poesia, tradução

Edward Lear, por Cecilia Silva Furquim Marinho

Poemas nonsense para crianças (e adultos acriançados) em tempos de quarentena

Tradução de um poema autobiográfico e de sete exemplos de poesia e ilustração nonsense do viajante Edward Lear, feitos para serem cantados. Essas ‘canções’ estão presentes em dois dos quatro livros que o autor publicou em vida, e que depois foram agrupados num mesmo volume com a inserção do poema autobiográfico na apresentação[1]. Os três primeiros exemplos foram retirados de Nonsense songs and stories (1871), e os outros quatro de Laughable Lyrics. A Fourth Book of Nonsense Poems, Songs, Botany, Music, &c. (1886). Acompanham as duas únicas partituras preservadas de sua música e um link com a gravação de uma delas em português. O trabalho se fez a partir do paradigma tradutório de Haroldo de Campos e, em alguns exemplos, foi acompanhado da orientação do letrista Carlos Rennó no programa formativo de tradutores da Casa Guilherme de Almeida. Posteriormente esse trabalho pretende ser lançado em parceria com outros músicos, agregando novas melodias e gravações originais.

Edward Lear foi um poeta, desenhista e pintor inglês que viveu de 1812 a 1888. Ele começou a escrever, ilustrar e musicar versos para divertir filhos de amigos. Acabou publicando seus trabalhos e tornando-se muito famoso pelo estilo inovador e pela capacidade de multiplicar os admiradores de sua obra dentro do continente europeu e além mar. Foi ele quem cunhou o termo ‘nonsense’ ao nomear seus livros com esse adjetivo e é referência na produção e inspiração desse gênero cômico que trabalha com associações curiosas e com grande musicalidade e jogos de palavras.

Em tempos de quarentena, esse recorte de sua produção convida as crianças a conhecer um pouco desse escritor e dar sua opinião: esquisito ou encantador? A se identificar com o escape ousado de um quebra nozes e uma pinça de açúcar que não se conformavam com a chatice de uma existência confinada sobre a mesa de cozinha. Já que é preciso estar trancado, fujamos na ficção! A partilhar os cuidados de um casal de pardais que precisam se proteger dos perigos de uma gripe. A acompanhar a história de união e separação da família real dos pelicanos e do pequenino e cabeçudo Yonguy-Bonguy-Bo. A adivinhar quem é o soberano misterioso de um dos poemas. Quem será o Akondo de Suau?  Ele será parecido com algum desses soberanos que nos rodeiam aqui no Brasil, nos EUA ou outros países?  Por fim,  os pequenos são também convidados a testemunhar a sorte do Mango Bango que acolheu, em sua solitária morada, outros seres barulhentos. Divirtam-se!

Cecilia Furquim é professora, pesquisadora, poeta e tradutora de poesia. Pesquisa mulheres escritoras no doutorado em literatura brasileira na USP: Gilka Machado, Patrícia Galvão, Ruth Guimarães. Lançou um livro de arte para crianças contendo dois poemas musicados em parceria com Beto Furquim, um de sua autoria e outro traduzido de Edward Lear, chamado A coruja, o gato e os filhotes (Melhoramentos, 2014). Esse livro recebeu o selo ‘Altamente recomendável pela FNLIJ 2015. Alguns de seus poemas autorais foram publicados nas revistas Literatura e Fechadura, Ruído Manifesto, Gueto e na antologia: Um girassol nos seus cabelos – poemas para Marielle Franco (Quintal Edições: Belo Horizonte, 2018). O seu primeiro livro de poesia para adultos, Mulheres Salgadas (contendo poemas, uma canção e sumiês de Lúcia Hiratsuka) foi lançado em dezembro de 2019 pela Urutau.  

[1] LEAR, Edward. Nonsense Songs and Stories. Chancelor Press, 1984 (edição fac-simile)

* * *

Observação: para manter a diagramação espelhada e os desenhos de Lear, preferimos fazer o post na forma de um PDF, que pode ser consultado ou baixado.

escamandro

8 poemas de Edward Lear por Cecilia Silva Furquim Marinho

Padrão
poesia, tradução

“Canções para Joannes”, de Mina Loy, por Alvaro A. Antunes

Mina Loy nasceu Mina Gertrude Löwy em 27/12/1882, em Londres, e morreu Mina Loy em 25/09/1966, em Aspen, Colorado, EUA. Sua obra poética está coligida em duas edições complementares [1,2]. Há uma biografia sólida [3], monografias [p.e., 4,5], e uma rica coletânea de ensaios [6], além de, claro, vários artigos dispersos. Escreveu prosa também [7,8]. Confesso que, apesar de lê-la há décadas, seu mistério permanece, para mim, do tamanho de toda a poesia. Os rótulos com que a exibem ao nosso olhar faminto são, principalmente: feminista, futurista e modernista. Não que ela não os tenha originado, mas são como todos tais rótulos, redutores, e, no caso dela, me parecem desfigurá-la com requintes de simplicidade.  O que a faz única, penso, é a sua inteligência fina, elusiva, brava, afiada e felina, oblíqua, prenhe de lacunas esquivas. Não a lemos, principalmente, pela música ou pela imagística, embora, quando quer, ela as saiba. Pound nos saiu com a ideia de logopeia para, em parte, parece, alfinetá-la farfalla. E é nela que esse Cheshire Cat terminológico revela mais que somente seu sorriso. Ler Canções para Joannes, essa sequência de 34 poemas, descortina com suficiente clareza certos (se, por certo, não todos os) aspectos do que Pound queria dizer, e que definiu como ‘a dança da inteligência entre palavras e ideias e modificações de palavras e ideias’, citando Marianne Moore como outra a praticá-la e Laforgue como precursor.  Sua poesia foi, desde cedo, vista como intensamente cerebral, mas é ao mesmo tempo visceral, em Canções para Joannes por certo. E experimental, num sentido que me parece melhor entender como exploratório, estritamente: poemas nunca dantes. Mina Loy foi ultra entre ultras, radical entre radicais, adiante da adiante-guarda e, em máxima velocidade de fuga, deixou esse circo-círculo, e a poesia, em seu rastro com seu lendário amour fou e fuga com o mítico Arthur Cravan, que, ao desaparecer em Salina Cruz, México, em 1918, sem quê nem porquê, por fim, pôs fim às sementes que restassem dentro dela. Continuou a escrever, sim, mas brasas, não achas em chamas. Cancões para Joannes se passa num período anterior à sua chegada a Nova Iorque e à sua imersão nos círculos artísticos de ponta da época (no seu caso, os que tinham como bases as pequenas-revistas modernistas, Others, Dial e Little Review). Mina Loy, moça, viveu em Munique, estudando. Mudou-se pra Paris, casou com um primeiro homem errado, teve uma filha (que morreu infante). Mudou-se pra Florença, onde viveu entre 1907 e 1916, teve um filho (que morreu menino) e uma filha (que finalmente foi longeva). Em Florença, topou com o futurismo e os futuristas: Carlo Carrà e, adversários e ambos amantes seus, ambos homens errados, Giovanni Papini e Filippo Tommaso Marinetti. Pensa-se que ‘Joannes’ é um amálgama de Papini e Marinetti.  Atribuiu a Marinetti a descoberta do que ela, seguindo-o, chama de ‘vitalidade’, mas, como sugeri acima, penso, há pouco dele (e menos de Papini) em Mina Loy: onde a audácia daquele tende ao fátuo, a dela faz-se faca anti-hipocrisia (se bem que ela jamais sucumba a posturas parvas ou automatismos didáticos). Seu poema ‘Apologia do Gênio’ (traduzido aqui na escamandro por Guilherme Gontijo Flores em 05/02/2014), me parece separar aquele joio deste trigo. Que mais? Sempreviva, sempre esquiva.

[1] Loy, Mina. The Last Lunar Baedeker. ed. Roger L. Conover. Highlands: The Jargon Society, 1982.
[2] Loy, Mina. The Lost Lunar Baedeker. ed. Roger L. Conover. Farrar, Strauss & Giroux: New York, 1996.
[3] Burke, Carolyn. Becoming Modern: The Life of Mina Loy. New York: Farrar, Straus and Giroux, 1996
[4] Kouidis, Virginia M.. Mina Loy: American Modernist Poet. Baton Rouge: Louisiana State UP, 1980.
[5] Scuriatti, Laura. Mina Loy’s Critical Modernism. Gainesville:University of Florida Press,2019
[6] Shreiber, Maeera & Tuma, Keith (eds.) Mina Loy: Woman and Poet. Orono: The National Poetry Foundation, 1998
[7] Loy, Mina. Insel. ed. Arnold, Elizabeth. Melville House Publishing: New York, 2014.

Alvaro A. Antunes foi professor de ciência da computação no Reino Unido, onde vive há muito, e onde há pouco se aposentou. Nos anos 80, traduziu para a extinta Interior Edições: The Aspern Papers/Os Papéis de Aspern (Henry James); The Hunting of the Snark/A Caça ao Turpente (Lewis Carroll); Canti/Cantos (Giacomo Leopardi) e uma recriação indireta dos fragmentos de Safo. Traduziu a versão de Ezra Pound de The Seafarer para o SLMG e esparsos de Novalis, Pushkin, Pound e Catulo para Musa Rara.

* * *

Aqui o PDF com a primeira aparição de Songs to Joannes, na revista Others, vol 3, no 6 em abril de 1917.

Canções para Joannes
(tradução de Alvaro A. Antunes, março de 2020, para pagar promessa, feita anos faz, a Carlito Azevedo e a Daniel Chomski)

I

Desova de Fantasias
Assoreando o louvável
Porco Cupido seu focinho rosado
Fuçando lixo erótico
“Era uma vez”
Arranca uma erva[1] branca e ponta-estrela[2]
Entre aveias bravas[3] bordadas[4] na membrana-mucosa

Queria o eu que iria[5] num fogo de bengala
Eternidade num rojão celeste
Constelações num oceano
Cujos rios mais doces não correm
Que um fio de saliva

Estes são lugares suspeitos

Tenho que viver no meu lampião[6]
Aparando[7] o tremeluz[8] subliminar
Virginal aos foles
Da Experiência
Vidro colorido

II

A bolsa-baga[9]
Onde uma dualidade devassa
Empacotava
Todas as completações[10] de meus impulsos infrutuosos
Algo com a forma de um homem
À vulgaridade fortuita do que meramente observador
Mais assim de se dar corda um mecanismo
Se exaurindo contra o tempo
Perante o qual não me compasso[11]
As pontas dos meus dedos dormentes cafunando[12] teus cabelos
Capacho de um Deus
No umbral da tua mente

III

Poderíamos ter nos acoplado[13]
No monopólio de um momento acamado
Ou rachado carne uma com o outro
Na mesa da comunhão profana
Onde o vinho s’entorna[14] em lábios promíscuos

Poderíamos ter dado à luz uma borboleta
Com as últimas do dia
Impressas em sangue nas asas dela

IV

Uma vez num mezzanino
O céu estrelado
Abarcava[15] uma família inimaginável
Abortos que se pássaros
Com gargantas humanas
E olhos de Siso[16]
Que vinham com vestidos17 cor rubi-abajur[18]
E cabelos de lã

Uma nina[19] um neném
Num porte-enfant forrado
Com fita de seda amarrado
Às suas asas de gansa

Não fossem as sombras abomináveis
Eu teria vivido
Entre a mobília macabra[20] deles
Pra lhes ensinar a me contar seus segredos
Antes que eu os adivinhasse
—Dando cabo da ninhada inteira

V

A meia-noite esvazia a rua
De todos menos nós
Três
Não sei decidir qual o caminho de volta
À esquerda um menino
—Uma asa foi lavada pela chuva
A outra nunca mais será limpa —
Tocando campainhas pra lembrar
Os que estão aconchegados
À direita um asceta aureolado
Fiando casas
Sonda feridas à procura de almas
—Os pobres não podem se lavar em água quente—
E nao[21] sei que direção tomar
Já que você[22] se mandou pra casa pra si[23]—primeiro

VI

Conheço o Manipulador[24] intimamente
E não fosse pelas pessoas
Com quem você se preocupa[25]
Você poderia me olhar no olho
E o Tempo voltaria aonde antes[26]

VII

Meu par de pés
Têm um ar de lajotas
Que são algo que sobrou do teu caminhar
O vento entulha a escória da rua branca
Nos meus pulmões e minhas narinas
Pássaros entusiasmados[27]
Prolongando o voar noite adentram
Sem jamais alcançar — — — — — —

VIII

Eu sou o armazém ciumento dos tocos de vela
Que iluminaram teu aprender adolescente
— — — — — — — — — —
Nas costas dos olhos de Deus
Poderiam
Existir outras luzes

IX

Quando abrimos
Nossas pálpebras ao Amor
Um cosmos
De vozes coloridas
E mel gargalhada[28]

E espermatazoides
No cerne de Nada[29]
No leite da Lua

X

Pereca e rã-quente[30]
Um pequeno rosamor[31]
E penas voam

XI

Caro mio[32] à tua mercê
Nosso Universo
Não passa de
Um cebola sem cor
Você se despe
Bainha[33] por bainha
Permanecendo
Um cheiro que desalento
Nas[34] tuas mãos nervosas

XII

Vozes arrebentam no perímetro da paixão
Desejo Suspeita Homem Mulher
Solvem na úmida carnificina

Carne de[35] carne
Extrai a delícia inseparável
Beijando os ofegos para pegá-la

Seria[36] verdade
Que te isolei e ungi[37]
Inviolado numa cristalização absoluta
De tudo o sacudir a multidão
Me ensinou a por querer viver pra repartir

Ou seria você
Somente a outra metade
Da necessidade de um ego
Flagelando orgulho com compaixão
Ao raso som de dissonância
E bumbo d’ar[38] fugindo do pulmão

XIII

Vem cá perto de mim Tenho uma coisa
Que te contar e não posso contar
Uma coisa que está tomando forma
Uma nova dimensão
Um novo uso
Uma nova ilusão

Nos abrange E está nos teus olhos
Uma coisa brilhante Uma coisa só pra você
Uma coisa que não devo ver
Está nos meus ouvidos Uma coisa muito ressoante
Uma coisa que você não deve ouvir
Uma coisa só pra mim
Sejamos muito ciumentos
Muito desconfiados
Muito conservadores
Muito cruéis
Ou pode ser que ponhamos fim às aspirações se acotovelando
Destronemos egos inviolados

