poesia, tradução

John Mateer, por Gisele Wolkoff

Foto por Daniel Terkl.

Publicada na África do Sul, Sumatra, Japão, Macau, Portugal e Austrália, a obra de John Mateer inclui ensaios, poemas, uma prosa de viagem na Indonésia e uma novela que se passa nas Ilhas Cocos (Keeling), um atol no Oceano Índico. Seus poemas foram traduzidos em várias línguas europeias e asiáticas, bem como ao farsi e ao armênio. Seus livros de poemas incluem: Ex-white/Einmal weiss: South African PoemsThe West: Australian Poems 1989-2009Emptiness: Asian Poems 1998–2012; Southern Barbarians; e Unbelievers, or ‘The Moor’. Os últimos dois receberam edições portuguesas. Sobre os seus poemas sul-africanos, o romancista J.M. Coetzee escreveu que eles “retornam a onda do esquecimento, dando-nos um relance atrás do outro de uma pátria múltipla e amada”. João, seu último livro, é uma série de sonetos sobre o viajante fictício homônimo e foi publicado na Austrália e na Inglaterra. Recentemente, Mateer veio ao Brasil numa viagem e fez leituras e palestras em várias cidades.

Gisele Wolkoff é autora de Partidas (2012), Rumo ao Sol (2014), Ar (2016), publicados pela Palimage em Portugal, organizou e traduziu Poem-ando além fronteiras: dez poetas contemporâneas irlandesas e portuguesas//Poem-ing Beyond Borders: ten contemporary Irish and Portuguese women poets. (Palimage, Coimbra: 2011) e Plurivozes Americanas/American Plural Voices/Plurivoces Americanas (CRV: Curitiba, 2015). É professora do Instituto de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal Fluminense em Volta Redonda, de onde coordena a pesquisa Cultura e Artes no sul-Fluminense: memória & história, com apoio da FAPERJ. 

* * *

ETHEKWENI

The Poet

The poet, a New South African, holds his fist out to me.
I extend mine to meet his, our knuckles snug as in a knuckle-duster.
“Welcome home,” he says, swaying his fist back to his chest, his
[heart.
I do likewise, but feebly, and mutter, “This is strange…”

Earlier he’d told of when they’d razed his grandmother’s house

[with her inside.
In the interrogation he’d been asked, “What do you think of your
[comrades now?”
And he had shouted back: “Every revolution has its casualties!”
But when in gaol, alone, he wept for her for the first time.

I look at my hand on the table between us: a pale, grotesque thing.
Why, without reticence, did I press that against his dark fist?

O Poeta

O poeta, um sul-africano, estende-me a mão.
Eu retribuo, as nossas articulações se acomodam como numa
[soqueira.
“Bem vindo ao lar”, ele diz, balançando o punho ao seu peito, ao seu
[coração.
Eu sigo o ritual, ainda que debilmente, e murmuro: “- Isso é estranho…”

Mais cedo ele me contara de quando eles arrasaram com a casa da
[sua avó com ela dentro.
No interrogatório perguntaram-lhe: “- O que você pensa dos seus
[camaradas agora?”
E ele gritara de volta: “- Toda revolução tem os seus acidentes!”
Mas, quando na prisão, sozinho, ele chorou por ela pela primeira
[vez.

Olho para a minha mão entre nós, à mesa: uma coisa grotesca,
[pálida.
Por que, sem reticência, pressionei-a contra o seu punho escuro?

§

The Prostitute

The woman is sitting in the doorway half in the sun.
Her face is hidden. She’s talking to someone out of sight.
Her legs crossed like fat fingers.
Even from here I can see her shins are bruised
and the white high-heels scuffed and dirty.
Though she beckons passers-by they hardly glance at her.

Then she stands up, steps into the humid street.
Her eyes clench against the bright.
Under her black vest her limp, shrunken breasts.
She spots me in the bar across the street and beckons,
insistently beckons me like a long forgotten friend.

