tradução

23 traduções para um poema de Emily Dickinson (1830-1886), por Matheus Mavericco

dickinson_16anos

Com Emily Dickinson as coisas não funcionavam bem no sentido de sentar pra, digamos, escrever um livro de poemas ou entupir um com o que se tem à mão. Para quem publicou em vida só sete dos mais de dois mil que escreveu, é possível que a graça estivesse noutra coisa que não o amontoado retangular de celulose.

Tomemos o caso daquele que começa com “A word is dead”. Curiosamente, sua primeira aparição foi em prosa, na parte final de uma carta enviada em 1872 para Louisa e Fannie Norcross, duas parentes da autora:

Thank you for the passage. How long to live the truth is! A word is dead when it is said, some say. I say it just begins to live that day.

Thomas H. Johnson, um dos primeiros a tentar publicar Emily Dickinson mantendo a radicalidade de sua escrita, diz não saber ao certo se o trecho seria uma espécie de pós-escrito à carta ou se excerto de alguma outra. Dúvida que talvez explique o motivo do poema ter sido estampado em prosa quando era prática comum da autora transcrever poemas seus no corpo das cartas.

Uma segunda explicação reside, conforme informado por Adalberto Müller (nota abaixo), no fato de que o manuscrito da carta não existe. É quando entra uma segunda, escrita de Frances Norcross a Mabel Todd, onde a primeira transcreve o poema dispondo-o em quatro versos, exatamente como Adalberto traduz. Ora: se nossa amiga Frances o tratou como poema, e se ela era conhecida de Dickinson, então maravilha, tratemo-lo como tal.

O que ele tem a nos dizer? Sua simplicidade e concisão são admiráveis. Se por um lado tendemos a dizer que a palavra cai morta assim que sai da boca, quase como se a descartássemos, como se a expelíssemos, por outro, seguindo o argumento do poema, é precisamente quando ela é dita que ela passa a viver. Mas que vida é essa a que Dickinson se refere? Todas as palavras do meu texto são assimiladas pela inteligência do leitor, passando, agora, a fazer parte de seu repertório. Ou seja: a partir do momento em que a palavra alcança o outro, a partir do momento em que ela é dita, ela passa a viver em outras pessoas. Não é o que acontece quando, numa briga de casal, um dos lados retira das cinzas uma única expressão ou um simples tom de voz de semanas atrás?

Segundo Richard Sewall, um dos seus melhores biógrafos, o método dickinsoniano consistia n“a intensificação, ou concentração, de significados nas palavras até que reluzissem ‘como nenhuma outra safira’ – ou seja, até que se tornassem, em mútuo suporte e combinação, a Palavra, um poema que pudesse ‘morar em nós’, vivo, uma fusão corpórea entre o significado e (como na vida humana) o mistério”. O autor compara o método a quando Emerson, no ensaio The Poet, diz que “Não há necessidade que um poema seja longo. Toda palavra já foi um poema.”

Realmente. A vida que Dickinson menciona no último verso é muito mais potente do que a vida social da palavra expressa. Vai além do que ela menciona noutro poema admirável, de que o Livro é uma Fragata que nos transporta a Terras longínquas. Quando Dickinson fala da palavra, ela fala do que é experimentado de um modo intenso a ponto de palpável e quase místico, por exemplo quando, ao comentar a passagem bíblica do Verbo fazendo-se Carne, ela retifica e diz que se fez Carne e passou a morar em nós.

E faz sentido que seja. Sewall comenta que quando Dickinson lia literatura, ela comumente o fazia buscando palavras que reluzissem de forma única. Ora: não foi exatamente isso o que fizemos ao destacarmos, de uma singela carta entre familiares, a imensa força encantatória e poética de duas frases, quase como se a repuséssemos em seu ecossistema original? É na poesia que a palavra adquire sua potência máxima e, se quisermos evocar um contemporâneo de Dickinson que certamente gostaria de ouvir o que a poetisa tinha a dizer sobre a Palavra, passa a dar um sentido mais puro às palavras da tribo.

As traduções abaixo agradam a gregos e baianos. Observe como, na de Nelson Ascher e na de Pedro Mohallem, se buscou recriar o fato de que as duas metades do poema, se juntas, compõem um dístico heróico perfeito (a minha consegue algo parecido, só que traduzindo para um verso de doze sílabas). Ou, naquela de Rubens Enderle, veja a importância que o eco bíblico recebe quando revelado para o leitor. Se mantive as várias versões que um único tradutor fez para o mesmo texto, é com o intuito de mostrar as dificuldades do próprio original, a maneira como cada cabeça opera a seu jeito e, em última instância, para que o leitor contemple a exuberância que a tradução representa, muito além da precariedade que muitos ainda insistem em apontar.

Embora a postagem seja essencialmente montada com o intuito de dar espaço àquelas traduções inéditas, várias já foram publicadas, saídas da lavra de tradutores ilustres como Aíla de Oliveira Gomes, José Lira ou Augusto de Campos. Infelizmente não tive acesso a todas, mas, caso o leitor queira saber pelo menos onde procurá-las, pode ficar com o excelente trabalho de pesquisa levado a cabo pelo Departamento de Letras Modernas da UNESP (clique aqui).

Por fim, agradeço a Adalberto Müller por gentilmente ceder sua tradução, que comporá um volume com a poesia completa da autora traduzida. A nota crítica que acompanha a tradução é publicada logo abaixo de seu texto.

 

Matheus Mavericco

* * *

 

A word is dead
When it is said,
Some say.
I say it just
Begins to live
That day.

F278B / J1212

§

 

Uma palavra morre
Quando é dita –
Dir-se-ia –
Pois eu digo
Que ela nasce
Nesse dia

(Trad. Aíla de Olveira Gomes)

§

 

Uma palavra morre
Quando falada
Alguém dizia.
Eu digo que ela nasce
Exatamente
Nesse dia.

(Trad. Idelma Ribeiro Faria)

§

 

Palavra é morta
Quando está dita,
Dizem uns.
Digo: inicia
A só viver
Em tal dia.

(Trad. José Lino Grünewald)

§

 

Morre a palavra
quando é falada,
dirão.

Digo: – Só então
ela começa a
viver.

(Trad. Abgar Renault)

§

 

Uma palavra morre
ao ser pronunciada
é o que se diz

(flor que se cumpre
sem pergunta)

Digo que é nesse
………….exato dia
que ela começa
………….a viver

(versão de José Lira)

§

 

A palavra morre
Quando ocorre,
Se dizia.
Eu digo que ela
Se revela
Nesse dia.

(Trad. Augusto de Campos)

§

 

Palavra expressa
Extingue e cessa,
Se dizia.
Mas se ela dá-se,
Digo que nasce
Em tal dia.

(Trad. Matheus Mavericco)

§

 

Quanto se expresse
— Dizem — perece
Depressa.
Eu — discordando —
Digo — isso é quando
Começa.

(Trad. Nelson Ascher, 1a versão)

§

 

Palavra expressa
dizem que cessa
sem vida.
Dela, porém,
digo: é recém-
-nascida.

(Trad. Nelson Ascher, 2a versão)

§

 

Palavra expressa,
dizem que cessa
depressa.
Eu, discordando,
digo que é quando
começa.

(Trad. Nelson Ascher, 3a versão)

§

 

DAS PALAVRAS

“Morrem após
calar-se a voz”,
ouvi.
Penso, porém,
que nascem bem
ali.

(Trad. Pedro Mohallem, 1a versão)

§

 

DA PALAVRA

“Perece após
calar-se a voz”,
dizeis.
Digo, porém,
que viva enfim
se fez.

(Trad. Pedro Mohallem, 2a versão)

§

 

Palavra morre
Se lhe ocorre
Ser dita.
Eu não concordo,
Se desse modo
Se agita.

(Trad. Emmanuel Santiago, 1a versão)

§

 

Palavra morre
Se, diz-se, ocorre
Ser dita.
Eu já diria
Que nesse dia
Se agita.

(Trad. Emmanuel Santiago, 2a versão)

§

Palavra morre
Se dita, alguém
Dizia.
Mas, para mim,
Só ganha vida
Tal dia.

(Trad. Emmanuel Santiago, 3a versão)

§

 

Palavra jaz
se dita, já se
dizia.
Mas dela digo
que ganha vida
tal dia.

(Trad. Emmanuel Santiago, 4a versão)

§

 

Morta é a palavra
se pronunciada,
decoram.
Eu digo apenas
que ela nascera
nesta hora.

(Trad. Wagner Schadeck)

§

 

“morre a palavra”
– ouvi –
“se dita”

Me ocorre, porém,
que ali
palpita

(Trad. Pedro Almeida)

§

 

O verbo falado,
segundo o ditado,
morreu.

Que digo? Que ele
ainda hoje
nasceu.

(Trad. Rubens Enderle, 1a versão)

§

 

Palavras ditas,
estão prescritas,
disseram.

Que digo? Que elas,
naquele dia,
nasceram.

(Trad. Rubens Enderle, 2a versão)

§

 

Morre a palavra
Quando alguém fala,
Uns contam.

Digo, no entanto,
Que é o dia em que ela
Desponta.

(Trad. Kleiton Muniz)

§

 

Morre a palavra
Quando falada,
Alguém disse.
Digo, porém,
Daí por diante
Que ela vive.

(Trad. Ivan Eugênio da Cunha)

§

 

25188709_1987761721481145_8604992583097474276_o

(Trad. André Vallias)

§

 

Um mundo fina
se o definem,
dizem.

Digo que só
começa a vida
assim.

(Trad. Guilherme Gontijo Flores)

§

 

A palavra morre, ao ser dita
Diz o povo –
Eu digo que é aí que ela vive
De novo

(Trad. Adalberto Müller)

*

Nota de Adalberto Müller: O manuscrito desse poema enviado a Louise e Frances Norcross, numa carta, no início de 1862, não existe. O poema foi transcrito por Frances Norcross e enviado a Mabel Todd, dessa forma (4 versos). Na carta de Emily às irmãs Norcross, o poema vinha antecedido da seguinte linha: “Obrigado por essa passagem. Quanto demora a vida da verdade!”. Todas as traduções brasileiras seguem um arranjo de versos feito deliberadamente por Thomas H. Johnson (1956, J), corrigido posteriormente por R.W. Franklin (1998, F) e por Cristanne Miller (2016).

Anúncios
Padrão
tradução

‘Dom Baal’, de Edith Sitwell, por Alessandro Funari

edith-sitwell

Somente uma breve nota introdutória, um tanto para ‘legitimar’ as alterações da tradução, mas mais para apontar que o poema – e, em geral, a poeta – se baseia na construção constante de relações sonoras, humor meio non-sense e na métrica (nesse caso, a discrepância entre o assunto e a métrica clássica). E foi com esse enfoque que tentei traduzir: dentro do escopo semântico (a apetência do tinhoso), tentando manter as relações de sons, o ar jocoso e imitando o cantar dátilo que move os versos.

Alessandro Palermo Funari nasceu em Campinas (SP), mas reside na capital do estado. É formado em História (porém não historiador) e não é poeta (mas traduz poesia).

* * *

 

When
Sir
Beelzebub called for his syllabub in the hotel in Hell
…….Where Proserpine first fell,
Blue as the gendarmerie were the waves of the sea,
…….(Rocking and shocking the barmaid).

