poesia

3 poemas (e um posfácio) de Mônica de Aquino

Mônica de Aquino (1979, Belo Horizonte) publicou Sístole em 2005 pela editora Bem-Te-vi. Seu segundo livro de poemas, Fundo falso, (Relicário Edições, 2018), em versão reduzida, venceu o Prêmio Cidade de Belo Horizonte de 2013. Publicou 5 livros infantis, todos pela editora Miguilim: Fio da memória, Muitos jeitos de contar uma história, Gato Escaldado, Cabra Cega e Um coelho de cartola. Participou de antologias como Roteiro da poesia brasileira 2000 (ed. Global) e A extração dos dias (Escamandro). Prepara, atualmente, seu próximo volume de poemas, Mofo em floração, série de textos em que dialoga com o trabalho de outros poetas e artistas plásticos.

* * *

Nove meses você me espera
nove meses fabrica:
esvaziar os desejos, até que sobre
só a matéria
líquida
início sem forma:
nasceremos juntas

trinta e nove anos demoro para me formar
você espera, preciso de mais nove meses
para perder

desfazer o contorno, as conquistas
descer, descer, descer
às primeiras batidas
até a noite das formas
e misturar-me a você
estou no útero, minúscula
ganhando pele, músculo,
aqui no fundo do corpo
escondida do mundo, fundo, fundo
você espera
que eu me forme mais uma vez
exige:
nove meses de testes diários
renascida
de que líquido primordial, fechada
na primeira casa
saltar uma casa, está bloqueada a aposta:

você insiste, adere ao núcleo
mais seis meses, venha, você chama
desça, volte, depois nasceremos
da mesma placenta do mundo
voltar ao primeiro movimento
não saberia nascer sozinha, insinua
desça, desça até aqui, pequena, concentrada
e voltamos:
o caminho é queda, depois espiral
proteger-me da queda, mas só a espera é proteção

não tenho tempo, penso na descida,
você afirma a vida, o tempo é novo, outro alimento
não tenho tempo para nascer, explico
você ignora, espera:
ainda há seis meses para desfazer o medo
você se aproxima, acolhe
sou filha, filha, o corpo cresce, indiferente:
descer, voltar, cair, crescer, crescer, crescer
todos os movimentos são você.

§

Meu desejo era metade da trama
ainda imperceptível sob a pele.
A chegada do amor inventou um contorno:
a soma das tessituras
dos corpos antes estranhos
costura o desenho de um filho.
Primeiro, em conversas excessivas.
Depois, sonhando o seu silêncio.

Filho pensado ainda antes do entendimento
do amor, forma em lenta expansão.
Filho-pensamento, filho-princípio, filho-novelo.
E nós dois (a família que inventamos)
filhos deste novelo que agora somos
que nunca terminará de se desfiar.

Sim, minha filha, você não era abstrata
seu pai era a linha, a criar comigo
a ficção do que seria.

Porque ao lado dele ganho o mapa:
pegadas de um novo passado
direção através do labirinto
– o formato (o caminho) da escolha –

céu que se repovoa
neste mapa (ir)refletido::
as Parcas observam, sorriem,
enquanto ele toca o mapa da minha pele
(e de um céu de palavras)

e tenho certeza, outras estrelas
nascem – estrela-pensamento, estrela-princípio,
estrela-novelo.

E você, filha, é estranha que vem somar
seu desejo à trama que agora nomeia.

[a partir da leitura do ensaio Antevéspera, noite interior,
de Gustavo Silveira Ribeiro]

§

O leite tem a constituição do sangue.
Sangue branco, nomeia o médico
e imagino a cor-aurora, os seios como sóis.
Na boca do bebê, reinventa o circuito:
mãe e filho são de novo um corpo.
Mas você é pequena demais para o esforço
fios te alimentam em outro útero.
Meu corpo ignora a inutilidade do fluxo
alimenta o lençol, o vestido
que voltam à matéria orgânica, úmidos

           sou o húmus da casa
            sou a medida do desperdício
            sou o adocicado da perda que ainda é promessa.

Escolho um vestido florido, roupa de cama com flores
o leite vaza, escorre, inaugura jardins.
Aprendo a colher o leite com as mãos
para ofertar a você, menina, este lírio branco
de alvéolos antigos, macerados na espera.

Ainda não sei o que é fome, o que é corte e o que é calma
nesta manhã excessiva, prolongada
que continua sendo a sua chegada
(sangue branco, poderia ser desta vida que nasce
O nome).

§

Posfácio

[O que havia antes, o que fica depois]

Da sala de espera do obstetra, ouço um coração de bebê. O mesmo som ao mesmo tempo seco e ondulante que ouvi tantas vezes: há poucos meses era eu ali na sala – e na clínica de ultrassom – ouvindo o coração da minha filha que agora bate mais tranquilo, separado de mim.

Volta-me a emoção de cada escuta, todas entrelaçadas, desde a primeira: sabíamos da gravidez há cerca de duas semanas quando tive um pequeno incidente, que nos levou ao hospital. No ultrassom, a Manuela – ainda sem nome, sexo, forma – não passava de uma pequena mancha que o médico apontava. As batidas do coração, entretanto, já estavam ali, o som parecendo inventar a matéria. Seu coração batia 170 vezes por minuto – mais ou menos o dobro da velocidade de um coração adulto. Comecei a ter contato com dados médicos: em meu corpo circularia cerca de 50% a mais de sangue durante a gravidez, por isso tanto cansaço; daria conta de duas vidas, ambas em formação – porque eu também estava sendo (re)tecida na gestação.

Foi impelida por este ritmo – da pulsação, da máquina que procura sinais vitais – que comecei a produzir esta série de poemas. A ideia era escrever sobre a experiência da gravidez a partir das mudanças do meu corpo, tantas vezes violentas, na constituição de uma vida. O último trimestre da gravidez adicionou violência, corpo e máquina ao processo: descobrimos uma pré-eclâmpsia grave, que levaria ao parto prematuro. O acompanhamento meticuloso da equipe médica e uma série de remédios e injeções, além do repouso, reduziram as consequências da doença ao baixo peso da nossa bebê, que nasceu com 1115kg e precisou viver no hospital por um mês, afastada a maior parte do tempo de nós, mas sem nenhum problema de saúde. Até o parto, entretanto, entramos em um período de constante apreensão e espera e cuidado, com ultrassons quase diários, medições do fluxo sanguíneo, do tamanho, do líquido amniótico. A experiência dos exames perdeu seu caráter lúdico para ganhar uma dimensão crua e de urgência que me deixou em silêncio. O final da gravidez e o parto, portanto, só viraram palavras depois de um tempo, já atravessadas pela existência plena da Manu, que agora dorme do meu lado, enquanto escrevo.

Mesmo assim, parece que cada verso foi escrito comigo ainda grávida e recém-parida, com as duas vivências simultâneas, como se a gravidez se prolongasse no tempo para além do nascimento. Ainda volto, aos poucos, para o estado anterior do corpo, não grávido, vazio. Sinto falta da barriga, mesmo com todas as dificuldades que a gestação me trouxe. Sinto falta de ouvir um outro coração batendo, como um pequeno motor que tocasse em engrenagens desconhecidas em mim até então – e que ainda estão em movimento.

O título “Continuar a nascer” foi retirado de um poema de Ricardo Aleixo. Eu não poderia dizer melhor o que sinto – ou pressinto – agora, um nascimento que se prolonga na maternidade, na vida em família, e que atravessa o tempo – passado, futuro -, e que me atravessa em tudo o que ainda não sei nomear. E que resta como ruído, seco, ondulante, violento, inaugural, contínuo.

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