Onde dois ou três se soldaram
Se tornarão deus
— — — — — — —
Ah é isso mesmo
Fique longe de mim Por favor me dê um empurrão
Não me deixe eu te entender Não me venha com saquei[39]

Ou pode ser que caiamos juntos
Despersonalizados
Idênticos
No terrífico Nirvana
Eu você — você — eu

XIV

Hoje
Perpétua perecível visível imperceptível
A ti
Eu trago a virgindade nascente de
—Mim mesma para o momento

Amor não ou a outra coisa
Só o impacto de corpos acesos
Soltando faíscas um no outro
Em caos

XV

Raramente Aspirando ao Amor
Fantasia desferiu-os[40] como deuses
Dois ou três homens pareceram apenas humanos

Mas só você
Sobre-humano ao que parece
Eu tinha que ser pega no débil remoinho
Da tua humanidade disparatada[41]
Pra te amar o mais[42]

XVI

Poderíamos ter vivido juntos
Nas luzes do Arno
Ou ido roubar maçãs debaixo[43] do mar
Ou brincado
De esconde-esconde enamorados e teias de aranha
E uma canção de ninar numa lata de latão

E conversado até não termos mais línguas
Com que conversar
E não termos nunca visto tão bem bom[44]

XVII

Não dou a mínima para
Onde as pernas das pernas dos móveis estão andando
Ou o que se esconde nas sombras que seus passos[45]
Ou o que me olharia
Se as fechaduras não os fechassem[46]

Vermelho uma cor quente no campo de batalha
Pesada nos meus joelhos como uma manta
Conta contra[47]
Contei a franja da toalha
Até que duas borlas uma emaranhada à outra
Que o quarto quadrado caia
De um vácuo redondo
Dilatando minha respiração

XVIII

Da cisão
De colina de[48] colina
O ínterim
De estrela de estrela
A nascente
Estática
Da noite

XIX

Nada conserva tanto
Quanto um cutelo bem gelo
Nota do O D V C[49]
Trinchá-la clara
O ar que dá-la
Pólen perfumado
Espaço

Branco contar
De saciar
Bebível
Pelos dedos
Água corrente
Caules de grama
Crescem com[50]

Desgovernar
de pirilampos
Quadrilha no ar
Trombando
Uma no outro
De novo conglutinando-se
Em recapturados pulsos
De luz

Você também
Tinha alguma coisa
Naquela época
De um verdor de vaga-lume
— — — — — — —
Mas lentamente encharcado
À defluorescência[51]
De chuva

XX

Deixe a Alegria ir consolo-alada[52]
Alvoroçar a quem interessar possa ela[53]

XXI

Acumulo noites contra você
Pesadas de pesadelos floroclusos[54]
— — — — — — — — — —
Empilhar tardes
Encaracolada contra o solitário
Nu que é o[55] do
Sol

XXII

Coisas verdes crescem em
Saladas
Para o renascer
Do forrageador[56] cerebral

Sobre submissas barrigas
De montanhas
Rolando no sol
E flã[57] florináceo[58]
Pausas[59]
Pros meus tamancos tolos[60]
Por certas vias sem você
Eu vou
Desajeitadamente
Como andam as coisas

XXIII

Gargalhada em solução
Constelações estateladas
Promessas irredimíveis
De consumações púberes
Apodrecem
Ao recorrente alvejar da
Lua
Na pura branca
Maldade da dor

XXIV

A procriadora verdade de Mim
Se exauriu
Em pestilentas
Gotas de lágrima
Leves luxúrias e lucidezes
E mentiras prenhes de prece
Desnorteadas pela aspereza abominável
Do teu sorriso de canto-de-rua[61]

XXV

Lambendo o Arno
A rosada mindinha[62]
Língua da Aurora
Interfere com nossos cílios
— — — — — — —
Nossos polegares
Rodam e rodam[63]
Mais velozes
E viram máquinas

Até que o sol
Acalma-se o brilhar
Derrete alguns de nós
Em cubículos aterradores
Que a Paixão perfurou
Em mornidão

Alguns poucos entre nós
Crescem ao nível de frescas planícies
Cortando nosso ponto de apoio
Com olhos de aço

XXVI

Descartando nossos melindres menores
De olhos rasgados

Sorrateiros encostamos
Na Natureza
— — — aquela colérica pornógrafa

XXVII

Núcleo Nada
Inconcebível conceito
Insensitivo repouso
As mãos de raças
Descolam-se e caem
Imodificável plástico

O conteúdo
Da nossa efêmera conjunção
Em alheamento de Muito
Fluiu para avizinhamento de — — — —
NADA[64]
Tinha um homem e uma mulher
Impedindo passagem
Enquanto o Insolúvel
Esfregava com nossas mortes diárias
Olhos impossíveis

XXVIII

Os degraus vão subindo uma eternidade
E são brancos
E o primeiro degrau é a última branca
Eterna idade[65]

Conclusões coloridas
Cheirava a brancura
Sintética
De minha
Emersão
E estou queimada bem branca
No retraimento
Climatérico do teu sol
E promessas e palavras todas brancas
Difundem
Ilimitável monótono

Branco onde não tem nada pra ver
Mas uma toalha branca
Seca o suor opalescente[66]
—Névoa nascer[67] de viver—
Do teu
Corpo estiolado
E a branca aurora
Do teu Novo Dia
Se fecha pra mim

Impensável aquele branco lá longe
— — — É fumaça da tua casa

XXIX

Evolução choca-se com
Igualdade sexual
Brejeiramente[68] erra o cálculo de
Similitude
Seleção desnatural
Parindo tais filhos e filhas
Que destramelam uns às outras
Criptônimos inescrutáveis
Sob a lua

Dê-lhes uma brecha e berram brônzeos
Como chamamento chamegante[69]
Ou aos homófonos afanados[70]
Transpor a gargalhada
Deixa eles suporem que lágrimas
São galantos[71] ou melado
Ou qualquer coisa
Senão insuficiências humanas
Implorando vértebras dorsais

Deixa encontro ser retorno
Ao antípoda
E Forma um borrrão[72]
Qualquer coisa
Senão seduzi-los
Àquele um[73]
Como simples satisfação
Ao outro

Deixa-os trombarem
Do que lhes são incógnitos
Em orgasmo sísmico
Pra muito maior
Diferenciação
Em vez de ver
Distorção de seu-próprio[74]
Retrair-se ao estrangeiro ego

XXX

Em algum
Plágio prenatal
Bufões fetais
Aprenderam truques
— — — — —

De pantomima arquitípica
Enfilando emoções
Laçadas no alto ar
— — — —

Para os olhos cegos
Com que a Natureza nos conhece
E a maioria da Natureza é verde
— — — — — — — — — —

Que garantia
Para a proto-forma
A gente tenteia
Nossa ética souvenir para
— — — — — —

XXXI

Crucifixão
De um intrometido
Querer interferir assim
Nas intimidades
Do teu isolamento insolente

Crucifixão
Da eclosão de um ego
Ilegal
No teu equilíbrio
Cariátide de uma ideia

Crucifixão
Braços destruídos
Extremidades indiciais
Em vácuo
Para a queda incontida

XXXII

A lua é[76] fria
Joannes
Onde o Mediterrâneo — — — — —

XXXIII

O pedante de paixão — — — —
À tua penúria professorial

Proto-plasma ia louco varrido
Nos evoluindo — — —

XXXIV

Amor — — — o preeminente literateur[78]

§§§

Notas a ‘Canções para Joannes’

[1] ‘weed’: estritamente, ‘erva daninha’, mas, mais contemporaneamente, ‘erva’ (diamba), assim deixada ambígua
[2] ‘star-topped’: ‘com estrelas na ponta’, mas distenderia a música
[3] ‘wild’: ‘silvestre’, ‘selvagem’, mas a música de ‘bravas’
[4] ‘sewn’: ‘costuradas’, mas ‘bordadas’ tem a música duma sílaba a menos
[5] ‘queria’/’que iria’: pela rima interna (‘I’/’eye’),
[6] ‘lantern’: difícil decodificar, ‘lampião’ (de rua, talvez) talvez
[7] ‘aparando’: o ambíguo de cortar o excesso e evitar que caia
[8] ‘flicker’: ‘tremeluzir’, mas, de novo, dichten=condensare
[9] ‘skin-sack’: ‘saco de pele’, mas a aliteração se perde, ‘bolsa-baga’, por bagos e bagagem, mas, mais explícito, o que Loy, possivelmente, condenaria
[10] ‘completações’: forma não unanimemente aceita, mas Loy confronta os lexicógrafos do inglês logo a seguir com ‘infructuous’
[11] ‘More … paced’: Loy (em quem pensando, Pound cunhou o termo d’arte ‘logopéia’, a tal dança do intelecto entre as palavras, i.e., o uso conceitual da língua talvez forçando os eixos léxicos, morfológicos e sintáticos à beira do cataclisma) dança com as preposições aqui, e eu trôpego tropeço e peço perdão e passagem
[12] ‘fretting’: ambíguo entre passar a mão nos cabelos se mescla com estar ansiosa com algo, ‘cafunando’ é uma perturbação lexical, talvez meiga demais para Loy?
[13] ‘coupled’: novamente, entre casar e acasalar, mas se ‘acoplado’ pende pro bruto, o original também, talvez, consistentemente com o Porco Cupido
[14] ‘s’entorna’: aqui e em toda parte, tento replicar as micro-turbulências de aparência na versão original em ‘Others’ (q.v., e.g., nao, espermatazóides) mas não todas (e.g., ‘woolen’ por ‘woollen’ permanece ‘lã’); o posterior estabelecimento do texto é inconsistente quanto ao que supõe ser erro de composição ou não, assim decidi aderir ao texto em ‘Others’.
[15] ‘abarcava’: parco pra ‘vaulted’, mas ‘abobadava’, ouço, “abobòra”
[16] ‘Sisos’: por pura molecagem, rimando semanticamente com ‘wisdom tooth’, ‘dente de siso’
[17] ‘vinham com vestidos’: uma inflação lamentável, mas, ouço, menos que ‘vestiam vestidos’
[18] ‘lamp-shade’: Loy, por muito tempo, criou e vendeu abajurs
[19] ‘bore a baby’: ‘carrega um bebê’, mas a aliteração
[20] ‘macabro’: um tanto tosco pra ‘fearful’?
[21] ‘nao’: para a micro-turbulência de ‘dont’
[22] ‘you’: uso ‘você’ e ‘si’, mas ‘teu’/’tua’ e ‘te’, que é este meu português vira-latas
[23] ‘Since you got home to yourself’: logopéia fina, tão difícil de desempacotar quanto indesejável, a versão aqui pende ao pífio ao tentar sem tentá-lo
[24] ‘Wire-Puller’: o marionetista, o que controla o desenrolar das coisas, o que manipula à distância, ‘Manipulador’ fica aquém
[25] keep an eye on: preocupar-se com é intenso demais?
[26] ‘set back’: como ‘keep an eye on’, ah, a plasticidade elétrica dos verbos frasais do inglês
[27] ‘entusiasmados’: parco pra ‘exhilarated’, mas ‘excitados’, e.g., conotaria demais
[28] ‘laughing’: ‘gargalhada’ é excêntrico, como é o léxico de Loy, pela assonância
[29] ‘de Nada’: por ‘do Nada’, porque é parte da hipersensibilidade logopaica que Loy nos impõe que os artigos, definidos e não, se tornem pequenas bombas semânticas apenas dormindo
[30] ‘Shuttle-cock and battle-door’ é um trocadilho (com um jogo chamado ‘battledore and shuttlecock’, ‘raquete e peteca’, um precursor do moderno badmínton) com, penso, conotações sexuais quais permeiam o poema: a intrusão de um hífen em ‘shuttle-cock’, acentua isso (‘shuttle’ é mover-se para lá e para cá, ‘cock’ é pênis) e ‘battle-door’ também (‘battle’ é ‘dar combate’, ‘door’, pelo contexto, hímen talvez); disso tudo ‘pereca’ (sugerindo ‘perereca’) em vez de ‘peteca’ e ‘rã-quente’ (idem) em vez de ‘raquete’.
[31] ‘pink-love’: se ‘pink’ o tradicional metônimo de ‘mulher’, ‘pink-love’, amor por mulheres; contemporaneamente, ‘pink’ é gíria de ‘vagina’, mas não, que se registre, quando Loy escrevia; assim ‘rosamor’ pra adensar a névoa semântica
[32] ‘Dear one’: ‘querido’, mas Joannes, supomos todos, é um compósito de Giovanni Papini e Filippo Tommaso Marinetti
[33] ‘bainha’ mais para espada (mas veja abaixo), não tanto de vestimentos, mas vestimentos usados como proteção, couraça, i.e., ‘sheath’, não ‘hem’, ou ‘cuff’, e ‘sheath’, antes da popularização de ‘condom’, era ‘camisa de vênus’
[34] ‘about’: aqui, ‘em torno de’, ou ‘a respeito de’, mas a música?
[35] ‘from’: ‘de’, dança de preposições em que tropeço
[36] ‘Is it’: Loy, percebeste já, não pontua; aqui, a forma indica interrogagação que tento indicar com o especulativo em ‘Seria’
[37] ‘I have set you apart’: difícil, ‘te distingui’?, ‘te priviligiei’?, preferi (contra meu instinto) expandir aqui, para a música, ainda que intrusiva
[38] ‘boom’: é ‘boom’ mesmo, mas (q.v. 37) expandi, para a música; e marcar a elisão não é estranho a Loy (q.v. ‘spill’t’)
[39] ‘Don’t realise me’: difícil, possivelmente ‘não me venha com essa que entende’
[40] ‘dealt’: um amplo campo semântico: dispensou, deu como se dá cartas, desferiu
[41] ‘drivelling’: ‘dizendo tolices, disparates’, mas um adjetivo em português?
[42] ‘amar o mais’: dança do intelecto
[43] ‘debaixo do mar’: não ‘no’
[44] ‘bem bom’: expando, perdão
[45] ‘the shadows they stride’: aqui, é a lacuna onde a preposição (e.g., where, in/over/under/at which) que eletriza a linguagem e faz o intelecto dançar
[46] ‘fechaduras’ pra preservar a aliteração, mas ‘shutter’ é, aqui, aba de janela, por isso há na traducão, especial traição
[47] ‘Count counter’: ambíguo, pode ser imperativo, ‘Conte contador’, mas ‘contador’ em português conota déb/crédito, que aqui não cabe
[48]: outra preposição de hidrogênio, e de novo, dois versos adiante
[49] ‘Q H U’: que Mina é só mistério pra guardar-se assim tão firme? Esse nó Alexandre algum até agora. Roger Conover pensou que pudesse ser um duchampismo (descendente do L.H.O.O.Q. = “Elle a chaud au cul” = “Ela tem o rabo quente”) mas não se sugeriu decodificação convincente. Pensei em ‘Cue! Hate you!’ e traduzi ‘O D V C’, por ‘Odeio você’, ou ‘Odeio! Vê se!”. Un jeu, bien entendu.
[50] ‘to’: ‘com’, outra preposibomba
[51] ‘raylessness’: léxico generativo, assim ‘defluorescência’, mas há perda aqui
[52] ‘consolo’: pra conotar um fascinus dos romanos, o falo, amiúde alado
[53] ‘a quem interessar possa ela’: outra turbulência, aplicada aqui a um clichê do burocratês
[54] ‘shut-flower’: ao justaposto, a valise ‘florocluso’
[55] ‘core’: ‘cerne’, ‘núcleo’, mas algo me parece merecer ênfase aqui, assim, me intrometo um calembour
[56] ‘forrageador’: palavra que ouco canhestra, mas que se?, e aqui (e em toda parte) note como o desvendamento em inglês e em português diferem por força da ordem adjetivo-substantivo no inglês, vice-versa no português
[57] ‘flummery’ é um mingau, papa, manjar branco, donde ‘flã’
[58] ‘flowered’ é florido, mas conota ‘flour’, farinha, donde a valise, talvez bruta demais
[59] ambíguo se substantivo ou verbo
[60] ‘tamancos tolos’, pela aliteração
[61] ‘street-corner smile’: penso que uma turbulência de ‘corner-mouth smile’, ‘sorriso de canto de boca’
[62] ‘little’, aqui, é pequena, mas ‘mindinha’ sugere, penso, o quê de sentimento que suspeito
[63] ‘twiddle’ é, mais precisamente, aquele rodar binário dos polegares um contra o outro quando impaciente
[64] ‘O conteúdo … NADA’: esta passagem um campo minado de micro-dispositivos gramaticais, Loy mais uma vez usa artigos e preposições (e as ausências daqueles e destas) como bisturis, dissecando, expondo
[65] ‘for ever’/’Forever’: invertido em ‘eternidade’/’Eterna idade’
[66] ‘cymophonous’: frequentemente corrigido pra ‘cymophanous’, i.e., de som pra imagem, que o Webster de 1864 define como ‘tendo uma luz ondulada, flutuante; opalino, opalescente’
[67] ‘Mist rise’: difícil, tomei por analogia com ‘sunrise’, ‘sol nascer’
[68] ‘Prettily’: se idiomático, grosseiramente; se irônico, brejeiramente, digamos
[69] ‘Carressive’: não dicionarizada, com um quê de ‘aggressive’, donde a valise ‘chamegante’ de ‘carícia’=’chamego’ e ‘agressiva’=’fumegante’.
[70] ‘hiccoughs’: ‘soluços’ mas para o OED um erro de ortografia comum pra ‘hiccup’, usei ‘afanados’ pela aliteração com ‘homófonos’
[71] i.e., Galanthus nivalis
[72] três erres em ‘borrrão’ para os dois erres de ‘blurr’
[73] ‘To the one’: aqui também, a minúcia de preposições, artigos, pronomes
[74] ‘Own-self’: uma construção um pouco espinhenta em inglês, donde o espinhento português
[75] ‘Stringing emotions \ Looped aloft’: difícil, com uma aliteração cheia de graça
[76] ‘é’: talvez ‘está’
[77] o hífen no original também é peculiar
[78] a ortografia em textos em inglês é instável