Nobody comes to give him his rum but the
Rim of the sky hippopotamus-glum
Enhances the chances to bless with a benison
Alfred Lord Tennyson crossing the bar laid
With cold vegetation from pale deputations
Of temperance workers (all signed In Memoriam)
Hoping with glory to trip up the Laureate’s feet,
…….(Moving in classical metres) …

Like Balaclava, the lava came down from the
Roof, and the sea’s blue wooden gendarmerie
Took them in charge while Beelzebub roared for his rum.
…….… None of them come!

Quan
do
Baal foi pedir seu mingau no quintal do hotel
…………No Fel, da queda primal de
Prosérpina, azuis qual gendarmes as ondas do mar,
…………(Zoando e chocando a barista).

Não vem nenhum pra servir o seu rum mas as
Raias do céu têm negrume do anum
Acirra-se a sina a benzer com sua bênção a
Alfred Lord Tennyson, como um barrista,
Com frias carquejas de claros cortejos
De obreiros serenos (firmando In Memoriam)
Crendo com glória que topem nos Láureos pés,
…………(Canto com clássicos metros)…

Qual Balaclava, a lava desceu lá do
Céu, e os cerúleos gendarmes marítimos
Os acolheram ouvindo Baal, que berrou por seu rum.
…………… Não vem nenhum!

 

Padrão
poesia, tradução

Denise Levertov, por Mariana Basílio

Denise

Denise Levertov (1923 – 1997) foi poeta, escritora e tradutora inglesa, naturalizada nos Estados Unidos e ligada à Geração Beat.

Atualmente traduzo algumas das principais poetas americanas do século XX. Escolhi Denise Levertov para essa colaboração por dois fatores: primeiro, uma intensa ligação que sinto com a poeta no presente, além da mesma ser pouco conhecida no país. De traduções já realizadas da autora, encontrei uma anterior por aqui, por Stefano Calgaro, assim como outra na revista Zunái, feita por Ruy Vasconcelos, e por último, no Jornal Rascunho, por André Caramuru Aubert.

A escolha dos poemas aconteceu a partir de minha leitura dos seus livros, incluindo The Jacob’s Ladder (1961), O Taste and See (1964) e The Sorrow Dance (1967).  São livros que trazem conceitos marcantes da poética de Levertov, com imagens intensas e associações entre o ser, o seu local e a natureza das coisas, também explorando o momento de transição da sociedade na década de 60, incluindo sua constante práxis no feminismo.

Em relação à tradução, busquei uma equivalência em nossa língua para a dicção e o vocabulário da poeta, procurando valer-me de seus recursos e reproduzir a sonoridade do verso livre inglês sem comprometer o sentido, explorando a capacidade fluídica e o impacto de suas palavras.

 Mariana Basílio

***

Quatro poemas dos livros The Jacob’s Ladder (1961), O Taste and See (1964) e The Sorrow Dance (1967).

 

SALMO RELATIVO AO CASTELO

Deixa-me estar no lugar do castelo.

Deixa o castelo estar dentro de mim.

Deixa que ele se eleve firme do anel do fosso.

Deixa que as águas do fosso reflitam a verde plumagem dos patos, deixa que os cascos das tartarugas rompam a superfície ou sejam vistos através das profundezas ondulantes.

Deixa a cavalaria postada nas bordas do fosso, e um cachorro, sempre alertas à chegada do sono.

Deixa que o espaço embaixo do primeiro piso seja escuro, deixa que a água envolva os pilares de pedra e que o vívido lodo verde neles cintile; deixa que lá fique um bote.

Deixa que as cariátides do segundo piso sejam ursos sustentados por vigas que sejam dragões.

No parapeito do salão central, deixa quatro arqueiros, olhando aos quatro horizontes. Dentro, deixa que o príncipe se sinta em casa, deixa-o sentar pensativo, em paz, todas as janelas abertas para as lógias.

Deixa que a jovem rainha se sente no alto, no ar fresco, seu filho nos braços; deixe-a ver com alegria o grande círculo, as sombras peregrinas, o labor do sol e o folgar do vento. Deixa-a caminhar de lá para cá. Deixa as colunas sustentarem o telhado, deixa que os pisos sustentem as colunas, deixa um espaço escuro embaixo do piso mais inferior, deixa que o castelo se eleve firme do fosso, deixa o fosso ser um anel e suas águas serem profundas, deixa que os guardiões o guardem, deixa que hajam vastas terras ao seu redor, deixa que o campo onde ele esteja fique dentro de mim, deixa-me estar onde ele estiver.

 

PSALM CONCERNING THE CASTLE

Let me be at the place of the castle. 

Let the castle be within me. 

Let it rise foursquare from the moat’s ring. 

Let the moat’s waters reflect green plumage of ducks, let the shells of swimming turtles break the surface or be seen through the rippling depths. 

Let horsemen be stationed at the rim of it, and a dog, always alert on the brink of sleep. 

Let the space under the first storey be dark, let the water lap the stone posts, and vivid green slime glimmer upon them; let a boat be kept there. 

Let the caryatids of the second storey be bears upheld on beams that are dragons. 

On the parapet of the central room, let there be four archers, looking off to the four horizons. Within, let the prince be at home, let him sit in deep thought, at peace, all the windows open to the loggias. 

Let the young queen sit above, in the cool air, her child in her arms; let her look with joy at the great circle, the pilgrim shadows, the work of the sun and the play of the wind. Let her walk to and fro. Let the columns uphold the roof, let the storeys uphold the columns, let there be dark space below the lowest floor, let the castle rise foursquare out of the moat, let the moat be a ring and the water deep, let the guardians guard it, let there be wide lands around it, let that country where it stands be within me, let me be where it is.

§

A DOR DO MATRIMÔNIO

A dor do matrimônio:

coxa e língua, amado,
carregam seu peso,

que pulsa nos dentes
Buscamos comunhão

e somos rejeitados, amado,
todos e cada um

É leviatã e nós

em seu estômago
atrás de alegria, alguma alegria
inconcebível fora dele

de dois a dois na arca

dessa dor.

THE ACHE OF MARRIAGE

The ache of marriage:

thigh and tongue, beloved, 
are heavy with it, 
it throbs in the teeth

We look for communion
and are turned away, beloved, 
each and each

It is leviathan and we 
in its belly
looking for joy, some joy 
not to be known outside it

two by two in the ark of 
the ache of it.

§

CANÇÃO DE AMOR 

Tua beleza, que uma vez perdi de vista

por longo tempo, é longa,
não simétrica, e veste

as cores terrosas que me fazem vê-la.

Uma longa beleza. Que é isso?
Uma canção

que pode ser cantada uma e outra vez
longas notas ou longos ossos.

O amor é uma paisagem que as longas montanhas
definem mas não

separam da

distância imperceptível.
No outono, no outono,

tuas árvores esticam
seus braços longos em mangas

de vermelho terra e
amarelo céu, um pouco
podadas. Eu dou

longos passeios por eles. As uvas
que precisam de geada para amadurecer

são âmbar e crescem profundas na
sebe, meio ocultas,
como tua beleza cresce em longas gavinhas

meio na escuridão.

LOVE SONG 

Your beauty, which I lost sight of once
for a long time, is long,
not symmetrical, and wears
the earth colors that make me see it.

A long beauty, what is that?
A song
that can be sung over and over,
long notes or long bones.

Love is a landscape the long mountains
define but don’t
shut off from the
unseeable distance.

In fall, in fall,
your trees stretch
their long arms in sleeves
of earth-red and

sky-yellow, a little
lop-sided. I take
long walks among them. The grapes
that need frost to ripen them

are amber and grow deep in the
hedge, half-concealed,
the way your beauty grows in long tendrils
half in darkness.

§

OS ELFOS

Os elfos não são menores
que os humanos, e caminham
como os humanos fazem, nesse mundo,
mas com mais graça que a maioria,
e não são imortais.

Sua beleza os separa
dos demais homens e mulheres
a menos que uma mulher tenha aquele fogo frio em si

chamado poeta: com isso
ela pode vê-los e por sua luz

eles a conhecem e não a temem

e prateadas línguas de amor
cintilam entre eles.

THE ELVES

Elves are no smaller
than men, and walk
as men do, in this world,
but with more grace than most,
and are not immortal.

Their beauty sets them aside
from other men and from women
unless a woman has that cold fire in her
called poet: with that

she may see them and by its light
they know her and are not afraid
and silver tongues of love
flicker between them. 

***

 

MARIANA BASÍLIO (1989) é poeta. Autora de Nepente (Giostri, 2015) e Sombras & Luzes (Penalux, 2016), atualmente versa Megalômana, e Tríptico Vital (3º lugar ProAC 2016). Tem poemas em revistas do Brasil e de Portugal, como alagunas, Diversos Afins, Garupa, Germina, InComunidade, mallarmargens, Odara, Raimundo, entre outras. Aqui no escamandro já apareceu quatro poemas. Contato: http://www.marianabasilio.com.br

Padrão
poesia, tradução

Rob Packer (1982-)

Rob Packer nasceu em Londres em 1982, mas durante a última década viveu em alguns países da Ásia e América Latina. Desde 2011, ele mora no Brasil, atualmente no Rio de Janeiro. Os seus poemas em inglês foram publicados em revistas e sites no Reino Unido e na Irlanda, e alguns poemas exofônicos vão aparecer em publicações na Espanha e no Brasil nos próximos meses. Ele também traduz poesia para o inglês e a Carnaval Press de Londres editou as traduções do Thiago Ponce de Moraes na plaquete, Glory Box, em 2016. Estes poemas são em versão bilíngue feita pelo próprio poeta. Lançou em 2017 o livro Écfrases (7Letras, coleção megamíni).

* * *

A Question of Paralysis

Ekphrasis of a performance by Marília Garcia

Last week I had never seen paralysis. This was a cloud on the seabed. I had frozen, no longer crossing the sky, not taking us forward.

I had changed to another plane. This new act is coincidence and darkness. In the impossibility of movement, I have geographies to think with. A map threads the clouds and they fall. There had been crossed lines and waves. Data transmits through the dust.

The helix paralyses. Dreams come from the tops of the trees. Repeated gestures hover and think with their hands.

So many images passed. I was there in the audience. I tried to follow the thread, explain the quest. I left the questions with holes in.

I was in flight. I should rest. I am disappearing from the radar. Dial in to hear the sound of so many borders closing.

The picture was coming to an end. It was my voice speaking from the past. There were so many things it scared me to think of them.

Dust covers my sight.

Stars exit the sky.

There is just one sound.

Some message lost in the air.

Uma questão de paralisia

Écfrase de uma performance da Marília Garcia

Na semana passada nunca tinha visto a paralisia. Era uma nuvem no fundo do mar. Eu tinha congelado, não mais atravessava o céu, nem nos levava para frente.

Mudei para outra dimensão. Este novo ato é coincidência e escuridão. Na impossibilidade do movimento, devo pensar com as geografias. Um mapa enlaça as nuvens e caem. Tinha linhas cruzadas e ondas. Dados se transmitem na poeira.

Os genes paralisam. Os sonhos vêm dos topos das árvores. Gestos repetidos pairam e pensam com as mãos.

