crítica, crítica de tradução

sobre a fidelidade, slavoj zizek

“mão com esfera refletora”, de m. c. escher

no trecho abaixo, slavoj zizek discute o conceito de fidelidade dentro da academia, ou seja, sobre os estudos a respeito de filósofos. mas o pulo dessa reflexão para o da tradução & e o da nova produção poética, parece-me, pode render alguma reflexão.

guilherme gontijo flores

Vamos pegar um filósofo como Kant. Existem dois modos de repeti-lo. Uma pessoa pode agarrar-se a seu significado literal, elaborando-o mais detalhadamente ou mudando o sistema, como os neokantistas (até Habermas e Luc Ferry) estão fazendo, ou pode tentar recuperar o impulso criativo que o próprio Kant traiu na atualização de seu sistema (isto é, conectar-se com o que já era “em Kant mais que o próprio Kant”, mais que seu sistema explícito, seu cerne exagerado). Existem, respectivamente, dois meios de trair o passado. A verdadeira traição é um ato ético-teórico da maior fidelidade: há que trair o sentido textual de Kant para se permanecer fiel ao (e repetir o) “espírito” de seu pensamento. É precisamente quando se permanece fiel ao significado literal dos escritos de Kant que realmente se trai o cerne de seu pensamento, o impulso criativo subjacente. Deve-se levar esse paradoxo à sua conclusão. Não é apenas que para permanecer realmente fiel a um autor há que traí-lo (o significado literal atual de seu pensamento), em um nível mais radical, a afirmação contrária tem ainda maior validade, mais especificamente, trai-se verdadeiramente um autor apenas ao repeti-lo, ao se permanecer fiel ao cerne de seu pensamento. Se uma pessoa não repete um autor (no autêntico sentido kierkegaardiano do termo), mas apenas o “critica”, move-o para outro lado, vira-o ao contrário e assim por diante, isso significa na verdade que essa pessoa, por ignorância, permanece dentro do horizonte desse autor, dentro de seu campo conceitual. Ao descrever sua conversão ao cristianismo, G. K. Chesterton diz que “tentei estar uns dez minutos à frente da verdade. E descobri que estava dezoito anos atrasado em relação à mesma.” O mesmo não é ainda mais válido para aqueles que, hoje em dia, tentam desesperadamente alcançar o Novo seguindo a última moda “pós” e são então condenados a permanecer eternamente dezoito anos atrasado [sic] em relação ao verdadeiramente Novo?

Zizek, Slavoj. Órgão sem corpos: Deleuze e consequências. Trad. de Manuella Assad Gómez. Rio de Janeiro: Cia. de Freud, 2008. pp. 30-31.

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2 comentários sobre “sobre a fidelidade, slavoj zizek

  1. Gui, muito interessante! Aprecio o Zizek! Como estou trabalhando Os Prolegômenos, de Kant, com meus alunos do curso de Filosofia, vou iniciar a minha aula amanhã com o teu trecho traduzido. Abração!

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