poesia, tradução

Hopkins, Ronsard, Yeats, por Victor Queiroz

1
Os três poemas a seguir servem de epígrafes ao meu recém-lançado livro de poemas autorais, Uranium 235. Deles, contudo, apenas o “soneto” de Ronsard foi traduzido para compor o volume: o capítulo dedicado a poemas de amor, que ele de certa forma apresenta, parece deslocado no contexto político que vivemos — de retrocesso extremo e de afirmação desse retrocesso como valor… Precisei tecer um comentário autoirônico e assim o escolhi.
Os dois demais poemas: o “soneto 50” de Hopkins, pertencente ao conjunto conhecido como “Sonetos Obscuros”, e o poema “Segunda Vinda”, de Yeats. O primeiro foi traduzido segundo o método da paixão incondicional: de cor, o repetia para mim (pois, por ter trilhado a religião cristã sinceramente por um tempo, compartilho algo da angústia que ele exprime), até que alguns dos versos começaram a surgir em português. Chocou-me, ao fim da organização do capítulo primeiro, o quanto esse soneto o explicava. Inseri-o.
Quanto ao último, ele me cativara há muito e o seu processo de tradução foi mais penoso, de brigar com o texto. A ironia com que as coisas de deus (Javé), do Cristo, são tratadas, e essa promessa, sempre-além, do fim do mundo e a vaga descrição dos seus sinais e do declínio, fez-me querer tê-lo à frente dos meus textos, os quais também trazem certo pessimismo e ironia.
Talvez seja coisa de estreante o querer trazer diante de si, a cada parte de seu livro, um grande autor ou nome a fim de lhe servir de escudo. Mas como se pode ler em cada um deles, mais que brigar contra um leitor indisposto ou um crítico grosseiro, a lida dá-se, como lemos nos textos, com um deus, que não garante 1. a paz interior, ou 2. o amor vencer, frutificar, ou 3. qualquer justiça ou paz exterior. É contra (E)le o escudo.
Victor Queiroz
*

Thou art indeed just, Lord, if I contend
With thee; but, sir, so what I plead is just.
Why do sinners’ ways prosper? and why must
Disappointment all I endeavour end?

Wert thou my enemy, O thou my friend,
How wouldst thou worse, I wonder, than thou dost
Defeat, thwart me? Oh, the sots and thralls of lust
Do in spare hours more thrive than I that spend,

Sir, life upon thy cause. See, banks and brakes
Now, leavèd how thick! lacèd they are again
With fretty chervil, look, and fresh wind shakes

Them; birds build – but not I build; no, but strain,
Time’s eunuch, and not breed one work that wakes.
Mine, O thou lord of life, send my roots rain.

– Gerard Manley Hopkins

Sois sempre o Justo, ó meu Senhor, se houver contenda
de mim conVosco. Deus, dizei-me então por que
prospera o ímpio e aonde eu ando não se vê
nada além despontar meu desapontamento?

Fosses imigo, ó Vós, o meu amigo, eu penso,
como faríeis mais frustrar-me ou mais perder-
me, se os capachos da Luxúria têm poder
de, em ócio, ir mais além de mim, eu, quem empenha,

Deus, vida em Vossa Obra? O arbusto, o bosque, jaz-
em verde viço, vede-os! c’roas de matizes
revêm-lhes, e eis o vento ameno move-os, traz

frescor; a ave se aninha, ainda eu não me aninhe:
castrou-me o Tempo, e não emprenho obra eficaz.
Ó Vós, Vida da vida, regai-me as raízes.

§

Au milieu de la guerre, en un siecle sans foy,
Entre mille procez, est-ce pas grand folie
D’escrire de l’Amour ? De manotes on lie
Des fols, qui ne sont pas si furieux que moy.

Grison et maladif r’entrer dessous la loy
D’Amour, ô quelle erreur ! Dieux, mercy je vous crie.
Tu ne m’es plus Amour, tu m’es une Furie,
Qui me rends fol, enfant, et sans yeux comme toy :

Voir perdre mon pays, proye des adversaires,
Voir en noz estendars les fleurs de liz contraires,
Voir une Thebaïde, et faire l’amoureux.

Je m’en vais au Palais : adieu vieilles Sorcieres.
Muses, je prens mon sac, je seray plus heureux
En gaignant mes procez, qu’en suivant voz rivieres.

– Pierre de Ronsard

Num século sem fé, em meio a guerras,
réu de processos mil, será loucura
escrever sobre o Amor? Por menos curam
de outros loucos algemar, menos feras.

Velho e doente adentrar o Amor, não erra
quem o faça? Deus, esta lei, conjuro-a.
Não mais Amor, tu és-me a vera Fúria:
faz-me fulo e infante e cego como ela.

Ver perder-se o país, entre adversários
e estandartes flor-de-lis contrários;
frente à Tebaida, bancar o amoroso.

Vou-me ao Palácio: adeus, magia antiga.
Ó Musa, eu faço as malas, mais gozoso
é vencer meus processos, que o segui-la.
§

The Second Coming

Turning and turning in the widening gyre
The falcon cannot hear the falconer;
Things fall apart; the centre cannot hold;
Mere anarchy is loosed upon the world,
The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere
The ceremony of innocence is drowned;
The best lack all conviction, while the worst
Are full of passionate intensity.

Surely some revelation is at hand;
Surely the Second Coming is at hand.
The Second Coming! Hardly are those words out
When a vast image out of Spiritus Mundi
Troubles my sight: somewhere in sands of the desert
A shape with lion body and the head of a man,
A gaze blank and pitiless as the sun,
Is moving its slow thighs, while all about it
Reel shadows of the indignant desert birds.
The darkness drops again; but now I know
That twenty centuries of stony sleep

Were vexed to nightmare by a rocking cradle,
And what rough beast, its hour come round at last,
Slouches towards Bethlehem to be born?

– William Butler Yeats

The Second Coming

Gira-girando, e a gira a agigantar-se,
o falcão não pode ouvir o falcoeiro;
coisas desintegram-se; o centro cede;
mera anarquia é liberta contra o mundo,
a maré-sangue é liberta, e, em toda parte,
a cerimônia da inocência afoga-se;
os melhores, inconvictos, enquanto
os piores — intensos, passionais.

Decerto a Revelação bate à porta;
decerto a Segunda Vinda bate à porta.
Segunda Vinda! As palavras mal saem,
vem-me a imagem vasta do Spiritus Mundi
perturbar-me as vistas: no vago areal,
um vulto — corpo-leão/tez humana,
olhos-vácuo, impiedosos como o sol —
move as coxas lentas, e, em torno, sombras-
satélite, aves do deserto indignadas.
De novo, trevas; porém agora eu sei
que vinte séc’los de sono de pedra em
berço de balanço infligem pesadelos.
E qual besta rude, arribada a hora enfim,
rasteja até Belém para nascer?

§

Victor Queiroz (Campinas/ SP, 1991), formado em Composição pela UNESP, onde travou contato com a teoria e prática da tradução-arte, por meio do professor e amigo Omar Khouri. Desde então, dedica-se, enquanto poeta, sobretudo à prática da tradução, contribuindo com a Ponto Virgulina. Entre os seus principais interesses poéticos, encontram-se os Modernismos, dentro e fora do Brasil, e as poesias francesas clássica e pré-Simbolista; e ainda o Concretismo em toda a sua extensão: da poesia visual aos tratados teórico-críticos e (belíssimas) traduções desenvolvidas pelos Noigandres. Lançou este ano Uranium 235, pela editora Urutau e já apareceu aqui na escamandro com 1 poema.


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