crítica, poesia

Leila Danziger

Leila-Danziger

Que a memória é um dos temas essenciais para os judeus ninguém há de contestar – desde o copo que se quebra na ocasião do casamento para lembrar a queda do Segundo Templo de Jerusalém (temperando, segundo a Talmude, o sentimento de celebração da ocasião com uma lembrança dolorosa) até o esforço ativo, ainda mais doloroso pela proximidade cronológica, de não deixar a Shoah cair na negação e no esquecimento. É por isso que eu imagino que eu não consiga deixar de enxergar esse tipo de trabalho também na obra de Leila Danziger (1962), o que, eu diria, faz muito sentido. Nascida e habitante do Rio de Janeiro, Danziger é artista plástica e professora do Instituto de Artes da UERJ e expõe regularmente desde o início dos anos de 1990.

Algumas de suas exposições viraram livros, como Edifício Líbano (2012), Todos os nomes da melancolia (2012) e Diários Públicos (2013). Em Edifício Líbano, Leila traça o que poderíamos chamar de uma forma de arqueologia familiar, explorando os espaços do prédio, situado na encosta do Cantagalo, perto da comunidade do Pavão-Pavãozinho e que carrega em seu nome uma parte do Oriente Médio (e ela cita o Cântico dos Cânticos: “Eis a fonte dos jardins, poço de águas vivas, que correm impetuosamente do Líbano”), onde seu pai Rolf e sua mãe Irene vieram se instalar em 1935, fugindo de Berlim à bordo do navio Aurigny. Rolf faleceu em 2011, e uma boa parte dessa exposição trata das coisas que ele acumulou ao longo de sua nova vida no Brasil, seus arquivos: bilhetes, cartas, canhotos, anotações, blocos, papeis carbono, rascunhos guardados em sacos de leite ou de pão, cartilhas e dicionários do hebraico, enciclopédias, livros de oração – a “liturgia solitária” de um “judaísmo laico”, “afastado de qualquer prática religiosa”, como ela descreve.vanitas-1

Outro de seus trabalhos é a série Vanitas, feita em Tel Aviv, a partir da observação da mídia israelense. O nome remete a um tipo de natureza-morta dos séculos XVI e XVII, “compreendida como uma espécie de advertência à transitoriedade dos valores terrenos”, que, por sua vez, deriva do motivo bíblico do “vanitas vanitatem”, ou “havel havalim” do Eclesiastes/Qohelet. Um dos vídeos dessa série pode ser visto abaixo:

As imagens de Vanitas estão inclusas em Todos os nomes da melancolia, e esse trabalho com a mídia de massa encontra continuação em Diários Públicos.

Como poeta, propriamente dito, no sentido de autora de versos (porque longe de mim afirmar que não haja algo muito forte de poético em seu trabalho como artista plástica), Leila Danziger é autora do volume três ensaios de fala (2012), publicado pela 7Letras. Desde a capa do livro (uma de suas peças, chamada Os que vivem à beira da dissolução, uma fotografia de borrachas escolares), fica claro como o seu trabalho poético mantém esse diálogo inevitável com o seu trabalho como artista plástica, evidenciando, porém, uma presença maior de um eu, ainda que um “eu” muitas vezes quase apagado, como uma forma de articulação, um elo entre as memórias do pai e as memórias do filho, nascido em 1996 – e, nisso, ela acaba por me lembrar um pouco a obra de outra poeta judia de quem gosto muito, que foi a Dahlia Ravikovitch (que menciona seu filho, Ido, em vários de seus poemas), que já traduzi em algumas postagens anteriores aqui no escamandro.

É desse livro, então, que extraio os poemas que compartilho com vocês abaixo. Mais sobre ela pode ser visto em seu site, clicando aqui. No momento, ela tem também uma exposição em cartaz, recém-inaugurada, chamada Mares poderão subir por mais mil anos no Ateliê da Imagem, no Rio de Janeiro.

Adriano Scandolara

           

Dever de casa

Anotou em sua agenda

                Escrever um texto comentando Tristão e Isolda.
                Todas as histórias de amor são uma só.
                Não há amor sem luta e sofrimento.

21 de agosto de 2009, sexta-feira.

Tinha 13 anos.

        

Pontualidade

Às seis e trinta e cinco, eu abro a janela
e os jornais oscilam com o vento:
a carcaça da baleia, o herói de pedra,
a criança que atravessa um rio a cavalo.

O dia começa à espera de um aceno.
O menino eleva o olhar ao décimo andar
no exato instante
em que fecha o portão de ferro.

Eu devolvo imobilidade às imagens e me retiro
por trás do vidro sempre empoeirado
que filtra a brutalidade crescente do sol.
(No lugar do mundo em que estou, as estações nunca se cumprem.)

De passagem, inspeciono
minúsculas configurações
de sujeira e mofo
em progressão

Há perspectivas da casa que desconheço,
                                               pontos
em que me demoro
não mais do que instantes.
Sei que há vida
no vão inalcançável
entre o armário e a estante
onde o que cai
se ausenta

e reaparece –

livre de função, urgência,
sentido.

É mesmo importante
que alguns lugares da casa
vivam sem mim.

        

Aventurado

ele diz o nome do navio
ele tem corpo de sopro, pele fina como papel
Irene é a soma dos desencontros
ele diz Salomon e chora
seu nome anagrama de flor
ninguém é tão engraçado quanto ele, quando chora

                      (legado de palavras técnicas e letras góticas
                      arquivos em sacos de leite CCPL
                      e envelopes do Jerusalém Post
                      caixas de microclimas
                      florações de pó)

ele diz Mimosa de Copacabana
ele conta o rubor da princesinha diante dos encantos do marquês
sua voz veste remotos filactérios
salmodia débitos e créditos
seu corpo é gelo fino sobre um lago
ele diz Weißensee e chora

(Leila Danziger)

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