poesia

algumas paisagens de júlio castañon guimarães

juliofoto

perspectivas em desafio de reler o mundo
(“um passeio”)

júlio castañon guimarães (juiz de fora, 1951, radicado no rio de janeiro, onde é pesquisador da fundação casa de rui barbosa) é nome conhecido para qualquer um que se interesse por poesia no brasil. além de ter publicado 7 livros de poesia ao longo de quase 4 décadas (vertentes de 1975, 17 peças de 1983, inscrições de 1992, matéria e paisagem de 1998, práticas do extravio de 2003, ensaios, figuras de 2005 & do que ainda|segmentos de 2009) & participado de diversas antologias relevantes dos últimos 20 anos; também já contribuiu com alguns trabalhos importantíssimos de crítica literária, tais como a edição crítica de crônica da casa assassinada (1991), território/conjunções: poesia e prosa críticas de murilo mendes (1993), a organização de sobre augusto de campos (2004), por que ler manuel bandeira (2008) & a recente maravilhosa edição crítica dos dez primeiros livro de drummond, poesia 1930-62; & com traduções de autores importantes,  sobretudo franceses, como francis ponge (13 escritos, 1980),  michel butor (as montanhas rochosas, de 1990), mallarmé (brinde fúnebre e outros poemas, de 2007), além de um valéry que vem sendo anunciado há alguns anos. isso é só parte do seu trabalho, resumi-lo já tomou muito espaço.

como sua obra de poesia, apesar de sucinta se considerarmos que já chega a quase 4 décadas, é bastante ampla, & nós seguimos num humilde esquema blog (portanto conciso & leve, lâmina samurai leminskiana), optei por apresentar um breve comentário & antologia temática da sua poesia.

para JCG o olhar sempre se projeta como leitura das paisagens (termo obsessivo em sua poesia): o espaço em torno é ponto para uma especulação do mundo, marcada pela consciência de que todo enquadramento é inevitavelmente sígnico, portanto ligado ao olho, aos sentidos possíveis do olhar (“uma paisagem que se faz/com alguns nomes”, ou “paisagem é a palavra/que abarca o que adiante se tem”); a paisagem, para existir, precisa de quem lhe dê forma & sentido, ainda que num olhar distraído; & esse sentido se dá por uma rede complexa do pensamento, fora da consciência completa, no entrelaçar da memória (“alguns nomes/ seus rastros de afeto/o nome onde os avós”), termo & tema que também se repete obsessivamente em sua obra. em resumo, “alguma paisagem e seus pontos de afeto”. mas uma paisagem fragmentária que também se desfaz nas reticências (vez por outra agramaticais) dos poemas; esses espaços parecem convidar o leitor a construir sua própria paisagem poética a partir dos traços do texto, como no final de “rubricas”:

por mais que estratégias
em algum recanto da fala
se as luzes só atuam
para criar sombras
onde gesto nenhum

nesse processo, o olho do leitor precisa se misturar ao olhar & aos rastros vagos previamente sugeridos pelo poeta. paisagem, poeta, leitor, todos coexistem num adiamento do sentido do texto, ou da imagem, por intermédio das memórias coexistentes. na poesia de JCG, enquadrar o poema no sentido é um processo análogo ao do olhar na paisagem, são os afetos do leitor que dão a forma final aos poemas, que inventam a paisagem pouco explicitada pelo olhar de JCG. o curioso – que provavelmente garante sua voz peculiar – é que, nesse entrelaçar entre subjetividade & espaço, restam poucos traços de um lirismo sentimental. as paisagens subjetivas de JCG são áridas, abstratas – ou arriscaria dizer até acadêmicas (no sentido da pintura, mas também por lembrar de seu importante trabalho como pesquisador de literatura) – cerebrais nos seus desvios, quase sempre beiram o ensaio, como pensa marjorie perloff ao falar de uma poética witgensteiniana (a escada de wittgenstein, 2005). por vezes, tão inférteis que pouco chamam a atenção em seu idioleto, como se poder ver no seguinte trecho de “dos estudos de objetos e ver”, do livro práticas do extravio:

se os planos se distinguem
pela superposição de recortes
que irregulares compartilham
fragmentos uns dos outros

tal diretriz para medida
ou controle de uma área
avança pela imaginação
se arredores e desvãos

mas alcança reflexões poderosas em determinados momentos, & por isso escolhi 4 poemas retirados de poemas [1975-2005], sua poesia reunida até então na coleção “ás de colete”, pela cosac naify em parceria com a 7letras, e 1 de seu último livro, do que ainda|segmentos, de 2009, em parceria com as pinturas de manfredo de souzanetto, publicado pela editora contra capa.

guilherme gontijo flores

do que ainda 1, de manfredo souzanetto

do que ainda 1, de manfredo souzanetto

NO DIA SEM COR
só com o ressôo
das avenidas já distantes,
as ruas seguem passo a passo
para regiões quase baldias,
num excurso de desaprendizagem
guiado pela incerteza.
Com o crescente espaçamento
das fachadas que se carcomem,
sucedem-se carcaças, restos, entulhos
que vão povoando a possibilidade
de descrição da paisagem.
E de que pouco se aproveitaria – talvez
menos que a inadequação dos modos
de organizar os espaços, que o desamparo
que o lento processo de indistinção.

