tradução

Ingeborg Bachmann, por Adelaide Ivánova

ingeborg-bachmann

Ingeborg Bachmann é uma poeta canceriana nascida na Áustria em 1926. Lançou dois livros de poesia – Die gestundete Zeit (1953) e Anrufung des Größen Bären (1956), e depois parou, disse que não ia escrever poesia nunca mais, que ia se dedicar à prosa (de fato, teve uma produção intensa, escrevendo novelas, contos, romances, libretos etc., que lhe renderam grande prestígio). E à prosa se dedicou, mas não somente. Ia enfiando seus poemas na gaveta, sem mostrar a ninguém. E como não pensava em publicá-los, escrevia o que lhe desse na (belíssima) telha, se libertando dos esquemas formais tão presentes (e tão austeros) dos seus dois primeiros livros – então se não quisesse finalizá-los, e se não quisesse colocar vírgulas e se quisesse inventar palavras e se quisesse tocar o fodase nas declinações do acusativo, assim ela faria; assim ela fez.

Daí vem o que depois veio a ser reunido pela Piper Verlag no volume Ich weiß keine bessere Welt, poemas póstumos que são mais que poemas não-publicados, são sei lá, o coração (esse caçador solitário, esse jovem perverso, como disse (mais ou menos) Belchior) dela. Ok, foi cafona. Desculpa.

Os textos póstumos se aproximam muito mais da vida interna de Bachmann do que a produção publicada oficialmente. Ela sofreu demais e, se nos livros de 1953 e 1956 podemos sentir uma alma em desajuste com o mundo, nos póstumos Bachmann aceitou que essa alma dói, sim, mas que além disso tem um corpo que será sistematicamente violado – por guerras, por regimes totalitários, pelos homens, pelos nosso vícios, pelas doenças, pelas instituições.

Ingeborg Bachmann morreu em Roma, depois de um incêndio no seu quarto de hotel, em decorrência das queimaduras, em 1973 – época em que tomava cerca de cem comprimidos por dia, entre uppers e downers.

Quanto às traduções, escolhi três póstumos em que Bachmann tematiza a perda – a da voz criadora, a de um relacionamento (ou seja, “do mundo”) e a do próprio ofício. Enfim, a perda de si mesma, esse perder-se de vista que é afinal toda ruptura. Traduzi os poemas no mesmo estado de espírito pois, ainda que Jakob não desse a mínima pras coisas que eu faço, ele era meu consultor de traduções. Ele me explicava quando a palavra era um neologismo, quando tinha uma declinação misteriosa que eu não conseguia decifrar por causa de um verbo inesperadamente fora de lugar (uma ingeborgice que tanto amo), me ajudava enfim quando o poema era areia demais pro meu caminhãozinho alemão.

Mas Jakob foi embora e esses poemas são os primeiros que traduzo sem sua ajuda, sem a ajuda de quase ninguém (Jörg Brüggemann e Bernhard Jarosch me deram uns insights sobre o que fazer com as palavras que não-traduzi como “névoa vermelha”, “rastejantes” e “Exilado”). Não está exato, mas me diga, se nada é exato nessa vida, não são minhas traduções que vão ser.

Estou convencida de que traduzir a coisa deve ser o mesmo que escrever sobre ela. Assim, em certo momento na feitura dessas traduções (especialmente do último, que foi pra mim o mais desafiador pela ausência de verbos auxiliares e declinações MALUCAS) eu decidi fazer com elas o que a vida tinha feito comigo – me perder delas. Saí andando igual a Travis de Paris, Texas, insolente, querendo ver aonde a tradução me levava. “Como eu escreveria esse verso?”, me perguntava, mas também pensava em como dar um pé-na-bunda, terminar o namoro com uma estrofe, uma palavra, toda vez que empacava num mistério semântico. Porque uma vez entendido o que o poema quer dizer, o resto é de responsabilidade do tradutor (with great responsability comes great power, já diria Ru Paul, mas eu digo que vem também o direito de se divertir). Tentei deixar essa imprecisão, essa ausência, essa quase-desistência, esse break-up (e essas invenções, como inventado é todo romance) claros na tradução do último poema, que foi o semanticamente mais desafiador. Enfim, umas tradução-recibo aí procês.

