poesia

Antônio LaCarne (1983)

Antônio LaCarne

Antônio LaCarne nasceu em 1983 e tem formação em Letras pela Universidade Federal do Ceará. Sua primeira obra poética, Elefante-Rei: Poemas B foi publicada em 2009. Participou em 2011 da coletânea de contos A Polêmica Vida do Amor pela Editora Oito e Meio. Vários de seus textos estão publicados em suplementos e blogs literários. Seu segundo livro, Salão Chinês será lançado no primeiro semestre de 2014. Assina o blog O Impenetrável.

* * *

a última casa onde ópio trouxe-me flores

a mensagem antiga traça um lodo urbano
como se nos escondêssemos
& plantássemos águas passos faróis
rentes aos corpos do amor inacabado

regras enxutas da paixão-linguajar
madrugada do tempo & seus labirintos
o decorrer da noite num falso terço aos corais
com o mundo prestes a dançar
mas sem alcance

testemunho o beijo que é o exercício das mãos
tão alto o universo a me oferecer luz solta no céu
perdão inumerável & submisso
piedade do quadrado que exige descanso
sombra redesenhando sombra sobre as linhas do meu deus.

leather

todas as bruxarias que você construiu
despencam sobre o meu jeans culpado de tudo,
desabotoei a camisa & me pus sobre travessas de inox
tão verticais quanto o beijo que você morde & assopra,
aí sou a pessoa ferida mais legal do mundo,
nego a violência & as páginas de ménage à trois na internet,
mantenho o carão diante dos arbustos que você cuspiu,
o girassol de uma mão que me afaga as lágrimas,
rasgação de amor que não me protege das rugas,
os centímetros que fariam de mim
a pessoa mais sexualizada do universo.

peço um cigarro e você não tem,
eu percorro a existência da noite & me tranco em banheiros,
do bolso possuo as armadilhas lindinhas
que se resumem em uma, duas gramas da lucidez
pré-fabricada pouco depois dos dinossauros,
você também não me esquece,
critica o fato dessa intolerância esquizoafetiva
ser publicamente devorada nos livros que você não escreveu,
por isso morro de vontade.

veja

no calor do brasil você sustentou uma farsa
& me telefonou às 4 da manhã não para ouvir a minha voz
ou me questionar os porquês da frieza que me encontrou
perdido nas florestas nos bosques nos fios de alta tensão
então fingi dormir mais uma vez com o livro do lado
que eu também fingi ler por culpa do pensamento
grudado em você numa noite de sábado aqui em casa
a garrafa de vinho que esperou duas taças brindarem
três taças como numa visita repentina
numa visita de três reis magos predispostos a insinuar
malvadezas sobre qualquer espécie de delírio
entre alguém como eu & alguém como você
que não existe sequer nas páginas amarelas da revista veja
ou quando eu por motivos bizarros & inconsequentes
saí correndo atravessando o jardim de plantinhas simples
que você nunca deu importância
ou quando eu afirmei categoricamente que o poema gods
da anne sexton é o meu cartão de visita na estratosfera
o mundo girando cada vez mais rápido
mais solene mais parecido com aquele tom de voz
que foi a minha estrutura de autossabotagem
& repeti numa outra conversa ao pé do ouvido
que eu estava totalmente desequilibrado emocionalmente
& você não viu.

paixão extraterrestre

li os teus dois poemas no jornal
durante aquela vasta solidão
em que me vi sem homens,
os dois braços que me partiram
ao meio do percurso numa
refrescância de piscinas ao deus-dará
onde eu mataria um leão por dia,
salpicando de dor o livro e o
meu corpo sob a chuva tempestiva
de verão, azul, um menino descalço,
sujo e sem nome, duas mulheres
que sorriem enquanto ando tão
rápido e com as mãos nos bolsos,
pois em todas as esquinas eu
esqueci perdidamente o olho
no buraco da fechadura, e você
não entende do que é feito o meu país,
mas as tuas andanças oscilam
entre uma ponte-aérea ou viagem
internacional de cegos, pessoas
sem a mínima classe, ou uma
echarpe que te consome e que
não me ensina a viver a grosso modo,
cada traço devidamente organizado,
os dois beijinhos na festa,
eu fugindo do sexo já a me satisfazer
numa futura crise de remorsos,
compaixão, inveja do que eu jamais
permitiria, à mercê dos numerosos
amantes aqui destronados, molhados
de prazer, gênio indomável,
nave espacial do extraterrestre
que se apaixona por mim e
anota o número do meu telefone.

(poemas de antônio lacarne)

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2 comentários sobre “Antônio LaCarne (1983)

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