crítica, xanto

XANTO| Poesia brasileira, livros da década: parte XI

uma casa para conter o caos
dez anos de poesia brasileira
[2008 – 2018]
seleção, textos & notas
Gustavo Silveira Ribeiro

Continuamos aqui a série de pequenos comentários sobre os livros da década, segundo o crítico Gustavo Silveira Ribeiro.

aqui a luz faz o contrário de iluminar
Um teste de resistores
2014 – 7Letras
Marília Garcia
[Rio de Janeiro – 1979]

De todos os livros verdadeiramente influentes publicados na última década, talvez Um teste de resistores seja, dentre todos, o mais estranho, isto é, aquele que traz em si maior carga de diferença e negatividade em relação às formas poéticas correntes no país. Nada do que se escrevia entre nós até então de fato antecipava o circuito criativo de Marília Garcia: nem as formas em fuga de um Manoel Ricardo de Lima, nem as suspensões e modos de desaceleração pensante de uma Annita Costa Malufe, nem as tensões da poética de um escritor-crítico como Marcos Siscar, com quem sua poesia tem mais afinidade no Brasil. Mesmo seus livros anteriores, se lidos com atenção, anunciavam com alguma clareza os desdobramentos que ainda estavam por vir. Na passagem de um livro a outro a poeta se movimenta, vai descartando alguns processos enquanto depura outros, mantendo alerta o sentido de busca da sua poética: da tela de colagens e de soma de muitas vozes que é Encontro às cegas (2001) às formulações especulativas, mas ainda concentradas (restritas, modeladas) de 20 poemas para o seu walkman (2007), se nota um trabalho de esgarçamento do verso moderno, distante, mas ainda em diálogo (talvez melhor seria dizer negociação) com algumas referências centrais da sua geração, os que passaram a escrever entre o fim dos anos 1990 e o início do novo século: Francisco Alvim, Ana C., algumas outras vozes da Poesia Marginal carioca; na escrita-deriva de Engano geográfico (2012), na qual acaso, viagem e desconhecimento (questões decisivas para os trabalhos posteriores) se misturam a leituras de teóricos e poetas franceses do presente (Roubaud, Gleize, Alferri) impondo uma textualidade nova, onde também se vê mais claramente como a presença de um eixo narrativo ganhava corpo em seu trabalho. A publicação de Um teste de resistores, no entanto, radicaliza cada uma das questões que seus livros anteriores traziam, deslocando balizas e subvertendo sentidos que pareciam estáveis. O hibridismo, traço recorrente, mas não dominante, no material pretérito transforma-se nele em ponto fulcral: indeterminam-se prosa, verso e imagens; narrativa autobiográfica, reflexão teórica e algum esboço de filosofia; exercícios de uncreative writing, comentários metatextuais e a encenação contínua do ato da criação poética, feita quase como uma performance. Tudo isso e mais inúmeros outros elementos menores acomodam-se, sem solução definitiva e às vezes de modo excessivamente irregular, dentro do livro em poemas longos e inclassificáveis, fluidos e incertos como os ensaios (uma das matrizes formais desses textos, certamente), musicais a sua maneira (Victor Heringer lembrou, no texto da orelha, dos caprichos; talvez seja mais correto pensar, como já se tentou, nos improvisos do jazz) recusando o lirismo confessional e ligeiro de tantos poemas brasileiros antigos e contemporâneos, preferindo os modos da repetição – que conduzem, ou podem conduzir nos seus melhores momentos, à pequena epifania que lança luz oblíqua sobre o poema e a realidade que o cerca. Procurando interrogar a forma do poema continuamente, testando a sua resistência – isto é, a sua duração, maleabilidade e paciência – Marília propõe, às vezes de modo incômodo para certa crítica, que nela vê apenas devaneios teóricos e o abandono do artesanato do verso, caminhos distintos para a sua arte e para a produção poética atual, centrada na observação insistente de um conjunto de procedimentos. Pois essa é, com tudo o que isso implica de potente e eventualmente limitador, uma poética de procedimento. As referências que a poeta passa a mobilizar mais frequentemente a partir daqui (e que permanecem nos livros posteriores, Paris não tem centro [2015] e Parque das ruínas [2018]), Emmanuel Hocquard sobretudo, além de Kenneth Goldsmith, descortinaram leituras e possibilidades criativas pouco exploradas no país até então, perspectivas que colocam em xeque questões como a autoria, a autonomia do poema, a relação entre criação e crítica.

