dois de muitos novos, um curto circuito: inéditos de Adriano Scandolara & Lucas Litrento

O Triunfo de Baco, Cornelis de Vos

Canto I de MOMO REI [uma farsa em onze cantos] de Adriano Scandolara que é é poeta e tradutor de Curitiba, atualmente residente em São Paulo. É o autor de Prometeu Desacorrentado e outros poemas (Autêntica, 2015), uma coletânea de traduções de Percy Bysshe Shelley, e Sansão Agonista, tradução poética da tragédia de John Milton (Editora de Cultura, 2020), além de ter traduzido a obra de outros nomes como Marjorie Perloff, Hari Kunzru e Aldous Huxley. Como poeta, foi um dos membros fundadores do escamandro e autor de Lira de Lixo (Patuá, 2013) e PARSONA (Kotter/Ateliê, 2017), um livro de poesia conceitual construído sobre a Via Láctea, de Olavo Bilac. Seu terceiro livro de poesia, Momo Rei, previsto para ser concluído em 2022, permanece inédito.

CANTO I

ARGUMENTO:
proposição do assunto do poema – o leitmotiv do jumento – blablablá cabalístico – invocação da musa – primeiro item do dissionário hetimomológico – a aparição de Momo – tentativa de justificativa do injustificável – funeral de Crísipo (RIP)

grandes coisas começam com gestos singelos
como se masturbar na banheira
agora
pega os trapos e velha lanterna
leva à rua nada nova ofuscada de sol e ouve
pra te distinguir dos ignorantes e presta
atenção à sabedoria aramaica
que desce como vinho no cálice
do espírito
está escrito: quando
tua urina fluir como rios a ponto de um moinho
poder correr nela e o odor
de teu excremento for como erva aromática
tereis tua paga
assim respondeu o Eterno
à prece do jumento
cansado a trabalhar
geração após geração
sem repouso

sim está escrito mas o problema
é óbvio é onde isso está escrito
o gesto singelo: Jeremias o profeta tristonho
que na casa de banho a semente
derramou igual o cínico na ágora
e imaculado
com sua filha gerou sem querer o filho-neto
Ben Sirá nascido falante e com dentes
e ensinou a Nabucodonosor em seu Alfabeto
o porquê de o jumento mijar onde outro
jumento mijou e o porquê
de o corvo copular pela boca (a maldição de Moisés
acusado de cobiçar sua esposa) e como
depilou o rei Salomão a virilha
da rainha de Sabá

desce sim o vinho
no cálice do espírito
mas é vinho daqueles de caixinha de suco
que histórias absurdas
protesta o filisteu
oras não menos neste mesmo livro
é a de Lilith que você certamente já leu
em lugares suspeitos por aí
e já sabe de cor
como mulher primeira de Adão
que queria ficar por cima na hora de trepar
primeiro arrependimento do criador

mas essa por algum motivo
vocês levam a sério

dois gestos singelos portanto: a punheta
do profeta
e o riso dos rabinos que neste siso
tardio tomamos por verdade (lanterna
em punho vamos Diógenes
atrás da verdade
mas lave a mão antes)

e conta o mestre
havia também um rei
(também está escrito
mas agora no livro
da Iluminação a história é séria)
às vezes levava seu trono no braço
outras na cabeça e os alunos
perguntaram-lhe então: por quê, mestre?
e ele respondeu: porque era um trono maravilhoso
e seria uma pena sentar nele

(claque)

e talvez o riso
(חחחחח)
seja meditação sobre esta letra
como ressoa no álef
o silêncio de todos
ao pé do monte Sinai
(que litúrgico da nossa parte)
aliás canta então
já que estamos tão bíblicos
celeste Musa que do oculto
cimo do Horeb ou do Sinai ditaste
ao pastor que primeiro à raça eleita
etc etc
eu diria se houvesse
alguma musa aqui mas
quando pensei neste poema
era para inscrevê-lo numa bolsa de criação literária
que obviamente não ganhei e agora
situação deplorável não posso me gabar
fui pago pelo governo para escrever a ode ao cu
(ele já banca convenhamos
tantas coisas piores)
certo que o dinheiro não é boa musa
mas a pobreza não ajuda
e agora recai que tarefa ingrata eu sozinho
e sem verba
de Deus justifique a Lei aos homens