Passaram tantas imagens. Estive lá no público. Tentei seguir o fio da história, explicar a aventura. Deixei as perguntas furadas.

Estava voando. Devia descansar. Desaparecia do radar. Ligue para ouvir o som de tantas fronteiras se fechando.

O filme chegava ao seu fim. Era a minha voz falando desde o passado. Havia tantas coisas que me dava medo pensar nelas.

Poeira cobre a minha vista.

Estrelas saem do céu.

Tem apenas um som.

Alguma mensagem perdida no ar.

§

vertigem sobre o planalto

… quanto falta até terminar esse voo, pousar até que eu possa falar para alguém desse poema ou desse ensaio como aquele que o ismar falou para mim na praça são salvador, bebendo refrigerante, não cerveja e sentados no playground, não no ground onde os batuques ensaiam o carnaval ou só nos dão um ritmo de fundo para os latões e as latinhas, as periguetes como dizem em salvador da bahia que deixei agora, dos jovens valentes de laranjeiras, catete e flamengo, os bons jovens valentes das laranjeiras e cateter e do flamingo ou do belga, que talvez em algum guia ou em uma matéria de 36 horas de dicas no new york times ou guardian, embora aí a leitora generosamente pode ter 48 horas de lazer porque ela chegou sexta numa cidade onde tem ou pode ter uma praça de foliões foliando no ensaio de batuques e latas de cerveja small ou large compradas dos vendedores que trouxeram isopores de gelo e cerveja estupidamente gelada, não porque às vezes congela, mas porque é só pela estupidez que vai chegar na temperatura onde toda cerveja precisa ser desprezada, como o edu fez a primeira noite que eu passei nessa cidade, ficando no saara, um colchonete no chão e antes de sequer saber que português seria a língua que iria falar durante tantos anos, mas não na versão que sempre imaginava que falaria, a do meu lado do atlântico, mas ainda com ditongos nasais eu pratico desde que estive em roma e tive um guia de conversação que dizia representar todas as línguas da europa salvo as partes novamente abertas e cujas cidades eu pesquisava para aquela rodada de civilization 2 quando os portugueses conquistaram todos os povos do mundo terminando com os zulus e cujas cidades e panoramas eu nunca logrei desenhar, esboçando numa folha de a4 pegada na janela e que continha o sistema de metro perfeito com uma estação a cada quilômetro, se não me engano, embora a escala eu nunca tenha acertado, tão invejoso de todos que tiveram a sorte de viver em paris onde em menos de 500 metros você encontra uma boca do metropolitain, cuja abreviatura oxítona foi adotada aqui, onde a locutora severa fala em que lugar colocar a mochila e que sempre fique atento como se as instruções que acabou de dar só fossem uma indicação da possibilidade teóricas de chegar ou não em algum lugar da zona norte sem ter que cotovelar um caminho para dentro de um trem chinês estupidamente gelado no estácio, que eu nunca entendi se era eustace ou uma referência através de estácio de sá ao poeta beato que vai com dante nos últimos cantos do purgatório e quem observou a censura da beatriz, já por que dante estava pensando em outras mulheres, tal como porque eu estive procurando sexo com outros homens quando eu tinha um que à diferença da vita nuova não foi levado e ninguém lhe ofereceu de comer um coração, mesmo lá em florianópolis mas quem igual beatriz me mostrou a graça infinita e quem estaria mortificado que eu o alinhasse com deus, que como os überzeugten empalhados dizem foi o único mesmo que poderia ter feito uma cidade com tal beleza, se você subtrai as partes sobre as quais voamos agora e a baía doente e o asfalto da pista de pouso aqui no galeão,

vertigo above the planalto

… how much longer until we end this flight, touch down until i can tell someone about this poem or this essay like the one ismar told me about on the praça são salvador, drinking soft drinks, not beer and sitting by the playground, not on the ground where the drums are practising for carnival or just providing backing beat for the latões and latinhas, the periguetes as they say in salvador da bahia, the place i’ve left behind just now, for the good young folk of laranjeiras, catete and flamengo, the good young folk of orange trees and catete and fleming or flamingo, described perhaps in some guide book or a 36 hours in piece in the new york times or guardian, although there the reader is granted a leisured 48 because she flew on friday to a city where there is or could be a square of revellers revelling in the drumbeat practice and the small or large cans of beer bought from the vendors who’ve brought the isopors of ice and beer estupidamente gelada, not because it does freeze sometimes, but because only through stupidity will it not reach the temperature at which all beer must be tipped away, like edu did the first night that i spent in this city, staying in the sahara, a mattress on the floor before i even knew that portuguese would be the language i would speak for years, but not the version that i always guessed i would, the one from my side of the atlantic, whose nasal diphthongs from there and here i practised since i went to rome and had a phrasebook that claimed to represent all the languages of europe, except the newly opened parts and whose cities’ names i researched for that round of civilization 2 when the portuguese conquered the peoples of the world, ending with the zulus and whose cityscapes i never managed to design, sketching on a piece of a4 held up to a window, which held the perfect metro system of simple interchange and a station every kilometre i think although i never got the scale quite right, as envious as i was of all who had the luck to live in paris where within 500 metres you can find a mouth of the metropolitain, whose shortening to metrô with an end stress is adopted here, where the stern announcer tells you where to put your rucksack and always to stay aware as if the instructions she has just given were only an indication of the theoretical possibilities of getting through or not to somewhere in the zona norte without elbowing you way onto the chinese train estupidamente gelado from estácio, which i’ve never figured out is really eustace or a reference through estácio de sá to the beatific poet who goes with dante on the final cantos of the purgatorio and who watched beatrice and her rebuke, for why was dante thinking about other women just as why had i been seeking sex with other men, when i had one, who had unlike the vita nuova, not been taken away and was not offered up a heart to eat, even there in florianópolis and who like beatrice showed me the infinite grace he would be mortified for me to put in any way in line with god, who as the overstuffed überzeugten say was indeed the only one who could have made a city with such beauty, if you subtract the parts that now we’re flying over and the sickened bay and the tarmac of the landing here at galeão,

§

um campo de milho na frança

para os maias, somos da mesma carne,
apertados dentro de camadas de pele.

fiquei entre as suas fileiras de ouro escondido,
esses dentes do verão, os meus irmãos, senti

os olhos se ajustavam ao sol filtrado pela luz deles
e levantei os meus braços dentro dessa manada

de dançarinos. me perguntei se é assim
que se sente a permanência verdadeira,

enquanto nos inclinávamos e balançávamos nos farrapos
extraviados de um furacão que se apagava deste lado do atlântico.

In a French Maizefield

For the Maya, we are of the same flesh,
wrapped tight within our layers of skin.

I stood between their rows of hidden gold,
those teeth of summer, my brothers, I felt

my eyes adjust to sun filtered through their light
and raised my arms among that clump

of dancers. I wondered if this was what
true permanence would feel like, as we

bent and swayed and leant in the wayward rags
of a hurricane blowing out on this side of the Atlantic.

§

Com as nossas raízes em água

Foi alguma coisa que você jogou na minha bebida?
Tantos anos e agora você me faz isso?
Aquelas gemas líquidas ficaram
na barra, no neon. E agiram rápido:
coquetéis sobre gelo e ausência.
Já se começa o zumbido da dança,
as ruas retas se torcem e fundem.
Os prédios desvanecem, os juncos crescem
e sob os pés sentimos o solo se amolecer,
o solo que você perdeu, onde eu fui perdido.
A sua mão nos conduz pelo pântano
até a margem escura da água. Damos um passo.
Os nossos pés se movem, anelam até as grades.
O metal está frio. Já senti este calor.
Foi ali que respirei os esporos e as sementes
que agora brotam dentro de mim.
Os juncos e o cânhamo se tecem, fazem a corda
que retorce e distende no capim molhado.
Sinto o seu solo escuro na minha boca e no meu cabelo.
Vem, já te encho de vapor e barro.

With Our Roots in Water

Was it something you put in my drink?
So many years, now this from you?
Those liquid gemstones stood
on the neon bar and then worked fast:
mixer over ice and absence.
They begin their buzzing dance,
fuse straight streets back against themselves.
The buildings fade, the reeds grow tall.
Underfoot we feel the softening land
you’ve lost, the land that I was lost in.
Your hand leads us through the marsh
to the water’s dark edge. Here we step.
Our feet move across the concrete to the railings.
The metal’s cold. I’ve felt this heat before.
It was there I breathed the spores
and seeds, that germinate inside me now.
The reeds and hemp weave themselves to rope
twisting and spraining in the wet grass.
I feel your dark earth in my mouth and hair.
Come, I’ll fill you with vapour and clay.

§

A predição negativa

eu não vou mais me irritar com os dados de usuários um março de ativos e em estados do país em um ano antes do jogo contra o câncer na região central da capital paulista e o seu nome é uma coisa que não se trata de um vídeo a seguir os passos principais pontos do projeto que não tem nada a ver com a minha agenda de reformas estruturais do mundo e o que não é um dos maiores desafios e o governo federal em Brasília para participar do programa mais de dois anos depois da morte do dançarino de funk no morro dos prazeres e não é um grande número de pessoas que não tem nada a ver com a mesma pessoa que você não tem como não amar esse tipo de crime passional ou seja urgente a vida é assim mesmo

I am not going to get angry with the users’ data one March of assets and in states of the country one year before the game against cancer in the central region of São Paulo and your name is a thing that is not anything to do with a video to follow the main steps points of the project and doesn’t have anything to do with my agenda of structural reforms for the world and which isn’t one of the greatest challenges and for the federal government in Brasília to take part in the trade more than two years after the death of the go-go boy on the mount of pleasures favela and it isn’t a large number of people and doesn’t have anything to do with the same person that you can’t help but love this type of crime of passion or in other words urgent that’s just what life is like

Padrão
poesia, tradução

Don Juan de Byron, por Lucas Zaparolli de Augustini, pt. 1

Ford Madox Brown, “The Finding of Don Juan by Haidee”, 1878.

O melhor Canto do Don Juan de Byron

à beira do bicentenário de Don Juan

 

Byron considerava este Canto “muito decente”, e também algo dull, “monótono”. Porém até seus desafetos reconheciam ser aqui um dos seus pontos culminantes. O poeta S. T. Coleridge, merecedor de vária sátira na obra byroniana, é quem diz (dias após a morte de Byron, em 1824) ser a “melhor” coisa, isto é, a mais “individual”, da mesma.

O genial Canto III teve inclusive trechos traduzidos para o português por Augusto de Campos e Décio Pignatari. Alfim da tradução aqui apresentada estarão alguns comentários sobre eles, à guisa de posfácio.

O jovem Don Juan, metido num adultério, forçado a viajar (Canto I), vira náufrago, envolve-se em cenas de canibalismo e, único sobrevivente, é achado por Haidée, princesa de uma ilha, que se apaixona por ele (Canto II). O pai de Haidée era um pirata que, sumido há tempos, fora dado por morto (mas tal gente nunca morre). E narra-se no Canto III a volta a casa de Lambro. Sátira da Odisseia.

