crítica, poesia

ronaldo azeredo (1937-2006)

Azeredo

ronaldo azeredo é umas dessas figuras importantes da poesia brasileira que ainda receberam pouco estudo. no seu caso, como no de pedro xisto & de josé lino grünewald, nós temos uma série de poemas conhecidos (“velocidade” é praticamente um emblema da poesia concreta), sem que as caras por trás dos poemas recebem maior atenção. no caso de azeredo, a situação ainda é pior, já que não temos até hoje um livro antologia. com isso, sua poesia pode parecer — erroneamente — uma espécie de concretismo sem nome ou peculiaridade, ou seja, apenas mais um para formar o coro da vanguarda.

apesar dessa ausência de nome próprio nos estudos, a poesia de azeredo é de extrema importância, já que, como edgar braga (pra ficarmos apenas num outro nome ainda pouco comentado), ela se cria & recria nos limites da linguagem, em construções que muitas vezes abdicam do texto escrito para dar mais espaço à visualidade. nessa lista curiosa & cheia de parcerias, temos poema-quebra-cabeça (“armar”, 1977), poema sobre tecido (“panagens”, 1975, com amedea azeredo), em pintura (“céu mar”, 1978, com hermelindo fiaminghi), em instalação (“casa de boneca”, 1980, com amedea azeredo), em vídeo (“pão de açúcar”, 1999, com cid campos), poema partitura (“pensamento impresso”, 1974, com gilberto mendes) & até uma tentativa de poesia para o tato (“lá bis os dois”, 2002).

por isso a importância do livro ronaldo azeredo: o mínimo múltiplo (in)comum da poesia concreta (edufes, 2013, resultado de uma dissertação de mestrado), de marli siqueira leite, um estudo de mais fôlego dedicado exclusivamente à obra peculiar de azeredo, que ainda apresenta alguns poemas que permanecem de difícil acesso. essa pesquisa ainda rendeu uma exposição na casa das rosas, em meados do ano passado. abaixo, um trecho do estudo de siqueira leite, seguido de uma microantologia da micro-obra de azeredo, que ao todo não passa muito dos 30 poemas.

guilherme gontijo flores

ps: aos interessados, confiram o belo trabalho in memoriam que saiu na revista errática, em 2006, aqui.

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“Analisando toda a trajetória do poeta, entre “ro” e “noitenoitenoite”, dentre os textos analisados nesta dissertação, podem-se destacar claramente os seguintes traços:

* tendência do autor à concisão extremada, na busca por algo simples, de impacto visual. Mesmo considerando este aspecto como um dos princípios da poesia, sobretudo da concreta, Azeredo fez dele uma constante em sua produção. Tal característica pode ser observada de forma mais evidente em “velocidade”, “oesteleste” e “ruasol”. Depois, “labor torpor”, “mulher de perolas”, “céu mar” e “noitenoitenoite”. Daí o “mínimo” de “mínimo múltiplo comum”, expressão que intitulou a relação de seus poemas nas revistas do grupo e que dá nome a esta dissertação;

*  vocação ao experimentalismo. O poeta experimentou variadas linguagens, não fazendo do signo verbal uma obrigatoriedade; usou diversificados suportes e materiais, utilizando-se de múltiplas técnicas, a ponto de necessitar de uma equipe para a realização de seus projetos: artistas visuais, designers gráficos, fotógrafos, diagramadores, cenógrafos, etc. Estendeu, o quanto pôde, os limites da poesia, “namorando” as artes visuais, concretizando, desse modo, o pensamento de Haroldo de Campos: “A poesia está, para mim, nessa tensão dos limites, nessa exploração dos confins, que tem algo de apocalíptico” (CAMPOS, apud SIMON; DANTAS, 1982, p. 93). Exibiu poemas em forma de cartaz (os da exposição de 1956 e, ainda, “labirintexto”, “céu mar” e “sonhos dourados”), em pranchas (“panagens” e “enquanto durou”), em livros (“é dificílimo predizer o destino disso…”, “automação-paisagem”, “pensamento impresso” e “lá bis os dois”), em forma de objeto (“noitenoitenoite”), de mini- instalação (“casa de boneca”) de quebra-cabeça (“armar”), de vídeo (“Pão de Açúcar”). Daí, o “múltiplo” (e, no caso do título deste estudo, “incomum”);;

