crítica, poesia

A insgugliambaçó de Juó Bananére

Eu ia escrever uma apresentação da minha lavra, mas li isto aqui:

“Quando a primeira edição de La divina increnca foi lançada em 1915, em produção independente, a figura hilária e carnavalesca de Juó Bananére — pseudônimo do engenheiro Alexandre Marcondes Machado  (1892—1933) — estava no auge de sua popularidade.

No entanto, sua brilhante carreira de cronista no jornal O Pirralho, fundado por Oswald de Andrade em 1911, seria abruptamente interrompida nesse mesmo ano, em função de dois artigos jocosos sobre Olavo Bilac e seu nacionalismo ufanista. Dessa vez, até mesmo para as almas mais avançadas do período, Juó Bananére — sem dúvida um dos nomes mais instigantes do pré-Modernismo brasileiro —, tinha ido longe demais com suas blagues.

Em suas crônicas mordazes, como um caleidoscópio louco, Bananére atirava contra tudo e contra todos. Na literatura, por exemplo, atacou clássicos e modernos, parnasianos e futuristas. Na política, mesmo sendo civilista, não deixou de ironizar figura tão respeitada quanto Rui Barbosa. Sua máxima foi semelhante à do dadaísta Arthur Craven: “Todo grande artista tem a brotoeja da provocação.”

Revelando desde o princípio uma capacidade de reconstruir o mundo a partir das associações mais inusitadas, Bananére foi nesse sentido um precursor do texto-montagem, das paródias, ready mades e poemas-piada, recursos que seriam mais tarde empregados por Manuel Bandeira e Oswald de Andrade, entre outros. A exemplo das vanguardas europeias do início do século XX, instaurou o blefe e o mau gosto como procedimentos artísticos e — assim como os dadaístas — recusou com ironia o rótulo de artista.

La divina increnca, sua obra mais célebre, reúne textos que parodiam poemas clássicos de Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu, Machado de Assis, Raimundo Correia e Olavo Bilac, ao mesmo tempo em que ridicularizam figuras públicas da época como o marechal Hermes da Fonseca (chamado Hermeze, Dudú e Maresciallo), Nair de Teffé (Nairia), o general Pinheiro Machado (Pignêro e Pentifigno), o senador Rodolfo Miranda (Capitó), Washington Luís (Oxinton) e o vereador e coronel José Piedade (Garonello).

Com sua extrema irreverência, Juó Bananére acabou escrevendo uma espécie de “antilivro”, que se assemelha, numa leitura apressada, a uma brincadeira de estudante. Entretanto, esta algaravia radicalmente popular — que, dado o desuso de certas formas do idioma, hoje chega a nos parecer quase erudita — tornou-se uma forma vitoriosa no tempo, como exemplo genial de humor, ousadia e invenção”

Escrito por Cristina Figueira, como orelha para a edição de La divina increnca, publicada em 2001 pela editora 34 e reeditada em 2007. É um caso raríssimo de concisão certeira, que dizia praticamente tudo que eu poderia querer dizer, e de modo mais preciso. Como não achei esse texto online, optei por disponibilizá-lo aqui, como empenho crítico de primeira, ainda que breve. A ela acrescento apenas quatro coisas. Em primeiro lugar, Bananére é, por assim, dizer, o grande pioneiro do também gênio Adoniran Barbosa; nesse aspecto, poderíamos pensar os vínculos da poesia cantada de Adoniran com certa vertente vanguardista de Zan Baolo. Em segundo lugar, uma série de poemas de sua lavra são também modelos muito radicais de tradução apropriativa, paródica, reviravoltante; temos de pensar nisso com cuidado, porque com Bananére vemos versões inusitadíssimas de Poe-Machado, La Fontaine, e também poetas brasileiros, como Bilac ou Correia, dentre outros; porque, afinal de contas, Bananére não escreve exatamente em português. Em terceiro lugar, parece-me que sua obra é mais um motivo para revermos com cuidado isso que chamamos porcamente de pré-modernismo, limbo vago e sem sentido com ranço de historiografia escolar da literatura brasileira. Em quarto e último lugar, aqui vai um site onde o leitor interessado poderá encontrar mais da obra de Bananére, com toda La divina increnca: http://www.bananere.art.br/.

Guilherme Gontijo Flores

* * *

O GORVO
P’ru Raule

A NOTTE stava sombria,
I tenia a ventania,
Chi assuprava nu terrêro
Come o folli du ferrêro.

Io estava c’un brutto medó
Lá dentro du migno saló,
Quano a gianella si abri
I non s’imagine o ch’io vi!

Un brutto gorvo chi entrô,
I mesimo na gabeza mi assentô!
I disposa di pensá un pochigno,
Mi dissi di vagarigno:

— Come vá sô giurnaliste?
Vucê apparece chi stá triste?
— Nos signore, sô dottore…
Io stô c’un medo do signore

— Non tegna medo, Bananére,
Che io non sô disordiére!
— Poise intó desça di lá
I vamos acunversá.

