poesia, tradução

Peter Waterhouse (1956—), por Matheus Guménin Barreto

Peter Waterhouse (1956- ) é um poeta e tradutor austríaco. Publica prolificamente até o presente, e seu mais recente livro foi publicado apenas alguns meses atrás: Equus. Wie Kleist nicht heißt (2018). Waterhouse é constantemente considerado um dos mais significativos poetas da virada do século, e já recebeu quase todos os prêmios que um autor germanófono poderia receber, entre eles o Prêmio H. C. Artmann (2004), o Prêmio de Literatura da Cidade de Viena (2008), o Prêmio Ernst Jandl (2011) e o Grande Prêmio Nacional Austríaco (2012). Até onde me foi possível averiguar, nenhum poema de Waterhouse foi ainda publicado em língua portuguesa.

Os poemas abaixo foram publicadoa no livro passim (1986), que traduzo no momento.

Matheus Guménin Barreto (1992- ) é poeta e tradutor mato-grossense. Doutorando da Universidade de São Paulo (USP) na área de Língua e Literatura Alemãs – subárea tradução -, estudou também na Universidade de Heidelberg. Publicou traduções de Bertolt Brecht e Ingeborg Bachmann. Encontram-se poemas seus no Brasil e em Portugal (plaquete “Vozes, Versos”, Mallarmargens, Revista Germina, Enfermaria 6, Revista Escriva [PUC-RS], A Bacana e Diário de Cuiabá; entre outros), e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne.

É autor dos livros de poemas A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017) e Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018).

Na Escamandro publicou o ciclo de poemas homoeróticos “Um corpo incendiado: este” (inédito) e traduções de Ingeborg Bachmann.

***

O nome da língua

O nome da língua quer dizer: Ausência. Diz-se, por exemplo,
neste nome: Mesa. A Mesa é uma formação dura
ante nós. Nós somos uma formação dura
ante a Mesa. Nós nos transformamos e
nos nomeamos Quem-faz-mesas. Os Quem-faz-mesas (em relação a
                                           [nós)
dizem: Nós, Quem-faz-mesas. Ou: Nós, Quem-faz-cadeiras.
Nós quer dizer aqui: Não há nós, nós
é distante, nós qual nada. Há cadeiras. O que às vezes senta nela
se nomeia e me nomeia: Eu. (Na cadeira, o Quem-faz-mesas
escreve, de corpo presente, uma carta na Uma-dessas-formações-
                                          [para-escrever.)
Qual carta? Tudo escapa. Os contextos não são mais
nossos pretextos. Lá em frente estamos nós, no
nada absoluto, bom dia.

Agora: O material. Por vezes o material é um eu
por vezes o mesmo material é uma semente de maçã, uma farpa de
                                         [madeira
folha outonorubra. Um floco de neve momentâneo
cai quase roçando no momentâneo olho. É-se um
olho quase na rota de um floco que cai. De qual
floco?

O nome da língua quer dizer: Ausência. Hungria. Donau. Pisa.
Maria. Semente de maçã. Há mesmo muito à nossa disposição.
Tudo escapa. Criamos um antetexto. Criamos
um pretexto. Nosso louvor quer dizer: nós temos bons pretextos.
Quais?

Der Name der Sprache

Der Name der Sprache heißt: Abwesenheit. Man sagt zum Beispiel
in diesem Namen: Tisch. Der Tisch ist ein hartes Gebilde
vor uns. Wir sind ein hartes Gebilde
vor dem Tisch. Wir wandeln uns ab und
nennen uns Tischler. Die Tischler (in Zusammenhang mit uns)
sagen: Wir Tischler. Oder: Wir Gesesselten.
Wir will hier heißen: Wir gibt es nicht, wir
ist fern, wir als nichts. Es gibt Sessel. Was manchmal darin sitzt
nennt sich und nennt mich: Ich. (Der gesesselte Tischler

schreibt an Schreibsolchemgebilde anwesend einen Brief.)
Welchen? Alles flieht. Die Hintergründe sind nicht mehr
unsere Gründe. Ganz vorne stehen wir, im
unmittelbaren nichts, guten Tag.