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XANTO| Poesia brasileira, livros da década: parte X

uma casa para conter o caos
dez anos de poesia brasileira
[2008 – 2018]
seleção, textos & notas
Gustavo Silveira Ribeiro

Continuamos aqui a série de pequenos comentários sobre os livros da década, segundo o crítico Gustavo Silveira Ribeiro. O texto que segue é uma derivação da orelha escrita para a antologia poética POESIA +, de Edimilson de Almeida Pereira, que a Editora 34 publicará no início de dezembro. Qvasi, um de seus últimos livros, é também, a seu modo, uma espécie de releitura da trajetória do poeta.

pedra angular dos sem palavra
qvasi
2017 – 34
Edimilson de Almeida Pereira
[Juiz de Fora – 1963]

*

Arcaico. Informe. Ancestral. Três caminhos que apontam, sem os esgotar, os compromissos de um poeta e os traços de uma poética, que nesse Qvasi alcançam um ponto de inflexão. Esses três termos podem funcionar como palavras-passe para uma poesia exigente, que se entrega aos poucos, feita de voltas no tempo, torções na linguagem e retomadas simultâneas de múltiplas tradições. O livro em tela é feito da matéria impura de línguas e épocas em sobreposição. Cortados com o rigor da melhor tradição moderna (Valéry, Cabral, Ponge) seus versos (enxutos mesmo quando apresentados sob a armadura da prosa) lançam-se sobre a oralidade do interior de Minas Gerias, elaborando nesse encontro, entre saltos e elipses, o poema – uma forma-força peculiar, intervalo entre passado e presente. O repertório de temas e imagens dessa poesia é também território do amálgama: ali estão a especulação filosófica, a racionalidade científica, a pesquisa histórica, e filológica, junto aos casos da gente comum, mateiros e benzedeiras, caçadores e professoras de crianças. O popular e o erudito são continuamente embaralhados no livro, num processo que resulta na desierarquização crítica dos saberes: os discursos do poder não importam, as vozes da cozinha e do terreiro é que oferecem a sua verdade possível. Múltiplos espaços formam o livro: o das paisagens de Ouro Preto e arredores, montanhas e igrejas envoltas pela História; as ruazinhas, as vilas, os territórios perdidos em que se movem, distantes das grandes cidades, homens e mulheres de outra época, atentos a formas de vida resistentes e necessárias. São habitantes da periferia da Modernidade, egressos de quilombos e capoeiras, uma coleção de personagens desviantes (“os letrados”), cujo traço de vida e violência a poesia de Edimilson capta com perícia, movendo-se numa língua que é, ao mesmo tempo, ‘legal’ e ‘letal’, isto é, esforço de nomeação preciso e gesto secreto de negação, fechamento a qualquer operação de sentido. Atentos à lição metapoética que atravessa toda a sua extensa produção (de 1985 para cá já são dezenas de livros, dos quais se destacam Veludo azul [1985], Árvore dos Arturos [1988] e, mais recente mais quase clandestino, Homeless [2010] meditação trágica sobre águas da e cicatrizes históricas), seus poemas aqui meditam a natureza dissolvente do canto e a força cheia de riscos da palavra escrita. A relação do poeta com a sua arte aqui, longe de ser confortável ou atenta a identitarismos de reconhecimento imediato, é ambígua – num só movimento áspera e vital. Retorno ritual, a atividade poética em Qvasi se inclina na direção de sujeitos apagados e vidas menores, tomadas como afirmação de um outro mundo (mais autêntico, talvez) fixado como um enclave potencial no coração do nosso – burguês, convencional e em frangalhos. Poesia pensante, os versos de Edimilson convidam o leitor (num aceno, quem sabe?, a certa tradição crítica que deve à metafísica heideggeriana seus pressupostos fundamentais) a reaprender, ou inventar, os nomes das coisas da terra, desvelando, no esforço de um olhar tantas vezes inaugural, seu lugar e seu sentido.

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XANTO| Poesia brasileira, livros da década: parte IX

uma casa para conter o caos
dez anos de poesia brasileira
[2008 – 2018]
seleção, textos & notas
Gustavo Silveira Ribeiro

Continuamos aqui a série de pequenos comentários sobre os livros da década, segundo o crítico Gustavo Silveira Ribeiro.

Vinagre: uma antologia de poetas neobarracos
2013 – Os vândalos
Fabiano Calixto & Pedro Tostes (org.)
[Garanhuns – 1972
Rio de Janeiro – 1981]

