poesia

Martim Silva (1984)

MartimSilva

Martim Silva (Salvador, 1984) é atualmente professor de língua e literatura grega na UFBA. Formou-se em Filosofia pela UFBA e é mestre em Estudos Literários pela UFMG, tendo se dedicado especialmente ao estudo da filosofia e da poesia grega arcaica (Heráclito, Hesíodo, Arquíloco, etc…), assim como à relação entre poesia e filosofia. Paralelamente às atividades acadêmicas, cultiva o hábito de pesquisa e produção em diversas linguagens artísticas, dentre as quais a poesia é o mais antigo. Faz parte do Coletivo Invisível de Música Eletroacústica e alimenta o blog A Realidade Refogada.

(escamandro)

        

estive destinado ao árido,
todos esses anos,
estive contrapartido às vésperas,
ao ocaso do entorpecimento mais sublime.
subi às esquinas, desdobrando
os olhares e suas entrelinhas;
carrapato no amargo, no azedo,
estive destinado às transitoriedades brilhantes,
amaciado, mas nem tanto,
ao olhar invejoso e ciumento,
sobrevoando translúcido à tarde.
quando cheguei,
que espécie de bosque havia florescido
nas paredes das minhas gargantas,
desfazedor de substâncias?
a tudo que se desfaça, violento,
repentino, me inclinei
desde sempre, esses anos todos,
estive destinado ao árido.

        

fecho os olhos :
a moça ainda gira,
o sorriso no canto do meu espírito,
ou o dia vai raiar errado,
ou a moça, transgredindo meu juízo,
ainda,
não me visite hoje,
não vou sair,
quero nada, que às bordas da saia,
do sorriso,
eu é que estava de ponta-cabeça,
chacoalhando a mente
até o alto contemplativo do abismo hiante:
como é bela a paisagem absurda
do fractal dançante de despropósitos,
como é linda a moça
capturando meus olhos em suas bordas –
resplandecente piso falso onde cair
no vórtice das texturas da existência,
ainda,
desliga às marcas das carnes,
aos orgasmos do juízo –
completa e parcialmente transgressor –
transgredido de volta
aos sorrisos do gato de Alice,
às bordas brancas da saia
: abro os olhos.

        

o sol absurdamente branco de Salvador me dá sono,
e como late um cão deitado na degraus da porta
escrevo algumas palavras tristes
à vida, passando apressada por mim.

        

vou te confundir completamente,
despropósito, sopro subliminar,
vou te confundir completamente,
agora e sempre.

sei que meu olhar te desespera às profundidades,
e todos os mistérios do mundo são meus comparsas.

(poemas de Martim Silva)

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