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poesia, tradução

Hopkins, Ronsard, Yeats, por Victor Queiroz

1
Os três poemas a seguir servem de epígrafes ao meu recém-lançado livro de poemas autorais, Uranium 235. Deles, contudo, apenas o “soneto” de Ronsard foi traduzido para compor o volume: o capítulo dedicado a poemas de amor, que ele de certa forma apresenta, parece deslocado no contexto político que vivemos — de retrocesso extremo e de afirmação desse retrocesso como valor… Precisei tecer um comentário autoirônico e assim o escolhi.
Os dois demais poemas: o “soneto 50” de Hopkins, pertencente ao conjunto conhecido como “Sonetos Obscuros”, e o poema “Segunda Vinda”, de Yeats. O primeiro foi traduzido segundo o método da paixão incondicional: de cor, o repetia para mim (pois, por ter trilhado a religião cristã sinceramente por um tempo, compartilho algo da angústia que ele exprime), até que alguns dos versos começaram a surgir em português. Chocou-me, ao fim da organização do capítulo primeiro, o quanto esse soneto o explicava. Inseri-o.
Quanto ao último, ele me cativara há muito e o seu processo de tradução foi mais penoso, de brigar com o texto. A ironia com que as coisas de deus (Javé), do Cristo, são tratadas, e essa promessa, sempre-além, do fim do mundo e a vaga descrição dos seus sinais e do declínio, fez-me querer tê-lo à frente dos meus textos, os quais também trazem certo pessimismo e ironia.
Talvez seja coisa de estreante o querer trazer diante de si, a cada parte de seu livro, um grande autor ou nome a fim de lhe servir de escudo. Mas como se pode ler em cada um deles, mais que brigar contra um leitor indisposto ou um crítico grosseiro, a lida dá-se, como lemos nos textos, com um deus, que não garante 1. a paz interior, ou 2. o amor vencer, frutificar, ou 3. qualquer justiça ou paz exterior. É contra (E)le o escudo.
Victor Queiroz
*

Thou art indeed just, Lord, if I contend
With thee; but, sir, so what I plead is just.
Why do sinners’ ways prosper? and why must
Disappointment all I endeavour end?

Wert thou my enemy, O thou my friend,
How wouldst thou worse, I wonder, than thou dost
Defeat, thwart me? Oh, the sots and thralls of lust
Do in spare hours more thrive than I that spend,

Sir, life upon thy cause. See, banks and brakes
Now, leavèd how thick! lacèd they are again
With fretty chervil, look, and fresh wind shakes

Them; birds build – but not I build; no, but strain,
Time’s eunuch, and not breed one work that wakes.
Mine, O thou lord of life, send my roots rain.

– Gerard Manley Hopkins

Sois sempre o Justo, ó meu Senhor, se houver contenda
de mim conVosco. Deus, dizei-me então por que
prospera o ímpio e aonde eu ando não se vê
nada além despontar meu desapontamento?

Fosses imigo, ó Vós, o meu amigo, eu penso,
como faríeis mais frustrar-me ou mais perder-
me, se os capachos da Luxúria têm poder
de, em ócio, ir mais além de mim, eu, quem empenha,

Deus, vida em Vossa Obra? O arbusto, o bosque, jaz-
em verde viço, vede-os! c’roas de matizes
revêm-lhes, e eis o vento ameno move-os, traz

frescor; a ave se aninha, ainda eu não me aninhe:
castrou-me o Tempo, e não emprenho obra eficaz.
Ó Vós, Vida da vida, regai-me as raízes.

§

Au milieu de la guerre, en un siecle sans foy,
Entre mille procez, est-ce pas grand folie
D’escrire de l’Amour ? De manotes on lie
Des fols, qui ne sont pas si furieux que moy.

Grison et maladif r’entrer dessous la loy
D’Amour, ô quelle erreur ! Dieux, mercy je vous crie.
Tu ne m’es plus Amour, tu m’es une Furie,
Qui me rends fol, enfant, et sans yeux comme toy :

Voir perdre mon pays, proye des adversaires,
Voir en noz estendars les fleurs de liz contraires,
Voir une Thebaïde, et faire l’amoureux.

Je m’en vais au Palais : adieu vieilles Sorcieres.
Muses, je prens mon sac, je seray plus heureux
En gaignant mes procez, qu’en suivant voz rivieres.

– Pierre de Ronsard

Num século sem fé, em meio a guerras,
réu de processos mil, será loucura
escrever sobre o Amor? Por menos curam
de outros loucos algemar, menos feras.

Velho e doente adentrar o Amor, não erra
quem o faça? Deus, esta lei, conjuro-a.
Não mais Amor, tu és-me a vera Fúria:
faz-me fulo e infante e cego como ela.

Ver perder-se o país, entre adversários
e estandartes flor-de-lis contrários;
frente à Tebaida, bancar o amoroso.

Vou-me ao Palácio: adeus, magia antiga.
Ó Musa, eu faço as malas, mais gozoso
é vencer meus processos, que o segui-la.
§

The Second Coming

Turning and turning in the widening gyre
The falcon cannot hear the falconer;
Things fall apart; the centre cannot hold;
Mere anarchy is loosed upon the world,
The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere
The ceremony of innocence is drowned;
The best lack all conviction, while the worst
Are full of passionate intensity.

Surely some revelation is at hand;
Surely the Second Coming is at hand.
The Second Coming! Hardly are those words out
When a vast image out of Spiritus Mundi
Troubles my sight: somewhere in sands of the desert
A shape with lion body and the head of a man,
A gaze blank and pitiless as the sun,
Is moving its slow thighs, while all about it
Reel shadows of the indignant desert birds.
The darkness drops again; but now I know
That twenty centuries of stony sleep

Were vexed to nightmare by a rocking cradle,
And what rough beast, its hour come round at last,
Slouches towards Bethlehem to be born?

– William Butler Yeats

The Second Coming

Gira-girando, e a gira a agigantar-se,
o falcão não pode ouvir o falcoeiro;
coisas desintegram-se; o centro cede;
mera anarquia é liberta contra o mundo,
a maré-sangue é liberta, e, em toda parte,
a cerimônia da inocência afoga-se;
os melhores, inconvictos, enquanto
os piores — intensos, passionais.

Decerto a Revelação bate à porta;
decerto a Segunda Vinda bate à porta.
Segunda Vinda! As palavras mal saem,
vem-me a imagem vasta do Spiritus Mundi
perturbar-me as vistas: no vago areal,
um vulto — corpo-leão/tez humana,
olhos-vácuo, impiedosos como o sol —
move as coxas lentas, e, em torno, sombras-
satélite, aves do deserto indignadas.
De novo, trevas; porém agora eu sei
que vinte séc’los de sono de pedra em
berço de balanço infligem pesadelos.
E qual besta rude, arribada a hora enfim,
rasteja até Belém para nascer?

§

Victor Queiroz (Campinas/ SP, 1991), formado em Composição pela UNESP, onde travou contato com a teoria e prática da tradução-arte, por meio do professor e amigo Omar Khouri. Desde então, dedica-se, enquanto poeta, sobretudo à prática da tradução, contribuindo com a Ponto Virgulina. Entre os seus principais interesses poéticos, encontram-se os Modernismos, dentro e fora do Brasil, e as poesias francesas clássica e pré-Simbolista; e ainda o Concretismo em toda a sua extensão: da poesia visual aos tratados teórico-críticos e (belíssimas) traduções desenvolvidas pelos Noigandres. Lançou este ano Uranium 235, pela editora Urutau e já apareceu aqui na escamandro com 1 poema.


*

 

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poesia, tradução

Um salmo de John Milton, por Cesar Veneziani

BEM AVENTURADA TRADUÇÃO

Traduzir poesia obriga o tradutor a enfrentar uma incontável quantidade de problemas. Traduzir poesia que se baseia num texto canônico e sensível a uma gama ainda maior de intenções e significados é um desafio multiplicado. Essa multiplicação de dificuldades é o que se apresenta ao se traduzir o “Psalm II” de John Milton (“The Poetical Works of John Milton”, Oxford, Clarendon Press, 1900). O Salmo II, texto bíblico traduzido em poema por Milton em 1653 a partir do hebraico e cotejando com a vulgata, a tradução latina e ainda, certamente, também cotejando com a recém-publicada King James Version – KJV de 1611, tida hoje em dia como uma tradução exemplar da bíblia em língua inglesa, exige para sua tradução poética para o português o mesmo procedimento, uma vez tratar-se de texto doutrinário e sagrado para milhões de leitores.

Antes de qualquer coisa, analisemos o poema. O Salmo II de Milton é apresentado em terça rima e os versos são pentâmetros iâmbicos. A reprodução desta forma adotando-se o decassílabo como correspondente do pentâmetro iâmbico é uma opção imediata.

Com a devida atenção ao cuidado que o texto exige, buscamos traduzi-lo tendo à mão o correspondente bíblico em português que mais se identifica com a KJV, a tradução de João Ferreira de Almeida feita também ao final do século XVII (Almeida Revista e Atualizada – ARA, consultada em 11/07/2018 no site http://biblia.com.br/joaoferreiraalmeidarevistaatualizada/salmos/sl-capitulo-2/).

Apresentamos a seguir o poema de Milton, a tradução de Almeida e a nossa tradução do poema de Milton apoiada no texto de Almeida.

Cesar Veneziani

* * *

PSAL. II. Done Aug. 8. 1653. Terzetti. – John Milton

Why do the Gentiles tumult, and the Nations
      Muse a vain thing, the Kings of th’earth upstand
      With power, and Princes in their Congregations
Lay deep their plots together through each Land,
      Against the Lord and his Messiah dear.
      Let us break off, say they, by strength of hand
Their bonds, and cast from us, no more to wear,
      Their twisted cords: he who in Heaven doth dwell
      Shall laugh, the Lord shall scoff them, then severe
Speak to them in his wrath, and in his fell
      And fierce ire trouble them; but I saith hee
      Anointed have my King (though ye rebell)
On Sion my holi’ hill. A firm decree
      I will declare; the Lord to me hath say’d
      Thou art my Son I have begotten thee
This day; ask of me, and the grant is made;
      As thy possession I on thee bestow
      Th’Heathen, and as thy conquest to be sway’d
Earths utmost bounds: them shalt thou bring full low
      With Iron Scepter bruis’d, and them disperse
      Like to a potters vessel shiver’d so.
And now be wise at length ye Kings averse
      Be taught ye Judges of the earth; with fear
      Jehovah serve, and let your joy converse
With trembling; kiss the Son least he appear
      In anger and ye perish in the way
      If once his wrath take fire like fuel sere.
Happy all those who have in him their stay.