Entretanto, o principal personagem desse épico satírico é o próprio narrador, e as principais aventuras são da ideia, alusões (cita Shakespeare, Butler etc), tiradas retóricas e humorísticas (sua ex-mulher é a “musa dos paralelogramos”, mãe de Ada Lovelace (madrinha da computação)) e descrições pictóricas. Nas estrofes a seguir o narrador divaga sobre o amor e o casamento com crueza cética, passando à narração da volta de Lambro e à descrição dos costumes gregos, que Byron vivenciara em viagens.

A tradução foi feita na mesma forma estrófica do original, a oitava rima, buscando traduzir a maior parte da carga semântica com efeitos rímicos e enjambements. Pentâmetros iâmbicos foram traduzidos em decassílabos que, às vezes, possuem tônicas em ritmo iâmbico, como no último verso da primeira estrofe, ou na terceira estrofe, entre outras.

Lucas Zaparolli de Augustini

* * *

 CANTO THE THIRD

I.
HAIL, Muse! et cetera.—We left Juan sleeping,
Pillowed upon a fair and happy breast,
And watched by eyes that never yet knew weeping,
And loved by a young heart, too deeply blest
To feel the poison through her spirit creeping,
Or know who rested there, a foe to rest,
Had soiled the current of her sinless years,
And turned her pure heart’s purest blood to tears!

II.
Oh, Love! what is it in this world of ours
Which makes it fatal to be loved? Ah why
With cypress branches hast thou wreathed thy bowers,
And made thy best interpreter a sigh?
As those who dote on odours pluck the flowers,
And place them on their breast—but place to die—
Thus the frail beings we would fondly cherish
Are laid within our bosoms but to perish.

III.
In her first passion Woman loves her lover,
In all the others all she loves is Love,
Which grows a habit she can ne’er get over,
And fits her loosely—like an easy glove,
As you may find, whene’er you like to prove her:
One man alone at first her heart can move;
She then prefers him in the plural number,
Not finding that the additions much encumber.

IV.
I know not if the fault be men’s or theirs;
But one thing’s pretty sure; a woman planted
(Unless at once she plunge for life in prayers)—
After a decent time must be gallanted;
Although, no doubt, her first of love affairs
Is that to which her heart is wholly granted;
Yet there are some, they say, who have had none,
But those who have ne’er end with only one.

V.
‘T is melancholy, and a fearful sign
Of human frailty, folly, also crime,
That Love and Marriage rarely can combine,
Although they both are born in the same clime;
Marriage from Love, like vinegar from wine—
A sad, sour, sober beverage—by Time
Is sharpened from its high celestial flavour
Down to a very homely household savour.

VI.
There’s something of antipathy, as ‘t were,
Between their present and their future state;
A kind of flattery that’s hardly fair
Is used until the truth arrives too late—
Yet what can people do, except despair?
The same things change their names at such a rate;
For instance—Passion in a lover’s glorious,
But in a husband is pronounced uxorious.

VII.
Men grow ashamed of being so very fond;
They sometimes also get a little tired
(But that, of course, is rare), and then despond:
The same things cannot always be admired,
Yet ‘t is “so nominated in the bond,”
That both are tied till one shall have expired.
Sad thought! to lose the spouse that was adorning
Our days, and put one’s servants into mourning.

VIII.
There’s doubtless something in domestic doings
Which forms, in fact, true Love’s antithesis;
Romances paint at full length people’s wooings,
But only give a bust of marriages;
For no one cares for matrimonial cooings,
There’s nothing wrong in a connubial kiss:
Think you, if Laura had been Petrarch’s wife,
He would have written sonnets all his life?

IX.
All tragedies are finished by a death,
All comedies are ended by a marriage;
The future states of both are left to faith,
For authors fear description might disparage
The worlds to come of both, or fall beneath,
And then both worlds would punish their miscarriage;
So leaving each their priest and prayer-book ready,
They say no more of Death or of the Lady.

X.
The only two that in my recollection,
Have sung of Heaven and Hell, or marriage, are
Dante and Milton, and of both the affection
Was hapless in their nuptials, for some bar
Of fault or temper ruined the connection
(Such things, in fact, it don’t ask much to mar);
But Dante’s Beatrice and Milton’s Eve
Were not drawn from their spouses, you conceive.

XI.
Some persons say that Dante meant Theology
By Beatrice, and not a mistress — I,
Although my opinion may require apology,
Deem this a commentator’s phantasy,
Unless indeed it was from his own knowledge he
Decided thus, and showed good reason why;
I think that Dante’s more abstruse ecstatics
Meant to personify the Mathematics.

XII.
Haidée and Juan were not married, but
The fault was theirs, not mine: it is not fair,
Chaste reader, then, in any way to put
The blame on me, unless you wish they were;
Then if you’d have them wedded, please to shut
The book which treats of this erroneous pair,
Before the consequences grow too awful;
‘T is dangerous to read of loves unlawful.

XIII.
Yet they were happy,—happy in the illicit
Indulgence of their innocent desires;
But more imprudent grown with every visit,
Haidée forgot the island was her Sire’s;
When we have what we like ‘t is hard to miss it,
At least in the beginning, ere one tires;
Thus she came often, not a moment losing,
Whilst her piratical papa was cruising.

XIV.
Let not his mode of raising cash seem strange,
Although he fleeced the flags of every nation,
For into a Prime Minister but change
His title, and ‘t is nothing but taxation;
But he, more modest, took an humbler range
Of Life, and in an honester vocation
Pursued o’er the high seas his watery journey,
And merely practised as a sea-attorney.

XV.
The good old gentleman had been detained
By winds and waves, and some important captures;
And, in the hope of more, at sea remained,
Although a squall or two had damped his raptures,
By swamping one of the prizes; he had chained
His prisoners, dividing them like chapters
In numbered lots; they all had cuffs and collars,
And averaged each from ten to a hundred dollars.

XVI.
Some he disposed of off Cape Matapan,
Among his friends the Mainots; some he sold
To his Tunis correspondents, save one man
Tossed overboard unsaleable (being old);
The rest—save here and there some richer one,
Reserved for future ransom—in the hold,
Were linked alike, as, for the common people, he
Had a large order from the Dey of Tripoli.

XVII.
The merchandise was served in the same way,
Pieced out for different marts in the Levant,
Except some certain portions of the prey,
Light classic articles of female want,
French stuffs, lace, tweezers, toothpicks, teapot, tray,
Guitars and castanets from Alicant,
All which selected from the spoil he gathers,
Robbed for his daughter by the best of fathers.

XVIII.
A monkey, a Dutch mastiff, a mackaw,
Two parrots, with a Persian cat and kittens,
He chose from several animals he saw —
A terrier, too, which once had been a Briton’s,
Who dying on the coast of Ithaca,
The peasants gave the poor dumb thing a pittance:
These to secure in this strong blowing weather,
He caged in one huge hamper altogether.

XIX.
Then, having settled his marine affairs,
Despatching single cruisers here and there,
His vessel having need of some repairs,
He shaped his course to where his daughter fair
Continued still her hospitable cares;
But that part of the coast being shoal and bare,
And rough with reefs which ran out many a mile,
His port lay on the other side o’ the isle.

XX.
And there he went ashore without delay,
Having no custom-house nor quarantine
To ask him awkward questions on the way,
About the time and place where he had been:
He left his ship to be hove down next day,
With orders to the people to careen;
So that all hands were busy beyond measure,
In getting out goods, ballast, guns, and treasure.

XXI.
Arriving at the summit of a hill
Which overlooked the white walls of his home,
He stopped.—What singular emotions fill
Their bosoms who have been induced to roam!
With fluttering doubts if all be well or ill—
With love for many, and with fears for some;
All feelings which o’erleap the years long lost,
And bring our hearts back to their starting-post.

XXII.
The approach of home to husbands and to sires,
After long travelling by land or water,
Most naturally some small doubt inspires —
A female family’s a serious matter,
(None trusts the sex more, or so much admires —
But they hate flattery, so I never flatter);
Wives in their husbands’ absences grow subtler,
And daughters sometimes run off with the butler.

XXIII.
An honest gentleman at his return
May not have the good fortune of Ulysses;
Not all lone matrons for their husbands mourn,
Or show the same dislike to suitors’ kisses;
The odds are that he finds a handsome urn
To his memory—and two or three young misses
Born to some friend, who holds his wife and riches—
And that his Argus—bites him by the breeches.

XXIV.
If single, probably his plighted Fair
Has in his absence wedded some rich miser;
But all the better, for the happy pair
May quarrel, and, the lady growing wiser,
He may resume his amatory care
As cavalier servente, or despise her;
And that his sorrow may not be a dumb one,
Writes odes on the Inconstancy of Woman.

XXV.
And oh! ye gentlemen who have already
Some chaste liaison of the kind—I mean
An honest friendship with a married lady—
The only thing of this sort ever seen
To last—of all connections the most steady,
And the true Hymen, (the first’s but a screen)—
Yet, for all that, keep not too long away—
I’ve known the absent wronged four times a day.

XXVI.
Lambro, our sea-solicitor, who had
Much less experience of dry land than Ocean,
On seeing his own chimney-smoke, felt glad;
But not knowing metaphysics, had no notion
Of the true reason of his not being sad,
Or that of any other strong emotion;
He loved his child, and would have wept the loss of her,
But knew the cause no more than a philosopher.

XXVII.
He saw his white walls shining in the sun,
His garden trees all shadowy and green;
He heard his rivulet’s light bubbling run,
The distant dog-bark; and perceived between
The umbrage of the wood, so cool and dun,
The moving figures, and the sparkling sheen
Of arms (in the East all arm)—and various dyes
Of coloured garbs, as bright as butterflies.

XXVIII.
And as the spot where they appear he nears,
Surprised at these unwonted signs of idling,
He hears—alas! no music of the spheres,
But an unhallowed, earthly sound of fiddling!
A melody which made him doubt his ears,
The cause being past his guessing or unriddling;
A pipe, too, and a drum, and shortly after—
A most unoriental roar of laughter.

XXIX.
And still more nearly to the place advancing,
Descending rather quickly the declivity,
Through the waved branches o’er the greensward glancing,
‘Midst other indications of festivity,
Seeing a troop of his domestics dancing
Like Dervises, who turn as on a pivot, he
Perceived it was the Pyrrhic dance so martial,
To which the Levantines are very partial.

XXX.
And further on a troop of Grecian girls,
The first and tallest her white kerchief waving,
Were strung together like a row of pearls,
Linked hand in hand, and dancing; each too having
Down her white neck long floating auburn curls—
(The least of which would set ten poets raving);
Their leader sang—and bounded to her song
With choral step and voice the virgin throng.

XXXI.
And here, assembled cross-legged round their trays,
Small social parties just begun to dine;
Pilaus and meats of all sorts met the gaze,
And flasks of Samian and of Chian wine,
And sherbet cooling in the porous vase;
Above them their dessert grew on its vine;—
The orange and pomegranate nodding o’er,
Dropped in their laps, scarce plucked, their mellow store.

XXXII.
A band of children, round a snow-white ram,
There wreathe his venerable horns with flowers;
While peaceful as if still an unweaned lamb,
The patriarch of the flock all gently cowers
His sober head, majestically tame,
Or eats from out the palm, or playful lowers
His brow, as if in act to butt, and then
Yielding to their small hands, draws back again.

