crítica, xanto

XANTO| Versos de um fel antirracista — Lubi Prates por Bruno Vieira

Quando juntamos a palavra “corpo” e “negro” na mesma frase, criando a expressão “corpo negro”, diversas imagens nos vêm à cabeça. Uma hora nos vem a imagem da sambista seminua que desfila na escola de samba. Outra hora vem o capoeirista que evoca uma ancestralidade por meio da sua ginga. Certos lugares são mais evocados e outros se tornam esquecidos do lugar da pessoa negra na sociedade. E tais lugares são basicamente visões estereotipadas e/ou distorcidas do que a expressão pode evocar. E, ao se falar do livro “um corpo negro”, de Lubi Prates (nosotros, editorial), faça o favor de esquecer qualquer tipo de estereotipia. 
 
O livro é uma coletânea de poemas escritos por Lubi dentro de um processo de reconhecimento do seu corpo como um elemento inscrito na sociedade. São poemas que não são facilmente inteligíveis do ponto de vista da razão, apenas, mas que causam profundo rendez-vous nas nossas mais íntimas entranhas. É um livro repleto de entranhas que não são estranhas às pessoas negras, diga-se de passagem. Pessoas negras que leem o livro se identificam com ele não no nível da consciência, mas de um inconsciente coletivo, de um sentimento de pertença que faz com que se enxergue cada pessoa negra em cada letra, em cada palavra, em cada verso e estrofe.
 
um corpo negro é um livro indigesto. Porque ele traz uma mensagem que precisa ser dita pela poeta e ouvida pelo leitor. Não é uma publicação linear tampouco se pretende a isso: escrito de maneira visceral pela poeta paulistana, o livro é uma coletânea de poesias que relatam as diversas maneiras de se experienciar a vivência de um corpo negro – geralmente subjugado e visto como inferior na nossa sociedade (racista) brasileira. O profundo e denso movimento a que essa publicação nos leva a fazer deixa-nos desbaratinados, tontos, des-realizados, mas ao mesmo tempo cientes do que é a condição de um corpo negro num mundo desigual, num mundo racista. 
 
Se você espera que um corpo negro seja uma publicação de fácil leitura, você se equivoca. Sabendo-se que o racismo é uma experiência venenosamente amarga às pessoas negras, o livro nos apresenta a condição de tais corpos no mundo e, ao mesmo tempo, revela que esses corpos não necessariamente irão sucumbir à discriminação. Ainda que ela exista, e se paute pela cor da pele, o livro é uma prova cabal de que resistência não é meramente uma palavra de ordem, mas ummodus operandi de uma população violentada há pelo menos 350 anos.
 
Não podemos esquecer que estamos em tempos sombrios. Tempos nos quais é fácil desacreditar e paralisar diante o inimigo. Por isso, um corpo negro pode ser um texto triste, cuja melancolia não aponta para a morte, mas apresenta como tem sido possível a existência e a resistência de corpos negros, diversos e diferentes, nesse nosso Brasil que se coloca acima de todos. 
 
* * *

arrancaram meus olhos
e cada pelo do meu corpo,
cortaram minha língua.
arrancaram unha a unha,
dos pés e das mãos.
cortaram meus seios e o clitóris,
cortaram minhas orelhas,
quebraram meu nariz.
encheram minha boca e os outros vácuos
de monstros:
eles devoraram tudo.
só restou o oco.
então, eles comeram este resto,
limparam os beiços.

depois, vomitaram.

§

quem tem medo da palavra
NEGRO
quando ela não ultrapassa
as páginas do dicionário e
do livro de História?

quem tem medo da palavra
NEGRO
quando ela está estática ou
cercada por outras palavras
nas páginas policiais?

quem tem medo da palavra
NEGRO
se transformam em:
moreno mulato
qualquer coisa bem perto de
qualquer coisa quase
branco?

quem tem medo da palavra
NEGRO
se quando eu digo
faz silêncio?

quem tem medo da palavra
NEGRO
que eu não digo?

quem
tem
medo
da
palavra
NEGRO

quando ela não faz pessoa:
carne osso e fúria?

§

meu corpo é meu lugar de fala

meu corpo é
meu lugar
de fala

embora
a voz seja
apenas
um resto
arranhando a garganta.

meu corpo é
meu lugar
de fala

e eu falo
com meus cabelos e
meus olhos e
meu nariz.

meu corpo é
meu lugar
de fala

e eu falo
com minha raça.

meu corpo
eu nomearia
território

se pudesse
inventar
um idioma próprio.

meu corpo é
meu lugar
de fala,

meu corpo é
meu território:

um caminho
sempre
insuficiente

construído
a partir de
escombros

moldado por
violências

tantas vezes invadido.

meu corpo é
meu território:

a fronteira
guarda o limite

um vazio
no lugar do
estômago.

meu corpo é
meu lugar
de fala

embora
a voz seja
apenas
um resto
arranhando a garganta.

meu corpo
eu nomearia
território

se pudesse
inventar
um idioma
próprio.

meu corpo
conta
por si só
histórias
além de mim.

* * *

Bruno Vieira é jornalista e mestre em Psicologia Social. Possui experiência em elaboração e execução de projetos socioculturais, bem como em articulação social. Atua com comunicação comunitária e em projetos de formação que visam contribuir para o acesso de pessoas negras à pós-graduação. É coordenador do projeto “Mente Preta”, podcast que entra no ar a partir de janeiro de 2019.

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