Salmos – Capítulo 2 – Almeida

  1. Por que se enfurecem os gentios e os povos imaginam coisas vãs?
  2. Os reis da terra se levantam, e os príncipes conspiram contra o SENHOR e contra o seu Ungido, dizendo:
  3. Rompamos os seus laços e sacudamos de nós as suas algemas.
  4. Ri-se aquele que habita nos céus; o Senhor zomba deles.
  5. Na sua ira, a seu tempo, lhes há de falar e no seu furor os confundirá.
  6. Eu, porém, constituí o meu Rei sobre o meu santo monte Sião.
  7. Proclamarei o decreto do SENHOR: Ele me disse: Tu és meu Filho, eu, hoje, te gerei.
  8. Pede-me, e eu te darei as nações por herança e as extremidades da terra por tua possessão.
  9. Com vara de ferro as regerás e as despedaçarás como um vaso de oleiro.
  10. Agora, pois, ó reis, sede prudentes; deixai-vos advertir, juízes da terra.
  11. Servi ao SENHOR com temor e alegrai-vos nele com tremor.
  12. Beijai o Filho para que se não irrite, e não pereçais no caminho; porque dentro em pouco se lhe inflamará a ira. Bem-aventurados todos os que nele se refugiam.

Salmo II – Feito Fev 10. 2018. Tradução em tercetos.

Porque será que os pobres se enfurecem
      E os povos coisas vãs tenham sentido?
      E se erguem reis e príncipes que tecem
Traições contra o Senhor e seu Ungido
      Dizendo: “Laços rotos, sem correntes”!
      Por todo o céu um riso então é ouvido.
Quem mora nas alturas, sorridente,
      Senhor que deles zomba, em tom irado
      No tempo certo irá até o descrente
Para deixá-lo assim desconcertado.
      Mas eu, porém, constituí meu Rei
      Ali por sobre o monte Sião sagrado
As leis do meu Senhor eu proclamei.
      E dele, emocionado, ouvi as lições:
      Tu és meu filho, eu hoje te gerei
Pede-me e te darei estas nações
      De herança e até as terras mais distantes
      Farei que sejam tuas possessões.
De ferro o teu cajado em mãos vibrantes
      Que guiam ou que quebram qual uns pratos,
      Quem se insurgir com ar desafiante.
Agora, pois, ó reis, sede sensatos,
      Deixai-vos ser levados ao Senhor
      Terrenos juízes, não sedes ingratos,
Servi com fé e com todo o seu fervor
      Beijai o Filho, em sua aparição
      E nele siga alegre com temor.
Não pereçais em tua direção
      Pois chega o tempo em que serás julgado
      E quem nele refúgio busca então
Será de todo bem aventurado.

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poesia, tradução

Sarah Maguire, por Rob Packer

Sarah Maguire (1957–2017) foi uma poeta inglesa que morreu no ano passado em Londres, deixando uma obra enxuta e expansiva ao mesmo tempo. Em três coletânea (Spilt Milk, 1991; The Invisible Mender, 1997; The Pomegranates of Kandahar, 2007), ela explorou questões do corpo e da natureza, com um olhar que sempre considerava a geografia e história. Um dos poemas traduzidos aqui, por exemplo, trata da expulsão de todos os animais fêmeos do Monte Atos na Grécia; outro prevê o fluxo de migração através do Mediterrâneo que parece influenciar cada vez mais as políticas europeias mais assombrosas. Em outras ocasiões, ela escrevia sobre plantas ou juntou uma antologia sobre poemas sobre flores – uma influência clara da horticultura que ela aprendeu como jardineira depois de deixar a escola cedo.

Além de poeta, ela foi (talvez) ainda mais importante na esfera da tradução. Em 2004, ela fundou o Poetry Translation Centre (PTC) o qual ainda se dedica a traduzir poetas africanos, asiáticos e latino-americanos ao inglês, convidando poetas consagrados como tradutores ou convocando oficinas de tradução, para trabalhar com poemas escritos em zapoteca, dari, georgiano e, sobretudo, o árabe. Ela traduziu poemas dos palestinos, Mahmoud Darwish e Ghassan Zaqtan, e do sudanês, Al-Saddiq Al-Raddi. Além disso, nenhum outro poeta de expressão inglesa em vida teve um livro de poesia traduzido ao árabe.

Rob Packer

* * *

Split Milk

Two soluble aspirins spore in this glass, their mycelia
fruiting the water, which I twist into milkiness.
The whole world seems to slide into my drain by my window.

It has rained and rained since you left, the streets black
and muscled with water. Out of pain and exhaustion you came
into my mouth, covering my tongue with your good and bitter milk.

Now I find you have cashed that cheque. I imagine you
slipping the paper under steel and glass. I sit here in a circle
of lamplight, studying women of nine hundred years past.

My hand moves into darkness as I write, The adulterous woman
lost her nose and ears; the man was fined. I drain the glass.
I still want to return to that hotel room by the station

to hear all night the goods trains coming and leaving.

Leite derramado

Os esporos de duas aspirinas dissolvem no copo,
os micélios frutificam a água que eu viro láctea.
O mundo inteiro escorrega pelo ralo à minha janela.

Não para de chover desde que você partiu, as ruas escuras
e musculosas com a água. Dolorido e exausto você gozou
na minha boca, cobrindo a língua com seu leite bom e amargo.

Agora descubro que você descontou aquele cheque. Imagino
você deslizando o papel sob o aço e o vidro. Estou sentada aqui
no círculo de luz, estudando mulheres de novecentos anos atrás.

Minha mão entra na escuridão enquanto escrevo, A adúltera
perdeu o nariz e as orelhas; o homem foi multado. Viro o copo.
Ainda quero voltar ao quarto de hotel perto da estação

para ouvir a noite toda os trens de carga entrando e partindo.

§

The Garden of the Virgin

‘In the Gospel of the Egyptians … the Saviour himself said,
I am come to destroy the works of the female.’
– CLEMENT OF ALEXANDRIA, Stromateis, Book III

IV

The monks who came to cultivate
the Virgin’s garden
obeyed her law.

St Theodosius the Studite wrote:
Keep no female animal
for use in house or field:

the holy fathers
never used such –
nor does nature need them.

Ewelambs and their ewes
were slaughtered. Cows
butchered. Heifers slain.

The sow, the gilt
and the nanny goat:
all dead and banned.

Bitches murdered one
by one. Each hen
felt the press of thumbs

about her throat, the neck
snapped taut – and then
the slump. Each egg

was gathered up, each eggshell
crumpled in a viscid mess of yolk,
thrown oozing down the cliffs,

where, boiling in the waves,
it made a salty broth
the gulls sucked up.

Only the cats stayed on:
the cats to catch the rats
that dropped their young

despite the monks,
despite the Virgin’s stern
injunction. At night

it was the cats
who ran the place:
softening the hands and throats

of anchorites and cenobites,
their lithe fur
soothing the flesh made stiff

through deprivation.
And at night the wolves
roamed yowling

through the Virgin’s garden:
the sole beast
with cunning enough

to breach the fine neck
of isthmus.
Miles up, alone

in his stone cottage,
reaching only by chains
hung over cliffs,

a hermit wakes up, sodden
from a lycanthropic nightmare,
with his hair

on end. He had sensed
the slow breath
of the wolf, had stared

deep into her lemon eyes,
as still as oil
or candlelight, then

felt himself run off with her –
feral, hirsute, opening out his lungs
to greet the moon.

O jardim da Virgem

‘No Evangelho dos Egípcios … o Salvador mesmo disse,
Vim a destruir a obra da fêmea.’
– CLEMENTE DE ALEXANDRIA, Stromateis, Book III

IV

Os monges que vieram a cultivar
o jardim da Virgem
obedeceram a sua lei.

São Teodósio o Estudita escreveu:
Não mantenha nenhuma fêmea animal
para uso em casa ou campo:

os pais santos
nunca usaram dessas –
nem a natureza precisa delas.

As ovelhas e recém-nascidas
foram abatidas. Vacas
mortas. Novilhas arrasadas.

A porca, a leitoa
e a cabra fêmea:
todas mortas e banidas.

Cadelas assassinadas uma
atrás da outra. Cada galinha
sentiu o aperto de dedões

na garganta, o pescoço
estalou tesamente – e depois
despencou. Cada ovo

foi coletado, cada casca amassada
em uma imundície víscida de gemas,
jogada esvaindo nos rochedos,

onde, borbulhando nas ondas,
virou um caldo salgado
que as gaivotas sugavam.

Apenas as gatas ficaram:
foi para caçar as ratazanas
cuja prole seguia caindo

apesar dos monges,
apesar da injunção severa
da Virgem. À noite

foram as gatas
que regiam o monte:
amolecendo as mãos e gargantas

dos ancoretas e cenobitas,
os seus pelos macios
confortavam a carne

endurecida pela privação.
E à noite as lobas
erravam e uivavam

pelo jardim da Virgem:
o único bicho
suficientemente astuto

para violar a garganta fina
do ismo.
Sozinho numa cabana de pedra,

em um lugar altíssimo
aonde só se chega através de correntes
penduradas nos rochedos,

um eremita acorda, encharcado
de um pesadelo licantropo,
com os cabelos

arrepiados. Tinha sentido
a respiração lenta
da loba, olhado

nos olhos amarelos profundos,
calmos como o óleo
ou a luz de vela, logo

sentiu como escapava com ela –
feral, hirsuto, abrindo os seus pulmões
para saudar a lua.

§

Europe

Merely an idea bruising
the far horizon, as a cold mist tightens into rain –

but at dusk we still wait
by the Bay of Tangiers, on the old city walls, gazing northwards

till the night comes on,
and a necklace of lights gathers the throat of the sea.

The young men burn –
lonely, intent on resolving that elusive littoral

into a continent of promises
kept, clean water, work. If they stare hard enough, perhaps

it will come to them.
Each night, they climb these crumbling ramparts

and face north
like true believers, while the lighthouse of Tarifa blinks

and beckons,
unrolling its brilliant pavement across the pitiless Straits.

Europa

Apenas uma ideia machucando
o horizonte distante, enquanto a névoa fria se adensa em chuva –

mas ao pôr-do-sol ainda esperamos
na Baía de Tanger, na muralha da cidade velha, fitando o norte

até que a noite avança,
e um colar de luzes enlaça a garganta do mar.

Os rapazes ardem –
solitários, determinados a resolver aquele litoral esquivo

em um continente de promessas
cumpridas, água limpa, trabalho. Se olharem fixamente demais, talvez

venha até eles.
Toda noite, eles sobem nestas muralhas decadentes

e encaram o norte
como fieis convictos, enquanto o farol de Tarifa pisca

e acena,
desenrolando sua calçada brilhante sobre o desapiedado Estreito.

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tradução

23 traduções para um poema de Emily Dickinson (1830-1886), por Matheus Mavericco

dickinson_16anos

Com Emily Dickinson as coisas não funcionavam bem no sentido de sentar pra, digamos, escrever um livro de poemas ou entupir um com o que se tem à mão. Para quem publicou em vida só sete dos mais de dois mil que escreveu, é possível que a graça estivesse noutra coisa que não o amontoado retangular de celulose.

Tomemos o caso daquele que começa com “A word is dead”. Curiosamente, sua primeira aparição foi em prosa, na parte final de uma carta enviada em 1872 para Louisa e Fannie Norcross, duas parentes da autora:

Thank you for the passage. How long to live the truth is! A word is dead when it is said, some say. I say it just begins to live that day.

Thomas H. Johnson, um dos primeiros a tentar publicar Emily Dickinson mantendo a radicalidade de sua escrita, diz não saber ao certo se o trecho seria uma espécie de pós-escrito à carta ou se excerto de alguma outra. Dúvida que talvez explique o motivo do poema ter sido estampado em prosa quando era prática comum da autora transcrever poemas seus no corpo das cartas.

Uma segunda explicação reside, conforme informado por Adalberto Müller (nota abaixo), no fato de que o manuscrito da carta não existe. É quando entra uma segunda, escrita de Frances Norcross a Mabel Todd, onde a primeira transcreve o poema dispondo-o em quatro versos, exatamente como Adalberto traduz. Ora: se nossa amiga Frances o tratou como poema, e se ela era conhecida de Dickinson, então maravilha, tratemo-lo como tal.

O que ele tem a nos dizer? Sua simplicidade e concisão são admiráveis. Se por um lado tendemos a dizer que a palavra cai morta assim que sai da boca, quase como se a descartássemos, como se a expelíssemos, por outro, seguindo o argumento do poema, é precisamente quando ela é dita que ela passa a viver. Mas que vida é essa a que Dickinson se refere? Todas as palavras do meu texto são assimiladas pela inteligência do leitor, passando, agora, a fazer parte de seu repertório. Ou seja: a partir do momento em que a palavra alcança o outro, a partir do momento em que ela é dita, ela passa a viver em outras pessoas. Não é o que acontece quando, numa briga de casal, um dos lados retira das cinzas uma única expressão ou um simples tom de voz de semanas atrás?

Segundo Richard Sewall, um dos seus melhores biógrafos, o método dickinsoniano consistia n“a intensificação, ou concentração, de significados nas palavras até que reluzissem ‘como nenhuma outra safira’ – ou seja, até que se tornassem, em mútuo suporte e combinação, a Palavra, um poema que pudesse ‘morar em nós’, vivo, uma fusão corpórea entre o significado e (como na vida humana) o mistério”. O autor compara o método a quando Emerson, no ensaio The Poet, diz que “Não há necessidade que um poema seja longo. Toda palavra já foi um poema.”

Realmente. A vida que Dickinson menciona no último verso é muito mais potente do que a vida social da palavra expressa. Vai além do que ela menciona noutro poema admirável, de que o Livro é uma Fragata que nos transporta a Terras longínquas. Quando Dickinson fala da palavra, ela fala do que é experimentado de um modo intenso a ponto de palpável e quase místico, por exemplo quando, ao comentar a passagem bíblica do Verbo fazendo-se Carne, ela retifica e diz que se fez Carne e passou a morar em nós.

E faz sentido que seja. Sewall comenta que quando Dickinson lia literatura, ela comumente o fazia buscando palavras que reluzissem de forma única. Ora: não foi exatamente isso o que fizemos ao destacarmos, de uma singela carta entre familiares, a imensa força encantatória e poética de duas frases, quase como se a repuséssemos em seu ecossistema original? É na poesia que a palavra adquire sua potência máxima e, se quisermos evocar um contemporâneo de Dickinson que certamente gostaria de ouvir o que a poetisa tinha a dizer sobre a Palavra, passa a dar um sentido mais puro às palavras da tribo.