XXXIII.
Their classical profiles, and glittering dresses,
Their large black eyes, and soft seraphic cheeks,
Crimson as cleft pomegranates, their long tresses,
The gesture which enchants, the eye that speaks,
The innocence which happy childhood blesses,
Made quite a picture of these little Greeks;
So that the philosophical beholder
Sighed for their sakes—that they should e’er grow older.

XXXIV.
Afar, a dwarf buffoon stood telling tales
To a sedate grey circle of old smokers,
Of secret treasures found in hidden vales,
Of wonderful replies from Arab jokers,
Of charms to make good gold and cure bad ails,
Of rocks bewitched that open to the knockers,
Of magic ladies who, by one sole act,
Transformed their lords to beasts (but that’s a fact).

XXXV.
Here was no lack of innocent diversion
For the imagination or the senses,
Song, dance, wine, music, stories from the Persian,
All pretty pastimes in which no offence is;
But Lambro saw all these things with aversion,
Perceiving in his absence such expenses,
Dreading that climax of all human ills,
The inflammation of his weekly bills.

XXXVI.
Ah! what is man? what perils still environ
The happiest mortals even after dinner!
A day of gold from out an age of iron
Is all that Life allows the luckiest sinner;
Pleasure (whene’er she sings, at least) ‘s a Siren,
That lures, to flay alive, the young beginner;
Lambro’s reception at his people’s banquet
Was such as fire accords to a wet blanket.

CANTO III

I.
Fala, Musa! et cetera. – Juan ficou
No aconchego de um seio belo e feliz,
Visto por olho que jamais chorou,
No amor de um jovem coração, na raiz
Mui santo pra ver vir veneno esguio, ou
Ver que o que odeia a paz lá dorme, quem quis
Ao flux dos puros anos seus pôr mancha,
Pôr pranto em puro sangue de alma mansa.

II.
Oh, Amor! o que há em nosso mundo que toca
E faz fatal ser amado? Ah com cipreste
Em ramos tu revestes tuas tocas,
Fazes do suspiro o melhor intérprete?
Igual quem ama o odor colhe a flor, coloca-a
Em seu peito – só pra que morra – deste
Modo um frágil ser a quem temos carinho
Entra a perecer em nosso peito mesquinho.

III.
Só seu primeiro amado ama-o a Mulher,
Nos outros ela passa a amar o Amor,
Aí é hábito que não pode desprender,
E que cai bem – luva fácil de pôr,
Se pode provar sempre que quiser:
Primeiro o peito a um homem só a dispor;
Depois do que ela gosta é do plural,
Que uma adição enorme não faz mal.

IV.
Não sei se é culpa do homem ou dela é;
Mas bem certo é; uma mulher deixada
(A menos que afunde a vida na fé) –
Após um tempo deve ser cortejada;
Embora, óbvio, o primeiro dos affairs
O peito inteiro ocupe e aí entra mais nada;
Que haja, diz-se, a que não teve nenhum,
Mas a que teve nunca teve só um.

V.
É melancolia, e algo medroso bem
Da fraqueza humana, tolice, e crime,
Que Amor e Casamento não se deem,
Embora ambos nasçam no mesmo clima; e
Casamento, do Amor, vinagre do vinho vem –
Sóbrio, ácido, ruim – o Tempo oprime-
-O do mais alto aroma no céu posto,
A um sabor familiar, simples, sem gosto.

VI.
Há a antipatia, não sei se isto é sincero,
Entre o presente e o futuro estatuto;
Usa-se elogio não tão verdadeiro
Até vir a verdade tarde e muito –
E o que a gente faz, senão desespera? O
Mesmo muda o seu nome em um minuto;
Por exemplo – Paixão no amante é gloriosa,
No marido é comer na mão da esposa.

VII.
Tem vergonha o homem de ser muito quisto; e
Às vezes fica um pouco aborrecido
(Mas isto, claro, é raro), e fica triste:
Jamais se é sempre à mesma coisa atraído,
Mas é “em nome da fiança que existe”
Que dois se unem até que haja um morrido.
Triste ideia! perder o par que faz linda
A vida, e pôr os criados de luto ainda.

VIII.
No doméstico há algo que se afeiçoa,
De fato, à antítese do Amor real;
Romances tratam casos de pessoas,
Só dão de casamentos bustos; mal
Liga alguém pra arrulho de casório, há
Nada errado num beijo conjugal:
Se fosse a esposa de Petrarca Laura,
Faria sonetos toda a vida para?

IX.
Toda tragédia com morte termina,
E finda toda comédia em casório;
O porvir do par fica à própria sina,
Pois os autores temem ser simplórios
Com o mundo do par, ou a que se inclina,
E é este mundo que pune seus imbróglios;
Deixando-o ao padre e ao pronto livro de ora-
Ções, nada dizem da Morte ou a Senhora .

X.
Que eu lembre, apenas dois possuem canção
Ao Céu e ao Inferno, ou casamento: Dante
E Milton, ambos com péssima afeição
Às núpcias, pois erro ou algo conflitante
No temperamento arruinou a união
(O que, de fato, não requer bastante);
Mas a Beatriz de Dante e a Eva de Milton
Não são inspiradas na esposa, admito.

XI.
Dizem que Dante via a Teologia
Em Beatriz, não uma amante – eu, conquanto
Julguem que faço alguma apologia,
Vejo um comentador num sonho e tanto,
A menos que só a sua sabedoria
Decidiu, e comprovou então; no entanto,
Eu acho que a dantesca abstração extática
É a personificação da Matemática.

XII.
Haidée e Juan não se casaram, porém
Azar o deles, não o meu: não é doce,
Casto leitor, então, culpa pôr em
Mim, a menos que queira que eles fossem;
Se casado os queria, por favor, tem
Que fechar o livro do par no erro, se-
Não o efeito terrível será explícito;
É perigoso ler de amor ilícito.

XIII.
E eram felizes, – na indulgência dita
Proibida do inocente desejo, uai;
Mais imprudente vai cada visita,
Haidée esquece que a ilha é de seu Pai;
Perder o que se gosta é coisa aflita,
Ao menos de início, até que um canse; sai
Sempre Haidée assim, toda chance usa,
Enquanto o pai pirata os mares cruza.

XIV.
É estranha forma de ganhar um cash, a
Roubar bandeira de qualquer nação;
De primeiro-ministro só não se acha
O título, além, sim, da tributação;
Mas ele, mais modesto, humilde faixa
Da Vida toma, e a honesta vocação
Segue em alto-mar seu aquoso caminho,
Algo como um advogado-marinho.

XV.
O bom senhor havia sido pego
Por onda, vento, e presa que mui val’;
E, esperançoso a mais, quedou no pego,
Minando o ânimo um ou outro temporal,
Pondo a pique uma presa; ele, não nego,
Seus presos acorrenta em lote igual,
Numerados; com correntes, colares,
Cada um em média de dez a cem dólares.

XVI.
No cabo Matapão dispôs uns para
Seus amigos maniotas; uns vendeu
Ao correspondente de Túnis, só um cara
Lançou-se ao mar sem venda (era um velho); e o
Resto – um ou outro mais rico, reservara-
-Se a posterior resgate – se prendeu
Junto no porão; aos de comum tipo, ali,
Havia grande demanda ao Dei de Trípoli.

XVII.
O material foi servido igual, pelas
Mais diferentes vendas do Levante,
Salvo porções da presa, que são elas
Clássico artigo de mulher, bastante
Coisa da França, pinças, laços, tigelas,
Guitarras, castanholas de Alicante,
Tudo escolhido que do espólio vai
Roubado à filha pelo melhor pai.

XVIII.
Um macaco, um mastim da Holanda, a arara,
Dois papagaios, e um gato persa e a cria,
Ele escolheu dos animais que olhara –
Um terrier, também, de um Bretão que havia
Morrido em Ítaca, e que ele comprara
Dos camponeses por mor ninharia:
Pra prendê-los no temporal que expande,
Pôs tudo junto num balaio grande.

XIX.
Daí, tendo acertado o assunto marinho,
Despachou barcos de ida e de vinda,
Seu navio carecendo algum alinho,
Mudou seu curso pra onde a filha linda
Segue em seu hospitaleiro carinho;
Mas na parte da praia aberta, e rasa ainda,
Áspera em recife por muitas milhas,
A porta de casa é do outro lado da ilha.

XX.
Ele desembarcou ali depressa,
Alfândega não tendo, ou quarentena
Pra que com questões chatas lhe aborreça,
O modo, o tempo, o lugar que esteve: e na
Manhã já deixou de ponta cabeça
Sua nau, com ordens de fazer querena;
Assim ocupadas mãos pra além da conta,
Daí tesouro, armas, lastro e bens desmontam.

XXI.
Quando chegou ao cume da montanha
Vendo as paredes brancas de seu lar,
Parou. – Cheio de uma emoção estranha
Seu coração forçado a viajar!
Está bem, mal está, a dúvida o assanha –
Por muitos amor, por outros recear;
Sentimentos que esquecem a vida ida,
E trazem o peito ao ponto de partida.

XXII.
Volta à casa a esposo ou pai que partira,
Depois de viagem longa em terra ou mar,
Alguma dúvida de certo inspira –
Mulher da família há que preocupar,
(Ninguém confia mais no sexo, ou o admira –
E odeiam bajular, não vou bajular);
Sem o esposo a esposa é mais sutil, como
Filhas que às vezes fogem com mordomo.

XXIII.
Nem sempre homem bom tem a boa fortuna
Que Ulisses na volta a casa sua usa;
Nem toda viúva fica soturna,
Ou beijo de pretendente recusa;
As chances são que encontre uma bela urna
À sua memória – e duas, três filhas aí inclusas
Do amigo, que está com esposa e fundos –
E que seu Argos – morda-lhe os fundos.

XXIV.
Se solteiro, sua Linda já achará
Casada em sua ausência com rico avaro;
O bom é que a feliz dupla poderá
Brigar, ela, com talento e preparo,
Ele o caso de amor terminará
Qual cavalier servente , ou a desprezá-la; o
Seu pesar feito idiota assim não pode, e
Aí à Inconstância Feminina fará odes.

XXV.
E oh! vós senhores que já possuis desta
Casta liaison – que é, com moça bela
Casada uma amizade mui honesta –
Das coisas assim nada existe entre elas
Mais firme – único vínculo que presta,
Real Himeneu (o primeiro é só tela) –
É, então, não fique muito fora – que
Tem ausente a errar quatro ao dia, tem, vi.

XXVI.
Lambro, nosso advogado-marinho, tem
Mais prática no Oceano que no chão,
Viu o fogo da lareira e ficou bem;
Não tinha metafísica, ou noção
Da razão de não ser triste também,
Ou de qualquer outra forte emoção;
Ama a filha, sua perda choraria,
E igual filósofo a causa não sabia.

XXVII.
Via seus brancos portais ao sol brilhando,
As árvores no jardim, umbrosas, verdes;
Ouvia seu suave riacho borbulhando,
Um cão latindo ao longe; já por ver de
Entre o escuro bosque, frio, marrom, lá andando
Umas figuras, faíscas ao mover de
Armas (no Oriente tudo é arma) – e as mil cores
Das vestes, com da borboleta os fulgores.

