poesia

Jeanne Callegari (1981)

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Jeanne Callegari é poeta e jornalista. Nasceu em Uberaba, MG, em 1981, e cursou Jornalismo na UFSC, em Florianópolis. Escreveu o livro Caio Fernando Abreu: Inventário de um Escritor Irremediável (Seoman, 2008), biografia do autor gaúcho. Seu primeiro livro de poemas, Miolos Frescos, sai em breve pela editora Patuá. Faz parte do grupo de autores que criou o projeto Escritores na Estrada, que vai passar por várias cidades brasileiras com oficinas, batepapos e leituras.

 ***

 

se a cada comentário de blog eu ganhasse 10 centavos

como as águas de Netuno
ou os lúmens de Hemera, abundantes,
certamente nunca mais verei as palavras
aqui por mim proferidas

spike lee é um has been
do the right thing é coisa velha
você está ficando velha
e escreve MUITO

um velho e sebento REALEJO
um RETÁBULO pré-medieval

assustar um notário com um lírio
matar uma freira com um soco no ouvido
portar um corpo feminino de top model nu em pelo
e transitar toda a 5ª Avenida sobre um cavalo branco,
numa madrugada de inverno, deixando escorrer a menstruação pelos flancos
sem dar nenhuma entrevista

 

mindscapes

sylvia é musicista. em 2003, ela sofreu uma perda de audição aguda. um ano depois, passou a escutar músicas em sua cabeça, em looping, o tempo todo. como sylvia tem ouvido absoluto, pode transcrever e gravar suas canções internas. ela fez a primeira gravação de alucinações musicais do mundo.

ph é o primeiro humano conhecido a ouvir o que as pessoas dizem antes de perceber os lábios delas se moverem. ele sofre de um distúrbio em que o cérebro registra o som da fala antes do movimento da boca. a vida de ph é uma dublagem fora de sincronia.

depois de um derrame, tommy mchugh, um expresidiário, passou a pintar e esculpir compulsivamente, além de ter começado a falar em rimas. incapaz de machucar uma formiga, tommy sente seu cérebro como “infinitos, infinitos corredores”.

sandra experimenta um prazer intenso a cada vez que tem uma crise de epilepsia. ela descreve a sensação como a de um orgasmo, a que se chega progressivamente. acreditase que dostoiévski sofria do mesmo tipo de distúrbio.

o transtorno de identidade da integridade corporal foi descrito pela primeira vez no século 18, quando um inglês ameaçou um cirurgião francês com uma arma para que serrasse uma de suas pernas.

em 2004, graham acordou e descobriu que estava morto. ele tinha a síndrome de cotard, condição em que os portadores acreditam que seu cérebro, ou partes do seu corpo, faleceram.

heather sellers não consegue reconhecer nenhum rosto, nem mesmo o próprio. ela se vale de outros atributos, como a voz e as roupas, para identificar as pessoas.

a d. parece que, quando precisa escrever de forma analítica, está pensando pelo avesso.

a poesia é um defeito de recepção.

 

american psycho

disse montaigne:
um dia é como o outro
se você esteve em um esteve em todos
e viver é tentar salvar com uma caneca um barco que começa a fazer água pela manhã e
termina de naufragar quando chega a noite
inexoravelmente

ou ainda: entreter-se em preencher a passagem

road movies love stories
: return some videotapes
sentir o estômago brilhar enquanto percorre cuidadoso o momento de beijar alguém
pela primeira vez

mas você raramente faz qualquer uma dessas coisas
quase nunca, de fato
e quando faz
qual é o significado
que conhecimento disso se tira
se saber também é superestimado
boa ou má, dessa passagem não se leva óbolo
ou repertório
a vida é uma tragédia sem catarse

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3 comentários sobre “Jeanne Callegari (1981)

  1. Por Neruda. disse:

    ”Todavia seria delicioso
    assustar um notário com um lírio cortado
    ou matar uma freira com um soco na orelha.”
    (Walking Around, Pablo Neruda)

    – É importante salientar que os versos citados estão no poema ”se a cada comentário de blog eu ganhasse 10 centavos”, sem citar autoria do Neruda.

    Abraços.

    • Obrigado pela observação, mas é igualmente importante salientar que as práticas da intertextualidade, da ressignificação via recontextualização e da citação subentendida são comuns e bem conhecidas na poesia desde a Antiguidade, por isso não vejo porque apontar isso como se fosse algum tipo de problema.

      Abraços.

    • Obrigada pelo comentário! Sem ele, eu não ficaria sabendo que os versos são uma citação ao Neruda, hehe. Copio aqui o que escrevi a respeito disso no Facebook de um amigo:

      “Excelente debate! Na verdade, a citação ao Neruda é totalmente inadvertida, eu não conhecia esse verso como sendo dele até esse comentário aparecer na Escamandro.

      Explico: o recurso usado nesse poema foi uma colagem. Uma vez, escrevi um texto falando de dois filmes (Intocáveis e Faça a Coisa Certa, do Spike Lee) para o site das Blogueiras Feministas, do qual participei por muito tempo. No site, costumávamos receber muitos comentários machistas, de haters e trolls, por nossas posições. Tínhamos a política de não aprová-los, para não incentivar a prática. Mas um comentário feito nesse texto me chamou a atenção por suas imagens curiosas. Não aprovamos o comentário, mas eu o quebrei em versos e fiz pequenas adaptações, e o transformei nesse poema. É por isso que ele se chama “Se a cada comentário de blog eu ganhasse 10 centavos”. Meu hater, agora sei, é um fã de Neruda.🙂 “

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