As traduções abaixo agradam a gregos e baianos. Observe como, na de Nelson Ascher e na de Pedro Mohallem, se buscou recriar o fato de que as duas metades do poema, se juntas, compõem um dístico heróico perfeito (a minha consegue algo parecido, só que traduzindo para um verso de doze sílabas). Ou, naquela de Rubens Enderle, veja a importância que o eco bíblico recebe quando revelado para o leitor. Se mantive as várias versões que um único tradutor fez para o mesmo texto, é com o intuito de mostrar as dificuldades do próprio original, a maneira como cada cabeça opera a seu jeito e, em última instância, para que o leitor contemple a exuberância que a tradução representa, muito além da precariedade que muitos ainda insistem em apontar.

Embora a postagem seja essencialmente montada com o intuito de dar espaço àquelas traduções inéditas, várias já foram publicadas, saídas da lavra de tradutores ilustres como Aíla de Oliveira Gomes, José Lira ou Augusto de Campos. Infelizmente não tive acesso a todas, mas, caso o leitor queira saber pelo menos onde procurá-las, pode ficar com o excelente trabalho de pesquisa levado a cabo pelo Departamento de Letras Modernas da UNESP (clique aqui).

Por fim, agradeço a Adalberto Müller por gentilmente ceder sua tradução, que comporá um volume com a poesia completa da autora traduzida. A nota crítica que acompanha a tradução é publicada logo abaixo de seu texto.

 

Matheus Mavericco

* * *

 

A word is dead
When it is said,
Some say.
I say it just
Begins to live
That day.

F278B / J1212

§

 

Uma palavra morre
Quando é dita –
Dir-se-ia –
Pois eu digo
Que ela nasce
Nesse dia

(Trad. Aíla de Olveira Gomes)

§

 

Uma palavra morre
Quando falada
Alguém dizia.
Eu digo que ela nasce
Exatamente
Nesse dia.

(Trad. Idelma Ribeiro Faria)

§

 

Palavra é morta
Quando está dita,
Dizem uns.
Digo: inicia
A só viver
Em tal dia.

(Trad. José Lino Grünewald)

§

 

Morre a palavra
quando é falada,
dirão.

Digo: – Só então
ela começa a
viver.

(Trad. Abgar Renault)

§

 

Uma palavra morre
ao ser pronunciada
é o que se diz

(flor que se cumpre
sem pergunta)

Digo que é nesse
………….exato dia
que ela começa
………….a viver

(versão de José Lira)

§

 

A palavra morre
Quando ocorre,
Se dizia.
Eu digo que ela
Se revela
Nesse dia.

(Trad. Augusto de Campos)

§

 

Palavra expressa
Extingue e cessa,
Se dizia.
Mas se ela dá-se,
Digo que nasce
Em tal dia.

(Trad. Matheus Mavericco)

§

 

Quanto se expresse
— Dizem — perece
Depressa.
Eu — discordando —
Digo — isso é quando
Começa.

(Trad. Nelson Ascher, 1a versão)

§

 

Palavra expressa
dizem que cessa
sem vida.
Dela, porém,
digo: é recém-
-nascida.

(Trad. Nelson Ascher, 2a versão)

§

 

Palavra expressa,
dizem que cessa
depressa.
Eu, discordando,
digo que é quando
começa.

(Trad. Nelson Ascher, 3a versão)

§

 

DAS PALAVRAS

“Morrem após
calar-se a voz”,
ouvi.
Penso, porém,
que nascem bem
ali.

(Trad. Pedro Mohallem, 1a versão)

§

 

DA PALAVRA

“Perece após
calar-se a voz”,
dizeis.
Digo, porém,
que viva enfim
se fez.

(Trad. Pedro Mohallem, 2a versão)

§

 

Palavra morre
Se lhe ocorre
Ser dita.
Eu não concordo,
Se desse modo
Se agita.

(Trad. Emmanuel Santiago, 1a versão)

§

 

Palavra morre
Se, diz-se, ocorre
Ser dita.
Eu já diria
Que nesse dia
Se agita.

(Trad. Emmanuel Santiago, 2a versão)

§

Palavra morre
Se dita, alguém
Dizia.
Mas, para mim,
Só ganha vida
Tal dia.

(Trad. Emmanuel Santiago, 3a versão)

§

 

Palavra jaz
se dita, já se
dizia.
Mas dela digo
que ganha vida
tal dia.

(Trad. Emmanuel Santiago, 4a versão)

§

 

Morta é a palavra
se pronunciada,
decoram.
Eu digo apenas
que ela nascera
nesta hora.

(Trad. Wagner Schadeck)

§

 

“morre a palavra”
– ouvi –
“se dita”

Me ocorre, porém,
que ali
palpita

(Trad. Pedro Almeida)

§

 

O verbo falado,
segundo o ditado,
morreu.

Que digo? Que ele
ainda hoje
nasceu.

(Trad. Rubens Enderle, 1a versão)

§

 

Palavras ditas,
estão prescritas,
disseram.

Que digo? Que elas,
naquele dia,
nasceram.

(Trad. Rubens Enderle, 2a versão)

§

 

Morre a palavra
Quando alguém fala,
Uns contam.

Digo, no entanto,
Que é o dia em que ela
Desponta.

(Trad. Kleiton Muniz)

§

 

Morre a palavra
Quando falada,
Alguém disse.
Digo, porém,
Daí por diante
Que ela vive.

(Trad. Ivan Eugênio da Cunha)

§

 

25188709_1987761721481145_8604992583097474276_o

(Trad. André Vallias)

§

 

Um mundo fina
se o definem,
dizem.

Digo que só
começa a vida
assim.

(Trad. Guilherme Gontijo Flores)

§

 

A palavra morre, ao ser dita
Diz o povo –
Eu digo que é aí que ela vive
De novo

(Trad. Adalberto Müller)

*

Nota de Adalberto Müller: O manuscrito desse poema enviado a Louise e Frances Norcross, numa carta, no início de 1862, não existe. O poema foi transcrito por Frances Norcross e enviado a Mabel Todd, dessa forma (4 versos). Na carta de Emily às irmãs Norcross, o poema vinha antecedido da seguinte linha: “Obrigado por essa passagem. Quanto demora a vida da verdade!”. Todas as traduções brasileiras seguem um arranjo de versos feito deliberadamente por Thomas H. Johnson (1956, J), corrigido posteriormente por R.W. Franklin (1998, F) e por Cristanne Miller (2016).

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tradução

‘Dom Baal’, de Edith Sitwell, por Alessandro Funari

edith-sitwell

Somente uma breve nota introdutória, um tanto para ‘legitimar’ as alterações da tradução, mas mais para apontar que o poema – e, em geral, a poeta – se baseia na construção constante de relações sonoras, humor meio non-sense e na métrica (nesse caso, a discrepância entre o assunto e a métrica clássica). E foi com esse enfoque que tentei traduzir: dentro do escopo semântico (a apetência do tinhoso), tentando manter as relações de sons, o ar jocoso e imitando o cantar dátilo que move os versos.

Alessandro Palermo Funari nasceu em Campinas (SP), mas reside na capital do estado. É formado em História (porém não historiador) e não é poeta (mas traduz poesia).

* * *

 

When
Sir
Beelzebub called for his syllabub in the hotel in Hell
…….Where Proserpine first fell,
Blue as the gendarmerie were the waves of the sea,
…….(Rocking and shocking the barmaid).

Nobody comes to give him his rum but the
Rim of the sky hippopotamus-glum
Enhances the chances to bless with a benison
Alfred Lord Tennyson crossing the bar laid
With cold vegetation from pale deputations
Of temperance workers (all signed In Memoriam)
Hoping with glory to trip up the Laureate’s feet,
…….(Moving in classical metres) …

Like Balaclava, the lava came down from the
Roof, and the sea’s blue wooden gendarmerie
Took them in charge while Beelzebub roared for his rum.
…….… None of them come!

Quan
do
Baal foi pedir seu mingau no quintal do hotel
…………No Fel, da queda primal de
Prosérpina, azuis qual gendarmes as ondas do mar,
…………(Zoando e chocando a barista).

Não vem nenhum pra servir o seu rum mas as
Raias do céu têm negrume do anum
Acirra-se a sina a benzer com sua bênção a
Alfred Lord Tennyson, como um barrista,
Com frias carquejas de claros cortejos
De obreiros serenos (firmando In Memoriam)
Crendo com glória que topem nos Láureos pés,
…………(Canto com clássicos metros)…

Qual Balaclava, a lava desceu lá do
Céu, e os cerúleos gendarmes marítimos
Os acolheram ouvindo Baal, que berrou por seu rum.
…………… Não vem nenhum!

 

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poesia, tradução

Denise Levertov, por Mariana Basílio

Denise

Denise Levertov (1923 – 1997) foi poeta, escritora e tradutora inglesa, naturalizada nos Estados Unidos e ligada à Geração Beat.

Atualmente traduzo algumas das principais poetas americanas do século XX. Escolhi Denise Levertov para essa colaboração por dois fatores: primeiro, uma intensa ligação que sinto com a poeta no presente, além da mesma ser pouco conhecida no país. De traduções já realizadas da autora, encontrei uma anterior por aqui, por Stefano Calgaro, assim como outra na revista Zunái, feita por Ruy Vasconcelos, e por último, no Jornal Rascunho, por André Caramuru Aubert.

A escolha dos poemas aconteceu a partir de minha leitura dos seus livros, incluindo The Jacob’s Ladder (1961), O Taste and See (1964) e The Sorrow Dance (1967).  São livros que trazem conceitos marcantes da poética de Levertov, com imagens intensas e associações entre o ser, o seu local e a natureza das coisas, também explorando o momento de transição da sociedade na década de 60, incluindo sua constante práxis no feminismo.

Em relação à tradução, busquei uma equivalência em nossa língua para a dicção e o vocabulário da poeta, procurando valer-me de seus recursos e reproduzir a sonoridade do verso livre inglês sem comprometer o sentido, explorando a capacidade fluídica e o impacto de suas palavras.

 Mariana Basílio

***

Quatro poemas dos livros The Jacob’s Ladder (1961), O Taste and See (1964) e The Sorrow Dance (1967).

 

SALMO RELATIVO AO CASTELO

Deixa-me estar no lugar do castelo.

Deixa o castelo estar dentro de mim.

Deixa que ele se eleve firme do anel do fosso.

Deixa que as águas do fosso reflitam a verde plumagem dos patos, deixa que os cascos das tartarugas rompam a superfície ou sejam vistos através das profundezas ondulantes.

Deixa a cavalaria postada nas bordas do fosso, e um cachorro, sempre alertas à chegada do sono.

Deixa que o espaço embaixo do primeiro piso seja escuro, deixa que a água envolva os pilares de pedra e que o vívido lodo verde neles cintile; deixa que lá fique um bote.

Deixa que as cariátides do segundo piso sejam ursos sustentados por vigas que sejam dragões.

No parapeito do salão central, deixa quatro arqueiros, olhando aos quatro horizontes. Dentro, deixa que o príncipe se sinta em casa, deixa-o sentar pensativo, em paz, todas as janelas abertas para as lógias.

Deixa que a jovem rainha se sente no alto, no ar fresco, seu filho nos braços; deixe-a ver com alegria o grande círculo, as sombras peregrinas, o labor do sol e o folgar do vento. Deixa-a caminhar de lá para cá. Deixa as colunas sustentarem o telhado, deixa que os pisos sustentem as colunas, deixa um espaço escuro embaixo do piso mais inferior, deixa que o castelo se eleve firme do fosso, deixa o fosso ser um anel e suas águas serem profundas, deixa que os guardiões o guardem, deixa que hajam vastas terras ao seu redor, deixa que o campo onde ele esteja fique dentro de mim, deixa-me estar onde ele estiver.

 

PSALM CONCERNING THE CASTLE

Let me be at the place of the castle. 

Let the castle be within me. 

Let it rise foursquare from the moat’s ring. 

Let the moat’s waters reflect green plumage of ducks, let the shells of swimming turtles break the surface or be seen through the rippling depths. 

Let horsemen be stationed at the rim of it, and a dog, always alert on the brink of sleep. 

Let the space under the first storey be dark, let the water lap the stone posts, and vivid green slime glimmer upon them; let a boat be kept there. 

Let the caryatids of the second storey be bears upheld on beams that are dragons. 

On the parapet of the central room, let there be four archers, looking off to the four horizons. Within, let the prince be at home, let him sit in deep thought, at peace, all the windows open to the loggias. 

Let the young queen sit above, in the cool air, her child in her arms; let her look with joy at the great circle, the pilgrim shadows, the work of the sun and the play of the wind. Let her walk to and fro. Let the columns uphold the roof, let the storeys uphold the columns, let there be dark space below the lowest floor, let the castle rise foursquare out of the moat, let the moat be a ring and the water deep, let the guardians guard it, let there be wide lands around it, let that country where it stands be within me, let me be where it is.

§

A DOR DO MATRIMÔNIO

A dor do matrimônio:

coxa e língua, amado,
carregam seu peso,

que pulsa nos dentes
Buscamos comunhão

e somos rejeitados, amado,
todos e cada um

É leviatã e nós

em seu estômago
atrás de alegria, alguma alegria
inconcebível fora dele

de dois a dois na arca

dessa dor.

THE ACHE OF MARRIAGE

The ache of marriage:

thigh and tongue, beloved, 
are heavy with it, 
it throbs in the teeth

We look for communion
and are turned away, beloved, 
each and each

It is leviathan and we 
in its belly
looking for joy, some joy 
not to be known outside it

two by two in the ark of 
the ache of it.

§

CANÇÃO DE AMOR 

Tua beleza, que uma vez perdi de vista

por longo tempo, é longa,
não simétrica, e veste

as cores terrosas que me fazem vê-la.

Uma longa beleza. Que é isso?
Uma canção

que pode ser cantada uma e outra vez
longas notas ou longos ossos.

O amor é uma paisagem que as longas montanhas
definem mas não

separam da

distância imperceptível.
No outono, no outono,

tuas árvores esticam
seus braços longos em mangas

de vermelho terra e
amarelo céu, um pouco
podadas. Eu dou

longos passeios por eles. As uvas
que precisam de geada para amadurecer

são âmbar e crescem profundas na
sebe, meio ocultas,
como tua beleza cresce em longas gavinhas

meio na escuridão.

