poesia

enaiê mairê azambuja (1990-)

Visby 177

Namorados no Museu
09/04/2014

Mulher Nua com Colar,
um raro conjunto de porcelana

Eles passam…

Engrenagens expostas de um relógio
Lá fora, leões escoltam
o tempo.

Uma múmia espreita de
sua tumba de vidro:
o peito nu de Buddha,
a seda sustentada
………………………………..(sem cuidado)
por entre dois dedos.

Eles os atravessam…

*

Terra dos porcos-espinhos
Em Fridhem, para Liselotte

Quando eles aparecem
nós nos sentamos muito quietos
e depois de um tempo
– um movimento sensato
ou dois –
cumprimentamos nossos
pequenos mestres espinhosos.

Aqui, eles se integram,
a terra dos porcos-espinhos,
e nossos pátios estão amplamente equipados
com a essência
da vida porco-espinho:
vasta coleção de ruibarbos,
frutas vermelhas,
beterrabas
condenadas pelo hálito de uma noite fria.

Eles se apegam, eu lhes digo:
a flexibilidade dos ruibarbos,
a abertura (vermelha) das frutas
o ângulo tímido de uma beterraba
porque todos pertencemos
à beterraba:
um reino mágico restrito.

A noite
(suas sombras)
torna-os iguais,
torna-nos a todos, de fato.

*

Noite quieta no porto de Visby

Pedalamos pela estrada em alta velocidade
mas o silêncio foi mais veloz do que qualquer movimento
ou emissão de luz.

O ferry chegava mais perto
ao que sentamos no chão, eu senti
as pequenas ondas varrendo
um enorme peso
para a plataforma.

Você observou suas pequeninas
mãos agitadas.
Desta vez, nós seguiríamos o caminho
para o sacrificante futuro de Nynäshamn.

Estávamos, inacreditavelmente
dentro de um vinco bonito da Terra
enquanto o vento fez a ovelha
da bandeira de Gotland
chocar-se contra o mastro e berrar
Eu sou todos vocês e ainda
eu morro.

*

O dia em que tomamos ácido

À noite, olhei-me no espelho
…………………………………….e chorei
enquanto você me chamava para a cama.
Uma das poucas vezes que confessei a mim mesma:
…………………………………….‘Você é bonita’.
Quando te enlacei
enquanto você dormia,
pude ouvir meu coração martelar
e o som afogado do pesado relógio
no andar de baixo.

Na mesma tarde,
você me levou para o jardim.
Sentei-me entre as flores gigantes de néon,
pernas e mãos
dobradas.

De repente, senti a Terra
estremecer diante de mim,
seus lamentos cada vez mais agudos,
à medida que as nuvens velozes
ofereciam-me
clareza sobre o tempo.

Você abriu caminho
entre campos de trigo,
Ollie perseguiu os mesmos velhos gravetos,
o vento envolveu meus olhos
e pressionou seu frescor
contra as minhas costas.

*

Inflorescência

Deslizo meu dedo ao longo da suave
curva de seu pênis
as raízes crescentes
de uma orquídea dentro de um vaso.

Toco uma parede aquecida
a orquídea murmura no escuro
seus lábios maiores do que
os
(aquosos)
olhos azuis.

*

Fotos do Primeiro Amor
Para Philip

Eu poderia lhe escrever toda a história
(como talvez irei, um dia)
sobre nós;
sobre como você tira suas roupas
para deitar-se na cama de madrugada.

mas, ao olhar para estas fotos,
elas me fazem sentir
que vivi o suficiente:
distâncias do primeiro amor
desenharam rugas em meu rosto,
a criança que cava
um punhado de areia
com uma pá de plástico.

As imagens mais fascinantes
são nossos retratos desfocados
tirados na sala-de-estar de um amigo.
O olhar congelado
(insistentemente)
sobre minha testa
enquanto observo seus lábios finos
à meio caminho de uma palavra.

Mais tarde,
desabamos na banheira,
nossos corpos entrelaçados:
peso sobre peso.

Imersos em água quente
só podíamos levantar
em câmera lenta.

*

A Separação
25/02/2014

Meu corpo desprende
da toalha de plástico estendida
……………………………..sobre o oceano,
pinturas esculpidas
em paredes molhadas.

A parede indestrutível:
reflexão tripartite de uma chama
bailando com a brisa,
……………………………………passando
através da porta.

Qual é
o nome
de um jarro
pleno
de água?

O que é o vazio
do que se tem drenado?

(poemas de enaiê mairê azambuja)

* * *

Enaiê Mairê Della Torre Azambuja nasceu em 1990 e, desde muito pequena, por influência dos pais, frequentou a Feira do Poeta no Largo da Ordem, em Curitiba (mas que, de fato, ela só ia mesmo pelo pastel da feira). Diz-se (palavras do pai e constatação por certificado) que ganhou seu primeiro prêmio de poesia infantil aos 3 anos de idade com o dístico “Vi um susto numa coceguinha / Era um fantasma andando por aí”. Depois, quando aprendeu a escrever, descobriu que poesia é artesanato árduo e ininterrupto. Posteriormente, tomou a literatura por profissão, e realizou estudos acadêmicos, tais como acerca da poeta irlandesa Eiléan Ní Chuilleanáin e do poeta sueco Tomas Tranströmer, de quem vem traduzindo muitos porta-jóias (e “jóia-portas”). Já confeccionou seus próprios livros de poesia e já deu a eles títulos bizarros. Coleciona os títulos mais bem acabados, junto com moedas velhas, alguns discos (velhos), postais e cartas de amor. Houve um tempo em que criava joaninhas.

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