Proposta, organizada e publicado em curtíssimo espaço de tempo, nas últimas semanas de Junho de 2013, no centro dos acontecimentos políticos que sacudiram vigorosamente o país, Vinagre: uma antologia de poetas neobarracos (editada apenas como livro eletrônico), feita por Fabiano Calixto e Pedro Tostes, ainda é, passados já mais de seis anos, a expressão artística mais imediata e ao mesmo tempo mais significativa daquele contexto, surgindo como uma sua consequência direta, uma espécie de instantâneo tomado no calor da hora, pleno de espontaneidade e desorganização, nascido sem planejamento prévio, de modo algo semelhante às manifestações massivas que inundaram as cidades brasileiras. Atuando como um elaborado arquivo dos afetos e das tensões, das violências, das imagens e dos desejos daqueles dias de fúria e expectativa, os poemas reunidos em Vinagre, sob essa perspectiva, vêm se somar – guardadas, é verdade, as muitas e importantes distinções existentes – aos milhares de vídeos e fotos pessoais feitos durante os protestos, cada um deles, em pequenos fragmentos, apropriando-se de um acontecimento que, pela sua natureza movente e coletiva, intempestiva e paradoxal, permanece até hoje um enigma, um evento não-reconstituível em sua totalidade, posto como desafio ao pensamento político tradicional. Mesmo que a direita do espectro ideológico tenha, vistas as coisas do belvedere privilegiado – e catastrófico – deste ano de 2019 (posterior, portanto, às práticas corrompidas e partidarizadas da Operação Lava-Jato, à destituição do mandato de Dilma Rousseff, ao debacle do sistema político brasileiro e à eleição, enfim, do candidato autoritário e proto-fascista Jair Bolsonaro) tenha se apoderado da narrativa principal dos protestos de 2013 e das suas consequências político-eleitorais imediatas, a origem das explosões populares e de suas pautas mais consequentes e duradouras se situa à esquerda, no campo das aspirações democráticas e da realização plena da justiça social. Tudo isso é relevante para a compreensão do papel que cumpre Vinagre na cena poética brasileira porque o livro como que consolida e expande a orientação política que se esboçava, há já alguns anos, em parte significativa da poesia escrita no Brasil. Se livros como os de Marcelo Ariel (Tratado dos anjos afogados [2008]), Pádua Fernandes (Cinco lugares da fúria [2008] e Alberto Pucheu (Mais cotidiano que o cotidiano [2013], por exemplo, apontavam, cada um a sua maneira e a partir de pressupostos muito diversos, para a violência histórica das relações sociais no país, sem que fosse possível, numa escala mais ampla, dar contorno e sentido à sucessão de poemas que, dispersivamente, insistiam em voltar às mesmas imagens e às mesmas questões. Vinagre vai reunir muitos outros poetas, conhecidos e desconhecidos, veteranos e estreantes, bons e maus artistas, que irão explicitar, no conjunto informe que é a antologia, a tendência que antes podia ser apenas vista de relance. O desejo de participar dos protestos, de fazer a poesia se posicionar entre os discursos públicos em luta naquele momento pode ser percebido pela extensão do projeto: em curtíssimo tempo, depois de um chamado divulgado nas redes sociais, mais de 150 poetas enviam contribuições para Vinagre, num gesto que não deve ser interpretado como simplesmente voluntarista ou casuístico. O grande número de autores e a quantidade relativa de bons poemas que se juntaram na antologia (dentre os quais é preciso destacar os de Adriano Scandolara, Diego Vinhas, Julia de Carvalho Hansen e Maiara Gouveia) indicam a latência de um elemento realista na poesia brasileira do presente, e o desejo vivo, até então talvez recalcado, de intervir no presente, responder poeticamente, com todas os problemas que isso tem, aos pequenos e grandes acontecimentos do tempo. Parte da explicação para esse fenômeno está na dinâmica da internet, que reconfigurou os ritmos de leitura, a disponibilidade de textos acessíveis, a velocidade de publicação e mesmo os modos de consumo da poesia. O melhor e o pior de Vinagre tem a ver, quem sabe?, com esses novos agenciamentos que as comunidades virtuais das redes foram formando, e que alteraram sensivelmente a cena poética brasileira. Uma parte da energia crítica e dos excessos militantes que se apresentaram na antologia ainda se fazem visíveis no que se publica agora no país, contribuindo para o grande número de poemas políticos que todos os dias surgem. Nem todos, no entanto, guardam a mesma força expressiva, a mesma capacidade de estranhar a forma e colocar em xeque o próprio sentido da ação política que alguns dos melhores poemas de Vinagre traziam.

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XANTO| Poesia brasileira, livros da década, parte VIII

uma casa para conter o caos

dez anos de poesia brasileira
[2008 – 2018]
seleção, textos & notas
Gustavo Silveira Ribeiro

Continuamos aqui a série de pequenos comentários sobre os livros da década, segundo o crítico Gustavo Silveira Ribeiro.