XXVIII.
Quando mais próximo ao local viera,
E indício de ócio tal surpreso viu,
Ouviu – ah! não música das esferas ,
Mas mundano som de violão vadio!
Melodia que a audição descrer fizera,
E a causa já além do acho e do alvedrio;
E uma flauta, e um tambor também, daí soa –
O riso menos oriental e ecoa.

XXIX.
Aí pra mais perto do lugar avança,
Descendo lesto um inclinado trecho,
Olhando através da erva que balança,
Entre outros sinais de festa, perplexo,
Vê um bando dos de casa que ali dançam
Como Dervixes, girando em seu eixo,
Mas era a dança pírrica , marcial,
A qual o Levantino é bem parcial.

XXX.
E adiante um grupo de mocinhas gregas,
A mais alta à frente agita o alvo lenço,
Como colar de pérolas se agregam,
Mão com mão, dançam; fulvos cachos pensos
Que por alvos pescoços escorregam –
(Uma só poria dez poetas sem senso);
A líder canta – e o pé e a voz dirigem
Junto o coro daquele bando virgem.

XXXI.
Cá, de perna cruzada em volta aos potes,
Outro estrato social passa a jantar;
Pilaus e carnes veem-se a toda sorte,
Frascos de vinho Sâmio e Quio, e a gelar
O sorvete em poroso vaso; note
Que em cima cresce a vinha no pomar; –
A laranja e a romã que pendem sobre,
Ao toque, e com dulçor, seus colos cobrem.

XXXII.
Em torno a um carneiro branco como a neve,
Crianças trazem flores para pôr nos
Chifres; qual cordeiro que inda mamar deve,
O patriarca da lã, calmo, os seus cornos
Baixa esplendidamente manso, e esteve
A comer de uma palma, e ora desce o adorno
Da fronte em galhofeiro ataque, aí,
Rendendo-se às mãozinhas, volta a si.

XXXIII.
E o perfil clássico, a veste que luz lança,
O grande olho escuro, sua angélica cútis,
Aberta romã rubra, e as longas tranças,
Gesto que encanta, e o olhar que repercute,
E a inocência que benze a alegre infância,
Destes greguinhos um retrato incute;
Pra que o observador filósofo ao vê-los
Suspire por eles – em breve velhos.

XXXIV.
Longe, um bufo anão causos narrava-lhes,
Aos velhos sedados ao redor fumantes,
De ocultos bens em escondidos vales,
De palhaços da Arábia em shows brilhantes,
De como fazer ouro e curar males,
De quem bate e abre pedras com encanto, e
De moças magas que, com um só ato,
Fazem de esposos bestas (isto é fato).

XXXV.
Lá havia inocentes diversões diversas
Pra imaginação e sentidos, música,
Canto, dança, vinho, histórias persas,
Passatempos de forma alegre e justa;
Mas tais coisas a Lambro eram avessas,
Da sua ausência já vira o quanto custa,
Receando que o ápice da ruína humana
Seja a inflação nas contas da semana.

XXXVI.
Ah! que é o homem? que perigo permeia
Os mais felizes já após que a janta aprovem!
Um dia de ouro na idade do ferro, eis aí
Tudo que a Vida ao pecador ditoso move;
Prazer (o que quer que cante) é Sereia,
Que atrai, pra esfolar vivo, o ingênuo jovem;
Ao banquete da gente Lambro logo
Foi cobertor molhado sobre o fogo.

(Continua)

§

Posfácio

Trechos deste Canto foram traduzidos por João Vieira, em prosa; por Décio Pignatari e mais recentemente por Augusto de Campos (2009).

Os concretos traduziram (Campos diz “tecnomediunizou”) os pêntametros byronianos em decassílabos. A forma estrófica foi mantida praticamente idêntica.

Pignatari traduziu cerca de cinco trechos, e somente duas estrofes completas. Da segunda estrofe traduziu apenas quatro versos, alterando a disposição das rimas, usando dessas em or e ar, e acolhendo, de certo modo, só o epigrama que a oitava continha:

Amantes de perfumes colhem flores
E abrigam-nas no seio (mau lugar).
Assim pomos no peito alguns amores
– E este é o lugar mais tumular.
(Pignatari, 2007, p. 198).

Campos traduziu duas estrofes completas das quase cem do Canto III. A primeira e a última. Na primeira o make it new poundiano, isto é, a tecnomediunização, foi ousada, vertendo gerúndio por gerúndio:

Ó Musa, et cetera. Deixei dormindo
Juan no seio do mais suave leito
Sob um olhar que só viveu sorrindo,
E amado por alguém tão sem defeito
Que não sabe o veneno que vem vindo
Para tomar-lhe a alma. No seu peito
Ela pusera um malfeitor, enquanto
Seu coração ia do sangue ao pranto.
(Campos, 2009, p. 47).

§

Bibliografia

AGUSTINI, Lucas de Lacerda Zaparolli de. Don Juan de Lord Byron: estudo descritivo das traduções, tradução, comentários e notas. 2015. Dissertação (Mestrado em Estudos da Tradução) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015. Disponível em: <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8160/tde-01032016-161149/&gt;. Acesso em: 2017-03-01.

BYRON, George Gordon. Don Juan. Edited by T. G. Steffan, E. Steffan e W. W. Pratt. England: Penguin Classics, 1996.

CAMPOS, Augusto de. Entreversos – Byron e Keats. São Paulo: Editora Unicamp, 2009.

PIGNATARI, Décio. 31 Poetas 214 Poemas – Do Rigveda e Safo a Apollinaire. São Paulo: Ed. Unicamp, 2007.

* * *

Lucas Zaparolli de Agustini é bacharel em latim e pós-graduando em Tradução (USP). Seu primeiro livro de poemas, Pelo Andar do Dia, está engatilhado. Canto no Pântano está por vir… Publicou independentemente as Obras Completas de Delmira Agustini.

Padrão
tradução

3 traduções pro ‘The Raven’ do Poe

crows_by_unlobogris1

Mesmo que Edgar Allan Poe de fato seja, ao menos para um leitor de língua portuguesa, mais contista do que poeta, ainda assim é difícil que seu corvo não tenha alguma vez esvoaçado para dentro dos aposentos de leitores mais entusiastas e encontrado ali um local no mínimo propício à influência de seus feitiços. E nem me refiro especificamente ao poema original: seja em tradução, todo o lirismo exaltado desse romantismo tenebroso que flerta com o fantástico ainda é motivo de atração comum. Se não isso, ao menos a peculiaridade formal do poema é reconhecida pelos menos afetados. Um pouco além, existe ainda a questão das inúmeras referências ao poema na cultura popular: na literatura, por exemplo, com Neil Gaiman (American Gods, Sandman), Lemony Snicket (pseudônimo de Daniel Handler, em A Series of Unfortunate Events, The Vile Village), Stephen King (Insomnia); no cinema, em The Crow (1994), Batman (1989, de Tim Burton), numa breve citação pelo Coringa de Jack Nicholson (“take thy beak from out my heart!”); na televisão, com a série The Following (2013-2015), ou a paródia em The Simpsons; na música, com Lou Reed e seu álbum The Raven; etc. etc. O poema ainda é rentável para estampas de camisetas e canecas, e não me surpreenderia se “the raven” estivesse no cardápio de alguma hamburgueria temática. Seja dito que sim, Poe é pop, e seu corvo não menos. Das variadas traduções para o português, duas são as mais conhecidas: a de Machado de Assis e a de Fernando Pessoa. A primeira apresenta uma composição que não segue a estrutura original: os versos são quebrados e dispostos de maneira nova, variando entre oito, dez e doze sílabas, com ritmo diverso e rimas reorganizadas (esquema AABBCCDEDE). Essa bela tradução de Machado de Assis seria fruto indireto da versão francesa de Baudelaire. Fernando Pessoa, por sua vez, apresenta uma tradução com o mesmo número de versos e estrofes do poema original, e parece ainda ter a intenção de preservar os componentes rítmicos. Também na disposição das rimas se mantém fiel – ou seja, incluídas as rimas internas, reproduz o esquema AA, B, CC, CB, B, B. Um pouco à parte, é interessante notar que enquanto Machado de Assis traduz Lenore por “Lenora”, a versão de Pessoa em nenhum momento dá nome à amada perdida, já que se presta a preservar o padrão do esquema com suas rimas em ais (isso, obviamente, considerando que “nunca mais” fosse a única solução cabível para nevermore em sua proposta de tradução). Finalmente, no que refere à minha própria tradução, admito que se trata de um quase servilismo velado no encanto, ou vice-versa. De todo modo, minha proposta se assemelha à de Pessoa: tentei reproduzir também a forma do original, atentando não somente para a disposição das rimas (o esquema foi mencionado acima) como também para a estrutura rítmica dos versos (com o perdão do pedantismo, octâmetros acataléticos, heptâmetros cataléticos e tetrâmetros cataléticos combinados em ritmo trocaico, ou seja, sílaba forte seguida de fraca – tudo isso como bem especifica o próprio Poe em sua Filosofia da composição). Acresce a preocupação em preservar, pela proximidade de efeitos, imagens e referentes que não necessariamente se dão da mesma forma na versão de Pessoa, assim como ritmo e dicção mais fluentes. A ideia geral é suscitar no leitor uma sensação mais próxima ao feitiço original. Algumas questiúnculas para finalizar: não me preocupei com a oscilação na cesura de uns poucos versos, resultante de um heptâmetro catalético traduzido no lugar de um octâmetro acatalético. A segunda estrofe é um exemplo disso, com as rimas em -er. Também nas duas primeiras estrofes chamo atenção para as rimas praticamente iguais às da tradução de Milton Amado – recomendo-a, inclusive, como a minha preferida –, o que vai acabar num verso inteiro emprestado (“nome aqui já não tem mais”). Talvez tenha sido o martelar da versão de Milton em minha cabeça que me levou a entender isso como melhor solução para minha proposta. Por fim dos fins, convencido da significância de rimar Lenore com nevermore, optei por traduzir o nome da amada como nada menos que “Lenais”. Estou certo de que a ideia não é minha, mas totalmente incerto de sua fonte. As pesquisas me direcionam a uma tradução de Odair Cerazzo Jr., que me era de todo desconhecida até pouco tempo.

bruno palavro

* * *

 

ante-scriptum: como o poema é longo (e famoso) e 3 traduções + o original dariam muito trabalho pra barra de rolagem dos vossos computadores, quem quiser conferir o original clique aqui. passemos direto às traduções. ah, pra quem perdeu e quiser conferir a tradução-exu feita por guilherme gontijo flores e rodrigo gonçalves, clique aqui.

* * *

 

O CORVO

Era noite alta e sombria, fraco e farto eu refletia
Sobre muitos e curiosos esquecidos manuais.
Cabeceando, adormecido, escuto um súbito ruído
Como algum gentil batido, um batido em meus umbrais.
“É visita”, murmurei, “que está batendo em meus umbrais:
É só isso e nada mais”.

Ah, distintamente lembro, foi no gélido dezembro,
Cada flama já morrendo criava sombras fantasmais.
Desejava o amanhecer – tentara em vão nos livros ter
Um amparo e não sofrer, sofrer com a perda de Lenais –
A radiante e rara moça que anjos chamam de Lenais –
Nome aqui já não tem mais.