(de Do que ainda, 2009)

Tríptico (de Matéria e paisagem, 1998)

1

como um morro
(que não chegue a destruir
um horizonte
suas figuras de nuvens)
e com o risco
do que por trás dele

com uma árvore
para sempre debruçada
na curva do rio
sobre as águas que passam
– e seus galhos
espalmados no meio da cena
(da lembrança da cena)

como as pedras
espalhadas na corredeira
com que também
se atropela a enumeração
das peças da paisagem

2

uma paisagem se faz ainda
com alguns nomes
mesmo que
vazios da coisa
esvaída no tempo

alguns nomes
seus rastros de afeto
o nome onde os avós
alguns nomes
Tabuleiro Pomba Guarani Piau
todos os nomes que travam
os nós de uma história
e mais
sua paisagem

3

mas uma paisagem
talvez venha apenas de um foco
pois a paisagem é quando
cada vez mais longínquos
ao olhar de Patinir
os personagens
quase apenas musgo das pedras
quase apenas sombras das árvores

quando então a paisagem
em controle telescópico
– composição de distâncias
acidentes e amplitude
sem subtração de aventuras
e ausências

* * *

Dois poemas estrangeiros (1995)

1

A estrada pelos ouvidos adentro
nem segue, nem volta.
Destino algum a desvia
de uma rota de exatidão,
não tanto por imaginária,
mas por insistente agudeza.
A estrada não tem componentes.
A estrada, não há como evitar
um só corpo de persuasão,
uma só razão de muitos jogos.
A estrada nem é com firmeza a linha
que se entranha no horizonte
ou o que por ela se põe em trânsito.
É antes, aparentemente menos palpável,
o inescapável ruído,
abolidor de graves naus,
agora restos de nada a vogar rasteiras,
pois, o ruído, sinal potente
para fraudar metáforas,
o ruído que, se aos poucos floresce,
do mesmo modo simula ocultar-se,
tanto com intensidade, ou viço, oscilantes
quanto com intervalos irregulares,
sombras de asmas,
mas frequentes o suficiente
para que não se esfacele o traço do trajeto,
fino fio de um desenho (como o que vai
do olho à mão, ou da coisa à imagem),
o ruído que persiste,
vão central em tensão de extremos,
a arvorar aventura e aragem
de permanência imponderável,
ponto equidistante de partidas, chegadas,
não tanto vagas, mas hipotéticas estrelas,
o ruído que tem eixo no oco do cérebro,
onde em nó denso se acumula, um ápice,
um instante em contínuo,
a estirar-se estrada,
sem em fração se deslocar,
passagem imóvel,
nem silêncio nem eco,
um peso, um sempre,
no escuro.

2

De um lado e outro se espraia
o que tem paisagem como nome,
o que até onde a vista alcança
paisagem é a palavra
que abarca o que adiante se tem.
Mas o que parece que se tem é
mais do que uma só distância
– rol de possíveis que escapam
à só palavra, já não apenas paisagem,
mas outra que busca o que nesta não cabe,
ou outras que rebuscam outras.
As margens do trajeto recuam em avanço
para um extremo e outro do horizonte,
numa sucessão de mínimas passagens
entre o que de início se vê como cor,
pouco mais que uma, na verdade duas, três,
e outras mais, até à indistinção,
em que tais ou quais palavras
acompanhem o ritmo com que os tons
e entretons, entre sombras e lances de luz,
se desvencilham do vocabulário,
mesmo o mais sensível, que acolha
seleções por exatidão e júbilo.
Na rede de modulações, certo
que tão discretas quanto persistentes,
insinua-se, além de traços do discurso
das estações, a própria travessia da cena,
diante do que apenas se confirma
o trânsito, sempre, entre pontos até elididos,
mais fino que o permitido perceber
pelas maquinações dos dias,
ainda que não se conheçam as definições
dos extremos, os limites em que se põem,
nem mesmo os gestos que compõem a escala,
e muito menos o dicionário
que com afinação insistente
persiga não apenas a enumeração,
mas a intimidade mesma (a gosma
ou o cálculo) desses gestos.
Pode então o olhar voltar-se distraído
para a vegetação de outono.

sem título, grafite, 50 x 30 cm (de Inscrições, 1992)

como o próprio gesto
de em obsessão reescrever
umas tantas linhas
que por sua forma
insistentes indagam

uns poucos traços
ao se definirem
com precisão delineiam
a forma que se mostra
em vias de dissolução

(júlio castañon guimarães)

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