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XANTO | Antevéspera, noite interior: atravessar uma canção que me atravessa, por Gustavo Silveira Ribeiro

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I

O desejo talvez seja uma língua secreta. Escrito dentro de cada um numa espécie de criptografia particular, de difícil acesso, é às vezes quase impenetrável: código visceral, senha que se carrega imperceptível sob a pele, mas que impele o corpo para a frente, inquieta-o como uma pergunta sem resposta. Nem sempre se sabe o que se deseja, nem mesmo os motivos obscuros que levaram até ali, até a concreção precisa de um objeto. A beleza de um rosto, as sutilezas de uma pele delicada ou de um cheiro suave seriam razões suficientes para justificá-lo? Ou o riso fácil, agradável e projetivo, a inteligência, quem sabe?, seria capaz de motivar conversas de dez, doze horas seguidas, em assuntos que se encadeiam uns nos outros infinitamente, leves e como que naturais? Por outro lado: por que alguém desejaria tornar-se professor, esgrimista, arquiteto? É presumível que existam motivações claras, tangíveis, mas que certamente não esclarecem a vontade radical, vontade que se impõe e é paixão. Tantas vezes (é possível dizer) deseja-se, simplesmente. E isso é tudo: sem explicações ou narrativas de origem.

Se penso agora em todas essas coisas, é claro, é porque tenho os olhos e as ideias voltados para outro lugar. Não quero falar abstratamente, nunca quis. Penso naquilo (naquela) que desejo, muita coisa se mistura de repente e não se esclarece. Uma delas: há encantamento em mim pela ideia de um filho, pela paternidade, talvez até pelo mistério da gestação – uma vida que se faz em silêncio, secreta dentro do ventre, a partir das partes de dois corpos que são fundamentalmente estranhos um ao outro. De onde vem, por que em mim persiste? Inútil investigar, pois a sensação geral é maior do que o pensamento. O bem-estar em torno de crianças é perceptível, a mim e aos demais que me cercam. E isso, esse conjunto de experiências e questões possivelmente explica de modo parcial (sem desfazer a trama espessa dos afetos), o interesse profundo, a alegria e o fascínio que experimento ao ler o poema de Age de Carvalho (ainda inédito em livro) que se inicia com o verso “Segues a tua estrela”. Nele encontram-se a elegância característica do autor, a precisão vocabular e o refinamento das imagens que marcam a sua poesia; nele estão também colocados, de modo ora bastante cifrado, ora explícito e direto, os motivos da germinação e da fecundidade. Como no mito grego (e em tantas outras narrativas cosmogônicas), no poema o céu se relaciona com a origem da vida, numa espécie de reflexão, em escala cósmica, sobre a luta dos contrários (a guerra, a cópula, o mesmo amor) que está na base do surgimento de tudo o que há: terra, águas, corpos, estrelas.

No poema de Age, o céu se diz no feminino (apesar da marcação linguística de gênero, que permanece a mesma). E ele existe em toda parte: cobrindo a todos, suspenso no ar, leve como luz-balão, e habitando o interior noturno de uma mulher, espírito e carne. No texto, o corpo feminino é apresentado desde dentro, em focalização íntima: “teu ovário está lindo”. A partir dele, desse órgão (que ocupa uma espécie de centro simbólico do poema) vão se desdobrar e expandir motivos associados à criação e ao nascimento, em multiplicação de signos e símbolos: o corpo da mulher será, ao mesmo tempo, um todo-estrelado, poço subterrâneo – pleno de líquido vital –, caverna obscura (cripta), segredo e promessa, manjedoura tranquila e novelo que não termina de se desfiar, de abrir as suas possibilidades de crescimento e transformação. Seus interstícios naturais (do corpo de uma mulher) são pequenas fendas que permitem vislumbrar o mistério, que aqui não convida à decifração ou ao entendimento, mas à entrega, ao mergulho sem anteparos na escuridão e no que não se conhece – ainda que seja possível intuí-lo: como que contrariando o verso (tão conhecido, tão bonito, mas cujo sentido aponta para a morte) de Dylan Thomas “Do not go gentle into that good night”, o poema de Age de Carvalho apresenta a noite como palco privilegiado da criação, da maternidade e da escrita. Recusa-la é refutar a vida e o novo: daí o elogio (indireto) que faz ao olhar ultrassonográfico, à máquina que permite, quase sem luz alguma, ver – e dizer – a beleza dos ovários e dos folículos, “hipótese deposta” à porta do corpo; daí também o chamado à contemplação quase religiosa desses folículos, receptáculos do mundo e “estrelas subterrâneas”, isto é, imagens espelhadas do infinito, espécies de zonas indeterminadas nas quais tudo o que já existiu e tudo o que ainda pode vir a ser se mistura em amálgama, como potência que aponta, ao mesmo tempo, para o passado imemorial (a matéria estelar – gases, partículas, átomos elementares – que talvez nos constitua) e o futuro. Não será gratuitamente, portanto, que no repertório de imagens do poeta estejam mesclados o aparelho médico, índice do mundo tecnológico moderno, e a narrativa arcaica que circula em torno do céu e do feno, signos que remetem ao sagrado, à tradição do sublime (tão próxima do poeta) e ao próprio Cristo em sua cama improvisada de infante miserável.