E o sedoso, triste, incerto rubro véu soando perto
Me abalava com fantásticos terrores sem iguais;
Já meu peito reprimindo fui tão logo repetindo:
“É visita me pedindo entrada aqui nos meus umbrais –
Vem tardia, me pedindo entrada aqui nos meus umbrais –
É só isso e nada mais”.

Forte a alma num instante, e eu então não hesitante,
“Senhor”, disse, “ou madame, penso se me perdoais;
Estava quase adormecido e tão gentil foi o ruído,
Foi tão débil o batido que batia em meus umbrais,
Que mal pude vos ouvir…” – então abri os meus umbrais –
Só o escuro e nada mais.

Fundo as trevas espreitando, lá fiquei desconfiando,
Dúbio em sonhos que mortal nenhum ousou sonhar jamais;
O silêncio era infinito – no sossego incompreendido
Só um vocábulo foi dito, um sussurro assim: “Lenais?”
Isso eu disse, e algum eco murmurou assim: “Lenais!” –
Isso apenas, nada mais.

Ao meu quarto regressando, toda a alma em mim queimando,
Novamente eu ouço tapas ressoarem inda mais.
“Certo”, eu disse, “essa mazela é qualquer coisa na janela;
Resta ver o que tem nela, no mistério dos sinais –
Que meu coração se aquiete, que eu explore estes sinais –
É só o vento e nada mais!”

Tendo aberto já a vidraça, turbulento me esvoaça
E entra ali um nobre corvo de eras santas e ancestrais;
Cumprimentos não prestou, nem um minuto ali ficou:
Com ar de lorde ou lady voou até pousar nos meus umbrais –
Sobre um busto, no de Palas, logo acima dos umbrais –
Lá pousou e nada mais.

A ave de ébano deteve meu pesar num riso leve
Com o decoro grave e austero de seus ares tão formais.
“Sem penacho volumoso, mesmo assim não és medroso,
Corvo ancião e pavoroso vindo lá do escuro cais –
Diz qual é teu nome lá nas trevas do plutôneo cais!”
Disse o corvo: “Nunca mais”.

Admirei que a ave rara discursasse assim tão clara,
Salvo a pouca relevância das palavras, bem banais;
Mas que seja mencionado: não há humano agraciado
Que antes tenha contemplado alguma ave em seus umbrais –
Ave ou besta no esculpido busto sobre seus umbrais –
Com tal nome, Nuncamais.

Mas o corvo, solitário, não variou o vocabulário,
Como se sua própria alma derramasse em termos tais.
Nada mais ele falou, nem uma pena farfalhou;
Mas minha alma murmurou: “Perdi amigos tempo atrás –
De manhã me deixará como a esperança um tempo atrás”.
E a ave disse: “Nunca mais”.

Pasmo com a mudez quebrada na resposta assim falada,
“Certo”, eu disse, “o que profere são só falas usuais
Que pegou de um mestre aflito, por desastre desmedido
E imparável perseguido até um refrão marcado em ais –
‘Té canções sem esperança, melancólicas com ais
De ‘nunca – nunca mais’”.

A ave ainda assim deteve meu pesar num riso leve:
Ajustei minha poltrona frente ao corvo, busto e umbrais.
No veludo então sentando me peguei associando
Devaneios e pensando na ave de eras ancestrais –
No motivo da ominosa, horrenda ave de ancestrais
Crocitar seu “Nunca mais”.

Isso eu quis adivinhar, sem uma sílaba expressar
À ave de olhos que queimavam meus alentos mais fulcrais;
Estive assim ensimesmado com o crânio reclinado
No recosto aveludado sob a luz dos castiçais,
No veludo violeta sob a luz dos castiçais –
Leito dela ah, nunca mais!

O ar então ficou mais denso, num perfume como incenso
Solto pelos serafins com suas passadas musicais.
“Infeliz,” gritei, “Deus deu-te – pelos anjos concedeu-te
Trégua – trégua e o nepente pras memórias de Lenais;
Bebe, bebe o bom nepente e esquece a perda de Lenais!”
Disse o corvo: “Nunca mais”.

“Ó profeta, ser malvado – és profeta, se ave ou diabo! –
Pelo Tentador trazido ou pelos rudes temporais;
Desolado mas ousado neste deserto encantado –
Lar de horrores, assombrado – imploro: franco, fala mais –
Há bálsamo em Gileade? – diz, imploro, fala mais!”
Disse o corvo: “Nunca mais”.

“Ó profeta, ser malvado – és profeta, se ave ou diabo!
Pelo Deus que nós louvamos – pelos arcos celestiais –
Assegura essa alma insossa caso lá no Éden possa
Abraçar a santa moça que anjos chamam de Lenais –
A radiante e rara moça que anjos chamam de Lenais”.
Disse o corvo: “Nunca mais”.

“Tal resposta nos desuna, ave ou diabo!”, grito, em suma –
“Vai de volta à tempestade e às trevas do plutôneo cais!
Que nenhuma pluma ateste tais mentiras que disseste!
Vai, que a solidão me reste! – sai do busto nos umbrais!
Tira o bico da minha alma e tua figura dos umbrais!”
Disse o corvo: “Nunca mais”.

E esse corvo está parado, lá sentado, lá sentado,
No alvo busto, no de Palas, logo sobre meus umbrais;
Com seus olhos figurando os de um demônio assim sonhando
Sob a luz que, tremulando, lança sombras sepulcrais;
E minha alma dessas sombras que flutuam sepulcrais
Há de erguer-se – nunca mais!

(tradução de Bruno Palavro)

§

 

O CORVO

Numa noite assim tão prava, quando, fraco, a mim cansava
Cum tratado mui singelo dum folclore além do inglês
Quando, ao ir e vir, na noite, veio aqui do nada o açoite
Feito alguém que em meu pernoite bate à porta e sem rudez
“É visita”, falei baixo, “cá na porta e sem rudez
É visita e sem porquês”

Ah, e assim a mim consterno vendo estou no pleno inverno
Toda vã poeira morta finca o pé em mim qual fez
Tal querer que enfim viesse tal manhã, e a sua messe
Qual nos livros eu fizesse meu reduto dessa Inês
Pois a rara e lhana moça dita pelo céu Inês.
Tem que nome aqui, que vez?

E esse lento, e triste, e incerto, negro desse véu aberto
Pelo vento que a mim toma qual de mim ninguém o fez
Tal que, a seu calor manter-me, faço atrito à velha derme
“É visita que a mim quer-me vir pra dentro e sem rudez
Vem-me tarde como os vermes vêm à porta e sem rudez
É não mais e sem porquês”

Pois então cresci mais firme, como a moça fosse vir-me
“Moça ou moço, eu peço logo, por favor, conte até três
Pois você na meia-noite foi não mais que aquele açoite
Foi não mais que o seu açoite no meu sono e sem rudez
Que eu, inferno, achei ouvi-la”, te abro a porta, e com rudez
Só o escuro teve vez

E há, com tal dama-da-noite, quem não ceda ou, bem, se afoite
Nesse sonho tão confuso que ninguém jamais o fez?
Meu silêncio não tocado, sem indícios de um passado
Que esse verbo mal chorado, tão sozinho, o nome “Inês?”
Que eu chorei, e o tal vazio deu de volta assim “Inês!”
Só teu nome teve vez

Já no quarto, revirou-se minha mente e assim pensou-se
Quando ouvi sem mais demora, o mais sonoro que se fez
“Deve ser”, me disse, “deve, coisa à qual, pois, vejo breve
Na janela a quem se atreve, tal mistério, aqui nos eis
Deixa o peito dar mornada , pra, ao mistério, aqui nos eis
Só o vento vai ter vez!”

Cá aberto dou pra trás, quando, sem porquês ou mas
Lá pairava então um Corvo de idos dias, anos, mês
Sem fazer nenhuma sala, nada o para ou mesmo abala
Com tal ar de quem tem ala, vem pra dentro e sem rudez
Olha pela imagem Dela, sobre a porta e “sem” rudez
Olha e senta e sem porquês.

E a ave sem mais cor ficou-se; cada ruga, então, bem foi-se,
Ri-me dessa compostura, tal decoro em tão chã tez
“Mesmo sem a pena, o pejo, tu bem foste qual almejo
Corvo velho a que ora alvejo: diz a estirpe e sem mudez
Vens da noite, é claro, diz-me, pois, o nome e sem mudez”
Disse o Corvo “Foi-se a vez”

Tanto pasmo então me veio, vendo um bicho achando um meio
De uma fala e sem enleio, mesmo à guisa de um burguês
Como? Sem sentido. Pôs-se, nisso, creio, concordou-se
Pois é raro (ou só mostrou-se) gente com ou sem rudez,
C’ave ou besta sobre a porta, com ou sem maior rudez,
Cum tal nome: “Foi-se a vez”

Mas o Corvo, só, sentando, nessa queda imagem quando
Tais palavras repetia qual se a mente ali talvez
Fosse pôr, não mais falava, não sem pena ou não mostrava,
Nada disso a mente brava “outros meus se foram, vês?
Vindo o dia, irás partir-te, qual m’a fé partiu, não vês?”
E ele disse “Foi-se a vez”

Perco o tino, a calma morta por resposta tal que importa
Nessa fala “com certeza só responde uns bê-a-bês
Ditos sem mais dó ou penas por um dono seu apenas
Nada menos, nada amenas, dá seu fardo em tal gaguez
Duma Fé a tal Desgraça, dá seu fardo em tal gaguez:
Foi-foi-foi-foi-foi-se a vez?”

Mas co Corvo a facha foi-se, cada ruga em mim passou-se,
Hirto vou pra frente à ave, e porta, e foto, e sem rudez
Já no tão tenro veludo, penso e penso sobre tudo
Que esse bicho de ar sisudo diz há dia ou ano ou mês
Diz terrível, vil, cruento, diz há dia ou ano ou mês
Diz em grasno “Foi-se a vez”.

Em pensar, sem ver se foi, se, lá no Corvo, algo ficou-se
Qual ficou por cá no peito, nesse Corvo tão soez
Isso e mais em mim passou-se, sem mais fé, corpo froxou-se
Pois no tal veludo doce, que essa luz tocou cortês
Nesse tal veludo doce que essa luz tocou cortês
Ela ali, bem, foi-se a vez

Pois bem vi meu ar mais denso qual queimasse eu nele incenso
Qual piano os céus me deitam cada pé, e eu só “vocês,
Anjos por Deus cá mandados para dar-me a tais bocados,
Pra dar folga dos passados, tais lembranças dessa Inês
Folga, esquece, e sente alívio, dá remédio à minha Inês”
Diz o Corvo “foi-se a vez”

“Mau agouro, bicho ou sanha, desse agouro que abocanha
Seja o fim do meu mormaço, seja o próprio seis seis seis
Sem ninguém, mas com fantasmas, terras vis, cê, vê, refaz-mas
Nessa casa o Horror das asmas – diga logo e sem surdez
Há no mundo algum remédio – diga logo e sem surdez
Diz-me o Corvo “foi-se a vez”

“Mau agouro, bicho ou sanha, desse agouro que abocanha
Pelos céus que nós fitamos, pelo Deus no qual bem crês
Pr’essa vida tão sentida, dantes da maçã comida
Tem retorno, ou mais saída, tem de volta a moça Inês?
Tem a rara e lhana moça dita pelo céu Inês”
Diz-me o Corvo “foi-se a vez”

“Que esse dito seja o açoite para o bicho ou sanha, foi-te?
Vai de volta para a Noite negra como a tua tez
Vai sem pena, a tal mentira que contaste não revira!
Meu silêncio sem mais ira dá de volta sem rudez
Meu vazio peito sem ira dá de volta sem rudez”
Diz-me o Corvo “foi-se a vez”

E esse Corvo não nos foi-se, fica ali qual pronta foice
Sobre a imagem de quem foi-se por tal porta sem rudez
Cum olhar tão como a Noite, desse inferno que ninou-te
E essa luz que a ti tocou-te faz-lhe u’a sombra não cortês
E essa mente pela sombra paira sem mais ar cortês
Vai ser livre? “Foi-se a vez”

(tradução de Wilton Bastos)

 

§

O ESTORVO

Certa vez, de madrugada, com a cabeça debruçada
Sobre uma apostila usada, dessas que ninguém lê mais —
Bocejando, já caduco, de repente um vuco-vuco
Escutei, como um maluco que batesse à minha porta.
“É um maluco… Quem se importa? Isso é o que a bebida faz:
Está bebo. Nadimais.”