Jetzt: Das Material. Einmal ist das Material ein ich
einmal ist dasselbe Material ein Apfelkern, Holzsplitter
herbstrotes Blatt. Eine augenblickliche Schneeflocke
fällt am augenblicklichen Auge kurz vorbei. Man steht
als Auge kurz an der Bahn einer fallenden Flocke. Welcher
Flocke?

Der Name der Sprache heißt: Abwesenheit. Ungarn. Donau. Pisa.
Maria. Apfelkern. Uns steht ziemlich vieles zur Verfügung.

Alles flieht. Wir bilden einen Vordergrund. Wir bilden
einen Grund. Unser Lob heißt: Wir haben gute Gründe.
Welche?

§

Sobre o que calamos?

É um Cair-Cá-Para-Fora (terrível Cair-Cá-Para-Fora
maravilhoso Cair-Cá-Para-Fora): no exemplo caem-se
as árvores: cá para baixo
cai o que nos agrada o paladar, e com a mesma boca o nomeamos
Abricote (terrível cair de Damasco
maravilhoso cair de Damasco): todos caem,
e o que é doce quer dizer, com a mesma boca,
Beijo. Beijo quer dizer: Aqui Se Cala. Sobre?
Aqui se cala sobre o Cair-Cá-Para-Fora.

Árvore = Prado.
Casa = Porão.
Deus = Chuva = Rã.
Metamorfose Vertical = Metamorfose Horizontal. Metamorfose quer dizer:
Aqui Se Cala. Sobre?
Porão sob a Casa cala sobre a Casa.

Tropeçamos no porão e lá calamos. Mas
pela escada subimos à casa e
em cima comemos a geleia de amarena achada embaixo. Mas significa aqui:
Depois do terrível tropeçar nós nos
metamorfoseamos e calamos maravilhosamente.
Sobre o que calamos?

Resumo do poema:

Alguém — ao decidir comer geleia de frutas — se enreda num jogo amoroso com amarenas. Outro – ao decidir comer geleia de frutas – se enreda num jogo amoroso com damascos. Damasco é como deus feito rã terrível ou como casa feita terrível porão. Mas é do terrível que a comida foi trazida para cá. Do terrível que se abatera é que nasce algo que é raro e volátil e silencioso.

Worüber schweigen wir?

Es ist ein Herausfallen (furchtbares Herausfallen
wunderbares Herausfallen): Im Beispiel lassen sich
die Bäume fallen: Unten heraus kommt
was uns schmeckt, und wir nennen es mit demselben Mund
Aprikose (furchtbarer Marillenfall
wunderbarer Marillenfall): Jeder fällt
und was süß schmeckt, heißt mit demselben Mund
Kuß. Kuß heißt: Hier wird geschwiegen. Worüber?
Hier wird geschwiegen über das Herausfallen.

Baum = Wiese.
Haus = Keller.
Gott = Regen = Frosch.
Senkrechte Verwandlung = Waagrechte Verwandlung. Verwandlung heißt:
Hier wird geschwiegen. Worüber?
Keller unter dem Haus schweigt über das Haus.

Wir stolpern in den Keller und schweigen dort. Aber
mit der Treppe kommen wir ins Haus und
essen oben das unten gefundenen Morellengelee. Aber meint hier:
Nach dem furchtbaren Stolpern machen wir
eine Verwandlung und schweigen wunderlich.
Worüber schweigen wir?

Zusammenfassung des Gedichts:

Jemand ist, indem er sich als Speise ein Obstgelee vornimmt, in ein Liebesspiel mit Morellen verwickelt. Ein anderer ist, indem er sich als Speise ein Obstgelee vornimmt, in ein Liebesspiel mit Marillen verwickelt: Marille ist wie Gott als furchtbarer Frosch oder wie Haus als furchtbarer Keller. Aber aus dem Furchtbaren ist die Speise geholt worden. Aus dem Furchtbaren, das gefallen ist, kommt etwas, das anders ist und unbeständig und schweigsam.