Ma assí che illo descê
I p’ra gara delli io ogliê
O Raule ariconecí,
I disse p’ra elli assí:

– Boa noute Raule, come vá!
Intó vuce come stá
Vendosi adiscobrido o rapaise,
Abatê as aza, avuô, i disse: nunga maise!

§

AMORE CO AMORE SI PAGA
Pra Migna Anamurada

XINGUÊ, xingaste! Vigna afatigada i triste
I ttiste i afatigada io vigna;
Tu tigna a arma povolada di sogno
I a arma povolada di sogno io tigna.

Ti amê, m’amasti! Bunitigno io éra
I tu tambê era bunitigna;
Tu tigna uma garigna de féra
E io di féra tigna uma garigna.

Una veiz ti begiê a linda mó,
I a migna tambê vucê begió.
Vucê mi apiso nu pé, e io non pisé no da signora.

Moltos abbracio mi deu vucê,
Moltos abbracio io tambê ti dê.
U fóra vucê mi deu, e io tambê ti dê u fóra.

§

O LOBO I O GORDERIGNO
Fabula di Lafontana
Traduçó Du Bananére

UN dia n’un ribeiró,
Chi tê lá nu Billezinho,
Bebia certa casió
Un bunito gorderinho.

Abebia o gorderigno,
Chetigno come un Jurití,
Quano du matto vizigno
Un brutto lobo saì

O lobo assí che inxergô
O pobre gordêro bibeno,
Os zoglios arrigalô
I lógo giá fui dizeno:

— Olá! ó sô gargamano!
Intó vucê non stá veno,
Che vucê mi stá sujano
A agua che io stô bibeno!?

— Ista é una brutta galunia
Che o signore stá livantáno!
Vamos xamá as tistimunia,
Foi o gordêro aparlano…

Nos vê intô Incelencia,
Che du lado d’imbaixo stó io
I che nessum ribêro ne rio,
Non górre nunca p’ra cima?

— Eh! non quero sabê di nada!
Si vucê non sugió a agua,
Fui vucê chi a simana passada
Andó dizeno qui io sô un pau d’agua.

— Mio Deuse! che farsidade!
Che genti maise mentirosa,
Come cuntá istas prosa,
Si tegno seis dia d’indade?!

— Si non fui vucê chi aparlô,
Fui un molto apparicido,
Chi tambê tigna o pello cumprido
I di certo é tuo ermô.

— Giuro, ó inlustre amigo,
Che isto tambê é invençó!
Perché é verdado o che digno,
Che nunca tive un ermô.

— Pois se non fui tuo ermó,
Cabemos con ista mixida;
Fui di certo tuo avó
Che mexê c’oa migna vida.

I avendo acussi parlato,
Apigó nu gorderigno,
Carregó illo p’ru matto
I comeu illo intirigno.

MORALE: O que vale nista vida é o muque!

§

SUNETTO CRASSICO

SETTE anno di pastore, Giacó servia Labó,
Padre da rafaella, serrana bella,
Ma non servia o pai, chi illo non era trosa nó!
Servia a Rafaella p’ra si gazá c’oella.
I os dia, na esperanza di un dia só,
Apassava spiano na gianella;
Ma o paio, fugindo da gumbinaçó,
Deu a Lia inveiz da Raffaela.
Quando Giacó adiscobri o ingano,
E che tigna gaida na sparrella,
Ficô c’un brutto d’un garó di arara
I incominció di servi otros sette anno
dizeno: si o Labó non fossi o pai della
Io pigava elli i lí quibrava a gara.

§

SONETTO FUTURISTE
Pra Marietta

TEGNO una brutta paxó,
P’rus suos gabello gôr di banana,
I p’ros suos zoglios uguali dos lampió
La da igregia di Santanna.

Ê mesimo una perdiçó,
Ista bunita intaliana,
Che faiz alembrá os gagnó
Da guerre tripolitana.

Tê uns lindo pesigno
Uguali cos passarigno,
Chi stó avuáno nu matto;

I inzima da gara della
Té una pinta amarella,
Uguali d’un carrapatto.

§

UVI STRELLA

CHE scuitá strella, né meia strella!
Você stá maluco! e io ti diró intanto,
Chi p’ra iscuitalas montas veiz livanto,
i vô dá una spiada na gianella.

I passo as notte acunversáno c’oella,
Inguanto cha as otra lá d’un canto
St’o mi spiano. I o sol como um briglianto
Nasce. Ogliu p’ru çeu: — Cadê strella?!

Direis intó: — O’ migno inlustre amigo!
O chi é chi as strallas tidizia
Quano illas viéro acunversá contigo?

E io ti diró: — Studi p’ra intendela,
Pois só chi giá studô Astrolomia,
É capaiz de intendê istas strella.

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