LOVE SONG 

Your beauty, which I lost sight of once
for a long time, is long,
not symmetrical, and wears
the earth colors that make me see it.

A long beauty, what is that?
A song
that can be sung over and over,
long notes or long bones.

Love is a landscape the long mountains
define but don’t
shut off from the
unseeable distance.

In fall, in fall,
your trees stretch
their long arms in sleeves
of earth-red and

sky-yellow, a little
lop-sided. I take
long walks among them. The grapes
that need frost to ripen them

are amber and grow deep in the
hedge, half-concealed,
the way your beauty grows in long tendrils
half in darkness.

§

OS ELFOS

Os elfos não são menores
que os humanos, e caminham
como os humanos fazem, nesse mundo,
mas com mais graça que a maioria,
e não são imortais.

Sua beleza os separa
dos demais homens e mulheres
a menos que uma mulher tenha aquele fogo frio em si

chamado poeta: com isso
ela pode vê-los e por sua luz

eles a conhecem e não a temem

e prateadas línguas de amor
cintilam entre eles.

THE ELVES

Elves are no smaller
than men, and walk
as men do, in this world,
but with more grace than most,
and are not immortal.

Their beauty sets them aside
from other men and from women
unless a woman has that cold fire in her
called poet: with that

she may see them and by its light
they know her and are not afraid
and silver tongues of love
flicker between them. 

***

 

MARIANA BASÍLIO (1989) é poeta. Autora de Nepente (Giostri, 2015) e Sombras & Luzes (Penalux, 2016), atualmente versa Megalômana, e Tríptico Vital (3º lugar ProAC 2016). Tem poemas em revistas do Brasil e de Portugal, como alagunas, Diversos Afins, Garupa, Germina, InComunidade, mallarmargens, Odara, Raimundo, entre outras. Aqui no escamandro já apareceu quatro poemas. Contato: http://www.marianabasilio.com.br

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poesia, tradução

Rob Packer (1982-)

Rob Packer nasceu em Londres em 1982, mas durante a última década viveu em alguns países da Ásia e América Latina. Desde 2011, ele mora no Brasil, atualmente no Rio de Janeiro. Os seus poemas em inglês foram publicados em revistas e sites no Reino Unido e na Irlanda, e alguns poemas exofônicos vão aparecer em publicações na Espanha e no Brasil nos próximos meses. Ele também traduz poesia para o inglês e a Carnaval Press de Londres editou as traduções do Thiago Ponce de Moraes na plaquete, Glory Box, em 2016. Estes poemas são em versão bilíngue feita pelo próprio poeta. Lançou em 2017 o livro Écfrases (7Letras, coleção megamíni).

* * *

A Question of Paralysis

Ekphrasis of a performance by Marília Garcia

Last week I had never seen paralysis. This was a cloud on the seabed. I had frozen, no longer crossing the sky, not taking us forward.

I had changed to another plane. This new act is coincidence and darkness. In the impossibility of movement, I have geographies to think with. A map threads the clouds and they fall. There had been crossed lines and waves. Data transmits through the dust.

The helix paralyses. Dreams come from the tops of the trees. Repeated gestures hover and think with their hands.

So many images passed. I was there in the audience. I tried to follow the thread, explain the quest. I left the questions with holes in.

I was in flight. I should rest. I am disappearing from the radar. Dial in to hear the sound of so many borders closing.

The picture was coming to an end. It was my voice speaking from the past. There were so many things it scared me to think of them.

Dust covers my sight.

Stars exit the sky.

There is just one sound.

Some message lost in the air.

Uma questão de paralisia

Écfrase de uma performance da Marília Garcia

Na semana passada nunca tinha visto a paralisia. Era uma nuvem no fundo do mar. Eu tinha congelado, não mais atravessava o céu, nem nos levava para frente.

Mudei para outra dimensão. Este novo ato é coincidência e escuridão. Na impossibilidade do movimento, devo pensar com as geografias. Um mapa enlaça as nuvens e caem. Tinha linhas cruzadas e ondas. Dados se transmitem na poeira.

Os genes paralisam. Os sonhos vêm dos topos das árvores. Gestos repetidos pairam e pensam com as mãos.

Passaram tantas imagens. Estive lá no público. Tentei seguir o fio da história, explicar a aventura. Deixei as perguntas furadas.

Estava voando. Devia descansar. Desaparecia do radar. Ligue para ouvir o som de tantas fronteiras se fechando.

O filme chegava ao seu fim. Era a minha voz falando desde o passado. Havia tantas coisas que me dava medo pensar nelas.

Poeira cobre a minha vista.

Estrelas saem do céu.

Tem apenas um som.

Alguma mensagem perdida no ar.

§

vertigem sobre o planalto

… quanto falta até terminar esse voo, pousar até que eu possa falar para alguém desse poema ou desse ensaio como aquele que o ismar falou para mim na praça são salvador, bebendo refrigerante, não cerveja e sentados no playground, não no ground onde os batuques ensaiam o carnaval ou só nos dão um ritmo de fundo para os latões e as latinhas, as periguetes como dizem em salvador da bahia que deixei agora, dos jovens valentes de laranjeiras, catete e flamengo, os bons jovens valentes das laranjeiras e cateter e do flamingo ou do belga, que talvez em algum guia ou em uma matéria de 36 horas de dicas no new york times ou guardian, embora aí a leitora generosamente pode ter 48 horas de lazer porque ela chegou sexta numa cidade onde tem ou pode ter uma praça de foliões foliando no ensaio de batuques e latas de cerveja small ou large compradas dos vendedores que trouxeram isopores de gelo e cerveja estupidamente gelada, não porque às vezes congela, mas porque é só pela estupidez que vai chegar na temperatura onde toda cerveja precisa ser desprezada, como o edu fez a primeira noite que eu passei nessa cidade, ficando no saara, um colchonete no chão e antes de sequer saber que português seria a língua que iria falar durante tantos anos, mas não na versão que sempre imaginava que falaria, a do meu lado do atlântico, mas ainda com ditongos nasais eu pratico desde que estive em roma e tive um guia de conversação que dizia representar todas as línguas da europa salvo as partes novamente abertas e cujas cidades eu pesquisava para aquela rodada de civilization 2 quando os portugueses conquistaram todos os povos do mundo terminando com os zulus e cujas cidades e panoramas eu nunca logrei desenhar, esboçando numa folha de a4 pegada na janela e que continha o sistema de metro perfeito com uma estação a cada quilômetro, se não me engano, embora a escala eu nunca tenha acertado, tão invejoso de todos que tiveram a sorte de viver em paris onde em menos de 500 metros você encontra uma boca do metropolitain, cuja abreviatura oxítona foi adotada aqui, onde a locutora severa fala em que lugar colocar a mochila e que sempre fique atento como se as instruções que acabou de dar só fossem uma indicação da possibilidade teóricas de chegar ou não em algum lugar da zona norte sem ter que cotovelar um caminho para dentro de um trem chinês estupidamente gelado no estácio, que eu nunca entendi se era eustace ou uma referência através de estácio de sá ao poeta beato que vai com dante nos últimos cantos do purgatório e quem observou a censura da beatriz, já por que dante estava pensando em outras mulheres, tal como porque eu estive procurando sexo com outros homens quando eu tinha um que à diferença da vita nuova não foi levado e ninguém lhe ofereceu de comer um coração, mesmo lá em florianópolis mas quem igual beatriz me mostrou a graça infinita e quem estaria mortificado que eu o alinhasse com deus, que como os überzeugten empalhados dizem foi o único mesmo que poderia ter feito uma cidade com tal beleza, se você subtrai as partes sobre as quais voamos agora e a baía doente e o asfalto da pista de pouso aqui no galeão,

vertigo above the planalto

… how much longer until we end this flight, touch down until i can tell someone about this poem or this essay like the one ismar told me about on the praça são salvador, drinking soft drinks, not beer and sitting by the playground, not on the ground where the drums are practising for carnival or just providing backing beat for the latões and latinhas, the periguetes as they say in salvador da bahia, the place i’ve left behind just now, for the good young folk of laranjeiras, catete and flamengo, the good young folk of orange trees and catete and fleming or flamingo, described perhaps in some guide book or a 36 hours in piece in the new york times or guardian, although there the reader is granted a leisured 48 because she flew on friday to a city where there is or could be a square of revellers revelling in the drumbeat practice and the small or large cans of beer bought from the vendors who’ve brought the isopors of ice and beer estupidamente gelada, not because it does freeze sometimes, but because only through stupidity will it not reach the temperature at which all beer must be tipped away, like edu did the first night that i spent in this city, staying in the sahara, a mattress on the floor before i even knew that portuguese would be the language i would speak for years, but not the version that i always guessed i would, the one from my side of the atlantic, whose nasal diphthongs from there and here i practised since i went to rome and had a phrasebook that claimed to represent all the languages of europe, except the newly opened parts and whose cities’ names i researched for that round of civilization 2 when the portuguese conquered the peoples of the world, ending with the zulus and whose cityscapes i never managed to design, sketching on a piece of a4 held up to a window, which held the perfect metro system of simple interchange and a station every kilometre i think although i never got the scale quite right, as envious as i was of all who had the luck to live in paris where within 500 metres you can find a mouth of the metropolitain, whose shortening to metrô with an end stress is adopted here, where the stern announcer tells you where to put your rucksack and always to stay aware as if the instructions she has just given were only an indication of the theoretical possibilities of getting through or not to somewhere in the zona norte without elbowing you way onto the chinese train estupidamente gelado from estácio, which i’ve never figured out is really eustace or a reference through estácio de sá to the beatific poet who goes with dante on the final cantos of the purgatorio and who watched beatrice and her rebuke, for why was dante thinking about other women just as why had i been seeking sex with other men, when i had one, who had unlike the vita nuova, not been taken away and was not offered up a heart to eat, even there in florianópolis and who like beatrice showed me the infinite grace he would be mortified for me to put in any way in line with god, who as the overstuffed überzeugten say was indeed the only one who could have made a city with such beauty, if you subtract the parts that now we’re flying over and the sickened bay and the tarmac of the landing here at galeão,

§

um campo de milho na frança

para os maias, somos da mesma carne,
apertados dentro de camadas de pele.

fiquei entre as suas fileiras de ouro escondido,
esses dentes do verão, os meus irmãos, senti

os olhos se ajustavam ao sol filtrado pela luz deles
e levantei os meus braços dentro dessa manada

de dançarinos. me perguntei se é assim
que se sente a permanência verdadeira,

enquanto nos inclinávamos e balançávamos nos farrapos
extraviados de um furacão que se apagava deste lado do atlântico.

In a French Maizefield

For the Maya, we are of the same flesh,
wrapped tight within our layers of skin.

I stood between their rows of hidden gold,
those teeth of summer, my brothers, I felt

my eyes adjust to sun filtered through their light
and raised my arms among that clump

of dancers. I wondered if this was what
true permanence would feel like, as we

bent and swayed and leant in the wayward rags
of a hurricane blowing out on this side of the Atlantic.

§

Com as nossas raízes em água

Foi alguma coisa que você jogou na minha bebida?
Tantos anos e agora você me faz isso?
Aquelas gemas líquidas ficaram
na barra, no neon. E agiram rápido:
coquetéis sobre gelo e ausência.
Já se começa o zumbido da dança,
as ruas retas se torcem e fundem.
Os prédios desvanecem, os juncos crescem
e sob os pés sentimos o solo se amolecer,
o solo que você perdeu, onde eu fui perdido.
A sua mão nos conduz pelo pântano
até a margem escura da água. Damos um passo.
Os nossos pés se movem, anelam até as grades.
O metal está frio. Já senti este calor.
Foi ali que respirei os esporos e as sementes
que agora brotam dentro de mim.
Os juncos e o cânhamo se tecem, fazem a corda
que retorce e distende no capim molhado.
Sinto o seu solo escuro na minha boca e no meu cabelo.
Vem, já te encho de vapor e barro.

With Our Roots in Water

Was it something you put in my drink?
So many years, now this from you?
Those liquid gemstones stood
on the neon bar and then worked fast:
mixer over ice and absence.
They begin their buzzing dance,
fuse straight streets back against themselves.
The buildings fade, the reeds grow tall.
Underfoot we feel the softening land
you’ve lost, the land that I was lost in.
Your hand leads us through the marsh
to the water’s dark edge. Here we step.
Our feet move across the concrete to the railings.
The metal’s cold. I’ve felt this heat before.
It was there I breathed the spores
and seeds, that germinate inside me now.
The reeds and hemp weave themselves to rope
twisting and spraining in the wet grass.
I feel your dark earth in my mouth and hair.
Come, I’ll fill you with vapour and clay.

§

A predição negativa

eu não vou mais me irritar com os dados de usuários um março de ativos e em estados do país em um ano antes do jogo contra o câncer na região central da capital paulista e o seu nome é uma coisa que não se trata de um vídeo a seguir os passos principais pontos do projeto que não tem nada a ver com a minha agenda de reformas estruturais do mundo e o que não é um dos maiores desafios e o governo federal em Brasília para participar do programa mais de dois anos depois da morte do dançarino de funk no morro dos prazeres e não é um grande número de pessoas que não tem nada a ver com a mesma pessoa que você não tem como não amar esse tipo de crime passional ou seja urgente a vida é assim mesmo

I am not going to get angry with the users’ data one March of assets and in states of the country one year before the game against cancer in the central region of São Paulo and your name is a thing that is not anything to do with a video to follow the main steps points of the project and doesn’t have anything to do with my agenda of structural reforms for the world and which isn’t one of the greatest challenges and for the federal government in Brasília to take part in the trade more than two years after the death of the go-go boy on the mount of pleasures favela and it isn’t a large number of people and doesn’t have anything to do with the same person that you can’t help but love this type of crime of passion or in other words urgent that’s just what life is like

Padrão
poesia, tradução

Don Juan de Byron, por Lucas Zaparolli de Augustini, pt. 1

Ford Madox Brown, “The Finding of Don Juan by Haidee”, 1878.

O melhor Canto do Don Juan de Byron

à beira do bicentenário de Don Juan

 

Byron considerava este Canto “muito decente”, e também algo dull, “monótono”. Porém até seus desafetos reconheciam ser aqui um dos seus pontos culminantes. O poeta S. T. Coleridge, merecedor de vária sátira na obra byroniana, é quem diz (dias após a morte de Byron, em 1824) ser a “melhor” coisa, isto é, a mais “individual”, da mesma.