§

Retorno do êxtase

Qual árvore. Estamos muito quietos frente a frente. A árvore.
Aqui o mundo é assim. Céu, aves, relva.
Tantos dedos para as tuas cerejas. Tu me amas? Rápido.
Qual a nossa aparência de novo, nós formigas?
Me chamo Muro. Salta-o. É pequenininho qual camundongo.
Camundongo. Milharal. Salva-me de quem me ceifa.
Salva-me, o céu me empurra para dentro deste rio.
Pensar azul. Onde os pés
se não os tenho, eu água? Por que peixe?
Qual peixe sob o céu? Amas-me ainda?
O céu já foi aprazível? Já foi, já foi.
Salta-o. O que é uma árvore?
Uma árvore é uma patinha de camundongo do céu.
Junto a, sob, para. Qual bosque
muitos climas passam pra lá. Eu me chamo Clima
com riachos qual pé liquefeito. Os pés. Os pés
chegam a quem? Como somos rápidos.
O camundongo é uma árvore com velocidade.
Muitíssimo amada; e, qual o céu, foi; e depois as aves.
A ave que me entende. O clima
é uma árvore sobre o aprazível mundo. Falar ainda, aqui,
com a fala, não é nada fácil. Rápido se apaixona.
São muitos… Como sou esquecido. Já
como uma maçã. Eu a maçã sou comido.
Precisa-se tentar proximidade. Eu a aprendi.
Beijar é também um tipo de beijo. O que é que sabemos mesmo?
Nariz é uma palavra besta? Onde o céu esteve
ele foi. Agora falo muito só. Um nariz por pessoa.
Estamos muito quietos frente a frente. Peixe ao ataque.
Eu sou a árvore e o peixe. A arvorezinha.
O milharal rumo ao alto, ao clima: qual a minha aparência? Olho,
olha aqui.

Rückkehr der Ekstase

Als Baum. Wir sind voreinander sehr still. Der Baum.
Hier ist die Welt also. Himmel, Vögel, Gras.
So viele Finger für deine Kirschen. Liebst du mich? Schnell.
Wie sehen wir wiede aus, wir Ameisen?
Ich heiße Zaun. Spring drüber. Als Maus ist es herzlich klein.
Maus. Mais. Hilf mir vor dem, der mich mäht.
Hilfe, der Himmel drückt mich in diesen Bach hinein.
Blaues Denken. Wo sind die Füße
wenn ich als Wasser keine habe? Warum Fisch?
Als Fisch unter dem Himmel? Liebst du mich noch?
War der Himmel einmal herzlich? Ist gewesen, ist gewesen.
Spring drüber. Was ist ein Baum?
Ein Baum ist ein Mäusebein des Himmels.
An dem, unter, für. Als Wald
laufen viele Wetter vorüber. Ich heiße Wetter
mit den Bächen als flüssigem Fuß. Die Füße. Die Füße
kommen zu wem? Wie schnell wir sind.
Die Maus ist ein Baum mit der Geschwindigkeit.
Herzlich geliebt und gewesen als Himmel und also die Vögel.
Der Vogel, der mich versteht. Das Wetter
ist ein Baum über der herzlichen Welt. Hier noch zu sprechen
mit der Sprache ist nicht ganz leicht. Schnell verliebt.
Das sind viele . . . Wie vergeßlich ich bin. Schon
esse ich einen Apfel. Ich der Apfel werde gegessen.
Man muß oft du sagen. Du sagen habe ich gelernt.
Küssen ist auch eine Art zu küssen. Was wissen wir nämlich?
Ist Nase ein dummes Wort? Wo der Himmel war
ist er gewesen. Jetzt spreche ich sehr alleine. Eine Nase pro Person.
Wir sind voreinander sehr still. Fisch im Ansturm.
Ich bin der Baum und der Fisch. Das Bäumchen.
Der Mais in die Höhe zum Wetter: wie sehe ich aus? Auge
schau her.

 

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Um comentário sobre “Peter Waterhouse (1956—), por Matheus Guménin Barreto

  1. jane barbosa disse:

    Meu Deus! Espero que logo, logo, esse poeta seja traduzido para o português e publicado ontem! Belíssimo!

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