* * *

lamber o mundo com a própria língua
Ciclo do amante substituível
2012 – 7Letras
Ricardo Domeneck
[Bebedouro – 1977]

Ao desdobrar alguns motivos e imagens de seu livro imediatamente anterior, o notável e curtíssimo Cigarros na cama (Berinjela, 2011), Ricardo Domeneck consolidava com o seu Ciclo do amante substituível um novo momento na sua trajetória poética, bem como dava contornos claros a um estilo e a uma assinatura hoje muito facilmente reconhecíveis pelos leitores de língua portuguesa que se interessam pela produção poética atual. Se até então os livros de Domeneck buscavam amalgamar a cerebralidade construtiva da geração de poetas brasileiros dos anos 1990 (do que ela buscava e bebia em João Cabral de Melo Neto, principalmente) com uma tradição carnal e mística que atravessava, subterrânea, a cultura poética do país (mas que era sistematicamente posta de lado, se não mesmo invisibilizada pelas poéticas e correntes críticas dominantes), numa proposta que atingiu seu ponto mais alto em a cadela sem Logos (2007) – nos poemas editados a partir de 2011 o poeta deixa de lado as formas mínimas e os exercícios de contenção – em mais de um sentido – que elas poderiam implicar, para assumir um projeto diverso, na aparência quase avesso ao que antes desenvolvia, mas jamais incoerente com suas linhas de força centrais. A necessidade de dar corpo e espírito ao minimalismo antilírico que dominava os círculos poéticos principais do país se consuma e radicaliza no Ciclo do amante substituível, livro de poemas longos e discursivos que mantém afiado o corte do verso, quase sempre curto e rápido, feito de enjambements que se sobrepõem, e que incorpora agora ao seu repertório tanto as formas e motes arcaicos da poesia Antiga (as odes e elegias da tradição greco-latina, seus modos de celebração hedonista e de lamento público) quanto os ritmos, entonações e imagens da música popular brasileira, especialmente de sua vertente mais sentimental e histriônica. A carga erótica notável nos livros anteriores se eleva, bem como o coeficiente lírico dos poemas, que dramatizam sem cessar a perda do objeto amoroso, bem como o êxtase sensual de sua presença rememorada. O alto grau de elaboração linguística, a consciência profunda da historicidade das formas e um permanente travo auto-irônico distanciam o livro de uma reativação do que a poesia brasileira, ao longo dos tempos, cultivou de pior – a grandiloquência derramada e o sentimentalismo confessional, cheio de verdades e bons sentimentos. Têm razão críticos como Laura Erber (autora, aliás, de um sofisticado livro de poemas, Os corpos e os dias [2008], que também procurou reposicionar o lirismo e o discurso amoroso no campo da poesia brasileira contemporânea, nesse momento refratário a eles]) que apontam, no Ciclo do amante substituível, o jogo de máscaras em meio às quais o eu se apresenta, num movimento cambiante de encobrimento e revelação que esvazia qualquer leitura apressadamente biográfica e circunstancial. A única verdade definitiva: o sujeito lírico constrói a sua mitologia e opera através dela. O embaralhamento de verdade e ficção tão decisivo para o livro se apoia nesse processo de contínua fabulação de si, e que encontra na identificação projetiva do eu com personagens diversos, famosos e anônimos, antigos e contemporâneos, um modo de configuração particular. O Moço, amante desejado e ausente, é peça central do quebra-cabeça que é o Ciclo do amante substituível, do qual também fazem parte Elizabeth Taylor, Antínoo, um acordeonista de Bruxelas, Frank O’Hara, Maysa e tantos outros, inumeráveis nesse livro longo. Erudito e derramado, reflexivo e pop, o livro de Ricardo Domeneck reabriu caminho para a lírica amorosa no Brasil, desenvolvendo um modo bastante fértil de aproveitar os excessos melodramáticos que formam e cercam a cultura brasileira, na poesia e em tantas outras expressões artísticas. A presença da poesia de Domeneck no que se produz hoje é considerável, podendo ser vista em autores como Adelaide Ivánova, William Zeytounlian ou Ismar Tirelli Neto; do mesmo modo, é também notável o papel que cumpre como arqueólogo de poetas e poéticas, orientando, bem ou mal, releituras que se têm feito de nomes do passado remoto ou recente que permaneciam à sombra.

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XANTO|Poesia brasileira, livros da década: parte VII

uma casa para conter o caos
dez anos de poesia brasileira
[2008 – 2018]

Parte VII

Como anunciado e, agora, dando continuidade, seguimos hoje com a série de livros escolhidos pelo professor Gustavo Sivleira Ribeiro. A quem não tenha visto os posts anteriores, vale reforçar o anúncio: os livros não estão aqui numa numeração qualitativa de lista; o projeto aqui não é esgotar o interesse da poesia brasileira, por isso mesmo os livros foram aqui escolhidos por múltiplos critérios.

