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Sergio García Zamora (1986-), por Francesca Cricelli

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POETAS DE GRANADA

Seleção de poemas e poetas que participaram do Festival Internacional de Poesia de Granada, Nicarágua, dirigido pelo poeta Francisco de Asís Fernandez em fevereiro de 2017. A ideia é trazer aos leitores brasileiros poetas que aqui ainda não são conhecidos.

POESIA:

Sergio García Zamora [Cuba, Esperanza, Villa Clara, 1986], jovem poeta, filólogo, multipremiado. Entre seus livros há Tiempo de siega (Premio Poesía de Primavera 2009, Ediciones Ávila, 2010); Poda (Premio Calendario 2010, Casa Editora Abril, 2011); El Valle de Acor (Premio Fundación de la Ciudad de Santa Clara 2011, Editorial Capiro, 2012); Día mambí (Premio Digdora Alonso 2011, Ediciones Vigía, 2012); Libro del amor feliz (Premio Emilio Ballagas 2012, Editorial Ácana, 2013); Las espléndidas ciudades (Premio Eliseo Diego 2012, Ediciones Ávila, 2013); La violencia de las horas (Premio José Jacinto Milanés 2012, Ediciones Matanzas, 2013) e Caballería insurrecta (Premio Manuel Navarro Luna 2012, Ediciones Orto, 2013). Recebeu o Prêmio Ruben Darío em 2016 e o Prêmio da Fundação Loewe, categoria jovem, em 2016. Seus poemas foram publicados em Honduras, Porto Rico, México, Estados Unidos, Espanha.

Seleção e tradução

Francesca Cricelli [Ribeirão Preto, SP, 1982]. Poeta, tradutora e pesquisadora. Publicou os livros de poemas Repátria (Selo Demônio Negro, 2015), Tudo que toca o olhar (Casa Impresora Almería, 2013). Organizou a correspondência de Giuseppe Ungaretti e Edoardo Bizzarri em Cartas – Bizzarri Ungaretti 1966-1968 (Scriptorium, 2013) e o livro das missívas amorosas de Ungaretti para Bruna Bianco (no prelo pela Mondadori, 2017). É doutoranda em Estudos das Tradução (USP), leciona intelecção de literatura italiana na Casa Guilherme de Almeida e colabora com a Revista Cult. Está preparando o livro 16 poemas +1 (Edição de autora, 2017) que será apresentado em Nova York em junho no festival ALLOVER5, coleção trilíngue (PT/EN/ES) de alguns poemas do livro Repátria e outros inéditos.

 

* * *

CUMPLEAÑOS DE CÉSAR VALLEJO

César Vallejo estaba lleno de dolor como una piñata mexicana. Un dolor que él no sufría como César Vallejo por eso resultaba un dolor más triste y un dolor más dulce. Había que decirlo con el idioma de la infancia. César Vallejo estaba lleno de dolor como una piñata mexicana. Era el cumpleaños doloroso del Hombre, los poetas eran los niños invitados a la fiesta y los niños siempre quieren llevarse un dolor a casa. Las personas mayores velaban que cada poeta agarrara su dolor sin disputarse el dolor ajeno. A mí que todavía soy un niño, me tocó en suerte el dolor de la nostalgia. Escribo en el momento menos grave de mi vida. César Vallejo estaba lleno de dolor como una piñata mexicana. Había que darle duro con un palo.

ANIVERSÁRIO DE CÉSAR VALLEJO

César Vallejo estava cheio de dor como uma pinhata mexicana. Uma dor não sofriada como César Vallejo, por isso parecia uma dor mais triste, uma dor mais doce. Havia de ser dita no idioma da infância. César Vallejo estava cheio de dor como uma pinhata mexicana. Era o dolorido aniversário do Homem, os poetas eram as crianças convidadas à festa, as crianças sempre querem levar à casa uma dor. Os mais velhos cuidavam para que cada poeta agarrasse sua dor sem disputar pela dor alheia. A mim, que ainda sou um menino, tocou, por sorte, a dor da saudade. Escrevo no momento menos grave de minha vida. César Vallejo estava cheio de dor como uma pinhata mexicana. Havia que lhe dar uma paulada forte.

§

LA USURA

Uno empeña las palabras por el miserable dinero editorial creyendo que las recobrará algún día, pero la deuda crece sin remedio. uno pide a Ezra Pound un préstamo hasta que logre hacer fortuna y poseer un verso propio, un verso respaldado en oro, una línea como el hilo de los billetes que prueba su autenticidad. Ezra Pound, partidario de Mussolini, acusado de alta traición, te dice: «Con usura no tiene el hombre casa de buena piedra». pero tú le replicas: sin usura no tiene el hombre casa de mala piedra ni casa alguna. Ezra Pound, viejo zorro, ojalá te pudras en el manicomio, acusado de inhumano con tus poemas llenos de humanidad. uno empeña las palabras por el miserable dinero editorial y es toda la traición que comete.

