poesia

Marcelo Pierotti (1984)

pierottiMarcelo Pierotti (1984) é um nome que me foi recomendado por outro poeta que já passou por aqui, o Leandro Rafael Perez, numa tentativa, como o Leandro mesmo me disse descaradamente, de me influenciar à la Harold Bloom – algo sobre induzir um clinamen, ou desvio, ou coisa assim. Não posso afirmar nada de cara sobre ter sido influenciado (nem acho que isso vá interessar alguém aqui) ou sobre a validade da teoria da angústia da influência, mas é fato que há ao menos uma óbvia afinidade temática. O prefácio do seu livro publicado em 2013 pela editora Patuá, Domingo no Matadouro, conta uma anedota interessante sobre como, em 2007, ele, o Leandro e Raquel Parrine (a autora do prefácio) planejavam montar uma editora artesanal e que o primeiro livro a sair nela seria uma antologia de poemas do Pierotti sem o seu consentimento, chamada Antologia Furtiva, com cada um dos outros dois selecionando 10/15 poemas e esperando que houvesse interseção nos poemas selecionados. Diz o relato que ambos acabaram escolhendo 10/15 poemas completamente diferentes, enfatizando facetas diferentes do poeta, que Raquel descreve como uma sendo “mais simbolista (?)” e “outra mais prosaica”. Acabou que a editora não deu certo, mas alguns desses poemas, agora misturados sem separação de facetas, sobreviveram e entraram com mais outros no Domingo no Matadouro, e o livro foi ganhador do prêmio ProAC em 2012 e integra a coleção Patuscada, cujos livros contam com uma tiragem de 1500 exemplares (em contraste com a média normal, bem menor, de 100 exemplares). Se alguém esperava algum comentário crítico mais profundo de minha parte, bem, desta vez, até por conta do desconforto da proximidade de poéticas, eu vou ficar vos devendo. Mas selecionei aqui alguns poemas do Domingo para servir de amostra do livro. Pierotti atualmente reside em São Paulo e, segundo boatos, anda preparando um volume futuro chamado Ciclo Cínico.

Adriano Scandolara

 

Pierotti lê os poemas “Extravio ou 2008”, “Dois que fumam”, “Mil tsurus” e “Meu esporte” na Casa das Rosas

 

Prova de três

Meu quarto
– meu último quarto
até aqui –
caberia numa gaveta
das várias que vi
nos outros quartos
pelos quais
passei

Minhas latas vazias
vão acumuladas
desde os dezoito
anos de idade,
enquanto mulher
não acumulei
mais que uma.

Não acumulei também
dinheiro ou noite dormida.
Gastei tudo com comida,
umas dúzias de sapatos,
vidro, vento, vermífugos
e meias brancas descartáveis.

Como conta exata me
basta apenas uma:
em minha vida tive
três cachorros mortos.

O maior tinha
quarenta quilos
que carreguei
encharcados
numa noite chuvosa.

 

Um belo dia

Todo mundo já o fez,
todo mundo frente a fuzil
ou fera em pleno sertão,

solto no mar –
sobre pedaço de pau podre –
entre duas ilhas numa
imensidão de água.

Todo mundo, mesmo que
num carro emborcado
de cabeça para baixo,
com a carteira na mão
diante de um revólver.

Todo mundo, eu também,
na mira de dois olhos
faiscantes – raivosos –
que nem dona mais têm.

 

Debaixo da cômoda

Não é um caminho
do ponto A até o B
pelo qual se atravessa
a passos medidos por
fluido que corre ferroso
e no fim você morre.

É uma coleção de fotos
que já vem meio velhas,
vistas cada vez mais sob uma luz,
cada vez mais difíceis de achar
(e no fim você morre).

 

Toda criança é astronauta

O Sol, casado
com a Lua,
deu uma prole
incontável
de astros miúdos
soltos pelo céu.

Com o dedinho
ela indica seus conhecidos:

menino, menina
menina, menino

Concorde:
você, um dia
também esteve
assim
tão íntimo
das estrelas.

 

Dia de faxina

E faz tanto tempo.

Das que foram meio perdidas
no sal e nas cortinas
dos dias contados
ficam unhas
ancas e pés.

Não o melhor,
se bem me lembro,
mas é o que temos.

(Marcelo Pierotti)

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