poesia

Prince e outros poemas – Danilo Augusto

Danilo Augusto

Danilo Augusto de Athayde Fraga nasceu em Salvador em 1990 e é poeta e ensaísta. Por seus escritos, foi publicado nacional e internacionalmente em espaços como o Concurso Universitário Latino-Americano de Literatura, a coletânea de poetas baianos Outros Riscos, pela fundação Pedro Calmon, e o prêmio de poesia Drummond, pelo Sesc. Participou de publicações como a revista Modo de Usar & Co., o Jornal Relevo, a revista Germina, Desenredos, entre outras. É autor do livro Poemas (edição do autor) e editor da revista Ritmo Zero.

(escamandro)

        

Prince e outros poemas

           

Eu escrevo em um Ipad

                                          ao leitor

meu nome é Danilo
Augusto
que o Google completa
de Araujo Pinho
quando procuro
provavelmente mais vezes
que todas outras pessoas juntas

agora são quatro
tô obviamente acordado
escrevendo palavras
neste ipad
que imita o som
de uma máquina de escrever

mas no momento
ele tá no mute
e tem uma barrinha no fim das palavras
que parece piscar
exatamente como meu coração

acho melhor contar
que o nome que  disse
foi um nome inventado
para quando eu ler
este poema que escrevi
não ir lá procurar

           

Você guardou as chaves do meu pai?

você guardou as chaves do meu pai?
não. o que há de mais
em uma porta aberta?
como se não fosse espaço mas
paredes e pedras tudo o mais?
tema os palácios
se for fraco mas se possível
ponha abaixo
como a si mesmo em um travesseiro
ou quando se envelhece
ao se mirar no espelho de um rio

           

Prince

hoje a levei para os exames de um câncer que provavelmente irá lhe matar
e também levei um livro que acabei lendo realmente
sentado no sofá enquanto você caiu no chão com um estrondo feio
que eu não pude ouvir
você começou a andar de um jeito engraçado e foi aí
que eu fechei minha edição de crítica estrangeira e a peguei no colo
e desse jeito nós entramos na sala do seu médico uma vez mais
para saber que ele estava muito preocupado e explicava um monte de coisas
e dava conselhos que no momento eu não poderia entender
de noite em casa eu pensei em um poema sobre isso tudo
“quando eu te levei para passear” era o que eu queria dizer
acho que você estava dormindo quando fui procurar
sobre a cachorra de Kafka e sua língua purulenta
até desistir completamente desta citação
para tentar lembrar de você filhote
para pensar sobre o desejo de uma injeção apaziguante
e poder escrever um poema dramático
agora você está dormindo talvez você nem esteja
você sente dor mas você tem medo de morrer?
(será que essa responsabilidade pertence somente a mim?)
seu médico disse: não são somente as crianças
mas nós todos pensamos somente em nós mesmos
mas acontece que eu parei esse poema e fui até a sua cama
onde você estava calma e feliz
até que acordou por eu ser mesmo mesquinho
você é um animal mas eu o que sou?
e o sogro da minha irmã também vai morrer
mas era você quem cabia dentro da minha mão
quinze anos atrás mas o que foi que aprendi
a não ser isso
que ainda é tudo o que eu posso fazer?

           

jesus porque me abandonaste

jesus porque me abandonaste
tu que nem a ti mesmo te abandonaste?
eras o réu mas eras a luz
ficaste calado mas teu pai eras tu
vestia trapos mas eras o rei
sua coroa de espinhos coroava um deus
na tua carne choravam mulheres e santas
na tua dor os milagres e na tua memória também
e se desesperaste na entrega à própria salvação
e eu não desesperarei?

           

(poemas de Danilo Augusto)

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