poesia

2 poemas inéditos de glaysson zamt (1984)

máquina

ler é estar aqui, agora. sempre “em face dos últimos acontecimentos”, via drummond – mineiramente tão caro à poesia de glaysson zamt. então atentem, que entre:

………..Vá lá os homens com seus arroubos de glória e suas                
………….invenções ancestrais a bajular o dia vencido                                                                          
………….Que requentem                                                                                                                                    
……………………..a música mínima que se esgarça junto ao coro do peito

&:

o barulho das máquinas                                                                                             
música ouvida de passagem                                                                                                  
numa esquina                                                                                                                               
do tempo: Não dances!  

talvez esteja o nosso mínimo espaço num mundo cuja aliança entre capitalismo & democracia vive – sempre – à beira do precipício. nietzsche dizia “Eu só creria num deus que soubesse dançar” (Ich würde nur an einen Gott glauben, der zu tanzen verstünde). eu  — & acho que o glaysson também — subscrevo.

guilherme gontijo flores

p.s.: já publicamos um poema do sr. zamt nestas plagas: aqui.

* * *

ataraxia

Não há verso que se sustente
sem que logo venha
se encostar o gauche
com seus olhos baixos
seus meneios
de fantasma
seu sussurro
quase-murro: Não faças!
Não há tragédias
rompimentos
amenidades de um cotidiano
sem brio
ou passagens de nossa
triste e longa trama
que justifique
a imortalidade
do verso: Não desças!
Imortalizas tuas
agruras
como quem crê
com quem cura
e no entanto
………….(José)
tua careta de gozo
e teu trejeito horroroso
não é mais
do que o barulho das máquinas
música ouvida de passagem
numa esquina
do tempo: Não dances!

diacrítico

O exercício cotidiano não nos dá de fato a graça do costume
………….– pois que a coisa teima no seu ineditismo árido
…………………….[sem memória de nós
………….Vá lá os homens com seus arroubos de glória e suas
………….invenções ancestrais a bajular o dia vencido
………….Que requentem
……………………..a música mínima que se esgarça junto ao coro do peito
……………………..Deixe que castiguem
……………………..seus olhos com retratos inglórios
……………………..e se refaçam
……………………..qual feras
…………………………………indiferentes (à própria teogonia)
…………………………………De tudo que trago e temo
…………………………………miro com estranheza o ano
………………………………………………………..[1984
………………………………………………………..e tremo de
………………………………………………………..pavor ao hífen

* * *

Autor do livro de poemas Obscenos Gestos Avulsos (Patuá, 2014), Insetos Mínimos (contos, no prelo). Glaysson zamt nasceu em Minas Gerais no ano de 1984. De lá pra cá muita coisa foi escrita – e, sobretudo reescrita. Foi aluno de um dos grandes mestres do saber poético-universal: Seu Nonato. Avô, velho matuto e analfabeto exemplar, que tece uma prosa como ninguém, e já plantou (sozinho) em seu quintal muitos pés de eternidades – e disso nunca se gabou, pois que não vê razão em ser reles. Glaysson atualmente vive em São Paulo, mas pra tudo tem jeito.

 

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