logo eu
Ben Zoná o fugido da zona
o mau judeu
o próprio sobrenome perdido ao longo do caminho
incircunciso o sangue
diluído nas veias
criança lavada na pia
da igreja nunca mais frequentada

quando encasquetei de procurar
sentido no mundo e fui
atrás de minhas raízes
revirando volume atrás de volume
os mistérios das letras hebraicas
como os tijolos da criação
até as tabuletas mais opacas
que de fato eram basicamente tijolos
(poético isso)
como se pudesse vislumbrar
no mais alto nível das emanações da Criação
os desígnios do Altíssimo
que culminaram em minha existência absurda
o que consegui foi tornar
minhas crenças ainda mais
absurdas
e vocês que lidem com isso

por isso tardo e retardo
e só agora começo a escrever esquecendo
o que ia dizer quando
mandei o projeto rumo a seu fracasso
e começo aqui e meço aqui este começo e recomeço e remeço
e mexo e remexo e arremesso
mais uma folha ao lixo

começo a contar
aqui agora de Momo
a mimosa história
de como
persona non grata
ele foi expulso do convívio
com os demais deuses
tido como pária e vagabundo
mas em apenas três mil anos
(um piscar de olhos para um deus)
deu a volta por cima e hoje
detém orgulhoso as chaves
da máquina do mundo

é um mito ótimo porque
dirão os coaches
é uma história de superação
e deve servir para inspirar a todos
que quem acredita sempre alcança por isso
pensem positivo e não
desistam dos seus sonhos
mesmo que sejam ridículos
e você seja ridículo
e esteja na merda
e seja um merda
já os padres e pastores e ministros certamente
dirão ser satânica a história
com seus óbvios paralelos
a expulsão do céu o título
de senhor deste mundo
em todo caso não existe
publicidade negativa
e assim todos me ajudam a vender esta bomba
pois meu último livro já deu muito prejuízo

poetas bem se sabe
são mentirosos
e com frequência também caloteiros
especialmente os que fazem poeminha
sobre comer cu em banheiro de rodoviária
por isso não prometo que revelo
nestes versos místicos
a Verdade em si mas
essa busca à luz
da velha lanterna sempre a mesma
a que fixa no olhar
e nos dá náuseas

abrimos nosso dissionário hetimomológico:

“emético”
que ou o que provoca vômito
do hebraico emet (אמת)

que quer dizer verdade
como o cachorro
que morde enfim correndo a roda do carro
falta
de ar calafrio
ânsia enquanto rodopia e à volta teu mundo
desmorona
o estômago embrulhado pra viagem
por isso só um perfeito jumento
pra ir atrás dela

(pigarro)

mas bem eu sou o que sou
a chama me chama
Moshe Moshe
e o pensamento martela
no fundo das ideias
não bem soprado pela
musa ou espírito santo mas
por aquilo que qualquer pessoa sensata
ignoraria como o impulso de meter
o dedo na tomada

e no entanto olhe para este mundo
largue a contemplação
os textos ancestrais
pegue o seu jornal
num dia o oceano pega fogo
tudo normal
no outro enxameia
uma nuvem de gafanhotos
e trevas recaem sobre as capitais
com chuva de fuligem
e nos perguntamos
o que faziam os funcionários do Faraó
quando recaíram as pragas de Moisés
se faltaram no serviço ou prosseguiram
um cartaz hieroglífico dizendo
não existem metas impossíveis
para aqueles que sempre demonstram força de vontade

na parede do escritório

mundo este em que
mais um vírus mortífero
se abate sobre a população
e segue-se um milhão de mortos
porque elegeram um mercenário
corno e contrabandista
misto
de Mussolini com bicheiro
a quem assistimos quase morrer
por não conseguir cagar
peidando ao vivo na TV
seus soluços com cheiro de merda
desarmado e nu
na savana do establishment

como diz seu filho
enquanto as hienas e abutres
jogam cartas na mesa sórdida
de um bumbum guloso qualquer