USURA

Uma pessoa penhora as palavras pela miserável grana editorial, acreditando que será, um dia, recuperada, mas a dívida cresce irremediavelmente. Uma pessoa pede a Ezra Pound um préstimo até que possa fazer fortuna e possuir um verso próprio, um verso ancorado no ouro, uma linha como um fio de notas que prova sua autenticidade. Ezra Pound, partidário de Mussolini, acusado de alta traição, diz: “Com usura, o homem não possui uma casa de boa pedra”. Mas você responde: sem usura o homem não tem casa de pedra ruim, nem casa alguma. Ezra Pound, velha raposa, tomara que te putrefaças no manicômio, acusado de ser desumano com teus poemas cheios de humanidade. Uma pessoa penhora suas palavras pela miserável grana editorial e esta é toda a traição que comete.

[do livro Resurrección del cisne, prêmio Ruben Darío 2016]

§

MORDER LA MANO

Morder la mano que te alimenta,
el lenguaje común que te alimenta.
La mano entendida como dependencia
y el lenguaje entendido como sumisión.
Morder la mano hasta el hueso. Triturarlo.
Transformar el crujido en música.
Morder. Hasta el hueso. O no morder.
Esperar por la palabra que echan en tu plato.
Salivar por la palabra si demora.
Darle el gusto a Pávlov. Agradecido.

MORDER A MÃO

Morder a mão que te alimenta,
a linguaguem comúm que te alimenta.
A mão compreendida como dependência
e a linguagem entendida como submissão.
Morder a mão até o osso. Triturá-lo.
Transformar o tritado em música.
Morder. Até o osso. Ou não morder.
Esperar pela palavra que te colocam no prato.
Salivar pela palavra, se demorar.
Dar um gostinho a Pávlov. Agradecido.

§

CONTROL DE SANIDAD

El hombre que recoge los perros
tiene alma de poeta, alma de miserable,
lo que se dice un total miserable desalmado.
Mientras él goza atrapando al animal,
la gente le mira y lo abomina,
la gente que jamás recogió un animal.
Este es mi consejo, mi lección.
Escribir como el hombre que recoge los perros:
tomar al lector por el cuello y levantarlo en vilo;
reírse aunque chille, reírse porque chilla;
echarlo en la jaula, perro entre perros;
hacerle ver que no era otra su verdad
ni otro su destino

CONTROLE DE SANEAMENTO

O homem que recolhe os cães
tem alma de poeta, alma de miserável,
o que se diria um completo miserável desalmado.
Enquanto se diverte aprisionando o animal,
o povo olha e abomina,
o povo que nunca recolheu um animal.
Este é meu conselho, minha lição.
Escrever como o homem que recolhe cães:
tomar o leitor pelo pescoço e levantá-lo no ar;
rir mesmo que faça um grunhido, rir porque o faz;
atirá-lo na jaula, cão entre cães;
fazer ver que não era outra sua verdade
nem outro o seu destino.

§

LOS RECLUTAS

El verde militar está en los ojos:
muchachos que piden autorización
para ir al carnaval y abordan los camiones,
las máquinas de alquiler en Jagüey o Santa Clara
con el dinero último, con el único dinero.
Regresan las cabezas podadas por el verde militar,
los rostros que lastima la cuchilla:
el hermano mayor, el novio, el hijo de vecino.
En la noche de provincia son príncipes,
reyes que han vuelto de Troya o Las Cruzadas.
Bajo el fuego artificial, bajo la vida artificial
respiran el aire último, el único aire,
y entran al verde militar con sus amores.
Como los reclutas anhelas un pase,
un gesto dispensador de tu perenne servicio;
un pase, una tregua, un salvoconducto
para tu vida siempre. Como los reclutas.
Solo que ellos no saben disimular.

OS RECRUTAS

O verde militar está nos olhos:
garotos que pedem autorização
para pular o carnaval e abordam os caminhões,
os carros de aluguel em Jagüey ou Santa Clara
com a última grana, a única grana.
Voltam com as cabeças podadas pelo verde militar,
os rostos feridos pela lâmina:
o irmão mais velho, o namorado, o filho do vizinho.
Na noite da província são príncipes,
reis que voltaram de Troia ou das Cruzadas.
Sob o fogo artificial, sob a vida artificial
Respiram o último ar, o único ar,
e entram no verde militar com seus amores.
Como os recrutas, anseias um passe,
um gesto que te dispense do perene serviço;
um passe, uma trégua, um salvo-conduto
para tua vida, sempre. Como os recrutas.
Só que eles não sabem dissimular.

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2 comentários sobre “Sergio García Zamora (1986-), por Francesca Cricelli

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