* * *

nenhum poema é mais difícil do que sua época
Monodrama
2009 – 7Letras
Carlito Azevedo
[Rio de Janeiro/RJ – 1961]

Monodrama é um livro sujo, convulsivo, no qual a forma em desagregação do poema convive e se mistura com o estado permanente de crise em que o mundo aparece mergulhado – não apenas o Brasil. Num certo sentido, pode-se dizer que o livro antecipa (num movimento que continua e radicaliza o que já havia feito Tarso de Melo em Planos de fuga (2005), ao passo em que dialoga com o que no mesmo ano indicava Eduardo Sterzi em Aleijão (2009)) o mal-estar que se instalaria na cultura brasileira (com a literatura à frente) poucos anos depois, no pós-2013, mas que no momento preciso de sua publicação talvez não se deixasse perceber em meio à euforia do crescimento econômico e das políticas de redistribuição de renda àquela altura em seu auge, entre o fim do governo Lula e o primeiro mandato de Dilma Rousseff. A alternância entre o verso curto, veloz e fraturado (que não traz mais a limpidez do corte preciso – cabralino, para alguns – que marcaria a lírica minimalista dos anos 1990) e a prosa cumulativa, às vezes próxima da crônica alucinada, às vezes configurada como diário íntimo ou como ficção especulativa, singularizam o livro no panorama da poesia brasileira, dando a ele, ainda, forte lastro político, já que a forma em crise aberta e a paisagem de catástrofes que se insinuam nos poemas são, de fato, uma coisa só no livro, sobrepostas sem qualquer interrupção. Há como que um movimento pendular que atravessa e constituiu Monodrama,segundo o qual os seus textos ora se aproximam do discurso poético, visto como modo de resistência e sobrevida da beleza e de formas autênticas de habitar o mundo, ora o rejeitam fortemente, esgarçando o seu tecido pela ironia e pela violência, num movimento que se coloca em sintonia, por exemplo, com elaborações negativas da antipoesia de Nicanor Parra (com sua anti-grandiloquência característica, avessa também ao sentimentalismo barato ou à confissão melodiosa e autoindulgente) ou ainda com as tentativas de saída do território da poesia operadas por certos poetas franceses das últimas décadas como Jean-Marie Gleize, entre outros, que pressupõem outros territórios, como a prosa, para o reposicionamento do poético. Reconhecido por críticos e por outros poetas como uma referência incontornável de seu tempo, a época das promessas e da catástrofe no Brasil, o livro de Carlito pode ser rastreado em diferentes projetos criativos desenvolvidos nos anos seguintes, dos quais o perturbador Nominata morfina (2014), de Fabiano Calixto, composto inteiramente por poemas em prosa, talvez seja o exemplo mais bem elaborado. 

* * *

O que ainda virá:

lamber o mundo com a própria língua
Ciclo do amante substituível
2012 – 7Letras
Ricardo Domeneck
[Bebedouro – 1977]

§

aqui a luz faz o contrário de iluminar
Um teste de resistores
2014 – 7Letras
Marília Garcia
[Rio de Janeiro – 1979]

§

pedra angular dos sem palavra
Qvasi
2017 – 34
Edimilson de Almeida Pereira
[Juiz de Fora – 1963]

§

nesta ausência de distinção entre nós
Trilha
2015 – Azougue Editorial
Leonardo Fróes
[Itaperuna – 1941]

§

a noite explode nas cidades
Vinagre: uma antologia de poetas neobarracos
2013 – Os vândalos
Fabiano Calixto & Pedro Tostes (org.)
[Garanhuns – 1972
Rio de Janeiro – 1981]

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XANTO|Poesia brasileira, livros da década: partes V e VI

uma casa para conter o caos
dez anos de poesia brasileira
[2008 – 2018]

Partes V & VI

Como anunciado e, agora, dando continuidade, seguimos hoje com a série de livros escolhidos pelo professor Gustavo Silveira Ribeiro. A quem não tenha visto os posts anteriores, vale reforçar o anúncio: os livros não estão aqui numa numeração qualitativa de lista; o projeto aqui não é esgotar o interesse da poesia brasileira, por isso mesmo os livros foram aqui escolhidos por múltiplos critérios.

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Ricardo

o que quer que o meu corpo escreva
Modelos vivos
2010 – Editora Crisálida
Ricardo Aleixo
[Belo Horizonte – 1960]

