crítica, poesia

chiu yi chih

chiu yi chih (taiwan, 1982) é filósofo (mestre em filosfia pela USP), professor de filosofia e arte no instituto mandarim yuan de, escritor, poeta, performer e também trabalha no loz-2962 studio em parceria com irael luziano; já morou em hong kong, china e macau, e hoje está em são paulo. mantém o blog philomundus, e recentemente publicou o livro de poesias naufrágios pela editora multifoco.

seu trabalho existe exatamente nessa intercessão entre filosofia, performance midiática e escrita, que se desdobram em conceitos-obras como metacorporeidade e philomundus (explicados por ele próprio, na musa rara); ao mesmo tempo em que funde experiências orientais e brasileiras, mas não para criar um mero exotismo, e sim transpercursos poéticos. bastaria ler o poema “macau”, logo abaixo, para perceber como nada de exótico ganha centro: o que vemos é uma continuidade entre a cidade e o sujeito, corpo e cais,  na solidão da noite exilada que se amplia de macau para qualquer cidade; de modo similar, o corpo, ou metacorpo, do texto seguinte também se desdobra em devires que o entrelaçam no outro. é nesse traslado contínuo que surge o seu texto.

antes dos poemas, deixo também o link para uma entrevista sobre o livro naufrágios no programa arte e letra.

MACAU

para Cláudio Daniel

Os cais de Macau
são
lama podre
faiscando
coágulos:
a vida
arrastada entre
osso
e poças
a madrugada que cai
os olhos
da lua
exilados
no peito.

(de naufrágios)

 

METACORPORIFICÁVEL

maliciosamente submergidas em concavidades enceradas as mãos expiatórias combatem dentro daquele rosto indevassável como se a âncora dos vultos acometidos por uma febre crepuscular as expulsasse para o refúgio do ocaso a tal ponto que inflamadas pudessem se ajoelhar atrás dos tímpanos da tigresa retorcida qual noites reclinadas em fibras de anil na sua famélica raridade de desordem inaudível como se entre milhões de filamentos enfileirados cada uma pudesse se encolher ainda mais enquanto todos insípidos sabores se inseminam por debaixo das efabulações falidas sem poderem decifrar o método de involução dessas pequeníssimas terras tal a indissolubilidade do desejo de certas cadeiras agônicas em cada fenômeno epidérmico onde o ruído da inexatidão pode então se despencar em séries de vidros encarniçados ou como se na latência amplificadora se excitasse a fonética de cada borrão escultórico que parece suspender sobre a costela frágil da lua este pássaro de coração cinzelado ao mesmo tempo em que se fractura aquela ociosa mulher de espelhos fumegantes assim como seria irrefreável a sofreguidão dos nossos renascimentos quando o olho nem parece corresponder àquela rajada íntima de fêmures que cada vez mais vocifera por detrás dos limites improváveis

(inédito)

guilherme gontijo flores

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