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As oliveiras, de Leonilson. 1991.

II

As “quatro estrelas subterrâneas”, a imagem mostra, são na verdade apenas duas. Dois folículos novos, prontos, postos cada um de um lado do corpo – ambos prestes a expelir um óvulo. Mais uma vez, e depois de muitos anos de retenções e adiamentos, silêncio e negativas, o céu se repovoa: a “hipótese deposta” é agora mais do que isso: aposta que deve ser refeita, um novo lance de dados que pode conter um mundo. Encriptada, fechada sobre si, a vida que se promete está ali, como que pela metade. O olhar mecânico que ultrapassa a pele, o sangue, as camadas internas da carne e a espessura dos ossos, e que permite o “mergulho/ no subcéu interior”, não revelava apenas o funcionamento daquilo que, dentro do corpo, resguardado da luz e do ar, é matéria vertente, labirinto da origem, elemento que se expande (pode se expandir) para além dos seus próprios limites; o instantâneo tomado do útero e das trompas, dos arranjos intrincados do ventre feminino, passava a expor a partir de então um compromisso e uma expectativa – ativava um outro tempo, dava início à contagem regressiva para um momento que eu, que nenhum de nós, sabia qual era. Antevéspera: o presente como ponto de passagem para o incerto, para o próximo minuto, as horas seguintes. O tempo em suspensão da espera, estreitamento do instante entre o devir e o vir-a-ser. Um relógio invisível que no entanto bate furiosamente.

Apesar de deflagrar todas essas associações e ideias, o poema de Age de Carvalho, é preciso notar, está situado no momento anterior à angústia: seu movimento é o da expansão, sua perspectiva a do alargamento e do deslimite (a angústia é sempre compressão). No ser particular e restrito de uma mulher, nas cavidades e recessos de seu corpo, o poeta localiza um arranjo de estrelas, diminuta constelação; nos quatro folículos próximos da maturação, parte de um ciclo o mais das vezes infrutífero, ele vê a promessa de big bangs, outros universos ocultos, em estado de latência, na “noite possante/ de teu ventre”. No seu texto, tudo cresce e quer crescer mais. Tudo se dirige para fora, tornando-se, ou se revelando, maior do que é. Dentro do que é pequeno e simples a complexidade inextricável aparece, assim como a simplicidade existe e se afirma no centro do mundo, o coração do mistério. O trânsito de um polo a outro – do baixo ao alto, da escala humana à dimensão celeste – é a tônica do poema, indicando o sentido fundamental da transfiguração que nele (e em boa parte da obra do autor) opera: via linguagem, o mundo se transforma, quase sempre, a partir da abertura: as metáforas e deslocamentos semânticos, os desvios da percepção provocados pelo poeta (que monta e desmonta palavras, mistura a oralidade de conversas banais com a elaboração de versos herméticos e precisos, sempre atentos aos seus aspectos sonoros) agem como uma cunha, instrumento que secciona e abre o real, a materialidade concreta das coisas imediatas, e nele, na massa informe e não-controlável da existência, procura distinguir o inesperado, a fulguração, o elemento elevado, o ponto em que a linguagem falha e não pode mais dizer racionalmente; em meio ao cotidiano, enfim, Age de Carvalho revela (ou inventa) o sublime e o sagrado.