Desse lance eu bem me lembro: era um porre de um dezembro,
E das velas, num vaivém, brotavam chamas viscerais.
Eu ansiava pelo dia e cada folha em vão treslia,
Besta que era, a ver se ali a dor calmava ou ia embora —
Dor da falta de Leonora, que partiu tempos atrás
E não voltou nunca mais.

E o balanço lento e chocho da cortina em tons de roxo
Infundia-me uns tremores que ninguém sentira iguais;
Pra que eu não tivesse um infarto, bem baixinho no meu quarto
Repetia-me “Estou farto: é só um maluco sem relógio
A rezar pra que eu aloje-o. Vou mostrar como se faz,
Que o safado não vem mais.”

Me senti viril pra burro; prenunciando um belo murro,
“Cara”, eu disse, “Ou dona, escuta… Eu nem sei o que te traz;
Tava quieto, e essa batida me deixou tão p. da vida
Que eu não vou te dar guarida. ‘Té tentei deixar passar,
Mas não dá pra te aguentar” — E eis que a porta abri, voraz;
Era a noite; nadimais.

Retornando ao meu quartinho, novamente o burburinho
Que me fez tremer na base — dessa vez bem mais tenaz.
“Eita nós”, gritei, “Cautela… Foi de fora da janela…
Vamos ver o que tem nela, e acabar com esse tormento —
Com certeza é só o vento… Saberemos num zás-trás
Que é só vento… Nadimais…”

Destranquei-a, abri o batente, e num revés, tão de repente,
Veio o vento, e uma esquisita Mariposa veio atrás.
Ignorou-me por completo, e, como um vulto irrequieto,
Voou até pousar no teto, chacoalhando a negra saia
Sobre um pôster do Tim Maia, na parede lá de trás;
Foi, pousou e nada mais.

A bichinha velha e escura me fez rir da minha agrura
Pelas pompas que vestia, pelo jeito perspicaz;
“Apesar da asa rasgada”, puxei papo com ela, “nada
Transparece de espantada, entrando assim, e assim enorme.
Qual teu nome? Pois me informe, se é que um nome você traz.”
E ela disse: “Tanto faz.”

Não pensava que esse verme fosse mesmo responder-me.
Se o que disse fez sentido, pouco importa, pois, rapaz,
Combinemos uma coisa: cê já viu uma mariposa
Que entra no teu quarto e inda ousa conversar de igual contigo?
Eu duvido, meu amigo: não existem animais
Que se chamam “Tanto Faz”…

Mas a mariposa queda sobre o Tim que se empareda
Parecia desdobrada nessas sílabas fatais.
Nem tentou falar mais nada, nem saiu em revoada,
‘Té que, em voz bem moderada, resmunguei: “O dia avança;
Como os bondes e a esperança que eu perdi, também te vais”
E ela disse: “Tanto faz.”

Matutando em que rolava sem dizer uma palavra
Para os aurinegros olhos que me ardiam mais e mais,
Reclinei-me no banquinho e, contemplando o negro linho,
Me esqueci de estar sozinho: “Lê, meu bem, pega a vassoura.”
Foi então que vi: Leonora me deixou pra nunca mais…
“Ai, que falta ela me faz…”

O climão ficou tamanho, mas do nada um cheiro estranho
Inundou meus aposentos como um banho de erva e sais.
“Céus”, chorei, “que doce esmola ao desespero que me assola!
Sente, sente essa marola — esquece a outra de uma vez;
Há no mundo tantas Lês — esquece! Esquece! Engole os ais!”
De repente: “Tanto faz.”

“Coisa ruim de borboleta”, eu disse, “cria do capeta,
Se o calor é o que te trouxe, ou se foi mesmo Satanás —
Temerosa, mas arauto — nesta rua sem asfalto,
Neste quarto — na moral, tô de joelhos, me responde:
Onde é o fim do túnel? Onde? Me responde, e um bem me faz!”
Mariposa: “Tanto faz.”

“Coisa ruim de borboleta, serva ou cria do capeta,
Pelo teto que nos cobre, pelo amor de nossos pais —
Tira o peso do meu peito e diz pra mim se ainda há jeito:
Quando enfim reencontrarei todo esse amor que hoje me fere,
Que tem nome de mulher e que partiu pra nunca mais?”
Mariposa: “Tanto faz.”

“Quer saber? Tu que se dane, ô coisa ruim!” Lancei-me, inane —
“Vai pro inferno que é tua casa dar um beijo em Satanás!”
Pra expiar de vez minha alma, dei um pulo e, abrindo a palma,
Soquei-a — não menos calma — sobre o pôster do Tim Maia,
E na boca do Tim Maia seus fluídos corporais
Escreveram “Tanto faz”.

E o que foi a mariposa agora pousa, agora pousa
Sobre a boca do Tim Maia na parede lá de trás;
E o seu olho ardendo aceso com irônico desprezo
Sob a luz projeta o peso de um silêncio no recinto;
E esse peso que ora sinto me enche de uma estranha paz,
Ou remorso, tanto faz…

(tradução de Pedro Mohallem)

Padrão
poesia, tradução

Denise Levertov, por Stefano Calgaro

levertov

Denise Levertov (1923-1997) nasceu em Ilford, Inglaterra, e foi poeta, tradutora, ensaísta, editora e professora. Com doze anos enviou alguns poemas a T. S. Eliot, que a incentivou a prosseguir. Há em sua vida três fatores que permearam muito sua poética: 1) a educação informal e religiosa que teve pelos pais; 2) ter servido durante a Segunda Guerra como enfermeira, o que influenciou muito o seu engajamento social e político, algo que se intensificou na década de 60 e 70 (escrevendo alguns poemas sobre a Guerra do Vietnã, por exemplo) e que permeou toda a sua obra poética, direta e indiretamente; 3) a ida (sem retorno) para os Estados Unidos na década de 40, onde lecionou em diversas universidades ao longo de sua vida e influenciou-se muito com os poetas de Black Mountain – W. Carlos Williams, H. D., Charles Olson, Kenneth Rexroth e Wallace Stevens. Morreu de um linfoma em 1997. Como tradutora, traduziu obras como cânticos bengali e os poetas franceses Jean Joubert, Alain Bosquet, Eugene Guillevic. Nunca publicada no Brasil (apesar de traduções esparsas pela internet), dentre sua vasta obra, alguns de seus principais trabalhos incluem The Double Image (1946), Here and Now (1957), The Jacob’s Ladder (1961), O Taste and See (1964), entre outros.

Stefano Calgaro (1991) nasceu em Porto Alegre. Mora em São Paulo onde se graduou em cinema e cursa Letras.

 

Nossos corpos

Nossos corpos, ainda novos sob
a ansiedade gravada de nossas
caras, e inocentemente

mais expressivos que caras:
mamilos, umbigo, e pentelho
fazem de qualquer forma um

tipo de cara: ou levando
as sombras redondas ao
seio, traseiro, saco,

a dobrinha da minha barriga, o
oco da sua
virilha, como uma constelação,

como se inclina da terra ao
amanhecer num gesto de
brincadeira e

sábia compaixão-
nada como isto
vem a passar

em olhos ou bocas
abatidas.
                  Eu tenho

uma linha ou ranhura que amo
percorre
meu corpo do esterno
à cintura. Fala de
ansiedade, de
distância.

                  As suas longas costas,
a cor da areia e
como os ossos se expõem, diz

que céu após o pôr-do-sol
quase branco
sobre a profunda floresta à qual

as gralhas se dirigem, diz.

 

Our bodies

Our bodies, still young under
the engraved anxiety of our
faces, and innocently

more expressive than faces:
nipples, navel, and pubic hair
make anyway a

sort of face: or taking
the rounded shadows at
breast, buttock, balls,

the plump of my belly, the
hollow of your
groin, as a constellation,

how it leans from earth to
dawn in a gesture of
play and

wise compassion-
nothing like this
comes to pass
in eyes or wistful
mouths.
         I have

a line or groove I love
runs down
my body from breastbone
to waist. It speaks of
eagerness, of
distance.

         Your long back,
the sand color and
how the bones show, say

what sky after sunset
almost white
over a deep woods to which

rooks are homing, says.

 

A cabana

Lodo e taipas.         Quase redonda,
musgo. Limiar: uma escrita,
pequenas pedras encrustadas, calcada.
“Entre, quem
Assim deseja”.

Chão, terra batida.         Paredes
sombras.         Urna ao centro.
Ao dia, entrando do
verde fundido, entardecer
profundo.         À noite, através da chaminé,
a estrela.

 

The hut

Mud and wattles.         Round almost.
Moss. Threshold: a writing,
small stones inlaid, footworn.
‘Enter, who
so desires’.

Floor, beaten Earth.         Walls
shadows.         Ashpit at center.
By day, coming in from
molten green, dusk
profund.         By night, through smokehole,
the star.

 

cenário

O teatro da guerra. Fora do palco
um elenco de milhares chorando.

Centro-esquerda, bem iluminado, uma barragem
de corpos desenterrados,

ou partes de corpos. Direita,
perto de alguns bambus mortos que servem como asas,

um corpo inteiro, no qual
um esguicho de napalm trabalha.

Entra a noiva.

Ela tem um seio, um olho,
metade do escalpo calvo.

Ela cambaleia rumo ao centro.
Entra o noivo,

um soldado jovem, magro, mas sem
feridas aparentes. Ele a vê.

Primeiro devagar, então rápido e mais rápido,
ele começa a tremer, a tremer,

A ondular de tremer.         Cortinas.

 

scenario

The theater of war. Offstage
a cast of thousands weeping.

Left center, well-lit, a mound
of unburied bodies,

or parts of bodies. Right,
near some dead bamboo that serves as wings,

a whole body, on which
a splash of napalm is working.

Enter the Bride.

She has one breast, one eye,
half of her scalp is bald.

She hobbles towards center front.
Enter the bridegroom,

a young soldier, thin, but without
visible wounds. He sees her.

Slowly at first, then faster and faster,
he begins to shudder, to shudder,

to ripple with shudders.         Curtains.

(poemas de Denise Levertov, traduções de Stefano Calgaro)

Padrão