poesia

Renan Porto (1993-)

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Renan Porto nasceu em 1993 na cidade de Jequié-BA, cresceu no povoado de Florestal, estudou Direito na Universidade de Uberaba (MG). É ensaísta, poeta e pesquisador associado à Rede Universidade Nômade.

* * *

AMPULHETA

o limite a lide do possível
sentença do arrego que
o pudor tutela: libera
ou não. pudera tê-la
feito gozar à vera
quem dera não
fosse teu juí
zo de velha
idade mé
dia coe
xistin
do com
a nova era
eu ajoelho pra
chupar tu ajoelha
pra reza. assim reveza
o tempo da torre e do brega
serenata provençal ou cachaça
na goela. de que importa o espaço
quando muda o tempo. por que porta
eu passo do futuro ao duro oco suspenso

§

HIPERSTIÇÃO

Veja,
nessa terra de nenhures
tudo é esgotamento. Os tetos são cada vez mais baixos
Vendem lotes por metro cúbico de pequeno volume
Um mero perímetro rodeado de paredes
Depósito de estafa. As disputas territoriais
alcançaram o céu

Não tem mais pra onde quando todo onde é igual
Tampouco quando que não passa de agora
O futuro um tratado de urgência sob custódia
de um gerente que só se conhece o reflexo
uma abstração que se escolhe a cor
Logo mais não sobrará silêncio

Mas veja,
é tudo muito concreto
objetivo como sangue
recorrente como dores
e bombardeios

É muito explícito: espaço, tempo: corpo
O que nos falta é uma outra forma de estar inconsciente
de reagir ao assalto, de dar defeito

Agora que não há mais fora
e tudo é velocidade
não se pode mais parar
o que se tem é a colisão
o colapso

O que fica por fazer é
solapar a inteligência que gerencia o medo
com um gesto sem registro
Confundir placas de memória
o susto como método

Depois,
quando tudo for só ruína
e o wormhole brechado no ar
nos expor a um grande nada, Que fazer?
Eis a tarefa do agora: criar novas condições de imaginação

§

PREPARANDO UM FAQUIR

da dor reverbera a dureza e a duração
na carne que malha a ideia com a vontade
até que o instante tudo suspende
– de imediato o corpo do chão sobeja
quando se faz ver a presença

o efetivo aguardo fabrica o branco
onde se escreve a condenação
do tão esperado momento

o improvisado encanto
à espreita da sorte
lucra a infâmia
de um maleficente
cultivo da desonra

deste involuntário ritual
no altar da auto-imolação
se produz o tormento
indispensável à esperança

feito
o faquir caminha sempre a um passo antes
do momento de sua realização
para que nunca seja satisfeita sua dor
e tenha da lamúria o constrangimento
de matutar o método a forma o jeito
mas nunca o ato

na incubação do virtual martírio
fomenta a potência de sua obra
bomba armada para a fortuna
sem fim além da ameaça de explodir

o esmagamento da utopia pelo medo
para que a utopia se mantenha como utopia
e a esperança como espera de esperar
confiada ao imaculado servidor da lei
que anuncia o tempo por vir
sem lhe caber julgamento

atado à coleira do futuro
o faquir senta ante o portão aberto
e aguarda pacientemente
uma aparição um sinal qualquer
uma face qualquer coisa
que lhe ensine o caminho de volta

§

DOMINGO DE CEIA

no primeiro pipoco caíram dez
de badocada quatro cabeças estouradas
vacilou no chão ficou a banha da pupila no gilete
de olho vazado já levantou de novo e meteu o segundo
no tropeço da sandália quebrada caiu só o pacote
aí já foram de chute e solada em cima das costelas
de um lado e de outro só pedrada e pedaço de pau voando
uma porrada de estaca no córtex direto pra sepultura
descendo a ladeira vinha chegando uma tropa de vagalume
só a galera da groovança pra efetuar o contra-ataque
do asfalto pro calçamento uma bike rachou o guidão
a ponta de ferro ferrugem foi direto na boca do estômago
era domingo praça cheia paredão tremendo
dezenas de bundas pro ar
antes da PM chegar metendo a mão e distribuindo sarrada
na campeira o risca-faca continuava quente
depois dali um monte de mina prenha e bebês sem pais
mas era domingo
e um caminhão de cerveja no gelo
as cadeiras vermelhas espalhadas pela calçada
pelo canto da rua escorria água cerveja e sangue
de onde ninguém sabe mas todo mundo viu quem subiu
todo mundo sentiu o gélido corte no tempo
todo mundo previu o grito das mães
todo mundo tinha aquele segredo comum
todo mundo segunda-feira
rua lavada
a porta do bar se desenrola
começou mais uma semana

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