A Prostituta

A mulher está sentada na soleira da porta, parcialmente iluminada
[pelo sol.
Seu rosto está escondido. Ela conversa com alguém que não se vê.
As suas pernas, cruzadas, como dedos gordos.
Mesmo daqui consigo ver as suas canelas machucadas
e os saltos-altos gastos e sujos.
Ainda que ela acene a transeuntes, eles mal a olham.

Eis que ela se levanta, sai à rua úmida
Os seus olhos cerram-se mediante a luminosidade.
Debaixo de suas vestes prestas, seus peitos encolhidos, flácidos.
Ela me descobre no bar do outro lado da rua e acena,
Acena-me insistentemente como um amigo há muito esquecido.

§

The Tourist

They have their hands in his pockets and around his neck.
They’ve pinned him against the wall.
In the public toilets there are no surveillance cameras.

The tourist just off the plane has no witness to his struggle,
no one but himself to testify to his calm,
how he is telling himself, I could have been one of them,
disappointed with the Revolution…

The wall persists, abrasive, against his cheek
as he’s being bitten on the shoulder in this land of AIDS.

O Turista

As mãos deles, em seus bolsos e ao redor do seu pescoço.
Seguraram-no contra a parede.
Não há câmeras de seguranças nos banheiros públicos.

E aterrissado, o turista não tem testemunhas de sua luta,
ninguém que ateste a sua calma,
ou de como ele diz a si mesmo: “- eu poderia ter sido um deles,
frustrado com a Revolução…”

A parede persiste, abrasiva, contra a sua face
como se ele estivesse sendo mordido no ombro nesta terra de AIDS.

§

The Worshippers

They’re up from the beach, are dancing at the bus-stop.

They’re dancing, circling to the throb of the cow-hide drum.
The drummer, head low, holds the leather heart under his arm,
pummels with a quick pulse that is pure praise.
The women sway and clap fast, absorbed as Rastas on an

[Ethiopian mountain.
On one woman’s back, snugly bound with a blanket, an infant,
eyes wide, cheeks jiggling, is memorizing all this.

Of their words all I hear is the prophet’s name: Shembe Shembe
[Shembe.

Behind them, on the beach where they have been since the night,
[other gatherings
of Zionists, some standing, some kneeling, clasp their hands in

[prayer,
their candles now low in the sand, their bottles of holy water pale
[with the breaking day.
Waist-deep in the grey swell a man is baptizing a calm, white-

[robed child
while two surfers, skirting carefully around them, enter the waves,
[slip away
from that tourist who photographs this scene with the hotels as
[backdrop.
Up here at the road the worshippers are dancing and singing as if
[they could forever.


Os Adoradores

Eles voltam da praia, dançando no ponto de ônibus.

Dançando, fazendo pulsar o ritmo do tambor burilante.
O baterista, cabisbaixo, carrega o coração de couro debaixo do
[braço,
chacoalha com uma rápida batida e que é puro louvor.
As mulheres se movimentam e aplaudem rápidas, absortas, feito os
[Rastas nas montanhas etíopes.
No dorso de uma delas, embrulhada confortavelmente num
[cobertor, uma criança
de olhos arregalados, bochechas sacolejantes decora tudo isso.

Tudo o que ouço das suas palavras é o nome do profeta: Shembe,
[Shembe, Shembe.

Para trás, na praia onde estiveram desde a noite, outros
[agrupamentos
de Sionistas, alguns, em pé, outros, ajoelhados batem palmas em
[oração.
As suas velas agora fracas na areia, as suas garrafas de água benta
[lívidas com o raiar do dia.
Um homem, imerso até a cintura nas águas turvas, batiza uma
[criança vestida de branco, calma
enquanto dois surfistas margeando cuidadosamente o entorno,
[entram nas ondas, desaparecem
daquele turista que fotografa essa cena com os hotéis de pano de
[fundo.
Aqui na rua, os adoradores dançam e cantam como se não houvesse [amanhã.

Padrão

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s