adelaide ivánova

 

* * *

Meine Schreie verlier ich
wie ein anderer sein Geld
verliert, seine Moneten,
sein Herz, meine großen
Schreie verlier ich in
Rom, überall, in
Berlin, ich verlier auf
den Straßen Schreie,
wahrhaftige, bis
mein Hirn blutrot anläuft
innen, ich verlier alles,
ich verlier nur nicht
das Entsetzen, daß
man seine Schreie verlieren
kann jeden Tag und
überall

(de Ich weiß keine bessere Welt, da Piper)

eu perco meus gritos
como uma pessoa perde
seu dinheiro, suas moedas,
seu coração, meus gritos mais
altos eu perco em
roma, em todo lugar, em
berlim, pelas ruas eu
efetivamente perco
meus gritos, até que
meu cérebro se cobre
de névoa vermelha, eu perco tudo,
a única coisa que eu
não perco é esse pavor
de saber que uma pessoa
pode perder seus gritos
todos os dias
em qualquer lugar

§

Eine Art Verlust

Gemeinsam benutzt: Jahreszeiten, Bücher und eine Musik.
Die Schlüssel, die Teeschalen, den Brotkorb, Leintücher
und ein Bett.
Eine Aussteuer von Worten, von Gesten, mitgebracht,
verwendet, verbraucht.
Eine Hausordnung beachtet. Gesagt. Getan. Und immer
die Hand gereicht.

In Winter, in ein Wiener Septett und in Sommer habe ich
mich verliebt.
In Landkarten, in ein Bergnest, in einen Strand und in ein Bett.
Einen Kult getrieben mit Daten, Versprechen für
unkündbar erklärt,
angehimmelt ein Etwas und fromm gewesen vor einem Nichts,

( – der gefalteten Zeitung, der kalten Asche, dem Zettel
mit einer Notiz)
furchtlos in der Religion, denn die Kirche war dieses Bett.

Aus dem Seeblick hervor ging meine unerschöpfliche Malerei.
Von dem Balkon herab waren die Völker, meine Nachbarn,
zu grüßen.
Am Kaminfeuer, in der Sicherheit, hatte mein Haar seine
äußerste Farbe.
Das Klingeln an der Tür war der Alarm für meine Freude.

Nicht dich habe ich verloren,
sondern die Welt.

(póstumo, mas publicado na edição de poesia completa – Sämtliche Gedichte – também da Piper)

Um tipo de perda

Juntos usamos: as estações do ano, livros e uma música.
As chaves, os saquinhos de chá, a cesta de pão, lençóis
e uma cama.
Herança de um vocabulário, de gestos, trazidos,
usados e gastos.
Obedecemos as regras do prédio. Dito. Feito. E a mão
sempre estendida.

Sempre me apaixonei pelo inverno, por um quinteto vienense
e pelo verão.
Por mapas, por uma casinha na montanha, por uma praia,
por uma cama.
Ritualizo datas, declaro incanceláveis as
promessas,
idolatro qualquer coisa e sou devota de coisa nenhuma,

( — do jornal dobrado, do cinzeiro cheio, do papelzinho
com um recado)
não tenho medo de religião, porque igreja era essa cama.

Da vista do mar nasceu essa pintura incansável.
Da varanda dava pra saudar os povos,
meus vizinhos.
Perto da lareira, em segurança, meu cabelo tinha
sua cor mais extrema.
O toque da campainha era o alarme da minha felicidade.

Não foi você que eu perdi,
foi o mundo.