* insistência em um jogo paradoxal entre extremos, em uma correspondência com a relação entre o yin e o yang, na cultura chinesa, duas energias opostas e complementares que regem o universo: a ideia de construção e corrosão, expressa em “ro”;; a noção de totalidade entre os poemas “a” e “z”, expostos em 1956, primeira e última letras do alfabeto;; o duplo – trabalho e intuição, rigor e acaso –, em “labor torpor”;; a oposição luxo e doença, no sem título “mulher de pérolas”;; os pólos geográficos Rio de Janeiro e São Paulo, em “labirintexto”;; a presença do masculino e do feminino que se completam em “armar”;; a ambiguidade entre céu e mar, no trabalho de 1978;; vida e morte, em “enquanto durou”, e a integração de razão e sensibilidade, no conjunto da obra;

* quanto à temática predominante, ele priorizou a própria linguagem: o fazer poético e seus conflitos, a poesia e seus questionamentos. Em relação a esse aspecto, não diferiu dos demais concretistas: “O poema é um ser de linguagem. O poeta faz linguagem, fazendo poema” (PIGNATARI, apud SIMON; DANTAS, 1982, p. 94). Para a realização desse propósito, entretanto, a vida se expõe, com destaque, em sua obra, dando corpo aos seus trabalhos (“biopoemas”, como prefere Augusto de Campos). Tem-se o voo da ave, o mergulho do peixe, o passar do tempo, a composição plástica de céu e mar, a vida e a morte em processo contínuo de renovação, tem-se, enfim, a figura da mulher, gestora e mantenedora da vida. Todos esses aspectos, porém, não estão aquém ou além da obra, mas pulsam em seu interior, na sonoridade das palavras e no movimento desenvolvido pelo texto na página, na circularidade proposta pela maioria de seus poemas, na sequência de imagens que se transfiguram e se completam.

Nesse sentido, resume Gonzalo Aguilar, referindo-se, inicialmente, a Décio Pignatari:

[…] a força deste bios faz com que, de todos os poetas, seja Décio, talvez junto com Ronaldo Azeredo, o mais propenso à dissolução da forma no momento em que a vida se apresenta diante da forma, desbaratando-a ou colocando-a em questão (AGUILAR, apud BARROS; BANDEIRA, 200, p. 183).

Em seu processo de criação, os insights convertem-se em trabalhados rigorosos, demorados, ainda que houvesse um descompasso entre o volume dos projetos e suas realizações. O fazer poético não habitou suas horas vagas. Embora ele tivesse uma atividade profissional em outra área, o exercício com a poesia era, para ele, também um ofício. Resistiu o quanto pôde à palavra, lutando para que ela não se tornasse uma obrigatoriedade, mas uma possibilidade. Além disso, pretendeu ser simples e claro, no entanto, muitos de seus poemas se mostram bastante obscuros, exigindo uma investigação mais apurada do leitor.”

(siqueira leite, 2013, pp. 122-3 )

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"a", 1956/1962

“a”, 1956/1962

"z", 1956/1962

“z”, 1956/1962

"a água", 1956/1962

“a água”, 1956/1962

"ruasol", 1957/1962

“ruasol”, 1957/1962

"velocidade", 1962

“velocidade”, 1957/1962

"labor torpor", 1964

“labor torpor”, 1964

"mulher de pérolas", 1971

“mulher de pérolas”, 1971

última página do livro sem título, 1972

última página do livro sem título, 1972

(folheando o livro “automação X paisagem”, 1973)

"pensamento impresso", com gilberto mendes, 1974

“pensamento impresso”, com gilberto mendes, 1974

"arfar", uma das "panagens", com amedea azeredo, 1975

“arfar”, uma das “panagens”, com amedea azeredo, 1975

um "labirintexto", 1976

um “labirintexto”, 1976

(montagem de “armar”, 1977)

"céu mar", 1978, em parecira com hermelindo fiaminghi

“céu mar”, com hermelindo fiaminghi, 1978

"enquanto durou", 1984, com amedea azeredo

“enquanto durou”, 1984, com amedea azeredo

o poema-objeto “noitenoitenoite”, 1999, foto de edson chagas

"método de leitura" do livro "lá bis os dois", 2002

“método de leitura” do livro “lá bis os dois”, 2002

(poemas de ronaldo azeredo)

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2 comentários sobre “ronaldo azeredo (1937-2006)

  1. uma ótima fonte para quem desejar conhecer sobre este poeta.faltou a entrevista que ele deu, aliás, a única em vida que deixaria mais completo. mas como está já é um compêndio de toda sua poesia, muito bom!

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