poesia, tradução

bob kaufman (1925-1986)

bob kaufman nos anos 80.

bob kaufman nos anos 80.

bob kaufman é um dos menos conhecidos dos beats americanos. por isso estou preparando algumas traduções para a r.nott magazine, revista em editada por — dentre outros — nosso ex-parceiro vinicius barth, um espaço bacaníssimo de que tenho participado como colunista de literatura. como digo algumas coisas por lá, não pretendo me alongar aqui.

o principal é saber que esse homem, que, ao longo dos seus 60 anos de vida, produziu inúmeros poemas orais pelos bares de são francisco, teve apenas 7 livros publicados, 1 póstumo: Abomunist Manifesto (958), Second April (1958), Does the Secret Mind Whisper? (1959), Solitudes Crowded with Loneliness (1965), Golden Sardine (1967), The Ancient Rain: Poems 1956–1978 (1981) & Cranial Guitar: Selected Poems by Bob Kaufman (póstumo, 1996); quase todos saíram pela editora city lights, capitaneada pelo poeta-valente lawrence ferlinghetti.

a poesia de bob kaufman é uma mistura dos movimentos catapultados pelos beats, somada a uma experimentação constante com o surrealismo, a improvisação de fonte jazzística (bebop), o budismo & a cultura negra. o resultado é um dos mais radicais &, ao mesmo tempo, dos mais impactantes. em resumo, a gente tem muito a aprender com essa figura.

escolhi o poema all those ships that never sailed pela sua delicadeza prenhe de simbolismo. mas também pelo contexto: reza a lenda que kaufman teria feito um voto budista de silêncio após a morte de jfk, em 1963, um voto que se alongou por 10 anos até 1973, quando os americanos começaram a sair do território vietnamita. a quebra de tanto silêncio teria se dado por este poema.

guilherme gontijo flores

* * *

All those ships that never sailed
The ones with their seacocks open
That were scuttled in their stalls…
Today I bring them back
Huge and transitory
And let them sail
Forever.

All those flowers that you never grew-
that you wanted to grow
The ones that were plowed under
ground in the mud-
Today I bring them back
And let you grow them
Forever.

All those wars and truces
Dancing down these years-
All in three flag swept days
Rejected meaning of God-

My body once covered with beauty
Is now a museum of betrayal.
This part remembered because of that one’s touch
This part remembered for that one’s kiss-
Today I bring it back
And let you live forever.

I breath a breathless I love you
And move you
Forever.

Remove the snake from Moses’ arm…
And someday the Jewish queen will dance
Down the street with the dogs
And make every Jew
Her lover.

Todas as naus que não singraram
Aquelas com válvulas abertas
Que foram naufragadas nas baias…
Hoje as trago de volta
Imensas, transitórias
Pra singrarem
Pra sempre.

Todas as flores que você não cultivou—
Que queria cultivar
Aquelas aradas sob
O solo na lama—
Hoje as trago de volta
Pra você cultivá-las
Pra sempre.

Todas as guerras e pazes
Dançando sobre os anos—
Em dias varridos de três bandeiras
Sentido renegado de Deus—

Meu corpo antes coberto de beleza
Agora é um museu de traição.
Esta parte lembrada graças ao toque de alguém
Esta parte lembrada pelo beijo de alguém
Hoje a trago de volta
Pra você viver pra sempre.

Respiro um irrespirável eu te amo
E te mexo
Pra sempre.

Tire a serpente do braço de Moisés
E um dia a rainha judia vai dançar
Rua abaixo junto aos cães
E fazer de todo judeu
Seu amante.

(poema de bob kaufman, trad. de guilherme gontijo flores)

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