porque lá no início
viu-se o sol nascer e se pôr. em quanto
tempo pra que nós já considerássemos
seguro confiar nisso pra sempre.

nada garante que será pra sempre.
e nem que fosse um ser todo poder-
oso, impossível que considerássemos
seriamente o fim. ele sempre volta.
e todos dispostos a porem quanto
fosse preciso, para o novo início,

da própria vida. porque desde o início
é assim. a mesma coisa de sempre.
que vida conseguimos pôr enquanto
sentimos total falta de poder.
a vida fica totalmente envolta
num ciclo. por mais que considerássemos

que, se de fato não considerássemos
o fim como apenas fim, mas início
também, talvez já não fizesse a volta
e mudasse. dessa vez para sempre.
e agora. então finalmente poder-
íamos terminar. mas por enquanto

não há fim. sempre há fins. e tudo volta
como considerássemos o início
a fonte do poder do por enquanto.

§

 

necesse est multos timeat quem multi timent

ele tinha de epíteto temido (
o que era mais do que justificado).
não se viu ninguém sentado a seu lado

que não sentisse falta de um abrigo,
assim que possível, vendo o temido

semblante e nele inevitável fado;
a cada gesto dele um novo estado

de pânico, de não ter existido.
até que em tantos o temor crescia
tanto que ele jamais previra os danos.

apenas viu a multidão na via
não vendo nele mais um ser humano.

videntes, realizando a profecia
de que temê-lo havia sido engano.

§

 

hen panta einai

numa palavra dizer
o começo
e o fim; o que é depois e o
que vem antes;
de modo igual marcar a dois
instantes
e em ambos poder ver
desgraça e apreço; é como
uma mudança de endereço;
a mesma ação, motivos
conflitantes; perder; ganhar; questões
irrelevantes;
quem vai saber se é
impulso ou se é
tropeço
vai ser apenas aquele
que passa; se
a lágrima vem por dor
ou deleite; se o ciclo
do sol é
bom ou desgraça
qualquer chance de que alguém
aproveite tudo da vida enquanto
ela esfumaça;
se é o duplo
sentido entre útil e
enfeite;

§

 

a vida nunca é simples nesse frio

I
a vida nunca é simples nesse frio.
há tanto tempo tudo se embaralha
que o estado natural é o arrepio.

tem vezes que eu nem penso em dar um pio
e tudo se transforma em represália.
a vida nunca é simples nesse frio.

bem mais do que a temperatura hostil,
odeio ouvir dos outros, feito gralha,
que o estado natural é o arrepio.

discordo totalmente do meu tio:
o mundo sempre insiste em ser canalha;
a vida nunca. é simples: nesse frio

eterno e que não dá lugar pro estio,
qual fim pior (que encolhe a genitália)
que o estado natural? é o arrepio

final, já quando o brilho é fugidio
dos olhos, que usarei tal qual mortalha.
a vida nunca é simples nesse frio
que o estado natural é o arrepio.

II
a vida nunca é simples nesse frio.
sair da cama é sempre uma batalha.
mas sempre penso em algo mais sombrio:

tem tanta coisa estranha nesse rio,
tem tanta coisa presa nessa calha,
a vida nunca é simples nesse frio.

não acho raro estar entre o vazio
de um jeito tal que só o vazio se espalha,
mas sempre penso em algo mais sombrio.

os planos de escapar são mais de mil.
mas tudo do que eu tento sempre falha.
a vida nunca é simples. nesse frio

precisa-se de um modo mais sutil
na hora de lidar com a migalha.
mas sempre penso em algo, mais sombrio,

talvez o cheiro azedo, quem sentiu
se lembra, da carniça na navalha.
a vida nunca é simples nesse frio,
mas sempre penso em algo mais sombrio.