O momento preciso em que essas diferentes dimensões se encontram e interpenetram constitui, quem sabe?, o horizonte fundamental da poética em tela. Isso se dá a ver em diferentes planos da criação, em múltiplas instâncias. A linguagem mesma, sua gênese e combinações possíveis, por exemplo, é sinal do que se apresenta. A análise minuciosa, verso a verso, de um poema como o que aqui importa mostra a mistura, forjada a partir da alternância de registros linguísticos, entre distintos modos de operação: a oração segmentada que conforma a primeira estrofe do poema apresenta uma organização estrutural bastante elaborada, seja pelo uso de um vocabulário particular, construído a partir da fragmentação de palavras e sua reorganização (“além-nuvens”, “subcéu”), uma das marcas formais mais comuns da obra de Age de Carvalho, seja pelo tom algo grandioso que um adjetivo como “fulgurante” confere ao enunciado, arrematando-o; seja ainda pelo que há de incomum e surpreendente na imagem proposta, feita a partir da aproximação de contrários: um mergulho (logo uma descida) na superfície do céu (o que indicaria, naturalmente, um movimento ascensional). A metáfora essencial desse trecho, o firmamento privado, íntimo (“subcéu interior”), vem sintetizar a formulação antitética e assinalar, de modo definitivo, o trabalho delicado e assertivo do poeta com a linguagem, seu afastamento da espontaneidade da fala e da feitura despojada do texto. No entanto, a estrofe seguinte, composta por um único verso isolado (‘Teu ovário está lindo”), traz justamente um entrecho mais imediatamente coloquial, frase que guarda certo aspecto conversacional. Por mais incomum que possa ser, o elogio ao ovário aparece como parte de um diálogo interrompido, do qual o leitor só tem acesso a um fragmento. Transformado em peça de um quebra-cabeça formal – uma vez que parece deslocado no centro do poema, indicando talvez a sua origem excêntrica –, o verso contrasta (em tom e em densidade sintático-lexical) com o que no texto vem antes, o verso/oração que remete ao destino e à sagração do feminino, assim como vai se diferenciar das estrofes seguintes, de igual modo marcadas pela solenidade e pelo caráter próximo do grandiloquente que a linguagem, já numa forma de saudação, assume.

Há como que um ajustamento, na poesia de Age de Carvalho, entre a língua e a representação, as palavras e as coisas. Se o movimento em direção ao sagrado e à elevação importa na configuração do poema em foco e em boa parte da obra do autor, de modo mais acentuado de Caveira 41 (2003) em diante, é natural que o poeta se distancie da coloquialidade e dos arquivos da espontaneidade e da comunicação direta, do humor e da facilidade expressiva tantas vezes explorados na lírica brasileira pós-1970. Mais ligado à tradição experimental da poesia de vanguarda de São Paulo, atento mesmo à visualidade e à dimensão sígnica do poema, o escritor vai concentrar-se na fatura de uma linguagem alusiva, assentada sobre cortes e elipses, colagens de fragmentos textuais de procedência diversa, deslocamentos sutis entre idiomas e processos de condensação semântica, elementos que tornam bastante singular a sua poesia, o mais das vezes facilmente reconhecível pelo leitor familiarizado. A presença, portanto, de versos e sintagmas de aspecto conversacional em seus trabalhos serve antes (é o caso mesmo do poema sobre o qual me debruço) como zona de contraste ou disparador do gesto criativo, espécie de energia inicial a partir da qual o poema pode se desenvolver e diferenciar. Recusando a fala de todo dia, o poeta e o poema, entretanto, se alimentam dela, gestando a partir de sua força a matéria estranha e bela de que sua escrita é feita.