Numa década em que as experiências em torno da poesia visual parecem ter se deslocado, numa demonstração de que – em que pese o vigor criativo de um André Vallias e de um Sérgio Medeiros, por exemplo – o eixo vanguardista vindo dos concretos perdeu tração entre nós, os Modelos vivos de Ricardo Aleixo conseguem ao mesmo tempo sintetizar o enorme legado (brasileiro e internacional) da visualidade na poesia e expandi-lo, propondo novos meios de relação entre palavra e imagem, entre traço e corpo, entre artes plásticas e literatura, enfim. Um dado decisivo nesse reposicionamento da questão do visível e da visualidade na cena da poesia brasileira contemporânea passa, sem dúvida, pela performance, pelo lugar que essa prática artística (todo um campo de pesquisa e invenção quase desconhecido no país, pelo menos nos termos radicais em que o poeta mineiro o coloca) ocupa no livro. Os grafismos e os registros manuais da escrita que atravessam Modelos vivos dão conta de um processo vivo, em pulsação, que se não acontece, em ato, diante dos olhos do leitor, remete para uma tentativa de registro daquilo que, na corporalidade da ação performática, é gesto irrepetível, memória das mãos do artista-criador. Do mesmo modo, a presença, no livro, de um poema-ensaio como o “Poemanto” aponta também para o mesmo lugar, uma vez que o texto descreve e procura refletir sobre a corpografia ritual que a performance institui na obra de Aleixo, criando um novo ângulo através do qual a consciência visual do poeta vai se expressar. Até pela sua extensão (são 75 poemas, muitos dos quais longos, outros tantos seriais), Modelos vivos assinala ainda, com maior rigor, as linhas de força desse poeta tão singular no panorama brasileiro, em cuja obra se cruzam o legado sofisticado e hiperconsciente do Concretismo (de Augusto de Campos em especial), o gosto pela improvisação e pela mistura de um Hélio Oiticica (às vezes de um Leminski) com o resgate, de dimensão histórica e espiritual, da ancestralidade africana, seus sons, movimentos, gestos e sentidos. Talvez seja possível dizer que Aleixo, nos vários livros que publicou desde então, não tenha voltado a atingir o grau de domínio técnico e o largo alcance político dos poemas reunidos nestes Modelos vivos, o que explicita
ainda mais a importância do material, seja pela identificação com os marginalizados que se projeta em tantos textos (acentuando o compromisso ético perceptível desde o título, que remete aos artistas de rua do nosso tempo, invisíveis, e aos modelos anônimos fixados em quadros do passado), seja pela dimensão renovadora de seus objetos verbais e não verbais.

*

ANA

um acordo tácito com as coisas vivas

O livro das semelhanças
2015 – Companhia das Letras
Ana Martins Marques
[Belo Horizonte – 1977]

Se não é o melhor livro da curta, mas produtiva, trajetória poética de Ana Martins Marques (o exercício de concisão e a melancolia agridoce que informam Como se fosse a casa [2017] fizeram a poeta alcançar, até agora, seus resultados mais expressivos), O livro das semelhanças é certamente o seu volume mais importante e bem elaborado, um projeto muito consciente que reúne e organiza poemas de notável manejo técnico (a variedade e a precisão rítmica são um seu trunfo, por exemplo) e grande capacidade comunicativa, que conseguem dialogar, sem derivar para a banalidade, a fórmula fácil ou o clichê de apelo mercadológico, com o leitor não especializado, atraindo para si um público crescente e variado, responsável pelos seus significativos números de vendas. Um dos elementos que talvez explique o largo alcance dos seus versos seja o coeficiente de surpresa delicada que os textos têm, capazes de extrair pequenas epifanias de um universo de coisas simples, vivências cotidianas, cenas amorosas quase em surdina. A universalidade, por assim dizer, desse procedimento é considerável, haja vista o testemunho que parte importante do modernismo, brasileiro e internacional, deixou dessa combinação entre realismo, sobriedade construtiva e aceno ao sublime. Em Ana Martins Marques essa mistura vai se somar a uma ética que parte da crítica vem aproximando do humanismo, o que por vezes lembra – muito embora não esteja presente na poeta a auto-ironia corrosiva e o indisfarçável lastro romântico – certa dicção de Manuel Bandeira. A atenção ao mundo material, visível em todos os demais trabalhos da autora, tem no Livro das semelhanças um lugar de destaque: seus poemas observam com cuidado, tomando-os como convite ao pensamento, uma miríade de objetos comuns: em primeiro lugar, o próprio objeto-livro, perscrutado em todas as suas partes, da capa ao colofão, passando pelo índice remissivo, material de uma poesia que tem na metalinguagem uma de suas questões recorrentes; o isqueiro levado no bolso, o mapa aberto em viagem, a porta, a janela, os móveis que compõem uma casa. Para cada um deles os poemas parecem ter um acordo a propor, um modo projetivo de aproximação, que neles insufla vida e lirismo ao mesmo tempo que recupera de suas formas um silêncio necessário, um estranhamento que permite compreender, de outro modo, os ordenamentos e afetos humanos. Se não funciona sempre, produzindo, vez por outra, poemas um tanto irregulares, esse intercâmbio entre a poeta e as coisas que a cercam (que cercam toda a gente, enfim) se mostra interessante e necessário ao livro, uma vez que contém, em menor escala, a lógica da permuta e das afinidades que dá sentido aos poemas da seção central do volume, seção que tem título idêntico ao livro. A questão das semelhanças estabelece um princípio relacional como base constitutiva dessa poesia, que passa a se defrontar com o deslimite do mundo, onde tudo é outro e aponta para outro: as casas em que se habita são sempre casas dos vizinhos; se está metido numa roupa que é como um navio abrigando o corpo; as lembranças dos outros são intercambiáveis com a própria memória. Ponto central do livro, os poemas reunidos nessa parte estabelecem um jogo com o leitor, que a partir da sua leitura passa a reconhecer e não reconhecer o mundo ao seu redor, percebendo-o ora mais detidamente, ora como se o visse, de novo, pela primeira vez. A força de mobilização da poesia de Ana Martins Marques passa por aí, por essa força de renovação e memória, e é, quem sabe?, desse lugar que ela tem conseguido reaproximar, no panorama contemporâneo do país, a poesia lírica e o público comum.