§

Ich habe die Gedichte verloren
sie allein nicht, aber zuerst

Die Gedichte sind verloren gegangen
nicht sie allein, aber zuerst das Gedicht
dann der Schlaf, dann die

Alles verloren, die Gedichte zuerst
dann den Schlaf, dann den Tag dazu
dann das alles dazu, was am Tag war
und was in der Nacht, dann als nichts
mehr, noch verloren, weiterverloren
bis weniger als nichts und ich nicht mehr
und schon gar nichts war,

Rückzug muß ein inneres Hinterland
mit allen verbriefte Jahre und gesehene Orte
“noch vor den Augen, da die Erde
nicht mehr und keine Schmach, dann
hinten noch immer ein Raum
krallenumflogene Weiten für Taube, Stumme
Helle ruflange Weiten für er
die Ankunft, Erstummter

Für den Erstummten die Wüstenei
mit dem verständlichen Gespinnst
das sanft seinen Wahnsinn einpuppt
bis er das gläserne Hotel malt,

(as notas em Ich weiß keine bessere Welt apontam que o manuscrito foi encontrado inacabado e muito rabiscado, com versos reescritos sobre outros, sem que os primeiros tenham sido apagados; dificultando a leitura e digitalização exatas. Um dos exemplos citados pelos editores é Weiten (salas, quartos), que eles não tinham certeza mas que podia ser também Worte (palavras) o que mudaria completamente o sentido do poema).

Eu perdi a poesia
não apenas ela, mas ela eu perdi primeiro

A poesia se perdeu
não apenas ela, primeiro o poema
e depois o sono, depois a poesia

Eu perdi tudo, a poesia primeiro
depois o sono, depois o dia
depois tudo que tinha acontecido de dia
e o que tinha acontecido de noite, depois quando nada
mais havia, perdi mais, segui perdendo
até que menos que nada eu tinha e eu não mais
e já nada mais era,

O sertão interior tem que ser perdido
junto com os anos vividos e os lugares visitados
ainda na lembrança, já que a Terra
não mais é e não tem pudor, então
lá atrás ainda essas
salas para os surdos, para os mudos, cercadas de rastejantes
salas claras com eco para
que chegue o Exilado,

Para o Exilado, o sertão
vem com um coerente tatu-bola
que tranquilo molda seus delírios em forma de boneca de vudu,
até que consiga pintar o vítreo hotel,

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4 comentários sobre “Ingeborg Bachmann, por Adelaide Ivánova

  1. tenho que ir pra universidade. me fudi antes aqui. vou dar milhões de voltas naquele lugar imenso. não sei se é lindo. vou ler de novo até que fume filtros. eu sei que é, mas não quero me dizer isso. adoro as tuas traduções. ave, ingeborg, ave

  2. Lia Nascimento disse:

    Olá! Eu sou Lia Nascimento e integro o curso profissionalizante Universidade LIVRE do Teatro Vila Velha em Salvador, Bahia. Atualmente eu e mais três atrizes em formação estamos construindo o projeto Pseudônimas e, na busca de mulheres que serão referências para a nossa montagem, encontramos o blog e a tradução da maravilhosa Ingeborg Bachmann. Diante disso, gostaríamos de saber se poderíamos usar o primeiro poema traduzido (sobre a voz criadora: eu perco meus gritos…) durante o processo de montagem e encenação do projeto, que tem data prevista de estreia em 10 de abril desde ano no Teatro Vila Velha. Agradecemos ao blog a possibilidade de acessarmos o poema e de conhecermos essa mina e também ao site As Mina da História que tem cumprido muito bem o seu papel. Se preferirem, podemos continuar a conversa por email. Abraços.

    • sergio maciel disse:

      Olá, Lia,

      Nós agradecemos sua leitura.
      Mas sobre o uso da tradução, acredito que seja mais prudente conversar com a própria tradutora, a Adelaide Ivánova, através do facebook ou pelo e-mail vodcabarata.blogspot.com.br .

      Um abraço

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