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III

Enquanto leio uma vez e mais outra o poema de Age de Carvalho, tantos meses depois de tê-lo visto pela primeira vez, tenho diante dos olhos e ao alcance das mãos uma mulher em metamorfose, forma em lenta expansão que carrega, como um invólucro vivo, um outro corpo. Para ela, tudo é perturbação e encanto: seus órgãos se rearranjam, há muito mais sangue flutuando nas mesmas veias, uma consciência extrema da própria carnalidade parece determinar cada movimento, a respiração compassada e os passos mais estudados. As “estrelas subterrâneas” que carregava como perspectivas e promessas agora pesam crescentemente sob o pano dos vestidos, materializadas na existência frágil de uma criança. O mal estar da incerteza, antes pura espera e temporalidade vazia, cede passagem a sensações de outro tipo, orientadas pela presença do ser que, mesmo não nascido, já tem lugar no mundo dos vivos. Como no poema, a comunhão com o outro, experiência de alteridade que se dá no próprio corpo feminino é capaz de juntar o que está dentro e o que vive fora, as potencialidades da natureza e os acidentes do acaso: se havia no texto de Age de Carvalho o entusiasmo do mito e do divino diante do vir-a-ser da vida, a certeza de sua afirmação, nem sempre o tráfego dos afetos permitia a mim, ou aos que estavam ao meu redor, considerar a chance, o turbilhão das probabilidades, do mesmo jeito.

Também se pode observar num poema de Trans [2011], cujos dois primeiros versos já deixam clara a conexão com o que aqui está posto, “Ainda não vens, nonato/ – e virás” (CARVALHO, 2011. P. 26), a mesma assertividade diante do incriado (do nada), daquilo que, pelo modo como foi apresentado pelo autor, só poderia ser abstração científica ou peça de fé. “Nonato”, etimologicamente o que não nasceu, já aparece no texto como sujeito, existência despida apenas – por paradoxal que seja – de corpo. O neologismo recuperado pelo poeta, na verdade uma leitura atenta dos sentidos que se ocultam num prenome muito comum no interior do Brasil, aponta nessa direção. A gravidade desse poema (bem como daquele que a este ensaio interessa mais de perto) vai desaguar numa espécie de alegria instauradora, princípio-esperança que percorre, coerente, a obra de Age, seu interesse pela porosidade das relações entre o rés-do-chão cotidiano e a transcendência. Não há melancolia perante a ausência e a frustração do informe – o que fica mais evidente se se lê esses textos em contraste com, por exemplo, um poema como “Ser”, de Carlos Drummond de Andrade, publicado em Claro enigma, talvez o livro mais sombrio do poeta mineiro. O diálogo do pai com um fantasma, o toque amoroso em seu “ombro nenhum” (ANDRADE, 1979, p. 267), tudo ali, naquela pequena peça de 1951, caminha para a ironia e o lamento – o círculo fechado sobre si da morte e do irreparável. A chegada, o retorno, a vinda definitiva da vida são motivos que, na lírica de Age de Carvalho, constituem pequenos núcleos significantes quando se ligam à questão das origens e da procriação. Nesse poeta tão ligado também à morte e à dissolução mineral da matéria (daí a insistência e o valor da pedra em sua obra, especialmente nos seus livros iniciais), a afirmação da continuidade e o peso da transmissão – biológica, espiritual, ética – têm espaço especial, projetando-se em inúmeros outros poemas escritos sobre os filhos, os pais, a permanência da memória e a transmutação dos que se foram (amigos, parentes, escritores) em novas formas de vida e afeto, existências que seguem numa roseira, num conjunto ordenado de ideias, na poesia mesmo que continua a escrever.

Com o pensamento em sobressalto, o coração disparado pela leitura (que não quer cessar em mim) desse poema, ergo os olhos e começo a distinguir uma mancha tênue, leve, na pele da mulher que está a minha frente e também me observa. Começando na parte mais baixa do ventre, sobe devagar pela barriga, como um risco perpendicular, deve atingir em breve o meio do corpo, alcançar talvez o umbigo. Linha nigra, ouço a sua voz enunciar, enquanto me lembro de Oswald de Andrade: “A teu lado/ Terei o mapa-múndi” (ANDRADE, 1991, p. 64). – Cartas, territórios, totalidades já não me interessam agora. Diante de mim, oferto aos olhos e à imaginação, o que vejo é um meridiano, linha que divide a nossa vida em duas: antes e depois.

 

REFERÊNCIAS

ANDRADE, Carlos Drummond. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1979.
ANDRADE, Oswald. O santeiro do Mangue e outros poemas. São Paulo: Globo, 1991.
CARVALHO, Age. Caveira 41. São Paulo: CosacNaify, 2003.
CARVALHO, Age. “Segues a tua estrela”. Manuscrito inédito. 2017.
CARVALHO, Age. Trans. São Paulo: CosacNaify, 2011.

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