*

O que ainda virá:

nenhum poema é mais difícil do que sua época
Monodrama
2009 – 7Letras
Carlito Azevedo
[Rio de Janeiro/RJ – 1961]

§

lamber o mundo com a própria língua
Ciclo do amante substituível
2012 – 7Letras
Ricardo Domeneck
[Bebedouro – 1977]

§

aqui a luz faz o contrário de iluminar
Um teste de resistores
2014 – 7Letras
Marília Garcia
[Rio de Janeiro – 1979]

§

pedra angular dos sem palavra
Qvasi
2017 – 34
Edimilson de Almeida Pereira
[Juiz de Fora – 1963]

§

nesta ausência de distinção entre nós
Trilha
2015 – Azougue Editorial
Leonardo Fróes
[Itaperuna – 1941]

§

a noite explode nas cidades
Vinagre: uma antologia de poetas neobarracos
2013 – Os vândalos
Fabiano Calixto & Pedro Tostes (org.)
[Garanhuns – 1972
Rio de Janeiro – 1981]

 

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XANTO|Poesia brasileira, livros da década: partes I e II

uma casa para conter o caos
dez anos de poesia brasileira
[2008 – 2018]

O professor da UFMG e crítico Gustavo Silveira Ribeiro escolhe e comenta os livros mais importantes da última década na poesia brasileira. Uma série de brevíssimos ensaios sobre algumas das vozes que marcaram a lírica contemporânea de 2008 para cá. Antecipamos aqui os dois textos da série, que em breve estará, completa, na página da escamandro. Um aviso aos navegantes: os livros não estão aqui numa numeração qualitativa de lista; o projeto aqui não é esgotar o interesse da poesia brasileira, por isso mesmo os livros foram aqui escolhidos por múltiplos critérios.

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I. uma arte como a sombra temperando a luz
Icterofagia
2008 – Hedra
Dirceu Villa
[São Paulo – 1975]

Poeta das máscaras e das múltiplas vozes, Dirceu Villa assume de modo bastante consciente, neste que é o seu mais complexo e extenso livro, a dupla lição de Ezra Pound: o poeta deve ser muitos sendo um só, cantando/escrevendo à maneira de outros, domando estilos e perspectivas que não são (não podem ser) as suas; o seu tempo, por sua vez, estará conectado a todos os outros tempos – ser contemporâneo é pertencer a todas as épocas (com ênfase na sua, no seu momento histórico), entrando e saindo por elas sem se deixar prender por nenhuma. Icterofagia combina, nesse sentido, o impulso em direção ao novo e à experimentação formal típico das vanguardas com a solicitação permanente da história literária e da tradição (são mais decisivas as reverberações da Antiguidade e do Medievo, mas há também traços da lírica de outros tempos da Modernidade, do século XVI ao XX), o que dá aos seus versos uma dicção bastante singular, posta entre a ordem severa dos clássicos e a tormenta desestabilizadora (e profícua) dos modernos; entre, enfim, as questões – de ordem ética e estética – ainda abertas e prementes, formuladas há milênios por poetas e filósofos, e os dilemas do tempo presente, que estranham e refratam aquelas questões, acrescentando a elas novas dimensões, que, no entanto, não satisfazem as suas demandas. No livro, a invocação das musas, dos mitos (recorde-se, aqui, o belo e emblemático poema “DISCURSO FLORAL DE DAFNE TRANSFORMADA EM LOUREIRO”, que justapõe Ovídio e Radiohead, a imaginação poética do mundo antigo, centrada no processo da metamorfose, e a visualidade comum à poesia do século XIX e XX, de Mallarmé, cummings e a Poesia Concreta) e dos trovadores se dá sobre a matéria impura dos dias que correm, eivada de burocracia, progresso e estratégias de marketing. A crítica ao mundo contemporâneo proposta nos versos de grande apuro formal, ao mesmo tempo atualiza a força derrisória dos mestres do passado (fazendo-os pensar indiretamente, por deslocamento, questões de outro momento histórico) e alonga, de modo quase indefinido, a carnadura trágica dos conflitos que assolam o mundo atual, na medida em que eles se projetam em contradições arcaicas, fundadoras. O poema dramático e a sátira são duas formas-força do passado revisitadas com maior interesse e perícia por Villa, que as toma como campo de experimentação, seja pelo aspecto anacrônico que têm diante das fórmulas poéticas do momento, seja pela atualidade urgente que elas podem ter – dado que acrescentam ao repertório político da lírica contemporânea um caráter sibilino e mordaz (caso da sátira) que as certezas e assertivas muito diretas de certa poesia presente não deixam ver, ou ampliam as possibilidades expressivas do poema a partir do efeito de deslocamento e pluralização que o drama-poesia oferece, uma vez que se abre ao simulacro de uma outra voz e à encenação (por vezes mais aguda) de um conflito entre tempos, valores, classes ou pontos de vista distintos. Erudito, multilíngue, rigoroso, o livro (cujo título remete à devoração de uma cor, indicando a incorporação, pelo poeta, do que há de melhor e de pior – o ouro e a bile) certamente foi menos lido do que poderia, mantendo-se, por vezes, à margem do debate que tem sacudido, bem ou mal, a cena poética brasileira. Ainda assim, no entanto, figura entre suas criações mais relevantes e desafiadoras, dialogando e se desdobrando na obra de poetas como Ricardo Domeneck, companheiro de geração de Dirceu, e Guilherme Gontijo Flores, cuja estreia se deu 15 anos depois do primeiro livro do autor.