§

 

mnemosine

“protect me from what i want”
— jenny holzer

eu vou fazer de tudo que eu puder
pra sempre ter comigo essa lembrança
tua. pra sempre ter comigo alguma
fotografia nossa. como prova
de comprometimento a essa promessa,
te escrevo. quem sabe a tua memória,

ouvindo o que lembra a minha memória,
também se aguce e lembre. se não der
certo, acho que ainda vale a promessa
do início. se ainda houver a lembrança
do que ela era. se alguém desaprova
essa insistência, nós, de forma alguma,

temos motivo pra alarde ou alguma
preocupação. o que conta é a memória.
mesmo que falsa, ela ainda comprova,
no mínimo, um desejo de algum der-
radeiro momento de ser lembrança.
aquilo que eu prometo eu cumpro. meça

muito cuidadosamente a promessa
primeiro, pois não quero ouvir alguma
desculpa esfarrapada. essa lembrança
persiste grudada em minha memória:
nós, deitados na cama, ouvindo there
is a light that never goes out e prova-

ndo que sim, há, depois daquela prova
que a gente estudou tanto, na promessa
de irmos bem, mas que, mesmo assim, nos der-
rubou, e você foi buscar alguma
coisa pra beber. perder a memória
era o plano. extinguir toda lembrança

de que sequer já houve antes lembrança.
funcionou? pra mim, isso apenas prova
que não. não é possível que a memória
desse dia suma. embora a promessa
tenha sido essa. ainda que alguma
luz, de fato, se apague, se eu puder

quebro a promessa. quero essa memória.
prefiro a lembrança como uma prova
de que alguma parte vai transcender.

Padrão
crítica, xanto

XANTO | Ficção provisória, por exemplo no megamíni de Victor Heringer, por Luiz Guilherme Barbosa

o_escritor_victor_heringer

[Texto lido no dia 27 de março desse ano na Faculdade de Letras da UFRJ, no evento em homenagem ao Victor Heringer, que contou com as participações de Flavia Trocoli, Alberto Pucheu, Danielle Magalhães, Dimitri BR, Patrick Gert Bange, Leonardo Alves de Lima.]