mundo este em
que sequer dá para fazer piada
porque toda piada vira
profecia

num mundo desses tal impulso
só pode ser legítimo

certo que às tragédias convém solenidade
ombro aos que restam e choram
enquanto os mortos se calam e cabisbaixos
diferente do que se pensa não dançam
mas passado o minuto de silêncio já que Momo
não segura o sol no céu (queima diz ele
a ponta dos dedos) outra vez
com suficientes sóis
da terra ao céu nada
há que se safe

e assim
amigos estamos reunidos aqui hoje
para honrar a vida e a memória de Crísipo de Sôli
filho de Apolônio de Tarso
discípulo de Cleanto de Assos
e respeitável estoico
cerraram-se seus olhos em treva
ontem à tarde quando observava
um jumento bêbado tentando comer um figo
e gargalhou até sufocar.

* * * * * *

imagem não creditada na fonte

“Sandrinho Pts. 1 e 2” é o primeiro poema do livro PRETOVÍRGULA, que será lançado em breve, por Lucas Litrento que é escritor, realizador cinematográfico e produtor cultural, vive em Maceió/AL. Lançou os livros Os meninos iam pretos porque iam (Imprensa Oficial Graciliano Ramos, 2019), o zine de poesia ROBYN (1TXW, 2020) e TXOW (Edipucrs, 2020). Realizou o curta-metragem círculos (1TXW, 2020). Constrói os coletivos artísticos Loitxa Lab, Mirante Cineclube e Pernoite Literário.

Sandrinho Pts. 1 e 2

não sou de contar vantagem nem sorte
dei um murro nele e tô aqui pra contar história
tô aqui vivo pra contar história
(certo que a gente tinha uns 8 anos
e ainda estudava lá no Caic
ele ainda estudava, faz é tempo)
mas tô aqui vivo

— e três mortos. O responsável pelo massacre, Dom Miguel, é este caboclinho que atende pelo nome de

é o sandrinho, né
pois tenho nada pra falar não, meu senhor
não
tenho não, homi!
cê acha que só porque tá com uma câmera desse tamanho
tem moral pra me fazer falar, é?
se saia!

chega aí
chega aí
se eles tão dizendo, então vou fazer

de tudo, pois Maceió vive um verdadeiro inferno
e Satanás tem nome
ou melhor dizendo, tem um vulgo:
é ele, minha senhora; é ele, meu senhor
O SANDRINHO!”

parecia um índio
às vezes saía do meio da mata
com um facão trançado
e uma navalha que brilhava
em toda noite de céu limpo e lua cheia
tinha sempre uns urubus rondando a cabeça
bem de longe

[zoom ótico x2]

o máximo que o celular consegue
o granulado juntando a terra molhada
e as pegadas dos que passaram antes
de todos que passaram antes
todos os verdes um
até os olhos de sandrinho
[pause]
vem pra buscar comida
quem come antes de todos
na grota da alegria

é, pra você ver
quando eu morrer eles vão
achar corpo pra minha cota
defunto pra minha conta, vê só

eu via todo dia
falava comigo quando passava na rua
aqui na rua, nessa rua
sempre brotava ali na esquina,
na boca da ladeira
magro, umas canela fina
arrastando areia
um menino
menos os olhos
os olhos eram de jaguatirica

pesadelo do sistema não ter medo da morte

pisa no chão de barro e no chão de asfalto
meia faixa de areia, meio rastro na veia
o facho de um fantasma
digo sim ele é fantasma feito meu filho
que ainda não existe
e meu avô chora sua morte, repete triste
sandrinho teve sorte sandrinho teve sorte
um raio não cai duas vezes no mesmo lugar
e ele, maestro de si, amplificador de uivos
caiu três vezes e nada mais
ele fez tudo, aquele que come primeiro
ele quis tudo, aquele que matou a todos
ele viu tudo, caiu e levantou três vezes
fugiu pra tudo quanto é canto
abriu mata feito córrego só com seu
bafo de onça, anda no chão de barro
anda no chão de asfalto, faz senda
de sangue com seu machado singrado

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