O genial Canto III teve inclusive trechos traduzidos para o português por Augusto de Campos e Décio Pignatari. Alfim da tradução aqui apresentada estarão alguns comentários sobre eles, à guisa de posfácio.

O jovem Don Juan, metido num adultério, forçado a viajar (Canto I), vira náufrago, envolve-se em cenas de canibalismo e, único sobrevivente, é achado por Haidée, princesa de uma ilha, que se apaixona por ele (Canto II). O pai de Haidée era um pirata que, sumido há tempos, fora dado por morto (mas tal gente nunca morre). E narra-se no Canto III a volta a casa de Lambro. Sátira da Odisseia.

Entretanto, o principal personagem desse épico satírico é o próprio narrador, e as principais aventuras são da ideia, alusões (cita Shakespeare, Butler etc), tiradas retóricas e humorísticas (sua ex-mulher é a “musa dos paralelogramos”, mãe de Ada Lovelace (madrinha da computação)) e descrições pictóricas. Nas estrofes a seguir o narrador divaga sobre o amor e o casamento com crueza cética, passando à narração da volta de Lambro e à descrição dos costumes gregos, que Byron vivenciara em viagens.

A tradução foi feita na mesma forma estrófica do original, a oitava rima, buscando traduzir a maior parte da carga semântica com efeitos rímicos e enjambements. Pentâmetros iâmbicos foram traduzidos em decassílabos que, às vezes, possuem tônicas em ritmo iâmbico, como no último verso da primeira estrofe, ou na terceira estrofe, entre outras.

Lucas Zaparolli de Augustini

* * *

 CANTO THE THIRD

I.
HAIL, Muse! et cetera.—We left Juan sleeping,
Pillowed upon a fair and happy breast,
And watched by eyes that never yet knew weeping,
And loved by a young heart, too deeply blest
To feel the poison through her spirit creeping,
Or know who rested there, a foe to rest,
Had soiled the current of her sinless years,
And turned her pure heart’s purest blood to tears!

II.
Oh, Love! what is it in this world of ours
Which makes it fatal to be loved? Ah why
With cypress branches hast thou wreathed thy bowers,
And made thy best interpreter a sigh?
As those who dote on odours pluck the flowers,
And place them on their breast—but place to die—
Thus the frail beings we would fondly cherish
Are laid within our bosoms but to perish.

III.
In her first passion Woman loves her lover,
In all the others all she loves is Love,
Which grows a habit she can ne’er get over,
And fits her loosely—like an easy glove,
As you may find, whene’er you like to prove her:
One man alone at first her heart can move;
She then prefers him in the plural number,
Not finding that the additions much encumber.

IV.
I know not if the fault be men’s or theirs;
But one thing’s pretty sure; a woman planted
(Unless at once she plunge for life in prayers)—
After a decent time must be gallanted;
Although, no doubt, her first of love affairs
Is that to which her heart is wholly granted;
Yet there are some, they say, who have had none,
But those who have ne’er end with only one.

V.
‘T is melancholy, and a fearful sign
Of human frailty, folly, also crime,
That Love and Marriage rarely can combine,
Although they both are born in the same clime;
Marriage from Love, like vinegar from wine—
A sad, sour, sober beverage—by Time
Is sharpened from its high celestial flavour
Down to a very homely household savour.

VI.
There’s something of antipathy, as ‘t were,
Between their present and their future state;
A kind of flattery that’s hardly fair
Is used until the truth arrives too late—
Yet what can people do, except despair?
The same things change their names at such a rate;
For instance—Passion in a lover’s glorious,
But in a husband is pronounced uxorious.

VII.
Men grow ashamed of being so very fond;
They sometimes also get a little tired
(But that, of course, is rare), and then despond:
The same things cannot always be admired,
Yet ‘t is “so nominated in the bond,”
That both are tied till one shall have expired.
Sad thought! to lose the spouse that was adorning
Our days, and put one’s servants into mourning.

VIII.
There’s doubtless something in domestic doings
Which forms, in fact, true Love’s antithesis;
Romances paint at full length people’s wooings,
But only give a bust of marriages;
For no one cares for matrimonial cooings,
There’s nothing wrong in a connubial kiss:
Think you, if Laura had been Petrarch’s wife,
He would have written sonnets all his life?

IX.
All tragedies are finished by a death,
All comedies are ended by a marriage;
The future states of both are left to faith,
For authors fear description might disparage
The worlds to come of both, or fall beneath,
And then both worlds would punish their miscarriage;
So leaving each their priest and prayer-book ready,
They say no more of Death or of the Lady.

X.
The only two that in my recollection,
Have sung of Heaven and Hell, or marriage, are
Dante and Milton, and of both the affection
Was hapless in their nuptials, for some bar
Of fault or temper ruined the connection
(Such things, in fact, it don’t ask much to mar);
But Dante’s Beatrice and Milton’s Eve
Were not drawn from their spouses, you conceive.

XI.
Some persons say that Dante meant Theology
By Beatrice, and not a mistress — I,
Although my opinion may require apology,
Deem this a commentator’s phantasy,
Unless indeed it was from his own knowledge he
Decided thus, and showed good reason why;
I think that Dante’s more abstruse ecstatics
Meant to personify the Mathematics.

XII.
Haidée and Juan were not married, but
The fault was theirs, not mine: it is not fair,
Chaste reader, then, in any way to put
The blame on me, unless you wish they were;
Then if you’d have them wedded, please to shut
The book which treats of this erroneous pair,
Before the consequences grow too awful;
‘T is dangerous to read of loves unlawful.

XIII.
Yet they were happy,—happy in the illicit
Indulgence of their innocent desires;
But more imprudent grown with every visit,
Haidée forgot the island was her Sire’s;
When we have what we like ‘t is hard to miss it,
At least in the beginning, ere one tires;
Thus she came often, not a moment losing,
Whilst her piratical papa was cruising.

XIV.
Let not his mode of raising cash seem strange,
Although he fleeced the flags of every nation,
For into a Prime Minister but change
His title, and ‘t is nothing but taxation;
But he, more modest, took an humbler range
Of Life, and in an honester vocation
Pursued o’er the high seas his watery journey,
And merely practised as a sea-attorney.

XV.
The good old gentleman had been detained
By winds and waves, and some important captures;
And, in the hope of more, at sea remained,
Although a squall or two had damped his raptures,
By swamping one of the prizes; he had chained
His prisoners, dividing them like chapters
In numbered lots; they all had cuffs and collars,
And averaged each from ten to a hundred dollars.

XVI.
Some he disposed of off Cape Matapan,
Among his friends the Mainots; some he sold
To his Tunis correspondents, save one man
Tossed overboard unsaleable (being old);
The rest—save here and there some richer one,
Reserved for future ransom—in the hold,
Were linked alike, as, for the common people, he
Had a large order from the Dey of Tripoli.

XVII.
The merchandise was served in the same way,
Pieced out for different marts in the Levant,
Except some certain portions of the prey,
Light classic articles of female want,
French stuffs, lace, tweezers, toothpicks, teapot, tray,
Guitars and castanets from Alicant,
All which selected from the spoil he gathers,
Robbed for his daughter by the best of fathers.

XVIII.
A monkey, a Dutch mastiff, a mackaw,
Two parrots, with a Persian cat and kittens,
He chose from several animals he saw —
A terrier, too, which once had been a Briton’s,
Who dying on the coast of Ithaca,
The peasants gave the poor dumb thing a pittance:
These to secure in this strong blowing weather,
He caged in one huge hamper altogether.

XIX.
Then, having settled his marine affairs,
Despatching single cruisers here and there,
His vessel having need of some repairs,
He shaped his course to where his daughter fair
Continued still her hospitable cares;
But that part of the coast being shoal and bare,
And rough with reefs which ran out many a mile,
His port lay on the other side o’ the isle.

XX.
And there he went ashore without delay,
Having no custom-house nor quarantine
To ask him awkward questions on the way,
About the time and place where he had been:
He left his ship to be hove down next day,
With orders to the people to careen;
So that all hands were busy beyond measure,
In getting out goods, ballast, guns, and treasure.

XXI.
Arriving at the summit of a hill
Which overlooked the white walls of his home,
He stopped.—What singular emotions fill
Their bosoms who have been induced to roam!
With fluttering doubts if all be well or ill—
With love for many, and with fears for some;
All feelings which o’erleap the years long lost,
And bring our hearts back to their starting-post.

XXII.
The approach of home to husbands and to sires,
After long travelling by land or water,
Most naturally some small doubt inspires —
A female family’s a serious matter,
(None trusts the sex more, or so much admires —
But they hate flattery, so I never flatter);
Wives in their husbands’ absences grow subtler,
And daughters sometimes run off with the butler.

XXIII.
An honest gentleman at his return
May not have the good fortune of Ulysses;
Not all lone matrons for their husbands mourn,
Or show the same dislike to suitors’ kisses;
The odds are that he finds a handsome urn
To his memory—and two or three young misses
Born to some friend, who holds his wife and riches—
And that his Argus—bites him by the breeches.

XXIV.
If single, probably his plighted Fair
Has in his absence wedded some rich miser;
But all the better, for the happy pair
May quarrel, and, the lady growing wiser,
He may resume his amatory care
As cavalier servente, or despise her;
And that his sorrow may not be a dumb one,
Writes odes on the Inconstancy of Woman.

XXV.
And oh! ye gentlemen who have already
Some chaste liaison of the kind—I mean
An honest friendship with a married lady—
The only thing of this sort ever seen
To last—of all connections the most steady,
And the true Hymen, (the first’s but a screen)—
Yet, for all that, keep not too long away—
I’ve known the absent wronged four times a day.

XXVI.
Lambro, our sea-solicitor, who had
Much less experience of dry land than Ocean,
On seeing his own chimney-smoke, felt glad;
But not knowing metaphysics, had no notion
Of the true reason of his not being sad,
Or that of any other strong emotion;
He loved his child, and would have wept the loss of her,
But knew the cause no more than a philosopher.

XXVII.
He saw his white walls shining in the sun,
His garden trees all shadowy and green;
He heard his rivulet’s light bubbling run,
The distant dog-bark; and perceived between
The umbrage of the wood, so cool and dun,
The moving figures, and the sparkling sheen
Of arms (in the East all arm)—and various dyes
Of coloured garbs, as bright as butterflies.

XXVIII.
And as the spot where they appear he nears,
Surprised at these unwonted signs of idling,
He hears—alas! no music of the spheres,
But an unhallowed, earthly sound of fiddling!
A melody which made him doubt his ears,
The cause being past his guessing or unriddling;
A pipe, too, and a drum, and shortly after—
A most unoriental roar of laughter.

XXIX.
And still more nearly to the place advancing,
Descending rather quickly the declivity,
Through the waved branches o’er the greensward glancing,
‘Midst other indications of festivity,
Seeing a troop of his domestics dancing
Like Dervises, who turn as on a pivot, he
Perceived it was the Pyrrhic dance so martial,
To which the Levantines are very partial.

XXX.
And further on a troop of Grecian girls,
The first and tallest her white kerchief waving,
Were strung together like a row of pearls,
Linked hand in hand, and dancing; each too having
Down her white neck long floating auburn curls—
(The least of which would set ten poets raving);
Their leader sang—and bounded to her song
With choral step and voice the virgin throng.

XXXI.
And here, assembled cross-legged round their trays,
Small social parties just begun to dine;
Pilaus and meats of all sorts met the gaze,
And flasks of Samian and of Chian wine,
And sherbet cooling in the porous vase;
Above them their dessert grew on its vine;—
The orange and pomegranate nodding o’er,
Dropped in their laps, scarce plucked, their mellow store.

XXXII.
A band of children, round a snow-white ram,
There wreathe his venerable horns with flowers;
While peaceful as if still an unweaned lamb,
The patriarch of the flock all gently cowers
His sober head, majestically tame,
Or eats from out the palm, or playful lowers
His brow, as if in act to butt, and then
Yielding to their small hands, draws back again.

XXXIII.
Their classical profiles, and glittering dresses,
Their large black eyes, and soft seraphic cheeks,
Crimson as cleft pomegranates, their long tresses,
The gesture which enchants, the eye that speaks,
The innocence which happy childhood blesses,
Made quite a picture of these little Greeks;
So that the philosophical beholder
Sighed for their sakes—that they should e’er grow older.

XXXIV.
Afar, a dwarf buffoon stood telling tales
To a sedate grey circle of old smokers,
Of secret treasures found in hidden vales,
Of wonderful replies from Arab jokers,
Of charms to make good gold and cure bad ails,
Of rocks bewitched that open to the knockers,
Of magic ladies who, by one sole act,
Transformed their lords to beasts (but that’s a fact).

XXXV.
Here was no lack of innocent diversion
For the imagination or the senses,
Song, dance, wine, music, stories from the Persian,
All pretty pastimes in which no offence is;
But Lambro saw all these things with aversion,
Perceiving in his absence such expenses,
Dreading that climax of all human ills,
The inflammation of his weekly bills.

XXXVI.
Ah! what is man? what perils still environ
The happiest mortals even after dinner!
A day of gold from out an age of iron
Is all that Life allows the luckiest sinner;
Pleasure (whene’er she sings, at least) ‘s a Siren,
That lures, to flay alive, the young beginner;
Lambro’s reception at his people’s banquet
Was such as fire accords to a wet blanket.

CANTO III

I.
Fala, Musa! et cetera. – Juan ficou
No aconchego de um seio belo e feliz,
Visto por olho que jamais chorou,
No amor de um jovem coração, na raiz
Mui santo pra ver vir veneno esguio, ou
Ver que o que odeia a paz lá dorme, quem quis
Ao flux dos puros anos seus pôr mancha,
Pôr pranto em puro sangue de alma mansa.

II.
Oh, Amor! o que há em nosso mundo que toca
E faz fatal ser amado? Ah com cipreste
Em ramos tu revestes tuas tocas,
Fazes do suspiro o melhor intérprete?
Igual quem ama o odor colhe a flor, coloca-a
Em seu peito – só pra que morra – deste
Modo um frágil ser a quem temos carinho
Entra a perecer em nosso peito mesquinho.

III.
Só seu primeiro amado ama-o a Mulher,
Nos outros ela passa a amar o Amor,
Aí é hábito que não pode desprender,
E que cai bem – luva fácil de pôr,
Se pode provar sempre que quiser:
Primeiro o peito a um homem só a dispor;
Depois do que ela gosta é do plural,
Que uma adição enorme não faz mal.

