poesia

Rita Isadora Pessoa (1984-)

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Rita Isadora Pessoa nasceu no Rio, em 1984, é graduada em Psicologia e não graduada em Estudos de Mídia. Estudou a poeta Sylvia Plath no mestrado em Teoria Psicanalítica (UFRJ) e é atualmente doutoranda em Literatura Comparada (UFF), onde estuda o duplo em sua modalidade animal. Trabalha como tradutora, revisora, astróloga e taróloga. Seu primeiro livro de poesia a vida nos vulcões foi lançado no final de agosto de 2016, pela Editora Oito e Meio.

 

sergio maciel

* * *

Noir

faço votos
para que o talho
[a ferida melódica
no teu discurso]
trespasse o teu gesto
no escuro
e afugente de vez
o mal.

porque nos fulge
um apelo
ao corpo
cósmico
deste universo de avalanches
que nos cobrem
em gloriosa aventura
de facas de cozinha escondidas
às pressas
e comprimidos,
e chuveiros ligados
e tempestades elétricas
acuadas em apartamentos
de dois cômodos, sem rotas
de fuga.
tenho tido soluços, arrepios
na base da espinha dorsal,
na base               da questão.
tenho esperado, com insistência febril
por uma revolução sonar
de            decibéis                     inaudíveis;
tenho implorado      re-pe-ti-da-men-te
por      um romance      policial           noir
e pela existência de norma desmond
compacta
em minha mão
imbuída
de todas
as más intenções.

não tenho certeza se
caibo
nesta pequena vida
que       diviso por entre
a janela da sala,
por entre nesgas de compromissos
e heteronormatividades de conduta
e filhos gêmeos – ainda não
nascidos.

 

 

 

ana c.,
não é bem verdade
que virar do avesso é, de fato,
uma experiência
mortal.

porque eu preciso da dúvida
: dessa incerteza corriqueira,
[essa, sim, letal]
sobre a existência de algo
verdadeiro,
sobre a existência de algo
verdadeiro, sobre a existência
de algo verdadeiro
que resista.
sobre a existência que resista
a algo de verdadeiro, eu-preciso-da dúvida
que resista
a algo de verdadeiro
sobre a existência.

 

§

antimusa

aquela que traz,
nas cartas de baralho,
notícias sobre a vida silenciosa nos vulcões;
a cigana verdadeira das suas repetições seriadas.
com pés de mujique e linhas siamesas
para você, morcego siciliano que gastou sua melhor poesia
com as anteriores: valquírias, rosas, lobas e todas
as meninas prodigiosas, musas indiscutíveis;
sua barba ensopada de sangue, seus sonetos escandinavos,
suas certezas de amor jurado na carne trêmula.

mas eu, eu tenho um passado romeno; um coração eslavo
de proporções gregas, com colunas e templos em ruínas.
partilho minhas agruras conjugais com a moça alta da padaria,
seus dois filhos e casa na baixada, anulada entre tijolos e turnos.

mais ainda, minha alma não é legível,
passível de ser extraída em formato compatível.
paga-se um preço pela serenidade doméstica,
serenamente; um holograma ornamental,
esvaziado e preenchido,
repetido até a exaustão dos nossos membros difusos.

a inconsistência de conteúdo
do amor há que ser forma
e caminho.
uma forquilha aos pés de cabra
onde desdobram barbatanas, justo no lugar que havia
apenas respiração
e um breve entorpecimento noturno
da pele.

§

um casamento romeno

quando penso em você
eu me lembro
do som ininterrupto
de patas e correntes
resvalando sobre
a terra batida
do encantador
de ursos
empoleirado
com seu acordeão
longínquo se afastando
do vilarejo
para retornar no verão
seguinte com o mesmo urso
sempre o mesmo urso
a mesma intenção oculta
a fome do bicho
a dança notável do bicho
impressionante
o mesmo urso

me lembro de quando
anoitecia
e a avó ladrava
para eu sair logo da rua
e voltar
para perto
do        fogo
pois aquela era
a hora
dos morcegos
dos mosquitos
das criaturinhas aladas
que voam suicidas
em direção à luz

eu me lembro claramente
do dia do nosso casamento
os sinos dobrando em dois
eu me dobrando em duas
de dor         de desterro
o som dos pratos quebrados
as moedas voando sobre nós dois
os votos de boa fortuna
dos anciões
em vão

our big fat romanian wedding
um matrimônio italiano à leste
de bucareste

nem a teoria do multiverso
explicaria nossa presença nesta
tragicomédia a lakusturica

mas escrever sobre o amor
é como fundar um país íntimo
deslocado                     à parte
de um domínio continental
operante

 

escrever sobre o amor
é como violentar um poema
no seu cerne
de crisálida
quase sem pele
ainda sem asas

e partir sem nada
mais à leste
do que antes

porque escrever sobre você
me faz lembrar de coisas
que eu não deveria lembrar
escrever sobre você
é sempre esse problema:
o choque de metalinguagens
o urso, as patas,
o roteiro cinematográfico
desandado, o fogo, o sangue
as asas.

§

primavera autocrata politeísta apocalíptica

deixem a primavera para bandini
e para keats com seus pulmões em colapso
os girassóis para van gogh
e pelo amor dos deuses, se falarem de andorinhas
que elas sejam radioativas
e não melancólicas

porque aqui não aceitamos mais andorinhas
e nem albatrozes brancos
anacrônicos
apenas os sanguinários

homicidas.

 

aqui nos movemos
na sombra

e cultuamos
tudo aquilo que é
suavemente
~gótico~
[e portanto
deslocado
nos trópicos]

então desliguem
os holofotes
e apreciem
aquilo que cresce e goteja
úmido entre as frestas.

§

sobre o incidente de emagrecer 5kge se tornar uma serpente mítica grega por alguns dias

escrevo este poema
neste estado de cetose
química
que nada mais é do que
o termo médico
para quando o corpo
resolve devorar a si próprio
[como a serpente ouroboros
que engole a própria cauda
infinitamente non stop]
depois de um período de privação
de carboidratos
simples
ou complexos
[ou depressão anoréxica]
ou simplesmente
um jejum prolongado

aqui
entre estas doze paredes
e suas incontáveis quinas
arestas ângulos agudos
o b t u s o s
[eu contei todos esses dias]
não há amor
não há sombra
nem carboidratos
é a porra da terra devastada
do eliot

só há esta luz que penetra
tornando tudo nítido demais
as cores primárias demais
essa saturação insuportável
onde estão os fiftyshades de
qualquer maldita cor que seja?
quem diria que a sutileza
se perdia
junto com os carboidratos?
‘um nevoeiro mental’ o médico disse
‘é um dos sintomas
você vai ver’
significa que está funcionando
e em breve
esse peso também irá embora
[mas não]

eu vejo mesmo todos os contornos
não há nada difuso aqui
nem nevoeiro nem sombra
eu vejo todos os contornos
excessivamente
quero rasurá-los

mas        eles se recompõem
quando eu não estou olhando

§

devagar

com o pensamento em Ana C.

troco o hímen
por um homem
como quem troca
um fonema
por outro

a pele
por outra

flor

escrita nas imediações
das catástrofes naturais

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