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II. uma mulher de tijolos à vista
Um útero é do tamanho de um punho
2012 – CosacNaify
Angélica Freitas
[Pelotas – 1973]

Um dos livros de maior impacto das últimas décadas no universo da poesia brasileira (em números de vendas e na presença no debate público do país), Um útero é do tamanho de um punho tem no riso e na paródia as suas principais apostas, num discurso que se arma, sempre crítico, pelos deslocamentos e pela desproporção típicas do humor, de um lado, e pelo gume terrível da derrisão de outro, a partir do qual todas as coisas que têm lugar no poema, inclusive as mais graves (o direito ao aborto, o homoerotismo e a homofobia, a misoginia difusa no tecido social brasileiro, o feminicídio), só se validam pelo olhar desabusado que de tudo ri. Os modos de composição privilegiados são as formas seriais da repetição, visíveis sobretudo nos temas e voltas da poesia antiga ou do cancioneiro popular retomados no livro, e nos poemas de estrutura anafórica que se fazem como ladainhas ou fórmulas de propaganda, utilizando a saturação como estratégia: pela repetição exaustiva alcança-se o efeito do ridículo, da piada que se impõe pela extensão sem limites de um mesmo procedimento ou informação; pela repetição, a violência invisível de um fato qualquer (por exemplo, o desprezo pelas mulheres difundido – e naturalizado – em pequenas frestas da linguagem comum) vem à tona, tornado assim absurdo e insuportável aos olhos de quem antes não o notava; pela repetição, por fim, a maquinaria do poema se revela ao leitor, num processo de desnudamento da operação poética que acentua, ainda mais, o seu caráter crítico, posto que distancia o leitor de qualquer apreciação desatenta e leve desses textos. Eles são artifícios, antipoesia, peças sem qualquer confissão sentimental ou desejo de enlevo: preferem, ao contrário, o desconforto e a reflexão. O tema fundamental do livro – os muitos modos da violência contra as mulheres e as formas várias que elas têm de enfrentá-los – foi inventivamente assumido por Angélica Freitas, que contorna as suas armadilhas e seduções fáceis com bastante habilidade e verdadeiro tino teórico: ao dar dimensão coletiva e impessoal aos seus poemas, afastando-os de modo tático da expressão de um eu individual e circunscrito, a autora potencializa a radicalidade da discussão de gênero que se dá no livro, levando às últimas consequências algumas das indagações sobre as quais seu projeto se estrutura: sobre as potencialidades do feminino, suas possibilidades de enunciação e suas liberdades; sobre a natureza dos poemas (seu aspecto genérico, seu estatuto formal, sua discursividade feminina mesma, uma vez que escrever, no livro, é tarefa por excelência das mulheres, dada a simetria entre útero e punho proposta desde o título); sobre a condição disruptiva (em relação à lei, ao Estado e à própria instituição literária) que os poemas portam. Essa modulação discursiva que se move entre o pessoal e o público, entre o relato de si e a luta coletiva tem marcado a fogo a poesia brasileira dos últimos anos, deflagrando uma onda de respostas e incitações ao diálogo, num desrecalque de temas e pontos de vista antes improváveis entre nós. Por si só isso já confirma a força, a originalidade e a pertinência (estética, política) do projeto.

Gustavo Silveira Ribeiro

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