poesia

Pedro Stkls

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Pedro Stkls| poeta | dizedor de poesia | compositor | fotografo. nortista do amapá, fui da amazônia ao sertão. já plantei árvore. me apaixonei e namoro os poemas de manoel de barros e adélia prado. acredito que a vida só é possível se a poesia se fizer presente em palavras, fala e abraços que se demoram. meu grupo de poesia se chama Poetas Azuis e é a coisa que mais amo fazer na vida: poetizar.

*

O POEMA PERDIDO

posso morar em qualquer parte
onde ao menos a gente se esbarre
como vênus e júpiter
sorrindo um para o outro
em novembro numa segunda 13
a olho nu quero ver
como você confere as horas
ou como cruza a esquina
ou como um fio do teu cabelo
sobre a calçada
deixa o dia mais dia
com você quero colecionar xícaras lascadas
como quem guarda cacos de vidros
que refletidos ao sol viram poemas
onde o mundo nos for casa
sempre será o outro lado do mar.
§

ENGRENAGEM

nunca pensei em como vai ser
a última vez que vou te ver
trazendo o sol tatuado
sobre a cabeça
e um dente-de-leão esfarelado
nos seus olhos pra irritar
esse sal que sempre escorre quando
você se depara com a florzinha
que grelou nessa manhã de abril
olha o coração está sobre a toalha
da nossa mesa de jantar
sim! comeremos o amor
vamos morrer de amor
e quando o legista abrir o teu corpo
vai ver que você se alimentou
de um líquido perfumado
você era a fábrica do poema
§

AMOR COM AÇAÍ

ah! daqui o amor
é uma coisa tão urgente
na boca da noite
ele me beija mururés
ah! se a lamparina falasse
como o giral ressoa
ecoa e grita as maravilhas
que a gente desenha
eu cuido do peixe do almoço
ele me pega
e a gente se perde no pitiú
se lambusa
abusa de mim, joão
na canoa eu nunca fiz
na balançar da rede
foi como mergulhar na pororoca
você me tocava naquela hora
não importava que hora o mundo seguia
já era preamar dentro de mim
eu te quis como a bandaia
aquela altura eu já era a tua iara
caboca das águas
voz doce no pé do teu ouvido
meu joão menino,
assobia aquelas coisas todas
outra vez?
aquela gritaria de periquitos
a vida era aquilo
amor que dura e cura
qualquer falta de riso
você me mundiando
e eu me achando
a deusa a estrela rara
e o giral, joão?
e a rede, joão?
que horas tu você volta
com o açaí?
eu nunca comi amor com açaí
como será, joão?
vumbora?
§

POEMA ILHADO PARA UMA CIDADE SUBMERSA

tem a memória
que do outro lado da porta
brinca de molhar os pés
é sempre um jeito
de me dizer que o rio barrento
é como um milagre
que é um amor
que é uma passagem de Deus
aqui ao menos
o rio será o tempo
um relógio de marés-minutos
que a todo instante
quer beber a cidade
o corpo da cidade
como tudo isso nasceu
eu não sei dizer
esse ruído de rio
esse rio que pula muro
esse rio que já esteve aqui
dentro do peito da cidade
agora é um quintal
onde são josé brinca
faz suas travessuras
sobe nas árvores
adoça a boca com fruta
e volta a olhar a ilha
o sol quando nasce no rio
é partícula de poesia
e vai ficando cheio de sol
e tudo de repente é poesia
vira um poema de rio
vira um poema de verão
penso que se jogar a rede agora
pesco um paneiro cheio de poemas
pesco…
o rio outro dia
estava solitário de maresia
e um barco passando
fez uma linha bem na sua aorta
o rio não revidou
o rio fechou os olhos
cansado do dia
o rio sonhou
que era um menino correndo
brincando nas poças da chuva
você rio maior da poesia
visto do espaço
é um caminho sem fim
um cabelo emaranhado
linhas e linhas de água
riscadas pelas canoas
rio amazonas, no principio
tinha um poema ilhado
para uma cidade submersa
recortes de histórias
pessoas mistérios e lendas
agora é um caminho sem volta
a cidade sempre fui eu
você me submergiu
cresceu poesia em mim
§

O CANTO DA AMAZÔNIA

aqui dou nomes ao meu canto
meu caso de amor
essa vontade louca
rítmica mística solar
essa vontade de desaguar
o rio que veio com tamanha devoção
parar aqui dentro e bate vezenquando
forte no casco da alma
é um regatão feito da palavra navegar
é por onde se diz uma reza
do encontro do corpo das folhas
que seguem o caminho das águas barrentas
é a canção sobre as tardes do norte
é a chuva que se mistura com a maré
é um lampião no olho do sol
só para fazer a água evaporar
é o que vem do verde
o sagrado instante quando
o silêncio é abençoado
pelas árvores tempestiando
seus galhos e suas raízes
o silêncio é sobre o que guarda
o canto que sonda a mãe do mundo
e como quem debulha o vento
sigo como quem carrega
mil andorinhas nas costas
e pousa no sopro no garrancho
das açucenas encarnadas
de terreiro de rodado de beleza
é carregar no colo a casa
onde mora o misticismo
da poesia.

*

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4 comentários sobre “Pedro Stkls

  1. Kellen Alves disse:

    Muito maravilhoso poder sentir a emoção transmitidas através da leitura dessas poesias, amei de paixão, q Deus abençoe muito mais seu trabalho sua jornada.

    • Carla Patrícia Ribeiro nobre disse:

      Perfeito poeta. Que a tua poesia siga pelo pais agora e lambuze a sociedade que não conhece O Amapá

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