Hoje volto aqui a esse auditório, retorno à Faculdade de Letras como ex-aluno para homenagear outro ex-aluno, com quem muitos de nós conviveu. Ter estado ao longo de anos sentando nessas salas e andando por esses corredores nos irmana como a todos que aqui estiveram e estão, estudam e trabalham. Mas foi noutro círculo, mais difuso, que convivemos um pouco e trocamos algumas palavras. Temos frequentado bares depois de lançamentos, temos lido livros depois de lançados e escrito nossas impressões pros autores, temos nos beijado e jogado futebol juntos e começado namoros e viajado juntos, temos cozinhado uns pros outros e editado livros e plaquetes uns dos outros, temos nos traduzido e brigado, temos produzido críticas uns dos outros e arrumado emprego uns pros outros, de repente o Victor era um de nós e estava do nosso lado e poderia ser ele a dizer, se quisesse, eu era um de nós, e era todos os outros. Quero dizer que convivemos, um pouco, principalmente no último ano. Trocávamos algumas palavras, nos encontrávamos às vezes, sempre em bando. Éramos dois ex-alunos daqui, aonde retorno hoje para dizer umas poucas palavras sobre ter estado, ter feito, ter convivido, ter conversado, ter escrito, ter estudado. Gostaria, assim, de dizer poucas palavras e me dirigir a vocês para lembrar do Victor no futuro, este que conheço no estranho encontro entre o que leio assinado pelo Victor Heringer e o que lembro dos encontros com o Victor. E só consigo falar desse depois pela frequentação do texto. Tenho lido. Insisto nessa expressão: o verbo ter, no presente, acompanhado de um particípio. Tenho lido. Alguma coisa começa nela para chegar ao texto que desejo ler hoje. Tenho lido textos do Victor e tenho lembrado dele, como uma amiga tem sonhado com ele, são coisas que têm acontecido, ou seja, estão acontecendo inscritas num tempo que já passou mas, pela frequência com que acontecem, é provável que continuem acontecendo. É nessa dúvida que me pego pensando: não digo que estou lendo e sim que tenho lido, esse tom parece mais próximo do que acontece. Se digo que estou lendo, é certo que continua acontecendo, agora, hoje ou hoje em dia, mas se digo que tenho lido, não é certo que continue acontecendo, e o futuro, na dúvida, existe como promessa, e rezamos. Esse tempo verbal, o pretérito perfeito composto, guarda mesmo esse aspecto daquilo que se repete e ainda não cessou de se repetir, guarda esse aspecto que a gramática denomina como iterativo imperfectivo, guarda a imperfeição de um evento que, repetindo-se, não se completou perfeitamente inteiro. Mas com esse nome, iterativo imperfectivo, não se nomeia a dúvida quanto ao que vem, eu digo que tenho lido mas não sei se, a partir de hoje, continuarei a ler. O presente é provisório. Parece que, dizendo assim, o que aconteceu e o que vai acontecer são o mesmo e o outro, não cabendo à imaginação decidir pelo que vem, suspensa na imperfeição do que acontece. Pode ser que aconteça, é possível, é verossímil. Se comecei a pensar no tempo e na gramática, não foi apenas porque vacilamos ao falar daquilo que amamos, antes é uma maneira de corrigir o verbo, o tempo do verbo, e dizer, em vez de dizer que conheci o Victor, que tenho conhecido o Victor. Se ambos fomos alunos da Faculdade de Letras da UFRJ mas, nesse momento, não somos mais, é mais certo dizer que temos sido alunos dessa Faculdade, do que dizer que fomos alunos dessa Faculdade. Pois mesmo ao dizer que somos ex-alunos, dizemos no presente e dizemos alunos, pois mesmo ao dizer que somos ex-alunos, há um traço que liga o não ser ao ser aluno. Temos sido alunos, todos, dessa Faculdade de Letras quando temos lido o Victor Heringer. Que leio como escritor, O escritor Victor Heringer. O retrato em forma de plaquete que Victor compôs num megamíni, em 2015, começa, talvez, com um rosto, talvez não. Sua assinatura como um ex-libris, Victor, na primeira página do livro, parece um rosto, de um ciclope. O V, o I e o T organizam a face, as linhas que se encontram no vértice do queixo, V, a linha do nariz que sobre até a testa e funde I a T, as orelhas C e R, e o olho, O, no meio da face. O retrato tipográfico do escritor Victor Heringer. Parece que a letra erra o rosto do escritor, falta um olho. Viro a página. Agora vejo as duas mãos do escritor Victor Heringer. Elas estão em close, sobre uma superfície lisa e clara, onde fazem sombra, e não sei, ao vê-las, se de fato são as suas mãos. Ambas estão em concha, posicionadas prestes a pegar algum objeto volumoso que se agarra com os dedos todos, mas menor do que a mão. Sapatos, um ferro de passar, o erê padroeiro, uma pedra de rio. Estão nuas, exceto por um band-aid no dedo indicador da mão direita. Olhando assim, não dá para saber qual é a destra, qual a canhota: a fotografia poderia mentir, editada. E ainda que, ao final da plaquete, esteja indicado que à esquerda está a mão esquerda e à direita, a direita, não sei qual delas tem mais destreza, qual a mais gauche. Temos escrito com as duas mãos. Elas compõem um verso em ritmo troqueu, um ritmo manco: “Tenho apenas duas mãos”. As mãos de quem escreve à máquina de escrever, ao teclado do computador, mãos de quem digita com as mãos vazias, dançando os dedos pelas teclas, sem nada que pegar para escrever: a máquina, não mais pena agarrada, excedeu as mãos e dispõe, para os olhos e o tato dos dedos, cada tipo possível que, combinados indefinidamente, compõem qualquer texto, e um rosto. Que, virando a página, o passaporte e a carteira de trabalho do escritor Victor Heringer sejam os próximos elementos fotografados, apenas confirma o território drummondiano em que nos mexemos, desamparado, irônico, apaixonado pelo verso: “Tenho apenas duas mãos / e o sentimento do mundo / mas estou cheio de escravos”. Mãos, passaporte, carteira de trabalho. Basta virar mais uma página para a estrofe se completar: vemos, segundo a descrição da imagem, os sapatos do pai morto, embora nada nele, gasto, de couro, os cadarços amarrados, confirme ao olhar a designação que recebe. Agora a estrofe está completa: mãos, passaporte, carteira de trabalho, sapatos do pai. “Tenho apenas duas mãos / e o sentimento do mundo / mas estou cheio de escravos / minhas lembranças escorrem / e o corpo transige / na confluência do amor”. O escritor Victor Heringer compõe versos como quem fotografa. Seu procedimento parece estabelecer, entre realidade e ficção, uma relação irônica de repetição, a saber: esses sapatos que você vê fotografados e impressos na página são sapatos quaisquer. E quando lemos, ao final da plaquete, que são do pai os sapatos, e olhamos de novo para os sapatos, então agora esses sapatos são, para nós, que lemos, os sapatos do pai do escritor Victor Heringer. Não sabemos ao certo, nem mesmo temos indícios, na imagem, que confirmem, apesar do couro enrugado, de modo que nossa relação com a memória do sapato é ficcional, e por isso esse atributo abre um universo. Penso que esse procedimento, que eu gostaria de chamar, hoje, de ficção provisória, foi descrito em alguns versos de O escritor Victor Heringer:

 

o escritor vuitton heringuer
foi criado por babás que ele amava muito
foi com babás que o pequeno escritor vitorrérgin
conheceu a pobreza
não a pobreza abjeta, uma pobreza calma e brasileira
uma pobreza vraiment manuel bandeira

o estictor vtor heringcer
uma vez chutou o dedo de uma babá muito amada
porque ela não quis comprar canetinhas hidrocor
para o scriptor vitto err

aí a babá chorou e foi pra casa
aí o escrivirré ficou de castigo num quarto pobrezinho
aí a irmã da babá apareceu no quarto e disse:
vão ter que arrancar fora o dedo da babá amada!
o pqn esq vh quis morrer queimado, mas não
arrancaram o dedo não

& o écrivain vector hér aprendeu mais sobre a
arte da ficção com a irmã da babá amada do que
com todo o cânone ocidental, até mais do que
com flaubert e machado de assis, mais até do
que com joyce que só fala de igreja

 

No dia três de março, na abertura da exposição Rejuvenesça: poesia expandida hoje, com curadoria da Pollyana Quintela, esfreguei o chão do Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica, no Centro do Rio, acompanhado por três amigos. Augusto Melo Brandão, Lucas Van Hombeeck e Rafael Zacca. Nós escolhemos cinco livros com poemas, abrimos esses livros e começamos a esfregar, não sabíamos o que podia acontecer. Eu esfreguei Os cem melhores poemas brasileiros do século no chão. Houve um momento que eu esfregava as Galáxias, e a página ia se sujando de pequenos pontos pretos, depois de manchas pretas, o papel ia se gastando, depois rasgando, e o poema se tornando menos legível à medida que esfregava. Estávamos aos pés das pessoas que visitavam a exposição, imprimindo galáxias de sujeira nas páginas dos poemas, usando, além do livro, as duas mãos. Essa ação, parte de um trabalho maior chamado Conversa infinita, trabalhou, por exemplo, com a memória e a provisoriedade de textos canonizados. Temos lido esses poemas, não sei se continuaremos a lê-los dos mesmos modos. Nesse dia, eu e Victor nos cumprimentamos. Temos nos cumprimentado. Cinco dias depois, escrevi uma postagem para ele.

 

Postagem para Victor Heringer

teve um dia / eu tinha acabado de me casar
com a jessica / e era meu aniversário
tudo era uma festa / no apartamento novo
e o victor veio / e foi o primeiro futebol
e ele não jogou / ele disse ter pernas
de cimento / todos entenderam
mas até hoje / todos duvidam

Padrão