poesia

Mila Teixeira

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Mila Teixeira (Rio de Janeiro, 1993) é poeta, prosadora, dramaturga e artista visual. Estudou Audiovisual na UFRJ e trabalha como roteirista. Sua primeira peça, Inscrição na Areia, foi montada em Londres e será montada na capital da Escócia em 2020. Acaba de finalizar seu primeiro livro, 12 Poemas Sobre Perda e atualmente está trabalhando na sua próxima peça, O Que Aprendi Roubando Queijo no Mercado. Gosta de escrever em transportes públicos.

*

agora, um poema sobre destino

quero contar pra você
de quando uma jovem carioca
que havia acabado de chegar
à maioridade
isabela o nome dela
por que bela se manca, por que manca se bela?
morreu assim que saiu de uma consulta
com uma astróloga
que lhe disse:
você tem que ser mais flexível
ah!
o sotaque da astróloga era portenho
nasceu em mendoza
sabe-se que gostava de (em ordem alfabética):
astrologia – um tanto quanto óbvio
beijo na boca – quem não gosta?
chicletes de tutti-frutti – tinha muitas cáries
italianos – nunca superou o primeiro marido e se masturbava diariamente pensando nele, que dó
john coltrane – ouvia às tardes, em oração
muamba ilegal – não me pergunte, não tenho nada a ver com isso, eu não sei de nada
sarapatel – sua comida preferida, acredite se quiser
zinixyz – uma marca de vinho, nunca bebi porque tem esse nome pouco atrativo

a astróloga chamou a ambulância assim que viu o corpo de isabela estatelado
no meio da rua
era muito infeliz para alguém tão jovem, parece que tropeçou no meio do caminho
disse a astróloga à sua terapeuta

nunca deixou de pensar em isabela
§

inutilidades

toda coleção carrega em si
seu percentual inútil
não preciso do que tenho em
grandes quantidades
mesmo assim
me satisfaço a cada novo item
coleciono:
réplicas de animais em miniatura
quero muito um elefante uma baleia uma girafa uma onça pintada
para quê?
canecas de museus que visito
uma já seria suficiente e os recipientes de
cerâmica se acumulam no armário da cozinha
para quê?
cartões
talvez minha coleção mais cruel
as réplicas adornam
as canecas são utilizadas é preciso beber
os cartões ficam na minha gaveta perdem sua função
não escrevo neles tampouco os tiro do plástico
eles não receberão palavras de afeto
declarações de amor ou
pedidos de desculpas
apenas ficam na minha gaveta

também coleciono amores frustrados
mas seria de uma cafonice só
começar a falar disso nesse
poema
deixemos para o próximo
§

vou ligar pro m. e dizer:

aquele seu livro?
uma porcaria
aquele poema? tão
ofensivo você deveria
ter vergonha
ele vai ficar
em silêncio vou continuar
relutei e li o outro
demorei a ler porque me
apaixonei pelo eu
lírico perdidamente

vou desligar se ele
me ligar não vou
atender
me encontra em dez anos
m., evita os lugares que
frequento
evita minhas fotografias
minhas bitucas de cigarro
me encontra em
dez anos com novos
poemas e sem
barba porque você é feio sem
barba
e eu te gosto feio
§

a escritora mila teixeira

não se chama mila
seu nome verdadeiro é haya, ela não sabe o que significa
só sabe que é um nome judeu e que sua avó gritava haya o tempo todo

a escritora mila teixeira
não deveria ser teixeira
ela deveria ter um sobrenome estranho
que sua mãe deixou pra lá por ser impronunciável em terras tupiniquins

a escritora mila teixeira
nem escritora é
ela é uma black block com saudade de coquetel molotov
faz explosivos caseiros como ninguém

a escritora mila teixeira sofre de crise de identidade e na verdade é haya mikhailovitch, procurada pela polícia desde junho de 2013

*

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