“Mãos” de Sarah Valle, por Natalia Borges Polesso

“Um corpo que dói é um corpo estrangeiro, que precisa de tradução no mundo das pessoas que não sentem dor. O corpo que dói reserva uma parte de suas energias apenas para se erguer, manter-se indiferente. Esse ruído constante lhe rouba uma fração da sensação do real, alguma coisa do real está perdida, um tanto de devaneio, um tanto de presença, um tanto de memória. 

Quem ama um corpo que dói não permite que esse corpo se aliene cognitivamente em meio à sua guerra íntima. 

A dor física é uma experiência do absurdo. Quando nenhum analgésico funciona, o corpo que dói se depara com uma força irredutível, desproporcional. Quando a dor está fora de controle, é pela força do absurdo que o corpo segue se empenhando. Com a consciência de que sua situação não é digna nem razoável. 

Quem ama um corpo que dói não considera sua vida absurda. Para essa pessoa, sua vida é um bálsamo. Deita ao seu lado e espera a dor passar. Aguarda a próxima zona de bem-estar como se o tempo não existisse.”

[…]

“Só me arrependo de não ter largado mão. Divã com dor não dá. Um punhado de coisas relativas ao punho. Padecer não é uma narrativa. O melhor é repousar e despertar outras partes do corpo. 

Na primeira sessão, digo mãe no lugar de mão. O analista só faltou abrir um champanhe.”

Quem abre este livro encontra uma bruta flor. Absurda. Quero dizer sobre ela, descrevê-la. Neste momento, perco a capacidade de coordenar as palavras. Tento imitá-la com as mãos. Vê? Mostro formas impossíveis. Quero dobrar os dedos, os deuses, e sonhar que alguém me toca e assim compreende. Só que padecer não é uma narrativa, diz Sarah Valle, neste livro. De modo que isto não é uma história. É flor bruta e absurda. A dor é uma ilha que se deseja abandonar e cuja localização precisa desaparece assim que realizado o ato. A narradora diz: não estou significada pela dor. E vejo nitidamente em suas mãos mudas, mudras. Dor: signo que não pode ser identificado, no entanto, identifica e, por isso, concede o direito de que se instalem narrativas alheias: opiniões, pareceres, diagnósticos, prognósticos, palpites, benzeduras, amostras de analgésico, vindas de uma rede de farmácias imensa, cujas luzes assépticas quando apagadas, se um dia se apagam mesmo, fazem tudo sumir, todas as farmácias ou a ideia desse tipo de empreendimento some. Somem os monumentos. Some o conhecimento. A lógica. Tudo some. E o paradoxo é que a dor tem sempre um entorno imenso e aleatório. Ela é universalmente conhecida, ainda que não seja universal. É uma entidade de braços longos e presença indefectível quando se instala. A narradora abre as mãos e posso ler as palavras:  A dor não é lúcida. E me diz numa voz cadenciada: A dor não significa nada. É um signo vazio. Uma lenta erosão, regada à chá da tarde e prazeres doces oriundos de confeitarias, o circuito dos pequenos hábitos como roer unhas ou se lançar em coreografias de ritos milenares, a lentidão do cotidiano margeada por novelas, filmes, memórias ou Barbies embalsamadas. O que se pode guardar de um momento? As mãos pesadas e carinhosas de alguém ou o ruído extraordinário de um coração? Dizem que a pior dor é a do parto, mas isso só as mãos sabem. Ou seriam as mães? A narradora não sabe, não percebe a confusão do amparo. Ela diz mais uma vez que quando a dor está fora de controle, é pela força do absurdo que o corpo segue se empenhando. Estou impregnada pela força, significada pela delicada e bruta flor, que ainda não sei descrever. Vez ou outra, um interlocutor desloca a tensão. Puxa a corda e os nervos ao ponto que a lassidão cria outra camada, a dimensão estranha que se projeta apesar de algo e que está lá para que alguém se salve. Isto não é uma história, é o tensionamento de uma imagem, leveza, exaustão e glória.

Natalia Borges Polesso

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Natalia Borges Polesso é doutora em literatura, escritora e tradutora. Publicou Recortes para álbum de fotografia sem gente (2013) prêmio Açorianos; Amora (2015), prêmio Jabuti e Açorianos; Controle (2019), prêmio AGEs e Vivita Cartier e finalista do Prêmio São Paulo de Literatura; Corpos Secos (2020), prêmio Jabuti de romance de entretenimento, e A extinção das abelhas (2021). Em 2017, a autora foi selecionada para a lista Bogotá39. Natalia tem seu trabalho traduzido em diversos países, tais como Argentina, Espanha e Estados Unidos. 

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2 comentários sobre ““Mãos” de Sarah Valle, por Natalia Borges Polesso

  1. Muito obrigada, Nina Estou com livro para publicação, quando quiser publicar alguns poemas, só me avisar. Abraço, Ana Paula.

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