IV.
Não sei se é culpa do homem ou dela é;
Mas bem certo é; uma mulher deixada
(A menos que afunde a vida na fé) –
Após um tempo deve ser cortejada;
Embora, óbvio, o primeiro dos affairs
O peito inteiro ocupe e aí entra mais nada;
Que haja, diz-se, a que não teve nenhum,
Mas a que teve nunca teve só um.

V.
É melancolia, e algo medroso bem
Da fraqueza humana, tolice, e crime,
Que Amor e Casamento não se deem,
Embora ambos nasçam no mesmo clima; e
Casamento, do Amor, vinagre do vinho vem –
Sóbrio, ácido, ruim – o Tempo oprime-
-O do mais alto aroma no céu posto,
A um sabor familiar, simples, sem gosto.

VI.
Há a antipatia, não sei se isto é sincero,
Entre o presente e o futuro estatuto;
Usa-se elogio não tão verdadeiro
Até vir a verdade tarde e muito –
E o que a gente faz, senão desespera? O
Mesmo muda o seu nome em um minuto;
Por exemplo – Paixão no amante é gloriosa,
No marido é comer na mão da esposa.

VII.
Tem vergonha o homem de ser muito quisto; e
Às vezes fica um pouco aborrecido
(Mas isto, claro, é raro), e fica triste:
Jamais se é sempre à mesma coisa atraído,
Mas é “em nome da fiança que existe”
Que dois se unem até que haja um morrido.
Triste ideia! perder o par que faz linda
A vida, e pôr os criados de luto ainda.

VIII.
No doméstico há algo que se afeiçoa,
De fato, à antítese do Amor real;
Romances tratam casos de pessoas,
Só dão de casamentos bustos; mal
Liga alguém pra arrulho de casório, há
Nada errado num beijo conjugal:
Se fosse a esposa de Petrarca Laura,
Faria sonetos toda a vida para?

IX.
Toda tragédia com morte termina,
E finda toda comédia em casório;
O porvir do par fica à própria sina,
Pois os autores temem ser simplórios
Com o mundo do par, ou a que se inclina,
E é este mundo que pune seus imbróglios;
Deixando-o ao padre e ao pronto livro de ora-
Ções, nada dizem da Morte ou a Senhora .

X.
Que eu lembre, apenas dois possuem canção
Ao Céu e ao Inferno, ou casamento: Dante
E Milton, ambos com péssima afeição
Às núpcias, pois erro ou algo conflitante
No temperamento arruinou a união
(O que, de fato, não requer bastante);
Mas a Beatriz de Dante e a Eva de Milton
Não são inspiradas na esposa, admito.

XI.
Dizem que Dante via a Teologia
Em Beatriz, não uma amante – eu, conquanto
Julguem que faço alguma apologia,
Vejo um comentador num sonho e tanto,
A menos que só a sua sabedoria
Decidiu, e comprovou então; no entanto,
Eu acho que a dantesca abstração extática
É a personificação da Matemática.

XII.
Haidée e Juan não se casaram, porém
Azar o deles, não o meu: não é doce,
Casto leitor, então, culpa pôr em
Mim, a menos que queira que eles fossem;
Se casado os queria, por favor, tem
Que fechar o livro do par no erro, se-
Não o efeito terrível será explícito;
É perigoso ler de amor ilícito.

XIII.
E eram felizes, – na indulgência dita
Proibida do inocente desejo, uai;
Mais imprudente vai cada visita,
Haidée esquece que a ilha é de seu Pai;
Perder o que se gosta é coisa aflita,
Ao menos de início, até que um canse; sai
Sempre Haidée assim, toda chance usa,
Enquanto o pai pirata os mares cruza.

XIV.
É estranha forma de ganhar um cash, a
Roubar bandeira de qualquer nação;
De primeiro-ministro só não se acha
O título, além, sim, da tributação;
Mas ele, mais modesto, humilde faixa
Da Vida toma, e a honesta vocação
Segue em alto-mar seu aquoso caminho,
Algo como um advogado-marinho.

XV.
O bom senhor havia sido pego
Por onda, vento, e presa que mui val’;
E, esperançoso a mais, quedou no pego,
Minando o ânimo um ou outro temporal,
Pondo a pique uma presa; ele, não nego,
Seus presos acorrenta em lote igual,
Numerados; com correntes, colares,
Cada um em média de dez a cem dólares.

XVI.
No cabo Matapão dispôs uns para
Seus amigos maniotas; uns vendeu
Ao correspondente de Túnis, só um cara
Lançou-se ao mar sem venda (era um velho); e o
Resto – um ou outro mais rico, reservara-
-Se a posterior resgate – se prendeu
Junto no porão; aos de comum tipo, ali,
Havia grande demanda ao Dei de Trípoli.

XVII.
O material foi servido igual, pelas
Mais diferentes vendas do Levante,
Salvo porções da presa, que são elas
Clássico artigo de mulher, bastante
Coisa da França, pinças, laços, tigelas,
Guitarras, castanholas de Alicante,
Tudo escolhido que do espólio vai
Roubado à filha pelo melhor pai.

XVIII.
Um macaco, um mastim da Holanda, a arara,
Dois papagaios, e um gato persa e a cria,
Ele escolheu dos animais que olhara –
Um terrier, também, de um Bretão que havia
Morrido em Ítaca, e que ele comprara
Dos camponeses por mor ninharia:
Pra prendê-los no temporal que expande,
Pôs tudo junto num balaio grande.

XIX.
Daí, tendo acertado o assunto marinho,
Despachou barcos de ida e de vinda,
Seu navio carecendo algum alinho,
Mudou seu curso pra onde a filha linda
Segue em seu hospitaleiro carinho;
Mas na parte da praia aberta, e rasa ainda,
Áspera em recife por muitas milhas,
A porta de casa é do outro lado da ilha.

XX.
Ele desembarcou ali depressa,
Alfândega não tendo, ou quarentena
Pra que com questões chatas lhe aborreça,
O modo, o tempo, o lugar que esteve: e na
Manhã já deixou de ponta cabeça
Sua nau, com ordens de fazer querena;
Assim ocupadas mãos pra além da conta,
Daí tesouro, armas, lastro e bens desmontam.

XXI.
Quando chegou ao cume da montanha
Vendo as paredes brancas de seu lar,
Parou. – Cheio de uma emoção estranha
Seu coração forçado a viajar!
Está bem, mal está, a dúvida o assanha –
Por muitos amor, por outros recear;
Sentimentos que esquecem a vida ida,
E trazem o peito ao ponto de partida.

XXII.
Volta à casa a esposo ou pai que partira,
Depois de viagem longa em terra ou mar,
Alguma dúvida de certo inspira –
Mulher da família há que preocupar,
(Ninguém confia mais no sexo, ou o admira –
E odeiam bajular, não vou bajular);
Sem o esposo a esposa é mais sutil, como
Filhas que às vezes fogem com mordomo.

XXIII.
Nem sempre homem bom tem a boa fortuna
Que Ulisses na volta a casa sua usa;
Nem toda viúva fica soturna,
Ou beijo de pretendente recusa;
As chances são que encontre uma bela urna
À sua memória – e duas, três filhas aí inclusas
Do amigo, que está com esposa e fundos –
E que seu Argos – morda-lhe os fundos.

XXIV.
Se solteiro, sua Linda já achará
Casada em sua ausência com rico avaro;
O bom é que a feliz dupla poderá
Brigar, ela, com talento e preparo,
Ele o caso de amor terminará
Qual cavalier servente , ou a desprezá-la; o
Seu pesar feito idiota assim não pode, e
Aí à Inconstância Feminina fará odes.

XXV.
E oh! vós senhores que já possuis desta
Casta liaison – que é, com moça bela
Casada uma amizade mui honesta –
Das coisas assim nada existe entre elas
Mais firme – único vínculo que presta,
Real Himeneu (o primeiro é só tela) –
É, então, não fique muito fora – que
Tem ausente a errar quatro ao dia, tem, vi.

XXVI.
Lambro, nosso advogado-marinho, tem
Mais prática no Oceano que no chão,
Viu o fogo da lareira e ficou bem;
Não tinha metafísica, ou noção
Da razão de não ser triste também,
Ou de qualquer outra forte emoção;
Ama a filha, sua perda choraria,
E igual filósofo a causa não sabia.

XXVII.
Via seus brancos portais ao sol brilhando,
As árvores no jardim, umbrosas, verdes;
Ouvia seu suave riacho borbulhando,
Um cão latindo ao longe; já por ver de
Entre o escuro bosque, frio, marrom, lá andando
Umas figuras, faíscas ao mover de
Armas (no Oriente tudo é arma) – e as mil cores
Das vestes, com da borboleta os fulgores.

XXVIII.
Quando mais próximo ao local viera,
E indício de ócio tal surpreso viu,
Ouviu – ah! não música das esferas ,
Mas mundano som de violão vadio!
Melodia que a audição descrer fizera,
E a causa já além do acho e do alvedrio;
E uma flauta, e um tambor também, daí soa –
O riso menos oriental e ecoa.

XXIX.
Aí pra mais perto do lugar avança,
Descendo lesto um inclinado trecho,
Olhando através da erva que balança,
Entre outros sinais de festa, perplexo,
Vê um bando dos de casa que ali dançam
Como Dervixes, girando em seu eixo,
Mas era a dança pírrica , marcial,
A qual o Levantino é bem parcial.

XXX.
E adiante um grupo de mocinhas gregas,
A mais alta à frente agita o alvo lenço,
Como colar de pérolas se agregam,
Mão com mão, dançam; fulvos cachos pensos
Que por alvos pescoços escorregam –
(Uma só poria dez poetas sem senso);
A líder canta – e o pé e a voz dirigem
Junto o coro daquele bando virgem.

XXXI.
Cá, de perna cruzada em volta aos potes,
Outro estrato social passa a jantar;
Pilaus e carnes veem-se a toda sorte,
Frascos de vinho Sâmio e Quio, e a gelar
O sorvete em poroso vaso; note
Que em cima cresce a vinha no pomar; –
A laranja e a romã que pendem sobre,
Ao toque, e com dulçor, seus colos cobrem.

XXXII.
Em torno a um carneiro branco como a neve,
Crianças trazem flores para pôr nos
Chifres; qual cordeiro que inda mamar deve,
O patriarca da lã, calmo, os seus cornos
Baixa esplendidamente manso, e esteve
A comer de uma palma, e ora desce o adorno
Da fronte em galhofeiro ataque, aí,
Rendendo-se às mãozinhas, volta a si.

XXXIII.
E o perfil clássico, a veste que luz lança,
O grande olho escuro, sua angélica cútis,
Aberta romã rubra, e as longas tranças,
Gesto que encanta, e o olhar que repercute,
E a inocência que benze a alegre infância,
Destes greguinhos um retrato incute;
Pra que o observador filósofo ao vê-los
Suspire por eles – em breve velhos.

XXXIV.
Longe, um bufo anão causos narrava-lhes,
Aos velhos sedados ao redor fumantes,
De ocultos bens em escondidos vales,
De palhaços da Arábia em shows brilhantes,
De como fazer ouro e curar males,
De quem bate e abre pedras com encanto, e
De moças magas que, com um só ato,
Fazem de esposos bestas (isto é fato).

XXXV.
Lá havia inocentes diversões diversas
Pra imaginação e sentidos, música,
Canto, dança, vinho, histórias persas,
Passatempos de forma alegre e justa;
Mas tais coisas a Lambro eram avessas,
Da sua ausência já vira o quanto custa,
Receando que o ápice da ruína humana
Seja a inflação nas contas da semana.

XXXVI.
Ah! que é o homem? que perigo permeia
Os mais felizes já após que a janta aprovem!
Um dia de ouro na idade do ferro, eis aí
Tudo que a Vida ao pecador ditoso move;
Prazer (o que quer que cante) é Sereia,
Que atrai, pra esfolar vivo, o ingênuo jovem;
Ao banquete da gente Lambro logo
Foi cobertor molhado sobre o fogo.

(Continua)

§

Posfácio

Trechos deste Canto foram traduzidos por João Vieira, em prosa; por Décio Pignatari e mais recentemente por Augusto de Campos (2009).

Os concretos traduziram (Campos diz “tecnomediunizou”) os pêntametros byronianos em decassílabos. A forma estrófica foi mantida praticamente idêntica.

Pignatari traduziu cerca de cinco trechos, e somente duas estrofes completas. Da segunda estrofe traduziu apenas quatro versos, alterando a disposição das rimas, usando dessas em or e ar, e acolhendo, de certo modo, só o epigrama que a oitava continha:

Amantes de perfumes colhem flores
E abrigam-nas no seio (mau lugar).
Assim pomos no peito alguns amores
– E este é o lugar mais tumular.
(Pignatari, 2007, p. 198).

Campos traduziu duas estrofes completas das quase cem do Canto III. A primeira e a última. Na primeira o make it new poundiano, isto é, a tecnomediunização, foi ousada, vertendo gerúndio por gerúndio:

Ó Musa, et cetera. Deixei dormindo
Juan no seio do mais suave leito
Sob um olhar que só viveu sorrindo,
E amado por alguém tão sem defeito
Que não sabe o veneno que vem vindo
Para tomar-lhe a alma. No seu peito
Ela pusera um malfeitor, enquanto
Seu coração ia do sangue ao pranto.
(Campos, 2009, p. 47).

§

Bibliografia

AGUSTINI, Lucas de Lacerda Zaparolli de. Don Juan de Lord Byron: estudo descritivo das traduções, tradução, comentários e notas. 2015. Dissertação (Mestrado em Estudos da Tradução) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015. Disponível em: <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8160/tde-01032016-161149/&gt;. Acesso em: 2017-03-01.

BYRON, George Gordon. Don Juan. Edited by T. G. Steffan, E. Steffan e W. W. Pratt. England: Penguin Classics, 1996.

CAMPOS, Augusto de. Entreversos – Byron e Keats. São Paulo: Editora Unicamp, 2009.

PIGNATARI, Décio. 31 Poetas 214 Poemas – Do Rigveda e Safo a Apollinaire. São Paulo: Ed. Unicamp, 2007.

* * *

Lucas Zaparolli de Agustini é bacharel em latim e pós-graduando em Tradução (USP). Seu primeiro livro de poemas, Pelo Andar do Dia, está engatilhado. Canto no Pântano está por vir… Publicou independentemente as Obras Completas de Delmira Agustini.

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